Terra Magazine

25.11.09

mobilidade: dez tendências para 2012 [3]

srlm às 07:57

o segundo texto desta série tratou da previsão do gartner group de que localização em mobilidade vai ser o segundo mais importante entre os serviços móveis em 2012. o primeiro, de que tratamos no primeiro post da série, é celular-como-dinheiro, a transferência generalizada de valores entre quaisquer celulares e não só de pessoas físicas [nós] para jurídicas [lojas, etc.].

segundo a galera do gartner, a terceira oportunidade de negócios móveis lá [ali] por 2012 vai ser…

3: Mobile Search
The ultimate purpose of mobile search is to drive sales and marketing opportunities on the mobile phone. To achieve this, the industry first needs to improve the user experience of mobile search so that people will come back again. Mobile search is ranked No. 3 because of its high impact on technology innovation and industry revenue. Consumers will stay loyal to some search services, but instead of sticking to one or two search providers on the Internet, Gartner expects loyalty on the mobile phone to be shared between a few search providers that have unique technologies for mobile search.

…busca móvel. a razão é simples: pense em todos os celulares [ou um grande número deles] na internet, no meio da rua e do tempo. celulares na web vão ter o mesmo efeito, em relação a PCs na rede, que voz móvel teve em relação to telefone físico, em casa ou no trabalho. as teles que o digam. ninguém quer falar com o telefone de alguém, mas com o tal alguém, razão pela qual quase ninguém mais liga para o telefone da casa das pessoas, mas sim, diretamente, pra pessoa. e as linhas físicas vão se tornando, no processo, relíquias da era de graham bell. até porque parece claro que toda a voz que circulará entre pontos fixos, na rede, vai rolar sobre o protocolo IP. isso, por acaso, já é verdade dentro das teles; ocorre que elas nos vendem voz, aqui fora, como se tempo –e não pacote- fosse.

agora se imagine na web, com banda acima do razoável [alguns megabit por segundo] e uma conta que não vá levar seu saldo para o vermelho só porque você usa a rede intensamente enquanto está se movendo. vai demorar um pouco, mas é questão de tempo. pouco. segundo o gartner, em 2012 já vai ser o suficiente para busca móvel ser muito importante como impacto nas tecnologias usadas para busca [como um todo] e nas receitas da indústria e, muito provavelmente, a ponto dos hábitos de busca móvel contaminarem o uso dos sistemas fixos de busca. na prática, como passamos muito mais tempo usando celulares do que laptops ou desktops, os primeiros vão acabar definindo meus modos de uso da web muito mais do que os segundos.

não dá pra precisar daqui a quanto tempo isso vai acontecer, mas que vai, é certo. 2012 pode ser cedo em mercados como o brasil, mas europa, ásia [coréia, japão…] podem estar no ponto ou já com serviços consolidados. o modelo padrão de navegação a partir de busca atende pelo nome de SFO, que vem a ser o código do aeroporto de san francisco e também a sigla para Search-Find-Obtain, ou procurar-encontrar-obter. no modo móvel, teríamos mSFO, onde o problema e as soluções ficam bem mais interessantes e, certas horas, complexas. tudo depende do que o “S” e as outras letras [e os sistemas que as realizam, na nuvem…] sabem sobre você.

se você estiver num grande aeroporto que acaba de fechar por causa da chuva [meu caso em CGH, ainda agora] e perguntar por “café”, um modo mSFO bem feito não só diria onde estão os cafés do aeroporto [tudo bem que em congonhas não é difícil achar] mas, dependendo do “S” a quem você perguntou, poderia ser o caso de haver vouchers de desconto pra você [e sua rede social…] se encontrarem num certo café. e este, claro, é só um exemplo, baseado no uso pessoal de serviços móveis.

seu carro e o “GPS” -na verdade, a inteligência embarcada no veículo- podem fazer coisas do outro mundo usando o mesmo modelo, como achar, automaticamente [dependendo da escassez de combustível no tanque…] dentre todos os postos de gasolina que estão perto da rota entre pontos A e B pela qual você trafega agora, aqueles onde vai ser mais barato abastecer ou onde, em função de conhecimento sobre suas preferências, você será melhor atendido. e dirigir você pra lá, precedendo a ação com o anúncio de que você vai ficar no seco, na rua, se não for direto para o posto P que se anuncia na tela.

mSFO vai ser muito importante para a internet das pessoas. e pode vir a ser, em prazo não muito longo,ainda mais importante para a internet das coisas, que está vindo por aí. é esperar pra ver.

