Terra Magazine

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

o fotodoc e o segundo turno

Tags:, , - srlm às 18:53

dia 18 passado o blog publicou um texto, baseado em pesquisa datafolha de 8 e 9 de setembro, mostrando que a exigência do uso do título de eleitor e mais um documento com foto [fotodoc] para votar poderia, por si só, ser a causa de um segundo turno nas eleições para presidente. o argumento e os cálculos são simples e podem ser encontrados neste link.

o texto do blog gerou uma enxurrada de comentários, incluindo vários de seres humanos que têm DNA de lêmingues, dispostos a seguir qualquer regra ditada por qualquer tipo de instância aparentemente superior, por menos razoável que possa parecer. curiosamente, e não por completo acaso, são estas mesmas criaturas as vítimas prediletas da propaganda governamental, na qual acreditam piamente, sem qualquer questionamento ou crítica. uns deles, claro, acreditam apenas em tudo o que “seu” governo diz, sendo obviamente falso tudo o que os outros propalam.

pois bem. num evento que certamente não tem qualquer relação com a pesquisa da datafolha e o texto do blog, o PT, que está para ganhar as eleições no primeiro turno e seria o principal prejudicado caso os tais fotodocs fossem mesmo exigidos, resolveu entrar com uma ADIn, ação direta de inconstitucionalidade, contra a necessidade de duas comprovações de identidade para votação. ou um [título] ou outro [fotodoc] argumenta o partido em sua petição para salvaguardar o direito cidadão de votar. ação diz literalmente que a exigência de dois documentos é… "burocracia desnecessária no momento de votação" e que… "seria um exagero de consequências negativas, sobretudo para a expressão da soberania das pessoas mais simples de nosso país".

a ação entrou no STF dia 24 de setembro e o julgamento ainda está rolando, já que um dos ministros pediu vistas ao processo. mas o resultado parcial é decisivo: a maioria do STF já votou [7x0] contra a necessidade dos dois documentos e tudo deve continuar como antes, ou seja, o blog vai fazer o que disse [no post anterior] que iria fazer e votar só com um documento.

é nisso que dá um país cheio de regras, regras demais: de repente umas delas são criadas em cima da hora, não se cuida dos pressupostos para que sejam executadas apropriadamente e, aí, são revogadas mais em cima da hora ainda.

tão em cima da hora que, se o ministro gilmar mendes não trouxer seu voto-vista à plenária do STF nesta quinta-feira, a exigência dos dois documentos vai continuar valendo nas eleições de domingo, dado que o julgamento, apesar de decidido, não está formalmente concluído.

agora imagine a pressão, em brasília, especialmente se pesquisas de vários [vários, não um só] partidos estiverem mostrando que o segundo turno está, mesmo, por um fio… ou, neste caso, por um voto…

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

as apps dos ricos…

srlm às 11:22

…e as nossas: um grupo de americanos que ganha, em média, US$250K por ano [pense em perto de R$40K por mes…] respondeu a uma pesquisa sobre seus hábitos de uso de apps [aplicações que podem ser carregadas, normalmente a partir de um mercado online] nos seus smartphones e a resposta está nos dois gráficos abaixo.

no primeiro se mostra os downloads: que apps foram parar no smartphone dos ricos? previsão de tempo e notícias estão no topo da lista, seguidos por jogos, viagens e negócios e finanças. faz todo sentido: ricos tendem a viajar muito [travel + weather] e estar preocupados com notícias, negócios e dinheiro. se não fosse assim, talvez não fossem ricos.

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o histograma acima mostra o que é carregado nos smartphones de quem ganha muito; o próximo mostra o que, na prática, eles usam muito:

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os ricos se preocupam mesmo com a previsão do tempo, notícias, finanças e, logo depois, com redes sociais e jogos.

agora veja a tabela abaixo, de junho passado [com dados de abril; note que os dados acima são de setembro], mostrando o número total de usuários, nos EUA [mesmo espaço da pesquisa anterior] por tipo de aplicação:

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conclusão?… tirante o fato de que os mortais comuns parecem ter uma maior tendência à socialização, o uso que os ricos fazem das aplicações nos seus smartphones é muito parecido. em número de usuários únicos, as apps de previsão do tempo passaram, no total, as redes sociais.

a combinação matadora [a verdadeira “killer app”] parece combinar mapas, sobre os quais se adiciona uma camada de previsão de tempo, uma de notícias e finanças e a partir da qual se pode lidar direto com seu banco. tudo isso geolocalizado e, claro, funcionando como uma rede social.

por outro lado… parece que uma app que “resolve tudo” não resolve nada e ninguém quer usar. melhor assim, talvez, segmentado por app

mas bem que, lá atrás, no software como serviço que sustenta, no fundo, o funcionamento da app que usamos cá na frente, podia estar integrado. talvez aí sim, esteja o espírito do verdadeiro killer app, tanto para os que ganham muito quanto para os que não ganham tanto assim…

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sábado, 25 de setembro de 2010

os melhores trabalhos…

srlm às 09:00

…do futuro, segundo uma série publicada na popsci.com, passam –pra começar- pelo anúncio abaixo…

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…de piloto espacial. este futuro já esteve na moda no passado, nas décadas de 50 e 60, quando o sonho de muito garoto [e de adolescentes de minha geração, no brasil da década de 70] era ser astronauta. falando nisso, cadê o “astronauta brasileiro”, que se pirulitou da tropa assim que reentrou na atmosfera?

este novo piloto espacial não é de naves estatais, mas privadas, que devem começar a voar de brincadeira [turismo suborbital] lá pra 2020 e muito a sério e levando executivos ao invés de gente a passeio uns 10, 20 anos depois. pelo menos é nisso que se acredita hoje, no compasso de new york a tokyo num pulo.

image mas a lista de popsci tem outras coisas mais na linha do blog, como “forecaster of everything”, parecido com o que discutimos aqui quando falamos de “big data” e simulação nos negócios.

curiosamente, pouquíssima gente sabe estatística como deveria e parece [garante o US bureau of labour] que a demanda por estatísticos nos EUA vai crescer 20% até 2018.

o dilúvio de dados e a necessidade de analisá-lo e de lá extrair informação e conhecimento essencial para o negócio vão garantir a demanda para quem tiver este tipo de competência. veja o que o blog escreveu recentemente sobre esta demanda neste e neste link.

