Terra Magazine

sexta-feira, 30 de abril de 2010

a internet das coisas, 3: spimeware

Tags:, , , , - srlm às 00:20

no primeiro texto desta série, falamos da visão de bruce sterling [na forma de spimes] sobre as coisas em rede; no segundo, sobre o mundo das mesmas coisas em rede visto [como everyware] por adam greenfield. neste terceiro texto, a idéia é juntar as duas visões em uma só, que passaremos a chamar de spimeware, e ver o que podemos fazer com isso, à medida em que partes e implementações do conceito começam a aparecer no ambiente ao nosso redor.

na imagem abaixo, de coisas em rede, se elas fossem spimeware, boa parte estaria se comunicando entre si e, vez por outra, conosco. o mundo de spimeware não é antropocêntrico: isso quer dizer que as coisas, em rede, podem, na maior parte do tempo, não estar nem aí pra nós… a menos que nós, também, sejamos spimeware.image

sem querer propor ou expor nenhuma teoria sobre inteligência ambiental, podemos dizer que a visão de sterling [spimes] pode ser comparada a uma certa semântica das coisas em rede; por outro lado, o everyware de greenfield se assemelha a uma sintaxe; visto de outra forma, spimes estariam associados à semântica denotacional das coisas em rede e everyware se pareceria mais com a semântica operacional destas mesmas coisas. pra você que não é de computação, o denotacional está ligado ao quê das coisas e o operacional ao seu como.

como assim? spimes… 1. estão na rede; 2. são identificáveis [de forma única]; 3. obedecem ao princípio SFO [podem ser buscadas {search}, encontradas {find} e obtidas {obtain}]; 4. carregam seu próprio plano de construção, uso  e reciclagem e 5. deixam um rastro histórico, por onde passam, do que fazem. isso é o que as coisas são, ou pelo menos é muito mais para o que do que para o como; por outro lado, everyware… 1. é wireless; 2. está embarcado; 3. é imperceptível; 4. é múltiplo e 5. tem interface “invisível” e isso parece muito mais com “como” as coisas são do que com o “que” são as coisas em rede.

image juntando as noções de spime e everyware, criamos o conceito de spimeware, que… 1. está na rede; 2. é wireless; 3. é múltiplo [pode haver uma infinidade de cópias] mas 4. é identificável de forma única e 5. obedece ao princípio SFO mas 6. é imperceptível [a “olho nu”] porque 7. está embarcado, embutido em coisas e, também por causa disso, 8. tem interface “invisível”. ainda mais, spimeware 9. carrega seu próprio plano de construção, uso  e reciclagem e 10. guarda ou deposita na rede seu rastro histórico.

a descrição acima corresponde exatamente ao que seria o caso da etiqueta de banana orgânica do equador da imagem, caso ela fosse spimeware. não é, ainda, mas vai ser, breve. primeiro, porque as tecnologias para –literalmente- imprimir circuitos eletrônicos em papel, com bateria e tudo, estão começando a se tornar uma realidade prática bem ali na esquina do tempo. olhe pra imagem abaixo; à esquerda, uma folha de papel com um circuito que contém leds de sinalização… e, à direita, a mesma folha, dobrada como um avião de papel, que pisca sinalizadores verde e vermelho nos mesmos pontos de um avião de verdade. taí um brinquedo que eu queria testar.

aviao de papel com circutio eletronico impresso

a imagem acima é de um artigo bem recente sobre fabricação de eletrônica flexível, Foldable Printed Circuit Boards on Paper Substrates, que foi matéria de capa da revista advanced functional materials de janeiro de 2010. o método, por sinal, serve pra imprimir quase todo tipo de circuito em quase qualquer espécie de substrato flexível, incluindo tecido e plástico. ficando só em papel e imaginando que, em breve, será economicamente viável imprimir spimeware em uma etiqueta de banana, o que ela, a etiqueta, poderia nos dizer?…

primeiro, vamos notar que spimeware é algo que existe, como spimes, dentro do universo da informática; nosso diagrama original, do primeiro texto, para mostrar spimes como informática, era igual ao mostrado abaixo, com spime no lugar onde agora mostramos spimeware.

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e você diria… então, não mudou nada! não, porque spime é do que estamos falando; e mudou, pois quando agregamos as noções operacionais de everyware, passamos a descrever de maneira melhor, talvez mais detalhada e completa, algo de que já estávamos falando antes. mas que tal falarmos de bananas?

image bananas, pra quem não sabe, vêm de bananeiras; as que têm selos como o que mostramos são plantadas em grandes fazendas; são colhidas, transportadas entre a plantação e um centro de processamento, tratadas de várias formas, etiquetadas, embaladas, transportadas em containers refrigerados até um porto, onde embarcam em meganavios que se destinam a portos na europa e ásia, de onde seus containers partem para centros de distribuição, depois para estoques regionais, locais, daí para as prateleiras dos supermercados e, quem sabe, chegam na cozinha de alguém e são, se tudo der certo, comidas. tomara, senão todo o custo ambiental de fazer uma banana girar o mundo inteiro não terá servido para nada.

image

agora imagine que, quase no fim do ciclo de vida da banana e da informação sobre ela, você e a dita cuja se encontram, frente a frente, em um mercado qualquer… e “sua” banana “tem” spimeware. ou melhor, ela “é” spimeware, pois cada banana seria unicamente identificável pelo seu próprio spimeware.

imageé provável que uma conversa entre você e uma das bananas ao lado, se fosse hoje e se a etiqueta dela fosse spimeware, seria mediada por algum app no seu celular; daqui a alguns anos, quem sabe, a interface entre vocês dois seria uma lente de contato como a deste link, mostrada aqui no blog dia destes. são lentes parecidas com estas que mediam as relações dos humanos com os campos informacionais que vernor vinge imaginou para rainbows end, sua história do “futuro próximo” onde tudo é informatizado, e tudo “é”, ou parece, spimeware.

sim, mas que conversa você teria com uma banana? que tal começar perguntando “quem é você”?… ao invés de… “adivinha, se gosta de mim…” ela responderia, de pronto: “sou uma banana do tipo cavendish, plantada e colhida no equador”. e aí você poderia perguntar… “tipo cavendish”?… ou… “em que condições você foi colhida, processada, armazenada, transportada até aqui”? e aí a tal banana cavendish iria lhe contar, de verdade, a história de como chegou até a prateleira à sua frente. claro que não precisamos ter nenhuma inteligência computacional muito sofisticada na banana e muito menos bananas conversando [de verdade] conosco no supermercado.

sabendo “quem” é a banana, quase todo o resto seria sabido a partir de sistemas de informação que funcionariam como proxies, ou intermediários, de qualquer banana particular. tais sistemas começam a aparecer na rede e, em breve, vão nos dar uma boa parte da história de bananas [e carne, carros, vinhos…] se a gente tiver acesso a, pelo menos, uma pequena parte do que spimeware vai vir a ser. tipo um identificador único para cada banana ou garrafa de vinho, por exemplo, para tornar possível o rastreamento de cada item individualmente.

mas há informação que só teremos se a banana for, de fato, spimeware: em que temperatura ela foi armazenada durante seu ciclo de vida, até aqui? de nada adianta saber a temperatura do container onde estava a banana, queremos saber se “a” banana que vamos comprar agora foi cuidada como deveria ter sido… e isso estaria registrado pela banana [seus sensores], na sua etiqueta, spimeware a nosso serviço. pense o que mais poderia acontecer neste cenário; as possibilidades são infinitas. se quiser ver as idéias de vinge para contextos parecidos com este, rainbows end tá de graça, no wayback machine, neste link.

