Terra Magazine

sexta-feira, 29 de abril de 2011

celulares: seu cérebro e…

…a densidade de fótons por comprimento de onda ao cubo na radiação dos celulares e suas torres.

uma década de estudos sobre os efeitos dos celulares no corpo humano, mais especialmente sobre o cérebro humano, marcada a partir de um texto de robert park no JNCI em fevereiro de 2001 [Cellular Telephones and Cancer: How Should Science Respond?] acaba de ser posta em dúvida por william bruno, do los alamos national laboratory americano.

uma das teses que leva pelo menos parte da comunidade científica a assumir que celulares são seguros, citada logo no resumo do artigo de bruno, diz que…

…cellphones are safe because a single microwave photon does not have enough energy to break a chemical bond…

…os aparelhos não oferecem risco à saúde porque um simples fóton [na frequência] de microondas [a dos celulares] não tem energia suficiente para quebrar ligações químicas como as existentes no nosso corpo e, então… não há porque se preocupar.

mas olha só a segunda frase do resumo…

We show that cellphone technology operates in the classical wave limit, not the single photon limit.

…nós mostramos [lá no artigo de bruno] que a tecnologia celular funciona dentro do limite clássico de ondas e não do limite de fótons únicos. bem, você e eu diríamos… e daí?

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o que é um fóton? é uma partícula elementar, a forma básica de radiação eletromagnética. os fótons não tem carga elétrica ou massa e não decaem espontaneamente no vácuo, onde se movem à velocidade da luz. isso é só pra dizer que… onde tem radiação [veja diagrama acima] tem fótons.

agora que a gente já sabe disso, o primeiro ponto de vista lá em cima diz que estaríamos seguros porque os fótons –considerados um a um- não nos afetam, porque não têm energia para tal. já o segundo diz que o problema não são os fótons, são os feixes deles…e a radiação celular é de feixes de fótons, e não de fótons isolados.

para estarem “isolados” e não terem a possibilidade de criar interações entre eles, possivelmente combinando suas energias, deveria haver no máximo um fóton por comprimento de sua radiação ao cubo… ou seja, bruno diz que as coisas não nos afetariam se estivessem suficientemente longe umas das outras pra evitar combinações que causassem efeitos potencialmente perigosos a coisas vivas como nós.

e quantos fótons deveria haver no espaço ao nosso redor para não haver nenhuma preocupação sobre efeitos à saúde? bem, o comprimento de onda da frequência usada pelos celulares é perto de 30cm [atenção, o valor não é exato; é usado aqui para comparação pois é “uma régua” padrão de escola e perto do real] e isso ao cubo, um cubo cujas arestas são réguas escolares, de 27.000cm^3. mas imagine um cubo “de réguas”, algo mais próximo da capacidade de visualização de qualquer um. note que um cubo de réguas é umas 37 vezes menor que um “cubo de metros”, o cubo de arestas de um metro cada, que tem 1.000.000cm^3.

num destes cubo de “metros”, aqui na terra, há quantos fótons de energia oriunda do sol? uns 20 trilhões. no cubo de réguas? cerca de 540 bilhões, quase tudo energia “boa”. no artigo, bruno diz que densidade de fótons no ultravioleta [lembre câncer de pele e outras coisas desagradáveis…], parte da energia que o sol nos envia, é várias ordens de magnitude abaixo de limite para interação.

acontece que, a dez metros de distância de uma torre de celular, são alguns milhões de fótons por “cubo de réguas” a mais do que deveriam estar lá para garantir que não haveria nenhuma interação ou combinação entre eles. por acaso você tem uma antena de celular na cobertura de seu prédio para ajudar a pagar o condomínio?

no caso dos aparelhos celulares, fica ainda mais complicado: estamos falando de centenas de milhões de vezes acima do limite de um fóton por comprimento de onda cúbico, nosso “cubo de réguas”. pense… onde deveria haver um fontonzinho de nada… há centenas de milhões. e se estes caras estiverem interagindo e se combinando de forma bem mais potente do que um simples fóton?

veja possíveis implicações deste cenário neste texto, que saiu faz pouco tempo aqui no blog, varrendo um número de pesquisas dos últimos muitos anos.

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pelo sim, pelo não e como a intensidade do sinal e a densidade de fótons cai com a distância, qual é a distância segura? de acordo com bruno, para estar sujeito aos mesmos níveis de radiação ambiental [que existe ao nosso redor na ausência de efeitos criados pelo homem] em relação a uma torre de celular, a distância segura é alguns quilômetros. longe mesmo.

e a distância segura entre o cérebro e um celular é… metros. e não centímetros e muito menos colado no seu e no meu crânio. metros.

e quais são as consequências de usar celulares mais perto do que metros e de ficar mais perto de torres do que a quilômetros de distância? em detalhe, como já dissemos neste texto, não dá para garantir que há este ou aquele efeito em todos os casos. mas é quase garantido que há efeitos, e que os efeitos podem ser de longo ou muito longo prazo. teremos que esperar para ver.

imagee aí? com perto de 80% da população do planeta usando e dependendo cada vez mais de conectividade digital e pessoal, fazer o que?… fazer o que a ciência e tecnologia já fizeram incontáveis vezes na história da humanidade. neste caso, significa descobrir novas formas de fazer com que os celulares se comuniquem entre eles e via torres, de preferência usando frequências que não nos façam correr riscos indesejados, como talvez estejamos correndo agora. ninguém sabe ao certo que riscos, nem em quanto tempo ou como. pode até ser para melhor, como no caso de ratos que têm alzheimer revertido com radiação celular… mas ninguém sabe.

pelo sim, pelo não, e até a gente saber bem mais sobre o assunto, cuidado com aquela torre celular perto da sua cabeça e não faça muita questão de aproveitar todos aqueles milhares de minutos que sua operadora está lhe oferecendo para falar com o mundo inteiro… mande mais SMS, seja mais digital… mesmo, deixando o celular cada vez mais distante de sua cabeça e usando cada vez mais os dedos para lidar com ele. nem que seja só pelo sim ou pelo não, pelo menos por enquanto.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

educação empreendedora: intervalo…

a série do blog sobre educação empreendedora está quase no fim e todos os textos já publicados até aqui estão neste link. a qualquer momento vai aparecer um pequeno conjunto de textos seguido de números [como 1, 2…] que vão encerrar a coisa de vez. por enquanto, pelo menos, já que está em andamento um processo pra transformar o conjunto de posts daqui em um volume organizado, ordenado, com o mesmo nome. quero ver no que vai dar.

hoje vamos tratar de dois textos que apareceram recentemente em veículos respeitados da “imprensa” mundial. o primeiro, the economist, publicou um texto no 13 de abril questionando se educação superior não seria a “bolha da vez”.

explicando, a matéria cita peter thiel, fundador de payPal, dizendo que o ensino superior [pelo menos americano e europeu] passa por todos os crivos que caracterizam uma bolha: 1. custa caro. lá, custa caro aos alunos e seus pais; aqui, mesmo que tem bolsa federal pode gastar duas vezes o tempo normal do curso para terminá-lo. como são os contribuintes que pagam a conta, no fim das contas, não sei exatamente que tipo de incentivo é este, mas vamos em frente; 2. o custo da dívida contraída para estudar é alto. lá, certamente que é; aqui, parece ser em tempo perdido, pois há muita gente fazendo cursos para os quais não há trabalho e esquecendo os cursos para os quais há trabalho, mas não há preparo para fazê-los, como os das áreas de exatas e engenharias. de novo, vamos em frente; 3. as taxas de retorno sobre o investimento em tempo e recursos investidos em estudo não parecem remunerar o esforço. de novo, lá, onde há uma base bem acima da média de formação nos níveis anteriores à universidade, onde quase todos têm que pagar contas pesadas e quase nunca estudar enquanto moram na casa dos pais. de novo, o contrário daqui.

