Terra Magazine

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

o estímulo, o passado e o futuro

srlm às 14:35

dias atrás, alguém inventou uma notícia sobre a descoberta de um número inteiro que superaria qualquer outro já conhecido "por uma porrada". segundo o comitê de cientistas que teria descoberto o novo número, batizado de estímulo, ele "cresce continuamente, em composições fatoriais, devorando todos os zeros no seu caminho"…

claro que é brincadeira, mas com uma pitada de realidade: por todo ângulo de que se olha a crise mundial, os números são astronômicos e não param de crescer. nos EUA, depois de aprovar um estímulo de  US$787B [veja a comparação com o new deal, de roosevelt, neste link] , o governo mandou avisar ao mundo [que o financia há décadas] que o déficit do orçamento federal para 2009 vai ser de US$1.75T [isso mesmo, trilhões], 12.3% do PIB de lá ou cerca de um PIB do brasil. o recorde anterior, um buraco de US$455B, foi deixado pelo pouco saudoso g. w. bush em 2008.

 

pra onde vai todo este dinheiro, que será sugado, em boa parte, de investimentos que noutros tempos seriam realizados no resto do mundo? uma parcela, como diz o orçamento que o congresso americano ainda tem que aprovar, deve ir para grandes projetos de infraestrutura concreta [estradas, aeroportos...] e abstrata [mais e melhor educação, por exemplo]. mas uma parcela muito considerável [mais de US$250B] será usada para "recuperar" instituições financeiras falidas [por uma combinação de frouxidão regulatória, ganância e incompetência], outro tanto para indústrias sem futuro [por falta de projetos e produtos competitivos e processos sustentáveis para realizá-los] que sobreviviam apenas porque havia excesso de crédito no mercado, enfim, uma boa parte do dinheiro do "estímulo" será enterrado em um passado de futuro muito, muito questionável. isso sem falar em US$140B pra "estimular" a guerra do iraquistão só no orçamento de 2009.

até dá pra entender que, para salvar uma parte do presente, o passado não pode colapsar de vez bem à nossa frente. mas onde está o "estímulo" nos EUA e mundo inteiro, que deveria gerar as novas embraer, google, cisco, apple, microsoft, samsung, amazon e huawei?… certamente não virá, de motu proprio, dos demitidos do sistema financeiro: as culturas de startup e de mesa de operações ficam em galáxias diferentes

nos EUA, já existe um debate muito aquecido sobre como ampliar e acelerar o investimento em novas companhias, nos negócios que hão de criar os empregos do futuro. thomas l. friedman entrou em cena pedindo um "estímulo" de US$20B para as empresas de capital de risco apostarem no que sabem fazer melhor, criar novas empresas. mas  matt harris diz que entregar US$1B para cada uma das 20 maiores empresas de risco americanas não vai levar a mais negócios e mais empregos, mas a investimentos maiores nos mesmos startups… e que o governo precisa entender a cadeia de valor de investimento de risco pra saber onde e quando melhor aplicar o dinheiro público. e tem quem ache que os estímulos de washington, por maior que seja a pressão de obama, terão a velocidade do PAC… em suma, há um grande envolvimento de todos os tipos de agentes, nos EUA, sobre o que fazer agora.

por aqui, o debate sobre o futuro ainda não chegou, muito menos a parte dele que tem a ver com pequenas empresas inovadoras. o país parece que ainda é muito isolado para sentir o impacto das grandes mudanças na economia do planeta, salvo em empresas muito globalizadas como a embraer. mais de quatro mil empregos estão sendo eliminados na empresa de são josé dos campos, sem falar no que pode vir a acontecer nas empresas de sua cadeia de valor.

mas o papel do governo no caso embraer, até agora, foi o de pedir à empresa mais benefícios para os demitidos… sem lembrar que se trata de uma empresa privada, largamente baseada em conhecimento, e que não está demitindo porque quer, mas porque precisa se ajustar rapidamente a um novo tipo e tamanho de mercado, para sobreviver. demitir gente em grande quantidade, em negócios intensivos em conhecimento, é algo que só ocorre quando o risco de insolvência é muito real. nestas empresas, o custo futuro de recuperar o capital humano perdido no passado é sempre muito alto.

no cenário corrente, a embraer seria um caso óbvio para se pensar em estímulo do governo brasileiro, como a europa faz com a airbus, os EUA com a boeing e o canadá com a bombardier. do ponto de vista social, claro que há de se pensar nos que estão perdendo seus empregos agora. mas, do mesmo ponto de vista, a inércia da política federal pode levar a muito mais desempregados no futuro…

o debate sobre o futuro pode não ter chegado mas a crise chegou. os números dizem que ela está confortavelmente instalada na economia nacional e todos deveriam saber que precisamos reagir. esta reação –se acontecer- terá muito a ver com o entendimento [social, por todos os tipos de agentes] de quais são os futuros possíveis, de onde vai haver trabalho e renda nos mercados mundiais e como melhor podemos nos preparar para tais futuros agora, enquanto é tempo.

mas é difícil imaginar o país agindo apropriadamente frente a uma crise destas proporções quando a grande discussão pós-carnaval gira ao redor de uma tentativa de controlar um fundo de pensão estatal por parte de um partido político que, como diz o senador jarbas vasconcelos, "é corrupto".

precisamos levar a crise mundial mais a sério. para isso, e para enfrentá-la sem medo mas com o devido respeito, precisamos reconhecer que ela existe, é grave e que seu impacto na economia nacional pode ser fatal em muitos setores. isto posto, é preciso agir, e rápido. senão o estímulo não vai chegar a tempo de ter qualquer efeito significativo nos pacientes, que são as empresas e pessoas da economia real.

a ficarmos conversando em gabinetes, criando empregos públicos, adiando investimentos essenciais para o país ou esperando que o PAC [como está] recupere o crescimento da economia… vai valer [também aqui] o cartoon de bennett que você pode ver a seguir…

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

o começo do fim da confusão digital?…

[este post foi provocado pela notícia de que a nokia, depois de ver vários fabricantes de computadores entrarem no mercado de celulares, está pensando seriamente em fabricar… computadores.]