escape captivity -- buy nothing today -- barcode pra terminar este capítulo, primeiro é preciso dizer que não estamos falando apenas de coisas que estão à venda e são compradas e de seu ciclo de negócios; de coisas  que  teriam spimeware como um ultra-mega-super código de barras [alguém pensou RFID?]. seu cão teria spimeware, assim como você, talvez, um dia. o conjunto de razões para se associar spimeware a objetos tem muito a ver com o ciclo de vida da coisa como “negócio” mas, ao mesmo tempo, transcende em muito tal tipo de aplicação.

segundo,  não estamos tratando de ficção científica. estamos falando de um futuro próximo, talvez bem mais próximo do que se possa imaginar, onde vamos querer saber quem –exatamente- foi que jogou uma garrafa feita de politereftalato de etileno [o tal do PET] na beira da estrada, pra cobrar do sujismundo umas 100 vezes o preço de recolher e reciclar a coisa. quem sabe, aí, ele aprendia e não deixava a próxima ao léu. por um bom número de razões, spimeware vai se tornar necessidade muito antes do que se imagina.

no próximo texto, o fim da série: uma conversa sobre o nascente campo informacional global. até lá. enquanto isso, veja na figura final o método usado pelo pessoal de harvard pra imprimir a eletrônica –o spimeware bem elementar- do avião de papel lá do começo do texto… e pense que você, em breve, vai poder fazer o mesmo na impressora da sua casa.

se lembre, no entanto, que isso ainda está bem no começo; trazer eletrônica digital normal, de silício, pra cima de papel ou plástico é alongar o tempo de vida de uma tecnologia que não foi feita para isso. quem sabe, spimeware vai aparecer de vez, na prática, quando nanotubos de carbono forem a base para informática. a gente não perde por esperar…

fabricacao de eletronica flexivel

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

a internet das coisas, 2: everyware

aqui no c.e.s.a.r a gente tem um ditado sobre idéias, propostas e soluções: sempre que você está pensando em alguma coisa inovadora, um monte de gente, mundo afora, está pensando na mesma coisa. a experiência do c.e.s.a.r mostra que esta máxima vale pra quase tudo, de nomes de domínio a complexas arquiteturas de software.

estamos no mesmo mundo, ele está cada vez mais conectado, cada vez mais gente tem acesso aos mesmos dados, informação e conhecimento. e o resultado é que quase todos acabamos vivendo dentro do mesmo contexto, observando os mesmos problemas e oportunidades e, por conseguinte, usando o mesmo repertório de idéias, designs, projetos e soluções. todo “mundo” [de pelo menos uma certa parte do mundo todo] detém, ao mesmo tempo, boa parte dos meios -os mesmos “meios”- para realizar o que quiser.

o que nos torna diferentes? v-e-l-o-c-i-d-a-d-e. com todo mundo “sabendo” de tudo e de tudo o que é preciso fazer, ao mesmo tempo, e de posse dos meios para tal, o único diferencial é a velocidade com que se faz. ou se tenta propor ou fazer. isso vai acabar sendo assunto deste blog quando voltarmos aos temas de criatividade, inovação e empreendedorismo. mas hoje, sendo a conversa sobre everyware, porque começamos desta forma?

porque um certo conjunto de idéias-força que sustenta a internet das coisas como é pensada, desenhada e marqueteada hoje nasceu ao mesmo tempo, ao redor do fim de 2005 e começo de 2006. dias depois de bruce sterling publicar shaping things, em setembro de 2005, peter morville saía com ambient findability; digital ground, de malcom mccullough, saiu em outubro e, pra encerrar uma curta bibliografia de idéias sobre a rede das coisas, adam greenfield publicava everyware em março de 2006.

image no subtítulo, the dawning age of ubiquitous computing, greenfield, head of design da nokia, diz o que vê: uma era onde todos os objetos são capazes de capturar, receber, transmitir, armazenar, processar e mostrar informação e, se for o caso, agir [em contexto] em função da informação que detêm e sua capacidade de processá-la. por todos os objetos entenda todos os objetos: de latas de sardinha a botões de camisa, da camisa ao carro, do pneu ao sinal de trânsito, ao sapato do pedestre… em suma, tudo.

everyware é um manifesto em forma de teses, 81 delas; e a número 81 declara que as oitenta teses anteriores são necessárias mas não suficientes; e não são o fim, mas o princípio desta história. correndo o risco de errar por muito, vou resumir a cinco pontos “operacionais” as primeiras oitenta teses de greenfield, pois isso vai nos ajudar a fundir o que estamos discutindo neste texto com o que foi apresentado no anterior, onde discutimos a idéia de spimes.

olhando de longe e sem tratar diretamente o que everyware é ou faz, everyware é… 1. sem fio; 2. embarcado; 3. imperceptível; 4.múltiplo e 5. “invisível”. explico: para estar em tudo e em todo lugar, everyware não pode ter fio, deve poder ser embutido na “coisa”, passando a fazer parte “dela”, tem que ser imperceptível, de modo a não modificar a coisa à qual adiciona capacidades computacionais, de computação e de controle, deve existir em quantidade [potencialmente massiva], pois estamos falando de elementos informacionais que possam ser [eventualmente] inseridos e descartados no ambiente e, finalmente, nada de interface tipo WIMP ou “touch” ou o que parecido for: everyware tem que funcionar de forma transparente.

quando fala everyware estar em tudo e em todo lugar, greenfield chega bem perto dos conceitos essenciais de computação ubíqua e quer dizer, de fato, em todos os lugares e em todas as coisas. ainda por cima, nós poderíamos adicionar um “o tempo todo”. a consequência disso? tal ubiquidade de computação, comunicação e controle, em que há sensores e atuadores em todo canto, criaria um campo informacional no planeta. claro que isso tem a ver com computação ubíqua na concepção original de mark weiser e, mais recentemente, com a visão que temos de realidade aumentada, especialmente de sua evolução nos próximos 10, 20 anos.

segundo o próprio greenfield, everyware é informática dissolvida em comportamento, ou no ambiente, ou nos objetos. isso não significa que uma banana vai ser um computador, muito pelo contrário; mas que haverá capacidades informacionais, ou seja, de computação, comunicação e controle, associadas a bananas. por que? por que seria muito legal se você pudesse questionar uma banana num supermercado e perguntar… quem é você? ainda mais porque, em função disso, a banana provavelmente contaria toda sua história… como vamos ver no nosso próximo texto sobre este assunto, ligando spimes e everyware.

até lá, e pensando em bananas, digamos, informatizadas, reflita sobre a tese 16 do livro de greenfield: nós nos relacionaremos com everyware sem advertência, sem sabermos [que estamos nos relacionando com ele] e, vez por outra, mesmo que não queiramos… será que isso quer dizer que bananas informatizadas vão “querer” conversar conosco no supermercado? de certa forma, sim.

você não perde por esperar o próximo texto… e, enquanto isso, pode clicar na imagem abaixo para vê-la [maior] em contexto numa discussão sobre um tipo particular de everyware chamado smart dust ou poeira inteligente.

