Terra Magazine

terça-feira, 30 de novembro de 2010

wikiLeaks ataca de novo

depois da máquina de guerra americana, wikiLeaks agora publica pilhas de documentos da diplomacia de tio sam, expondo comentários pouco respeitosos sobre deus, todo mundo e mais batman e robin, que parecem ser, segundo parte do departamento de estado lá do norte, alguma fantasia dos companheiros putin e medvedev. os comentários da máquina diplomática mais cara do mundo são muito semelhantes, por sinal, àqueles que fazemos quando certas pessoas não estão por perto ou ouvindo.

isso pode ser muito bom e –ou- muito ruim. é bom porque traz para o escrutínio universal as ações do país ainda mais poderoso do planeta. tal força, exatamente por sua intensidade e alcance, se intromete e parece ter a ver com a vida de todo mundo. se tem a ver com tanta gente, é bom saber o que eles estão pensando ou tentando fazer. mesmo assim, é preciso olhar, ver e contextualizar a informação vazada, senão muito pouco dela vai fazer sentido. inclusive partes que dizem respeito ao brasil.

mas… talvez seja muito ruim porque não há muita chance, no curto e médio prazos, de testemunharmos vazamentos de informação do mesmo porte e sobre ações e conversações de ditaduras como a arábia saudita, china e irã… e tais países têm muito a ver conosco, mesmo que não saibamos tão obviamente porque. e aí, com vazamentos quase que unilaterais, tendemos a condenar um dos lados e, talvez, achar que todo mundo do outro [ou dos outros] lado[s] é do bem e interessado na paz e no avanço da humanidade, seja lá o que isso for. não sei vocês, mas não contem comigo para membro do partido da ingenuidade universal… tô fora.

sempre é bom lembrar que os EUA são uma democracia, com todas as instituições funcionando e é isso, exatamente, que torna possível e mais provável –e aprovável, por muitos- os "leaks", vazamentos de informação como os que estamos presenciando agora.

as consequências globais de tais "leaks", venham de que lado vierem, sejam sobre o que forem, podem ser muito graves e potencialmente danosas para todos, porque nossa noção de humanidade, convivência e civilização está baseada numa certa assimetria de informação de um lado qualquer sobre qualquer outro lado.

pense: o que seria de você se todo mundo [todo mundo, mesmo, marido, mulher, sogra, namorada{o} e mãe, inclusive] tivesse noção de seus mais íntimos e menos publicáveis pensamentos, mesmo que extemporâneos, sobre o que o resto do mundo pensa, é, faz e diz? inclusive sobre eles, suas relações mais próximas?…

claro que vivemos em tempos de muito maior conectividade e transparência e isso leva a uma assimetria de informação muito menor do que, digamos, nos tempos de césar, o júlio. mas há quem diga, e com muito boas razões[veja este texto aqui no blog sobre transparência e privacidade], que a sociedade da informação tem que ter, também, uma certa assimetria e um paulatino esquecimento dos eventos e acontecimentos, sobre pena de nos desumanizarmos e nos tornarmos, cada vez mais, "sistemas".

wikiLeaks, sob vários aspectos, é um "sistema" que representa a contemporaneidade da rede em toda sua complexidade, vantagens e desvantagens. por isso mesmo é que, mais do que a discussão sobre os documentos que vaza, wikiLeaks deveria ser, do ponto de vista do processo que representa, assunto para muitas e profundas discussões, especialmente sobre as consequências de médio e longo prazo para o cenário político mundial.

até porque é cômodo ver os outros se afundando nos vazamentos de suas lamas e sarjetas informacionais. mas… e se fosse aqui? afinal de contas, wikiLeaks diz que poderia "abalar as eleições brasileiras"; será que isso tem a ver com a insegurança intrínseca de nosso processo eleitoral ou com alguma eleição em particular, como os poucos milhares de votos que decidiram a eleição do maranhão este ano?…

todos temos crenças: acabo de presenciar um expert em segurança de informação dizer, diante de uma platéia de centenas de pessoas, que ninguém disputou o resultado das eleições do maranhão "tal a confiança que todos nós temos no sistema". todo mundo tem o direito de dizer o que bem quer mas este blog está fora do "todos": temos escrito sobre segurança e transparência das eleições eletrônicas brasileiras há anos, mas o tema está por trás de uma capa de "teflon", tal como certos gestores públicos, e nada parece pegar.

talvez o imbecil coletivo que evita uma verdadeira discussão sobre as fraquezas do processo eleitoral brasileiro só possa ser desafiado por um vazamento de informação da classe wikiLeaks à qual este blog –e muitos outros- nunca teve acesso.

se isso acontecesse, o que faríamos? enterraríamos a cabeça no chão qual avestruzes e esperaríamos a tempestade de informação passar… negando todas as suas origens e efeitos… ou, corajosamente, discutiríamos os quês, porquês e comos de sua existência?…

mais dia, menos dia, mais bit, menos bit, à medida que o brasil se tornea mais interessante e nosso impacto mais global, haverá wikiLeaks sobre nossa terra. é só esperar. não estamos imunes –para sempre- a vazamentos de informação da classe wikiLeaks. e algo me diz, e a todos brasileiros que têm uma idéia rudimentar do que acontece nas entranhas do poder, que há muito mais que um "wikiLeak" esperando para acontecer no país. e agora.

uma das infelizes razões pelas quais um wikiLeak nacional não acontece –no sentido de ter o impacto que um wikiLeak americano tem- é que ainda não há gente suficiente, no brasil, educada e preocupada o suficiente para que o custo/benefício de um wikiLeak brasileiro faça sentido. mas isso é só uma questão de tempo. isso é alguma coisa que educação, em quantidade e qualidade, vai resolver aqui, também.