usando uma ótica brasileira, seria possível concluir que vivemos uma “bolha” educacional? de forma ampla, não; olhando para certos tipos de formação, inclusive em áreas críticas como informática, sim. como assim? há dezenas de milhares de vagas abertas para quem sabe programar, em todo brasil. mas programar mesmo, tipo criar aplicações para celulares android e iPhone e software para rodar sobre a nuvem, na web, nas redes sociais. para isso falta muita gente. mas muita gente estuda e estudou informaticommodity, coisas de informática que não levam ao desenvolvimento de sistemas de informação baseados em hardware, software ou nos dois. essa galera vive uma bolha e não vai ver, talvez nunca, o retorno de seu investimento. este blog já discutiu coisa parecida com isso neste texto. vá ver.

resumo, até aqui? se você está estudando alguma coisa que lhe permite ver um retorno sobre seu investimento em uma carreira normal e não numa loteria de concursos públicos [suspensos, por sinal] de 1.000 candidatos por vaga, vá em frente, você não é parte da bolha. caso contrário, pense bem… você pode estar na “faixa de thiel”.

thiel, o fundador de payPal, resolver “salvar” vinte estudantes americanos da “bolha” do ensino superior de lá, oferecendo bolas de empreendedorismo de US$100.000 para que eles comecem um negócio ao invés de se endividarem para fazer uma universidade que talvez os remunere bem menos ou nunca. claro que a chance de um ser humano normal passar no “crivo de thiel” talvez seja menor do que capturar uma vaga numa repartição federal brasileira, mas a idéia de thiel é provocar muito mais gente de posse a fazer o mesmo e ajudar a criar uma onda empreendedora no mercado americano, deprimido muito mais por falta de empreendedores de sucesso com ideias de classe mundial do que por falta de bons alunos na universidade.

imagefalando em universidade e sair delas… e chegar de volta, dando a volta por cima…  o MIT MEDIA LAB, um dos mais renomados laboratórios do planeta, acabou de indicar como seu diretor executivo ninguém menos do que joichi ito, empreendedor [capitalista e social] japonês que não terminou dois cursos de graduação, em física e computação? e o último, em particular, porque achava “estúpido” ter que aprender computação na sala de aula? bem, a vida dá voltas… e deve haver um monte de gente que achava que deveria ser o próximo diretor de um lab como o do MIT se perguntando o que foi que não fez para chegar lá… vai ver a resposta é… não viveu, deu voltas, não arriscou, não empreendeu o suficiente para entender como a vida funciona de verdade. assim como muito professor que nunca professou a profissão da qual deveria servir como exemplo e vive a repetir histórias irrepetíveis, na prática, que leu num e noutro livro aqui e ali.

o que nos leva a scott adams, o criador de dilbert, o das histórias em quadrinhos. se eu fosse você, eu leria o quadrinho abaixo, mais de uma vez, antes de continuar a ler nossa historinha aqui do blog… o original, pouco maior, está neste link.

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o que tem dilbert a ver com nossa conversa? bem, o segundo texto da “grande imprensa”, no wall street journal, é do scott adams e se chama how to get a real education, ou como se educar de verdade. adams começa a conversa chamando todos à realidade:

I understand why the top students in America study physics, chemistry, calculus and classic literature. The kids in this brainy group are the future professors, scientists, thinkers and engineers who will propel civilization forward. But why do we make B students sit through these same classes? That’s like trying to train your cat to do your taxes—a waste of time and money. Wouldn’t it make more sense to teach B students something useful, like entrepreneurship?…

resumo? se você não está entre os “brilhantes”, ao invés de se dedicar a coisas que não irão lhe levar onde você quer e provavelmente pode ir… por que, ao invés de estudar mecânica quântica… você não aprende a empreender no seu curso superior [e eu adiciono… ou talvez antes]?…

isso não quer dizer que não vá haver empreendedores entre os mais brilhantes. sempre haverá. mas tão poucos que serão estrelas. só que a vasta maioria dos empreendedores de sucesso tem uma visão de mundo muito diferente de quase todos os grandes cientistas. procure as histórias e verá que são raros os casos que combinam ambas as capacidades.

ok… é muito provável que você, até porque não quer se dedicar aos problemas e práticas que levariam ao sucesso científico, como joi ito, steve jobs e bill gates e mais um monte de gente boa, não vai criar nenhuma teoria fundamental para explicar o universo. que tal empreender? e o que diz adams, empreendedor [de muito sucesso] de si mesmo?

[antes: a tirinha abaixo é de 13/01/1995; naquela época, havia quase tanta gente fazendo processadores de texto para windows quantas há, hoje, tentando empreender uma rede de compras coletivas…]

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sim, e o que diz adams? vejamos…

1. combine habilidades. saber uma coisa, muito bem, é muito, muito menos do que saber várias, bem. saber várias, bem, implica entender contextos de uso delas e sua combinação, no espaço de problemas onde estão os negócios e as possibilidades de empreendimento.

2. falhe rápido. na verdade, a sugestão de adams é “fail foward”, para a qual falta uma boa tradução em português… mas se houvesse, seria algo como “acelere o processo de falhar”, já que você vai falhar na maioria dos casos, o faça com rapidez e aprenda o que tiver que ser aprendido rapidamente e passe para a próxima… falha. é falhando, ou errando, e na prática, que se aprende.

3. procure, encontre, faça parte da ação. conheço uns caras aqui em recife que fingem estar no silicon valley. certas horas até falam como se estivessem lá. mas estão aqui e não sabem nem o que está rolando no porto digital, quanto mais lá. não vão conseguir usar suas habilidades e falhar rápido nem lá nem cá. e você? seu negócio é software para a indústria de petróleo? vá pra perto dela e não fique tentando errar e aprender perto de frigoríficos. mova-se.

4. atraia a sorte. quanto mais você faz, mais trabalha, mais conversa, mais compartilha suas experiências, mais sorte você atrai, porque mais gente passa a se interessar por você. e aí coisas inesperadas [sorte?…] começam a acontecer. sorte se cria, não se espera. por mais fé que você tenha, trabalhe e se conecte; sorte é consequência.

5. domine o medo. há alguma forma mais fácil de dizer isso? não. mas tenha medo de quem não tem medo. quem não tem medo não tem limites, não sabe que riscos corre. tenha medo do que tem que ter e trabalhe pra controlar seus medos, seja lá do que for. você acreditaria se eu lhe dissesse que, depois de quarenta anos [isso, quarenta!…] eu ainda tenho medo de dar aulas e palestras… e que isso me faz estudar e trabalhar noites a fio, fins de semana inteiros e férias… e que isso se tornou uma vantagem competitiva radical… meu medo?…

6. aprenda a escrever. no nosso caso, aprenda português e inglês de tal forma que você possa escrever coisas complexas de forma simples e direta quando for preciso. o que pode nem sempre ser o caso, sob certas óticas, aqui no blog; entenda o porque neste link. mas se você vai empreender, saiba se expressar de forma simples, em discurso e texto, porque a vida não é um grande powerPoint. finalmente…

7. seja persuasivo. descubra que técnicas podem ser usadas para convencer outras pessoas das coisas das quais você está [está?…] convencido. não é só chegar e falar, é muito mais complexo do que isso. sabia que há cursos inteiros só para negociação de pontos de vista ou propostas de negócio? se ligue. vá atrás. eu ainda faço estes cursos até hoje, um deles agora em junho, pois gato velho também aprende pulo novo.

por último, um recado que adams não dá em seu texto do WSJ, mas numa tirinha de mais de vinte anos atrás [26/01/1990] mostrada abaixo. mesmo que você decida deixar a escola para empreender ou resolva empreender na universidade ou depois, se lembre que algumas idéias de negócio, mesmo umas que parecem muito interessantes à primeira análise e primeira rodada de investimentos, se tornam totalmente idiotas algum tempo depois. porque o cenário é dinâmico, muda o tempo todo e você, seu negócio, sua ideia  e sua capacidade empreendedora deveriam estar mudando junto.

isso sem falar que algumas ideias para potenciais grandes negócios, como o da tirinha abaixo, são idiotas já no ponto de partida. com o tempo você aprende a descobrir quais. isso se você tentar, errar e aprender o suficiente, na prática, ao invés de simplesmente ler sobre empreendedorismo [por exemplo, aqui no blog…]. vá lá, tente…

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terça-feira, 26 de abril de 2011

alta frequência nas redes sociais… piora suas notas?

