Terra Magazine

29.11.08

sua [gigantesca] rede pessoal

se você está lendo este blog, é quase certo que existe pelo menos um sistema de informação em sua rede pessoal, como um laptop ou PC. você pode estar lendo de um celular, também, embora ainda seja menos freqüente [e o design da página ainda não esteja preparado para browsers em dispositivos móveis]. a definição de rede pessoal, neste caso, é o conjunto de dispositivos informacionais a nosso dispor, que passam a maior parte do tempo conosco, ligados em rede. seu relógio digital só faz parte dela se "conversar" com outras coisas ao redor. seu celular, laptop, GPS, GoGear, câmera digital… já são parte do seu PAN, ou Personal Area Network [veja figura abaixo].

personal-networks.jpg

um projeto de pesquisa europeu que acaba de se encerrar [MAGNET, My personal Adaptive Global NET and Beyond] chuta que, em 2017, redes pessoais "espertas" [PNs, ou smart personal networks] estarão tratando cerca de 1.000 dispositivos por pessoa, em média, a partir de uma previsão de que, para um população de sete bilhões de seres humanos, o planeta terá perto de sete trilhões de dispositivos pessoais conectados à rede. um monte. tais redes servirão pessoas ou pequenos grupos de pessoas ou uma casa ou apartamento e talvez carros, motos, aviões. imagine-se cercado por milhares de sistemas computacionais interligados, a seu dispor e, possivelmente, tentando fazer com que você faça coisas que "eles" querem… porque acham "bom" pra você.

qual é o cenário? simples: In the future, there will be hundreds, even as many as a thousand devices in a PN. It may seem an impossible figure, but in the near future the number of personal devices will multiply enormously. One person might have dozens of sensors, monitoring vital signs like heart rate and temperature, and even the electrolytes present in perspiration. And then there are sensors and actuators in the home, including light switches, and more again in cars. People will be able to link with TVs, stoves and spectacles, which could double as a personal TV screen, and even clothing. They will have a home gateway, to manage all their home devices, and a car gateway while driving.

freeband-pn.gifem suma, uma pessoa poderá ter [nela!] dezenas de sensores, monitorando sinais vitais, desde temperatura e pressão e batimento cardíaco até metabolismo e os eletrólitos presentes no suor… que poderão se combinar com os sensores e atuadores da casa, carro, roupa, capazes de conjugar dados e ações que conectem mais suor com diminuição automática da temperatura desejada do ar condicionado, ou abertura das fibras da roupa para permitir maior fluxo de ar perto da pele. tvs, micro-ondas, óculos, portas, fogões e os pneus do seu carro [e quase todas as outras partes dele] serão parte de tais redes. em casa, a rede que anda comigo [minha rede, "parte" do meu corpo] se entende com a rede da casa através de um gateway, que faz o mesmo papel pra que "eu" [ou "minha" rede] me entenda com o carro, ônibus, avião, metrô e hotel. isso sem falar nas conexões óbvias com mp3, câmeras, celulares e outras coisas informacionais que já carregamos.

e fique tranqüilo, desde já: pelos planos do pessoal do MAGNET, tais redes serão pessoais, individuais e seguras e você não fará nada que não queira. a menos, é claro, que a "sua" rede -ou, em bom português, você- seja invadida por um outro alguém. o que, eventualmente, vai acontecer com os menos precavidos. mas isso é outra história.

talvez as redes pessoais não aconteçam na escala e tempo prevista pelo MAGNET. mas elas são um conseqüência lógica do desenvolvimento de sistemas computacionais cada vez mais capazes, menores, muito mais baratos, conectados e ubíqüos, ou seja, que estão em todo lugar. e que têm e terão muito mais utilidade conectados uns aos outros e às redes ao nosso redor. imagine buscar o filme no celular [simplesmente dizendo o nome, talvez], receber as alternativas, fazer escolhas, pagando de forma transparente… e, sem nenhuma ação direta sua, mapeando o caminho no GPS, incluindo a hora de sair de casa pra não perder o começo do filme e, ao mesmo tempo, reservando a vaga de garagem no shopping… na qual nenhum outro carro, mesmo que o motorista queira, vai poder estacionar, pois a vaga é da PN que está identificada com seu carro.

