Terra Magazine

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

o segredo do sucesso?… falhar. falhar rápido.

Tags:, , , , , - srlm às 19:32

honda failure the secret to success

clique na imagem acima e vá ver um vídeo [em inglês] da honda sobre porque falhar é o grande segredo do sucesso. e porque toda vez que alguém que lhe diz que nunca errou é porque, na verdade, você está à frente de alguém que nunca tentou fazer nada de novo. e nem de velho, talvez.

a filosofia da honda é baseada em aprender tentando, tentativa e erro, aprender errando, errar rápido, errar mais rápido do que a competição e aprender mais rápido do que ela. ou procurar outra coisa pra fazer. soichiro honda, o fundador, sempre exigiu que seu pessoal assumisse riscos e falhasse: segundo ele, você podia errar cem vezes, desde que estivesse aprendendo para acertar uma.

taí uma coisa da qual todos nós precisamos nos lembrar sempre. no vídeo, takeo fukui, presidente mundial da honda, traduz honda-san: os avanços fantásticos da tecnologia são resultado de um caminho pavimentado por muitas falhas.

um dos programas mais interessantes da honda é o de desenvolvimento da família asimo de robos, investimento que começou em 1986. um dos primeiros frutos práticos deste aprendizado talvez venha a ser um dispositivo para ajudar pessoas com dificuldades de locomoção a se abaixar, subir e descer escadas e, claro, andar. clique no vídeo abaixo para ver a coisa funcionando.

provavelmente ainda há muito a fazer antes que a gente possa comprar um deles pela web e usar pra ajudar em casa, no trabalho ou pra um trekking rápido. mas dá pra ver que o espírito de soichiro honda –tentar, falhar, aprender- está escrito em cada parte do do "assento ambulante" da honda.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

“custo brasil”: uma novela sem fim?…

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chips mao protegida memory em mais uma decisão das que a indústria costuma rotular de "tipicamente brasileira", a secretaria de comércio exterior [secex] decretou no último dia 26 uma barreira não tarifária sobre a importação de produtos e insumos, inclusive as partes e peças essenciais para a indústria de tecnologias de informação e comunicação continuar funcionando no país.

pela nova regra [de vida muito curta, veja a seguir], cerca de 60% de tudo o que o país importa iria passar por aprovação federal. ao que consta [e foi amplamente noticiado], nem o planalto nem o itamaraty foram consultados sobre o assunto… e muito menos, claro, a indústria.

estamos diante do que parece se tratar de mais um capítulo da novela "custo brasil", muito mais longa e complexa do que a interminável redenção, que foi ao ar pela extinta tv excelsior, entre 1966 e 1968, e que chegou a quase 600 episódios. na novela, cada personagem era uma subnovela particular. a licença de importação é um dos mais peculiares e inusitados capítulos do “custo brasil”.

pois bem. no que deveria ser uma política industrial estável para um setor cuja competitividade está quase sempre na corda bamba, o governo também decidiu que a fabricação nacional de laptops deve ter, a partir de agora, pelo menos 50% dos módulos de memória fabricadas no país. antes, a produção local tinha que ser de pelo menos 20% deste subsistema. por aqui, há apenas um fabricante de tais módulos e ninguém sabe de sua capacidade para atender a demanda adicional imposta pelas novas regras ou qual será o impacto de mais esta “nova regra” nos preços para o usuário final.

nos últimos poucos anos, um conjunto coerente de medidas federais acabou com o que indústria e governo chamavam de mercado cinza, na verdade uma ampla e sofisticada rede de valor especializada na importação [ilegal] de componentes, partes e peças para montagem [informal] de computadores e sistemas digitais. restrições como as anunciadas esta semana devem estar assanhando algumas de nossas fronteiras ao sul e muitas ruas e negócios de reputação duvidosa em todo país, pois podem ser um novo ponto de partida para o mercado cinza voltar a dominar a produção e comercialização de PCs e laptops.

para aumentar a atratividade do setor de TICs para contrabandistas, aproveitadores e sonegadores, é só o governo criar mais umas duas ou três “regras”, na ausência de uma política industrial ou de negócios que, ao invés de tornar a indústria nacional mais competitiva no cenário internacional, tenta proteger o mercado local para uma indústria tornada incompetente pelas estruturas e conjunturas de nossa plataforma de [in]competitividade global. e em nenhum setor isso acontece mais rápido do que em informática. a licença de importação, decretada no dia 26, já parava fábricas que trabalhavam com suprimentos just in time no dia 27. ainda bem que foi revogada dia 28. foi só uma piada de muito mau gosto [que ecoou em todo mundo]. mas a “portaria das memórias” continua vivinha da silva.

para se ter uma idéia de como vale a pena contrabandear memórias caso sua importação seja restrita, sobretaxada, ou o preço da produção local seja alto, um módulo de 2GB [dois bilhões de caracteres, padrão nos laptops] pode ser encontrado por um preço que vai de US$25 até US$250 no mercado mundial. a plaquinha [veja ao lado] pesa no máximo 50 gramas. a variação de preço está relacionada à quantidade de peças adquiridas e à velocidade, confiabilidade e outras caraterísticas do módulo e dos chips usados em sua construção. pras nossas contas, vamos assumir que o módulo custa US$100.

imaginando que nosso contrabandista é “de mala” e não “de container”, numa mala padrão de 30Kg devem caber uns quinhentos módulos e suas embalagens, pois a coisa é muito pequena e estreita. preço da mala no mercado internacional? US$50.000. se a diferença entre os preços local e global for “suficiente” [20% ou mais], já vai ter gente correndo o risco e pagando pra “internar” a mala e seu conteúdo no país.

fontes confiáveis disseram a este blog que a “tabela” para internação de mercadorias está ao redor de US$25 por quilo [excluindo substâncias tóxicas], o que tornaria possível trazer a tal “mala”, pelos canais informais, pagando meros US$750. num mercado de PCs e laptops, commodities que todo mundo tem e faz… um dos poucos diferenciais é o preço final e as condições de pagamento. tire suas conclusões. e se lembre que a conta acima é pra memórias, que são muito baratas porque produzidas em altíssimo volume. para outros módulos, o modelo cinza “de negócios” se justifica para volumes e diferenças percentuais bem menores.

a licença de importação, como dissemos, não vingou. a indústria articulou uma gritaria tão grande e tão coerente que a coisa durou menos de 48h. legal. mas a regra para as memórias está aí, somando-se à cacofonia de tarifas, impostos, taxas, regras, regulamentos, concessões, planos, aprovações e toda a parafernália da novela “custo brasil” que assombra, dia e noite, há décadas, a indústria nacional de qualquer coisa. aliás, há tantos atores [e seus interesses, contextos e consequências] na trama que uma outra novela, da mesma época que redenção, precisa ser lembrada.

image entre junho e dezembro de 1967, a globo levou ao ar anastácia, a mulher sem destino, escrita por emiliano queiroz. sem qualquer experiência em novela, o autor danou-se a adicionar histórias, personagens [e atores amigos] ao folhetim, o que resultou numa tremenda confusão na tela e numa situação na qual o que restou da audiência não entendia bulhufas.

aí pelo capítulo 100, janete clair foi chamada por glória magadan pra dar um jeito na coisa e, num terremoto, eliminou nada menos de 96% dos personagens, ordenando o seriado e chegando, como era de se esperar, a um final feliz, no capítulo 125.

taí uma alternativa pro “custo brasil”. só falta criar coragem, escolher e dar poderes a uma janete clair da hora, pra ela [em rede, conversando com muita gente e olhando para o futuro, agora e bem pra frente] reescrever “custo brasil” e chegar ao final, trocando inclusive o nome. sugestão do blog? muito simples: “brasil competitivo”.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

notícias: internet passa jornais [e vai passar TV]

pew internet newspapers as duas primeiras imagens deste texto dão uma idéia do tamanho do problema que a indústria de notícias já enfrenta, hoje, e também a pedreira daqui pra frente. à esquerda, um gráfico do pew research center for people and the press mostra que os jornais foram superados pela internet, este ano, como fonte de informação nos EUA.