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23.11.09

mobilidade: dez tendências para 2012 [2]

srlm às 00:49

enquanto o primeiro post desta série deu conta de um negócio móvel que difícil ver em escala aqui no brasil, o de celulares como dinheiro, de forma generalizada, tratamos hoje da segunda previsão do gartner, que já começa a ser encontrada por aqui. segundo a galera que trata de futuros, por lá, depois de dinheiro, localização vai ser a maior oportunidade de negócios de 2012:

2: Location-Based Services
Location-based services (LBS) form part of context-aware services, a service that Gartner expects will be one of the most disruptive in the next few years. Gartner predicts that the LBS user base will grow globally from 96 million in 2009 to more than 526 million in 2012. LBS is ranked No. 2 in Gartner’s top 10 because of its perceived high user value and its influence on user loyalty. Its high user value is the result of its ability to meet a range of needs, ranging from productivity and goal fulfillment to social networking and entertainment.

o gartner está prevendo que os serviços baseados em localização devem explodir; a base de usuários deve crescer de 96 milhões de usuários, este ano, para mais de meio bilhão até 2012. se rolar mesmo, LBS [location-based services, ou serviços baseados em localização] vai ser a “nova” câmera dos celulares.

lá atrás, houve quem achasse que celulares e câmeras não iam dar certo juntos mas, pouco tempo depois do encontro dos dois, estava claro que ia ser um sucesso, e não só, não ia haver celular sem câmera. era um caso típico de feitos um para o outro.

LBS vai na mesma direção, e por razões que variam de aumento de produtividade a redes sociais e entretenimento. pouca gente tem algum tiupo de LBS nos celulares, mas quem tem sabe o que é estar num táxi, num lugar desconhecido, e “ensinar” ao motorista, com o mapa do celular, como ir pra onde se quer chegar. não precisa nem ter GPS; para muitas coisas basta google maps e a localização imprecisa pelas torres celulares.  eu mesmo já me livrei de umas poucas exatamente assim.

mas LBS vai mudar também o modo de se buscar, encontrar e obter coisas, de pizza a postos de gasolina. isso porque o relacionamento com os sistemas de informação da web pode ganhar [se você deixar eles usarem sua posição…] uma precisão que nunca se pensou: de máquinas de busca ao sistema de gestão de trânsito, todo mundo vai querer saber exatamente onde você está. e aí é que o bicho pode pegar mesmo.

isso porque há um claro conflito entre querer um melhor serviço em função de onde se está e entregar sua localização ao primeiro sistema que lhe pergunta onde você está. sistema que pode, por sua vez, passar sua localização para um próximo, e deste para outro, outro… e você terminar soterrado por todo tipo de spam, muito bem localizado, oriundo do restaurante da esquina, da loja em promoção e de todo mundo que enxergar uma possibilidade obter um pedaço de sua carteira porque você está logo ali, pertinho.

deixando de lado –por enquanto- as preocupações com privacidade [mas sabendo que elas são primordias e que estarão sob ataque…] é bom dizer que em 2012 [previsões da IBM] deve haver cerca de um trilhão de dispositivos na web. um trilhão, você sabe, é mil vezes um bilhão. e o número de celulares é algo perto de três bilhões, um para cada dois habitantes do planeta. isso quer dizer que a vasta maioria das coisas na rede –e na rede móvel- não estará nas mãos de humanos e nem serão, todas, computadores ou celulares. isso quer dizer que estamos começando a entrar na era da internet das coisas, muitas das quais queremos saber exatamente onde estão, como o carro, uma encomenda, um animal de estimação [que não é uma coisa, mas que terá uma coisa, um identificador com LBS no seu pescoço…], animais de criação, aviões, trens, bicicletas, motos… e por aí vai.