e isso não é nada do outro mundo, está por aí espalhado em pedaços variados, ainda elementares e desconectados. vez por outra, algum aluno ou recém-formado me explica uma certa parte da coisa toda, que ele está montando e na qual aposta sua carreira, certo dos milhões em ouro no pote ao fim do arco-íris. sempre lamento dizer, e raramente sou entendido, que um cenário como o descrito acima é o de uma plataforma de compatibilidade, aquele tipo de coisa que automóveis precisaram para servir ao seu papel sócio-econômico de forma ampla. carro, sozinho, não vale e não serve para nada. tem que vir com estradas, postos de combustível, borracheiro, sinais de trânsito, oficinas, peças de reposição, legislação específica, guardas, multas e o que mais…

partes desta história de personal networks vão ficar aparecendo aqui e ali sem que nada aconteça de mais profundo até que uma -ou um conjunto de- empresa[s], talvez como parte da mudança para a quarta geração de conectividade móvel, apareça com os elementos essenciais da plataforma de compatibilidade [inclusive os modelos ne negócio] em cima da qual todos vão poder se conectar para prover, ao mesmo tempo, sistemas de transação, participação, colaboração e inovação. pena que, apesar de muita gente no setor acadêmico e nos pequenos negócios, no brasil, saber e saber fazer muito do que está dito aqui, isso não vai começar pelo brasil nem acontecer aqui nem tão cedo. por quê?…

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27.11.08

o interurbano… urbano?

Tags:, , , , , , , - srlm às 01:53

uma disputa que não parece ter similar entre as melhores decisões dos tribunais brasileiros foi resolvida esta semana. trata-se de um contencioso entre consumidores e a BrT, que se arrastava há mais de cinco anos, quando, em 2002, a então CRT foi proibida de cobrar tarifas interurbanas para ligações realizadas entre distritos das cidades gaúchas de caxias do sul e farroupilha. pela decisão da época, farroupilha foi considerada como uma urbe e, dentro dela, mesmo entre distritos, decidiu-se que os telefonemas eram todos locais. óbvio ululante, diria qualquer observador.

nada disso: de acordo com decisão do STJ, de 25 de novembro pp., a BrT pode -e vai- cobrar interurbanos dentro da mesma cidade, isso porque o município de farroupilha perdeu a ação que movia contra a anatel e a BrT, onde queria ser considerado, pelas regras da legislação vigente… um só lugar, uma área local de telefonia. mas não. segundo o ministro relator da matéria“a delimitação da ‘área local’ para fins de configuração do serviço local de telefonia e cobrança da tarifa respectiva, leva em conta critérios não necessariamente vinculados à divisão político-geográfica do município, critérios esses que, previamente estipulados, têm o efeito de propiciar aos eventuais interessados na prestação do serviço a análise da relação custo-benefício que irá determinar as bases do contrato de concessão”. o voto da relatoria foi aprovado por unanimidade.

250px-riograndedosul_municip_farroupilhasvg.pngfarroupilha tem pouco mais de 60 mil habitantes e, no mapa do rio grande do sul ao lado [vindo da wikipedia; clique no mapa para expandi-lo], é o pequeno ponto vermelho. a área em questão é de 359km2, o que nos faz imaginar que as dificuldades de comunicação na região, para que seja necessário cobrar tarifas interurbanas entre seus distritos, devam ser similares às mais radicais encontradas no nepal e butão.

pode até ser que, para tornar o rio grande do sul atrativo para uma operadora local, lá no começo das concessões, as cidades tenham sido fatiadas de tal forma que distiritos distantes alguns quilômetros da sede fossem considerados longínqüos a ponto de se cobrar interurbano entre eles. ao mesmo tempo, há uma concessão em vigor e um contrato que delimita áreas onde, claramente, se diz que os tais distritos são parte de outro planeta, pelo menos do ponto de vista de telecomunicações.

mas alguma coisa me diz que precisamos de uma dose maior de bom senso neste tipo de consideração e decisão. mundo afora, hoje, quase todas as ligações nacionais são tratadas como locais, do ponto de vista de tarifação. e mais: você pode falar entre quaisquer dois pontos do país o tempo que quiser, quando quiser, incluído na sua assinatura básica. ou seja: não só o país todo é local, mas o tempo de conexão é irrelevante. por quê?

porque as teles foram transformadas em aplicações sobre uma plataforma de internet fechada, lá delas. o que nós chamamos de telefonia e pagamos por tempo, aqui fora, não passa de um conjunto de aplicações sobre infra-estrutura e serviços de internet lá dentro, na implementação. compramos dados como se fossem tempo. taí o que o supremo decidiu não ver. e a anatel também não.