PCs, laptops e celulares são meros instrumentos pra “sintonizar” a internet. sintonizar pra produzir, consumir e relacionar informação e seus produtores e consumidores. isto posto, o que diferencia os três “instrumentos”?

olhando a partir de um referencial mais ou menos padrão, o balcão de uma loja [ou sua mesa, se for em casa], PCs são representantes de computação NO balcão, em relação a que os laptops e celulares ficam DEPOIS do balcão. se o referencial formos eu e você, laptops e, bem mais apropriadamente, celulares, representam computação e comunicação CONOSCO. básico. ninguém sai por aí carregando um PC como se fosse um celular, um celular não parecia com um laptop e até pouco tempo não dava pra fazer num celular quase nada do que era possível em um PC ou MAC.

o problema –ou a solução- começou com os netbooks, laptops que começam a se aproximar de um celular [pelo volume e peso, mais do que qualquer outra coisa] e tomou forma e ganhou nome com a gama de celulares representada pelo iPhone, android e pela próxima geração de windows mobile, cujo propósito final é levar a mesma experiência de uso dos PCs, MACs e laptops para o celular. ou vice versa.

quanto mais rápido isso acontecer –inclusive o vice-versa- mais teremos chegado no que poderíamos chamar, de fato, convergência digital. que não é nada mais do que reduzir todos os processos que tratam informação a aplicações sobre a infraestrutura e serviços da internet. feito isso, SMS, chat, telefonia, web, transferência de arquivos, publicação de fotos… controlar o portão da sua casa, abrir seu carro, sua identidade [pra entrar no estádio]… e mais rádio, TV, vídeo, jornal, cinema e, se você quiser, dinheiro, tudo será aplicações sobre a mesma infraestrutura e serviços. simples assim.

pouco importa se toshiba, dell, hp, lenovo, positivo, acer [e todos os outros fabricantes de PCs] também vão fabricar smartphones, se a apple faz iPhones ou se a nokia, agora, vai fazer laptops. façam o que fizerem, o que nós usuários queremos, do lado de cá, é que as coisas que eles fabriquem “sintonizem” a internet usando padrões mundiais e abertos e que os provedores de infraestrutura e serviços [as companhias de rede, “telecomunicações”, TVs…] não atrapalhem o que estamos querendo fazer, aleijando os dispositivos às nossas mãos com dificuldades inventadas em seus sistemas.

e o que nos impede de chegar lá mais rápido, ou tão rápido quanto a disponibilidade dos “sintonizadores”? os modelos de negócio legados [ou seja, do passado] da maior parte dos agentes que intermediam nosso acesso à informação. as TVs ainda querem ter espectadores [quando audiência já virou comunidade], as teles querem vender minuto de conexão [quando estão totalmente implementadas em termos de pacotes digitais…], as companhias de infraestrutura de rede querem controlar o tráfego, habilitando mais isso e menos aquilo… ou seja, mesmo tendo uma convergência de dispositivos cada vez mais clara e imediata, ela vale muito pouco se, por trás, onde o bicho pega, o sistema como um todo não levar em conta o que que a população da rede realmente é e quer fazer. somos indivíduos, produtores e consumidores de informação, em rede. simples.

mas muito difícil de se chegar lá. para tal, é preciso muita gente se envolver, incluindo múltiplas instâncias reguladoras… passando [no caso brasileiro] por anatel e congresso, entre outros, pra gente ter uma rede bem… simples. e não é de hoje que se discute o problema. a seguir, um texto que publiquei em dezembro de 2006 no G1, chamado confusão digital… leia com cuidado e note que, de lá prá cá, pouquíssima coisa mudou:

O noticiário mundial anda cheio de notas, reportagens, entrevistas e promessas de convergência digital, com cada empresa prometendo mais do que outra. Teles prometem YouTube em seus celulares, TVs a cabo entregam telefonia como parte do pacote, provedores de acesso querem fornecer TV via protocolo IP e, claro, quando houver, TV digital há de ser, segundo quase todos, interativa. A ponto de o espectador poder receber uma chamada telefônica, pela TV, bem no meio daquele capítulo intenso da novela.

Convergência digital, visto pelo lado da maioria das empresas de mídia ou do que costumava ser chamado de telefonia, parece ser um fazer tudo (todas as formas de mídia e comunicação) sobre sua plataforma física, qualquer que seja, para todos os públicos, desde que eu — a empresa — tenha controle sobre o que eles — os usuários — fazem.

Mas isso não vai dar certo, em último caso, porque não irá satisfazer justamente o tal do usuário, responsável pela renda e negócio da empresa. Por que não? Primeiro, talvez devêssemos concordar com uma definição de convergência, à qual podemos chegar através de exemplos. O que é um telefone? No passado, era um equipamento com um dial, microfone e fone de ouvido, conectado por fios a uma central telefônica. Bem no passado, era analógico e vez por outra funcionava. Hoje, é uma aplicação, responsável pela transferência bidirecional de áudio entre dois pontos, à qual podem ser agregadas funcionalidades de tantos tipos que, em muitos casos, escondem o tal telefone.

Esta aplicação, tanto como emeio, transferência de arquivos, interação com páginas web, rádio e TV, é possibilitada porque um conjunto de serviços — protocolos específicos para suportar cada tipo de aplicação — construído sobre uma infra-estrutura (processadores, roteadores, cabos, redes dem sio, satélites) que, em última análise, realmente movimenta os bits que tornam possível nossas conversas. Então, por trás da convergência, está uma rede estruturada em camadas: infra-estrutura, lá embaixo, serviços essenciais sobre ela e, no topo, as aplicações que usamos e pelas quais queremos - eventualmente — pagar. Convergência digital é transformar em infra-estrutura, serviços e aplicações, usando padrões abertos e inter-operáveis, o que antes eram sistemas particulares, fechados, cada um de um operador diferente.