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

a internet das coisas, 1: spimes

srlm às 02:14

e se todos os objetos ao nosso redor fossem [também] sistemas de informação capazes de saber [e dizer] onde estão, o que podem [ou devem] fazer dentro de seu contexto, da situação particular onde se encontram? e se, além disso, gravassem tudo o que fazem [ou é feito com eles] e ainda pudessem dizer [pra rede] o que foi que rolou [de seu ponto de vista] em função das ações realizadas por [ou com] eles, num certo lugar, tempo e contexto? e se, para cada objeto, valesse o princípio SFO [search, find, obtain] dos engenhos de busca? tudo, no mundo, seria buscável, encontrável e, se você tivesse os meios para tal, poderia obter, literalmente, qualquer coisa. no topo disso, e se cada uma destas coisas fosse unicamente identificada, e identificável sob demanda [pelo menos por quem –ou o que- tivesse tal direito]?…

a estas coisas, capazes de “tudo” isso, bruce sterling deu o nome de spimes. shaping things, escrito por sterling em 2005, é uma espécie de manifesto da web das coisas, um ponto de partida para um universo informacional que vai desembocar em um planeta –algum dia- completamente informatizado.

informatizado quer dizer completamente imerso em informática e informática, neste contexto, deve ser entendida como o espaço tridimensional determinado pelas capacidades de computação, comunicação e controle de [ou sobre] objetos e sistemas. spimes são coisas que processam informação, se comunicam com outros objetos e com o ambiente e controlam ou são controladas por dispositivos em seu ambiente. ou, por outro lado, são controladas pelo ambiente e podem, também, definir o que o ambiente é e controla.

nesta web das coisas, uma coisa na web é algo parecido com um spime, um objeto abstrato ou concreto, imerso em um espaço 3D que convencionamos chamar de informática. um spime, de certa forma, é um espacinho, com certas propriedades, dentro do grande universo da informática.

spimedrawing_silvio

no espaço da informática, acima [que vez por outra eu chamo de C3] os nomes próprios associados a cada eixo são os dos cientistas mais marcantes [na minha opinião] em sua definição: turing é alan, que está por trás dos conceitos fundamentais de máquinas computacionais que usamos até hoje; shannon é claude, na prática o criador da teoria da comunicação e da noção de “bit” que temos hoje; e wiener é norbert, criador da cibernética, o campo multidisciplinar que estuda a estrutura e a dinâmica de sistemas que, de uma ou outra forma, controlam ou são controlados por outros. pra mim, simplesmente, controle. os “+” à frente de cada um dos nomes são necessários porque nenhum deles, claro, criou a base de cada eixo do zero nem, tampouco, o trabalho de cada um encerrou a fundamentação e evolução de cada paradigma.

tempos atrás, warren ellis fez um desenho, mostrado na figura abaixo, do que se poderia imaginar associado a um spime. trata-se de um spime meme map, onde se nota que desde o conceito e especificações de projeto das coisas até sua reciclagem, um fluxo de “bits”, à direita da imagem, acompanha e corresponde a um fluxo de “átomos” [o objeto real ou suas partes] à esquerda. se spimes fossem, ou vierem a ser realidade para todos os objetos [concretos, de átomos] seria possível identificar cada garrafa PET descartada na natureza e quem foi a última pessoa ou instituição que a detinha antes disso acontecer. imagine as consequências.

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agora pense, olhando pro desenho abaixo, vindo deste link: se spimes podem tudo isso, porque não poderiam também se expressar de forma autônoma e, de uma prateleira de supermercado, se autoanunciar, pelo menos se você, ou os canais que conduzem a você, estivessem abertos para tal? imagine o barulho… mas ao mesmo tempo note que tudo o que está descrito no meme map acima e no cenário abaixo é possível hoje; todas as tecnologias e sistemas já estão aí e poderiam estar sendo usadas agora. claro que as coisas não estariam conversando com você, mas possivelmente com seu celular. por que não estão?…

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sterling sabe imaginar futuros e, como tal, sabe que nem sempre os futuros acontecem na velocidade que os imaginamos; ano passado, meia década depois de “ver” spimes em todo canto, ele deu uma palestra de 20 minutos na lift’09, onde faz uma avaliação crítica de como anda o estado do spimeworld em nossos dias.

no mundo de spimeware, algumas coisas estão andando, rápido; outras deram pra trás e outras ainda nem começaram a aparecer. sterling, como todos nós, não está imune a lei de amara, segundo a qual tendemos a superstimar os efeitos das tecnologias no curto prazo e a subestimá-los no longo prazo. clique na imagem abaixo e veja sterling falando sobre seus spimes; amanhã, neste mesmo canal, volte aqui pra gente conversar sobre a internet das coisas, parte 2. este vai ser nosso assunto durante toda esta semana.

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sábado, 24 de abril de 2010

atenção, na rede: agora, aos [largos] passos de facebook

srlm às 14:16

há um ano, o blog dizia que o nome do jogo, na web, era atenção. isso não era, nem na época, qualquer novidade. a novidade, de lá pra cá, é que redes sociais, os espaços abstratos onde dedicamos nossa atenção a outros seres humanos, na verdade a suas ações em rede, se tornaram pervasivos, parte do discurso de todos os tipos de instituições e pessoas… e parte do problema que tem que ser enfrentado por líderes da web como google e apple, nenhum dos dois associado a uma rede social de porte.

rede social de porte, hoje e em escala global, tem nome: facebook. e, cada vez mais, facebook está dizendo a que veio. pra começar a conversa, a hitwise deu conta de que facebook passou google como o site mais visitado dos EUA; isso rolou na semana do 13 de março, como mostra o gráfico abaixo. foi por pouco, meros 0,04%, mas passou. a curva de crescimento de market share de facebook nos EUA, a linha azul, é impressionante. especialmente quando comparada à estabilidade de google, ao redor dos 7% durante os últimos 12 meses.

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facebook não vai ficar por aí, em audiência, até porque não ficará mais sendo “só” uma rede de relacionamentos. semana passada a empresa liberou o protocolo open graph, um conjunto de operações que vai permitir a seus usuários conectar suas histórias pessoais a páginas em qualquer lugar da web. isso que quer dizer que, ao conectar uma página, em qualquer lugar, à minha história pessoal [veja gráfico abaixo], todos os meus “amigos”, pelo menos em tese, chegam mais perto da tal página, vídeo, serviço, o que for.

imagee google, claro, não consegue indexar o conteúdo de facebook, que é fechado para máquinas de busca que não tenham um acordo explícito com a a rede social. facebook [assim como twitter] faz parte do que se chama a “deep web”. pra indexar twitter, google e bing remuneram a empresa que se tornou a dona de boa parte da statusfera. o conteúdo e a dinâmica do relacionamento dos 400 milhões de usuários de facebook é problema dos grandes pra google, num universo online onde o boca-a-boca é um dos elementos essenciais dos processos pessoais de tomada de decisão. quer saber mais? veja o que diz a mcKinsey sobre o assunto neste link.

como se não bastasse, a microsoft pagou US$240 milhões, em 2007, por 1.6% de facebook [batendo uma oferta do próprio google], o que deu à empresa de redmond alguns direitos especiais sobre o que rola dentro da rede social. afinal de contas, ela também é “dona” do negócio. ao contrário do que dizem seus detratores, nem sempre redmond “erra”: quando comprou um teco de facebook, lá atrás, por uma pequena fortuna, parece que sabiam o que estavam fazendo.