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TV: público vai se tornar, mesmo, comunidade…

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olhem só o que a motorola está descobrindo [nesta pesquisa] sobre os hábitos correntes e futuros dos "espectadores", aquele povo que só "via" TV e que, agora, começa interagir enquanto "vê" TV:

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a imagem é de baixa resolução, pelos limites naturais aqui do blog; mas dê um clique e você vai ver em detalhe que, nos treze mercados considerados pela moto, 51% das pessoas [os azuis e verdes] já interage com outras, em redes sociais, [muito] frequentemente, enquanto dá conta do que rola na TV.

e não estamos falando de TV digital interativa como a que planejamos no brasil, o SBTVD [veja aqui o que o blog achava do assunto em 2008...]. lá, a interação aconteceria "pela TV". esperávamos até que a TV digital [interativa] fosse um mecanismo de inclusão digital, ao chegar onde não havia internet e assumir, mesmo que de forma limitada, seu papel.

o que a imagem acima mostra é que as pessoas já estão interagindo com as outras enquanto vêem TV, e o estão fazendo usando um monte de mecanismos já disponíveis na internet, que de resto já são usados por elas mesmas enquanto não estão "vendo TV".

Infographic 4B - Soc Nets influence

falando em "já disponíveis na internet", a segunda imagem responde a pergunta "você estaria disposto a pagar por serviços integrados de TV e internet que permitissem, por exemplo, conversar com seus contatos na tela da TV enquanto assiste um programa"?…

só 18% dos pesquisados disse sim e outros 42% condicionou um eventual pagamento a estar convencido que isso vale o dinheiro que vai sair de seu bolso. afinal de contas, porque deveríamos pagar por tais "serviços" se eles já estão disponíveis no smartphone [que está ao meu lado, à mão], no laptop que está no colo… sem falar em pads como o samsung galaxy tab que, no brasil, tem TV analógica e digital como parte do pacote e mais todos os apps de vários mercados, pra conectar o ex-espectador com twitter, chat, emeio, facebook, 4sq e o que mais for o caso?

pra terminar a conversa, olhe a imagem abaixo:

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entre várias coisas, a imagem diz que 20% dos consultados já têm TVs conectadas à internet [como esta] e que outros 40% pretende adquirir uma nos próximos 18 meses. isso significa que a combinação que está dando certo, no caso de TV digital, porque está sendo comprada e usada pela comunidade [irrestrita, ao invés do público controlado pelas emissoras] é TV aberta ou a cabo como costumávamos ter, combinada com interatividade pela rede, nas formas que interagimos na rede desde sempre.

sim, você diria, e daí? daí que está na hora de tentar, errar e aprender um bocado com as novas possibilidades de interação associadas à TV e que, quem conseguir interpretar, antes ou mais competentemente que os outros, tais possibilidades… vai ter uma vantagem competitiva muito considerável no cenário de negócios que antes costumava ser chamado de… TV.

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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

educação: distância afeta qualidade e resultado?

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semana passada rolou um evento muito legal na @unibh em belzonte, mediado por marcelo tas e com mozart neves ramos, paulo barone e eu mesmo na conversa. para ver o debate na íntegra, gravado ao vivo, sem cortes, é só clicar aqui. a coisa tem quase duas horas e aborda uma gama de temas e problemas educacionais, especialmente os que afetam a performance e a qualidade da escola e do ensino nacionais.

alguma hora a discussão passou pelas novas mediações tecnológicas para o processo educacional; digo novas porque educação é um processo histórico, amplo e social que sempre foi mediado por tecnologias de muitos tipos. sala de aula é tecnologia; "giz-e-cuspe" é tecnologia e linguagem, escrita e livros são tecnologia. foi aí que EAD [educação à distância] entrou no debate e discutimos o que a internet tem [ou não] a ver com a melhoria [ou não] do processo de criação de oportunidades de aprendizado [de forma contínua] que, como vocês poderão ver logo no começo do vídeo, é a minha posição sobre o que educação, se fosse bem feita, deveria ser.

deve-se dizer que não está claro, para muitos ou para quase todos os educadores, qual é o impacto de EAD [que deveria ser educação em rede, ou E2R] na vida dos aprendizes e de sua performance na escola e depois.

a minha tese é que todos os jovens [interprete "jovem" como gente que tem 25 anos ou menos, ou seja, nascidos de 1985 pra cá] já nasceram em rede. talvez sofram de um déficit de conectividade por razões várias, mas são conectados por definição e querem, ainda por cima, estar mais e muito melhor conectados. para esta galera, a rede, a web, as redes sociais, são ambientes naturais para fazer qualquer coisa, desde "ir ao banco" a "criar relacionamentos", passando por "aprender" ou, como dissemos anteriormente, "participar de processos educacionais".

pois bem: um estudo feito pela university of nebraska-lincoln acaba de descobrir que…

…college students participating in a new study on online courses said they felt less connected and had a smaller sense of classroom community than those who took the same classes in person — but that didnt keep online students from performing just as well as their in-person counterparts…

…os estudantes que fazem cursos [só] online se sentem menos conectados e têm um menor sentido comunitário do que seus colegas que fazem os mesmos cursos presencialmente; mas isso não significa que tenham níveis de performance acadêmica menor que a dos colegas de sala de aula.

diga-se de passagem, a vasta maioria dos atuais mecanismos de EAD não faz nenhum esforço para conectar os alunos através, por exemplo, de redes sociais [educacionais ou não]; tais ambientes quase sempre são salas de aulas virtuais e remotas, com pouca ou nenhuma possibilidade de interação extra-aula como parte do processo de aprendizado [e socialização], o que sem nenhuma dúvida leva os alunos "remotos" a uma percepção bastante real isolamento.

o problema a resolver não é o de como levar os estudantes de volta para a sala de aula, até porque os processos de aprendizado dos quais todos vamos ter que participar são, para sempre, contínuos… é como se jamais, daqui pra frente, fôssemos sair da escola. ocorre que a escola não está preparada para tal, nem mesmo [na quase totalidade] a que tem os tais cursos de EAD.