E onde entra a confusão digital? Na hora em que uma operadora de celular (Verizon, nos EUA) avisa que vai prover YouTube a seus usuários, ao invés de convergência, é confusão. Por quê? Se fosse convergência, como o celular é um dispositivo que deveria estar funcionando sobre uma rede aberta, a operadora nunca precisaria dizer que vai — ou não — oferecer uma aplicação na telinha do meu celular. O problema seria somente meu: YouTube é um site, tem um endereço, eu vou lá e vejo o que quero. Como nós fazemos com nossos browsers. A menos que o leitor esteja na China, Irã, Cuba e outros países que censuram a internet, a escolha do que ver é livre. A internet é, por definição, convergente. A rede das teles, ainda pensada como telefonia, não é.

As operadoras, de fato, controlam o padrão de experiência que seus usuários têm na rede, deixando-lhes, na prática, pouca escolha. Para que tivéssemos convergência digital real, lá, era preciso primeiro “abrir” as operadoras para a rede. Em outras palavras, seria preciso que elas se vissem como as provedoras de infra-estrutura que realmente são. Compare, por exemplo, com as empresas de eletricidade: nenhuma delas tem a coragem, hoje, de dizer o que nós podemos ligar ou não nas tomadas. Fazemos o que queremos. Num passado distante, até que tentaram. Mas não deu, como não vai dar, no longo prazo, para as empresas de telecom.

O mesmo acontece com as redes de TV a cabo: apesar de ter alguma escolha dos canais que posso assistir, não tenho (pelo menos aqui em Recife) nenhum canal de Angola ou Senegal. Por quê? O distribuidor controla os sinais (digitais) entram em sua rede… de tal forma que só posso escolher entre os canais que já pré-escolhidos. Haveria uma grande audiência para uma TV do Senegal no Brasil? Provavelmente não. Mas se o mundo fosse mesmo convergente — e não confuso como os operadores o tornam –, um pequeno número de espectadores, poucos milhares, tornariam lucrativo ver o Senegal, via IP, no Brasil.

Olhando para as atuais infra-estruturas e serviços (teles e outros) de entrega de aplicações (de telefone a TV e internet) em nossas casas e empresas, não só cada ator que fazer tudo, mas quer, também, controlar tudo e, especialmente o que, como e quando o usuário vê, ouve ou tem acesso. O mesmo pode acabar acontecendo com TV digital, dependendo do caminho que escolhermos: os “operadores” de TV digital, os canais, podem querem ter o mesmo grau de controle que, hoje, as teles e os operadores de cabo têm, ou gostariam de ter, sobre seus espectadores.

É bom lembrar, e saber, que os espectadores, clientes e usuários estão fugindo das infra-estruturas e serviços fechados para sistemas abertos, onde podem definir, escolher e usar o que querem e bem entendem. As experiências que os usuários querem ter os incluem não só como atores, mas, muitas vezes, como diretores e até como construtores de seus serviços. Foi assim que surgiram Skype, YouTube, blogs e as muitas redes sociais que, hoje, ameaçam a mídia clássica e as velhas redes de telecomunicações.

Pode ser que a confusão digital continue ainda por muito tempo. Mas ela não há de durar para sempre. Mais hora, menos hora, teremos um mundo convergente sobre a mesma plataforma de computação, comunicação e controle, estruturada em termos de infra-estrutura, serviços e aplicações que podem ser usadas como, quando e por quem queira, sem interferência de “programadores centrais”. Se as teles algum dia pensaram que poderiam ser redes de TVs e vice-versa, cada um e todos controlando os usuários de suas “convergências”, parece que não vai dar.

Se alguém vai programar o futuro do usuário-espectador, é ele mesmo. E cada operador vai achar, breve, seu novo lugar na convergência de negócios que será criada pela convergência tecnológica. Afinal, confusão não é um bom negócio para ninguém.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

se você pensa que cachaça é…

Tags:, , , - srlm às 23:55

…água, cachaça não é água não… e se você pensa que o carnaval acaba na terça e a quarta é de cinzas, talvez esteja certo, também, que cachaça vem do ribeirão ou não mora perto de onde eu pago IPTU. entre as dezenas de atividades, digamos, etílico-musicais-greantes-carnavalescas da quarta-feira, na programação oficial de recifolinda, estão o acorda urso [em olinda, no alto da sé, às 6h; não vou nem tentar ir, que é cedo demais e ainda tô acabado de hoje {ontem, terça}], o bacalhau do batata, 47 anos de continuidade da folia [em olinda, no alto da sé, às 10h; vou tentar ir, é muuuito bom], a troça carnavalesca mista coveiros em folia [no cemitério de guadalupe, em olinda, às 17h, depois do último enterro; essa eu queria muito ir pra ver que diabos é...] e, em olinda, por fim, a troça carnavalesca mista morreu donzelo, que sai às 19h na rua guadalupe, provavelmente carregando os restos mortais dos coveiros em folia… [na foto abaixo, a saída do "batata" na sé, ano passado, cortesia do JC]

.

e o carnaval de recife, neste 2009, acaba bem mais tarde: como houve um dilúvio na segunda-feira à noite, os shows de silvério e lenine, na várzea, tiveram que ser adiados pra quarta, a partir das 18:30h, na pracinha em frente à igreja. quem perder desta vez… saiba que o alambique vai desaparecer por uns tempos e carnaval, no meio da rua… só no ano que vem.

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domingo, 22 de fevereiro de 2009

sábado em recife e olinda: mundo pegando fogo!