Tags:, , , , , - srlm às 13:50

bem, não se sabe ao certo. mas é o que parece dizer um artigo de kirschner e karpinski publicado na revista acadêmica computers in human behavior. o artigo, cujo título é “faceBook and academic performance” diz logo na abertura que seus resultados…

…show that Facebook users reported having lower GPAs and
spend fewer hours per week studying than nonusers…

…mostram que usuários de faceBook relataram menores notas [GPA, grade point average, um coeficiente de rendimento escolar] e gastam menos horas por semana estudando.

o artigo considerou um pequeno grupo de alunos, americanos, e uma das conclusões é de que, entre os alunos que acreditam que faceBook pode causar um impacto em sua performance acadêmica [cerca de 25% da amostra], 75% indicam que este impacto é negativo, nas notas inclusive.

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um dos principais efeitos do uso de faceBook [e provavelmente de outras redes de relacionamento, não consideradas no estudo] é o aumento do índice de procrastinação, com os alunos deixando para estudar depois de fazer “tudo” o que tinham que tratar com suas relações sociais [virtuais].

aqui pra nós, isso mostra que faceBook é o problema? não, não mostra. o problema pode ser que a escola –e as oportunidades de aprendizado que rolam por lá, para a vasta maioria dos alunos- deixou de ser interessante. aliás, disso se pode ter certeza; a escola não acompanhou a linguagem dos “alunos”, especialmente nestas últimas duas décadas de games e rede, de games em rede.

será que a escola não deveria usar isso a seu favor? sim, e é isso que os governos do rio de janeiro e pernambuco estão tentando fazer, e com resultados muito interessantes, usando uma plataforma de redes sociais para jogos interativos [uma olimpíada, online, de jogos e educação, uma rede social para “jogar” conteúdos do currículo escolar…] para trazer os alunos de volta para o “ambiente” escolar. ainda por cima, este experimento em grande escala já criou a joyStreet, um dos startups mais interessantes do portoDigital.

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imagine que a escola transcenda prédios, práticas e processos seculares e adote –também- um novo ambiente e linguagem, se expandindo para ele, em rede. se houvesse cada vez mais ambiente e conteúdo educacional interessante e interativo, jogável e em redes sociais, será que não aprenderíamos muito mais, muito mais rápido?

esta é uma pesquisa acadêmica que deveria ser feita de imediato. os resultados, dado um ambiente que capturasse a imaginação dos aprendizes, quase certamente nos diriam que o problema apontado pelo estudo que citamos no começo deste texto é da escola… e não da rede social.

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sábado, 23 de abril de 2011

seus dados… guardados… por quem? pra que?

Tags:, , , - srlm às 09:08

o texto anterior do blog era sobre livros digitais e toda a rede de valor ao redor deles. no meio da conversa, entramos no assunto da propriedade dos textos e, de resto, da discussão ao redor de sua [e minha] vida digital e a quem pertencem "nossos" dados. a conversa era mais ou menos assim…

…e aí é que está outro X, o da questão: como em todos negócios em rede, hoje, quase todos os agentes [da microsoft a google a apple a facebook e amazon e muitos mais...] estão trabalhando para fechar suas plataformas de serviço com os clientes dentro, criando silos para seu conteúdo, que de lá só sai pirateado, é preciso reverter tal situação para um cenário aberto.

este é o grande problema que teremos que enfrentar para que os livros, desde sempre um dos fatores libertários da humanidade, voltem a cumprir seu papel, de irem sempre o mais longe possível e ao alcance de todos, seja lá onde e por que meio de acesso tentarem.

podemos ser otimistas neste aspecto? acho que sim, porque na rede [de todos os tempos, passado, presente e futuro] a propriedade de "seus" dados e bens digitais deve, tem que ser sua; você tem que ser capaz de controlar sua identidade digital e disponibilizar que parte dela você quiser, sob seu exclusivo controle, para quem você achar que deve.

parecia premonição, pois nos dois dias seguintes se descobriu que [os microtextos abaixo saíram no meu twitter]…

descoberta: iPhones e iPads guardando TODA localização dos usuários http://bit.ly/hvNvYz #privacidade? #comoExplica, apple?

e, logo depois…

RT @MikeElgan Android phones record user locations, too http://bit.ly/hM2aPq#privacidade? e aí, google, #comoExplica?

…ou seja, tanto apple como google estão "pegando" informação sobre onde estamos, sem que estejamos plenamente conscientes disso e os tenhamos autorizado a tal.

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claro que deve haver alguma cláusula contratual em fonte tamanho 3 [5, vá lá...] em algum contrato de muitas páginas que diz que eles vão fazer isso. e quem defende android foi rápido ao apontar que a apple está populando um banco de dados dela, ao invés de google, que está usando a informação sobre localização móvel para prestar serviços ao usuário. pouco importa, quando consideramos o problema mais amplo.

e o tal "mais amplo" tem que ser posto, de uma vez por todas, da seguinte forma: todos os "nossos" dados são de cada um de nós, individualmente, e só podem ser capturados, guardados, processados, transmitidos, usados, distribuídos com a autorização, consciente e livre, de cada um. e pouco importa se a maioria dos usuários não vai entender os porquês disso. para quem não entender, o modo de autorização para captura ou uso de informação pessoal de qualquer tipo tem que ser não, mesmo que isso contamine a qualidade do serviço.

o usuário tem que aprender, entender o que está sendo feito com seus dados e o que ele ganha [muito...] e o que perde [potencialmente muito, também] com sistemas de informação de todos os tipos capturando suas pegadas informacionais.

esta é mais uma daquelas coisas que gente como o ex-senador azeredo deveria estar tentando regular. ao invés de perseguir usuários da rede e das infraestruturas de comunicação móveis, que tal, galera do congresso, defendê-los?…

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

livro de papel: compre logo, antes que acabe…

Tags:, , - srlm às 12:53

toda vez que discuto a evolução do livro com qualquer público e digo minha posição [elementar, de que o livro de papel "vai desaparecer"] uma parte considerável da audiência de mais idade refuta minha tese de forma radical. um dos argumentos usados é o "tátil", de que precisamos "sentir" o papel, de que estamos acostumados ao passar de páginas, ao peso do livro, ao "shhhssshh" do escorregar de uma página noutra ao folhearmos um tomo qualquer.

ninguém usou como argumento, até agora, o mofo das estantes [seria o argumento "olfativo"?... ou "alergênico"?...], as traças, o amarelecimento natural do papel, os amigos que nos tomam livros emprestados e não devolvem nunca mais [nem nós pedimos, pois não lembramos a quem emprestamos]… e por aí vai.

mas tem um ruma de gente que pensou nestas objeções ao fim do papel como suporte para o livro. e elas, certamente, são tão boas quanto qualquer outra. pra citar uma, pessoal, dobro a quina das páginas interessantes dos livros que leio e isso me serve de mapa de releitura da maioria deles. como se não bastasse, escrevo nas bordas das páginas, enquadro parágrafos com marcadores coloridos, hachurio sentenças, colo postIts, insiro material de jornais, revistas e outros livros dentro de um livro que estou lendo. em suma, meus livros pessoais são "aumentados" pelo meu processo de leitura, criando um novo e muito "meu" livro.

nada disso está disponível nos ebooks e seus leitores atuais e eu continuo apostando que os livros de papel vão acabar, e rápido. como pode?…

olhe para o passado recente: há cinco anos, não havia um só dispositivo móvel no qual pudéssemos encapsular pelo menos parte da experiência de ler livros. o kindle, primeiro sistema [e não dispositivo...] digital prático para codificar livros, foi lançado em 19 de novembro de 2007. todo o estoque foi vendido em menos de seis horas, por US$399 cada, e a coisa só apareceu no mercado, de novo, cinco meses depois. a versão em software do kindle está disponível para múltiplas plataformas, de windows a blackBerry.

aí… entra o iPad: 200.000 vendidos no primeiro dia, um milhão no primeiro mês. e isso foi em abril de 2010, mês em que aparecerem mais de cinco mil aplicações no mercado e foram feitos doze milhões de downloads. os quatro primeiros meses de disponibilidade ampla do iPad estão correlacionados a um aumento de 20% na pirataria de livros só nos três principais repositórios de compartilhamento de arquivos do planeta, como mostrado no gráfico abaixo..