LBS está só começando mesmo. pode ser que o gartner esteja errado sobre 2012, que em três anos não tenhamos meio bilhão de pessoas na base usuária de LBS. mas será uma questão de tempo, pouco tempo, para que haja bilhões, dezenas de bilhões de coisas, entre tudo o que se move por aí, na base de LBS. vai ser uma oportunidade de negócios, literalmente, gigantesca. pode apostar.

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21.11.09

mobilidade: dez tendências para 2012 [1]

srlm às 01:46

o grupo gartner, casa que tem tradição em previsões para o futuro do planeta digital, publicou uma lista das coisas mais interessantes do mundo móvel em 2012. como o ano que vem já está aí mesmo, quase passado, jingoubéus a tocar em todo shopping, previsões para 2012 são até mais fáceis de discutir.

nos próximos dez dias, dia a dia, vamos falar sobre cada um dos exercícios de futurologia do gartner, acrescentando a visão deste blog.

pra começar, olhe o que o garter acha sobre… transferência de dinheiro:

1: Money Transfer
This service allows people to send money to others using Short Message Service (SMS). Its lower costs, faster speed and convenience compared with traditional transfer services have strong appeal to users in developing markets, and most services signed up several million users within their first year. However, challenges do exist in both regulatory and operational risks. Because of the fast growth of mobile money transfer, regulators in many markets are piling in to investigate the impact on consumer costs, security, fraud and money laundering. On the operational side, market conditions vary, as do the local resources of service providers, so providers need different market strategies when entering a new territory.

Phone showing M-Pesa money transfero número um da lista é a transferência de dinheiro usando SMS, descrita acima; não se trata da mesma coisa que o oi paggo e o redecard payPass, que usam SMS como meio de pagamento entre um cliente e lojista credenciado, apenas. mas de uma forma generalizada de moeda eletrônica, que pode ser negociada entre quaisquer dois atores. como é o caso do sistema m-PESA que funciona, por exemplo,no quênia e na tanzânia, onde apenas 5% da população tem uma conta bancária.

na áfrica, o sistema [bancário] de transações eletrônicas está na idade da pedra quando comparado ao brasil; é possível fazer transferências bancárias sim, mas apenas entre uma parcela ínfima da população, e a custos que tornam a coisa inviável para quase todo mundo. solução? deposite dinheiro na sua conta celular e use-o como se moeda fosse; e é. zebra [quase] zero.

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dos quinze milhões de celulares do quênia, metade está registrada no sistema m-PESA, o que resulta em 250.000 transações por dia, de R$70 cada, na média. no quênia e em outros países africanos, os serviços financeiros móveis estão avançando rapidamente e os ladrões e golpistas de todos os tipos estão, também, fazendo a festa. o que leva os operadores de cartões de crédito a pensar em novos serviços, com custos de transação muito menores, para chegar a tais populações.

pra gente saber o tamanho das operações, o quênia tinha 15.000 celulares há dez anos; hoje, tem 17.5 milhões. o serviço m-PESA, da safariCOM, cresceu 94% de 2008 para 2009 e já representa 18% de toda a receita da companhia.

no brasil, temos mais de dez mil lotéricas em cerca de 3500 das 5500]cidades, 15 mil agências bancárias [eram quase 20 mil em 1990], algo ao redor de 200 mil caixas eletrônicos [somando todos os bancos] e os custos de transação para movimentação financeira, comparados à áfrica, são pequenos. dito isto [o que não é pouco…], temos 45 milhões de desbancarizados, pessoas que não têm nenhum negócio, produto ou contato com um banco.

em tese, portanto, o gartner está certo e há um mercado de vários “quênias” pra se atender aqui, inclusive. a pergunta, óbvia, é: cadê os serviços [como m-PESA] que deveriam estar aqui mas não estão?…

o leitor pode escolher suas respostas prediletas. o blog deixa como sugestão pesquisar nos departamentos de… excesso de regulamentação e custo brasil, impedimentos quase que permanentes para que se faça qualquer coisa de novo por aqui… e, do outro lado, tentar entender se nossas operadoras móveis realmente imagesofrem de falta de criatividade e estratégia, inovação e investimento, sentadas que estão nos berços esplêndidos de seus quase monopólios.