entre 2007 e 2008, as notícias dos jornais ganharam 1% de audiência, as da TV perderam 4% e a internet –como fonte de informação- ganhou 16%. os totais de audiência, somados, passam de 100% porque a resposta é de escolhas múltiplas. de seu pico, em 2002, a TV perdeu 12 pontos; do pico de 2003, o rádio perdeu 15 pontos. por outro lado, de sua base de 2001, que é quando banda começa a se tornar realmente disponível para a internet nos EUA, a audiência para notícias, na rede, saiu de 13 para 40 pontos. sinal dos tempos.

internet empata com tv entre os jovens.mas mudança ainda mais radical já é percebida na faixa etária entre 18 a 29 anos. olhe a tabela à direita: nela, a internet já empata com TV como principal fonte de informação, enquanto rádio, jornais e revistas estão muito atrás. para os mais jovens, TV perdeu 11 pontos entre 2007/8 e a internet cresceu 25 pontos. isso pode ser resultado do interesse despertado pela campanha eleitoral americana, com o time vencedor usando a rede ostensivamente e atraindo, para lá, uma grande parcela dos mais jovens… ou vice-versa: o fato dos jovens estarem na rede fez o time de obama levar boa parte da campanha para lá e, com isso, quem já vivia a campanha, na rede, acabou vendo as notícias sobre a eleição e outras por lá mesmo. e pode ser uma combinação –definitiva- dos dois fatores.

estes resultados estão em linha com dois textos recentes deste blog, um sobre o destino [quase certo] dos jornais de papel, de 2 de dezembro passado, quando falávamos de mais de 13 mil jornalistas e pessoal auxiliar demitidos nos EUA, no ano, até então. nos últimos dias de 2008, mais 2 mil perderam o emprego levando a mais de 15.500 demissões no setor, nos EUA, em um único ano. no primeiro mês de 2009, quase 1.000 jornalistas e e assistentes já foram demitidos por lá. é como se toda uma era, incluindo a dos grandes jornais, estivesse chegando ao fim, com ícones como o new york times e o chicago tribune em vias de passar, também, para a história. o outro texto era sobre o crescimento da publicidade na internet, no brasil, que vem aumentando aí pelos 45% por ano, ritmo no qual deve passar rádio em 2009, depois de já ter empatado, em 2008, com TV por assinatura. e o total do investimento em propaganda, por sinal, deve cair na soma de todos os meios à medida que a internet cresce… como diz jeff zucker, da NBC, a revolução da informação é a transformação de dólares analógicos em centavos digitais.

e no brasil, quando é que veremos coisas como o PEW está descobrindo nos EUA? sem contar com mais e melhores pesquisas sobre comportamento na internet, pra começar, precisamos de muito mais banda e universalização. outro texto publicado aqui no blog, em setembro, relatava uma pesquisa da universidade de oxford onde o brasil aparece no honroso terceiro lugar… de baixo pra cima, em uma lista de 42 países, quando o assunto é qualidade da banda larga. ainda precisamos descobrir, por aqui, que quem não tem banda larga [mesmo] não tem internet.

logo depois, precisamos fazer a tal banda chegar em todos os lugares e à vasta maioria das pessoas no país, especialmente os locais mais remotos e à gente mais necessitada. feito isso, não vai dar outra: vai rolar por aqui o que está ocorrendo no mundo inteiro e iremos todos, e de uma vez por todas, para a internet. inclusive o rádio, jornais e TV, com muito maior contribuição, colaboração e controle do que se chamava de audiência, no passado, e que hoje se torna, onde há banda para todos, uma multitude de comunidades, criativas, participativas…

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

a grande troca de guarda

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a intel acaba de anunciar que craig barrett deve se aposentar como chairman of the board da empresa que lidera o mercado mundial de CPUs e muitos outros componentes fundamentais para a construção de sistemas digitais. barrett, 69, é creditado por muitos como tendo sido o engenheiro que realmente "construiu" a intel como a conhecemos hoje.

se listarmos uma comissão de frente das empresas de tecnologias de informação e comunicação e serviços correlatos mais importantes do planeta, além da intel, certamente estariam a microsoft, amazon, google, yahoo, eBay, apple, ibm, cisco, oracle e mais uma dúzia. entre as que estão aí desde o começo da internet e que afetam diretamente os usuários normais, a lista é bem menor: intel, apple, microsoft, google, eBay, amazon e yahoo.

do começo de 2008 pra cá, sairam de cena os lideres da microsoft [bill gates foi tocar sua fundação, dedicada aos mais pobres e sua saúde], eBay [meg whitman está pensando em ser governadora da califórnia], intel [barrett deve continuar como presidente da U.N. Global Alliance for Information and Communications Technology and Development] e apple [steve jobs está de licença para tratamento de saúde e muitos duvidam que ele volte à empresa]. jerry yang, como se sabe, foi meio que demitido de yahoo e, ao contrário das outras empresas desta lista, não há muita gente apostando que a companhia vai rever sua antiga glória. pena.

continuam no lugar os CEOs de google, eric schmidt, que não vai aceitar nenhum cargo no governo dos EUA, muito menos o de CTO, e da amazon, jeff bezos, que está muito bem e confiante [desde sempre] na próxima geração dos serviços de internet. são os últimos representantes da velha guarda da internet, os últimos CEOs, ainda em atividade, da primeira onda das companhias de rede.

o pico atual é das companhias de redes sociais, mas quase ninguém ainda sabe quem está por trás delas… esta ainda é uma aventura a ser escrita.

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domingo, 25 de janeiro de 2009

lock-in: a vez de google?

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do ponto de vista econômico, um consumidor, ou um monte deles, está locked-in quando um fornecedor criou uma situação em que o custo de trocar seus produtos e serviços de um competidor é tão alto que, na prática, o consumidor é forçado a seguir os ditames do fornecedor.  pensou desktop, achou a microsoft, que tem um lock-in acoplando office ao sistema operacional windows, sem falar no internet explorer e windows media player, também colados ao sistema operacional, caso que rendeu à empresa processos e multas monumentais. parte do negócio e do quase monopólio de redmond nos PCs, diriam os economistas. inevitável, no processo de capitalismo de mercado, diriam os investidores.

evil-google google, a companhia que jurou "do no evil", talvez esteja no caminho de tornar-se um lock-in pra uma boa parte das coisas que acontece na rede. e na sociedade. e isso não começou a acontecer um dia destes. google, que está tentando desenvolver o que se poderia chamar de um "sistema operacional da rede" e uma grande família de aplicações que funcionam, como serviço, sobre os fundamentos do tal sistema, está dando passos que levarão, quase sem dúvida, a um novo conjunto de lock-ins.

nos últimos dias de 2008, a companhia resolveu avisar aos usuários de gmail que internet explorer 6 não é mais suportado pela aplicação online e que os usuários devem mudar para firefox ou chrome, que vem a ser o browser que o próprio google está desenvolvendo. chrome, ao invés de mero browser, é uma plataforma de suporte local para aplicações em rede, ou seja, parte essencial de um processo de lock-in que google já pode ter começado a dar andamento.

até porque a companhia tirou firefox de seu pacote de aplicações e dá claros sinais, por vários outros meios, de que está gostando muito de fazer as coisas "sozinha" ao invés de "em rede". e o browser parece ser parte essencial da estratégia. a pergunta que sobra é: até que ponto criar barreiras para impedir que seus usuários troquem de fornecedor é "evil"? a resposta é… sempre que alguém muito bem estabelecido está fazendo isso [e, de preferência, é pego fazendo isso] é "evil" sim. se é um pequeno davi que está lutando contra os grandes golias que usa de tal arma… normalmente se dá um desconto e se acha que é parte do processo de competir.

e desde quando que google é um pequeno competidor em busca de espaço para crescer? dentro de quanto tempo teremos os governos americano e europeu investigando as práticas de google? um, três ou cinco anos? façam suas apostas.