porque o que é preciso mesmo é implementar conjuntos de estratégias, processos, práticas e ambientes de E2R, a verdadeira educação em rede, que levem a processos continuados, conectados, interligados, esteja o aluno dentro ou fora da escola, seja durante ou depois de seu tempo de curso, que possam proporcionar oportunidades contextualizadas de aprendizado, desaprendizado e reaprendizado, de socialização e formação de comunidades, que é o que todos temos e teremos que fazer, o tempo todo, para continuar gerando o valor que nos mantém não só nos níveis de competência e performance de nós exigidos pela sociedade e economia mas, em última análise… sãos.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

tweets: de quem, do que, pra que, pra quem?…

Tags:, , , , , , , - srlm às 08:00

tudo começou quando eu tuitei [alô, patrulha ortográfica: o vocabulário da academia já tem “tuitar”] uma pesquisa americana que dava conta de 60% das 1.000 maiores empresas já usando o twitter:

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pouco tempo depois, @StephenKanitz replicou, dizendo que…

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…ao que @rizzomiranda, meio que estupefata, comentou que…

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…mas eu não estava dando razão ao pensador e amigo @StephenKanitz, e sim retuitando seu ponto de vista, que achei importante para uma eventual discussão sobre o assunto. por sinal, a discussão estava ali, na hora, rolando. até porque logo depois eu disse que…

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…e que…

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e ainda dei uma opinião sobre porque é que todo mundo [PFs, PJs, governo, ongs, e o protótipo de um novo fiesta da ford] está no twitter:

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@rizzomiranda voltou dizendo que…

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batendo o martelo, @javoski concluiu nossa conversa em termos de inovação baseada no e desenhada pelo usuário:

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na interação acima, estava em ação o twitter-como-mesa-de-bar, que descrevi tempos atrás neste link. lá, se tratava do uso do twitter por colaboradores da rede globo, onde, segundo a emissora, vazavam informações sobre o andamento de séries e novelas. e eu dizia que…

…participar de uma comunidade que discute [entre muitas coisas] seu trabalho, qualquer que seja, é um direito de todos e qualquer um, desde que não se ultrapasse certos limites óbvios, como oferecer, à concorrência, detalhes dos negócios da empresa que lhe contrata. essa regra vale em todo lugar, inclusive numa mesa de bar.

e o twitter parece uma grande mesa de bar, 140 caracteres por vez. com dois problemas, do ponto de vista dos empregadores da moçada que está “na mesa”… primeiro, a mesa pode ser muito grande, centenas de milhares de pessoas ao redor de uma conversa. segundo, ao contrário do bar, onde ninguém escreve o que os outros dizem, tudo fica escrito e pode ser replicado ad infinitum

na grande mesa de bar, estão as pessoas, de dentro e de fora do negócio: seus colaboradores, clientes, usuários e detratores. e a empresa, com suas múltiplas vozes. e, como não poderia deixar de ser, a competição e toda sua algazarra. nesta apresentação no fórum HSM de estratégia, em são paulo, resolvi provocar tom peters [que também estava lá e para quem pessoas são 98% de qualquer negócio, porque delas depende sua execução] e dizer que 98% das pessoas que interessam a qualquer negócio está, na verdade, fora dele.

redes sociais, de forma inevitável e bastante ampla, vão conectar estes dois universos: se a empresa não tiver competência para tal, as conexões serão informais, feitas pelos colaboradores, quase certamente sem nenhuma estratégia. ocorre que mercados são conversações e produtos e serviços, neles, também têm que ser tratados como conversações… e a empresa não pode se excluir delas, e isso independe de sua vontade ou de “pra que” foram feitos twitter e facebook e todas as outras redes sociais. ainda mais porque [como discutimos no post anterior] as "conexões" podem acabar sendo, inclusive nas "organizações", bem mais importantes do que a "organização" do trabalho, da hieraquia, das pessoas, do que for.

aqui no blog, discutimos estes e muitos outros temas relacionados a estratégias de [e para] redes sociais nas corporações na série empresas são abstrações, conjunto de 10 textos que foi a base para a palestra da HSM. se você estiver interessado na conversa sobre redes sociais nos negócios, boa leitura.

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

organização & conexões

srlm às 08:22

imagea idéia original de google, e ainda lema e missão da maior operação de busca que conhecemos, é organizar toda a informação do planeta. você pode ler mais sobre isso aqui, aqui [pra saber até onde google quer ir] e aqui. nada, no entanto, é perfeito para uma quem que quer tanto e, exatamente pelo seu sucesso em chegar tão perto, começa a derreter a liga que formou suas asas.

imageentre os muitos competidores que se perderam na linha do tempo, estão yahoo! e cuil. entre os que ainda tentam mas nem perto chegam, estão bing, wolframalpha e blekko. talvez a china [ao invés da europa] produza alguma competição mundial, na forma de baidu… mas temos que esperar pra ver.

imagea idéia original de facebook era, em 2004, ser… an online directory that connects people through social networks at colleges, um diretório online para conectar pessoas através de redes sociais em escolas. em 2006, facebook era uma… social utility that connects you with the people around you… uma forma social de lhe conectar com as pessoas ao seu redor. em 2009, a idéia de facebook era… give people the power to share and make the world more open and connected… dar as pessoas o poder de compartilhar [informação] e tornar o mundo mais aberto e conectado. esta, até prova em contrário, é a definição de missão que está valendo no momento, e que você pode encontrar aqui.