e ainda resta perguntar se o regulador do setor, a anatel, não está muito distante dos problemas reais do mercado e seus usuários [neste caso, dos não usuários] e já não deveria ter proposto, há tempos, serviços como os que qualquer queniano pode ter há anos.

quase que certamente, estamos tratando da combinação dos três fatores. e ainda temos que lamentar que não é só nas corridas de longa distância que os quenianos nos deixam lá atrás, na poeira…

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18.11.09

todo conteúdo será serviço

a figura abaixo é o mapa parcial da cobertura do kindle, da amazon, para entrega global de livros eletrônicos sem custo adicional de transporte de bits. parte do brasil profundo, onde nunca houve ou haverá uma livraria, está no mapa da amazon. breve, por lá, kindles, ou coisa parecida. e livros entregues quase na hora. no caso da amazon, o problema pra maior parte dos brasileiros é que o conteúdo todo, ainda, é em inglês.

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mas isso vai ser remediado com o tempo. a mudança que vamos a viver, agora, é a transformação do que chamamos de livro, e que sempre foi identificado como uma embalagem física para conteúdo textual, de produto em serviço. e começando pela descoberta de que o “leitor eletrônico” do livro, algo como o kindle, também não é produto, é serviço.

aqui, mais uma vez, vamos ver os incumbentes [a indústria do livro “físico”, de papel] serem reescritos por inovadores sem compromisso com o passado, enquando editores e impressores ficarão tentando, por todos os meios, se proteger. é sempre difícil saltar para o futuro; o risco é alto, o medo é muito, especialmente quando se tem a impressão de que o presente pode ser estendido para sempre.

image mas há gente dando saltos, e aqui no brasil, o que é uma boa nova: a mix tecnologia, de recife, em parceria com a carpe diem produções, anunciou há algum tempo o leitor-d, que aparece na imagem ao lado e que você pode ver em detalhe neste link.

falando em brasil, o perigo por aqui é a transição do livro analógico para o digital ir pro congresso e terminar em discussões sobre reserva de mercado e sesmarias culturais, como sempre ocorre em tantas outras áreas.

mesmo quando a tecnologia for socializada, o risco é ser criada algum tipo de obrigação de compra de livros em papel. e talvez de bicos-de-pena, além de um grande estoque de pergaminho para aulas de caligrafia nas escolas públicas. como esta conversa é sobre conteúdo, espera-se que o pessoal do PL29 [veja discussão sobre o assunto, neste blog, neste link] não descubra, nem tão cedo, o que está rolando nesta dimensão…

mas o futuro nunca se engana. e, do jeito que as coisas andam, demora menos a chegar do que era o caso no passado. pra ajudar, temos que ter mais banda larga, larga mesmo, e mais em conta para o bolso de todos. é muito provável que o programa cultural e educacional mais importante para a periferia, para países como o brasil, seja banda verdadeiramente larga. pra todos.

abaixo, mais uma imagem do começo do fim do suporte físico. trata-se da comparação, nos EUA, entre a netflix [DVD em casa, pelo correio, reservado na web, com um sistema de informação e modelo de negócios inovador, onde ao invés do tempo de retorno se define quantos vídeos se pode ter ao mesmo tempo…] e a blockbuster [dirija até a loja e não ache seu vídeo, demore a retornar e pague multa…].

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enquanto a netflix, que está começando a entregar vídeos pela web pra quem tem banda mesmo [e os EUA são ruins nisso: só 1/12 avos da banda média do japão, por exemplo], saiu de menos de um milhão [em 2002] para quase doze milhões de assinantes este ano, a blockbuster fechou 1200 lojas. a primeira continua crescendo a taxas de 30% a.a. e a segunda, fechando lojas a taxas de 5% a.a..

entregar vídeos pelo correio [mais de dois milhões deles por dia] é virtualização de primeira ordem das lojas e estoques reais, na rua, esperando pelo usuário. a netflix de hoje ainda é majoritariamente um negócio de logística física, transacionando suportes para mídia em grande escala. o negócio atual é um passo intermediário para a logística virtual do conteúdo, just in time: escolho, faz parte da minha assinatura, vejo na hora ou quase. inclusive no celular.

