Terra Magazine

terça-feira, 31 de agosto de 2010

dez tendências tecnológicas nos negócios [5]

estamos publicando uma série sobre um relatório da mcKinsey que aponta as dez principais tendências tecnológicas nos negócios nesta década. as tres primeiras [criação colaborativa, negócio = rede, colaboração em escala] apareceram no post inicial, neste link. no texto anterior, neste link, falamos da “internet das coisas”. os slides usados nos textos são de uma palestra do autor na CNI, em são paulo, cuja íntegra está neste link.

hoje vamos falar do que a mcKinsey chamou de “big data” e suas consequências para os negócios.

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a idéia básica está no slide acima: o volume de dados nas empresas já é muito grande e dobra a cada 18 meses em média. isso quer dizer que os negócios estão debaixo de um verdadeiro dilúvio digital, o que pode ser exemplificado pela situação no wal-mart: os clientes do maior varejista do mundo são responsáveis por um milhão de transações por hora, que resultam em 2.5 petabytes de dados a cada 60 minutos, o equivalente a nada menos que 167 vezes a informação armazenada na biblioteca do congresso americano, principal repositório mundial de conhecimento clássico, aquele armazenado em livros e filmes. se bem que a LoC tem um projeto para armazenar todo o timeline do twitter…

e isso é só parte do cenário. quase todo negócio competente, hoje, coleta dados em quantidade e qualidade que só os censos constumavam fazer no passado, e faz isso por mes, semana ou, em casos como o do wal-mart e seus competidores, por dia ou hora. o blog passou pelo assunto em março passado, aqui neste link, discutindo o especial do economist “data, data everywhere”, que trata da explosão combinatória de dados no planeta e não só nos negócios.

quer ter uma ideia do tamanho do problema? o sloan digital sky survey, quando começou a operar um telescópio de 120 megapixel no novo méxico em 2000, coletou nas primeiras semanas de trabalho um volume de dados maior do que em toda a história da astronomia até então. abaixo, a nebulosa de orion em muito baixa resolução; clique para ver em mais detalhe no site do projeto.

mas a SDSS está coletando dados que podem levar anos para serem processados; nos negócios, estamos observando uma tendência de tratamento e uso “big data” em tempo quase real, com cadeias de varejo coletando dados de compras [no caixa, no site] ou de visualizações [no site] e compra [no site da competição, por exemplo] para redesenhar ofertas, inclusive modificando os produtos ofertados, quase que imediatamente.

a existência de “big data” na intensidade em que vemos nos negócios, nos últimos anos, cria a possibilidade de exercitar um dos princípios de deming: “nós acreditamos em deus; todos os outros devem trazer dados”. medir e processar para entender e melhorar performance é o que está por trás de tal linha de raciocínio. esta é a possibilidade criada pela existência de “big data” e experimentação barata, baseada em computação de muito grande porte e testes reais, que fornecem mais dados e mais possibilidades de processamento e aquisição de informação e conhecimento.

image mas já que falamos em deming, é bom lembrar que ele considerava a administração baseada somente em dados um dos sete pecados capitais das organizações. segundo deming, há aspectos importantes dos negócios que são desconhecidos e, pior, impossíveis de serem conhecidos, por mais dados e processamento que se tenha.

e isso é bom: quer dizer que intuição, imaginação e invenção continuarão sendo importantes para tocar negócios no presente e no futuro… e que seres humanos, nas organizações, ainda são essenciais. pelo menos até que “big data” e seu processamento em muito larga escala comecem a não só calcular possíveis futuros mas, também, a imaginá-los…

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

dez tendências tecnológicas nos negócios [4]

Tags:, , - srlm às 08:00

o blog está publicando uma série de textos sobre um relatório da mcKinsey que considera as dez principais tendências tecnológicas nos negócios nesta década; introduzimos as tres primeiras em um post inicial, que está neste link. os slides usados em nossos textos vêm de uma palestra do autor na CNI, em são paulo, cuja íntegra está neste link.

falar sobre tendências é fácil, porque se pode chutar qualquer coisa, e difícil, porque no futuro, quando as coisas não acontecerem, há de se fazer um encontro de contas com o chute do passado. por outro lado, sempre se pode encarar o problema como o fez alan kay, que entrou para a história da xerox e da tecnologia por ter dito, em meio a uma reunião de planejamento da empresa, que “a melhor forma de prever o futuro é inventá-lo”.

o futuro é uma construção coletiva que sempre depende de muita gente apostando que um futuro, ou um conjunto de possíveis futuros, vai acontecer. sempre que um bom número de forças se alinha para que um certo futuro aconteça ele acaba acontecendo; pode até dar errado, mas, por um tempo que seja, de uma forma ou de outra, acontece. aqui é onde entra uma mcKinsey identificando tendências, alinhando muita gente com vertos “possíveis futuros”.

pois: a quarta tendência identificada pela mcKinsey está ligada à “internet das coisas” e vem de uma observação quase trivial mas ainda desapercebida por boa parte dos atores da web: o número potencial de coisas que podem se conectar à rede é milhares, talvez milhões de vezes maior que o número de seres humanos que queremos e poderemos ver dentro do espaço digital. em ordem de magnitude, é como se fôssemos ter tres bilhões de pessoas na rede e o número de coisas, também na rede, rodasse pelos três trilhões.

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no slide acima, bote uns dois ou tres bilhões de pessoas a mais e, se quiser, eleve o número de coisas para dezenas ou centenas de trilhões… por aí. é exatamente o que veremos no médio prazo como parte do campo infomacional global.

falando nisso, o blog publicou há pouco tempo uma série sobre a “internet das coisas” [abaixo, em quatro tweets ligando os artigos] que resumem nosso ponto de vista do sobre a tendência apontada pela mcKinsey:

esta semana tem série no blog » A INTERNET DAS COISAS. a parte 1, SPIMES, tá no ar » http://bit.ly/dmckIm #HFC #PNW

série no blog, esta semana » a internet das coisas; hoje, parte 2: everyware » http://bit.ly/aBnMhb #HFC #PNW

série no blog, penúltimo capítulo » a internet das coisas, parte 3: spimeware » http://bit.ly/daOgsM #HCF #PNW

no blog, último da série » a internet das coisas: parte 4 » um campo informacional global » http://bit.ly/97hgbn #HFC #PNW

o problema central a ser resolvido antes que vejamos uma internet das coisas com a intensidade na qual ela eventualmente vai existir parece ser o de padronizar a visão do que é uma “coisa” na “rede”. a noção de spimeware, acima, dá uma idéia do que precisa ser tratado antes que cheguemos lá… e não vai ser fácil cuidar de todos os detalhes para que cheguemos nesse tal “lá”.