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numa aparição recente, mark zuckerberg mostrou o que alguns passaram a denominar de símbolo do culto de facebook… que resume, nas palavras inscritas no anel azul escuro, o lema da rede: facebook, construindo um mundo mais aberto e mais conectado.

o tal símbolo é confuso [e polêmico] mas parece expressar três coisas: a empresa [e a rede, e o valor] se constrói ao redor de um grafo [graph, ou rede] social [gente, conectada], de fluxos de informação circulando neste grafo [streams], sobre e/ou sob os quais é provida uma plataforma de funcionalidades que tratam a rede e seus fluxos e que pode ser usada interna ou externamente. tal plataforma é responsável por transformar facebook no que poderíamos chamar de uma máquina social [veja mais sobre o conceito aqui, como parte de um trabalho que estamos fazendo na UFPE e c.e.s.a.r].

contrapondo os desejos institucionais revelados em suas missões, google quer organizar [toda a informação] e facebook quer conectar [todas as pessoas. a “organização”, no modelo proposto por google, depende de como pessoas [e sistemas] conectam a web, pois assim funcionam os algoritmos fundamentais de google. só que, cada vez mais, as pessoas se “conectam” através de facebook [quase 600 milhões delas] e tal informação não está disponível [via de regra] para ser organizada [por google], primeiro porque é fechada… segundo porque a microsoft é acionista da rede social: comprou 1,6% em 2007, quando facebook valia perto de US$15B. hoje, a companhia de zuckerberg está avaliada em US$41B. só pra comparar, a microsoft está valendo US$224B, google US$190B, amazon.com US$71B e eBay US$39B.

depois que se tornou claro que ”tudo é social”, até porque sempre foi, no mundo real e em pequenos grupos, e depois passou a ser, na rede, quando se descobriu que as pessoas estavam dispostas a compartilhar –para boa parte do mundo- muito mais do que os textos em blogs e fotos das férias… a grande batalha da web passou a ser pelo universo das conexões, pelo domínio das redes formadas pelas pessoas [como o “graph” de facebook], pelos fluxos de informação nestes grafos [os “streams” de facebook] e, pra quem viu isso chegando, pela oferta e provimento de uma “plataforma” que junte os dois e habilite funções de mais alta ordem.

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facebook viu isso antes dos competidores e tem tido a competência de realizar –com todos os problemas que conhecemos- tal visão com a velocidade necessária para deixar a competição como que paralisada. o lançamento de facebook messages, o “emeio de facebook” [que não é emeio… mas um “social inbox”, não por acaso integrado ao office online] é mais um passo na implementação da estratégia; e é capaz de separar ainda mais, no campo da conectividade, facebook dos rivais. segundo o washington post, o objetivo estratégico de facebook é ser “a central” das mensagens, algo comparável ao monopólio que a AT&T detinha nos bons e velhos tempos do telefone.

facebook não apareceu com um sucessor para emeio, é o que todos dizem. mas está mudando as regras do jogo, ao unificar no mesmo fluxo [e sob um grafo gigantesco, dentro da mesma plataforma], SMS, chat e emeio. e esta mudança de regras pode mudar o mundo da informação social e, quem sabe, tornar emeio irrelevante para um grande número de pessoas.

num passado distante, a AOL já tentou ser “a rede”; na verdade, tentou ser toda uma “internet separada da internet”. há quem diga que é isso que facebook está tentando ser, agora. olhando só para emeio, os números são variados e inconsistentes, mas hotmail [da sócia, microsoft] disputa o primeiro lugar com yahoo [com quem a microsoft tem acordos…] e gmail está em terceiro lugar. nenhum dos tres tem nem perto do número de usuários de facebook.

isso pode ser [principalmente se a microsoft for parte da estatégia de facebook] a chave para facebook, mesmo “sem querer”, criar um sucessor para emeio.

e também pode ser parte do processo para “conectividade” dar um passo à frente de “organização” e, através de sua forma peculiar de codificar o mundo [veja mais neste post] criar sua própria interpretação e organização do tal mundo. parece incongruente, mas não é. até porque o mundo online, mesmo aparentemente plano e desordenado, está cheio de picos. este blog falou sobre o assunto [em série] aqui, aqui e aqui. boa leitura.

e vamos esperar pra ver se a “conectividade” vai desorganizar, nem que seja um pouco, a “organização”.

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sábado, 13 de novembro de 2010

flusser: o mundo codificado

quem primeiro me falou de vilém flusser foi h. d. mabuse, grande amigo, diretor de arte do c.e.s.a.r e uma das cabeças mais inquietas que conheço. mabuse me emprestou [ou doou, pelo tempo que está comigo] “writings”, editado por andreas ströl, traduzido para o inglês por erik eisel, coletânea do autor que muitos –não sem razão- consideram um outro, e talvez mais amplo, elegante e preciso, mcLuhan.

flusser não tinha qualquer formação acadêmica; nascido em 1920, veio para o brasil no começo dos anos 40, voltou para a europa quando se abriam os 70 e faleceu num acidente de automóvel no princípio dos 90. para o que poderia ser um pequeno resumo de quatro páginas de sua vida e obra, clique neste link.

ainda não li ou entendi flusser a ponto de participar de discussões acadêmicas sobre seu pensamento e influência. mas o modo não-acadêmico do próprio flusser escrever criou pequenos e autocontidos escritos que podem ser lidos e entendidos por qualquer um. pra dizer a verdade, há entendimentos de mundo que são quase imediatos, e que podem mudar completamente a forma de observar e entender as coisas… quando se leva em conta o que flusser escreveu há décadas. e bem antes de processos que nós hoje identificamos como forças e vetores de algumas das maiores mudanças do mundo.

se fosse possível tirar 4 frases dos “writings”, e isso da parte que trata de códigos e comunicação [porque o texto vai até o brasil visto por flusser e o desenho das cidades, no mundo…] claro que como resultado de uma certa [e minha] visão de mundo, bem que elas poderiam ser…

1. comunicação [humana, inclusive] é um processo artificial, que depende de símbolos, com os quais se constrói códigos. [p. 3, 1973/74].