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

internet em 2020 [6]: o futuro da infra-estrutura

relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado no fim do ano passado, chegou a seis conclusões. para tal, mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede foram consultados. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE, o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA, o terceiro sobre o futuro das INTERFACES, o quarto sobre PROPRIEDADE INTELECTUAL e o quinto sobre as REALIDADES [física e virtual] e os TEMPOS [do trabalho e pessoal], em tempos de rede.

este é o último capítulo desta série, onde vamos considerar a previsão do PIP sobre a evolução das tecnologias da rede. o PIP prevê que... Next-generation engineering of the network to improve the current internet architecture is more likely than an effort to rebuild the architecture from scratch: é mais provável que as próximas gerações de engenharia de redes melhorem as bases da internet atual do que reconstruam a rede a partir do zero.

pra entender porque tal previsão faz muito sentido, é preciso considerar qual foi o ponto de partida da internet [em 1968!...] e o que, de lá pra cá, foi feito pra implementar a rede como imaginada pelos visionários de conectividade lá no começo dos tempos. leonard kleinrock, cuja tese de doutoramento no MIT estabeleceu alguns dos fundamentos das modernas redes de comunicação e que foi responsável pela primeira conexão entre computadores numa forma em que hoje reconheceríamos como internet, relembrou, em um artigo publicado em 2003 [An Internet vision: the invisible global infrastrucutre]  que sua visão original da internet envolvia cinco princípios: 1. The Internet technology will be everywhere; 2. It will be always accessible; 3. It will be always on; 4. Anyone will be able to plug in from any location with any device at any time; 5. It will be invisible.

em bom português, 1. a tecnologia de internet vai estar em todo lugar; 2. o acesso à rede será permanente; 3. a rede vai estar sempre ligada; 4. qualquer um vai poder entrar na rede a partir de qualquer lugar, com qualquer tipo de dispositivo, a qualquer hora e 5. a rede será invisível. segundo o próprio kleinrock [e qualquer um de nós pode comprovar isso] os princípios 1-3 estão sendo implementados paulatinamente, apesar de sua distribuição na sociedade e na geografia não ser exatamente uma beleza. mas os padrões de internet se tornaram universais e a prefeitura de taperoá, se quiser cobrir a cidade com wi-fi, sabe exatamente como fazê-lo. e, bem feito, vai ficar tão bom quanto em san francisco e será "a mesma" internet.

claro que a gente pode reclamar muito, ainda, do "sempre ligada": meus dois provedores de rede não parecem ter lido o artigo de kleinrock e, muito menos, terem ouvido falar em direitos dos usuários ou acordo de nível de serviço. se me fornecem mais banda, tenho que pagar mais; se passam 10% do mês fora do ar, me cobram a mesma coisa…

mas o bicho pega, do ponto de vista da separação entre visão e realidade, quando se considera os itens 4 e 5 da visão de kleinrock. conectar qualquer coisa, a partir de qualquer lugar, a qualquer hora, décadas atrás, significava conectar terminais e computadores, que estavam dentro de centros de computação, uns aos outros. hoje, usando uma infra-estrutura que herdou muitas características da original, tenta-se conectar literalmente tudo à rede, de brinquedos, geladeiras, fechaduras de portas, automóveis e aviões até sensores implantados em seres humanos. tudo passou a ser tudo mesmo e qualquer lugar e hora passaram a ser tratados literalmente: são qualquer lugar do planete [e fora dele] e 24×7x365.

isso é muito bom, porque passamos todos a usar, como meio de troca de informação, a mesma plataforma de rede, seu hardware, seus processos, seus protocolos. o problema é que a rede, como pensada originalmente, não previa que um dos seus principais usos seria servir de base para outras redes, como é o caso das comunidades P2P criadas sobre a infra-estutura de internet. estes "outros usos" forçam os limites da rede até pontos de ruptura, como é o caso quando provedores americanos constragem tráfego de certos tipos [P2P, VOIP...] para garantir serviços que consideram essenciais…

ou pior: sempre se tratou a casa do usuário como sendo um lugar para onde iam dados e de onde, com muito menor intensidade, vinham dados. na hora em que a audiência, conceitual e praticamente, se transformou em comunidade, os usuários podem ser, em um número cada vez mais frequente de situações, o lugar de onde os dados estão vindo. e aí, como a infra-estrutura não aguenta, começam nossos conflitos com os provedores. quanto mais fora do centro da rede você está, maior a chance de não haver banda suficiente para você ser parte da comunidade e ter seu papel restrito [se tanto] a audiência.

mas o ideal está ainda mais longe da realidade quando se considera o item 5 da visão de kleinrock: a rede será invisível. disso ainda estamos tão distantes que, quando a rede nos der tal tipo de experiência, vamos achar que estamos usando a "próxima" geração da internet. invisível, neste caso, poderia ser qualificado como, por exemplo, tão invisível como no caso da eletricidade. lá, você transfere toda a complexidade do sistema para a geração e distribuição e na sua casa há nada mais que tomadas e interruptores. se tudo correr bem, você só lembra que vive completamente imerso em eletricidade [água, esgoto, telefone, iluminação, elevador, internet... tudo depende dela] quando falta. e isso ocorre com uma frequência cada vez menor.

a invisibilidade da rede [e da infra-estrutura de informação, como um todo] é parte do que eu venho chamando, há algum tempo, de informaticidade, como no texto que se segue, de 2006:

a era da informação, segundo peter drucker, não começou com a internet, mas bem antes, ao fim da segunda guerra mundial. até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora. as palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. o domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deu um ar de fim-da-história ao mundo da energia. a partir daí, os processos biológicos passaram a ser a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de inforrmação e seu processamento.

temos meio século, pois, de era da informação, o que coincide com a idade das máquinas computacionais, digamos, modernas, inauguradas com o eniac em 1946. os primeiros processadores eletrônicos de informação eram tão complexos que as organizações que os tinham em casa foram obrigadas a criar departamentos de tecnologia, populados por gente que entendia de sistemas computacionais -os computadores propriamente ditos e sua infra-estrutura de software-, capaz de fazer as “máquinas” produzirem os “resultados” exigidos pelos negócios. da mesma forma como, no princípio dos tempos da energia, as indústrias de sucesso tinham seu próprio departamento de energia [e algumas o têm até hoje], os negócios mais inovadores destes sessenta anos de era da informação foram aqueles que melhor souberam tirar proveito dos computadores, usando para isso a competência tecnológica interna e de tantos parceiros quantos foi possível.

os computadores e seu uso nos negócios foram inovações radicais do século XX, mudando o mundo e criando possibilidades que, processando dados à mão, eram impensáveis. mas toda inovação é incompleta, imperfeita e impermanente, e sempre chega, de novo, a hora de inovar. não que informática tenha se tornado commodity e qualquer um, em qualquer lugar, possa provê-la. mas, lá atrás, energia se tornou eletricidade, disponível na tomada, e não queremos saber como nos chega. usamos, pagamos e pronto.

da mesma forma, processamento de informação vira informaticidade: interfaces especificadas e entendidas, escondendo funções e procedimentos que queremos, sim, saber o que fazem. suas propriedades são mais complexas do que os fluxos de corrente (da “energia elétrica”) que produzem calor, luz e movimento.  mas, uma vez a par dos significados por trás das interfaces e tendo acesso remoto, confiável, de alta performance e barato, não precisamos, para usar tal informaticidade, de departamentos de tecnologia do lado de cá da rede.

e isso é uma boa notícia para todos. primeiro, para o pessoal “de tecnologia”, que vai trabalhar onde os problemas “tecnológicos” estão, e onde é mais interessante e divertido estar: lugares como amazon s3 [armazenamento on-line], netvibes.com [ecologia de informação] e salesforce.com [cadeia de valor de processos de automação de negócios]. todos são exemplos de informaticidade, atrás do conector, sem que o usuário pense em segurança, performance, updates, backup… problemas lá do pessoal “de tecnologia”.

software-como-serviço é outro nome que se dá a informaticidade; mas esta é bem mais que aquela: inclui hardware-como-serviço, rede-como-serviço e, quase de brincadeira, serviço-como-serviço, quando não temos que fazer o serviço que deveríamos, pois tal poderia ser realizado compondo outros, já disponíveis na rede.

por outro lado, quem ficar do lado de cá do conector terá que se concentrar no que é essencial para o negócio: informação. durante muito tempo -quase todos estes sessenta anos- os interesses informacionais dos negócios estiveram subjugados às competências, humores e modismos de seu pessoal de “tecnologia”. apesar do chefe, lá, atender pelo título de chief information officer, que significava, de fato, chief information technology officer. com a tecnologia escondida na informaticidade, o pessoal “de tecnologia” que restar será o que der conta, enfim, da informação.