mas chegaremos. e razões há de sobra, quer ver? meus celulares android são configuráveis através de um web server; entram na rede wi-fi e entro neles pelo browser, para tratar absolutamente tudo dentro da coisa. na versão pré-android do mesmo fabricante, era um verdadeiro milagre se você conseguisse fazer com que os drivers do celular se instalassem no PC e outro, ainda maior, se o PC e o celular conseguissem se entender… usando um cabo de interface que era diferente e tratado diferentemente pelo software para cada celular. na rede, presto!, o celular se torna spimeware; passamos ao largo de toda a conectividade física e tratamos o problema de informação como deveria ser tratado, ao invés de ficarmos perdidos na eletrônica.

breve, o mesmo tipo de ideia vai estar funcionando para geladeiras, microondas, automóveis, motos… marcapassos, implantes neurológicos, corações e olhos artificiais, o que for. e aí vai ter começado a internet das coisas. preste atenção nesta década de integração das pessoas e coisas nos negócios [e na vida cotidiana], pois muito bit vai rolar, vindo de tudo o quanto é canto.

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PS: referências adicionais…

The Difference Engine: Chattering objects, the economist, 13/08/2010;

Will Carriers Be Big Players in the Internet of Things?, business week, 10/06/2010;

IBM’s Mote Runner Project to Integrate Internet Connectivity into Everything, POPSCI, 06/07/2010;

Close Encounters of the Smart Kind, material handling management, 01/03/2010;

Unraveling The Internet Of Things, forbes.com, 22/03/2010;

Sony, Mattel, Nike and Barbie Are Already on Board With the ‘Internet of Things’, creativity, 25/03/2010;

Talk to Me, Fridge, bloomberg/business week, 22/06/2008;

Internet of Objects vs. Internet of Things vs. Web of Things vs. Things on the Web vs. Real World Web vs. Whole World Web, purselipsquarejaw.org, 24/04/2010;

Intel to expand beyond computers and into the booming market for mobile and Internet-connected devices, san francisco chronicle, 20/08/2010.

 

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

dez tendências tecnológicas nos negócios [1, 2, 3]

grandes consultorias de negócios costumam publicar, de tempos em tempos, suas idéias sobre o futuro [de alguma coisa] nos negócios. nem sempre acertam, claro; mas também é claro que há um grande alinhamento de expectativas do mercado quando qualquer uma das grandes diz estar “achando” alguma coisa, principalmente em áreas onde a evolução sempre tem cara de revolução, como é o caso de tecnologia. ainda mais quando se trata de TICs, as tecnologias de informação e comunicação.

dias atrás, o blog comentou um estudo da IBM sobre o aumento da complexidade no ambiente de negócios nesta década, com tecnologia assumindo um papel [na opinião de CEOs de todo mundo] só menos importante do que fatores intrínsecos do mercado. hoje começamos a discutir um texto da mcKinsey sobre tendências tecnológicas nos negócios  [Clouds, big data, and smart assets: Ten tech-enabled business trends to watch] que foi resumido neste link por mark schaefer e comentado, também, pelo blog do marcelão.

esta semana, participei de um debate na CNI sobre formação de técnicos e engenheiros e não houve tempo, na minha apresentação [slides neste link, na íntegra], para comentar as tendências da mcKinsey. dado todo este contexto, vamos ao que interessa mesmo: o que vê a bola cristal da mcKinsey e o que isso significa para os negócios e para as pessoas?…

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a primeira grande tendência é criação colaborativa, em rede, em larga escala; 70% dos executivos consultados pela mcKinsey reconhece que suas empresas já criam valor em comunidades da rede, de processos de atendimento a seus clientes e usuários até o desenvolvimento de produtos e inovação. talvez se possa duvidar, neste estágio do uso de redes sociais pelas empresas, do grau de coerência estratégica de tais ações dentro do negócio como um todo. mas o fato é que ações globais em rede como collaborate & innovate, da LG, onde a empresa publica, em rede, sua agenda de temas e problemas de pesquisa para interesse de potenciais colaboradores externos ao negócio [e conhecimento da competição…] já são importantes e talvez se tornem absolutamente essenciais para a competitividade das empresas nesta década. criação é –e vai ser cada vez mais- colaborativa. porque o negócio, todo negócio é, cada vez mais, em rede.

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aliás, o resumo em uma linha das três primeiras tendências globais apontadas pela mcKinsey é… “seu negócio está se tornando uma comunidade, de verdade, e isso vai ser cada vez mais verdade, de forma cada vez mais intensa”. é disso que trata a segunda tendência, acima: o negócio está em rede e as redes criam conexões para interagir. há negócios intensivos em interação que vêm experimentando desde melhoras muito significativas no atendimento [50% melhor no caso de uma empresa de energia mundial] até outros que estão usando redes sociais para realizar mudanças radicais no processo de atração e contratação de pessoas.

o c.e.s.a.r, aqui no brasil, usa twitter de forma sistemática para atração de capital humano, com um grau de sucesso consideravelmente maior do que o dos processos clássicos de head hunting.

se levarmos a sério as tendências dos negócios estarem mesmo em rede [2, acima] e de que a criação vai ser cada vez mais colaborativa [1, acima], a próxima tendência é quase uma consequência lógica das duas, no tempo:

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colaborar em escala significa que, paulatinamente, as empresas estão deixando de ser silos fechados [o “segredo, alma do negócio”] e, passando por uma instância de cadeia de valor [“não faço tudo, mas controlo”], indo rapidamente para o tempo dos negócios em rede, comunitários: em rede e comunidade, não controlo nada. provoco, articulo, realizo, sou parte –mas só parte- dos processos de coordenação; na verdade, em rede, cada um e todos são agentes independentes, em contexto, competindo e cooperando para sobreviver. no mais puro espírito de darwin, negócios em comunidade são ecologias e regidos pelas leis das ecologias. no caso, das ecologias de negócios.