e nem pense que isso passa longe de software: software está na base de tudo o que tenha a ver com tratamento [de grandes volumes] de dados e será muito mais empregável quem, além de saber estatística como poucos, souber muito mais de software do que muitos que só sabem o “basicão”.

este blog, aliás, escreveu sobre isso neste link, o que gerou uma discussão sobre o “valor” dos engenheiros de software [na maior parte da conversa, dos “programadores”], para o que vale o alerta abaixo, vindo de um comentário meu no debate:

…a maior parte do software sendo escrito no planeta, hoje, é IRRELEVANTE, como as dezenas de milhares [só?...] de “folhas de pagamento” sendo contínua e concorrentemente desenvolvidas e em evolução no brasil [só pra falar daqui]. este software “commodity” e completamente desnecessário [em seu estado atual] tende -e pode- ser desenvolvido por competências muito abaixo do que um graduado em computação tem ou deveria ter.

na verdade, tal tipo de software -de especificações triviais- pode ser escrito por técnicos, que seriam remunerados como tal; como não há [por incompetência do setor educacional] técnicos em software, isso é feito por graduados que recebem a remuneração de… técnicos.

SE a pessoa é mesmo FORMADA em ciência da computação, engenharia da computação ou engenharia de software [ou em especialidades como "game design" e outras] não é o caso que esteja ganhando uma miséria, muito pelo contrário. a demanda é alta e os salários idem, e mundialmente.

agora, se só se tem o “diploma” de computação e só se sabe “programar sistemas triviais”… prepare-se: você é COMMODITY e será tratado e remunerado como tal.

e isso desconsidera o fato de que a maior parte do software do futuro vai estar na nuvem, ser provido como serviço e ter apenas umas poucas instâncias de desenvolvimento, ao invés da miríade que hoje vemos.

do ponto de vista do seu [e do meu] trabalho, parta do princípio que tudo é software, coisa que todo mundo sabe ou vai saber fazer [de uma forma ou de outra, com mais ou menos competência] e que você vai se diferenciar porque é mais competente do que todo mundo em certos tipos de software e [ou] certos tipos de competência [como estatística] que se tornam, mais hora menos hora, software, e vá lendo a conversa.

outra ocupação que se crê em grande demanda ao redor do fim da década é a de “desenhista de órgãos”. humanos, claro. pois o negócio de transplanteimage é muito complicado, implica em longas esperas, rejeição, etc., apesar de todos os avanços desde christian barnard. a idéia revolucionária, já sendo testada agora, é criar órgãos de reposição a partir de você mesmo e, quem sabe, reprogramar [software!…] o novo para funcionar de forma muito mais eficaz do que fazia aquela parte do corpo que está sendo substituída.

e já que você vai mesmo mexer no [seu] sistema desta forma, talvez vá ser o caso de inserir funcionalidade e performance que não estavam por lá no original. por que não?…

afinal de contas, tudo é software e eu e você também. melhor se acostumar com a idéia e, quem sabe, usá-la de forma eficaz e eficiente.

imageem 2030 e depois, estima-se que passe a haver uma demanda para especialistas  em interação humano-robô, tal a quantidade, sofisticação, complexidade e pervasividade dos robôs na sociedade.

pra isso funcionar como deveria, a nosso serviço, não seremos nós [humanos normais] que teremos que entender de robôs e suas mazelas e quizílias, mas haverá, ou deverá haver, gente muito competente nos processos de desenho e construção de robôs que tornem a nossa vida muito mais simples sem que precisemos nos tornar, por outro lado, especialistas na matéria.

de novo, quase tudo isso é software, pois o hardware que realmente roda a coisa e faz tudo funcionar será rapidamente comoditizado e a maior parte da agregação de valor será a feita pelo software básico e aplicativos “rodando” no robô. a menos, claro, que os robôs de que falamos sejam da apple, quando… bem, vamos deixar isso pra lá, pelo menos por enquanto.

a lista de popsci é maior do que estamos tratando aqui e termina com uma profissão prevista pra começar a ter demanda em duas décadas: “thought hacker”. literalmente, tratar-se-ia de especialistas em intervenções mentais. gente que tenha a capacidade de entender como e porque as coisas [no cérebro] são o que são e como comportamentos e estados mentais são gerados a partir daí para… mexendo com o software [!] por trás de tais processos, corrigir ou induzir estados mentais.

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isso vai dar o que falar e muito mais o que fazer. pense em “consertar”, no software, comportamentos agressivos ou depressivos. ou “fazer” cursos sem ter que gastar meses, anos aprendendo, mas hacking direto na base cerebral [de dados, conexões e software]. isso pega. se alguma coisa minimamente parecida começar a se tornar possível dentro dos próximos vinte anos, imagine a revolução na educação, trabalho, comunicação, mídia, manipulação [de pessoas, comunidades e opiniões}, saúde e por aí vai.

é esperar pra ver… ou pra ser programado.ou melhor, pra programar. já se disse mais de uma vez neste blog que o futuro será dividido entre duas espécies de seres humanos: os programadores e os programados. como o futuro ainda vai levar um certo tempo pra acontecer, ainda dá pra escolher em que lado você vai [tentar] estar.

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

reconstruindo uma mente…

srlm às 08:55

…a partir do backup. como assim “do backup”?

primeiro, assuma que uma mente é “apenas” o efeito colateral de um cérebro executando seu “código”, tudo o que foi programado lá por aprendizagem [de todos os tipos] em contextos [de todos os tipos, em todos os tempos].

o parágrafo acima, claro, pode ser debatido pelos próximos 20, 30 anos sem que se chegue a qualquer conclusão razoável. mas é no mínimo instigante ver a palestra de martine rothblatt “Reconstructing Minds from Software Mindfiles”, que parte do princípio de que vai ser possível fazer “uploads” [de partes] da [informação criada e armazenada na] mente em qualidade suficientemente boa para o “download”… em outro cérebro, parecer uma continuação razoável do seu próprio. seu corpo dança, sua “vida” continua, noutro recipiente.