a agenda dos “novos” cios, nos negócios, será pautada na criação, manutenção, implantação e operação de políticas e estratégias de informação, cobrindo o ciclo de vida de informação no negócio, de criação ou captura até  terminação, passando por  processamento, armazenamento, preservação, apresentação…  para o que precisarão desenhar sistemas de informação, parte da funcionalidade dos quais, breve, será provida pela informaticidade da rede, através da composição de funções disponíveis em muitos fornecedores. e o resto, que tivermos que definir e escrever nós mesmos, será em boa parte complementos e conexões de coisas que outros irão nos fornecer como serviço.

em algum lugar, lá atrás, estarão, a suportar tudo, as tecnologias de informação. gozando pela primeira vez, em sua curta história, da imunidade do anonimato. algo me diz que, neste novo mundo, as coisas serão muito mais calmas e que, por isso mesmo, poderemos inovar muito mais.

tal conjunto de conceitos deixa bastante claro que informaticidade é algo bem mais amplo do que computação ubíqua, "cloud computing", software como serviço ou qualquer outro subconjunto do que queremos ver -e ter- como a infra-estrutura prá lá e nós pra cá, usando a máquina de inovar que é a internet como plataforma universal de criatividade e empreendedorismo e não como foco de nossas preocupações e atenções, como se fosse fundamental, para cada um, saber como funciona um proxy, o que é um servidor de DNS e coisas do tipo. não, não é.

enquanto for… a quinta e mais importante parte da visão de kleinrock sobre o futuro da internet [visto a partir de 1969!...] não terá sido realizada. e isso vai continuar lembrando que o nosso principal papel, na engenharia e interfaces de rede, será a de continuar transformando nossa infra-estutura de conexão e interação para que sua implementação e uso venham a ser, no futuro, tão simples como foi pensada lá no começo.

por isso que é mais que claro que nenhuma revolução fundamental vai ocorrer na internet na próxima década, como o PIP descobriu. pode até ser que novos sistemas de computação e comunicação, novos protocolos e novas interfaces se tornem realidade. mas serão apenas meios para se atingir uma visão simples e ao mesmo tempo genial que, depois de quarenta anos, ainda estamos implementando.

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domingo, 18 de janeiro de 2009

internet em 2020 [5]: o tempo e as realidades

relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado no fim do ano passado, chegou a seis conclusões. para tal, mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede foram consultados. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE, o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA, o terceiro sobre o futuro das INTERFACES e o quarto sobre PROPRIEDADE INTELECTUAL.

hoje, no penúltimo capítulo desta série, vamos falar das realidades física e virtual [termos do PIP] e sobre o tempo pessoal e do trabalho em tempos de rede. neste contexto, o PIP prevê que... The divisions between personal time and work time and between physical and virtual reality will be further erased for everyone who is connected, and the results will be mixed in their impact on basic social relations… ou seja: as separações entre o tempo pessoal e de trabalho e entre a realidade física e virtual serão ainda mais tênues para quem estiver conectado… e os resultados de tal conjução de fatores, do ponto de vista de seus impactos nas relações sociais, serão bons por alguns lados e nem tanto assim por muitos outros.

primeiro, o que é o virtual? este blog andou falando disso no ano passado: segundo pierre lévy, a humanidade se constituiu através de virtuais. na opinião do filósofo, os três virtuais fundamentais seriam a linguagem, que virtualiza o presente, criando o futuro e o passado e, consequentemente, o tempo; as técnicas abstraem as ações, estendendo o alcance do corpo humano; finalmente, os contratos abstraem a violência, criando as sociedades.

estamos cercados por virtuais, alguns muito antigos, como dinheiro [parte dos contratos], que é um virtual de poder de compra: ao invés de levar uma vaca para a loja e trocar por um celular, levamos papéis que representam nosso poder aquisitivo [resultado, talvez, da venda da vaca...]. mais comumente, pagamos com um plástico que é, em si, um virtual do dinheiro, ou seja, um virtual de segunda ordem.

pilhas de dinheiro

observando por tal ótica, estamos nos virtualizando há milênios e isso é muito legal: o "virtual" não é nenhum susto que começou ontem; estamos nos aconstumando a ele à medida que nós próprios o estamos construindo e nos virtualizando. e vamos nos virtualizar ainda mais. no caso do dinheiro, não é difícil imaginar um futuro onde poder de compra estará completamente virtualizado. é só imaginar que todos os créditos e transações financeiras tenham sido informatizadas e estejam na rede. tipo… ninguém mais tem ou anda com dinheiro "físico", em notas, moedas e cartões de crédito, débito e o que mais. ao invés, pagar por algo significa transferir créditos meus para alguém [isto é, sua "conta"] que me entregou um bem ou me prestou um serviço qualquer.

parte disso já pode ser percebido agora, quando taxis, em alguns lugares, começam a preferir cartões de débito como forma de pagamento. em brasília, segundo um motorista que ouvi, é muito mais seguro. nada mais óbvio: o assaltante em potencial prefere o motorista que não aceita cartão de débito porque, se este último estiver tendo um sucesso razoável nas suas transações eletrônicas, terá muito menos dinheiro "em caixa". agora generalize isso para toda a economia, da barraca de macaxeira até a loja virtual de música [virtual, também]. resultado?… dinheiro, salário, compras, vendas e empréstimos completamente virtualizados.

vantagens disso? um assaltante pode até forçar alguém a comprar alguma coisa para ou por ele. mas vai ser na rede, virtual, e vai ficar documentado. assaltar pra "pegar" o dinheiro de alguém deixa de ser negócio: o ladrão vai ter que transferir algum valor da minha conta para a dele ou alguma outra. registrado, de novo. pense nas alternativas para tentar extrair dinheiro de alguém sem deixar rastro. vai ser muito mais fácil achar as brechas do sistema e, através delas, tirar do sistema ao invés de alguém em particular.

desvantagens? com as finanças virtualizadas, todos os sistemas de supervisão e controle da sociedade, se quiserem, terão acesso a todas as transações financeiras realizadas por toda e qualquer pessoa, seja pra que for. sem "trocados", mesmo o dinheiro do flanelinha tem que ser transferido através de uma transação em rede, que terá seu local, hora, motivos, valor e envolvidos registrados. para sempre. uma das vantagens da desvantagem é que lavagem de dinheiro se torna quase impossível, se todos os sistemas financeiros estiverem devidamente conectados… inclusive os dos mundos virtuais. olhando para o caos dos sistemas financeiros mundiais, é bem capaz de termos uma parte muito maior deles nesta fora e em rede, em 2020, por razões de controle [sobre as instituições] e sobrevivência [de todos nós].

até aqui tudo bem, você pode dizer, até porque "eu não tenho nada a esconder". já falamos disso nestes textos sobre o futuro da internet e a descoberta -óbvia- é que todo mundo tem muito a esconder [veja texto desta série neste link]. e a humanidade depende, em boa parte, de assimetria de informação, ainda mais quando tratamos de mercados, custos e preços. virtualizar, informatizando tudo, vai ser muito bom, vai simplificar muita coisa. por outro lado, podemos perder uma parte considerável do que se acha que são, hoje, liberdades e direitos humanos fundamentais. e olhe que, até aqui, só falamos de virtualizar, de forma mais radical, o dinheiro, coisa que já é um virtual há milênios.

mas vamos olhar também o outro lado da previsão, que tem a ver com a interface cada vez mais difusa entre o tempo pessoal e o do trabalho. para isso, vamos partir do princípio de que estamos e estaremos vivendo em uma sociedade que, cada vez mais, será da informação e do conhecimento. ou seja: no médio prazo, quem ainda tiver alguma função sócio-econômica que convenhamos relacionar às noções atuais de trabalho e emprego [e renda] estará quase que certamente trabalhando em e com conhecimento.

ghost face imagem virtual

quando seu trabalho é de conhecimento, seu tempo pessoal, já hoje, não se separa de seu tempo de trabalho. você, na prática, não desliga a parte de seu cérebro que resolve os problemas do trabalho quando, por exemplo, está na praia. aliás, é bem provável que na praia, separado do seu "local" de trabalho, pegando onda em maracaípe, lhe venha alguma idéia sobre como tratar um dos "problemas" do trampo.