vídeo locadora, muito breve, só na história. e dvds pelo correio também,  resultado? melhor serviço, menores custos de transação, menor pegada ambiental. a comunidade [e não a audiência] e o planeta agradecem. como efeito colateral, depois que virarem serviço, adeus pirataria. pelo menos na forma que conhecemos hoje. vem aí, quem sabe, pirataria-como-serviço…

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16.11.09

nada [mais] deixado ao acaso, nem namoro?…

srlm às 00:52

uma tese de quase meio século atrás, proposta por konrad zuse [rechnender raum, 1967] e secundada por muita gente boa, inclusive  stephen wolfram [veja entrada na wikipedia para a new kind of science], diz que tudo são computações e que, por conseguinte, tudo é programável.

onde você leu tudo, leia tudo mesmo: animais, plantas, coisas, o universo inteiro. ouça seth lloyd, do mit:

It is absolutely obvious that the universe is performing a computation. Every physical system registers information, and just by evolving in time, by doing its thing, it changes that information, transforms that information, or, if you like, processes that information. Since I’ve been building quantum computers I’ve come around to thinking about the world in terms of how it processes information.

…é óbvio que o universo está realizando uma computação. todo sistema físico registra informação e, evoluindo no tempo, fazendo seja lá o que for, muda aquela informação, a transforma ou, se você quiser, processa a informação. desde que comecei a construir computadores quânticos que comecei a pensar sobre o mundo em termos de como ele processa informação.

computacionalidade, a tese, está longe de ser universalmente aceita, especialmente por quem defende um grande número de resultados da física [por exemplo] que depende de continuidade do espaço-tempo, ao invés do caráter discreto da computacionalidade.

mas deixe isso prá lá [pelo menos por enquanto] e olhe esta notícia aqui, que dá conta de um site de encontros onde você pode escolher parceiros também pelo DNA, baseado na idéia de que as pessoas sentem atração por quem tem os genes HLA diferentes dos seus. HLA é parte do complexo imunológico e pode estar relacionado aos odores pessoais envolvidos da seleção ou rejeição de pares entre humanos e animais, já que HLA é a versão humana de um sistema que ocorre em todos os vertebrados.

então, em tese, você entra num site, se registra, passa por um teste de saliva e pronto, dentre um grande número de alternativas aparece sua alma gêmea? não, os proponentes do teste que compara uma parte de seu programa [computacionalidade implica em você e eu somos programas, HLA é um trecho dele…] com a de outros dizem que isso é parte do processo; valores e preferências pessoas também são levados em conta.

será que funciona? se funcionar, será que entregar a sorte conjugal a um exame de partes de nosso programa não nos torna mais parecidos com milho transgênico? e que implicações isso terá, ou teria, se fosse usado em escala, na vida das pessoas e na sociedade como um todo? será que processos de seleção artificial como os baseados em redes sociais de relacionamento são mais ou menos naturais do que aqueles que nos levam a relacionamentos ao vivo? será, num mundo que está cada vez mais conectado por redes sociais virtuais, isso vai fazer alguma diferença? se sim, quanta? para melhor ou para pior? e o que é, ou seria, neste caso, melhor ou pior?…

falando nisso, a programação de coisas vivas avança a largos passos no brasil: 19% do milho brasileiro veio de sementes reprogramadas [ou transgênicas] em 2008; em 2009, a safra de verão será 30% transgênica e a de inverno terá 53% de procedência reprogramada. e a safra de soja já é mais de 70% transgênica.

levando em conta a computacionalidade como base para tudo e voltando ao seu próximo namoro, não só é possível analisar seu DNA para descobrir um HLA compatível com o seu, mas dá pra reprogramar [partes do] seu DNA pra fazer você, por exemplo, brilhar no escuro ou ficar verde na luz azul. vai ver, isso tem algum apelo sexual. os “serás” do parágrafo lá atrás vão ficar cada vez mais interessantes, disputados e discutidos nos próximos anos, quando a tese computacionalidade poderá vir a ser testada e usada em larga escala, na prática, senão no processo de reprogramação do que já existe [como nós, que já estamos aqui], mas na construção dos vivos que ainda estão por vir.