2. as propriedades físicas dos símbolos influenciam decisivamente a estrutura dos códigos. a estrutura da mensagem reflete mais o caráter [físico] de seus símbolos do que a estrutura do universo que [pretende] comunicar [p. 15, 1986/87].

segundo flusser, a sentença 2 [precedida do entendimento da frase 1] está bem acima de e explica o famoso “o meio é a mensagem” de mcLuhan. mas não só: quer dizer que, de forma ainda mais ampla, a mudança da estrutura da mídia, isto é, de sua semiótica [sintaxe, semântica e praxis], muda a própria estrutura de percepção de realidade. hanke decodifica este tema de forma simples neste link.

3. sempre que se descobre algum código, pode-se inferir a presença humana [na sua construção] … nossa ignorância sobre novos códigos não deveria ser surpreendente; levou séculos para que os escritores descobrissem que “escrever” significava “contar histórias”. até agora, ainda estamos usando a TV para “contar histórias”. será que a TV é um meio para “contar histórias”?… [pp. 37, 39, 1978].

para flusser, o receptor de TV [dos de outrora, não conectados] tem pouco a ver com “storytelling”; passivo, atinge um estado quase religioso enquanto recebe um fluxo de informação. tal tempo e dispositivo, parece, estão com os dias contados.

a ideia de código era preciosa para flusser e usada em larga escala nas suas palestras, aulas e textos. em particular, os símbolos e códigos que foram usados para construir as linguagens lineares que usamos para descrever o mundo representam, diretamente, formas de imaginação:

4. …a civilização pode ser entendida como uma tentativa de explicar imagens [imaginação ou visualização]; isso é [usualmente] tentado abstraindo imagens através de textos em linguagens naturais; tal possibilidade de crítica discursiva não é radical o suficiente e outra, mais profunda, é possível, talvez mandatória: deve-se analisar as imagens e, para tal, é preciso codificá-las e processá-las; neste nível de abstração, é possível tratar formas e estética puras e descobrir a verdadeira expressão comunicada pelas imagens [pp.110-116, 1990].

como resumo de todo um ensaio de flusser sobre uma “nova imaginação”, o parágrafo acima seria reprovado na redação do ENEM; até porque o código que uso aqui diverge da norma culta da língua que é exigida por lá.

mas dê um desconto e, juntando 1, 2, 3 e 4 e levando em conta que flusser discute e propõe, a partir daí, tecnocódigos, ou linguagens artificiais [em oposição às naturais], como a forma de imaginar e não apenas de programar [sistemas de informação], tecnocódigos como maneira de descrever mais precisamente o mundo, processo este que seria mediado não mais em termos de conversações em voz humana, mas digitalizado e calculado por algoritmos… pense: se flusser estiver mesmo com a razão, quais são as consequências? para os humanos e para nossa “visão de mundo”?…

e… já que você não se perdeu e chegou até aqui, o que tudo isso tem a ver com o mundo cada vez mais algoritmico ao nosso redor, incluindo a rede, a web, as redes sociais todas e este smartphone aí na sua mão?

será que uma parte relevante da nossa imaginação já não foi capturada pelos tecnocódigos de flusser?… será? e daí? e daqui pra frente?…

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

mundo: plano ou picos? [final]

esta série de tres textos [o primeiro está neste link e o segundo aqui] surgiu de uma provocação de hagel e seely brown dizendo que, apesar de estarmos na era das redes, na sociedade da informação e economia do conhecimento [e certamente por causa disso], as tecnologias de informação e comunicação provavelmente deverão aumentar a importância dos locais em relação ao espaço.

bom… eles não dizem isso exatamente deste jeito, em termos de lugares [físicos] e espaço [o flowscape, o espaço de fluxos], como se fosse um discurso anticastells em termos do próprio castells [entenda esta conversa neste link]. hagel e seely brown dizem que

…location does matter and will continue to matter. People are moving into large urban areas at an accelerating rate — today over 50% of the world’s population lives in dense cities versus ~30% in 1950. If location no longer mattered in terms of economic potential for an individual, it seems likely that more people would stay in place rather than uproot themselves to relocate…

…o lugar ainda importa e vai continuar sendo importante; mais de 50% da população mundial mora em cidades densas [contra 30% em 1950]; se o lugar não importasse [em termos de potencial econômico individual], as pessoas não iriam se mudar para estes lugares densos onde parece haver mais oportunidades.

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segundo hagel e seely brown, isso ocorre por duas causas básicas: 1. o conhecimento tácito, que não é codificado e que circula nas conversações informais, locais, face-a-face, é cada vez mais importante e 2. existe uma atração natural [para os “melhores lugares”] de pessoas e recursos que precisamos mas que ainda não sabemos que existem.

um dos resultados é que, em lugares densos, a probabilidade de ocorrência de “serendipity”, encontros casuais de pessoais envolvidas com a mesma agenda é muito maior e de muito maior geração de potenciais resultados, como as discussões entre pessoas de múltiplas companhias no almoço do paço alfândega, no porto digital, os encontros entre grupos de vários prédios do tecnoPUC, em porto alegre, e os almoços, cafés e conversas, em sand hill road, no silicon valley, que criam muitas das companhias que [sem qualquer “má” inveja] muitos de nós gostaríamos de ter criado.

e aí os autores juntam o concreto e o abstrato…

…communities of interest, so common on the Web, tend to evolve into tighter communities of practice in urban areas as people engage in sustained efforts to develop things together. The passion of a few tends to inspire and draw in others. The ability to sustain interactions in online environments amplifies face-to-face interactions and fuels the passion of a growing number of participants. The physical/virtual community of practice becomes a magnet for others to move to the city. Certain cities become known for having a critical mass of passionate people, and that motivates even more people to relocate to these evolving urban spikes…

…observando que comunidades de interesse [na web] se tornam de prática [e tácitas, em sua maior parte], justamente em lugares onde muita gente está engajada em tornar realidade proposições teóricas que estão sendo discutidas online. a combinação das comunidades abstrata e concreta [virtual e física, segundo os autores], se torna um magneto e cada vez mais gente [interessada em certas ecologias de prática] tende a se mover para determinados lugares, o que leva ao efeito [que já discutimos no nosso segundo texto] do “ganhador-levar-tudo”.