e o melhor é que isso não deveria ser nenhuma novidade. imagine um nativo, numa selva ideal, intocada por invasores. de quantas fontes de informação depende, a qualquer momento, a sobrevivência daquele indivíduo e seu grupo? ele sai para caçar e, ao contrário do que pensamos, não está absolutamente concentrado no macaco, no topo da árvore, que ao ser acertado por uma flechada será a proteína do almoço de amanhã. há um amplo contexto ao redor do nosso caçador: sua atenção tem que ser dividida entre uma multitude de sinais, desde pássaros agitados por causa de algum predador [a onça que pode estar atrás] até os estalos, à frente, que podem se transformar num bote mortal de serpente em poucos segundos.

macaco arvore o caçador tem que dispensar ao seu alvo o que passamos a chamar, há pouco tempo, de atenção parcial contínua. o alvo e um monte de outras coisas têm que estar no foco, o tempo todo, um pouquinho de cada vez e simultaneamente. isso vem a ser a base do que a revista TIME denominou da "geração multi-tarefa" e que o professor de educação da ufba, nelson pretto, chama da "geração alt+tab", se referindo ao mecanismo padrão de troca de foco entre as janelas de windows. mão na direção outra na marcha, um ouvido no rádio do carro, juca kfouri -e nós- torcendo pela queda do ricardo teixeira, outro na rua, um olho no trânsito e outro no celular -pra ver quem está chamando- e olha que o  sinal vai fechar… nós somos, sempre fomos, multi-tarefa.

mas não é só: a extensão -ou virtualização, usando a rede- dos locais físicos de trabalho, que vai acabar levando à extinção dos locais de trabalho nos casos em que as ferramentas possam ser informatizadas e providas à distância, vai fazer com que o tempo pessoal deixe de ser compartimentalizado em horas "de repouso", versus horas "de trabalho", onde alguém bate ponto e tem sua capacidade de trabalho alugada, por alguma instituição, por hora.

vamos voltar, paulatinamente -e 2020 está antes da metade do caminho- a uma situação em que seremos remunerados por resolver problemas e não por hora de aluguel de nossas capacidades. o trabalho escravo, no passado, obrigava o indivíduo a estar disponível o tempo inteiro, a vida inteira. o trabalho "de ponto" a que nos obriga a legislação trabalhista brasileira em quase todos os casos, reduz tal disponibilidade a cerca de um terço do dia, garantindo férias e mais um bocado de coisas. e, na maioria dos casos, desacopla o empregado do risco e do sucesso do empreendimento.

relogio de ponto bater "o ponto" e trabalhar num "local de trabalho" está diretamente associado à escassez das ferramentas com as quais o trabalho é feito e ainda fará sentido, no futuro próximo, para um certo número de profissionais. mesmo quando ambientes são essenciais para o trabalho. olhe para os cirurgiões: a maioria já não "bate ponto", resolve problemas e é remunerado por isso. da mesma forma, não há nenhuma razão para que o professor [sempre] dê aulas "na escola", se houver disponibilidade de ferramentas e infra-estrutura de conexão que integre comunidades de aprendizes,

tenho experimentado, na última meia década, trabalhar de qualquer cidade ou  prédio com gente em muitos outros lugares e prédios. às vezes, de um hotel em são paulo, entro em contato, via skype, nimbuzz, emeio, blog, rede social, twitter… com dezenas de pessoas, para resolver problemas, entre 11 da noite de 2 da manhã. e a maioria dos emeios que sai do meu laptop, no hotel, foi composta no vôo recife-guarulhos, que ainda é uma das poucas três horas em que ninguém consegue me encontrar online. por enquanto: vem aí cobertura 3G dentro dos aviões, coisa antecipada por este blog muitos meses atrás.

dá pra notar que os dois temas deste texto estão conectados: quanto mais nos virtualizamos, mais difusa se torna a separação entre os tempos do trabalho e pessoal. isso é bom ou ruim? como tudo na vida, depende…

em 2020, as cidades estarão muito mais conectadas entre si e, dentro delas, seus bairros e prédios estarão mais conectados. será muito mais fácil trabalhar sem ir até o local de trabalho… e você e eu não precisaremos jogar fora quatro horas, por dia, no trânsito, para ir até o lugar onde, no passado, estavam as ferramentas necessárias para realizar nossa tarefa. empresas que continuarem insistindo em trazer as pessoas para um local de trabalho singular poderão ser forçadas a pagar impostos mais altos por isso, para compensar o custo logístico que infligirão à região onde estão situadas.

mas, alguém diria… você pode ficar viciado em trabalho e trabalhar o tempo inteiro, exatamente porque os meios estarão com você [em casa ou perto dela] ou em você [no longo prazo, implantados em você...]. sim, você pode ficar viciado em trabalho. isso pode fazer muito bem à sua empresa, por um tempo, e a você, também por um tempo. mas pode virar um vício radical, uma neurose, daquelas que precisa ser levada a sério e tratada. muita gente pode ficar viciada em trabalho, num cenário como o descrito acima. mas será que isso faria mais mal à sociedade do que as doenças de trabalho causadas pelo trânsito que se enfrenta pra ir trabalhar ou, pior, pelas mazelas pessoais e sociais advindas de práticas de "trabalho" em que uma parte dos empregados bate ponto e não faz nada, gastando o expediente, na sua "repartição", a ver navios e contaminando os companheiros?…

workaholic

é muito provável que não. mais virtualização, com uma separação bem menor entre o abstrato e o concreto, fundindo ambos em uma [quase] só realidade, tornará possível levar o trabalho às pessoas e não as pessoas ao trabalho. esta é uma parte inevitável do futuro. parte dela já acontece agora e muito mais vai estar rolando daqui a doze anos. neste cenário, e pra quem está começando agora, é bom olhar pro futuro com olhos virtuais e pensar em como se remunerar, num mundo em rede, resolvendo problemas, estejam onde estiverem. este vai ser o jeito do futuro. e já pra muito mais gente e em muito maior parte, daqui a meros doze anos.

idoru-cover pra terminar, uma recomendação de leitura sobre o virtual e os nossos tempos, num futuro mais próximo do que talvez se possa imaginar: idoru, novela escrita por william gibson em 1996. idoru é o japonês para ídolo, que os americanos acham que veio de idol, mas deve ter vindo mesmo de ídolo, em português. o ponto alto da história é o casamento de uma estrela de rock, rez, com um idoru, rei toei, nada mais nada menos do que uma construção virtual, um ídolo sintético ideal que existe na realidade mas que não é… concreto.

a novela deixa claro que todos os ídolos são construções e que tanto faz, mantida uma certa distância, se são concretos ou abstratos. rei toei, um virtual, não separa trabalho e lazer, move montanhas e mundos, tem legiões de fãs e, ainda por cima, vai se casar com alguém de… verdade.

rei toei guarda uma semelhança com as bandas de adolescentes que espocam aqui e ali, onde os participantes saem de uma linha de montagem operada por empresários e produtores [e mídia] e são, quase sempre, vazios. isso não impede que sejam adorados de forma frenética por multidões de outros adolescentes que gostariam muito de estar em seu lugar ou… casar com eles. neste presente, nosso e bem real, já padecemos de uma certa confusão entre estes concretos e abstratos.

o passo à frente de gibson é criar uma celebridade abstrata, idolatrada, capaz de levar um dos maiores roqueiros [digamos] concretos do planeta a querer se casar com ela. ou seria, apenas, uma conjunção de interesses manipulada pelos gestores de ambos os lados? é o futuro, diria um dos personagens, e não vou revelar aqui… vá ler o original. vale a pena.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

internet em 2020 [4]: propriedade intelectual

relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado no fim do ano passado, chegou a seis conclusões. para tal, mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede foram consultados. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE, o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA e o terceiro sobre o futuro das INTERFACES.

hoje, vamos falar sobre propriedade intelectual. o PIP prevê que... Those working to enforce intellectual property law and copyright protection will remain in a continuing arms race, with the crackers who will find ways to copy and share content without payment… na próxima década continuará a disputa entre os donos de copyright e defensores de propriedade intelectual, de um lado, e crackers [e/ou piratas] do outro; a cada nova barreira contra disseminação de conteúdo imposta pelos primeiros, os segundos desenvolverào contra-medidas capazes de desbloquear o "material" e disseminá-lo sem pagamento de direitos, na rede.

em suma, o PIP prevê que o estado de coisas da rede continuará como hoje. eu acho que não. escrevi muitas coisas, no passado recente, sobre a "pirataria", ou sobre o conflito entre o passado e o presente dos modelos de negócio de conteúdo e sua distribuição. vamos dar uma olhada nos últimos quatro textos.

em 05.08.08, saiu pirataria: chegou pra ficar: lá, comentamos que… agora é oficial: a pirataria chegou pra ficar. estudo que acaba de ser publicado pela MCPS-PRS [aliança inglesa que representa os donos do copyright de mais de 10 milhões de títulos musicais] e bigChampagne [de medição de audiência online] mostra que, mesmo quando o preço de um bem digital chega perto de zero [caso do último álbum do radiohead, cujo preço podia ser escolhido pelo usuário], a vasta maioria das cópias que circula na rede vem de sites piratas.