estamos precisando de mais competição, de mais regras e decisões que façam com que as teles ofereçam mais serviços, de mais qualidade e por preços mais razoáveis, aos seus usuários. esta decisão do STJ, por mais correta que possa parecer, indica justamente o contrário. nos leva a crer que, no brasil, as teles existem unicamente para remunerar seus acionistas, sem necessariamente atender a função sócio-econômica para as quais se tornaram prestadoras de serviço de comunicação.

na era do conhecimento, em que conectividade é absolutamente essencial para a o desempenho da economia, decidir que farroupilha é um grande país de 359km2, cujos distritos são distantes a ponto da comunicação ser interurbana… e cobrada como tal, é uma volta ao passado. o STJ e a anatel deveriam estar decidindo que, depois de ter implementado tempo como bits, as teles deveriam estar fazendo, no brasil, como no resto do mundo. cobrando bits como bits, provendo banda larga em escala [certamente compensadas por isso, principalmente onde não houvesse densidade econômica para remunerar o serviço], diminuindo nossos custos de conexão, aumentando nível de atividade econômica, o que, em última análise, levaria as próprias teles a ganhar mais dinheiro sobre uma base muito maior de clientes e necessidades.

o caso de farroupilha deve fazer história. em plena era da internet, no século XXI, é como se houvéssemos desenterrado graham bell em pessoa [ou juan ganzo fernandez] para assumir a companhia telephonica do lugar. tomara que se aprenda algo com esta decisão e se comece, rápido, a trazer as comunicações do brasil pro mundo de hoje, antes que fiquemos muito [mais] pra trás.

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25.11.08

há 50 anos: RAMAC 305

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old-computer-picture-ibm-305-ramac-1-280pixel.jpgnum 25 de novembro como hoje, mas exatamente cinqüenta anos atrás, the times publicou um anúncio, para a época, fantástico: a demonstração em uma feira de um novo sistema de processamento de dados, capaz de armazenar e localizar, simultaneamente, informação correspondente a dez milhões de caracteres.

segundo a propaganda da época, "basta fazer uma pergunta e o sistema responde na hora". o texto também dizia que a máquina tinha a capacidade de transmitir um registro [de um "cartão perfurado"] entre a matriz e uma filial "em alguns segundos", usando telégrafo, rádio ou linha telefônica.

coisa de louco. acima, uma foto do IBM ramac 305, primeiro computador a ter um disco rígido, a máquina da propaganda do times, que pesava nada menos que uma tonelada, sendo embarcada em um avião de transporte.

em computação, cinqüenta anos são muito tempo. contando os últimos pouco mais de quarenta, de 1965 pra cá, ray kurzweil chama a atenção para o fato de que os processadores que movem os celulares topo de linha, hoje, são um milhão de vezes mais baratos, mil vezes mais poderosos e cem mil vezes menores do que um computador de grande porte [único, por sinal] que existia em uma grande instituição de pesquisa americana como o MIT. isso dá um aumento de capacidade de um bilhão de vezes, a preço constante, no período.

acontece que a capacidade [de processamento, armazenamento e transmissão de informação] se expande, hoje, mais rapidamente do que no último meio século, e dá pra prever outro aumento de um bilhão de vezes em performance computacional, pelo mesmo preço, dentro dos próximos 25 anos.

agora imagine: seu celular, em duas décadas e meia, um bilhão de vezes mais potente do que hoje… e, se não cem mil vezes menor, talvez mil, dez mil vezes menor. de repente -e se, daqui pra lá, o problema das fontes de energia fosse resolvido- dava pra botar um destes numa lente de contato. ou dentro do olho. enquanto a gente não chega a este ponto, admire-se com a foto abaixo, recente, de bill worthington segurando um dos cinqüenta discos individuais que formava o "disco" do ramac 305. um destes "pratos" não dava pra armazenar, por acaso, a página que você está lendo agora.

billworthington-ramac-platter.jpg

outros vinte e quatro dias especiais para a história da informática [na prática] estão listados em um dos blogs do times online, neste link.

para saber a quantas anda a capacidade de processamento dos quinhentos maiores computadores do mundo, dê uma sacada neste link e neste outro. a máquina mais rápida do mundo, um dos dois únicos sistemas a superar a astronômica performance de um quatrilhão de operações por segundo, é um IBM, que fica no los alamos national laboratory do departamento de energia [DoE] do governo dos estados unidos. aliás, sete das dez maiores máquinas do planeta estão a serviço do DoE…

apenas duas das 500 máquinas mais potentes [306a. e 363a] estão no brasil. a primeira [um DELL] está no núcleo de computação da UFRJ e a outra na PGS, petroleum geo-services, provavelmente a máquina por trás dos cálculos que descobriram o pré-sal. só por acaso, também se trata de um IBM, com quase três mill processadores.