mas o acaso lá do título não vai desaparecer. é impossível garantir a corretude de “todos” os programas. e a própria noção de corretude, no caso de programação de coisas vivas, que necessariamente evoluem dentro de um contexto diverso e mutante, não se aplica no mundo real da mesma forma em que se pode aplicar aos programas de computador “normais”.

de qualquer maneira, pra quem achava que já viu tudo em matéria de computação e programação, pode esquecer: o melhor e muito mais interessante ainda está por vir. e este negócio de testar e comparar trechos de DNA é coisa de criança, comparando com o que vai ser possível fazer dentro de 20, 50 anos. e com uma comunidade de biological hacking no processo, como não poderia deixar de ser.

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o leitor pode até estar pensando que isso pode levar muito tempo pra acontecer. mas não, já existe uma competição internacional de “máquinas” construídas através de engenharia genética; este ano, 110 times do mundo inteiro estavam atrás do primeiro prêmio, inclusive um brasileiro, da unicamp. os ingleses de cambridge foram os campeões, com dois projetos, um dos quais domina a arte de expressar uma gama de cores na bacteria e. coli, como mostra a figura abaixo [veja a cor normal da coisa neste link].

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é só esperar mais um pouco e qualquer um vai poder programar a cor dos olhos, por exemplo. nem que seja de seus descendentes, pra começar. o resto, com todos os riscos, a gente tenta depois. incluindo reprogramação pra namorar. mas nem pense que o acaso nos abandonará, pois uma coisa é certa: sua [re]programação vai ter “bugs”…

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15.11.09

twitter: uma mesa de bar, 140 caracteres por vez

srlm às 00:01

a edição de hsm management que está nas bancas trata de redes sociais e tem um box daqui do blog sobre as redes sociais virtuais e seu impacto nas corporações. adriana salles gomes está por trás de uma boa parte da conversa e, a seu pedido, mandamos o texto abaixo. que rola aqui, também, como parte do nosso domingo:

O que os textos sobre redes sociais desta edição da HSM Management nos dizem é que empresas são abstrações usadas, comercialmente, para representar a ação coletiva de sua cadeia de valor e, cada vez mais, de seus colaboradores. E isso tem consequências muito profundas. Vamos pegar um exemplo de rede social, o que ele tem a ver com sua empresa e um caso brasileiro, recente. Twitter parece uma grande mesa de bar, 140 caracteres por vez. Com dois problemas, do ponto de vista da empresa de quem está “na mesa”: primeiro, a mesa pode ser muito grande, centenas de milhares de pessoas ao redor de uma conversa. Segundo, ao contrário do bar, onde ninguém escreve o que os outros dizem, tudo fica escrito e pode ser replicado ad infinitum. Com as devidas consequências, criadas pela mediação tecnológica da “mesa de bar” online, na web 3.0.

Recentemente, algumas empresas brasileiras de mídia determinaram que seus colaboradores devem cumprir seus contratos ao pé da letra, significando que todo seu “conteúdo” estaria a serviço do negócio. Mas… e a mesa do bar? Muitas delas, como o twitter, mediadas por tecnologia e transformadas em redes sociais, são conteúdo, podem (mas ainda não são) ser negócio e servem como mecanismo de relacionamento que transcende, em muito, as fronteiras de todas, e não só de algumas, empresas de pedra e cal.

E o que as empresas deveriam fazer? Este é um eterno dilema, que assombra executivos todas as vezes que a base tecnológica de seus negócios é renovada muito profunda e rapidamente. Como é, aliás, o caso das redes sociais. E a resposta é darwinianamente simples: as empresas devem se adaptar, o mais rápido possível, aos novos tempos. Numa economia em rede, numa sociedade do conhecimento, onde tudo são processos, tentar prender o tempo e os relacionamentos nas amarras do segredo como alma do negócio, que foi um fundamento da revolução industrial há mais de dois séculos… é perda de energia. Total.