pra mark zuckerberg, “a rede está num ponto muito importante, agora”. o criador de facebook pensa que “a maior parte das coisas na rede não é social, ainda… e isto está prestes a mudar”. tremei, google. o lançamento de open graph fez com que as relações de “amizade” entre os dois gigantes estremecessem tanto, agora, quanto entre google e apple quando o primeiro lançou android. imagine o nível de tensão que vai rolar se open graph der certo, ao contrário de buzz, o equivalente [em certo sentido] de google, que fracassou redondamente.

se open graph se tornar o novo [ou mais relevante] paradigma de conexão entre sites e pessoas em redes sociais, o novo indexador da web será a atenção que as pessoas dedicam aos sites, repassando tais referências aos seus relacionamentos. e o novo “dono” da web será zuckerberg.

pra adicionar insulto a injúria, zuckerberg acertou com a microsoft [como já sabemos, acionista da rede social] a adição de office a facebook, criando um oponente à altura de googleDocs. trata-se de docs.com, ainda em beta e com lista de espera. como a microsoft não tem uma rede social, documentos online dentro da maior rede social do planeta é uma opção estratégica, digamos, natural. assim como bing “dentro”  e “a partir” de facebook.

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na rede, o tempo flui, tudo flui, inclusive a atenção. e rápido. em um ano, tudo pode mudar. como mostra o gráfico que ilustra este texto comparando os últimos doze meses. zuckerberg pode muito bem estar certo: podemos estar num “turning point”, um ponto sem retorno a partir do qual a rede, toda a web, está se começando a se tornar uma grande, gigantesca, rede social. e com facebook bem no centro disso tudo.

mas pode ser, também, que daqui a um ano tudo seja tão diferente do que estamos conversando aqui que este texto nem sentido faça. vai depender da capacidade e velocidade de inovação de facebook e seus parceiros.

afinal de contas, manter uma rede social no topo da web é muito mais acompanhar as demandas da própria rede [inclusive e, talvez principalmente, as implícitas] do que, do topo de uma suposta ganialidade e capacidade tecnológica, ofertar traquitanas que ninguém quer… usar. é esperar pra ver. me cobrem daqui a um ano.

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

tres “censuras”, tres contextos…

Tags:, , , , - srlm às 11:03

no negócio de informação, quem é muito grande tende a ser muito importante e, quase sempre, tão relevante quanto. e há que ter muito cuidado em tudo o que faz, sob pena de engolir de volta o que disse ou fez, incorrendo em prejuízos de todo tipo, principalmente de imagem.

veja o caso do vídeo que comemorava os 45 anos da rede globo; isso, que comemorava, pois foi tirado do ar. pela própria globo, aliás, que declarou publicamente que não desejava "ser acusada de tendenciosa". envolvidos no caso, o número 45, que a emissora -sem qualquer dúvida- pode usar, pois está comemorando 45 anos, e a palavra “mais”, que o PSDB está usando como mote de sua campanha presidencial.

nem o número nem a palavra são propriedade da globo, do PSDB ou de ninguém; e qualquer um pode usá-los como quiser, claro. mas há o contexto: estamos chegando perto da campanha presidencial e o vídeo da globo, mesmo tendo sido feito em novembro, caiu no contexto de uma campanha do 45 contra o 13. se fosse a comemoração dos 45 anos deste blog, dificlmente teria o mesmo impacto e gente de qualquer campanha sugerindo se tratar de propaganda subliminar. mas são os 45 anos da globo, e não de uma emissora periférica qualquer, num interior distante. ganhou o contexto.

image mudando de assunto mas ficando no contexto e olhando para outro gigante, veja o que google fez: declarou que o país onde há mais censura eletrônica no mundo é o… brasil. de onde veio isso? google resolveu expor todas as requisições governamentais que lhe são feitas e, tanto na categoria pedido de informações como retirada de conteúdo, o brasil ganha fácil. mas… desde quando isso é censura?

o brasil é um país democrático, com todas as instituições funcionando, algumas mais outras menos, mas funcionando. redes sociais são uma segunda natureza do brasileiro e orkut, a rede social de google, praticamente só existe aqui e em mais um outro país. e youTube também é uma propriedade de google; e um monte de gente, por aqui, usa gMail, gDocs, etc. resultado? uma boa parte dos comportamentos antissociais do país concreto chamado brasil passa por informação que reside, por exemplo, nas abstrações armazenadas no orkut: de calúnia e difamação, passando por tráfico de drogas e indo até pedofilia, já se encontrou de tudo por lá.

e nada mais natural: afinal de contas, o país que está lá é tão bom [ou ruim] como o que está aqui fora… o contexto é o mesmo. no contexto errado está google, ao achar-se [será?] acima da lei e da ordem. veja o que disse o MPF de são paulo sobre a declaração da empresa que quer organizar toda a informação do planeta: "Desde quando ordens judiciais para entregar dados de criminosos é censura? É errado o Google classificar como censura atos judiciais legítimos de um país democrático". google deveria rever, da mesma forma que a globo o fez, sua posição. como a empresa ouve, ganhará o contexto, mais dia, menos dia.

falando em dia, dia destes e de novo fora do contexto mundial mas bem dentro de seu peculiar contexto, tio steve jobs estava exercendo seu papel de polícia moral dos usuários do iPhone [e iPad, e…] e, no meio da controvérsia sobre censura [aí sim, censura] no appStore, teve que responder mais uma vez a perguntas sobre o controle que a apple exerce sobre as aplicações para seus dispositivos. e foi bem claro, até demais:

You know, there’s a porn store for Android. You can download nothing but porn. You can download porn, your kids can download porn. That’s a place we don’t want to go – so we’re not going to go there.

a resposta é… quer pornografia? compre um celular android. como observa jason kincaid neste link, isso é hipocrisia pura. é jobs posando de protetor da moral e dos bons costumes, usando o argumento de pornografia tão caro a uma certa pseudomoral americana para, na verdade, tentar manter controle total de seus dispositivos e usuários, com o objetivo de limitar o uso dos mesmos aos sistemas que a apple determine e, em última análise, extrair a maior quantidade possível de renda de seu público. jobs, mesmo assim, tem se saído muito bem em sua suposta “patrulha moral”, com boa parte do público aplaudindo. por quanto tempo, não se sabe. aqui, perde o contexto, pelo menos por enquanto, porque é a apple que “manda” nele, ao invés do contrário.

no caso da globo, a reação ao seu vídeo causou a retirada, imediata, do conteúdo do ar. um caso de auto-censura motivado pelo contexto? no caso de google, digamos que a empresa precisa entender melhor o significado da palavra censura e quando usá-la; no caso do brasil, certamente a manchete de que somos os maiores censores do planeta está errada; google nos deve uma desculpa. vamos esperar.

no caso de jobs e da apple, nem pensar; estou com kincaid: trata-se, pura e simplesmente, de hipocrisia a serviço de um modelo de negócios, dentro de um contexto onde as limitações impostas pela empresa são aceitas [com raras e honrosas exceções] pelo seu contexto. por isso, aliás, que eu tenho um droid e não um iPhone.