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dizendo de novo: mesmo quando o preço de um bem digital é ZERO, boa parte de sua distribuição é feita de forma não autorizada pelo proprietário. isso significa, entre várias outras coisas, que as plataformas de distribuição de conteúdo da indústria estão fora de sintonia com os mecanismos de busca, acesso e consumo do público, mesmo que ambos estejam na rede. mas de que adianta seu preço ser zero e seu material não aparecer na busca do limewire ou vuze?

em 12.08.08, saiu a parceria estúdio-pirataria, onde se dava conta que…  estúdios japoneses de anime [mercado de US$20B por lá] estão testando youTube e outros sites de compartilhamento de conteúdo como forma de ampliar sua interação com espectadores e usuários. kadokawa, a galera que faz haruhi suzumiya, está gastando US$1M para descobrir como é possível [se é que é] fazer um mashup de suas operações comerciais com o material gerado por fãs na internet.image

ou seja: será que dá pra diminuir o conflito com meus próprios consumidores e tratá-los como parte da minha [ou da nossa!] ecologia de valor? principalmente quando eles podem estar fazendo coisas que eu nunca 1] pensei; 2] saberia fazer nem 3] distribuir na velocidade e custo que eles fazem?… para trazer os fãs pra "dentro" de casa, tenho que mudar mais do que minha disponibilidade de encontrá-los no meio do caminho entre produção, distribuição, combinação, redistribuição e consumo: tenho que oferecer uma plataforma segura, do ponto de vista de propriedade intelectual e sua gestão, que não exponha fãs e colaboradores bem intencionados ao risco de, de repente, estarem sendo processados por infringir direitos [se o "dono" da coisa não gostar da minha "arte", por exemplo].

pra isso, naquele mesmo texto, se comentava que o… problema de compartilhamento e recombinação tem solução trivial. é só usar o modelo de proteção e autorização definido pelo creative commons, que permite ao autor estabelecer o nível de proteção que deseja para seu trabalho. quanto mais gente publicar seu material usando um mecanismo transparente como o de creative commons, mais coisas poderão ser feitas de forma inovadora, na rede, sem que seja necessário licenciar todo o material de base primeiro. e permitindo o compartilhamento de receita [se houver] depois.

ou seja: existe uma proposta prática e fácil de ser aplicada para tratar conhecimento não como ponto de chegada ou produto final, mas como ponto de partida e parte de um processo, para sempre inacabado. mas muito pouco tem sido feito, pela indústria, para discutir o assunto nestas bases. e menos ainda para disponibilizar [excetuando os indies, que não são "a" indústria] conteúdo desta maneira.

em 16.10.08, saiu… pirataria: a guerra, os lados e os dados, onde se 09_12_pirata-peg.jpgexpunha o muito duvidoso valor dos dados usados mundialmente no combate à pirataria. de acordo com o texto de outubro neste blog… a indústria [lá nos eua] diz, há anos [décadas!], que o número de empregos perdidos nos setores afetados por pirataria de áudio e vídeo é um mitológico "750.000". julian sanchez descobriu a fonte: trata-se de um chute, radical, feito em -imagine!- 1986 pelo  secretário de comércio do governo reagan, malcom baldridge, e publicado pelo christian science monitor. segundo balridge, o impacto de pirataria em toda a indústria americana [na época] seria… "anywhere from 130,000 to 750,000 [jobs]". e isso era de bolsas louis vuitton falsificadas até vídeos copiados sem autorização. o número foi pro limite e referem-se a ele, agora, como se fosse a quantidade de postos de trabalho afetados pela pirataria sobre a indústria de mídia.

aqui no brasil, não ficamos atrás na manipulação de dados ou na citação de números sem qualquer credibilidade. no mesmo texto… [segundo o conselho nacional de combate à pirataria]… o país perde, por ano, com pirataria,  R$30B em arrecadação de impostos [e de acordo com o depoimento de um dos deputados que apóiam o fórum nacional contra a pirataria]… "só no ano passado o prejuízo foi de 700 bilhões de reais, quase um terço do PIB do Brasil"… um terço do PIB em pirataria? e com uma carga tributária de quase 40%, o imposto perdido não teria sido quase R$300B?…

o artigo de 16.10.08 concluia que… claro que precisamos formalizar muitos dos nossos mercados. mas porque será que na finlândia, um dos países mais educados do planeta, a pirataria de software é de 25%? e porque será que lá mesmo, apesar de apenas 15% das pessoas reconhecer que copia música da internet, 85% do tráfego de saída das universidades corresponde a P2P?… será que isso tem a ver com os modelos [atuais] de negócio de software e música? aqui, agora, precisamos de uma discussão inteligente [e usando dados reais, confiáveis] sobre o que formalizar, pra que formalizar, pra atender que interesses, quando, e se isso é ou não o melhor para fazer agora. é preciso até entender, de perto, qual a função da pirataria no mercado. além de termos que lembrar, a todos os envolvidos, que em tempos onde as tecnologias de suporte estão mudando muito radical e velozmente, como é o caso dos setores da indústria "de mídia" agora "protegidos" pelo pro-ip americano [e só lá, por enquanto], congelar o passado em legislação e ação federal é suicídio puro. de postos de trabalho, de receitas e impostos, no futuro.

resumindo e olhando pra previsão do PIP, sobre a continuada guerra entre quem tem copyright e quer ser remunerado por ele e quem está na rede, em banda larga, e tem acesso a tudo, num click: não se trata do fim da propriedade intelectual e ponto final. se este fosse o caso, não haveria uma outra guerra, a de patentes, no ar. só em 2008, a IBM registrou 4.186 patentes nos EUA, recorde da companhia em todos os tempos e mais de tres vezes o registro da microsoft. no total, foram concedidas quase 160 mil patentes nos EUA em 2008.

a "pirataria" a que todos, inclusive o PIP, se referem com frequência é de música, vídeo e software. e ela existe, em boa parte, hoje, porque seu modelo de negócios ainda está em boa parte baseado no suporte físico para entrega do conteúdo ao comprador. e tal suporte físico foi, literalmente, evaporado. quem entendeu isso não está sendo pirateado… veja o caso de google. tudo o que vem de lá é software como serviço, na rede. mesmo que você instale alguma coisa, como gmail no seu celular, só traz a interface, pois as funcionalidades por trás dela estão na rede.

esta quarta previsão do PIP, caso se confirme, é preocupante. vai significar que, daqui a doze anos, ainda teremos uma boa parte das coisas que deveriam estar na rede circulando por aí sobre suportes físicos falidos. aliás, tem coisa que, mesmo já estando na rede, hoje, não deveria durar muito, como venda de música como "arquivo". música e vídeo [e software] tem que passar a ter um tratamento negocial similar à assinatura de um serviço, temporário ou permanente, ao invés de serem distribuídas como arquivos que podem se perder no seu drive, celular ou onde forem armazenadas. uma vez assinadas, o provedor cuidaria para que o conteúdo pudesse ser usado a seu bel prazer, de acordo com direitos que você adquiriu.

mas isso pode levar tempo. e aí nós chegamos ao último dos quatro artigos recentes que o blog publicou sobre o tema, em 12.11.08: inovação aprendendo com… pirataria? o texto começava dizendo que… pode ser, pode ser. quase certamente sim. recentemente, neste blog, tratamos dos números da pirataria no mundo [e no brasil], e vez por outra temos falado de luta entre o lado de lá [do modelo fechado de propriedade intelectual] e o lado de cá [dos modelos flexíveis, ou abertos, de copyright]. desta vez vamos falar do mesmo assunto de uma forma, digamos, mais radical: o que pirataria tem a ensinar pra inovação?… visto por um outro ângulo, lutamos contra os piratas ou aprendemos com eles?