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marc augé ensina que um lugar é relacional, histórico e onde há uma preocupação essencial com a identidade de cada um e do  próprio lugar. lugares, segundo augé, estão centrados nos indivíduos [que deles fazem parte], na cumplicidade [inclusive de linguagem] entre eles, no contexto e referências locias e em um certo modo, maneira, know-how de viver naquele lugar. são tais coisas que tornam o riode janeiro diferente de são paulo [mesmo quando se trata de negócios, exclusivamente] e de recife.

ainda segundo augé, o espaço, ao invés dos lugares, não é baseado em relações, história e identidades; o espaço é de certa forma um conjunto de não-lugares, parte dos quais existe fisicamente, como shopping centers [iguais em todo um país, quase iguais em quase todo mundo], aeroportos [onde ainda por cima a maior parte das pessoas está só de passagem e querendo sair de lá o mais rápido possível], cadeias de hotéis… que “servem” como moradia temporária e, todos parecidos, com a mesma assinatura, são iguais em todo canto e pertencem a “lugar nenhum”, são non-lieux, não-lugares.

aqui já dá pra articular uma ligação entre o abstrato e o concreto e começar a concluir nosso assunto, bem nos termos de hagel e seely brown. a rede, se estendermos a definição de augé, seria uma espécie de non-lieux; lá, principalmente nas redes sociais, participamos de uma identidade coletiva, temos uma anonimidade [de certa forma parcial e, de outra, temporária] e temos uma relação contratual com o todo [ou seu provedor, como twitter] e com todos [os que fazem parte da mesma rede que fazemos].

juntando as peças deste quebra-cabeça conceitual, josé alberto de vasconcelos simões, da UNL [portugal], observa muito bem que

Se metaforicamente a ideia de rede é sedutora, por dar conta quase intuitivamente da crescente interconexão planetária que se constitui a partir de diversos nódulos globalmente dispersos, é também verdade que a imagem que produz tende a enfatizar a importância dos fluxos em detrimento dos lugares, ignorando, de alguma forma, que qualquer fluxo provém (ou é desencadeado) a partir de algum lugar. Por outro lado, e esta seria uma das suas principais limitações (pelo menos nalgumas das suas acepções), deixa de fora uma parte considerável da população, nomeadamente aquela que não participa nos fluxos globais dominantes.

Os fluxos não são abstractos, etéreos, desligados dos lugares de onde provêm e para onde se encaminham, mesmo que se constituam independentemente de constrangimentos territoriais. Disso mesmo nos dão conta as múltiplas redes “virtuais” formadas por participantes em fóruns de discussão que se organizam em torno de temáticas específicas. Com efeito, as suas discussões encaminham-se para assuntos, pessoas e eventos concretos, para os quais podemos encontrar uma correspondência tangível, ancorada em algum lugar, ainda que este possa ser efémero e quem o habita provenha de origens geográficas dispersas.

redes e fluxos no espaço [o mundo de bush-drucker-castells] abstraem, estendem, complementam… os lugares concretos onde ainda vivemos, trabalhamos e empreendemos fisicamente. e cada um destes lugares tem símbolos, linguagem e cultura próprios; richard florida descreve e estuda, há anos, lugares especiais onde há uma combinação de talento, tecnologia e tolerância e –por causa disso, em tese e na prática- cuja participação na articulação entre os lugares e no espaço também é especial.

as redes mudaram o mundo, é certo; mas ainda não ao ponto onde só e somente as redes são o mundo. se este fosse o caso, não seriam apenas algumas poucas cidades que estariam capturando quase todo o valor gerado no mundo abstrato. pense seattle [microsoft e amazon] e o próprio silicon valley [de google a oracle, passando por facebook e twitter].

no futuro, pode até ser que o flowscape englobe todos os lugares; que todos possam participar das redes [no lugar ou no espaço] que quiserem, em pé de igualdade, em qualquer lugar onde estiverem. mas para isso nossa experiência de rede, de fluxos, terá que ser muito mais rica do que temos hoje e no futuro próximo. bote aí uns 20 anos e, quem sabe, vai dar para empreender no “east of london” sem sair do porto digital ou, ainda melhor, empreender no porto digital sem sair do east of london.

será?… não sei. mas a resposta apropriada parece ser… “só será se for possível gerar e capturar, do lugar onde se está, o mesmo valor que seria gerado e capturado caso se migrasse para o outro lugar”.

aí, sim, o mundo seria mesmo plano, sem picos. até que isso seja verdade, ainda vamos conviver com muitos picos. o que deixa claro a necessidade, o problema e a oportunidade de termos pelo menos alguns deles, e de classe mundial, no nosso plano de brasil.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

mundo: plano ou picos? [2]

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para entender o que vamos falar neste texto, talvez seja interessante ler o primeiro capítulo desta série, que está neste link. o primeiro texto serviu para fazer a pergunta do título, a partir de uma visão de mundo em que…

…a economia e sociedade em rede podem ser definidas ao redor de conhecimento, organizadas em termos de informação e tratadas, do ponto de vista de sua dinâmica, como conjuntos de fluxos, como se tudo fosse um flowscape, um espaço de fluxos,

e nossa conversa vem de uma provocação de hagel e seely brown, básica [e de mais de uma forma] controversa: eles acham que, apesar de estarmos na economia do conhecimento [e inclusive por causa disso!], as tecnologias de informação e comunicação provavelmente deverão aumentar a importância das cidades [principalmente as muito densas] e aumentar o fluxo de pessoas para tais lugares.