Tags:, , , - srlm às 11:08

faz tempo que o carnaval é o dono do recife e adjacências, mas ontem foi o primeiro dia, digamos, oficial. pra bater o centro, a gente foi pro galo da madrugada, imenso e muito animado como sempre…

Este foi o primeiro ano que o bloco desfila sem a presença do seu fundador, Enéas Freire, que morreu no dia 9 junho de 2008

…depois direto pra olinda, pra ver o mundo pegando fogo, que tava simplesmente espetacular com uma orquestra de pau e corda, entre a maison do bonfim e o sete colinas… coisa pra ver de novo, todo ano…

…depois saímos na CEROULA, a partir do atlântico, com a melhor orquestra de frevo de rua de pernambuco, a do maestro oséas; só vendo pra crer… a saída da ceroula é algo de arrepiar e eu consegui ficar, na saída, onde disputava lugar quando tinha trinta anos a menos: bem à frente do cordão de isolamento da música. ainda aguentei quase uma hora lá; não é brincadeira de criança. o menor armário que garantia oséas e músicos parecia um hulk turbinado e a multidão não cabia na rua de jeito nenhum. hoje, tô todo quebrado…

por fim, pegamos um pedaço do eu acho é pouco [cecília e diana estavam lá, guila também], logo antes de são pedro ordenar a lavagem das almas e das ruas, pra preparar o carnaval do domingo.

daqui a pouco, em recife, chova ou faça sol [são 11h e tá chovendo], tem quanta ladeira as 15 pras 16h no rec-beat e, das 16 pras 17h sai a cabralada da rua da guia. e eu tô lá…

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

não vai brincar? leve algo pra [re]ler no carnaval…

srlm às 08:44

aqui em pernambuco o carnaval já começou [há umas duas semanas] e vai pelo menos até a quinta ou sexta-feira “de cinzas”. dá pra brincar 24 horas por dia, seja em recife e olinda ou em bezerros [nos papangus], nazaré [nos maracatus rurais], pesqueira, bezerros, triunfo, arcoverde e em muitas dezenas de cidades que têm um carnaval local e, ao mesmo tempo, muito especial, por sua história e manifestações culturais.

kk sm cm fev 2009 cabra

eu e cecília vamos estar no batuque da cabralada, onde kátia sai nas damas de passo, no domingo às 16h, na rua da guia e na terça às 1430h no bom jesus. a foto acima foi na saída de domingo passado, no bairro do recife. se você nunca viu, não perca uma das saídas do carnaval. tirante a “cabra” estaremos [e diana e pedro também] em outras dezenas de blocos e troças onde não estamos “dentro” mas logo ali do lado. se você quiser saber o que vai acontecer no recife, entre neste site aqui, da prefeitura, que tudo o que foi comunicado à secretaria de cultura está lá. a programação “oficial” deve dar uns –sei lá- 20% do que rola na cidade até a quarta-feira acabar com a brincadeira.

mas pode ser que você não seja um folião… vai ficar em casa ou na praia e prefere ler um texto [em papel!] sobre tecnologias da informação e comunicação. tem gosto pra tudo e, neste caso, o blog tem uma sugestão: em janeiro, fizemos uma série de artigos sobre o futuro da internet, usando 2020 como horizonte de desenvolvimento e uso da rede. o resultado, que pode ser obtido clicando neste link [ou na imagem abaixo], é um .PDF de 1.8M e 31 páginas, contendo a integra dos seis textos e mais uma pequena apresentação do conjunto, replicada ao fim deste post. faça o download, imprima e leve pra sua praia ou refúgio qualquer, pra onde, se tudo correr bem, você não vai querer levar um laptop. se o fizer, vai acabar trabalhando e aí o feriado perde toda a graça.

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da apresentação dos textos, no arquivo…

nas próximas páginas, você vai encontrar um conjunto de textos curtos comentando e estendendo as previsões do PEW INTERNET PROJECT [PIP] para a internet em 2020 e situando, em alguns casos, os achados do PIP no contexto brasileiro. fazer previsões não é tarefa fácil ou pouco arriscada. segundo niels bohr, Prediction is very difficult, especially if it’s about the future.

as previsões de que o PIP fala são mais razoáveis do que os simples chutes que vemos, quase sempre, aqui e ali. trata-se de um conjunto de cenários, construídos com algum cuidado, apresentados para mais de mil especialistas, que votaram na possibilidade de um cenário qualquer ocorrer da maneira apresentada pela pesquisa, ao mesmo tempo em que expressaram, muitos deles, suas opiniões sobre a viabilidade do que estava sendo proposto como futuro possível e as alternativas que cada um imaginava no caso.

seria muito interessante ver um estudo destes feito e apresentado publicamente no brasil, usando gente daqui e de fora para explicar onde estamos e para onde vamos, partindo de, por exemplo, os dados da brasscom sobre penetração de internet e inclusão digital no país. a construção de políticas, especialmente as de longo prazo para infraestruturas fundamentais como a internet, é coisa séria demais para ser deixada a cargo apenas do governo de plantão. quanto mais gente, de toda parte da sociedade, se envolver em exercícios de imaginação, previsão, proposição e posterior observação, acompanhamento e auditoria das coisas públicas, mais perto elas se tornarão do que queremos ou gostaríamos que fossem.

pra quem não vai pra folia, bom feriado e boa leitura e descanso. pra quem vai, bom carnaval. podem começar pelo DÁ-O-LOUD, o bloco do c.e.s.a.r, hoje às 14h, na praça tiradentes… e se cuidem. este blog só volta ao ar na quarta de cinzas, a menos de alguma gréia momesca que, em meio a tantos maracatus, bois, troças, grêmios, blocos, caboclinhos… a gente encontre tempo pra publicar. EVOÉ!… 

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

crime na internet: um trilhão [de dólares] por ano

srlm às 16:11

um painel de especialistas reunido em davos precificou o crime, na internet e em todas suas formas, em 2008: a conta, sendo paga por governos, iniciativa privada, terceiro setor e indivíduos, no munto inteiro, chegaria a um trilhão de dólares. se dermos crédito a tal número, seria como ver mais que metade do PIB do brasil, para 2007 [US$1.845B, ppp, segundo the economist] sumindo pelos ralos do roubo na rede. bizarro.

imageporque se rouba tanto, na rede? relatório da idc, financiado pela emc e publicado em março de 2008, aponta que 1] o universo digital, em 2007, era 281 exabytes [1 exabyte ~ 10^18 bytes]; o universo digital é tudo que está por aí, em formato digital, de suas fotos no celular às transações de cartão de crédito, vídeos, cds…; 2] o tamanho do universo digital em 2011 [~1.800 exabytes] será cerca de 10 vezes maior que em 2006; 3] em 2007, pela primeira vez, a quantidade de informação criada, gerada ou replicada excedeu a infraestrutura de armazenamento disponível; 4] em 2011, quase a metade de toda a informação digital será de curta duração, se extinguindo sem deixar rastro logo depois de ser gerada ou usada.