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o mesmo estudo aponta para um aumento de mais de 50% na pirataria de livros nos doze meses a partir de agosto de 2009, debitando o aumento, em parte, à possibilidade de downloads imediatos de livros disponíveis na web, seja lá em que parte dela estiverem, legal ou ilegal.

do iPad para cá, um número de tablets foi lançado e não há um fabricante que não os tenha ou não vá colocá-los no mercado ainda este ano. o iPad ainda domina o mercado dos mais-que-leitores mas motorola, samsung, hp, acer, toshiba, dell,… todo mundo está indo atrás da mina de ouro que a amazon descobriu e que a apple apontou como explorar em escala muito maior.

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se o kindle é um sistema para encapsular os "livros de gutenberg", simples arquivos de texto e imagens, máquinas como o iPad e o XOOM [imagem acima] podem fazer muito, muito mais. os tablets devem redesenhar todo o cenário de portabilidade da computação, controle e comunicação, criando a classe dos Sistemas de Informação Pessoais [e Conectados], os SIPc’s, capazes de fazer muito mais do que apresentar a informação visual estática de um livro "de gutenberg".

pense em livros animados. em simuladores de experiências de física que vão ser manipulados diretamente nas páginas do "livro virtual". e que tal explorar geografia, história, sociologia… sobre mapas interativos, atuais e históricos? e mais: como não fazer isso "socialmente", junto com gente que tenha os mesmos interesses? podemos anotar, questionar, discutir, corrigir [os erros dos livros, as razões de seus autores...], perguntar [ao livro, ao seu autor, aos editores...].

e não só: podemos resenhar, criticar e explicar o livro "ampliado" de que estamos falando aqui, tratando-o sempre como uma obra em rede. mesmo ficando o livro em si "fechado", no sentido de terminado pelo autor, enquanto houver nem que seja uma única pessoa que o leia, haverá a possibilidade de novos comentários, críticas e sugestões serem adicionados ao material.

e isso vai rolar, claro, no mercado: imagine que um livro seja vendido por X… e que uma resenha dele seja tão boa que as pessoas passem a comprar a resenha por 0,5X… e que mais resenhas do que livros sejam vendidos… e que o autor do livro, por ter criado [digamos assim] a plataforma original, seja remunerado também com uma porcentagem da renda das resenhas. aí, todos ganham e os incentivos, neste mercado, são muito maiores do que os existentes no mercado de livros que conhecemos hoje.

claro que, para tal cenário acontecer, os livros nunca vão "estar" em um iPad ou XOOM, mas em rede. na rede e conectados em rede, sempre. e aí é que está outro X, o da questão: como em todos negócios em rede, hoje, quase todos os agentes [da microsoft a google a apple a facebook e amazon e muitos mais...] estão trabalhando para fechar suas plataformas de serviço com os clientes dentro, criando silos para seu conteúdo, que de lá só sai pirateado, é preciso reverter tal situação para um cenário aberto.

este é o grande problema que teremos que enfrentar para que os livros, desde sempre um dos fatores libertários da humanidade, voltem a cumprir seu papel, de irem sempre o mais longe possível e ao alcance de todos, seja lá onde e por que meio de acesso tentarem.

podemos ser otimistas neste aspecto? acho que sim, porque na rede [de todos os tempos, passado, presente e futuro] a propriedade de "seus" dados e bens digitais deve, tem que ser sua; você tem que ser capaz de controlar sua identidade digital e disponibilizar que parte dela você quiser, sob seu exclusivo controle, para quem você achar que deve.

e o mesmo deve ser o caso para seus "bens" digitais. sua "cópia" de um ebook é sua e não da amazon, iTunes ou qualquer "market" digital. ainda vamos levar um monte de tempo para chegar a esta conclusão, inclusive do ponto de vista legal, mas vamos chegar lá. seria muito mais produtivo se congressos, mundo afora e aqui, ao invés de estarem discutindo a criminalização de comportamentos na rede, estivessem considerando questões bem mais relevantes como esta. mas é só uma questão de tempo, e vai acontecer naturalmente, quando os representantes começarem a ler… ebooks.

do ponto de vista técnico, o futuro deve chegar bem mais rápido, como sempre acontece. uma visão como a de tim o’reilly [de que livros vão se parecer com a internet] vai acabar prevalecendo e o "padrão" de livro [e biblioteca] eletrônico que vai dominar o mercado será de certa forma indistinguível dos padrões da própria rede. isso significa que o formato de representação de conteúdo, as APIs [sim, estamos falando de livros "programáveis"] e as funcionalidades que eles representam vão abrir incontáveis possibilidades de interação com ebooks e construção de novos conteúdos sobre o que um dia chamamos de livro.

e você diria… precisa mesmo de toda esta complexidade ao redor dos livros eletrônicos? os livros de papel não são muito mais simples? não. o livro de papel é resultado de uma grande e complexa rede de indústrias que começa no agribusiness [celulose...], passa por fábricas de papel, aliás, de papéis especiais que tiveram que ser desenvolvidos para os livros, pelo desenho e construção dos tipos e máquinas da indústria gráfica, pela composição e ilustração dos textos, pela logística de entrada e saída das gráficas e editoras, pela legislação especial para literatura [que não paga imposto de importação no brasil, por exemplo]… e por aí vai.

os ebooks, ou melhor os weBooks, os livros na web, vão reutilizar parte desta rede de valor, mas precisam de um outro conjunto de coisas, de certa forma bem mais simples, para "funcionarem" em rede como deveriam. e isso está começando a acontecer agora, enquanto você está lendo este texto na web. é por isso mesmo que, se você quiser uns livros de papel para mostrar para seus netos… compre agora, antes que acabem…

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

a "bandinha" do brasil

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faz pouco tempo que saiu a última versão do network readiness index do fórum econômico mundial e o brasil, nele, e pela primeira vez em anos, subiu de posição. o que isso quer mesmo dizer?

há quase um ano, escrevi na folha de são paulo um texto [o plano, a banda e a inclusão digital] que foi replicado em vários sites abertos, inclusive no CDES, o conselho nacional de desenvolvimento econômico e social, do qual faço parte. o texto, na íntegra, é repetido abaixo.

Nos últimos dez anos, regredimos mais de 20 posições nos índices de quantidade e qualidade da infraestrutura digital. Não que o Brasil estivesse indo para trás de forma acelerada: no período, o país viu uma quase universalização dos celulares, um bom aumento da proporção de residências com PCs e a conexão de um bom número de casas à rede.

O que a década de queda -do 38º para o 59º lugar no Network Readiness Index do World Economic Forum, por exemplo- quer dizer é que outros países se moveram muito mais rápido. E isso é um problema, agora e no futuro próximo, primeiro porque muitos deles são nossos competidores, mas também, e mais gravemente, porque o mundo conectado vive, intensamente, a sociedade e a economia da informação e do conhecimento. Estar fora da rede, hoje, é como estar fora do mundo.