[PS: se você perdeu o vídeo da polêmica da globo, olha ele aqui no youTube…]

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sábado, 17 de abril de 2010

concentração de poderes no sistema eleitoral brasileiro não permite auditoria independente

lá vêm as eleições e, com elas, o sistema eleitoral brasileiro. este blog fez uma longa série de considerações sobre o problema de segurança das urnas e do sistema, como um todo, antes das últimas eleições. em agosto e setembro de 2008, publicamos um bom número de textos que você pode ver [pela ordem] aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

logo a seguir, o TSE deu uma entrevista-resposta sobre o assunto da segurança das urnas, garantindo que as urnas eram seguras. só que, a seguir, um dos fabricantes das urnas declarou que sim, sem dúvida, as urnas eram inseguras.

o assunto acaba de voltar à tona com a publicação de um relatório do comitê multidisciplinar independente [CMIND] que acompanha o processo eleitoral. pra você ter uma idéia da importância que o relatório pode vir a ter, veja quais são as três principais conclusões, expressas no resumo executivo de duas páginas:

Tendo-se analisado com profundidade o relatório do comitê do TSE e juntando o conhecimento especializado e experiência dos autores no acompanhamento dos sistemas eleitorais do TSE desde 2000, concluiu-se o seguinte:

1. Há exagerada concentração de poderes no processo eleitoral brasileiro, resultando em comprometimento do Princípio da Publicidade e da soberania do eleitor em poder conhecer e avaliar, motu próprio, o destino do seu voto;

2. Desde 1996, no sistema eleitoral eletrônico brasileiro É IMPOSSÍVEL PARA OS REPRESENTANTES DA SOCIEDADE AUDITAR O RESULTADO DA APURAÇÃO DOS VOTOS. Em outras palavras, caso ocorra uma infiltração criminosa determinada a fraudar as eleições, restou evidente que a fiscalização externa dos Partidos, da OAB e do MP, do modo como é permitida, será incapaz de detectá-la.

3. Esta impossibilidade de auditoria independente do resultado eleitoral é que levou à rejeição de nossas urnas eletrônicas em todos os mais de 50 países que a estudaram.

o CMIND não é um grupo de hackers que se reuniu em uma mesa de bar ou porão pra maldizer o sistema eleitoral brasileiro, mas um grupo de pessoas independentes que avalia o processo eleitoral há anos e que resolveu dizer em público, e de uma vez por todas, que o sistema precisa mudar.

não se trata de mudar a só a urna, por exemplo. o problema é muito maior; segundo o CMIND, há que se mudar o processo, inclusive o papel do TSE, para aumentar a segurança e transparência do processo eleitoral. as três recomendações do CMIND são:

1. Propiciar separação mais clara de responsabilidades nas tarefas de normatizar, administrar e auditar o processo eleitoral brasileiro, deixando à Justiça Eleitoral apenas a tarefa de julgar o contencioso.

2. Possibilitar uma auditoria dos resultados eleitorais de forma totalmente independente das pessoas envolvidas na sua administração.

3. Regulamentar mais detalhadamente o Princípio de Independência do Software em Sistemas Eleitorais, expresso no Art. 5 da Lei 12.034/09, definindo claramente as regras de auditoria com o Voto Impresso Conferível pelo Eleitor.

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se você leu até aqui, vale a pena saber quem escreveu o que este blog está citando. o CMIND é…

Sérgio Sérvulo da Cunha, 74, jurista, membro da Comissão Permanente de Direito Constitucional do Instituto dos Advogados Brasileiros.

Augusto Tavares Rosa Marcacini, 45, membro da Comissão de Tecnologia da Informação do Conselho Federal da OAB no triênio 2004/2006, acompanhou o desenvolvimento dos sistemas eleitorais do TSE em 2004.

Maria Aparecida da Rocha Cortiz, 49, advogada eleitoral, acompanha o desenvolvimento dos sistemas eleitorais junto ao TSE desde 2002.

Jorge Stolfi, 59, Ph.D pela Stanford University em 1988 é Professor Titular do Instituto de Computação da Unicamp.

Clovis Torres Fernandes, 56, Doutor em Informática pela PUC-Rio em 1992, é Professor Associado da Divisão de Ciência da Computação do ITA.

Pedro Antônio Dourado Rezende, 57, matemático e criptógrafo, Professor de Criptografia e Ciência da Computação da Universidade de Brasília.

Márcio Coelho Teixeira, 46, engenheiro, projetou do protótipo de urna eletrônica em 1995 aprovado pela Comissão de Informatização do Voto do TSE e acompanhou a apresentação dos sistemas eleitorais do TSE em 2000.

Amilcar Brunazo Filho, 60, engenheiro, assistente técnico em perícias em urnas eletrônicas, acompanha o desenvolvimento dos sistemas do TSE desde 2000.

Frank Varela de Moura, 38, analista de sistemas, acompanha o desenvolvimento dos sistemas eleitorais do TSE desde 2004.

Marco Antônio Machado de Carvalho, 44, analista de sistemas e programador, acompanhou o desenvolvimento dos sistemas eleitorais do TSE em 2008.

o relatório completo, de 105 páginas, pode ser encontrado neste link. boa leitura. o debate só está começando e o blog vai voltar ao tema muito em breve.

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

internet: articulação e coordenação, ao invés de regulamentação

srlm às 00:20

a internet, no mundo e no brasil, vem sendo regulada por um acordo de cavalheiros. dito desta forma, pode parecer que a rede precisa de mais ordem e mais estrutura; não, nada disso. é exatamente este acordo de cavalheiros, montado sobre a rede de conhecimento, relacionamento e articulações de um sem-número de comitês, grupos e competências, em todo o planeta, que faz com que a rede seja um instrumento essencial para a economia e a sociedade e, ao mesmo tempo, continue a manter, década e meia depois de se tornar comercial, sua vertiginosa velocidade de inovação.

a quantidade, diversidade e qualidade da inovação é o que tem nos dado, nos últimos 15 anos de rede comercial, a clara sensação de que estamos sempre “correndo atrás” para ficar no mesmo lugar, ou seja, capazes de usar o que a economia criativa da rede nos apresenta todo dia. ou, melhor ainda, o que o ambiente de inovação e empreendedorismo globais, dependente da rede, permite que criemos e ofereçamos ao mundo, todo dia.

vez por outra –como não poderia deixar de ser num acordo de cavalheiros- as coisas chegam perto de um ponto de ruptura. exemplo bem recente é, na semana passada, a FCC perdendo uma disputa sobre NEUTRALIDADE de rede para COMCAST e fazendo alguns começarem a acreditar que o regulador americano de telecom poderia, de repente, estar pensando em reclassificar ACESSO e PROVISÃO de serviço de internet como TELECOM. não falta quem queira, por muitas razões, fazer exatamente isso.