pirate-cover.gifeste texto trata de uma conferência de matt mason, autor de the pirate’s dilemma, livro em que ele… tells the story of how youth culture drives innovation and is changing the way the world works. It offers understanding and insight for a time when piracy is just another business model, the remix is our most powerful marketing tool and anyone with a computer is capable of reaching more people than a multi-national corporation… ou seja, onde se historia como uma cultura jovem e de jovens muda os processos de inovação e por onde se muda os modelos de negócio do mundo… e onde se propõe a idéia de que pirataria é só mais um modelo de negócios, onde remix é um dos mais poderosos instrumentos de marketing e onde qualquer um com um computador [nota: computador, hoje, é o mesmo que computador ligado à rede] é uma multinacional.

o resumo da conversa de mason, que eu sugiro fortemente que você vá ler [tá resumida e comentada em sete parágrafos, no blog], é simples e radical: pirataria é só mais um modelo de negócios, com suas próprias noções de mercado, cliente, ecologia de valor e todo o resto. pirataria sempre existiu e existirá sempre. e combatê-la -em áudio, vídeo, software- tem a ver com a melhora da sua oferta, e não com a perseguição aos piratas, especialmente quando eles estão vendendo a mesma coisa que você vende, com a mesma qualidade, por 1/10 ou 1/20 do preço. ou distribuindo de graça. o resto é conversa. e tomara que, neste ponto, o PIP tenha errado muito e todo mundo se mude mesmo pra rede, inclusive -e principalmente- do ponto de vista dos modelos de negócio.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

internet em 2020, [3]: as interfaces

relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado neste fim de ano, chegou a seis conclusões, depois de consultar mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE e o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA.

hoje, vamos falar sobre interfaces. o PIP prevê que... Voice recognition and touch user-interfaces with the internet will be more prevalent and accepted by 2020…. reconhecimento de voz e interfaces sensíveis ao toque serão predominantes e aceitas pelo grande público em 2020.

há décadas, o paradigma que guia nossa interação com sistemas de informação é baseado em janelas, ícones, menus e apontadores [o acrônimo do conjunto, em inglês, é WIMP {para windows, icons, menus & pointing devices}, explicado neste link]. tal conjunto está quase que diretamente associado à metáfora do "desktop", ou topo de mesa de trabalho, ao redor da qual foram construídos quase todos os mecanismos conhecidos de interação entre os usuários e computadores. daí que vêm acessórios dos sistemas operacionais [como as calculadoras e blocos de notas], as latas de lixo e por aí vai.

se você está sentado em uma mesa de trabalho num escritório, wimp & desktops fazem muito sentido. mas e se estamos jogando star wars num console? ou tentando nos entender com um sistema de informação através do telefone?… e se você não pode usar as mãos, por alguma razão [no momento] ou tem dificuldades auditivas, visuais ou motoras, permanentes?… e se você estiver perguntando alguma coisa ao carro

imagine-se, pra começar, na chuva, à noite, perdido em algum lugar de são paulo, capital. se um guarda pegar você usando o celular, quase cem paus de multa mais quatro pontos na carteira. mas é mais provável que o risco de usar celular ao dirigir seja menor do que o de interagir com o sistema de navegação por satélite, que aqui terminamos por chamar de GPS. tente. e não diga que eu não avisei.

mas não é só. e se, no futuro [estamos falando de 2020, pelo menos] você estiver interagindo com sua casa? este é o caso, por sinal, no presente. temos que interagir com TVs [algumas têm menus ilegíveis e ininteligíveis], micro-ondas, lavadoras, aquecedores, sem falar em programar o ar-condicionado. tudo isso é interface.

aliás, é muito mais do que interface. o PIP, ao invés de discutir interfaces, talvez devesse ter considerado os próximos tipos de "experiência de uso" ou "de usuário" que gostaríamos de criar e ter.

e você diria: qual a diferença? em all tomorrow’s parties, colin laney, um dos caracteres usados por william gibson na trama, está conectado diretamente a um dos pontos centrais da internet de sua época. direto, direto mesmo: a rede direto no seu nervo ótico. a experiência de uso que laney tem da internet não se parece com nada que a gente possa pensar, na prática, hoje. daí que vem parte da diferença: a interface com o usuário é uma parte da experiência de uso. pequena, talvez.

whitney hess criou uma lista do que experiência do usuário [UX, do inglês user experience] não é… onde ela diz que interface é só uma parte do quebra-cabeça de interação; ou que seria, como dizem alguns, "parte do processo". segundo hess, UX é o processo. um pouco mais além, eric heiss define UX como sendothe perception left in someone’s mind following a series of interactions between people, devices, and events – or any combination thereof… a percepção deixada na mente depois de uma série de interações envolvendo qualquer combinação de pessoas, dispositivos e eventos.

pela definição acima, UX tem a ver com tudo ao nosso redor, gente, coisas e eventos, e não só com PCs, celulares, telas multitoque, voz e internet. isso deveria ter, como consequência, que os desenhistas das coisas todas deveriam estar preocupados em entender as pessoas, coisas e eventos ao seu redor e ter métodos e processos para tal. voltando alguns parágrafos, e face ao passo acelerado em que as tecnologias de comunicação e computação avançam, o PIP deveria ter perguntado sobre as experiências que as pessoas provavelmente estarão tendo em 2020, e não se telas sensíveis ao toque e/ou voz serão preponderantes.

mas o futuro é um tempo-espaço muito esquisito. na maioria das vezes, tendemos a projetar uma combinação de passado recente e descobertas tecnológicas atuais que nos parecem "de futuro" como a solução [ou a visão] do futuro. veja a imagem abaixo…

villemard gente voando paris 1910 2000

a gravura acima é uma entre uma dúzia de litografias de villemard, datadas de 1910, imaginando o mundo em 2000 [cortesia da bibiooteca da frança: vá ver o resto, vale a pena]. tal tipo de previsão de futuro, a noventa anos de distância, quase nunca acerta o alvo: segundo a visão do artista, o meio de transporte padrão, hoje, seriam aviões pessoais parecidos com a demoiselle [construída em 1908] de santos dumont… que era considerado herói em paris à época. note que não há trânsito na rua…

porque isso acontece? observe o gráfico a seguir, de um dos relatórios do projeto intelligent infrastructure systems do foresight institute do governo inglês:

disruptions foresight graph

em qualquer presente, há bolsões de futuro. as três curvas acima, no presente [2005, na imagem] correspondem a 1] ao que está sendo criado, desenvolvido e usado agora [a linha vermelha; exemplo: telas multitoque, como no iPhone e em todos os net e notebooks que vão aparecer em breve]; 2] ao que está sendo demonstrado, usado em pouca escala e pode vir a assumir o lugar das tecnologias correntes no curto prazo [a linha azul; dentro de 10, 15 anos, que tal papel e caneta, de novo? veja a liveScribe pulse smartPen, por exemplo]; finalmente, 3] o que está sendo pensado, explorado como conceito e incorporado em dispositivos e pode vir a ser usado em 30, 40 anos.

no último caso [a linha verde], poderiam ser as lentes de contato conectadas à internet com as quais os personagens de rainbows end, novela de ficção científica de vernor vinge, se comunicam usando sming, ou silent messaging. você pensa, seu pensamento busca [na rede], conecta a busca com alguém, chama um taxi, abre a casa… sming pra tudo e muito mais. sem falar que as lentes, assumindo o papel de filtro e displays, também servem pra lhe mostrar o mundo através de skins: você está na marginal do tietê, mas vê, ao invés, o champs élysèes. radical. e vinge datou sua novela como near future history, daqui a poucas décadas.

mas vamos dar razão ao PIP: talvez nada disso role até 2020, que é só daqui a uma década. talvez seja mesmo o caso que, daqui até lá, o que gostaríamos que fosse um conjunto de experiências de uso muito mais sofisticadas e elegantes acabe sendo apenas mais telas multitoque e mais voz como interface. e pior: pode ser que quase tudo, na internet, continue andando segundo a lei de nielsen para UX na rede: segundo ela, como todo mundo passa muito mais tempo nos outros sites do que no seu, todos querem ver seu site como todos os outros sites. daí, fica tudo na mesma e pouca coisa muda. se for só isso, vai ser uma pena, pois estaremos vendo mais do horizonte vermelho do gráfico acima.