e isso não vai ser um pequeno passo na história dos negócios; envolver fornecedores e clientes de forma muito ampla na rede de valor da empresa [ou por outro lado, e talvez mais importante: inserir a empresa na rede de seus fornecedores e clientes…] vai dar muito trabalho.

a razão deveria ser óbvia: “transformar o negócio em comunidade” vai afetar, e muito, as estruturas de gestão, a maioria das quais ainda baseada nas hierarquias de comando e controle que tornam a empresa um… silo. pode demorar ainda mais para acontecer em periferias como o brasil; mas, ao mesmo tempo, este é o país que tem o maior percentual de percepção [entre a população] de redes sociais e a maior percentagem [entre quem tem acesso à internet] de usuários de redes sociais em todo mundo. ou seja… o cenário, do ponto de vista das pessoas, está pronto, ou quase. para as empresas, resta o problema de criar os scripts iniciais e a coragem para tentar e, tentando, errar e aprender, em comunidade.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

urnas da índia são frágeis. e as do brasil?…

Tags:, , , - srlm às 08:08

a notícia correu o mundo: o “TSE” da índia mandou prender hari prasad, indiano que participou de um grupo de pesquisadores que quebrou a segurança da urna eletrônica indiana de mais de uma forma, em teste feito juntamente com pesquisadores da universidade de princeton, que tem um nome não trivial no mercado de reputações acadêmicas, sendo nada mais nada menos do que a instituição de einstein e gödel, entre muitos outros.

image pra lembrar o contexto local, o blog publicou uma longa série sobre segurança das urnas eletrônicas brasileiras [que são apenas uma parte do sistema eleitoral] em 2008, antes das últimas eleições. a posição de nosso TSE, à época, de que [claro…] as urnas são absolutamente seguras, está neste link [de onde se pode chegar a outros cinco textos sobre a eleição eletrônica no brasil]… ao que se seguiu uma carta aberta de uma das empresas que participaram do processo de fabricação das urnas brasileiras dizendo que claro que não, as urnas são inseguras. e dizendo porque, o que você pode ler neste link.  ainda hoje vale a pena ler, vá lá.

mais recentemente, em abril deste ano, o blog chamou atenção para o relatório do CMIND, o comitê multidisciplinar independente que acompanha o processo eleitoral, dando conta de que a… concentração de poderes no sistema eleitoral brasileiro não permite auditoria independente.

e aí apareceram estas notícias da índia e o artigo de halderman et al., do qual prasad participou, mostrando como a urna indiana é susceptível a uma série de ataques capazes de fraudar sua segurança e contaminar todo o processo eleitoral.

pois bem: o blog resolveu perguntar a amílcar brunazo filho, membro do CMIND, o que é que ele acha disso tudo. brunazo, 60, é engenheiro, assistente técnico em perícias em urnas eletrônicas, acompanha o desenvolvimento dos sistemas do TSE desde 2000 e conhece o nosso sistema e suas urnas como poucos.

a pergunta do blog foi… brunazo, face às notícias sobre as falhas de segurança das urnas eletrônicas da índia [e a proximidade de mais uma eleição nacional e estadual, no brasil]… como andam as coisas por aqui? o que a situação da índia tem a ver com a do brasil?

a resposta de brunazo, didática, chegou por emeio e está reproduzida ipsis litteris abaixo, com negritos nossos. leia com calma, para não chegar a conclusões precipitadas; se tiver dúvidas, clique nos links deste texto e nos links que estão nos textos correspondentes a estes links antes de tirar suas conclusões:

O Brasil e a Índia são os únicos países que ainda usam máquinas de votar de 1ª geração em larga escala. Máquinas dessa geração estão sendo abandonadas e até proibidas em outros países, como nos EUA, Rússia, Holanda e Alemanha. Até o Paraguai abandonou as 20 mil urnas brasileiras que tinha recebido de graça.

Máquinas de votar de 1ª geração tem por característica a gravação eletrônica direta do voto e são denominadas DRE (de Direct Recording Electronic voting machines). Estas máquinas (DRE) são consideradas equipamentos de votação de 1ª geração porque não atendem ao "Princípio da Independência do Software em Sistemas Eleitorais", isto é, não possibilitam uma conferência da apuração que seja feita de uma forma independente do próprio software das urnas-e.

Os equipamentos de votação mais avançados, de 2ª e de 3ª geração, atendem ao "Princípio da Independência do Software em Sistemas Eleitorais" e possibilitam uma conferência da apuração totalmente independente do próprio software das urnas-e.

A diferença técnica entre as urnas-e brasileiras e indianas é que estas tem software fixo (firmware) gravados em chip soldados na placa-mãe enquanto as brasileiras possuem software variável (modificado a cada eleição) carregados por meio de um soquete externo (flash-card externo "de carga"). Por este detalhe, o modelo indiano dá mais trabalho para ser violado.

Uma demonstração de violação urnas de modelo idêntico ao brasileiro (de carga externa do software) havia sido apresentada em 2006 (veja este link) por uma equipe de Princeton que incluia o Prof. J. Alex Halderman. Agora, em 2010, foi apresentada uma demonstração de violação das urnas indianas (clique aqui para saber mais) pelo mesmo Halderman e pelo ativista indiano Hari Prasad, que conseguiu um exemplar de urna indiana de fonte anônima.

Em vez de reconhecer a inevitável fragilidade das máquinas de votar de 1ª geração e proceder a migração para uma geração mais avançada e segura, a Comissão Eleitoral da Índia (equivalente do nosso TSE) laborou para prender o Hari Prasad para que ele revele a fonte que lhe forneceu uma urna para teste.  Enfim, optaram por "retirar o sofá da sala" quando descobriram que o "Ricardão estava confraternizando com a mulher no dito sofá".

E há mais alguns pontos em comum nos procedimentos das autoridades eleitorais da Índia e do Brasil: 1. ambos afirmam repetidamente que seus equipamentos são 100% seguros contra fraude; 2. em julho de 2009, a Comissão Eleitoral da Índia anunciou que permitiria um teste de segurança público em suas urnas; 3. imediatamente depois (ago/2009) o nosso TSE fez o mesmo anúncio; 4. como as condições de ambos testes eram muito restritivas, ninguém se apresentou para os testes públicos, nem lá, nem cá. No Brasil, os partidos que haviam previamente solicitado o teste desistiram diante das restrições impostas.