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isso tem toda chance do mundo de dar errado, radicalmente errado, mas já que chegamos até aqui, o resumo da conversa é…

“I do think, however, there is a (natural) tendency to way overestimate the importance of copying our brain structure to copying our minds. I think our minds will be uploadable in good enough shape to satisfy most everyone by reconstructing them from information stored in software mindfiles such as diaries, videos, personality inventories, saved google voice conversations, chats, and chatbot conversations. The reconstruction process will be iteratively achieved with AI software designed for this purpose, dubbed mindware.“

mindfiles, mindware: gosto dos nomes e do conceito. e rothblatt não assume coisas do outro mundo, nada como mecânica quântica, mas uma reconstrução [provavelmente {muito} parcial] do “self” baseada em coisas que google, twitter, microsoft, ebay, amazon e o imposto de renda [e todo mundo que pega nossos arquivos lá…] e outros já estão guardando [ou espalhando] pra nós.

para ver a palestra na íntegra, é só clicar abaixo:

achou que faz sentido? então comece sua biblioteca de mindfiles agora mesmo em www.cyberev.org e prepare-se para a imortalidade. de uma vez por todas e certamente sujeita a bugs, vírus, worms, etc…

mas, antes, talvez valha a pena ler o disclaimer, uma boa parte do qual está em MAIÚSCULAS:

…DUE TO THE UNCERTAIN NATURE OF CURRENT AND FUTURE TECHNOLOGY AND LAWS AFFECTING CONSCIOUSNESS STORAGE AND REVIVAL, CyBeRev DOES NOT WARRANT OR REPRESENT THAT YOUR CYBERCONSCIOUSNESS WILL BE MAINTAINED INDEFINITELY OR THAT THE CYBERCONSCIOUSNESS WILL BE REVIVED.

WE PROVIDE NO ASSURANCE AS TO IF OR WHEN THIS DEMONSTRATION OF BEME-BASED REVIVAL WILL SUCCEED OR WILL BE SATISFACTORY.  THIS IS PURELY AN EXPERIMENTAL DEMONSTRATION PROJECT AND MAY BE TERMINATED AT ANY TIME, WITHOUT NOTICE

e boa sorte.

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terça-feira, 21 de setembro de 2010

breve, aqui, hackers europeus

Tags:, , , , , - srlm às 09:00

será que a gente deveria estar morrendo de medo deles,… ou não?

o FBI está alertando as autoridades locais que hackers do leste europeu podem estar tomando ciência de que o brasil passou a ser economicamente interessante –isso internacionalmente- do ponto de vista do crime virtual.

a oportunidade de negócios é óbvia, se você procurar e entender os sinais: a economia brasileira passa dos R$3 trilhões este ano, perto de 100% das empresas tem algum tipo de presença na rede, há um plano de banda larga que deve triplicar, na década, o número de casas na internet… e por aí vai.

por outro lado, o desempenho do governo em segurança da informação deixa muito a desejar, como mostra esta reportagem do convergência digital:

…Para o TCU, o problema é mais grave ainda, porque se constatou que de 2007 a 2010, a falta de uma política de Segurança da Informação não decorreu apenas da ausência de soluções técnicas desenvolvidas para a proteção dos sistemas que rodam na Administração Pública Federal.

A maior falha estaria na incompetência dos órgãos federais e empresas estatais de avaliarem quais os principais riscos a que as suas informações críticas estariam sujeitas e que tipo de tratamento deveriam ter dado para garantir a proteção desses dados…

quer dizer que, breve, haverá hackers de todos os tipos, inclusive aqueles do leste europeu, tomando conta dos sistemas de informação públicos?

não se sabe. tomara que o setor público se resolva. por outro lado, o setor privado não está imune ao problema. em 2009, o uso dos bancos pela internet cresceu 17.7% e já representa 20% do total de transações, perto de 9,33 bilhões de interações. pra ver onde isso vai dar, pense que, na década e se o PNBL der certo, haverá três vezes mais casas em rede. quem vai querer ir pra fila do banco?

o gráfico abaixo mostra que há entre 35 e 48 milhões de contas bancárias “na internet”, dependendo da estimativa em que você acredita. e o presidente do banco central acha que não haverá mais agências bancárias [físicas] em 2020. olhe que só são 10 anos daqui pra lá…

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com tanta gente nos bancos pela web, as instituições do sistema financeiro investem dinheiro grande para melhorar sua [e esperamos, nossa] segurança de informação. a conta ronda os R$2B por ano, mas mesmo assim as fraudes online contra o sistema estão chegando a R$1B por ano. a conta é de mais ou menos um milhão de fraudes que causam prejuízo médio de mil reais cada, tudo em números redondos de marcelo câmara, diretor de prevenção a fraudes da federação brasileira de bancos [febraban].

podemos até acreditar nestes números mas… perguntei a opinião de várias pessoas do meio de segurança de informação e eles acham que o valor real [minha média das respostas] é tres vezes maior, pelo menos.

mas isso é só parte do problema. pegue brasília, por exemplo: lá, uma média de 19 pessoas é lesada na rede por dia, 5.600 pessoas de janeiro a agosto deste ano, 26% a mais do que no mesmo período do ano passado. os dados se referem a crimes virtuais de todos os tipos, de contas bancárias invadidas até quem aproveitou a “oferta do século” na rede e era só mais um golpe.

agora acompanhe esta aplicação da lei dos grandes números: considere brasília, uma das cidades mais ricas e conectadas do país, como se fosse o brasil do fim da década, depois do PNBL dar certo. arredonde a população da capital federal para dois milhões, a do brasil para duzentos, ajuste aqui e ali, assuma que o DF vai ter mais de dez mil e-lesados este ano e, dobrando a cada tres anos, uns cem mil no fim da década. se [grande se…] todas os outros fatores se mantiverem constantes [e desconsiderando a hipótese de uma explosão exponencial do crime virtual], podemos vir a ter dez milhões de brasileiros afetados por crimes virtuais em 2020. cinco por cento da população.

este número me parece em linha com a previsão do presidente do BC de que não teremos mais agências bancárias e que tudo será online ou diretamente realizado pelos correntistas.

ah, sim: dez milhões de roubados e média de mil reais por roubo, hoje, [mais a inflação e aumento da produtividade do crime virtual, na década] deve levar a algo perto de R$20B levados pelo crime virtual, no país, daqui a uma década. isso se mantidas todas as coisas nos patamares atuais, sem os tais hackers do leste europeu. se o PIB, em 2020, chegar a R$4T, estamos falando de 0,5% do PIB nas mãos do crime virtual.