segundo o mesmo relatório, a sombra digital de cada um [informação sobre atividades de todos os tipos, on e offline, de imagens de câmeras de vigilância até traços de transações eletrônicas, residente em algum lugar e fora de nosso controle] se tornou [também em 2007] maior do que a informação que cada um cria e/ou detém sobre si mesmo, seu digital footprint. sua “pegada” digital, a informação que você cria e controla, pode ser aproximada por uma calculadora da idc/emc [faça o download aqui]. se ela estiver correta, meu digital footprint é perto de 15GB por ano.

nenhuma novidade até aí, a não ser pela escala. castells, em 1996, já avisava, pelo lado da sociologia, sobre as consequências do que o pessoal de tecnologia estava construindo há décadas: a digitalização dos processos, estruturas de governo e negócios, das coisas como um todo e, por fim, das relações entre instituições, pessoas e coisas. no meio de tal “sociedade em rede” estava e está a internet, sua simplicidade quase óbvia como infraestrutura de conectividade em escala mundial e, mais recentemente, como plataforma de programação e inovação pata tudo e todos.

nada de novo neste quesito, também. e se a economia e as pessoas se mudam pra rede, nada mais natural que o crime faça o mesmo. até porque nossa “sombra digital”, que deveria estar bem guardada e segura nos servidores dos sistemas de crédito, nas escolas e faculdades, em hospitais, nos serviços públicos… parece que não é tão “sombra” assim. por tudo que se sabe, circula tranquilamente pelo submundo, a serviço do crime.

qual foi o maior problema apontado pelo pessoal que se reuniu em davos, a chave da subtração anual de mais de meio PIB do brasil sem que um grande número de criminosos esteja na cadeia?… uma combinação de dois fatores: o aumento significativo do crime virtual organizado, favorecido pela arquitetura [aberta] e serviços [baseados em confiança] da internet.

hoje, vamos tocar no primeiro assunto e, noutro post, da rede e no que pode ser feito [ou não] para torná-la mais segura.

{ crime virtual organizado } os crimes tradicionais, como roubo de identidade e outros dados pessoais, seguidos de invasão de contas bancárias, de compras usando a identidade roubada, deixaram de ser obra de adolescentes escondidos em garagens. trata-se de coisa organizada, profissional, baseada em competência técnica e educação sofisticada, apoiada por infraestrutura de primeiro mundo e por grupos de investidores que sabem, como não poderia deixar de ser, da gravidade de seu “investimento”.

um dos casos mencionados no painel de davos foi o de um advogado que chegou a reunir, em sua “equipe”, cerca de 300 pessoas, incluindo outros advogados, responsáveis por proteger o pessoal “técnico” encarregado de, efetivamente, cometer os crimes.

image um outro caso citado foi o de uma quadrilha que conseguiu desviar os dados de 25 [ou 45?] milhões de transações de cartões de crédito realizadas nos estados unidos para a ucrânia. com tal montanha de informação a seu dispor, a galera do mal comprava produtos no mundo inteiro e revendia na eBay… descobriu-se também que um ukraniano especialista em captura e venda de dados de cartões de crédito, maksym yastremskiy, havia faturado, só com o “negócio” de informação sobre terceiros, US$11M em três anos. os “cartões”, de acordo com seu crédito, eram vendidos por entre US$20 e US$100, em lotes de até 10.000. não é à toa que uma pesquisa recente encomendada pela gemalto mostrou que 74% dos americanos temem ser vítimas de algum tipo de roubo de identidade.

resultado? como este blog discutiu tempos atrás, a segurança das finanças na internet é muito tênue e coberta por uma capa de sigilo que só faz aumentar a desconfiança de um monte de gente. em texto de 20.10.08, comentávamos que…

…o inspetor geral americano está dizendo que a segurança de informação da receita federal de lá não é tão boa como deveria ser para proteger os dados dos contribuintes. hoje, é a vez de notar que, na frança, uma galera conseguiu entrar na conta bancária de ninguém menos do que o presidente nicolas sarkozy e tirou do seu banco "pequenas quantidades de dinheiro" várias vezes. segundo os investigadores, não é coisa de amadores. e o crime na internet cresceu 9% na frança, este ano, contra uma queda de mais de 2.3% no crime em geral, mas em linha com um aumento de 8.9% nas infrações econômicas e financeiras. se os números da estatística francesa estiverem corretos, a internet é "só mais um lugar" para se cometer um crime.

mas a justiça, a lei e a polícia também conta com a arrogância e o azar dos criminosos: maksym “maksik” yastremskiy vacilou e resolveu tirar umas férias na turquia, onde era responsável pelo vazamento de centenas de milhares de cartões de crédito locais. preso, está condenado a 30 anos de reclusão nas nada agradáveis acomodações prisionais turcas.

no brasil, não há estimativas razoáveis e, muito menos, estatísticas oficiais sobre quanto estamos perdendo, online, para o crime organizado virtual. diz-se que, entre 2007 e 2008, o crescimento das fraudes passou de 100%, mas não se consegue muito mais do que isso. e as perspectivas não são boas: há quem diga que quase a totalidade dos crimes financeiros será virtual em pouco tempo. até para os ladrões é mais seguro.