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para hagel e seely brown, o mundo não é plano, mas cheio de picos; e os picos vão se tornar ainda mais altos e distintos em relação ao resto, que passaríamos a chamar de plano [mesmo]. isso seria o mesmo que dizer que nas economias de escala no mundo físico, no caso das cidades, um pequeno [em relação ao todo] grupo de cidades "leva tudo". ou seja, tanto quanto na web, onde vale a lei do "winner takes all" e a geografia seria regida por um modelo de rede "livre de escala", em que um número de nós [cidades], privilegiados de uma ou outra forma, atrai muito mais atenção e gera muito mais riqueza do que as outras.

certo, você diria; mas isso é assim hoje, tem sido assim desde, pelo menos, roma antiga e antes. pois é, mas acontece que uma das teses derivadas da visão bush-drucker-castells que descrevemos no texto anterior é de que isso seria radicalmente mudado pela rede. um dos textos que sustenta tal visão é de thomas friedman em "the world is flat", onde se promove a noção de que tudo mudou e radicalmente: a se acreditar em friedman, um trabalhador [de conhecimento] fisicamente isolado no norte da índia, mas conectado em rede com o resto do mundo… é equivalente a qualquer outro, em qualquer lugar. pra ver os porquês em detalhe, clique na imagem abaixo.

mas, se o lugar é mesmo qualquer, e consequentemente não importa, porque haveria picos como o silicon valley? não, em tese não haveria. no médio prazo [seja lá o que isso for] os efeitos de rede deveriam aniquilar as vantagens da proximidade geográfica e o mundo, a partir daí, seria mesmo plano.

segundo hagel e seely brown, não é bem isso que está acontecendo e as teorias e evidências que melhor explicam o atual estado de coisas vêm, por exemplo, de richard florida, defensor da idéia de que o mundo está ficando mais "spiky", mais cheio de picos e, por sinal, de picos mais altos.

em 1998, kevin kelly, então editor da wired, dizia [citado por undheim aqui, na pág. 152] que…

”This new economy has three distinguishing characteristics. It is global. It favours intangible things – ideas, information, and relationships. And it is intensely interlinked. [It changes the scope of things] From places to spaces…physical proximity (place) is replaced by multiple interactions with anything, anytime, anywhere (space)”.

em outras palavras, kelly diz algo mais que bush-drucker-castells, pois conclui que o lugar [place] onde as coisas acontecem será substituído pelo espaço [space] de interações de todos os tipos e em qualquer hora e lugar. ao invés de lugares, lugares conectados, suas interações e fluxos.

imagemas… mesmo assim… em que lugares haveria mais gente, mais conectada, possivelmente gerando mais valor e a que lugares mais gente iria se conectar, o que tornaria tais locais, de novo, "places", picos, neste mundo "space", talvez nem tão plano assim?

a equação acima [em bose-einstein condensation in complex networks, de bianconi e barabási] dá conta de que a probabilidade de um nó em uma rede se conectar a outro nó depende da aptidão do nó ao qual a conexão seria feita. e isso vale sempre que a rede em questão se assemelha a um condensado de bose-einstein, o que parece ser o caso da web. é daí que surgem os googles, facebooks e twitters no mesmo "space" em que outros, tão bons quanto [em funcionalidade], não chegam a lugar nenhum.

a questão é: e no caso das cidades? porque empreender em taperoá, PB, é intrinsecamente mais difícil do que em palo alto, CA, especialmente se seu negócio for intensivo em TICs?…

aqui entram undheim e sua tese de doutorado de 2002, tentando explicar porque nem tudo eram ou são rosas, pelo menos não ainda. undheim nos diz [aqui, na pág. 33] que o vale do silício é um processo contínuo de "place making", de [re]construção de um lugar, o que se dá ao redor de um território, organizações, conhecimento e tecnologia. assim como, muito depois, o porto digital [em recife], o vale do silício é um espaço ao qual está associado um repertório próprio, como se [o espaço] fosse um trabalhador de conhecimento e onde, por sua vez, um trabalhador de conhecimento fosse algo absolutamente "normal", o que não seria o caso, por variadas razões, em taperoá, PB. ou no norte da índia, ou no interior de roraima.

e aí é onde o espaço, em tese, pelo menos, perde para o lugar; na norma, na prática, na história. segundo undheim [na pág. 173]…

…I will claim that Castells exaggerates the disembodiment of global business. Probably he would realize this if he started doing interviews instead of looking at statistics of major global information flows. That these flows increase is true, but this fact cannot deny the experience of day-to-day business. Simultaneously with the global spaces of flows of Castells, the de-spacing and corresponding place-making of workers through close encounters, and engagements in few, bounded communities of practice occurs all the time. Knowledge community and knowledge creating relationships evolve over time, and cannot easily be moved….

…castells exagerou na dose; o lugar não desapareceu por causa do espaço e isso se vê ao conversar com as pessoas ao invés de olhar as estatísticas. é claro que os fluxos são mais intensos [ainda mais do que em 2002] mas o lugar ainda é muito importante, em certos lugares muito mais importante do que o espaço. o silicon valley seria um destes lugares, onde comunidades baseadas em conhecimento evoluem no tempo, em termos de relações que não podem ser facilmente deslocalizadas.

prova disso talvez seja o número de caravanas que visita o silicon valley [e, no brasil, o porto digital] para tentar entender como a coisa funciona e como replicá-la no seu "lugar". pelo menos no porto digital, nossa  resposta é uma só e muito simples: pra começar, aprenda com nossos erros; este lugar não é ideal e provavelmente copiá-lo para o "seu" lugar não faz sentido; ao invés, desenhe seu lugar e os fluxos que, a partir dele e para ele, vão torná-lo diferenciado e único no espaço. ou seja, no mundo. como estamos tentando fazer, em recife, no porto digital e tantos outros o estão, para seus lugares, no resto do mundo.