Kirk wants to take away your rights on the internet

nas últimas semanas e meses, este é o mais importante e complexo problema que rodeia o acordo de cavalheiros que rege a rede [nos EUA], pelo menos pra quem que está na rede e preocupado com seu futuro. a COMCAST, nos EUA, é um provedor de acesso que faz traffic shaping, o processo de priorizar uns pacotes, em sua rede, em detrimento de outros. em particular, a COMCAST só deixa passar pacotes do tipo torrent [muito usados para download de música e vídeo] quando “dá”. e o problema é que este “dá” pode ser quase nunca. pois bem: a FCC tentou obrigar a empresa a tratar todos os pacotes da mesma forma [neutralidade de rede, de forma simplificada, é isso] e, na justiça, perdeu.

as consequências podem ser imensas e mundiais. uma delas, a mais radical, seria  transformar acesso e provisão [em outras palavras, banda, larga] em telecom, trazendo junto com isso toda complexidade, parálise e, porque não dizer, bolor que permeia a regulação e o setor de telecom em todo mundo. não falta quem queira controlar algo do porte e valor de mercado da internet; sabemos todos, por outro lado, quais seriam as consequências do ponto de vista da velocidade de evolução se, por exemplo, a assembléia da UIT [e seus convolucionados processos decisórios] tivessem que regular, digamos, a porta 25.

falando nisso, taí um bom exemplo, a gestão porta 25: segundo o cert.br, gerência de porta 25 é o nome dado ao conjunto de políticas e tecnologias, implantadas em redes de usuários finais ou de caráter residencial, que procura separar as funcionalidades de submissão de mensagens daquelas de transporte de mensagens entre servidores. certo. e… se a porta 25 não for devidamente gerenciada? bem, 80% do spam que chega na sua caixa postal pode ser relacionado diretamente a portas 25 “abertas” nos provedores, como você pode ver no gráfico abaixo [linha azul].

imagecomo é que o problema está sendo tratado no brasil? como um belo exemplo de convivência entre o regulador [de fato e direito] de telecom e o articulador da internet.BR, o comitê gestor da internet brasil criado [tá lá na página do cgi.br]… pela Portaria Interministerial nº 147, de 31 de maio de 1995 e alterada pelo Decreto Presidencial nº 4.829, de 3 de setembro de 2003, para coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços Internet no país, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados.

ou seja: o cgi.BR, legalmente, não manda na internet.BR; ao invés, coordena e integra as iniciativas de internet no país. e tem funcionado muito, muito bem, com o cgi.BR “recomendando” procedimentos aos agentes da rede, no brasil, ao invés de “determinando” que se faça, peremptoriamente, isso ou aquilo.

no caso da porta 25, o cgi.BR [CGI.br/RES/2009/001/P] emitiu uma recomendação técnica sobre o assunto há um ano, depois saiu pra convencer um monte de gente: iG e UOL, por exemplo, já migraram todos os seus usuários para os termos da recomendação e o TERRA está migrando agora. mais recentemente, como a recomendação envolve controle de acesso [autenticação de mensagens, no provedor] e restrição de tráfego [na operadora], o CGI.br negociou com a ANATEL uma carta do ministro sardenberg [da ANATEL] ao secretário augusto gadelha, do MCT e coordenador do cgi.BR, apoiando a recomendação explicitada pela resolução 2009/001 e sua implementação pelas operadoras.

as operadoras, que já são, e há tempos, os maiores provedores de acesso do país e estão no olho de qualquer furacão relacionado à internet, passam a se sentir seguras de que, ao implementar a CGI.br/RES/2009/001/P com o “apoio” da ANATEL, estão melhor escudadas contra eventuais reclamações [judiciais, inclusive] de spammers que venham a se sentir atingidos pelos impactos da “recomendação” do cgi.BR

tudo muito articulado, leve e digno das melhores cozinhas diplomáticas do planeta, como não poderia deixar de ser quando se leva em conta as instituições, tradições e personagens envolvidos. pra todos nós, é bom que seja assim e, mais ainda, que continue a ser assim no futuro. a rede e nós todos só temos a ganhar.

a pergunta que fica, sobre um episódio do passado recente e que pode muito bem se repetir em breve… é: será que a intervenção da ANATEL no caso speedy/telefônica não foi bem mais do que a agência deveria, ou melhor, poderia –inclusive legalmente- ter feito? afinal de contas, apesar de provido por uma operadora, speedy é um SVA, serviço de valor adicionado [veja o artigo 61 da LGT] e, por isso, não deveria ser regulado pela ANATEL. verdade que internet via ADSL está na regulamentação do SCM… mas que isso foi uma forçada de barra, foi.

e você diria: sim, mas se a ANATEL “não nos defender”, quem haveria de?… que tal os órgãos de defesa do consumidor? ou o CADE, que tem o papel de fiscalizar, prevenir e apurar abusos de poder econômico, dado que a maioria dos provedores de internet fixa detém algo muito perto de um monopólio em suas áreas geográficas? mas no brasil é sempre mais fácil pedir mais regras, mais burocracia, mais controle, ao invés de se exigir mais eficácia e eficiência dos mecanismos existentes.

até este blog, que defende, o tempo todo, menos buro- e burrocracia e complexidade, mais articulação e coordenação e menos regulação na sociedade, chegou bem perto de pedir que a ANATEL, lá no mesmo 2009, tratasse de intervir no seu provedor de ADSL. tudo bem que a situação por aqui era caótica; mas nada justificava ter pensado que a intervenção da ANATEL, neste tipo de caso, deveria ser algo corriqueiro.

não era. não é. e se for, algum dia, estaremos correndo o sério risco de ter trazido para a internet as amarras estruturais e conjunturais que atrasam e impedem, em muitos casos, inovação em telecom. abrir a porta pra regulação da pesada, na rede, é trazer o cartoon abaixo pra bem perto de casa… perto demais pra gente, sequer, querer contemplar o assunto. pra rede, vale o ditado latino: mutantur omnia nos et mutamur in illis. tudo muda e nós mudamos com o todo…we must fight the corporations and government to keep our internet freedoms

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domingo, 11 de abril de 2010

o futuro, os jovens, a política e o capital em rede

Tags:, , , , , , - srlm às 11:24

“a política, quando realmente nos inspira, oferece uma nova visão do futuro”. a frase abre a introdução do relatório “To tackle the challenges of tomorrow, young people need political capital today…” [ou AN ANATOMY OF YOUTH], escrito por celia hannon e charlie tims para a demos, com a participação de gente como danah boyd e zygmunt bauman [de quem você pode ver uma entrevista a maria lúcia garcia pallares-burke neste link].

o que o relatório tenta descobrir é como os jovens britânicos [12% da população do reino unido, em 2007, tinha entre 16 e 24 anos de idade] querem e podem da vida e o que farão do futuro, num país onde, daqui a duas décadas, os maiores de 65 anos serão duas vezes mais, em número, que os “jovens”.

no brasil, costumamos pensar que não temos este problema; mas nossa população começa a envelhecer rapidamente e a pirâmide populacional dos anos oitenta [vermelho, abaixo] já mostra, hoje [laranja, abaixo], uma “barriga” de idade que vai nos levar a uma situação similar a dos países mais desenvolvidos do ponto de vista de distribuição etária da população. o que não deveria ser nenhuma surpresa, já que estamos simplesmente, no tempo, copiando seus modelos de desenvolvimento e evolução social.

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dentro de muito pouco tempo [ou agora?…] o que teremos que gastar para prover os aposentados estará minando, seriamente, os investimentos públicos que seriam necessários para garantir mais e melhores possibilidades de futuro para os jovens. mas isso é outra história; o interesse do blog se volta para os capítulos do estudo que tratam da juventude em rede. em “owning a digital identity”, danah boyd observa que…

Privacy is not dead among teenagers, but it is being realigned. Historically, young people had to go out of their way to make something public; spreading rumours widely was possible but not always easy. Today, sharing publicly is often the default. Instead of thinking about what to make public, today’s teenagers think about what to make private.