 |  | United States\n | Brazil\n(log scale)\n(from 1961 to 2010) | (in billions of US dollars per year) |

mas… isso faz sentido no contexto global? o internet crime complaint center [IC3] reporta que o crime virtual levou a uma perda de mais ou menos R$1B nos EUA em 2009, 100% maior que em 2008. considerando que o PIB americano é mais de oito vezes maior que o nosso, o IC3 diz que as perdas totais deles [em números absolutos] são mais ou menos iguais às declaradas pelo nosso setor bancário online. sei não, parece ter muita coisa passando pela peneira do FBI ou então o brasil, inteiro, é uma peneira. e a gente nem precisa dos hackers do leste europeu.

mas veja isso: uma única operação suspeita do tal “leste europeu”, a IMU [innovative marketing ukraine] foi fechada por pressão do governo americano em 2009, e fontes bem informadas estimam que ela faturava US$180M por ano, transformando “máquinas invadidas em dinheiro” via scareware, como aquele software cujo anúncio você clicou… que ia testar seu PC e instalar um antivírus, mas que na verdade contaminava sua máquina.

em parte do leste europeu hacking é big business, organizado, e atrai muitos dos melhores programadores e engenheiros de software da região, que os tem aos montes.

sim… você já leu até aqui e está querendo saber: afinal!… os caras vão vir tentar pegar meu PC ou não? ninguém sabe, nem o FBI, nem a PF. mas leve em conta que o comitê de segurança do CGI.br registrou 359.000 incidentes de segurança em 2009.

como é que você se torna, do lado que perde, um incidente de segurança? olha isso: alguém compra uma lista “comprovada” de 150.000 endereços de emeio só da cidade de belo horizonte [por R$40] e manda um scam pra este povo. em quatro horas [eu disse quatro horas] tres mil inocentes clicam num link malicioso contido no emeio e suas máquinas, dominadas, passam a fazer parte de um botnet, uma rede de máquinas “do mal”. clique na figura e veja como o processo se desenrola.

Botnet.svg

sim, e aí? aí que o software instalado na sua máquina pode estar sendo usado para capturar informação sobre suas próprias ações [muitas contas e senhas em bancos e jogos são roubadas assim], ou para roubar senhas de jogos em servidores comunitários e negociar, depois armas virtuais e coisas do tipo. uma das funções dos botnets é fraudar anunciantes online [como se pode ver neste link]. o mercado americano de anúncios na web foi de US$14.2B em 2009 e a taxa de fraude esteve perto de 19%. parece que precisamos corrigir os números do FBI.

veja o mapa abaixo [clique para ver os detalhes] e note que o nível de ameça no e representado pelo brasil já é comparável aos níveis do leste europeu… talvez só nos falte veia empreendedora, investimento e uma dose extra de inovação para competir internacionalmente neste domínio…

Heat Map

as “oportunidades” e possibilidades são tantas que gastaria todo o tempo e tinta do blog para descrever uma pequena parte deste “mercado”. só pra você imaginar e ir dormir preocupado… sabia que há quem viva [e bem] do “aluguel” de botnets?… ninguém fala nomes, claro, mas nem todo mundo reside em borsod-abaúj-zemplén ou kohtla-järve. lembra seu sobrinho nerd que passa o tempo todo na net?…

 

PS: tá sabendo do que estão chamando por aí do "bug do twitter", de hoje? não é um "bug". tal como acabamos de falar aqui, twitter foi invadido e alguém trocou o código da página principal, levando qualquer usuário legítimo que entrou no sistema a enviar [automaticamente] tweets, completamente fora de seu controle. simples assim. da mesma forma, o "novo software" que foi instalado por invasores na página do twitter poderia ter ficado esperando por suas contas e senhas e, de posse delas, tê-las enviado aos "interessados"…

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sábado, 18 de setembro de 2010

os documentos com foto…

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…e seu efeito no resultado das eleições 2010.

em 2005, o ministro carlos velloso, então presidente do TSE, disse com todas as letras que… “o novo título de eleitor [com foto] concederá cidadania a mais de 30 milhões de brasileiros que não possuem qualquer documento de identidade”. ou seja, por alguma conta do TSE,  30 milhões de pessoas que não tinham um fotodoc, seja lá qual fosse, há cinco anos. ainda segundo a mesma notícia, no site do TSE… os novos títulos serão confeccionados em papel especial contendo os dados biométricos (impressão digital, fotografia, assinatura) e pessoais do eleitor, dados da Justiça Eleitoral e código de barras com o número do título.

ocorre que o recadastramento eleitoral que deveria gerar os tais “novos títulos” não rolou [segundo este link, porque o TSE usou os recursos para comprar 480 mil urnas biométricas, das quais apenas 3 mil serão usadas nestas eleições] e, de repente, a minirreforma eleitoral criou a obrigatoriedade do uso do título E de uma identidade com foto.

image e isso tem o que a ver com o resultado das eleições? bem, se nada tivesse acontecido de 2005 até aqui, podíamos dar por certo que 30 milhões de eleitores não iriam conseguir votar.

agora olhe o cenário: o vox populi [entre outros institutos] está prevendo que, com 51% dos votos, a ex-ministra dilma roussef vai levar a eleição no primeiro turno, pelo menos se as coisas continuarem como estão e se todo mundo que diz que votaria na candidata do governo, preferida das regiões mais pobres e remotas do país, votar.

todas as pesquisas apontam para maiores margens de voto pró-governo nas regiões norte e nordeste, exatamente onde se imagina [mas não se sabe ao certo] que está a maior quantidade de eleitores sem o tal “documento com foto”.

agora, faça as contas: 1% dos votos, num colégio eleitoral [arredondado, aqui] de 135 milhões de eleitores é algo perto de 1.350.000 eleitores. este é exatamente o número de eleitores, segundo pesquisa recente do datafolha, que não tem documento com foto. outros 4% dizem ter, mas não sabem onde o documento está. se metade não achar o documento… 3% dos eleitores não vai conseguir votar, algo perto de 3 milhões de eleitores. se estiverem em sua quase totalidade no norte e nordeste, onde o governo tem vasta maioria, perto de 75% dos votos, algo perto de 2 milhões de votos pró-dilma forem perdidos, por falta de fotodoc, e haveria um segundo turno… só por causa das regras eleitorais.