E o Brasil perdeu tempo. Muito tempo. Desde os primórdios da internet por aqui, havia planos de universalização do acesso. Sabia-se desde o princípio que a rede iria mudar o mundo e se tornar mais uma de suas infraestruturas básicas, uma "utility" tão essencial como eletricidade, água e esgoto.

O conceito -hoje universal- de tratar telefonia e telefones como apenas mais uma aplicação sobre uma infraestrutura (servidores, roteadores, satélites…) e serviços (os protocolos da rede) padrão da internet tem quase década e meia.

Ou seja, faz tempo que se sabia e se dizia, aos quatro ventos, que tudo o que era comunicação ia convergir, mais cedo ou mais tarde, para a internet. Por que, então, ainda estamos no estágio de penetração e uso de banda larga relatado no "Comunicado 46" do Ipea

A razão fundamental é que o Brasil não teve, na última década e meia, políticas públicas que cuidassem de conectar o país na quantidade e na qualidade que precisamos.

Banda larga não chega nem à metade dos municípios e só existe em cerca de 21% dos lares.

Como se não bastasse, mais de 54% das nossas conexões "de banda larga" têm velocidades nominais abaixo de um megabit por segundo, o que significa que vídeo pela rede, por aqui, é coisa rara. E de má qualidade. O que torna muito difícil educação, saúde e negócios pela rede, entre outras tantas coisas que existem e são usadas, como fato consumado, mundo afora.

Sem falar que, mesmo para o uso comum da rede, mesmo para o que "dá para fazer" com a rede que se tem, o preço do megabit por segundo brasileiro é estratosférico: aqui, como porcentagem da renda familiar, banda larga custa dez vezes mais do que nos países mais conectados. Depois de quase 15 anos de privatização do setor, o "mercado", ou seja, o que temos de políticas públicas, regulação, reguladores e empresas, simplesmente não fez o que deveria ter feito.

Resultado? Voltamos quase a um ponto de partida e decretamos um Plano Nacional de Banda Larga, cuja gestação tem que ser debitada ao cenário descrito acima. A ineficiência das operadoras fixas no provimento de acesso em banda larga em quantidade, qualidade e preço acessível é a mãe do PNBL . Poderiam ter feito -e exigido- muito mais. Não o fizeram. Deu no que deu.

Um PNBL bem executado pode se tornar uma intervenção estatal de qualidade nos negócios de conectividade, e não necessariamente uma nova infraestrutura de serviços de rede necessária para tal.

Até porque o PNBL parece um novo "plano de integração nacional" e seu papel pode ser muito parecido ao das estradas e TVs no passado, ao trazer para a rede mais da metade dos municípios e 70%, 80% das casas.

Muita gente reclama e desconfia do plano, quase como se fosse uma reestatização do setor de telecom.

Mas telecom, a das antigas companhias de telefonia, não existe mais, transformou-se em conectividade, fixa e móvel. E é significativo que o PNBL não trate de mobilidade, e sim de conectividade fixa, onde o mercado, simplesmente, falhou.

a bem da verdade, o texto tem [pelo menos] um erro: na década passada, o brasil não regrediu do só 38º para o 59º lugar no network readiness index do world economic forum, mas do 38º para o 61º lugar, dois a mais do que o colunista da folha reportou.

imageagora, na avaliação 2010/2011, o WEF anuncia que o brasil subiu cinco posições e está no 56º lugar entre os 138 países considerados no estudo. pra comparar, a coréia do sul, que estava no 15º lugar em 2009/10, também subiu cinco posições, para o 10º lugar. o fato é que estamos, no concerto global dos países, dezoito lugares abaixo do que estávamos em 2000/2001… abaixo da china [36º] e índia, 48º. a rússia, o R dos BRICs, perdido no tempo, espaço e economia, subiu uma posição, do 78º para o 77º lugar. difícil. malásia e indonésia estão bem melhores que nós, assim como o chile, caso à parte na américa latina. vá ver o relatório.

em boa parte, o brasil está onde está por uma combinação de de falhas de mercado, operadoras e políticas públicas, como explicitado no texto citado acima. mas mesmo aqui no brasil, quem tem meios e mora nos lugares onde há uma infraestrutura acima da média, a banda não está "tão" ruim, apesar do país, de novo, não estar nem perto dos primeiros. a velocidade média efetiva de downloads, no brasil, é de 4.71 megabit/s segundo o netIndex, o que nos deixa no 68º lugar numa lista de 168 países. o líbano é o lanterna, com 0.5Mbps e no topo está a coréia do sul [lembra dela?... subiu cinco posições no índice do WEF] com nada menos do que 34.31Mbps.

imagee os uploads? a rede é multidirecional, certo? ou pelo menos deveria ser. da sua casa ou empresa para a rede, o brasil descamba para o 85º lugar no netIndex, com meros 1.09Mbps, entre oman e o nepal. áfrica do sul, paraguai, uganda, honduras, equador, chile, e até zimbabwe[!]… estão à nossa frente e no primeiro lugar está a coréia, de novo, com 22.05Mbps de velocidade de upload. lá a rede é "muito mais em rede" do que aqui: a velocidade em que você pode produzir informação para a rede é perto de 70% daquela que você usa para consumir informação da rede, enquanto que nós estamos perto de 20%. se você quiser, nossa rede é para uma web 1.0 de má qualidade, uma rede onde a maioria das pessoas é público e não comunidade. na web 1.0, nos "lemos" a rede; na web 2.0, nós lemos e "escrevemos" na rede, formando comunidades entre agentes que têm capacidades similares de contribuição.

mesmo para só "ler" a web, o brasil é muito desigual. segundo dados a akamai, quase 89% das conexões de recife são de velocidade menor do que 2Mbps; em florianópolis, são 79% e no rio 90%. ou seja, somos um país de banda estreita. como se não bastasse, nosso preço por megabit por segundo é mais de 40% acima da média mundial.

é neste contexto que ainda estamos discutindo gastar mais tres anos, daqui até 2014, para o PNBL levar 600Kbps a 35 milhões de casas brasileiras. ou, seja, estamos falando de uma "bandinha" de acesso à internet para daqui a tres anos, quando o acesso de quem estiver conectado a banda larga de verdade, e mesmo aqui no brasil, deverá estar ao redor dos 20Mbps. e quando projetos nacionais como o da alemanha estão trabalhando para…

…75 percent of German households [will] have broadband access of at least 50 Mbps by 2014; …covering 2015-2020, 50 percent of German households [will] have access to at least 100 Mbps and another 30 percent to 50 Mbps by 2020 …over a ten year period (2010–2020), the broadband investment is expected to result in 170.9 billion Euros of additional GDP (0.60% annual GDP growth) in Germany.

comparando maçãs e abacaxis, enquanto os alemães estão olhando para 75% das casas com 50Mbps em 2014 e 50% com 100Mbps em 2010, o que resultaria em um aumento anual adicional de 0.6% de crescimento do PIB de lá, do lado de cá, nós estamos com sérias dificuldades de começar pra valer o projeto nacional de prover uma "bandinha" de 600Kbps [de download] que, se for projetada, instalada e operada como a rede atual, vai ter uns 150Kbps de upload, se tanto. capaz de não dar nem pra voz sobre IP. vídeo, nem pensar.

na inglaterra, a BT e a virgin estão montando duas redes nacionais FTTH [fibra até a casa...] que vão levar gigabit/s a todas as cidades até 2015 e a fujitsu acabou de propor, dentro do escopo de um programa de inclusão digital do governo inglês, conectar todas as casas da zona rural, também a gigabit/s.

mas isso é coisa de gente grande, você diria. não, não é: é o entendimento de que a infraestrutura física para a internet é tão essencial quanto água, esgoto, ruas e estradas e energia. é a percepção política de que a rede é essencial para a educação, economia, governo… para todas as facetas da sociedade. a "bandinha" que está sendo proposta para brasil é mais um sinal de que ainda temos muito a evoluir até que entendamos qual é o papel da rede para a economia e a sociedade e quais são suas mais amplas implicações, inclusive [como no caso alemão] para o aumento da velocidade de crescimento da economia nacional.