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o mesmo parace ser verdade também no brasil: ao invés de considerar o que compartilhar, o que está em discussão entre os jovens é o que manter privado; o “novo” padrão, para os “jovens” é compartilhar tudo. isso muda muita coisa e tem impactos de porte na [por exemplo] atitude em relação à disponibilidade e uso de mídia na web. desde que a rede é rede, os “jovens” sabem que copiar arquivos protegidos por copyright, sem licença, é ilegal, [88%, neste estudo de 2004…] mas não estão nem aí pra isso: no mesmo reino unido desta discussão, dois terços dos jovens copia música da rede, todo dia.

o governo [britânico, e muitos outros] vai tentar apertar com mais legislação punindo download ilegal… mas o efeito será nulo, porque ídolos dos “jovens”, eles próprios jovens como liam gallagher, ex-oasis, saem dizendo [sexta passada] que “não estou nem aí pra cópia ilegal de música online” e, logo depois, liga a metralhadora giratória contra seus pares que reclamam disso, usando a linguagem do seu tempo de “jovem”:

“Downloading’s the same as what I used to do – I used to tape the charts of the songs I liked [off the radio]. I don’t mind it. I hate all these big, silly rock stars who moan – at least they’re fuckin’ downloading your music, you c*nt, and paying attention, know what I mean?”

attention. atenção. será que todos os autores e donos de copyright estão prestando atenção e entendendo o que gallagher está dizendo?

atenção era o que deveríamos prestar, todos, também, à abertura do texto de zygmunt bauman no capítulo sobre “belonging to changing communities”, do relatório, onde o filósofo do tempo e da modernidade “líquidas” alerta:

Young people emanate anxiety, restlessness and impatience as they confront an apparent abundance of chances, and the fear of overlooking or missing the best among them. Idols to watch and fashions to follow are as profuse as they are short-lived. Chances pop up and disappear with little or no warning, and the rules of the game are changed before the player had time to finish.

ou… os jovens emanam ansiedade, desassossego e impaciência à medida que confrontam uma aparente abundância de oportunidades e têm medo de deixar passar ou perder as melhores entre elas. ídolos e modas, a seguir e usar, existem em tanta profusão quanto em brevidade. alternativas surgem e desaparecem com pouco ou nenhum aviso e as regras do jogo mudam antes mesmo que o jogador tenha tempo de chegar no último nível.

resumo? nunca antes [mesmo!] na nossa história nenhuma infraestrutura tecnológica, de negócios, usos e costumes evoluiu tão rapidamente como a internet e a web. e não foi por causa de lula ou de um governo do PT, claro.

tentar prender a fluidez deste nosso tempo em regras de uma outra era é causa perdida e esforço jogado fora, porque a velocidade da mudança só tende a aumentar, tanto no que diz respeito a coisas tópicas [e irrelevantes, no contexto mais amplo] como downloads ilegais quanto nos mecanismos de participação de mais gente, e muita gente jovem, nas definições do que o planeta, e suas economias e sociedades, serão.

é só questão de tempo, o pouco tempo entre o agora e quando os jovens descobrirem o capital político que detêm num mundo em rede. por sinal, vêm aí as eleições…

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

de ilusões na rede a uma rede ilusória…

srlm às 15:27

o que foi que eu andei lendo e dizendo esta semana? de cabeça pra baixo, os mais recentes antes, se seguem algumas das coisas da semana, vindos do meu twitter e comentados… rapidamente. acho que vou fazer isso mais frequentemente, aqui; como uso meu twitter em boa parte pra guardar links de coisas que acho importantes e sobre as quais terei [ou teria] que refletir ou escrever no futuro, vou começar a fazer isso aqui mesmo no blog, uma vez por semana, se der. este é o lote da semana que está acabando.

How do you build an $850 million fad? Simple: Start strong, then fail to evolve. Just like Bebo. http://bit.ly/aV3i0r #PNW

o link do tweet acima cai direto numa história da CNN sobre como se morre na web -e de forma muito pouco graciosa, por sinal; como estamos num tempo de conhecimento em fluxo [e num tempo e sociedade fluidas, segundo zygmunt bauman] é muito fácil destruir valor quando você esquece que está numa corredeira e que tem muita gente descendo o mesmo rio que você. sem falar nas pedras rolando… mais rápidas que você. o exemplo é bebo, propriedade da AOL, que já foi um dos grandes aspirantes a ser “a” rede social. e que está indo, agora, pra lata de lixo da história. como, aliás, orkut. mas isso é outra história.

às 2300 na globoNews / entreAspas, @srlm no debate sobre mídia / cidadã / social… até lá.

o blog, sérgio bairon e david butter participaram nesta quinta, com mônica waldvogel, de um debate sobre a contribuição do que antes chamávamos de “leitor” e “espectador” na cobertura dos fatos correntes. informatizado, cada cidadão se torna um samuel pepys, online, em tempo real. e a periferia, conectada, contamina o centro. pra sempre. o link pro vídeo [25 min.] está aqui.

há um ano, no blog: vida + artificial = besouro-cyborg http://bit.ly/aejMUW /besouro como um organismo informacional?/ #HFC

vocês viram isso, antes, aqui mesmo no blog? este projeto, por sinal, foi terminado; ou então passou a ser tão secreto que desapareceu da web. vá ver.

After years of pretending to be a friend of Free and Open Source Software, IBM shows its true colors http://bit.ly/bbs5Bz #HFC

não dá pra enganar todo mundo, nem uma parte do mundo o tempo todo. o post deste link dá conta da IBM, que há anos investe –pelo menos aparentemente- em projetos open source, ameaçando um projeto open source independente como seu vasto arquivo de patentes. clique aqui pra ver a confusão. neste assunto, e neste caso em particular, a IBM pode passar de patrono de OSS pra pisar, o tempo todo, num campo muito minado.

inovação? silicon valley gera, por ano, ~15 startups que vão faturar US$100+M/ano COMO? >leia> http://tcrn.ch/bQEAZn #HFC #PMN

michael arrington, de techcrunch, conversa com três dos mais interessantes operadores de capital empreendedor do silicon valley; é um vídeo, mas decuparam o texto inteiro com boa qualidade e vale a pena ler/ver, pra todo mundo que estiver interessado em entender o que é empreendedorismo de verdade [e integral] e o que está rolando no lugar mais quente do mundo. e como tudo, lá, depende de capital empreendedor; ajuda também a explicar porque não temos, aqui, a densidade empreendedora que gostamos de ver [e consumimos] em outros lugares.