e a situação pode ser ainda mais complexa: as enchentes de pernambuco motivaram a reimpressão de todos os títulos nas três cidades mais atingidas [mais de 90 mil] mas, segundo o valor econômico, apenas 17 mil teriam sido retirados dos cartórios eleitorais até quinta passada. e um número indeterminado de carteiras de identidade se foi com a cheia.

segundo a mesma reportagem, os juízes eleitorais do maranhão, por exemplo, não conseguem prever qual a porcentagem de eleitores, no estado, que não tem documento com foto. e por aí vai.

resultado? se tudo correr muito bem, as regras impostas pelo TSE, que sofre um surto de ativismo judicial sem precedentes em nossa história, não devem contaminar o resultado eleitoral.

mas a conversa nos corredores do TSE, ontem, era de que sim, pode haver até 30% de eleitores sem fotodoc e que os ministros do tribunal teriam até pensado em cancelar formalmente a exigência, o que não vai ser feito.

mas fontes muito bem informadas reportam que o TSE estaria orientando os TREs a não serem "exigentes" quanto ao cumprimento da norma eleitoral, o que no mínimo vai ser fonte de confusão e filas, completamente desnecessárias caso tivéssemos tido um pouco mais de bom senso lá atrás, quando o recadastramento não foi feito, porque foram compradas urnas que não deveriam ter sido… e por aí vai.

sabendo que os TREs podem acabar não sendo muito "exigentes", vou realizar um pequeno experimento social e tentar votar sem fotodoc pra ver o que acontece. depois eu conto por aqui.

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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

o poder, a informação…

srlm às 11:10

…e o tráfico de dados, informação, influência e poder: haveria meios de reduzir a indevida manipulação de informação em posse dos poderes públicos, no interesse de uma sociedade mais igual?…

o que significa igualdade, neste contexto? primeiro vamos levar em conta  que democracia, no sentido amplo, é um regime de direitos, deveres e oportunidades iguais para todos.

na prática, o que isso quer dizer?… nos cenários de negócios, por exemplo, que a probabilidade de A conseguir um empréstimo no BNDES [um banco de desenvolvimento, público] é igual a de B, C, D… e quem mais atenda aos mesmos requisitos que A atende. ah, sim: passar pelo crivo opaco e pessoal de algum agente [público ou privado] não faz parte deste cenário. raciocínio equivalente se aplica para as chances da empresa X conseguir um contrato com os correios, em igualdade de oportunidades na disputa com as empresas Y e Z.

que tipo de crivo “opaco” seria este? pagar pela atenção do BNDES para seu projeto não faz parte do tal regime de direitos, deveres e oportunidades iguais para todos de que falamos antes. assim como pagar pela decisão dos correios em favor de X ao invés de Y ou Z.

mas por que isso acontece, não com necessariamente o BNDES e os correios [ambos citados no caso erenice], mas em larga escala, brasil afora, em todos os níveis de governo?

e por que, escândalo após escândalo, tantos que anestesiaram a população e o eleitorado, se troca pessoas e se mantém o processo quase sempre opaco que pauta boa parte das decisões e operações das mais variadas instâncias de governo?

ao invés de trocar as pessoas, é preciso trocar so processos.

é preciso dar mais transparência a todos os processos que envolvem agências e agentes de governo. e isso tem que ser feito na federação, estados e municípios e tem a ver com mudança [muitas vezes radical] de métodos e processos daa agências e agentes públicos, sua informatização e com o acompanhamento cidadão, em tempo real, de tudo o que acontece no setor público em geral.

coisas simples, como mandar um emeio informando que sua declaração de renda acabou de ser copiada [da mesma forma que um banco avisa quando depósitos ou retiradas são realizadas] já seriam um começo importante. o vazamento de dados do imposto de renda cairia para perto de zero, se isso fosse feito, pois aí só os servidores com acesso direto aos bancos de dados poderiam extrair declarações das bases… mas aí seria muito mais fácil descobrir os responsáveis.

durante anos, décadas, boa parte do software do setor público vem informatizando a caótica e opaca burocracia governamental. está na hora de tornar os métodos e processos de governo muito mais transparentes e por informática a serviço da cidadania e de um país muito menos sujeito à opacidade das operações públicas, cortina debaixo da qual operam corruptos e corruptores, desde que o mundo é mundo e não só aqui no brasil.

ah, sim: argumentar que se roubava no passado e “agora não pode?…” não é argumento em prol da democracia pela qual, pelo menos de fachada, todos os partidos dizem estar lutando. é manter o ESTADO na mão dos poucos que conseguem chegar nos tais cargos que se ocupam de processos opacos e manter um estado de coisas que criou, em tempos recentes, a tal da “governabilidade” e outros penduricalhos que começam a se tornar estruturais numa forma contemporânea de “democracia à brasileira” com a qual não podemos continuar convivendo, sob pena de transformar o país numa cleptocracia sem paralelo na história das nações.

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terça-feira, 14 de setembro de 2010

as urnas e “alagoas 2006”

estava eu conversando com pessoas muito bem informadas em evento de muito prestígio quando as eleições de 2010 vieram à tona. quieto estava, quieto fiquei, a discussão era sobre candidatos e opções para o futuro do país.

mas não demorou muito até que saísse um “as eleições brasileiras são as melhores do mundo”. como ando escrevendo sobre isso aqui há anos [veja o texto anterior aqui, da semana passada, explicando porque a OAB nacional não assinou digitalmente o software das eleições 2010], tive que dizer algo e disse, em largas palavras, o que tem sido publicado por aqui, sustentado não por minha particular expertise no assunto eleições eletrônicas, que é baixa, mas por sólidos argumentos que vêm do CMIND, o comitê multidisciplinar independente que estuda o processo eleitoral brasileiro. aliás, comentei este assunto em um podcast recente da CBN que você pode ouvir clicando neste link.

e a conversa rolou, rolou, e eu mencionei as eleições de alagoas em 2006… e não é que ninguém sabia de nada sobre o assunto? mas nada, nada mesmo. pessoas lidas, conectadas, que nunca haviam ouvido nada sobre o assunto.