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como se fosse pouco, parece ser claro que, mesmo que medidas extremas sejam tomadas, haverá vazamentos. mais cedo ou mais tarde, de dados que vão habilitar alguém, em alguma parte do submundo, a fazer de conta que é outro alguém. ano passado, uma invasão em um sistema de autenticação de transações financeiras, no EUA, comprometeu todos os cartões de 220 instituições financeiras. na inglaterra, também no ano passado, o governo perdeu mais de 25 milhões de registros financeiros de seus contribuintes, expondo mais da metade dos ingleses a algum tipo de fraude financeira.

nada menos do que 73% dos vazamentos é resultado da ação criminosa de alguém externo à organização que deveria preservar e vigiar os registros. isso dá uma idéia do tamanho do problema de segurança de informação que temos na rede. mas esse vai ser o assunto de outro texto, sobre a arquitetura e segurança da rede, que vai aparecer por aqui depois do carnaval. até lá. e que seus dados permaneçam [só] onde deveriam estar, ao invés de entoarem um muito alegre “vou sair por aí…”

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

latitude e privacidade

srlm às 12:55

image juliana carpanez, do G1, produziu uma reportagem muito legal sobre o novo serviço de google, latitude, que anuncia para o mundo [se você permitir] onde é que seu celular está.

o esquema tem óbvias vantagens e desvantagens nem tão óbvias assim. para montar a conversa, juliana entrevistou andré lemos, bia kunze, ethevaldo siqueira e o autor deste blog. vá lá no G1 ver o trabalho dela, que mostra muito bem um apanhado das respostas dos entrevistados.

abaixo, a partir das perguntas de juliana, as minhas respostas, na íntegra. leitores habituais do blog hão de notar que, ao contrário do texto corrente aqui, o material enviado para o G1 usa a grafia normal do português [como eu escrevia quando estava por lá], com maiúsculas e tudo mais…

Juliana Carpanez, G1: Com a ferramenta do Google, o usuário tem controle sobre sua privacidade (ele pode optar por não mostrar a determinadas pessoas onde está). Ainda assim, você considera o serviço invasivo? Por quê?

Silvio Meira: Imagine que empresas -e pessoas- interessadas na sua localização tenham um pouco mais do que apenas interesse, tenham algum tipo de poder, ou capacidade, para impor que sua localização seja conhecida por elas… Daí, de que adianta você "poder" controlar sua privacidade se, de fato, não "poderá"? Isso pode acontecer em casa, nas empresas, na escola, nos relacionamentos…

JC, G1: Com esse serviço, o usuário só será localizado por pessoas conhecidas (que, teoricamente, não representam uma ameaça à segurança). Dessa forma, acredita que só deve se preocupar com o uso do Google Latitude aquele que tem algo a esconder (por exemplo: mente para o chefe ou para a esposa sobre seu paradeiro)?

SM: O argumento "só quem tem algo a esconder" é equivalente a dizer [segundo Daniel Solove, em 'I've Got Nothing to Hide' and Other Misunderstandings of Privacy] que todos têm algo a esconder; quem pensar que não tem que se imagine fotografado nu, na privada, e a foto publicada no G1. Assimetria de informação [nem eu nem ninguém que se relaciona comigo sabe de tudo um do outro] é parte essencial da infraestrutura de relacionamento da humanidade. Privacidade é um assunto muito sério e essencial para todos e devemos nos preocupar -sempre- com ela antes que a percamos e tenhamos que lutar para recuperá-la.

JC, G1: Por enquanto, esse tipo de serviço ainda é uma novidade e muitos resistem a ele, principalmente por causa da privacidade. Mas você acredita que, com o tempo, as pessoas se acostumarão com essa forma de monitoramento e se preocuparão menos com a privacidade (assim como aconteceu com as redes sociais, onde os usuários freqüentemente expõem muitas informações pessoais a seus  conhecidos)?

SM: Eu acho que muita gente vai se surpreender, no médio e longo prazo, com a volta à tona de suas inconfidências juvenis na rede. Há um texto meu no G1, onde cito Viktor Mayer-Schönberger [este link, de 2007], que defende a tese de que os sistemas de informação [como as redes sociais e os bancos de dados do governo sobre nossas histórias e vida] devem, necessariamente, esquecer. Acontece que as tecnologias para captura, publicação, armazenamento, replicação, busca e disseminação de informação, combinadas na rede nos últimos anos, criaram uma nova capacidade: a incapacidade de esquecer. Nunca, em nenhuma época, ninguém teve tanta informação sobre tantas pessoas e seus hábitos como certas empresas -e sistemas de governo- estão começando a ter, na rede. Provavelmente mais tarde do que cedo, as pessoas vão se preocupar com sua privacidade.

JC, G1:  Que tipo de utilização esse serviço terá, se ele for além do monitoramento gratuito de amigos? Acha que ele pode ser realmente útil para seus usuários?

SM: Sim, muita gente vai querer saber por onde andam seus filhos, empresas de transporte [de todos os tipos, inclusive taxi] vão querer saber onde estão seus veículos, vamos querer saber onde estão nossos celulares e laptops, mas isso pode ser feito por serviços de localização vários, e não necessariamente por este, de Google. Localização, em escala e de qualidade industrial, está aí há muito tempo e já é usado por empresas de segurança, transportes, governo… A "novidade" do serviço do Google é tornar uma pequena parte das funcionalidades disponíveis em serviços, digamos, profissionais, com uma precisão de localização bem menor, para um número potencialmente muito maior de pessoas.

JC, G1: Assim como os usuários aprenderam (ou ainda estão aprendendo) boas práticas no uso de telefones celulares e internet, o mesmo deve acontecer com esse serviço de localização, se ele se popularizar. Por isso, propomos um exercício de futurologia de como será o uso adequado da ferramenta (naquela linha de "netiqueta"). Abaixo, as situações e gostaria que você dissesse qual sua opinião sobre como proceder em cada caso.

JC, G1: Em que situações o usuário deve deixar o localizador ativado?

SM: Quando realmente quiser ser encontrado. Para muitas pessoas e seus grupos, pode ser sempre; para outras, nunca… Eu acho que localização, na verdade, deveria ser um botão de emergência, para ser usado em situações bem particulares.

JC, G1: Em que situações ele precisa desativá-lo?

Em todas as situações em que a informação sobre sua localização, disseminada para o conjunto de pessoas que pode ter acesso a ela, for comprometer sua privacidade ou a assimetria de informação que lhe protege e às suas histórias. Imagine que você está atrasado para um compromisso e diz pra alguém, X, que está num engarrafamento; X conhece Y, que tem acesso à sua localização… X liga pra Y e por acaso descobre que você, na verdade, dormiu demais… Você vai precisar desligar a informação sobre sua localização em MUITAS situações.