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no brasil, parece que sempre reduzimos nossas expectativas do que pode ser feito para ajustá-las a uma performance que sabemos que não temos. talvêz devêssemos elevar muito as expectativas para puxar a performance para cima de forma significativa e fazer muito mais do que o meramente possível. é exatamente por estarmos sempre fazendo o possível dentro da baixa performance que temos, especialmente no domínio das políticas públicas e sua execução pelo estado, que estamos onde estamos… entre oman e nepal na velocidade de download.

por que não refazemos nosso plano de inclusão digital de casas e empresas, em banda muito larga e apostamos que, em dez anos e se aumentarmos muito nossa performance, pegamos a passamos a china, esteja ela onde estiver? são vinte posições entre nós e eles, apenas. se a coréia, que estava já lá em cima no network readiness index, conseguiu subir cinco lugares em um ano, porque não conseguiríamos vinte lugares em dez anos?

olha só o primeiro objetivo do plano de banda larga dos EUA para a década:

At least 100 million U.S. homes should have affordable access to actual download speeds of at least 100 megabits per second and actual upload speeds of at least 50 megabits per second.

isso é mais de 60% das casas a 100 megabit por segundo de download, com upload de pelo menos 50Mbps. este alvo é quase dez vezes o que os EUA têm hoje: 10.9Mbps de velocidade de download e 30º lugar no netIndex. ao contrário do que muitos esperam, que é o país do silicon valley pelo menos entre os dez primeiros.

e nós… vamos ou não vamos estabelecer um alvo cinco, dez vezes mais alto do que nossa situação atual de banda larga e conseguir chegar a tres, sete vezes o que temos agora ou, conformados em sermos puros e simples exportadores de commodities, vamos nos contentar em ser uma "zona rural" periférica e desconectada por uma "bandinha" do brasil?

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[acima, gráfico do plano americano de banda larga: hoje, se você quiser ter vídeo conferência em casa, tenha pelo menos sete megabit/s. pelo menos...]

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

celulares e cérebro: a [longa]discussão continua

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em 2006 escrevi [no meu antigo blog] sobre celulares e câncer cerebral, seguindo a pista de um estudo sueco coordenado por lennart hardell, que anunciava uma catástrofe de proporções bíblicas:

usuários contumazes de celular têm 240% mais chance de contrair um tumor maligno no lado do cérebro onde usam o celular. usuário contumaz é definido como alguém que já usou mais de 2.000 horas de celular [cerca de uma hora por dia, no trabalho, por dez anos seguidos].

este link leva a uma apresentação de hardell na royal society e este outro a uma cópia do texto original da pesquisa, pooled analysis of two case–control studies on use of cellular and cordless telephones and the risk for malignant brain tumours diagnosed in 1997–2003.

parte da comunidade internacional de oncologia rebateu o texto de hardell et al. de forma severa, questionando o estudo de cabo a rabo. apesar disso, e no mesmo ano, hardell e mild viram confirmadas seus estudos de 2002 e 2003 apontando uma correlação entre o uso intenso de celulares e neuromas acústicos, fato que discutem neste texto.

aqui no terra, o assunto apareceu pelo menos tres vezes: em junho de 2008, relatando um estudo australiano dizendo que…

o risco de desenvolvimento de câncer de cérebro é duplicado pelo uso constante de celulares em longos períodos de tempo, tipo dez anos ou mais.

em outubro de 2008 foi realizada no rio de janeiro uma conferência sobre o impacto dos campos eletromagnéticos sobre coisas vivas [inclusive nós] e o blog deu conta da discussão neste texto, citando o site do evento:

Os riscos potenciais da exposição a campos eletromagnéticos (CEM) devido a instalações como linhas de transmissão e estações radio-base de telefonia celular móvel representam um difícil conjunto de desafios para os tomadores de decisão.

Esses desafios incluem determinar se existe ameaça na exposição aos CEM e qual seu impacto potencial sobre a saúde, isto é, avaliar o risco, o que envolve pesquisas sobre efeitos biológicos e estudos epidemiológicos; reconhecer as razões que levam à preocupação por parte do público, ou seja, percepção de risco; e implementar políticas que protejam a saúde pública e respondam às preocupações do público, o que significa gerência de risco.

Esse tema é de extrema relevância não somente pela larga utilização de fontes emissoras de campos eletromagnéticos, tais como as linhas de transmissão de energia elétrica, instalações e aparelhos de telefonia celular e outros equipamentos eletro-eletrônicos, mas também pelo impacto causado na sociedade pelas notícias acerca de possíveis efeitos sobre a saúde humana veiculadas pela mídia.

naquele tempo, o assunto era quente e o evento idem. esta apresentação, de maria feychting, comparava todas as evidências epidemiológicas e concluía que…

Taken together, evidence support that short term mobile phone use (<10 years) do not affect risk. For long term mobile phone use, >10 years, most data speak against an increased risk. Some uncertainty regarding ipsilateral use –recall bias is likely to affect findings. No data available for use more than 15 – 20 years. Mobile phones are still relatively new. No data available on children.

resumo? excetuando o estudo de hardell et al., os outros dizem que não há aumento de risco de tumores para uso intenso de celular em períodos de dez anos. e que nada se pode dizer sobre crianças e celulares. e a dra. feychting [e muita gente mais] não levou em conta o estudo australiano.

em novembro do mesmo ano, estava para sair o estudo INTERPHONE e o blog voltou ao assunto:

…talvez esteja para ser publicado, depois de oito longos anos, o maior estudo mundial sobre o assunto, o relatório final do INTERPHONE, esforço conjunto de 13 países e dezenas de pesquisadores estudando mais de 6.000 usuários de celulares que contraíram câncer. o estudo tinha o objetivo de decidir se o uso continuado de celulares, por um longo período de tempo [mais de 10 anos], aumenta ou não o risco de alguns tipos de câncer, incluindo glioma e neuroma acústico.

a data de publicação do estudo, na verdade, já passou e o resultado não saiu ainda porque os pesquisadores se dividiram em três grupos: os que acham que SIM, celulares aumentam significativamente o risco de câncer, que inclui, entre outros, pesquisadores de israel e austrália, os que dizem que NÃO, a coisa é segura [com cientistas do canadá e inglaterra liderando esta versão] e os que não se manifestaram, achando que a evidência existe em certas situações e não em outras.

a situação é, para dizer o mínimo, confusa: as facções SIM e NÃO se separaram de tal maneira, no correr do estudo, que muita gente já nem mais se fala. nem de celular!… e há quem diga que, apesar de haver resultados alguns resultados locais irrefutáveis [100% de aumento de risco para alguns tipos de câncer em certos países], é capaz de, por isso mesmo, acabar se chegando a nenhuma conclusão. e tem mais: duvida-se, hoje, da seleção da amostra e da corretude dos procedimentos da pesquisa adotados pelos grupos de estudo.

ou seja: maior rolo. quando foi publicado em maio de 2010, o estudo concluía que…

This is the largest study of the risk of brain tumours in relation to mobile phone use conducted to date and it included substantial numbers of subjects who had used mobile phones for >=10 years. Overall, no increase in risk of either glioma or meningioma was observed in association with use of mobile phones. There were suggestions of an increased risk of glioma, and much less so meningioma, at the highest exposure levels, for ipsilateral exposures and, for glioma, for tumours in the temporal lobe. However, biases and errors limit the strength of the conclusions we can draw from these analyses and prevent a causal interpretation.