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talvez este seja também o caso do leitor, e talvez valha a pena, se for, ler um pequeno e muito instrutivo texto da advogada maria aparecida cortiz [que é membro do CMIND], publicado no portal unieducar há mais ou menos um mês.

o título do artigo é Princípio do contraditório e da imparcialidade no processo eletrônico de votação e doutora cortiz foi uma das pessoas que estudou de perto o caso “alagoas 2006”, que resumidamente… teve início em 11/2006 após ser detectado que os arquivos de LOG de 35% das urnas estavam corrompidos e não apontavam o destino de 22.000 (vinte e dois mil) votos dados pelos eleitores, além de arquivos com dados misturados e urnas computando votos para municípios inexistentes.

isso mesmo que você leu: as “melhores eleições do mundo” não foram tão boas assim [pelo menos] nas eleições de 2006 em alagoas e o destino de dezenas de milhares de votos ficou “no ar”. podem até ter sido dados para alguém, mas não se sabe se foram. e havia “municípios-fantasma”, uma inovação eleitoral indesejada, pois no passado eram somente os eleitores-fantasma que preocupavam.

a decisão do TSE sobre o assunto também é desconhecida das pessoas lidas e conectadas de que falo: o tribunal decidiu que mesmo havendo graves indícios de que alguma coisa está errada, tudo está certo.

aliás, como de praxe, o tribunal julga ele mesmo neste tipo caso e resolveu que não há com que se preocupar, pois… o fato do LOG não registrar um evento não significa que o evento não ocorreu. donde se conclui, usando lógica elementar, que “logs” [arquivos de registro de eventos ocorridos] são inúteis. de que adianta [para verificação de ocorrência de um evento…] um registro que não necessariamente registra a ocorrência de certos eventos, mesmo tendo os dito cujos acontecido?…

mais hora, menos hora, alguma coisa vai mudar; não vai ser possível sustentar por muito mais tempo este estado de coisas. mas o “público”, inclusive o que comenta textos como este aqui no blog, acha que “se as urnas são frágeis, porque a grande imprensa nunca diz nada sobre isso?”…

pergunte-se à grande imprensa. está cheio de gente, lá, que sabe muito bem que a eleição eletrônica brasileira não tem independência de poderes e, por isso, nenhuma chance de ter uma auditoria independente do processo e de seus resultados. se houver uma fraude, dificilmente ela será detectada, como até hoje não se sabe ao certo se “alagoas 2006” foi uma conjuntura de erros de sistema [há erros épicos de software das melhores famílias, como a NASA...] ou se havia cérebros e mão humanas mal intencionados por trás dos muitos eventos não esperados que rolaram por lá.

tomara que a tal da grande imprensa não tenha que mudar de posição e publicar algo apenas por causa de alguma catástrofe que está para acontecer… quando?…

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leia, a seguir, trecho do artigo que você pode ver na íntegra clicando na imagem acima:

…O modelo brasileiro faz da Justiça Eleitoral uma fração especializada do Poder Judiciário (CE, CF/88 art. 92, V, 118 a 121), com absoluta concentração das três funções de Estado no mesmo ente. A junção dos artigos 61 da Constituição de 1988 com o artigo 1º do Código Eleitoral tornam o TSE no único órgão integrante da Justiça Brasileira que detém funções legislativa, normativa, administrativa/operacional e jurisdicional do processo eleitoral.

Essa indesejada concentração de poderes permite que os integrantes da Justiça Eleitoral mesmo legalmente impedidos possam julgar causas que versem sobre processo eletrônico de votação, visto que são partes e interessados no desfecho da lide, já que no exercício da função administrativa desenvolvem os programas das eleições e são responsáveis pela sua segurança e bom funcionamento.

As consequências malévolas dessa concentração de funções puderam ser comprovadas no julgamento realizado pelo TSE no dia 08/04/2010 envolvendo pedido de perícia nos programas usados nas eleições Estaduais de 2006 no Estado de Alagoas…

 

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PS: em conversa via emeio com a doutora cortiz na noite passada, ela fez saber a este blog que os programas [perfeitos, como se sabe...] do sistema eleitoral brasileiro, que aliás não foram assinados pela OAB nacional dia 02/09 passado… apresentaram defeitos [surpreendente... não?] e estão sendo assinados novamente, sem grande divulgação [como manchete no jornal nacional, na primeira vez] começando ontem [13/09] e terminando hoje, sem qualquer supervisão externa, certamente porque, perfeitos que são, ninguém precisa se preocupar… é só votar e esperar que não tenhamos nenhum "brasil 2010".

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

as urnas, de novo…

interrompemos nossa programação [sobre tendências tecnológicas nos negócios, nesta década, primeiro, segundo, terceiro e quarto texto já publicados] para dar conta de uma notícia que não é nova mas que, pelo menos do ponto de vista do blog, passou desapercebida da mídia, grande e pequena.

não é que a OAB nacional não assinou o certificado digital do software das eleições de 2010? está bem aqui, na página do voto seguro… nestes termos:

…A OAB enviou o sr. Rodrigo Anjos, especialista em TI, como seu representante devidamente credenciado na cerimônia de lacração dos sistemas do TSE para avaliar o conjunto dos programas. Ao constatar que esse conjunto era composto por milhares de arquivos com mais de 16 milhões de linhas de código-fonte, a OAB nacional compreendeu que não teria condições técnicas de validar o sistema e decidiu que não iria assiná-los digitalmente, comunicando a decisão ao TSE.

A comprovação de que a OAB não assinou digitalmente os programas pode ser obtida nas Tabelas de Resumos Digitais dos Programas (a ser publicada na Internet pelo TSE) onde não consta nenhum arquivo com as assinaturas da OAB (como contra-exemplo, pode se ver os arquivos com as assinaturas digitais do PT).

Porém, nos minutos finais da cerimônia que encerrava um trabalho desenvolvido ao longo de seis meses, compareceu o sr. Francisco Caputo Neto , presidente da OAB do Distrito Federal e filho do ex-ministro do TSE Caputo Bastos, e representou uma cena "assinatura digital". Numa evidente demonstração de confiança cega, já que nenhuma equipe de seus técnicos gastou nem uma horinha analisando o conteúdo dos sistemas, o Sr. Caputo Neto assinou o "pacote" dos programas.