mas afinal, pelo menos por enquanto, qual é a conclusão? ah… fica para amanhã. até lá, pense: por quanto tempo, ainda, o lugar vai continuar [se é que vai] sendo mais importante e relevante do que o espaço, e para que tipos de negócios?

nossa série continua…

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

mundo: plano ou picos? [1]

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a provocação para esta série de textos vem de john hagel III e john seely brown, o último um dos autores do seminal "the social life of information". os dois acabam de escrever um ótimo ponto de partida para uma discussão sobre o modus operandi da nova economia mundial.

aliás, nem tão nova assim; a economia do conhecimento contemporânea tem seus primórdios datados do fim da segunda guerra mundial.

coordenador do esforço americano de pesquisa e desenvolvimento na segunda guerra, vannevar bush tratou do futuro do tema ainda em 1945. em "as we may think", publicado numa revista leiga, discutindo a relação entre pessoas e conhecimento e, em particular, como poderíamos ter mais e melhor acesso a toda a informação existente, criando uma nova forma de pensar, auxiliada por ambientes e ferramentas capazes de estender a mente humana.

se você acha que isso tem tudo a ver com a internet, tem mesmo. claro que este bush não concebeu a internet; mas o engenho descrito no texto acima e mostrado na figura abaixo [clique], chamado memex, talvez possa ser considerado a mãe de todos os hipertextos. e hipertexto, grupos de textos ligados, ou interligados, é a base da web que vannevar, falecido em 1974, não chegou a ver.

memex-1.jpg

em um outro texto de 1945, "science: the endless frontier", um relatório para o presidente roosevelt sobre as possibilidades descortinadas pela ciência na economia, sociedade e vida pessoal, bush, depois de considerar os últimos anos de avanços científicos [incluindo as razões que levaram os EUA a ganhar a guerra] diz que

Advances in science when put to practical use mean more jobs, higher wages, shorter hours, more abundant crops, more leisure for recreation, for study, for learning how to live without the deadening drudgery which has been the burden of the common man for ages past. Advances in science will also bring higher standards of living, will lead to the prevention or cure of diseases, will promote conservation of our limited national resources, and will assure means of defense against aggression. But to achieve these objectives - to secure a high level of employment, to maintain a position of world leadership – the flow of new scientific knowledge must be both continuous and substantial.

…ciência vai estar em tudo, mas não só: para que ciência e conhecimento estejam em absolutamente tudo e gerem como resultado mais trabalho, mais saúde, uso mais racional dos recursos… e muito mais, o fluxo de conhecimento "novo" deveria ser não só substancial mas, também, contínuo.

vannevar bush não foi o único a perceber, ao fim da segunda guerra, que o mundo se articularia, a partir daí, ao redor de informação e conhecimento e não de recursos naturais, agricultura e indústria. não que estes fossem desaparecer; afinal de contas, ainda precisamos [por exemplo] comer. mas as riquezas do passado, que haviam definido o mundo até então, iriam ser rapidamente redefinidas e controladas por quem gerasse, detivesse, organizasse, conectasse, distribuísse e negociasse informação e conhecimento.

peter drucker, que viveu tanto [1909-2005] e sempre parece ter-se ido antes do tempo, já descrevia os trabalhadores do conhecimento em 1959 e, do ponto de vista sócio-técnico, nos deu uma síntese [em 1984] do que bush queria dizer, muito antes da internet e da nossa percepção de uma sociedade em rede. e o fez de forma bem simples:

Three hundred years of technology came to an end after World War II. During those three centuries the model for technology was a mechanical one: the events that go on inside star such as the sun. This period began when an otherwise almost unknown French physicist, Denis Papin, envisaged the steam engine around 1680. They ended when we replicated in the nuclear explosion the events inside a star. For these three centuries advance in technology meant -as it does in mechanical processes- more speed, higher temperatures, higher pressures. Since the end of World War II, however, the model of technology has become the biological process, the events inside an organism. And in an organism, processes are not organized around energy in the physicist’s meaning of the term. They are organized around information.

então… se bush dizia que conhecimento –para manter a sociedade do pós-guerra funcionando- deve ser substancial e contínuo e drucker propõe que o modelo para as tecnologias contemporâneas e seu uso e impacto é baseado em e organizado ao redor de informação, é bom introduzir, por completude, a definição de fluxos criada por manuel castells:

...purposeful, repetitive, programmable sequences of exchange and interaction between physically disjointed positions held by social actors in the economic, political, and symbolic structures of society.

fluxos são sequências propositais, repetidas e programáveis de trocas e interações realizadas por atores [sociais, de todos os tipos] sobre as estruturas econômicas, políticas e simbólicas da sociedade.

pense: a economia e sociedade em rede podem ser definidas ao redor de conhecimento, organizadas em termos de informação e tratadas, do ponto de vista de sua dinâmica, como conjuntos de fluxos, como se tudo fosse um flowscape, um espaço de fluxos.

neste universo de conhecimento, onipresente na economia e sociedade planetária, definido em termos de bush-drucker-castells, cabe a pergunta:

o mundo físico é plano [o lugar onde você está não importa...] ou cheio de picos [lugares onde o conhecimento, seus trabalhadores e os fluxos são mais, muito mais densos]?

é um ou outro ou os dois ao mesmo tempo? e em que intensidade e interações? em qualquer caso, o arranjo atual é estável? se não –agora, estamos indo para um mundo mais ou menos plano e que consequências isso teria para pessoas, empresas, cidades, regiões e oportunidades?…

perguntas, perguntas. em breve, por aqui, mais um capítulo desta novela.

Waldseemüller map

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