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23.11.08

cérebros eletrônicos: foi dada a largada

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no começo da computação, ali pela década de 60, os computadores eram conhecidos como cérebros eletrônicos. de cérebros, mesmo, nada tinham, apesar de eletrônicos. sua capacidade, em memória e processamento, era normalmente menor do que qualquer telefone celular nas nossas mãos hoje. pra ver como a novidade era tratada pela imprensa, clique aqui e aqui.

não faz nem dois meses que demos notícia dos 23 desafios da DARPA, a agência de projetos de defesa dos estados unidos, dos quais o primeiro é, exatamente… develop a mathematical theory to build a functional model of the brain that is mathematically consistent and predictive rather than merely biologically inspired. ou seja: desenvolver uma teoria matemática que leve à construção de um modelo do cérebro [humano] que seja matematicamente consistente e preditivo, ao invés de meramente inspirado em biologia.

agora saiu a notícia de que a corrida para resolver o problema número um começou. a IBM foi contratada pela DARPA para liderar uma rede de grupos de pesquisa cujo objetivo é construir um cérebro eletrônico [agora, de verdade] que tenha capacidade equivalente ao de um gato [real]. se tudo der certo, o sistema resultante poderá vir a ser usado para analisar grandes massas de dados, entender e classificar imagens e para tomada de decisões.

[ps: segundo guilherme, nos comentários, a imagem é de... Shodan - personagem do jogo System Shock 2, propriedade de http://www.TTLG.com]

o investimento de partida é troco, pouco menos de cinco milhões de dólares, para um projeto de tal envergadura. mas a DARPA tem por hábito investir em projetos-piloto pra testar a viabilidade dos mesmos e, depois, entrar com dinheiro de gente grande. para saber mais sobre o projeto, entre no blog de dharmendra modha, pesquisador da ibm que vai liderar o esforço.

tentar construir um sistema artificial que tenha as características do cérebro humano é um objetivo quase óbvio para a humanidade, pois faz parte do processo natural de entendimento e intervenção no universo ao nosso redor. primeiro, tratamos do mundo físico [o landscape], depois passamos a entender e intervir nas coisas vivas [o bodyscape] e, finalmente, estamos começando a tratar da estrutura mais complexa ao nosso redor, nosso próprio cérebro [o mindscape].

mas há uma razão mais prática, agora, do que a pura e simples pesquisa sobre o cérebro. o gigantesco volume de informação que temos que tratar e os problemas e dificuldades de seu processamento, boa parte dos quais [como processamento de imagens] é melhor resolvido por sistemas computacionais do tipo do cérebro humano. o que significa que pelo menos uma vertente das gerações futuras de computadores pode -ou deveria- ter comportamento semelhante ao cérebro humano. por trás da aposta da DARPA no "cérebro de gato" que a IBM pretende construir, há um claro objetivo de negócios… e competição [veja o projeto CCortex, por exemplo].

imaginando que uma ou mais das tentativas de se chegar a um cérebro artificial equivalente ao de um pequeno mamífero seja um sucesso, será só uma questão de tempo para construirmos um cérebro artificial muito parecido com o nosso. de lá para construirmos muitos outros, com capacidade de processamento muito maior do que a nossa… vai ser questão de menos tempo ainda. o entendimento dos sistemas cerebrais biológicos [neurociência], os processos computacionais para simulá-los [supercomputação] e a nanotecnologia para construí-los estão começando a se tornar realidade. quem viver verá.