Como não assinou cada programa individualmente, o que atrasaria a cerimônia em duas ou três horas, os fiscais representantes do sr. Caputo Neto não terão como conferir se os programas instalados nas urnas e nos computadores dos cartórios seriam os originais com a sua respectiva assinatura digital.

E é assim que a autoridade eleitoral passou a dizer que "programação digital das urnas eletrônicas foi conferida, autenticada e… contou com a participação da OAB…".

o tema da segurança das urnas e do sistema de votação eletrônica do brasil tem sido recorrentemente tratado no blog, pelo menos desde as eleições municipais de 2008. veja alguns dos nossos textos neste link e um, especial e mais recente, sobre a prova de que as urnas indianas são inseguras, onde um dos maiores especialistas brasileiros no assunto diz em todas as letras que… “…tenho certeza que as urnas brasileiras também não resistiriam a um ataque realizado por gente capaz”.

este autor, em passado distante, escreveu mais de uma vez que a transição do sistema eleitoral do papel para o digital havia diminuído muito a incidência de fraudes, por simples incompetência temporal, à época, dos fraudadores em potencial. muitos anos depois da urna e seus sistemas acessórios sendo usados em escala nacional, com muitas [milhares de?…] pessoas em todo o país entendendo seu funcionamento e fraquezas, é preciso tomar outros cuidados com a segurança do voto que não a pura e simples propaganda governamental, tentando nos assegurar que o voto é seguro porque… é seguro. sei não, os problemas vêm de longe e, se eu trabalhasse lá na informática do TSE, estaria bem mais preocupado do que, pelo menos de público, a galera de lá parece estar.

por que? ora, veja só: uma auditoria independente estabelece, de forma inequívoca, que o  sistema do imposto de renda dos americanos é vulnerável e não garante confidencialidade, disponibilidade e integridade de dados. mas relaxe, você poderia dizer, é lá nos EUA e não tem nada a ver com eleições. então leia isso: aqui, em pindorama, ninguém menos que o TCU, tribunal de contas da união, diz que o vazamento de dados afeta 65% dos órgãos de governo e que a receita federal é só um exemplo. preocupante, não?…

como se não bastasse, o TCU diz –ainda por cima- que “a fraude eletrônica hoje é a mais limpa e a mais difícil de rastrear". o que deveria nos levar a refletir, juntos: as urnas são eletrônicas e todo o sistema eleitoral é eletrônico e sua segurança é baseada unicamente na palavra do TSE de que o sistema, como um todo, é seguro. mas o TCU diz que o vazamento de dados afeta 65% dos órgãos de governo e que “a fraude eletrônica hoje é a mais limpa e a mais difícil de rastrear". e aí, como ficamos?…

tem gente que acredita, piamente, na “propaganda governamental”: a urna é segura porque o governo garante que ela é segura. talvez a gente deva lembrar que o governo médici, em plena ditadura militar, mal copiando um original americano, introduziu o infame slogan “brasil: ame-o ou deixe-o”, tentando confundir a pátria com o governo, sem nunca ter lido mark twain: "Patriotism is supporting your country all the time… and your government when it deserves it". patriotismo é apoiar seu país o tempo todo… e seu governo, quando ele merece. simples assim.

temos o direito de ter eleições justas e limpas. e isso não depende de uma autoridade –por mais íntegra e respeitada que seja, como o TSE- garantir que elas são limpas mas de, transparente e independentemente auditadas, se mostrar que o processo eleitoral é comprovadamente limpo. o resto é propaganda governamental, da mesma classe do ame-o ou deixe-o. ou da versão TSE para 2010: “nestas eleições, deposite nelas [as urnas] mais do que o seu voto, deposite a sua confiança".

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

dez tendências tecnológicas nos negócios [6]

a combinação de TICs para sustentabilidade e a própria sustentabilidade de TICs vai ocupar uma boa parte da “agenda sustentável” dos negócios, no futuro próximo. é isso que vamos discutir aqui, hoje, dando continuidade a uma série sobre um relatório da mcKinsey que aponta as dez principais tendências tecnológicas nos negócios nesta década.

as tres primeiras tendências [criação colaborativa, negócio = rede, colaboração em escala] apareceram no post inicial, neste link. no segundo texto, neste link, falamos da “internet das coisas” e, no texto anterior, sobre “big data” e experimentação. hoje, a conversa é introduzida pelo slide abaixo, de uma palestra do autor na CNI, em são paulo, cuja íntegra está neste link

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ao invés de considerar o impacto de TICs corporativas na sustentabilidade [ambiental] do negócio, vamos considerar aqui a faceta de sustentabilidade das próprias TICs no negócio, que também é uma preocupação essencial. TICs são, claro, muito importantes em todas as facetas de sustentabilidade, desde controlar gastos e excessos a redefinir certas infraestruturas, como vai ser o caso de eletricidade e “smart grid” e, mais perto dos negócios, da internet das coisas e seus impactos. sobre este último ponto, veja, neste blog, SPIMES, everyware, spimeware e um campo informacional global. me atrevo a dizer que as empresas que desconsiderarem a grande ordem de magnitude das mudanças que serão causadas pela internet das coisas no contexto de seus negócios vão ter sérios problemas nestas duas décadas.

mas, voltando ao foco que decidimos dar a este texo, watts humphrey, notável engenheiro da IBM e depois do SEI, na university of carnegie mellon, decretou anos atrás que “seja qual for seu negócio, você está no negócio de software”. humphrey não estava dizendo que as empresas eram ou seriam fábricas de software, mas que, à medida em que todos os processos e métodos das empresas iam sendo codificados em software, a importância dos sistemas de informação para os negócios se tornaria fundamental.

a “sentença” de humphrey foi dita há quase uma década, quando as empresas estavam saindo do bug do milênio e tiveram que revisar, cada uma, quase todo o software que servia de esteio aos seus processos de negócio. de lá para cá, o uso cada vez mais intenso de metassistemas corporativos como os de ERP e CRM diminuiram o esforço de “escrever” uma empresa em software, talvez de impossível para muito difícil.

mesmo assim, escrever os sistemas de informação de um negócio e cuidar de sua manutenção ao tempo em que tudo, do mercado a fornecedores e clientes e até a própria empresa mudam, o tempo todo… gasta uma energia [e recursos] que podem por em risco a sobrevivência do negócio. daí este texto, relacionando a tendência da mcKinsey [sobre TICs e sustentabilidade em geral] aos problemas de equilíbrio entre investimentos e resultados associados a TICs nos negócios.

não faz muito tempo, as empresas não tinham alternativas a não ser escrever, elas próprias, a empresa em software. na melhor das hipóteses, isso era [ou melhor, é] terceirizado para um alguém que o faz para a empresa, o que deixa o pessoal do negócio, em tese, se concentrar no negócio propriamente dito, ou seja, nos processos de negócio que realmente fazem da empresa o que ela é. como se não bastasse, era a própria empresa que rodava seu software, tendo que manter seus próprios centros computacionais, como muitas fazem até hoje.