FCC perde disputa sobre NEUTRALIDADE de rede para COMCAST e pode reclassificar ACESSO como TELECOM. http://bit.ly/dwYJxp #HFC

este aqui é o tema, na minha opinião, mais importante e complexo da semana, pelo menos pra quem que está na rede e preocupado com seu futuro. a COMCAST, nos EUA, é um provedor de acesso que faz traffic shaping, o processo de priorizar uns pacotes, em sua rede, em detrimento a outros. em particular, a COMCAST só deixa passar pacotes de torrent quando “dá”. que pode ser quase nunca; a FCC tentou obrigar a empresa a tratar todos os pacotes da mesma forma [neutralidade de rede é isso] e, na justiça, perdeu.

as consequências podem ser imensas. tipo transformar rede [banda larga] em telecom, trazendo junto com isso toda complexidade da regulamentação de telecom para um espaço que, até agora, era largamente desregulado. seja lá qual for o resultado nos estados unidos, o impacto vai ser global. que a rede nos proteja.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

o livro digital e seus direitos de leitor

parece que os livros digitais vão começar a ser um mercado, de verdade e em breve. a amazon está lá, a sony também, assim como a barnes & noble e agora a apple, trazendo seus fanáticos consumidores para a cena do livro digital. sim, e há um monte, dezenas, de xing-ling-readers, pelo menos meia dúzia dos quais tem aspirações a ser a hyundai do livro digital. mas há que se lembrar que o “reader”, o dispositivo que fica na sua mão, é só uma pequena parte da solução. ou uma grande parte do problema, você escolhe.

claro que ninguém sabe, a esta altura do campeonato, o que vai acontecer com o livro digital; aliás, este foi o tom das discussões do primeiro congresso internacional do livro digital, CILD, que rolou em são paulo semana passada; este blog esteve na conversa e os slides da palestra estão neste link.

silvio_meira congresso livro digital marco 2010 sao paulo 01_Cleo Velleda-IO (2)

este blog já discutiu, mais de uma vez, o livro digital e sua economia: mais recentemente, falamos sobre a chegada da pirataria digital à literatura, coisa que está para acontecer de várias e muito efetivas formas. num artigo correlato, reproduzimos um grande texto de nelson motta sobre as mudanças que o universo digital impingiu ao mercado de música, onde nelsinho deixa claro que, do ponto de vista de conteúdo e informação musical, a descentralização do poder e da capacidade de “produção”, resultados diretos da digitalização em rede… “pulverizou a informação e transformou um céu de poucas estrelas muito brilhantes em novas constelações e galáxias”. ao invés de poucos e “grandes” artistas, muitas, pequenas e grandes, possibilidades. como diria clay shirky, haja filtro.

pois é; de um jeito ou de outro, vem aí o livro digital e, com ele, a aplicação da lei de zucker ao mercado literário. jeff zucker, CEO da NBC/U, disse um dia quea revolução da informação é a transformação de dólares analógicos em centavos digitais”. troque o contexto geográfico e moeda dele pelos nossos e você vai ter uma idéia do que já acontece aqui na música e vídeo e acontecerá em breve na literatura. este. aliás, foi um de meus slides no CILD, reproduzido abaixo.

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mas isso é o mercado e, de uma forma ou de outra, ele vai se resolver. e este post é só sobre um dos temas mais quentes ao redor dos livros digitais, que eu passei quase ao largo na minha apresentação no CILD: quais são os direitos do leitor do livro digital? tipo… se você compra um livro [e paga por ele…] e, de repente, ele é recolhido pelo editor ou por ordem judicial, a sua cópia digital é recolhida? sim ou não? se sim, você é reembolsado? se o seu leitor for o kindle, a resposta é sim; e se for o iPad? a apple é mais radical e faz, e estará fazendo censura prévia de conteúdo, já para bater o centro. mais radicalmente, se um golpe de estado proíbe um livro que você tem [e certamente, leu] e resolve ir atrás dos leitores, os ditadores conseguem seu nome e endereço do fornecedor do seu livro? sim ou não?…

literalmente, o controle que a amazon e a apple querem exercer sobre seu modelo de livro digital é mais uma tentativa, em tempos de rede, de retornar o poder para o centro. aposto, pelas mais variadas razões, que não vai funcionar. e, pra não ficar só na aposta, aponto para e traduzo, aqui, parte de um texto da electronic fronteir foundation, a EFF, sobre livros digitais e os direitos dos leitores, que aponta oito principais crivos de sanidade para seu leitor digital. ah, lembre-se: seu leitor está em rede; ele não é um mero dispositivo e sim um sistema, tem um monte de software dentro e por trás dele e, não por acaso, troca dados sobre seus hábitos de leitura no mínimo com quem lhe vendeu o conteúdo.

vamos ver o crivo da EFF, que faz perguntas muito importantes sobre este novo mercado; ao lê-las, tenha em mente que estamos falando sempre de um sistema, cuja ponta visível é um dispositivo digital que mostra conteúdo e faz, ou deveria fazer, muito mais. e parte do problema é exatamente por aí: quanto deste mais é de nosso interesse e está sobre nosso controle?

1. seu e-reader [como um todo, serviço incluído] respeita sua privacidade? será que o sistema limita o envio de informação sobre o que você está lendo? e deixa você controlar a informação que ele coleta e envia [para outros sistemas] sobre você?

2. seu leitor lhe diz o que está fazendo? ou seja, mesmo que esteja enviando seus dados para o mundo, você sabe disso? seu leitor permite investigar se ele está vazando informação sobre você para algum ouvinte externo?…

3. o que acontece às adições feitas por você [comentários, anotações…] aos seus livros digitais? você é o dono e guardião delas, podendo controlar quem e como tem acesso às mesmas?

4. você é o dono do livro que lê ou só alugou ou licenciou o mesmo? você pode emprestar seu e-book? pode revender? seu livro pode ser editado ou deletado pelo vendedor por alguma razão?…

5. seu e-book é resistente à censura? quão fácil é tirar os livros dos leitores em função de alguma decisão de governo, justiça ou outra qualquer? os seus livros, “no” leitor, são controlados por uma entidade única, sujeita a pressão política ou qualquer outra, que venha a implicar na censura aos seus e-books como consequência?

6. seus livros digitais são “protegidos” por algum tipo de DRM [gestão de direitos digitais]? como DRM limita seu uso do livro? seu livro digital, em particular, só “funciona” no seu dispositivo atual? o que acontece se você trocar de dispositivo? vai ter que comprar seus livros “de novo”?…

7. sua escolha de “sistema” de livro digital promove o amplo acesso ao conhecimento? os autores podem, ou não, usar licenças do tipo creative commons ou doar o material ao domínio público? em que condições?

8. um particular sistema de livros digitais promove ou inibe a competição e inovação? ao comprar um sistema, você casa para sempre com um tipo de leitor e um formato de livro? seu provedor de literatura digital depende de ou promove acordos que limitam a competição?…

muitas boas perguntas, muitas delas sem nenhuma resposta de nenhum dos sistemas hoje no mercado, o que as torna um ponto de partida para a especificação de um conjunto de alternativas futuras, interoperáveis e transparentes, dos sistemas que realmente queremos usar.

de qualquer forma, as nossas esperanças de não perder o controle sobre nossas vidas e hábitos, da periferia para o centro e mesmo no confuso cenário atual, são muitos: alguém hackeou o iPad logo no primeiro dia e abriu as entranhas da coisa pra gente mexer no que quiser, correndo o risco que quiser. esta vai ser uma longa luta da comunidade, na periferia, contra os provedores, no centro, que querem ter nas mãos cada um dos nossos bits e, quem sabe, neurônios.

não é por acaso que o título da minha palestra era… literatura digital: o passado recente e o futuro próximo, vistos de um presente confuso… pois ainda falta muita, muita definição, padrões e, quem sabe, regulação, além de muito tempo e recursos investidos em tentativas, erro e aprendizado, até que a coisa toda fique mais ou menos normal, daqui a alguns anos, uma década, quem sabe. até lá, trate tudo deste mercado experiência.

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