[ps: segundo guilherme, nos comentários, a imagem é de... shodan - personagem do jogo System Shock 2, propriedade de www.TTLG.com]

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21.11.08

a balança dos eletrônicos [de novo]

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em junho passado este blog publicou um texto sobre a importação e exportação de eletrônicos, onde se dizia que… o déficit da balança de eletrônicos, até maio deste ano, já está 61% maior do que no mesmo período no ano passado [que foi, por sua vez, 41% maior que 2006, comparando ano a ano]. estima-se que o rombo passe dos US$20B em 2009, resultado de um mercado interno que compra cada vez mais PCs, laptops, celulares e tudo que tem, dentro, componentes, partes e peças que importamos a granel da ásia, combinado com uma muita dificuldade de exportar o que é produzido aqui, por causa do que se convencionou chamar de “custo brasil”, que agora inclui um real tão valorizado como há uma década. 

de lá pra cá, o real se desvalorizou muito, o que deveria ser parte das boas notícias para o setor, mas não é: dólar mais caro significa insumos mais caros, principalmente componentes eletrônicos importados majoritariamente da ásia para o brasil, o que, como mostramos em outro texto, acaba complicando o cenário para os fabricantes nacionais de eletro-eletrônicos.

ss-20081121114513.pngpois bem. a abinee acaba de publicar os resultados da balança comercial até setembro [ou seja, até o começo da "crise"] e a situação piorou um pouco. nos primeiros nove meses do ano, o déficit de eletro-eletrônicos está 65% maior do que no ano passado, como mostra a figura deste parágrafo. segundo a associação da indústria eletro-eletrônica… No acumulado de janeiro a setembro de 2008, o déficit comercial de produtos eletroeletrônicos foi de US$ 17,22 bilhões, 65% acima do ocorrido no mesmo período do ano passado (US$ 10,44 bilhões). Este total é resultado de exportações de US$ 7,53 bilhões e importações de US$ 24,75 bilhões …este saldo negativo é recorde histórico, e o resultado acumulado nos nove primeiros meses deste ano foi superior ao total acumulado nos 12 meses dos anos anteriores. Vale lembrar que, no ano todo de 2007, o déficit atingiu US$ 14,75 bilhões.

a abinee ainda deixa claro que… neste período ainda não foram contabilizados os efeitos que podem ocorrer em função da crise mundial. Portanto, por enquanto, permanece a previsão de o setor encerrar este ano com saldo negativo de US$ 20,6 bilhões, resultado de exportações de US$ 9,3 bilhões e importações de US$ 29,9 bilhões.

por um lado, a notícia é boa: como o país está crescendo e qualquer parte da infra-estrutura de qualquer país depende de eletrônica e informática, estamos investindo massivamente no que deveríamos estar investindo, inclusive do ponto de vista pessoal, com um monte de empresas [e pessoas] comprando, por exemplo, seu primeiro PC.

por outro, talvez se deva notar que o setor industrial de informática, no país, não é competitivo internacionalmente, o que significa que temos em voga, ainda, uma política industrial de substituição das importações. importamos componentes e fabricamos equipamentos [PCs, celulares...] para suprir o mercado nacional, com uma pequena parcela de exportações para, principalmente, o mercado latino-americano [60% dos US$1.7B exportados em celulares foram para argentina e venezuela].

resumo da ópera? espera-se que o déficit da balança comercial esteja sendo pago pelo aumento da produtividade dos negócios e das pessoas, como já está demonstrado que é o caso da introdução massiva de informática na economia. mas isso vai acontecer mesmo é no longo prazo. no curto prazo, aqui e agora, o buraco da balança comercial de eletrônica está sendo coberto mesmo é pelo nosso sucesso nas commodities

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20.11.08

doente? tome um computador…

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ss-20081120010832-ipill.pnga philips acaba de anunciar uma cápsula, que chama de iPill, dispositivo que parece [e tem o tamanho de] um comprimido normal, só que contém um computador, bateria, sensores, um rádio [para se comunicar com dispositivos externos ao corpo por onde passa], um receptáculo para medicamentos e um mecanismo para liberar o remédio que carrega exatamente onde, no trato digestivo, possa ter o maior resultado e os menores efeitos colaterais.

a idéia é simples, antiga e, ao mesmo tempo, genial. como todas as coisas práticas, tecnológicas ou não. os sensores podem captar uma variedade de condições do corpo, desde a temperatura do local onde estão até a acidez do ambiente ao redor. tais dados podem ser enviados para um sistema de informação externo ao corpo e decisões sofisticadas podem ser tomadas sobre quando e onde liberar a carga de fármacos carregada pelo pequeno viajante.

recentemente, falamos aqui de uma outra cápsula, capaz de, guiada externamente mas com sistema de propulsão próprio, navegar pelo sistema sangüíneo do corpo a velocidades de até 10cm/s. pense na combinação das duas. entregar drogas exatamente onde o organismo precisa delas é muito importante para o tratamento de quase todos os males que nos afligem.