Aí surgiram umas diferenças: 1. em ago/09, a Comissão Eleitoral da Índia anunciou o "sucesso" de seu equipamento já que ninguém se apresentou para tentar violá-lo; 2. em out/09, observando a repercussão negativa do "teste sem testadores" na Índia, o nosso TSE enviou convites-convocações para uma porção de repartições públicas para que enviassem pretensos "hackers" para participar de seus testes. Os funcionários públicos enviados e outros convidados não tinham nenhuma capacitação para tal serviço e não tiveram sucesso; 3. em mar/10, o Hari Prasad conseguiu um exemplar da urna indiana e levou-a para ser testada pelo pessoal de Princeton. Como os “testadores”, agora, eram capazes para o serviço, o teste teve sucesso.

Eu tenho certeza que as urnas brasileiras também não resistiriam a um ataque realizado por gente capaz.

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domingo, 22 de agosto de 2010

neutralidade em cheque

Tags:, , , , , - srlm às 13:53

desde o começo da internet, um dos princípios fundamentais da rede tem sido o de tratar todo tipo de tráfego do mesmo jeito, com a mesma prioridade. além de garantir que todos os usuários, a qualquer tempo e sem ter que pagar mais por isso, podem [realmente] usar a rede para o que quiserem e entenderem, desde transmitir o gato dormindo na sala até compartilhar seus sistemas de arquivos usando protocolos p2p.

lá na ponta da tecnologia, neutralidade de rede significa que os pacotes de dados que fazem parte de uma transferência de arquivo qualquer teriam que ser processados pelos múltiplos pontos de rede entre a origem e o destino da mesma forma que pacotes que correspondam, por exemplo, a uma video conferência ou a uma transmissão de rádio pela rede.

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o conflito é óbvio: tem um monte de gente querendo ver vídeo [51% do tráfego da rede, hoje] outro tanto querendo “trabalhar”, provedores de conteúdo que são provedores, também, de infraestrutura… e que em alguns casos podem ser tentados a dar prioridade a “seu” conteúdo na “sua” infra, sem falar nas empresas de conectividade móvel [as antigas “teles móveis”…] que dizem a torto e direito, para quem quiser ouvir, que a infraestrutura de conexões móveis “não pode” ser usada da mesma forma que a fixa, porque não foi pensada para isso… e tal e coisa.

só que, no brasil, mais da metade de todos os acessos a banda larga é… móvel, segundo dados da consultoria teleco. e isso em tempos que google, antigo bastião da neutralidade, começa a defender a ideia de “serviços diferenciados” na rede móvel, que nada mais são do que fazer mais e melhor para quem paga mais e melhor rentabiliza os serviços do provedor.

e não só: sob demanda de seus usuários, certos provedores começam a oferecer serviços diferenciados e muito bem aceitos pelo seu público. veja o caso de DEMON, provedor de acesso inglês que resolveu prover um acesso a banda larga que prioriza… jogos. por £3 a mais por mês, DEMON diz que… "What we’re doing is putting gamers into a business grade network… Looking at the usage of gamers, it’s actually more akin to a small business." segundo o provedor, o padrão de uso de quem joga online parece o de um pequeno negócio e o que eles vão fazer é garantir a melhor banda e a menor latência [tempo entre requisição e início de uma transação] para quem estiver disposto a pagar os tais £3 a mais por mês, aí por uns R$10.

pense: se fosse aqui no brasil, você teria assinado um contrato de 20 megabit por segundo e o seu provedor diria mais ou menos que… “se você me pagar R$10 a mais, por mês, eu cumpro o contrato”. é isso que DEMON está, na prática, oferecendo na inglaterra e que, se a tal história dos “serviços diferenciados” colar… vai virar a próxima praga da internet. que pode acabar levando a uma rede básica, que funciona quando der e puder, para quem estiver pagando a assinatura básica e, do lado dela, uma outra, tão boa quanto for possível, para quem puder pagar adicionais de todos os tipos e montantes. mais ou menos como se quem pagasse mais IPVA pudesse andar no corredor de ônibus, levando os gestores do corredor a tomar mais pistas do trânsito normal porque há mais gente querendo “pagar mais”… até o ponto em que os normais, que pagam o acesso normal, estariam todos espremidos numa pistinha bem estreita e esburacada à qual ninguém presta muita atenção.

desde o começo da internet comercial, no meio da década de 90, as teles estão imaginando e fazendo planos para voltar a cobrar por tempo de uso, por prioridade, por distância, por todo tipo de coisa que cobravam na era analógica das comunicações por tempo e que perderam na idade das redes, digital e de pacotes, onde passamos simplesmente a nos conectar. conexões locais iguais, de alcance global, sem restrições e limites. este é o espírito da internet. se não nos entendermos sobre o assunto, e rápido, entre usuários, governos, reguladores e provedores, o resultado será a balcanização da internet entre redes virtuais de serviços “especiais”… em prejuízo de todos.

a quase certeza de que tais serviços “especiais” levariam a um aumento de receita e melhoria de resultados das teles no curto prazo não compensa, no médio e longo prazos, a quebra do princípio de neutralidade de rede que nos trouxe até aqui, conectando tudo e todos em escala global. em última análise, neutralidade em cheque é a mais séria ameaça à internet em todo mundo, no momento, e vai ser preciso bem mais do que palavras para tratar do assunto.

na quinta feira 26, às 15h, o CDES vai promover um colóquio sobre acesso à banda larga no brasil; este blog vai estar na mesa e colocar este assunto na pauta. a discussão sobre o PNBL e o espaço regulatório da rede, no brasil, não pode passar ao largo dos princípios da neutralidade e seu cumprimento, o que requer não só regulamentação, mas fiscalização pernanente. o blog vai levar em conta, no debate, os comentários a este texto.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

uso de redes sociais nas campanhas é… pífio

srlm às 01:29

a conversa tratava do impacto das redes sociais nas organizações e o que elas estão fazendo ou vão ter que fazer sobre isso. o blog já visitou o tema mais de uma vez, mais recentemente nesta série de textos sobre empresas, redes sociais e estratégias para presença corporativa na web 2.0. na mesa, estava manoel fernandes, o cara por trás da bites.com.br, que está no negócio de entender o complexo universo das relações entre empresas, produtos, marcas e seus clientes, usuários e competidores nas redes sociais.

a discussão começou a ficar interessante e, pra não ficar só na mesa de bar em que estávamos, ganhou um pouco de estrutura e virou assunto do blog, que você pode acompanhar a seguir…

blog: quem é o que faz a bites?