mac128 first MAc mas o futuro vem do futuro e nos reserva muitas surpresas. sempre. eu mesmo vi muita gente, quando apareceu o primeiro mac lá em 1984, dizer que aquela "coisa" de "interface gráfica" nunca ia pegar. e olha que o mac era o futuro vindo do passado… assim como UX. ao contrário do PIP, prevejo que, no futuro próximo, a experiência, o processo, valerão muito mais do que a interface em si. quem viver verá.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

internet em 2020, [2]: transparência e privacidade

relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado neste fim de ano, chegou a seis conclusões básicas, depois de consultar muitas centenas de especialistas, desde gente que desenhou a internet até a galera que faz a rede funcionar hoje. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE e você pode encontrá-lo neste link.

hoje, vamos falar sobre transparência e privacidade. para 2020, o PIP prevê que... The transparency of people and organizations will increase, but that will not necessarily yield more personal integrity, social tolerance, or forgiveness… a transparência de pessoas e organizações vai aumentar, mas que isso não necessariamente vai produzir mais integridade, tolerância e capacidade de esquecer e perdoar.

a razão fundamental para tal conclusão parece ser muito simples: tecnologia, ou novas formas de conectar pessoas e instituições através dela, não muda as pessoas [e instituições] em prazos curtos [como 12 anos]. o tempo da mudança social é muito mais longo. falando de tolerância, dá pra imaginar, pela mera existência da rede e suas tecnologias, israelenses e palestinos conversando e resolvendo o maior e milenar conflito do oriente médio em uma década? acho que não. uma disputa medida em mortes, invasões, foguetes, guerras, que os lados imaginam escrito nas tábuas das leis de cada parte, talvez não possa ser reescrito simplesmente porque uma nova tecnologia de conectar pessoas está por perto.

mas tolerância não é a única preocupação de quem está na rede. a internet é uma fantástica máquina de publicar, conectar e interagir. pouca gente, especialmente entre os mais jovens, imagina as consequências de botar sua vida inteira numa página, hoje. dia destes achei um emeio que enviei para uma lista em 1983, armazenado e indexado em um site qualquer. nada de que eu me arrependesse, então não me faz a menor diferença. mas quantos, entre os 13 e os 19 anos [ou mais], estão escrevendo e publicando coisas, hoje, das quais não se orgulharão muito em uns poucos anos? isso sem falar na informação que, mesmo eu e você não querendo, acaba à disposição dos sistemas de informação pelos quais passamos no dia a dia.

viktor mayer-schönberger [sobre quem eu escrevi neste link, em 2007]… "defende a tese de que os sistemas de informação devem, necessariamente, esquecer. acontece que as tecnologias para captura, publicação, armazenamento, replicação, busca e disseminação de informação, combinadas na rede nos últimos anos, criaram uma nova capacidade: a incapacidade de esquecer. nunca, em nenhuma época, ninguém teve tanta informação sobre tantas pessoas e seus hábitos como certas empresas estão começando a ter, na rede".

 

segundo mayer-schönberger, temos que começar a implementar uma ecologia de informação, onde o sistema legal deveria obrigar quem coleta dados a criar software que esquece com o passar do tempo.ou seja, a menos que determinemos o contrário, uma vez expirado o prazo de validade, por nós definido, dos dados que confiamos à loja, máquina de busca ou site de notícias, nosso rastro por lá deveria ser evaporado. mas este não é o caso hoje: em dezembro passado, google saiu da lista das 20 companhias mais confiáveis no tratamento da privacidade de seus usuários. google -se conseguir identificar você- guarda tudo o que você faz nos sites da empresa por nove meses… e pode entregar tudo à justiça, se for requisitado, ou usar os dados para qualquer tipo de transação que ache "razoável", como melhorar a resposta a uma pergunta que você faz, oferecer anúncios, o que for.

pouquíssima gente, na rede, sabe navegar de forma anônima. se você quiser tentar, veja como neste link. não lhe fará mal e pode lhe levar a descobrir coisas, na rede, que você não consegue saber hoje, exatamente porque muitos sites sabem muita coisa sobre você. muitos sabem, olhando para seu endereço IP, onde é que você está agora e respondem a sua pergunta [ou oferecem serviços] praquele lugar. e você, naquela hora, pode não estar interessado nisso…

clip_image004mas há mais. um dos argumentos mais falaciosos, usado por muita gente, segue a linha do… "não tenho nada a esconder", para acusar quem defende a privacidade, na rede, de estar fazendo alguma coisa imoral ou ilegal. não tem nada a esconder? então porque não deixa o vizinho tirar fotos suas tomando banho ou na cama, com a mulher, numa daquelas noites quentes, e publicar na internet? imagine o milhar de outras situações que não queremos ver disseminadas, na rede ou em qualquer outro meio. de repente, temos tudo a esconder. simples assim.

todo mundo tem muito a esconder. a privacidade é um dos princípios essenciais da vida e um dos direitos humanos fundamentais. daniel solove, da george washington university law school, escreveu um paper precioso sobre o assunto ['I've Got Nothing to Hide' and Other Misunderstandings of Privacy], onde o argumento "nada a esconder" é desmontado passo a passo. o artigo está em primeiro lugar na lista de downloads da SSRN [rede de pesquisa em ciências sociais] há um ano. vale a pena ler. para quem quiser ir mais fundo, o mesmo autor liberou na rede todo o texto de seu livro The Future of Reputation: gossip, rumor and privacy on the internet. o capítulo dois [How the Free Flow of Information Liberates and Constrains Us] é uma excelente leitura em nosso contexto.

finalmente, transparência. é certo que a rede vem aumentando a transparência de pessoas, instituições e, principalmente, governos em países democráticos. transparência é a base para a boa governança; sem saber o que realmente está acontecendo nos intestinos de uma organização, como garantir que ela está cumprindo sua missão dentro dos preceitos morais, éticos e legais de uma sociedade?

a falta de transparência é um dos principais insumos para a corrupção, e corrupção não se dá apenas nos meios governamentais. as empresas que têm baixos níveis de transparência e governança costumam sofrer do problema com intensidade muito grande. no seu índice de pagadores de propina de 2008, a organização transparência internacional analisou 22 países quanto à participação de suas empresas privadas em atos de corrupção no comércio internacional. os piores da lista não são nenhuma surpresa: em 17o. lugar, estão brasil e itália, empatados; depois, aparecem índia, méxico, china e rússia. os 22 países da pesquisa correspondem a 3/4 do total de exportações e investimentos do planeta em 2009.

e isso com a estando aí, e nela coisas como o portal da transparência da controladoria geral da união, que permite a qualquer um saber, em bom detalhe, para onde está indo o dinheiro público. vá lá e procure o que está sendo enviado pra sua cidade. é um bom começo; mas é preciso fazer muito mais. além de maior e melhor estruturação dos processos de contratação e acompanhamento dos gastos públicos, é preciso trazer a comunidade -as redes sociais de cada lugar- pra dentro da decisão de gastar o dinheiro e, em tempo real, para o acompanhamento do gasto.

conversei dia destes com um analista de tribunal de contas que tem certeza de que, na maior parte das cidades, gente do povo sabe exatamente quem está roubando os recursos públicos, como, pra que e com quem. quando o tribunal chega, normalmente anos depois, inês é morta. segundo o mesmo analista, trazer as redes sociais naturais do lugar para a internet, para acompanhar a execução dos recursos públicos, faria com que as controladorias e tribunais agissem de forma muito mais célere e precisa, e antes do dinheiro desaparecer.

enfim, se um tipo de agente, na sociedade, não parece ter direito ao anonimato e privacidade na internet, é aquele que decide, executa e controla bens públicos, e isso enquanto servidor público. sua vida privada é -e deve continuar sendo- privada, desde que não se misture à sua responsabilidade pública. como nosso representante no governo, pago pelos nossos impostos, queremos saber de tudo o que faz, com quem faz, pra que faz… e a internet, para tal, pode ser um agente libertador, se soubermos usá-la para tal.

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