pelo andar da carruagem, o que era visto até agora como o simples ato de "tomar uma pílula" vai começar a implicar em uma relação muito mais íntima, pessoal e profunda com dispositivos computacionais passeando dentro da gente. tomara que eles saibam, de um jeito ou de outro, o que estarão fazendo…

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19.11.08

a [nova] síndrome da china

vez por outra a gente encontra alguém que foi à china e ouve a pessoa, meio que assustada, nos contar sobre as muitas formas dos novos comunistas estarem começando a dominar o mundo. as fábricas, as mudanças urbanas, a maneira como o partido, deixando de lado o maoísmo que ainda estão começando a introduzir no nepal [!] conduz a modernização acelerada do império do centro.

segundo alguns observadores, parece que os chineses estão mesmo implementando, na prática, a filosofia que está por trás do termo tian-xia, ou "tudo-sob-os-céus" [all-under-heaven], conhecido desde os primeiros textos do império e que é equivalente ao "universo", ou "mundo", nas línguas ocidentais, mas com um toque indiscutivelmente oriental: também quer dizer "os corações de todos os povos", ou "a vontade, conjunta, de todos".

segundo xun-zi [filósofo que viveu entre 313-238AC, citado neste texto de tingyang zhao] mesmo para o conquistador e senhor dos terras e povos… enjoying all-under-heaven does not mean to receive the lands from people who are forced to give, but to satisfy all people with a good way of governance. bem mais de um político nacional podia entender isso: ter "tudo-sob-os-céus" não é receber de quem é forçado a dar, mas satisfazer a todos com boas normas e formas de governo. neste ponto, em particular, viva a china.

mas "tudo-sob-os-céus", hoje, tem um significado bem mais prático, como robert scoble é só mais um a redescobrir e publicar: a china começa a dominar todas as etapas da cadeia de valor de qualquer coisa e deixa, muito rapidamente, de ser a fábrica-do-mundo para ser, cada vez mais intensamente, um provedor de "tudo-sob-os-céus". de conceito a projeto, de design a produto, de sistema a processo, de serviço a negócios. tudo. sob os céus e, se brincar, inclusive os céus eles mesmos.

400px-flag_of_the_peoples_republic_of_chinasvg.png

não deveria ser novidade pra ninguém. mas ainda é. e há quem ainda brinque de tentar, escondido num canto qualquer do planeta, fingir que a china não está na jogada. basta ler a "descoberta" de scoble pra ver que está, sim, e radicalmente, em tudo, inclusive informática e internet.

pra nós, aqui, fica um dever de casa: em plena semana global do empreendedor, esta coisa que nós achamos que cada brasileiro é desde nascença, mas onde sabidamente temos uma dificuldade imensa de criar negócios capazes de competir mundialmente, como [e em quê?] nos prepararmos para enfrentar a competição chinesa dos próximos 100, 200 anos?… não adianta só aprender mandarim, que serviria apenas para, talvez,  exercermos nossa eterna vocação de colônia; teremos que fazer muito mais. temos que fazer muito mais, desde já.

o futuro, não custa nada lembrar, vem do futuro. vem dos investimentos que fazemos, pensando no futuro, agora. vem da nossa capacidade de, como povo, inovar. e algo me diz que o muito confuso, ineficiente e ineficaz ambiente brasileiro de empreendedorismo, capital, trabalho e relações trabalhistas, investimento, inovação, política, governo… não é exatamente o que deveríamos ter, agora, para podermos inovar para e no futuro. temos problemas graves. para escaparmos da nova síndrome da china, que é a do aumento radical da competitividade [deles!] em quase tudo, precisamos dar um reboot, urgentemente, no nosso próprio, vasto e complexo império.

mas cadê a coragem, de uns e de todos, para cuidar de "tudo-sob-os-céus", satisfazendo a todos com novas normas e formas de governo que nos conduzam para o futuro?… enquanto nossos imperadores, em sua vasta maioria, só pensam no próximo episódio eleitoral [um a cada dois anos!], o país vai deixando de fazer o que seria essencial, agora, para se tornar mais competitivo no futuro muito próximo. e a china e outros, pouco se ligando, vão em frente, para os lados e alto, tomando conta de "tudo-sob-os-céus"…

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