manoel: Bites é uma consultoria de planejamento estratégico em redes sociais. Nossa  missão é trazer o conhecimento das redes sociais para o ambiente corporativo por meio de processos, métodos e métricas baseadas no relacionamento da marca com os seus consumidores. Na nossa equipe há jornalistas, administradores, publicitários, sociólogos, antropólogos, matemáticos e  poetas. Gostamos de trabalhar com gente que gosta de gente.

blog: isso quer dizer que vocês fazem monitoramento de redes sociais?

manoel: Não. Monitorar dados sem interpretá-los, adicionar estratégia e execução é perder tempo e dinheiro. Saber quantas comunidades existem sobre a minha marca no Orkut, por exemplo, é algo extremamente irrelevante. É fundamental entrar no coração dessas comunidades, saber o nível de interação dos seus integrantes e como posso colocar mais informação e serviços à disposição desse cluster. Monitorar com base em números é estéril e serve apenas para devolver o conforto para quem está com receio de interagir com os seus consumidores. É um medo que se mostra desnecessário quando a marca agrega valor na sua relação com o cliente, que em alguns casos se transforma em guardião da marca nas redes sociais. Monitoramento é puro commodity, qualquer um faz. As empresas precisam estar além desse estágio.

blog: e o que a bites busca?

manoel: Transformar os dados simétricos na rede, à disposição de qualquer pessoa, em informações assimétricas que impactam e até transformam alguns modelos de negócios dos nossos clientes. Procuramos transformar as informações simétricas das redes sociais em conhecimento assimétrico com foco no resultado do negócio dos nossos clientes, como as grandes empresas de mídia, varejo, tecnologia e consumo que fazem parte do nosso portfólio. 

blog: você fala muito de jornalismo de indexação. o que é isso?

manoel: É a capacidade de produzir conteúdos relevantes que são indexáveis nos serviços de busca. Nada adianta ter a melhor informação se ela não é encontrada na rede. Um exemplo: qual o Manoel Fernandes mais relevante do Brasil? Imagino que não seja eu, até gostaria, mas essa não é a realidade. Mas, para o Google eu sou o Manoel Fernandes mais importante. Quando você busca por esse nome é o meu que aparece nas primeiras posições. Por acreditar na relevância do conteúdo que escrevo ou publico "ensinei" ao Google a ser encontrado mais facilmente. Isso pode ser feito com qualquer conteúdo. Para tanto, é fundamental entender a lógica da indexação. Esse conceito faz parte do livro "Do Broadcast ao Socialcast", editado pela W3 Editora, que está disponível neste link.

blog: quem precisa saber ou usar este tipo de competências?

manoel: Quem quer ser achado na rede. Quase todos somos da época do conteúdo escasso, mas estamos e vivemos na época do conteúdo abundante e entraremos na época, em breve, do conteúdo por escolha. Se não for encontrado na Internet em algum tempo não existirei mais. Pelo menos do ponto de vista de percepção dos nativos digitais.

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blog: olhando para a política, como está o uso das redes sociais nas campanhas?

manoel: Pífio. Redes sociais são mais complexas que imaginamos. Não adianta nada chegar três meses antes das eleições e mandar uma mensagem para o eleitor: Olha, estou aqui. Sou o seu candidato no Twitter. Política se faz 24 horas por dia, sete dias por semana. E as redes sociais na política devem seguir essa premissa. Mas sou otimista e estamos diante de uma eleição que servirá como laboratório de testes de uma nova geração de parlamentares para as assembléias legislativas, câmara dos deputados e senado. Então, teremos quatro anos de grande atividade e uma eleição em 2014 completamente diferente e mais densa do ponto de vista das redes sociais.

blog: em particular, como estão as três principais campanhas para presidente?

manoel: Como decidimos desde o início não nos envolver em campanhas políticas não tenho muitas informações sobre bastidores, mas acho que os candidatos estão fazendo um uso razoável. Serra, sem dúvida, é o mais objetivo nessa relação com os eleitores, Dilma ainda está entendendo a lógica e vem fazendo avanços significativos. Marina faz o uso mais estruturado das redes sociais em função de uma equipe bem afinada e conhecedora desse universo.

blog: na sua opinião, qual será o impacto da internet [como um todo...] nesta eleição?

manoel: Ninguém ganhará a eleição apenas porque usa bem a internet e as redes sociais. O que vai acontecer é a construção de novas percepções dos
políticos e dos eleitores que não terão mais intermediários na sua relação.
A imprensa clássica, nesse universo, perdeu espaço e relevância como o filtro entre esses dois personagens. Esse será o grande saldo dessa campanha. Um novo eleitor e com alguma sorte uma nova classe política.

blog: daqui até a próxima eleição, o que os candidatos deveriam aprender sobre redes sociais?

manoel: Que não adianta usar a rede apenas na e para a campanha. Porque fazendo isso parece vendedor de Bíblia que bate na sua porta e retorna quatro anos depois com o mesmo produto.

blog: isso inclui gestão de mandatos e de seu eleitorado, passado e futuro?

manoel: Os políticos estão diante de um novo modelo de democracia, mais direta e transparente. Por muito tempo eles viraram as costas para os eleitores e agora essa cortina não existe mais. Os eleitores estão bem mais próximos dos gabinetes dos seus parlamentares. A distância se resumiu a um tweet ou um scrap no Facebook.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

complexidade? criatividade!

srlm às 06:00

estudo da IBM com mais de 1.500 líderes dos mais diversos tipos de organizações, inclusive do setor público, em todo mundo, dá conta de uma percepção cada vez maior de aumento da complexidade de fazer [e manter] negócios de qualquer tipo, em qualquer região, especialmente negócios globais e de classe mundial.02 quem foi consultado

os CEOs que participaram da pesquisa não só identificam um aumento de complexidade nos mercados, produtos serviços, competição e nos seus próprios negócios…

05 nivel de complexidade dos negocios CRESCE …mas uma boa parte deles se sente despreparada para enfrentar o desafio de um significativo aumento da complexidade de suas operações e relações dentro do curto e médio prazos, como mostra a figura abaixo.