Porque as pessoas sempre foram suas redes. Nós vivemos em contextos comunitários bem mais amplos do que nossas empresas, com muita gente pegando no “trampo” para, numa outra hora e cenário, fazer o que realmente gosta e para o que vive. Redes sociais (virtuais, habilitadas pela web) podem ser justamente a infraestrutura dos nossos tempos para fundir estes ambientes, hoje quase sempre sem conexão, de tal maneira que o que se faz “porque tem que ser feito” comece a ficar inseparável do que se faz “porque se quer fazer”.

Imagine as consequências, para seu negócio, de só ter gente fazendo o que quer fazer… Se não me engano, boa parte dos problemas da maioria dos negócios vem da falta de sincronia entre o que se tem que e o que se quer fazer, o que leva, quase sempre, a coisas mal feitas. Redes sociais, até porque são mecanismos poderosos de construção de imaginário coletivo, e portanto comum, podem ser um instrumento fundamental para a criação e manutenção das empresas na sociedade em rede. Sua competição, agorinha mesmo, está pensando nisso.

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13.11.09

jornalismo: diploma articula volta triunfal

srlm às 12:19

está em curso uma tentativa acelerada de restaurar o diploma para o exercício da profissão de jornalismo. a via escolhida é o senado, onde transita, na comissão de constituição e justiça, uma proposta de emenda constitucional [PEC 33-2009] que, se aprovada, vai inserir direto na carta magna a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista.

a PEC do jornalismo vem cercada de pouco surpreendente apoio da casa, pois bateu o centro subscrita por 50 senadores, quando apenas 27 seriam necessários para dar andamento a uma proposição do tipo. apoiada por tanta gente, a 33-2009 progride célere e já está a ponto de ser votada pela CCJC, a comissão de constituição, justiça e cidadania, onde estão paradas outras emendas constitucionais submetidas há uma década inteira.

este autor discorreu extensamente sobre o tema em junho passado, quando defendemos a tese da desregulamentação de todas as profissões-meio, entre as quais se encontra jornalismo. ao contrário, por exemplo, de neurocirurgia, atividade que está associada a uma profissão-fim. os textos deste blog sobre o assunto estão neste link e uma versão comentada, em .pdf, está aqui.

no senado, no entanto, as considerações são mais, digamos, utilitárias, não passam por teorias de profissão ou análises comparadas da profissão em países diferentes e, face à exigibilidade ou não do diploma, a qualidade do jornalismo praticado aqui e algures. tampouco se discute a oportunidade e necessidade de criar, ou não, reservas de mercado para exercício profissional por portadores de diplomas específicos. é tudo muito mais básico. sem qualquer consideração preliminar, o relatório do senador cearense inácio arruda dispara: …nada impede que os meios de comunicação tenham outros partícipes e colaboradores, mas jornalista é profissão de quem tem diploma. ponto final.

tangida por interesses pessoais, corporativos, sindicais e de fábricas de diplomas, entre outros, e à revelia de uma discussão maior do que é melhor ou pior para o país, a PEC vai galgando os degraus da escada da aprovação no congresso, revertendo um dos poucos sopros recentes de modernidade. mesmo por razões dúbias, a desregulamentação da profissão de jornalismo abriu uma discussão sobre a desregulamentação de outras tantas e a suspensão dos processos de regulamentação de ainda muitas outras, ora em curso no congresso nacional.

se o senado tivesse algo mais a fazer a não ser se debater em suas próprias mazelas e tentar legislar sobre causas confusas e de escasso interesse e valor para a sociedade [como a regulamentação da profissão de analista de sistemas “e suas correlatas”, proposta do senador azeredo], bem que poderia ter lançado um grande debate, estudo e revisão das profissões no país, botando no pacote a legislação trabalhista e sua institucionalidade, para ver se trazia nossa sociedade e economia do século XVIII para, pelo menos, o XX.

mas não. tudo o que faz é produzir preciosidades inexplicadas como a do relatório do senador arruda: jornalista é profissão de quem tem diploma. e afinal de contas, pra que discutir o futuro das profissões e sua legislação, na era do conhecimento, se é possível -e fácil- manter o passado vivo, no presente, com a sociedade pagando a conta das ineficiências das reservas de mercado e cartórios?…

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