…não se encontrou evidência científica de aumento de risco de tumores, além de "sugestões" de que tal era o caso para alguns tipos de câncer… mas erros e polarização de experimentos limitavam tais conclusões.

imagefim de semana passado o new york times magazine publicou uma história sobre o assunto [longa, 10 páginas] escrita por siddhartha mukherjee, professor de oncologia da universidade de colúmbia, que cita um estudo –este aparentemente conclusivo- liderado por nora volkow [diretora do NIDA americano] dando conta de que a intensidade de uso e proximidade de celulares aumenta o metabolismo de glucose na área do cérebro imediatamente adjacente à antena. a conclusão do estudo de volkow et al. é…

In healthy participants and compared with no exposure, 50-minute cell phone exposure was associated with increased brain glucose metabolism in the region closest to the antenna. This finding is of unknown clinical significance.

a última frase quer dizer que não se sabe o que o achado significa. aumento do metabolismo de glucose no cérebro pode ser bom ou ruim. mais ainda, pode ser bom para uns e ruim para outros, ou ainda bom e ruim em diferentes fases da vida do mesmo indivíduo, e por aí vai.

ainda mais, continuamos sem saber ao certo quais são as consequências de longo prazo do uso de celulares, especialmente de forma muito intensiva e perto do cérebro. talvez seja interessante lembrar que a penetração cada vez maior de smartphones talvez leve grande parte das pessoas a se comunicar mais através de chat, twitter, facebook, twitter e coisas do tipo e o uso do celular por longos períodos de tempo perto do cérebro diminua. quem sabe.

imagemas parece que há um conjunto de relações entre certas mudanças no cérebro e a presença de celulares em sua proximidade. lá no meu velho blog, em 2007, citei um estudo em animais de laboratório realizado por salford et al, em 2003, concluindo que a exposição contínua a radiação equivalente a celulares causa o rompimento da barreira sangue cérebro [BBB, em inglês]. e isso pode [como na síndrome de sanfilippo] ter implicações complexas, no longo prazo, para a saúde do cérebro.

mas a complexidade pode estar do lado bom… como citamos neste texto publicado aqui no blog em janeiro de 2010:

…gary arendash, da university of south florida, expôs ratos geneticamente modificados para terem a doença de alzheimer a duas horas diárias de radiação similar a dos celulares, por períodos de sete a nove meses.

o que ele e seus colegas esperavam era que a exposição intensa ao “celular” aumentasse os efeitos do mal de alzheimer, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: mesmo com alzheimer, ratos “banhados” por radiação de celulares mostraram ser tão capazes, em testes de raciocínio e memória, quanto ratos saudáveis. por que? aparentemente porque a radiação celular controla [ou zera] o nível de beta amilóide no cérebro, diminuindo e até revertendo os efeitos da doença.

resultado? arendash acredita que é preciso investir em um novo campo da neurociência, o de efeitos de longo prazo do eletromagnetismo na memória. pode ser. e pode ser que a radiação de celulares seja mesmo benéfica para seres humanos com alzheimer.

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e você diria: juntando todas as peças do quebra-cabeças, como fico nessa?

não se sabe. é fato que quase todo mundo vai usar celular. a penetração global já está nos 80% da população. uma descoberta definitiva de que o uso intenso de celulares, no longo prazo, teria um efeito maléfico sobre o cérebro causaria um problema de tal ordem de magnitude que levaria a uma revolução inovadora, tanto do ponto de vista tecnológico como de costumes.

para muitas empresas e negócios, uma descoberta deste tipo seria fatal. até por isso, há quem suspeite da manipulação da maioria dos estudos que aponta a falta de provas científicas que leve celulares a causarem tumores cerebrais, mesmo sem haver qualquer evidência concreta para tal acusação.

se você quiser apostar no lado ruim da força, só use celular para o absolutamente necessário, seja lá pra que for, perto de seja lá que parte do corpo for.

olhando pelo lado bom, mesmo que apareçam evidências mais conclusivas de efeitos no cérebro, você pode apostar este aumento do metabolismo de glucose é uma vacina contra alzheimer, que a quebra da barreira sangue cérebro não é lá tão importante assim… e, caso role uma complicação maior como efeito colateral, vai ser daqui a tanto tempo que você não vai estar nem aí. literalmente, e por outras e mais letais razões.

só que isso não resolve tudo. com crianças de 10 anos e menos usando intensivamente seus celulares, cortesia de planos que permitem ligar para a família "de graça"… quais serão as consequências em 50…70 anos?

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ninguém sabe. os blogs do futuro têm uma pauta quase infinita sobre este tema. é esperar pra ver.

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

sic transit…

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imageeste é o título de uma palestra [de 18 conceitos em 18 minutos] que dei no tedXlaçador do sábado passado em porto alegre. a idéia era discutir o futuro das cidades, principalmente as grandes e as muito grandes, metidas no meio da maior crise de suas histórias desde que os visigodos de alarico saquearam roma há exatos mil seiscentos e um anos. bem… nem tanto. mas o fato é que as cidades têm que discutir seu futuro, inclusive e principalmente no brasil, onde os processos de crescimento desordenado têm criado –só para citar o exemplo mais comum- os megaengarrafamentos de são paulo e de todas as outras metrópolis.

olhe as duas imagens a seguir, slides da minha palestra. na primeira, de 2008, preste atenção na van amarela que está vindo da esquerda para a direita… num dia de engarrafamentos monumentais em são paulo.

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agora olhe o mesmo cruzamento [da juscelino com a faria lima; note que o banco lá na esquina oposta foi comprado...] em 2011, num dos apagões que atingiu são paulo durante um temporal qualquer…

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…e veja que a van amarela, em três anos, só conseguiu girar 90 graus à esquerda e ainda está quase no mesmo lugar!…

claro que isso é um exagero, mas a brincadeira explicita, de certa forma, o tamanho do caos que vivemos nas megalópoles como são paulo. é possível mudar alguma coisa? é sim. e o que precisamos fazer para sair de onde estamos? precisamos inovar, de maneira radical. precisamos repensar as cidades como…

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…o que não quer dizer conexões físicas, como mais ruas e avenidas e viadutos, muito mais largos. na era do conhecimento, temos que pensar em uma mudança da forma de trabalhar, principalmente, já que a maioria do trabalho e dos meios de trabalho da era da informação está naturalmente distribuída e conectada, cada vez mais, mesmo pelas infraestruturas de informação que já temos no presente. no futuro, então, o desenho das cidades tem que levar em conta que cada um e cada qual e cada coisa serão cada vez mais glocais, pessoas, situações e coisas locais com alcance cada vez mais global.

como é que isso vai acontecer? vamos ter que mudar os…

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…, ou seja, a forma e modos da economia e sociedade urbana e dos urbanóides e suas coisas funcionarem, redesenhando nossa experiência coletiva ao redor do ato de…

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…serviços, sistemas, processos, infraestruturas, veículos, ideias, projetos… e o que mais há no ambiente urbano, fazendo isso de forma…

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…como de resto, aliás, "funciona" a própria cidade, cada um de nós e, como se não bastasse, a vida em geral.

pra quem não viu a palestra online no sábado, o pessoal do tedXlaçador vai editar tudo o que rolou por lá e, em breve, haverá vídeos online. enquanto isso, se você quiser pegar a íntegra dos meus slides para a palestra de porto alegre, eles estão aqui.

também participei do tedXsãoPaulo em novembro de 2009, falando de cooperação: educação transformada em processo de aprendizagem. a palestra em vídeo está neste link e os slides neste outro. se você nunca foi a um ted ou tedX, descubra um perto de casa e vá, quando puder. a vasta maioria são eventos surpreendentes, cheios de coisas interessantes e, por mais estranha ou porra louca que possa parecer o que você está vendo [sempre palestras de 18 minutos] você sempre aprende muita coisa.