06 GAP de complexidade para os CEOs cresce

traduzindo as duas figuras acima em miúdos, para 3 em cada 5 CEOs a coisa já está bem complicada; para 4 em cada 5, o ambiente de negócios vai ficar ainda mais complexo nos próximos cinco anos. na minha opinião, é bem provável que o 1 em cada 5 que acha vamos continuar como estamos… está enganado e vai levar um algum tipo de susto radical dentro desta meia década, destes que podem transferir sua empresa para o grande cemitério dos CNPJs. finalmente, só 5 em cada 10 CEOs se sente preparado para a complexidade esperada nos seus negócios, mesmo que ela não mude muito em relação à atual.

um dos líderes consultados pela IBM dá uma resposta que parece típica frente a tal cenário: “em relação aos outros, estamos preparados; mas em termos absolutos, vai ser difícil”.

para quem está liderando algum negócio ou está pensando em começar um, o estudo vale a pena, inclusive porque compara tendências desde 2004, quando foi realizado pela primeira vez. uma delas está no gráfico abaixo [difícil de ser visualizado na resolução deste blog; pegue o original, em .pdf], que mostra o aumento da importância de fatores tecnológicos [em roxo] na complexidade dos ambientes de negócios, agora só inferior a fatores oriundos do próprio mercado [em azul], e acima de fatores macroeconômicos [verde] e de capital humano [laranja].

04 importancia relativa de tecnologia cresce

talvez seja interessante acrescentar uma observação sobre o diagrama acima. é bem possível que as mudanças tecnológicas, especialmente das tecnologias de informação e comunicação, que perpassam todas as empresas e negócios, tenham sido percebidas apenas do ponto de vista dos negócios e seu planejamento, operação e gestão, ou seja, “dentro” da empresa.

mas os mercados estão cada vez mais em rede, no sentido em que os usuários e consumidores passaram a determinar boa parte do ciclo de vida de informação sobre produtos e serviços oferecidos pelas empresas, e agora fazem isso completamente fora do controle das empresas. um CEO consultado no estudo disse que “parece que temos mais dados [sobre os clientes] mas nossa informação parece ser pior…” o que é quase certamente verdadeiro.

a maior mudança pela qual as empresas estão passando agora é a transformação do “consumidor” em usuário em rede. esta mudança, por sua vez, vai causar mudanças radicais nos próximos anos, começando por uma abertura cada vez maior das empresas para seus parceiros [parte de sua rede de valor] e clientes [agora, usuários]. neste cenário em rede, liderar não vai ser fácil, pois a dinâmica dos negócios e mercado é determinada, em boa parte, por agentes externos à empresa… qualquer empresa.

boa parte do que líderes de negócios de todos os tipos chama de “complexidade” advém do aumento radical do número de fatores a tratar em todos os tipos de mercado, absoluta maioria dos quais relacionada ao aumento exponencial da participação de usuários em rede nas atividades dos negócios e nas consequências disso para estes novos, digamos, negócios em rede. o blog publicou uma série de artigos sobre o assunto, que começa neste texto, contendo as ligações para todos os outros. vá ver.

imagepra saber mais um pouco do que estamos falando, a zona de complexidade da matriz de stacey é aquela onde estão os problemas difíceis de enquadrar, para os quais as relações de causa e efeito [ainda] não são claras, onde muita gente é dono da bola e do campo e dá pitaco sobre tudo [quase sempre sem saber porque], quando o problema evolui enquanto está sendo tratado e para o qual, mesmo considerado estático, não há um único conjunto de soluções e, como se não bastasse, quando não é possível estabelecer uma medida objetiva de sucesso para tentativas de solução. bote tudo isso junto e você tem uma boa aproximação do que é complexidade nos negócios.

para liderar em tais ambientes, naturalmente fluidos e agora em rede, onde as mudanças tecnológicas em alta velocidade e intensidade redefinem, constantemente, os cenários para empresas e até países, que característica principal se exigirá dos líderes? a resposta, lógica e confirmada pelos mais de 1.500 executivos mundiais consultados pela IBM, é criatividade. a arte de lidar, o tempo todo e com bom senso [inclusive de risco] com situações que estão lá naquela zona de complexidade.

eu acho que criatividade na liderança de organizações de qualquer tipo é algo que pode ser definido pela combinação de duas expressões que usam apenas tres palavras: consecução [aqui, a combinação de concepção e execução, nem tão longe do original], emergente e estratégia. criatividade na liderança é combinar a consecução emergente de estratégias com a consecução de estratégias emergentes. parece jogo de palavras mas não é; reflita sobre o uso de tais combinações na zona de complexidade da matriz de stacey e um dia destes voltamos ao assunto. enquanto isso, vá ler o relatório da IBM e o texto do blog sobre empresas em rede

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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

será que P~=NP?

Tags:, , - srlm às 10:02

vinay deolalikar está propondo uma prova de que P~=NP. este é um dos mais radicais e importantes problemas da ciência da computação e, se resolvido, vai mudar o mundo. principalmente se deolalikar estiver errado e alguém conseguir provar justamente o contrário do que ele está propondo.

um monte de gente muito inteligente e dedicada está tentando provar que ou P=NP ou P~=NP há décadas. mas toda vez que alguém aparece com uma suposta prova, muito mais gente aparece com objeções a ela. não está sendo diferente com a “prova” de deolalikar.

a versão da prova publicada no 6 de agosto está neste link. são mais de cem páginas da matemática mais complexa que existe. o miolo da prova deveria ser o teorema abaixo. boa leitura. da cópia, aliás, porque deolalikar retirou o original de sua página e “está trabalhando em correções”, segundo fontes próximas. há quem acredite que a prova já era, foi só um sonho que durou tres dias.

imageimage

se você quiser saber mais sobre o problema em questão, este blog escreveu sobre o assunto em março de 2008, quando se tratava da existência de uma possível prova de que P=NP… o contrário do que deolalikar diz ter provado. o texto está replicado abaixo exatamente como apareceu e –logo depois-desapareceu, quando o TERRA trocou a plataforma de publicação, dando conta de que um professor da UFPE, em recife, talvez tivesse resolvido o problema.

a complexidade computacional de um problema é, em última análise, o tempo que se gasta, no pior caso, para resolvê-lo. problemas computacionais são resolvidos em computadores, usando algoritmos, que são seqüências de instruções bem definidas, que o computador [qualquer que seja] pode executar de forma precisa. por trás deste blog, há um conjunto de algoritmos, sendo executados por servidores no terra.com.br, para transformar os tecles e clicks do leitor em páginas visualizadas na tela.

