Terra Magazine

27.06.09

o caso do jornalismo –e a [des]regulamentação das profissões-meio [3]

aproveitando a decisão do supremo sobre a inexigibilidade de diploma para exercício das profissões de jornalismo, este blog está publicando uma série de textos sobre o tema, tratando o problema mais geral: que profissões deveriam ser regulamentadas? e que outras, especialmente no caso brasileiro, deveriam ser desregulamentadas? o primeiro texto da série está neste link; o segundo está aqui e, hoje, publicamos o terceiro; a série termina na semana que vem: sintonize.

a decisão do supremo é muito mais ampla do que parece. não só porque a regulamentação de certas profissões agredia liberdades constitucionais básicas, mas porque abre uma ampla discussão, no país, sobre o que é mesmo uma profissão e quais delas deveriam ser regulamentadas. e porque. num universo de conhecimento abundante e cada vez mais disponível de forma aberta e livre, reservas de mercado devem ser restritas às práticas profissionais que atendam a pelo menos dois requisitos, mesmo levando em conta que uma parte significativa da decisão é influencida por pressões e política.

primeiro, a reserva de mercado só deveria ser considerada para profissões “fim”, que exijam o domínio de corpos de conhecimento específicos e bem estabelecidos. segundo, o exercício de tais profissões deve estar associado a riscos para seres humanos que sejam [eventualmente] objeto do exercício profissional ou riscos sociais bastante claros.

seguindo esta ótica, o exercício da medicina deve ser regulado, assim como o da engenharia civil. ambas são profissões-fim, que podem resultar em graves riscos para humanos que usam, compram e moram em prédios [por exemplo] ou são operados por neurocirurgiões. e deve estar claro, para todos, que neurocirurgia [por exemplo] não é um meio através do qual alguém pode exercer sua liberdade de expressão.

no extremo oposto, nenhuma atividade associada à música, literatura, matemática, estatística [e muitas outras áreas] deveria sofrer qualquer tipo de regulação. cada um ouve e lê o que quer, escrito ou tocado pelo seu artista preferido, que pode ser autodidata, passar no teste da melhor sinfônica do planeta e ser contratado no ato. ou ganhar o prêmio nobel sem nunca ter ido à escola. ou fundar “a” banda de uma década: os criadores do nação zumbi, ao que me consta, nunca tinham ido a um conservatório ou passado no exame da ordem dos músicos. e deu no que deu.

sem falar que a quase totalidade dos compositores formados nas universidades do mundo inteiro não chega nem perto do que mozart estava fazendo aos [digamos] doze anos [de idade, não de exercício da profissão].

mas estamos no brasil, terra dos direitos e dos cartórios. matemática não é uma profissão regulamentada. mas estatística, que também é uma daquelas áreas-meio de que falamos, é, obra da lei 4.738, de 1965, baixada pelo então presidente castelo branco. outro general, costa e silva, foi quem determinou a agora defunta  obrigatoriedade do diploma para jornalismo.

como há muitas profissões-meio reguladas, há uma vontade [de certa forma justificada], em muitos quadrantes, para regular outras tantas. para citar pucos exemplos, os geógrafos querem regulamentar uma profissão; mas, nos EUA, harvard fechou seu curso de geografia em 1948 e dartmouth é a única das universidades da ivy league que oferece uma formação na área. os musicoterapeutas também querem uma profissão só sua, assim como os conservadores-restauradores de bens culturais móveis ou integrados, que tiveram sua regulamentação aprovada na comissão de assuntos sociais do senado em 2008: segundo o PLS 370/07, a profissão deve ser exercida, exclusivamente, por diplomados em curso superior, no Brasil ou no exterior, na restauração de bens de valor histórico, documental ou artístico, sejam eles tombados ou não, aos quais também estão reservadas as atividades de magistério nessa especialidade.

muitos designers também acham que sua profissão deve ser regulamentada e há quem sustente que se trata de atividade de alto risco. design, no entanto, é uma linguagem, geral, de amplo uso social: designer é todo aquele que muda o curso dos acontecimentos para transformar uma situação atual numa desejada. políticos, por exemplo, usam design de forma intensiva para tratar dos assuntos de um país. ainda bem que eles, os políticos, ainda não estão tentando regulamentar sua própria atividade, excluindo os mortais comuns. pelas nossas regras, de novo, não poderiam: política é uma linguagem. e das universais.

e, falando em políticos, a profissão de turismólogo passou pela câmara e senado em 2005, mas foi vetada na íntegra pela presidência da república. no senado, a causa era apoiada pelo senador eduardo azeredo, que conduziu [com sucesso] a regulamentação de biblioteconomia e que está, agora, tentando aprovar a regulamentação de uma das profissões de informática, a de analista de sistemas.

nenhuma destas profissões precisa ser regulada, pelas regras simples e diretas de que já falamos antes. mas a pressão é muito grande e há toda uma economia que se movimenta ao redor das profissões regulamentadas. isso apesar da regulamentação, no caso das áreas-meio, não ter efeito comprovado na melhoria da qualidade do exercício profissional ou na renda auferida pelos bons profissionais, os únicos, aliás, que deveriam estar exercendo a profissão, meio ou fim, regulamentada ou não.

segunda, neste mesmo blog e comentários, a sequência desta discussão. aguarde. e assine nosso RSS pra estar a par do que vai acontecer aqui.