JC, G1: Em que casos alguém (familiar, amigo, colega de trabalho) pode efetivamente cobrar que um usuário do Google Latitude deixe o serviço habilitado?

SM: No meu entender, quase nunca… pelo menos no caso de pessoas emancipadas. Consigo imaginar meu filho de sete anos tendo um localizador ligado… com uma interface não invasiva que me avise se ele sair da rota [onde deveria estar]. Fora isso…

JC, G1: Se o usuário deixar o localizador desativado e for cobrado por isso (mulher, chefe…), o que deve dizer?

SM: Que o serviço estava fora do ar, que seu celular estava com problemas… tudo o que já se diz quando alguém liga e você não quer atender. Uma operadora, por aqui, tinha um serviço que avisava, pra quem lhe ligava quando o celular estava fora do ar, quando você entrava na cobertura ou ligava o celular… Popularidade do serviço? Zero. Isso diz muito sobre o que dizer se você não for localizado…

JC, G1: O localizador do Google permite que o usuário mostre estar em um lugar onde não está. Em que tipos de situação essa ferramenta deve ser usada?

SM: Isso é tecnologia a serviço da mentira… deve ser usada apenas por gente que precisa esconder sua localização e, por outro lado, tem uma memória muito boa e muita sorte. Mudar de um ponto, em São Paulo, para outro, muito longe, às vistas de quem está lhe observando de longe… vai parecer teletransporte. Por outro lado, chegar em casa e o serviço estar lhe mostrando no trabalho vai dar uma bandeira monumental.

JC, G1: Um amigo permite que você veja a localização dele, mas você não quer que ele saiba a sua (o equivalente a não aceitar um pedido de "amizade" no Orkut). O que fazer nessa situação? Se explica, aceita ou simplesmente deixa quieto?

SM: O mesmo que acho que a maioria das pessoas já faz nas redes sociais… Um monte de gente quer se relacionar com você e você… bem, escolhe com quem se relacionar, ficando quieto em boa parte das vezes. O silêncio, na maior parte dos casos, é uma ótima explicação.

JC, G1: Se o usuário mente sobre sua localização, deve desativar o serviço ou fazer com que o localizador mostre o lugar onde ele disse que estaria (ou seja: o localizador deve "compactuar com a mentira)?

SM: É muito difícil mentir consistentemente, por muito tempo, pra muita gente. Já é muito complexo, por um número de razões, mentir sobre onde se está. Imagine controlar a tecnologia que habilita a mentira de forma consistente. Dia destes eu vi uma pessoa, num banheiro de aeroporto, dizer pra outra que estava no escritório… exatamente quando anunciaram bem alto o embarque de um vôo… pense no problema. Não vai dar muito certo não…

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

todos copiando todos…

srlm às 12:46

…a começar pelos gigantes copiando uns aos outros. google vai lançar um android market semana que vem, pra ir atrás de públicos como o que faz o sucesso do apple store. segundo google, já há mais de 1000 aplicações para android. pra não ficar atrás, a nokia também está criando seu app store, que vem a ser a fusão de várias iniciativas desconexas que a companhia já estava tocando. e mais: a samsung e a microsoft devem fazer a mesma coisa e, também, na semana que vem [veja a história aqui].

mas não vai ser fácil seguir a apple: o apple store já tem 15.000 aplicações e, desde que foi lançado, há pouco mais de seis meses, já teve mais de 50 milhões de downloads. a apple viu, muito mais cedo do que qualquer outro competidor, uma oportunidade para intermediar software para seu hardware de conectividade, da mesma forma que já fazia com conteúdo para o iPod, no mesmo modelo fechado e vertical que a companhia usa desde seus promórdios. para se ter uma idéia do grau de controle que a apple quer ter sobre seu hardware e o software que roda nele, a empresa não permite que se venda aplicações de navegação no apple store. pra ter uma delas no seu iPhone, só na base do jailbreaking

image a apple, aliás, está lançando uma ampla campanha no melhor estilo FUD [fear, uncertainty and doubt, medo, incerteza e dúvida] dizendo que jailbreaking, a a arte de hackear seu iPhone para instalar aplicações que não foram compradas no apple store, é ilegal, pode comprometer a segurança do dispositivo e até detoná-lo para sempre. em estratégias FUD, a apple está copiando a microsoft…

mas a cópia não para por aí. a microsoft, por sua vez, acaba de anunciar um vice-presidente [e montes de dólares] para varejo: david porter, que vem da dreamworks, deve liderar um esforço para lançar uma rede mundial de lojas da microsoft, para competir com as atuais 200 lojas da apple, que tem sido um dos principais pontos de atração de novos consumidores para produtos da empresa.

image venture beat tem uma excelente análise da empreitada, e termina dizendo que… Microsoft really needs to stop playing this odd game of catch up. It’s a huge company at the top of the world with many insanely profitable businesses, yet it continues to feel the need to chase the likes of Google in search and online advertising, where it’s unlikely ever to win. And it continues to chase Apple in mp3 players and now retail stores. To borrow a phrase from Apple’s marketing in the 1990s, maybe it’s time for Microsoft to “think different.”

tradução livre? a microsoft precisa parar de brincar de pega. trata-se de uma companhia gigantesca, no topo do mundo, com negócios absurdamente lucrativos… mas continua achando que tem que perseguir negócios como google em busca e anúncios online, onde as suas chances de ser líder são mínimas. a microsoft persegue a apple em players de mp3 e, agora, em lojas de varejo. pra tomar emprestada uma frase do marketing da apple nos anos 90, talvez seja tempo da microsoft “pensar diferente”.

e pensar diferente vale para todos: google, nokia, samsung, microsoft e… apple. apple e FUD, assim como apple e tudo verticalizado, fechado controlado, e para sempre, não combinam de jeito nenhum.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

o dedo diz a idade…

srlm às 11:31

image você vai apertar a campainha e usa qual dedo? se for o indicador, você quase certamente tem mais de trinta anos de idade. porque os mais jovens usam o dedão. simples assim. é isso que diz a evidência informal disponível na rede.