algoritmos estão, na verdade, por trás de quase tudo o que acontece no mundo. o motor flex depende de algoritmos para analisar o resultado da compbustão e sintonizar o motor para a mistura de combustível que está no tanque. seu banco -on e off line- é uma montanha de algoritmos. assim como o sistema de saúde, o imposto de renda, a tv digital… o voar dos aviões, o sistema de controle de tráfego aéreo e por aí vai. não, os pássaros ainda não são informatizados e seu voar é livre. por enquanto.

pois bem. os problemas computacionais do tipo P são aqueles em que o tempo [ou o custo] para tratar uma instância qualquer do problema é, no máximo, de ordem polinomial. algo como o tamanho do problema elevado ao quadrado, por exemplo. ou o tamanho do problema multiplicado pelo logaritmo dele mesmo, que vem a ser a complexidade de ordenar um arquivo qualquer [ou de começar com uma lista desordenada de palavras e deixá-la, ao fim do algoritmo, ordenada].

há problemas cuja complexidade de solução depende de uma função não polinomial do tamanho da entrada, como seu fatorial [n! = 1* 2 * 3 * ... * n]. gerar todas as permutações de um conjunto de N números gasta tempo N!, onde exclamação, aí atrás, é o símbolo para fatorial. que vem a ser uma função que cresce muito depressa. quer ver? se um problema tem complexidade fatorial e seu tamanho é 3 [três objetos como entrada...], o custo de resolvê-lo é 6 [pois 1 * 2 * 3 = 6]. tamanho 4 custa 24, 5 custa 120, 6 custa 720, 7 já vai pra 5040… e, se o problema for de tamanho 20, o custo é nada menos do que 2.432.902.008.176.640.000! quase dois e meio quintilhões. coisa de louco. isso faz com que problemas para os quais não se conhece uma solução polinomial sejam, via de regra, considerados computacionalmente intratáveis.

até aqui, dá pra entender o que são os problemas do tipo P: aqueles para os quais -mesmo em seu pior caso- a solução tem custo polinomial. e o NP, lá do título? NP é a classe problemas considerados computacionalmente "razoáveis", aqueles para os quais, dada uma possível solução, pode-se testá-la em tempo polinomial. ou seja, para os quais, se conseguirmos uma potencial solução de forma não determinística, temos um algoritmo lá da classe P que diz se a solução é verdeira ou não. talvez venha, daí, o nome da classe: N de "não determinístico" e P de polinomial. para mais detalhes sobre o assunto, de forma tão simples quanto é possível no caso, leia esta explicação do professor paulo feofiloff.

juntando as duas coisas, chegamos ao título do texto de hoje: será que há uma solução polinomial para todos os problemas computacionalmente razoáveis? será que, para cada e todo problema não determinístico polinomial [NP] eu consigo achar uma solução polinomial [em P]? ou seja, será que consigo provar que P=NP, que a classe dos problemas "razoáveis" tem complexidade polinomial, encerrando uma discussão iniciada em 1971 [por cook, veja aqui] e ganhando um prêmio de um milhão de dólares do clay institute? e isso contra a opinião da vasta maioria dos cientistas da área? em pesquisa recente, apenas 9 entre 100 cientistas que estão trabalhando no problema disseram acreditar que P=NP. e apenas 5 entre os 100 disseram que o problema seria resolvido -de uma forma ou de outra- antes de 2010.

se P=NP, haverá conseqüências muito interessantes do ponto de vista de [entre muitas outras áreas] logística, biologia, possivelmente criptografia e, talvez, toda a matemática. porque provar teoremas se tornaria muito mais fácil, segundo o próprio cook, o cientista que começou a discussão: …it [P=NP] would transform mathematics by allowing a computer to find a formal proof of any theorem which has a proof of a reasonable length, since formal proofs can easily be recognized in polynomial time… em suma, parte da computação e matemática que está sendo feita e usada hoje pode mudar consideravelmente, com a provável inclusão, na lista, dos sistemas de segurança das transações financeiras. vai ser um auê federal. mundial, aliás.

sim. e daí? o leitor acorda na segunda e, primeira coisa que lê é este blog, com esta conversa mole e complicada sobre obscuridades matemáticas e computacionais quase ininteligíveis… o que é que o autor tá pensando? que isso aqui é aula de teoria da computação? não. este texto está aqui por duas razões. primeira: se P=NP, nossas vidas vão mesmo mudar. pode acreditar. segunda: um brasileiro [e trabalhando no brasil], sóstenes lins, professor titular do departamento de matemática da ufpe, anunciou em seminário recente, em recife, estar finalizando os detalhes de uma prova definitiva de que, sim, P=NP. agora é esperar pra ver os detalhes. boa sorte, sóstenes.

* . * . *

PS1: paulo feofiloff chamou minha atenção para a "lista de woeginger", que tenta acompanhar todas [e até agora malfadadas] tentativas de provar que P é ou não igual a NP. para quem estiver interessado nas definições, debates e tentativas de prova que cercam a controvérsia, é sem dúvida uma boa fonte.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

“geração internet” prefere… o mundo real

srlm às 13:13

“Tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente normal; tudo o que surge enquanto somos jovens é uma oportunidade e, com sorte, pode até ser uma carreira a seguir; mas o que aparece depois dos 30 é anormal, o fim do mundo como conhecemos… até que tenha estado aí por uma década, quando começa a parecer normal”.

com maiúsculas nos lugares certos e tudo, o parágrafo acima é uma tradução livre [minha, neste texto da superinteressante] de uma frase de douglas adams sobre como o mundo muda e como a percepção e atitude dos mais velhos é diferente dos mais jovens. o artigo é de setembro de 2009 e fala sobre crianças em rede, no tom do trecho abaixo…

…as crianças estão usando a “rede” como parte essencial de suas redes, como extensão da escola, conexão com familiares distantes, diversão, e por aí vai. Segundo, quem nasce em rede vive em rede; é como aprender a ler: tirante raros casos, ninguém desaprende. No futuro, todo mundo estará em rede, em todo lugar, o tempo todo, para todas as coisas.

a idéia geral é que crianças que nasceram “na” rede, nos tempos e com os meios e ferramentas de rede, vão viver em rede; para elas, a rede será sempre parte essencial da infraestrutura de seu mundo e vida, como a atmosfera, água encanada, eletricidade e esgoto.