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6 Comentários »

  1. Cuidado com as análises a respeito das liberdades constitucionais “básicas”, pois no mesmo artigo que as asseguras está definido que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;” . Portanto, ao existir a lei definidora da qualificação profissional necessária, a mesma atendera a um dispositivo constitucional.

    O que houve no caso de jornalismo foi um “embate” entre dois princípios constitucinais, um que alude a liberdade de imprensa e outro que fala da regulamentação profissional quando estabelecida em lei. Restou vencido por 8 x 1 a anulação total da regulamentação na profissão de jornalismo.

    Se o Gilmar Mendes anda por aí falando bobagens e abrindo a boca colocando decisões na boca dos colegas, é problema dele. Dado que não possui nenhuma procuração para falar em nome dos outros.

    Pode até mesmo ter um revés na decisão do STF, como sugerido pelo presidente da OAB, para amenizar a situação. Um revés através de uma nova decisão ou da criação de uma lei pós-88 que regulamente a área, pode até mesmo abrir as portas para novas regulamentações.

    De qualquer maneira, o futuro é incerto, e fazer suposições sobre tendências são meras especulações.

    Comentário por Fernando Rodrigues — 27.06.09 @ 15:14

  2. Editorial http://www.gazetaderibeirao.com.br/

    A liberdade de expressão é a pedra angular de todo sistema democrático, que assegura a profissão de ideias, crenças e princípios sem constrangimento ou censura, dando aos cidadãos a verdadeira dimensão do pensamento livre e possibilitando a construção de uma sociedade sem cadeias ideológicas.

    bom,
    Exigir diploma de curso superior para fazer jornalismo é o mesmo que exigir curso superior para escrever um livro!

    Comentário por Romeu Melo — 27.06.09 @ 19:29

  3. Acompanhei o três artigos sobre a [des]regulamentação. Achei muito bacana. Serei um futuro analista de sistemas, mas não acho que para exercer essa profissão precisa ter um superior em sistemas de informação. O importante é está capacitado, fazer o curso superior geralmente é o caminho mais fácil para atuar em determinadas profissões mas não deve ser obrigatório.

    Comentário por Ygor Amaral — 27.06.09 @ 22:57

  4. Sílvio

    Acompanhei com grande interesse seus artigos sobre des/reg e o que mais me chama atenção é o mercado de trabalho. Temos uma “promiscuidade” de profissões que se descobrem na análise de sistemas, engenheiros, veterinários, matemáticos,…. e o grande charme é que competência se adquire no dia a dia, com esforço,suor. Sou partidário da boa formação, dos bons tempos de ensino, mas quando assiste este vídeo http://www.youtube.com/watch?v=mUdDhWfpqxg
    percebi que nosso futuro é simbiótico. Necessitamos melhorar o nível de nosso ensino, melhorar a infra-estrutura das universidades, pagar melhor nossos professores e possibilitar que nossos estudantes corrijam suas ‘inconsequentes’ escolhas ainda em tempo de um formação rica em conteúdo que os prepare para os desafios de problemas reais. Tive vários doutores/mestres que ficaram isolados em um porão, para ser exato numa famosa universidade de BSB, e que acharam e acham que o mundo ainda gira em torno deles. O conhecimento é dinämico, os desafios constantes. O simples uso do Twitter está levando uma nova era de intercomunicação. Um diploma faz a diferença? Na prática não, mas conhecer a base teórica, beber dos grandes pensadores, ter uma base acadêmica em que possamos confiar e depender nossas vidas é um diferencial. Como fazê-lo? É o próximo desafio…. :)

    Comentário por Elcio — 28.06.09 @ 21:42

  5. “designer é todo aquele que muda o curso dos acontecimentos para transformar uma situação atual numa desejada”

    Essa definição me deu uma nova compreensão , um novo sentido para a palavra design.

    De onde ela vem?

    Comentário por Deborah Munhoz — 28.06.09 @ 22:42

  6. O que esse pessoal está precisando não é de regulamentação, é de certificação ;)

    Comentário por Victor Rodrigues — 29.06.09 @ 17:45

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