os dedões mais novos, e as porções do cérebro que as controlam, estão se adaptando aos celulares, PSP e DS e controles de consoles há anos. os “novos” dedões e suas funções cerebrais são mais fortes e ágeis, mais precisos, mais capazes. e muito mais úteis do que os velhos dedões…

o que estamos vendo é a tecnologia, e sua ampla disponibilidade na sociedade, moldando a humanidade como acontece desde as ferramentas mais elementares da idade da pedra.

durante muito tempo, pensadores e analistas “mais velhos” teorizaram que ninguém nunca faria nada de útil num celular porque, principalmente, os teclados eram pequenos e as teclas, minúsculas e multifuncionais [demais]. esqueceram, como sempre, de ler douglas adams [sobre o futuro]… tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente natural; as novidades que aparecem enquanto somos jovens são uma grande oportunidade e, com alguma sorte, podem até ser uma carreira a seguir; mas tudo que aparece depois dos trinta é anormal, um fim do mundo que conhecemos, até que tenhamos convivido com a coisa por uns dez ou quinze anos, quando começa a parecer normal.

o outro nome deste efeito é evoluir para competir e sobreviver; como estamos vivendo numa economia exponencial [onde tudo muda muito, muito rapidamente], os 200 anos do nascimento de charles darwin são homenageados quase todo dia. e agora pela evolução do dedão.

image a consagração do dedão vem de todos os lados. ron arad, designer, criou para kenzo um frasco de perfume [desenvolvido pelo perfumista Aurelien Guichard] cujo spray é liberado com o… dedão. o frasco, desenhado como o símbolo matemático para infinito, é inovador e, ao mesmo tempo, equilibrado. deve ser um dos primeiros, de muitos itens, que será desenhado e produzido especificamente para a geração dedão… e que o pessoal da geração indicador vai ter muito trabalho pra usar…

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

suspeitos, acusados e condenados online

Tags:, , , , - srlm às 09:06

imageo departamento estadual de ordem política e social do estado de são saulo [deops] foi os olhos e ouvidos [e muito mais] do poder paulista entre 1924 e 1983, vigiando, reprimindo e perseguindo as pessoas e movimentos que “ameaçavam” a moral, os bons costumes e, de resto, o poder e seus donos. agora, os arquivos outrora secretos do deops, parte da história e da memória política do brasil, estão on-line. na imagem deste parágrafo, o “fichado” 61.391, monteiro lobato.

a riqueza de informação é impressionante e, ao mesmo tempo assutadora: segundo a professora maria luiza tucci carneiro“No momento em que o cidadão ficava sob suspeita, a polícia abria um prontuário e, após a detenção, produzia a ficha de qualificação, que trazia a fotografia de frente e de perfil… Além da fotografia policial e as fotos confiscadas, temos um amplo universo documental acumulado ao longo dos anos. Alguns cidadãos suspeitos chegaram a ter o cotidiano vigiado por 15 anos consecutivos”.

e isso sem celulares, câmeras digitais, cartões de crédito deixando rastro por todo canto e, óbvio, sem computadores ou internet.

a versão digitalizada e online dos arquivos do deops, como uma retrospectiva da atuação dos órgãos de repressão décadas atrás, vai ser essencial para o estudo do período e serve-nos de alerta para o futuro. não só porque os órgãos de “segurança” continuam muito vivos, sob outros nomes e disfarces, mas porque as possibilidades à sua disposição, em tempos de internet, são bem mais radicais do que em 1924.

veja esta notícia aqui: um número cada vez maior de estados americanos começa a disponibilizar, online, todo o seu registro criminal. isso significa que todos os cidadãos que tenham passado pela polícia, seja lá por qual razão, tem sua história “criminal” à disposição do grande público.

em novembro passado, os registros da flórida foram consultados quase 40.000 vezes, e a coisa está apenas começando. por um lado, trata-se de mais informação, anteriormente disponível apenas no sistema judiciário e prisional, a serviço da sociedade. por outro, pode-se condenar pessoas para sempre. se o propósito de um sistema penal é uma combinação de castigo [pelo crime cometido] e reeducação e recuperação [para uma nova vida lá fora], abrir para o mundo a informação de que alguém perdeu a carteira por dirigir bêbado pode por em risco, para sempre, as chances da pessoa conseguir um emprego

na flórida, em particular… "You get everything we have, except anything ordered sealed or expunged by a court: descriptive data of the person physically, everything about the charge and the arrest, regardless of whether it’s dismissed or the charges weren’t pursued, the court action, information on incarceration"… ou seja: basta ter sido acusado ou preso por engano para estar no registro online da flórida. parada dura.

e isso sem contar que pesquisas por nome podem levar a homônimos, que os sistemas [cada estado americano está montando um…] podem ser sabotados para incluir nomes de desafetos e por aí vai.

um número importante de teóricos e ativistas está propondo que uma das mais fundamentais características do ser humano [e da sociedade] a de esquecer, passe a fazer parte da legislação sobre os sistemas de informação que, cada vez mais, apóiam e dominam nossas vidas.

este blog discutiu o assunto neste post, onde se dizia que… os sistemas de informação devem, necessariamente, esquecer. acontece que as tecnologias para captura, publicação, armazenamento, replicação, busca e disseminação de informação, combinadas na rede nos últimos anos, criaram uma nova capacidade: a incapacidade de esquecer. nunca, em nenhuma época, ninguém teve tanta informação sobre tantas pessoas e seus hábitos como certas empresas estão começando a ter, na rede.

somem às empresas, agora, o estado publicando, cada vez mais, a vida de cada um. isso pode acabar mal…

[ps: mais de um comentarista notou que o texto menciona DEOPS ao invés de DOPS. para resolver tal dúvida a favor de DEOPS, como está no texto, sugiro clicar no primeiro link ou consultar, online, o texto dos professores maria lúcia tucci carneiro e boris kossoy "a imprensa confiscada pelo DEOPS, 1924-1954", disponível neste link.]

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