isso não significa que quem nasce em lugares onde há rede de verdade [ou seja, onde todos, pelo menos os mais jovens, têm acesso à rede] vai viver o tempo todo “na” rede. este “na” quer dizer fazendo coisas “de” rede e, o tempo todo ou boa parte dele, tendo “a” rede como seu principal foco de atenção ou preocupação.

claro que isso vai acontecer com um número de crianças e jovens, que vão se tornar cientistas e engenheiros “de” redes, assim como um número de pessoas que se interessa por eletricidade e os problemas por trás de sua geração e distribuição se torna engenheiro elétrico. nada mais normal, não?

mas a vasta maioria, quase a totalidade das pessoas, vai estar “em” rede e não “na” rede. o que não deveria surpreender ninguém. mas é bom saber que tal percepção sobre a rede vem sendo confirmada, como mostra o  spiegel neste fim de semana, citando estudos variados, inclusive um bastante extenso do hans bredow institut [de 2009; link]. segundo o spiegel, análises de comportamento juvenil em vários países estão descobrindo o que parece óbvio mas que é bom ver confirmado: apesar de passarem o tempo todo conectados, os jovens não acham que a rede “é” a coisa à qual deveriam estar dedicando a maior parte de sua atenção. relevantes, mesmo, são as coisas que a rede possibilita, como melhorar as conexões que levam a passar mais tempo, de melhor qualidade, com os amigos.

mais interessante, de acordo com rolf schulmeister, é que a vasta maioria dos jovens está e se sente “em casa” na rede, mas o nível médio de proficiência no uso das ferramentas da rede é muito baixo… e só uma pequena minoria consegue usar toda a riqueza da rede a seu favor. e olhe estamos falando da alemanha, onde 98% dos jovens entre 12 e 19 anos está “em” rede e online por 134 minutos por dia, em média.

independentemente de idade e lugar, que percentagem da população [ou dos adolescentes] realmente sabe usar google, só pra falar de algo que parece universal? quantos sabem que a busca allintitle: silvio meira retorna somente links que contém as palavras “silvio” e “meira” no título da página? clique aqui para ver parte do que dá para fazer com google, para ter uma idéia do que é preciso aprender para se considerar competente na rede…

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o problema [digital] de verdade, para todos [jovens inclusive] parece ser como usar a rede de forma produtiva; este link tem uma boa revisão da literatura sobre o assunto. um deles é um estudo da british library concluindo que

…the information literacy of young people has not improved with the widening access to technology: in fact, their apparent facility with computers disguises some worrying problems…

…a fluência informacional dos jovens [como um todo] não melhorou com o amplo acesso à tecnologia… e sua aparente familiaridade computacional esconde alguns problemas preocupantes. e isso pode muito bem ser o caso, especialmente no cenário mais específico de aprendizado online tratado pela british library em seu estudo.

seja como for, temos um bom [e velho] problema: os estudos mostram que os mais jovens estão “em” rede e não “na” rede, o que é uma boa notícia; por outro lado, as mesmas análises dizem que, excetuando uns poucos, a vasta maioria tem que estudar e praticar muito para ter a rede como parte de sua infraestrutura essencial de [alta produtividade para] aprendizado.

o bom e velho problema, no caso, é que sempre foi assim. se não fosse, todo mundo que nasceu depois de 1927 saberia tudo de mecânica quântica simplesmente por existir. como sabemos, a vida é um pouco mais complicada do que isso. é preciso tentar, errar e aprender, em teoria e na prática, para saber das coisas. quando funcionam de forma efetiva, os mecanismos sociais para tentar, errar e aprender estão consolidados ao redor do que costumamos chamar de sistema educacional.

na alemanha, na inglaterra e aqui, o que está faltando, no mundo real da escola [“em” rede], em larga escala, são processos estruturantes [e nem tão estruturados…], em larga escala, para as pessoas [jovens e nem tanto] aprenderem “em” rede, “com” e “na” rede. como a olimpíada de jogos e educação, por exemplo, parte do sistema educacional [em pernambuco e no rio de janeiro] que sai da sala de aula para casas e lanhouses, alargando a criação de oportunidades de aprendizado para todas as horas, em todos os lugares. se cada vez mais coisas com essa ocorrerem, a rede, que já é o maior ambiente de aprendizado que já existiu, vai ser muito mais importante e maior que isso.

kid darth vader bl paper

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

livros? 129.864.880

srlm às 12:17

em tempos de festa literária, a companhia determinada a “organizar” nada menos que “toda” a informação do mundo aparece com um número inusitado: cento e vinte e nove milhões, oitocentos e sessenta e quatro mil, oitocentos e oitenta. segundo google, esté é o numero total de títulos publicados em toda a história moderna do planeta, em todas as línguas e em todos os cantos. até ainda agora, claro, porque novos livros estão saindo a cada momento. para entender os detalhes que levaram google a declarar que é este o número de “livros” publicados, clique neste link.

sim… mas o número de livros publicados até agora tem alguma importância ou é só mais um item de cultura digital inútil, blogado, tuitado e retuitado durante algumas horas e, logo depois, desaparecido para sempre de nossos radares pessoais e relegado a um esconderijo lá no fundo da internet?

bem… google quer indexar e digitalizar todos os livros; pelo menos para google, o número é de importância fundamental, especialmente porque a companhia está identificando todos os que encontra, em qualquer língua, um a um, para criar a maior biblioteca global, talvez a biblioteca definitiva. breve, num leitor digital, google books. quer ver?… não vai demorar muito.

para os leitores, principalmente os que têm o vício diuturno da leitura, o número astronômico de títulos encontrados por google em todas as estantes, livrarias, editores nos dá a certeza de que nunca os leremos todos. nem dez por cento deles. nem um porcentozinho que seja… nem…

* .* . *

[em abril passado, o blog publicou um longo texto sobre o livro digital e seus direitos de leitor, resultado de uma participação no congresso internacional do livro digital em são paulo. minha palestra, lá, teve por tema literatura digital: o passado recente e o futuro próximo, vistos de um presente confuso… pois ainda falta muita definição, padrões e, quem sabe, regulação, além de muito tempo e recursos investidos em tentativas, erro e aprendizado {como google indexando “todos os livros”}, até que a coisa toda fique mais ou menos normal, daqui a alguns anos, uma década, quem sabe. os slides da palestra estão aqui. boa diversão…]

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