é mais ou menos como cada corporação, ao depender de eletricidade para tudo, fizesse um de tudo para tê-la, das licenças ambientais para gerar energia até operação de um negócio separado de “força e luz”, que a provê ao negócio principal. nada surpreendente que se gaste tanta energia [!], nos negócios, para alinhar o que se chama de TICs [tecnologias de informação e comunicação] ao “negócio” propriamente dito.

acontece que TI nos negócios é muito mais que hardware e software. um outro slide, de uma outra conversa, mostra do que estamos falando…

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na coluna da esquerda, a imagem acima mostra o substrato que resulta, na economia, sociedade e empresas [e para as pessoas, em particular], em comunicação: o lado esquerdo representa a a internet, responsável pela conectividade do planeta, que vem a ser uma infraestrutura [cabos, servidores, roteadores, satélites…], sobre a qual se situam serviços [como SMTP, um protocolo para emeio] que suportam aplicações… como emeio, por sinal, que resultam em processos de comunicação. pegue seja lá o que acontece por causa da internet e dá pra explicar, de maneira abstrata, desta forma.

do lado direito, de baixo para cima, temos a pilha de níveis que leva à informatização dos negócios: na base, computação, comunicação e controle, sendo que comunicação é toda a pilha da esquerda, pra começar; e na base da pilha está todo o hardware, tudo o que você possa imaginar que processa informação [de forma física] e, ligado na tomada, “dá choque”.

a menos que seu negócio seja muito especial, nada do que ele usa neste nível é feito por ou precisa estar sob seu controle, sendo de sua propriedade e rodando dentro de um prédio seu; tanto quanto a infraestrutura de internet, a base da pilha pode e deve estar em qualquer lugar, sob certas condições contratuais de qualidade e performance de serviço. só pra lembrar, emeio, não por acaso, está aí…

sobre esta fundação, está o software básico, como sistemas operacionais, bancos de dados, servidores web e firewalls: de novo, nada disso é de sua conta, a menos que você esteja em um negócio especial como google, facebook, microsoft, totvs ou amazon. o negócio destas empresas é software e elas têm tudo a ver com este nível. você, não; se sua empresa não está –explicitamente- no negócio de software, seus processos de negócio devem ser sua principal preocupação e foco de investimento e ação e, só se for absolutamente necessário, você deve se preocupar com o nível de acima do software básico, que seriam as aplicações [ou, em termos da década de 70-80, o software aplicativo…] que sustentam diretamente seus processos de negócio.

aí estamos começando a chegar no que realmente interessa: se meu negócio não é de software e se é diferente –e se não quero ou não posso torná-lo diferente- da competição, tenho que procurar “sistemas” ou “aplicações” que me deixem a maior parte do tempo para tocar meus processos de negócio e não coisas que comecem a tomar o precioso tempo que eu teria para tocar o negócio para, ao invés, cuidar de TICs.

houve uma época em que “ter” e “rodar” sua própria base de hardware e desenvolver todo seu software em  casa era um imperativo do negócio. ou se fazia isso ou nada saia como se queria. ou, talvez, nada saia e ponto. era mais ou menos como, muito tempo atrás, ter que gerar sua própria energia elétrica, sem o que seu negócio não “rodava”. aliás, foi por isso que delmiro gouveia entrou no negócio de geração e distribuição de energia elétrica…

hoje, a sustentabilidade do negócio e de TICs no negócio depende, quase  essencialmente, de uma dedicação ferrenha à execução-como-eficiência focada nos processos de negócio, sem o que toda a casa corre o risco de se perder. TICs sustentáveis, no negócio, são aquelas que dão conta dos processos de negócio correntes com tanta eficácia e eficiência quanto possível, ao mesmo tempo em que servem de base para os processos de execução-como-aprendizado [a inovação, no negócio como um todo] de forma tão leve e rápida que for possível.

caso estas duas condições não sejam atendidas, nem TICs, no negócio, é “smart” e sustentada nem o negócio, provavelmente, é sustentado. lucro, então, nem pensar. tal insustentabilidade parece ser o caso de um bom número de empresas [e instituições de todos os tipos, como prefeituras] que ainda escreve todo o seu software, perdendo energia e tempo em construções e usos que deveriam ser absolutamente padrão nos negócios, públicos inclusive.

pense em quase cada prefeitura brasileira [entre as que têm a capacidade de cobrar impostos] escrevendo o software que gerencia seu IPTU e ISS. isso certamente teria que ser o caso quando a indústria de software propriamente dita não tinha conseguido elicitar um repertório padrão para resolver os problemas de classes inteiras de indústrias ao ponto em que, até muito recentemente, cada empresa ter mesmo que ter seu próprio centro computacional. isso porque não havia rede em quantidade e qualidade suficientes para depender de centros remotos e não havia tecnologia [de software] para tratar capacidade computacional como módulos padronizados, comoditizados, passíveis de serem agregados e fornecidos como serviço e bilhetados por volume de uso.

observar a evolução da pilha de TICs que sustenta os processos de negócio, na figura anterior, e redesenhar TICs nos negócios, fazendo o melhor uso das capacidades padrão existentes no mercado, experimentando de forma leve e rápida para criar o que não existe [no nível das aplicações] e que vai sustentar novos processos de negócio é parte essencial da agenda de sustentabilidade de TICs em qualquer negócio.

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