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

inovação é conversação

este post é mais um intervalo técnico para a série sobre educação empreendedora aqui do blog. antes deste texto, já foram publicados os "capítulos" 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15,16, 17, 18, 19, 20, 21; depois, nenhum, ainda. simbora.

. : . : . : .

[aviso aos navegantes: este texto é uma revisão de um outro, publicado neste link pelo autor em 2007; como o assunto está diretamente ligado ao texto de ontem aqui do blog, aqui vai a conversa, levemente reescrita.]

conversações são mercados e inovação precisa ser vendida. seres humanos têm que ser convencidos, por outros, dentro das empresas, casas, lojas e meios-de-ruas, a apostar em coisas cuja viabilidade não parece nem um pouco certa. a interação entre colaboradores, face-a-face ou através dos mais variados tipos de processos virtuais, é essencial para criar um entendimento -uma cultura preliminar- que aumente muito a possibilidade de transformar propostas de inovação em projetos inovadores.

e a conversa não para aqui. projetos inovadores normalmente têm especificações mais vagas do que as dadas a problemas clássicos, e por razões muito simples. nos últimos, sabemos o que estamos resolvendo; às vezes, até temos a liberdade de pensar “fora da caixa”, mas o problema -digamos- principal está estabelecido e não temos muito como fugir dele.

nos processos realmente inovadores, ao invés de pensar se [e n]o problema [que] está dentro ou fora da caixa, temos que repensar “a caixa” propriamente dita, o que certamente nos dará uma visão inteiramente nova do contexto. este novo mundo tem seus próprios problemas e o maior deles, talvez, é o entendimento comunitário de seus mais variados significados. sem muita conversa, e muitas vezes conversa focada, em torno de assuntos específicos e essenciais, às vezes conflituosos, não será possível desenrolar o projeto.

o “projeto” pode ser um novo produto. e a conversação pode dar em nada. quando a at&t [então a maior empresa de telecom do mundo] perguntou a uma das maiores empresas de consultoria do planeta [lá nos anos 70] se valia a pena entrar num negócio chamado telefonia celular, a resposta dos megaconsultores foi um sonoro não, pois a previsão de mercado [no longo prazo, 20, 30 anos] para celulares era cerca de 900.000 “linhas”.

o que é mais ou menos o que se vende em algumas horas, na terra, hoje. as vendas globais de celulares, em 2010, chegaram a 1.6 bilhões, bem mais de 4 milhões de telemóveis por dia. e a at&t, durante muito tempo, foi salva por ter sido escolhida por uma certa companhia [que nem era do "mercado de celulares"] para ter suas máquinas distribuídas exclusivamente para seus usuários.

o que faltou na conversa da at&t e estava presente na da apple? na primeira, faltou alguém perguntar “mesmo? e se…” ou  então “não acredito… porque não levamos em conta que as pessoas possam querer andar com um celular?…” e, na segunda, não só perguntas como estas foram feitas mas não se tratou só do lançamento de um “telefone”, mas de um ícone de design, um objeto de desejo, algo sobre o qual as pessoas conversam antes de ter, quando têm e mesmo porque não têm. é impossível não conversar sobre o iPhone. assim como sobre ferraris: uma delas capota na bélgica, é notícia no mundo inteiro. e não só porque é caro, mas porque uma ferrari –aliás todas as ferraris- não é um veículo, é uma conversação.

criar seu negócio [que tomara que seja inovador, de crescimento empreendedor] será uma conversação, por menos que ele inove.

mudá-lo, para inovar, será uma conversação. às vezes tensa, talvez longa, prazerosa aqui, irritada e irritante ali, mas uma demorada e continuada conversa com muitos interlocutores. e não poderia ser de outra forma, pois -voltando ao começo-, como mercados são conversações, realizadas dentro de, entre e por comunidades, você, candidato a inovador [ou simplesmente a montar uma pipoqueira na esquina] tem que participar da conversa, para estar na comunidade.

se -e só se- a conversa for uma criação sua, prática, convincente e capaz de mover mundos [e gentes], seu negócio, processo, produto ou serviço será verdadeiramente inovador. converse. convença. ou então prepare-se para ser conversado e convencido. e parte, talvez irrelevante, da conversa e rede de valor dos outros… e talvez do mercado. ou sem mercado.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

inovação é propósito

este post é mais um intervalo técnico para a série sobre educação empreendedora aqui do blog. antes deste texto, já foram publicados os "capítulos" 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15,16, 17, 18, 19, 20; depois, nenhum, ainda. simbora.

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[aviso aos navegantes: este texto é uma revisão de um outro, publicado neste link pelo autor em 2007; como o assunto está diretamente ligado ao texto de ontem aqui do blog, aqui vai a conversa, levemente reescrita.]

em 2005, a booz, allen & hamilton fez uma pesquisa pra descobrir o que os gastos em inovação das mil empresas que mais investem em pesquisa e desenvolvimento tinham a ver com seus resultados. a resposta, pouco surpreendente, é… nada. em suma, segundo um artigo de Nikos Mourkogiannis… …They found no significant correlation with any measures of corporate success. None. Not profits, not revenues, not growth or shareholder returns. In other words, the simple decision to invest in innovation is not enough. How you invest, and especially how innovation serves a larger purpose, determines the value of your investment.

derramar recursos em pesquisa e desenvolvimento, ou "ciência e tecnologia", como se costuma dizer na periferia, seja no âmbito das empresas ou de países ou estados, resulta em… nada. ou muito pouco. e em muito pouca geração e agregação de valor.

ampliando o foco, o brasil e gosta de comemorar o maior número de papers publicados, quase todos pelas universidades, onde residem nove entre cada 10 pesquisadores, como se paper fosse resultado. a aumentada relevância internacional da produção científica brasileira tem muito pouca importância na vida real dos negócios e na melhoria de sua competitividade. ao invés de festejar mais papers, talvez desse muito mais resultado planejar e induzir agendas de inovação, destinadas a mudar comportamento de produtores e consumidores de tecnologia, processos, produtos e modelos de negócio, no mercado, com ou sem papers e títulos acadêmicos a sustentá-los.

o gráfico abaixo mostra onde estamos hoje, investindo tanto quanto a rússia, como porcentagem do PIB, mas com menos de 1/5 dos pesquisadores per capita deles. também investimos tanto quanto itália e espanha. não é pouco dinheiro não. olhe onde estão china e índia, os outros dois BRICs. a china já é o segundo maior investidor global. e observe israel, taiwan e coréia do sul: nestes tres, as agendas de investimento em pesquisa e desenvolvimento são bem mais direcionadas por esforços de inovação, com os resultados que conhecemos no mercado mundial, inclusive aqui.

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é claro que ninguém pode nem está a desmerecer o papel dos mecanismos de geração de conhecimento para o avanço da humanidade, direcionados pela necessidade individual e coletiva de saber mais sobre tudo ao nosso redor. mas -desde sempre- os recursos para se fazer qualquer coisa são limitados, ainda mais por aqui e, em tempos de ajuste de contas, em qualquer lugar. mourkogiannis, por essa e outras razões, é ferrenho defensor da busca do propósito no esforço de inovação, o que deveria ser feito no topo dos espaços mentais [conversações... veja o autor tem a dizer sobre o assunto aqui] classicamente considerados na inovação.

inovação envolve pelo menos três entendimentos: das tecnologias [e processos, métodos...], dos consumidores [existentes ou potenciais] e da competição [idem]. mas combinar tecnologias inovadoras, descobrir universos de consumidores e enfrentar a competição pode resultar em… nada. se não houver propósito. masaru ibuka, ao fundar a Sony, tinha idéias muito claras sobre o propósito de seu futuro negócio: “…to establish a place of work where engineers can feel the joy of technological innovation, be aware of their mission to society and work to their heart’s content”. o propósito da sony, claro, é a descoberta… o que fez a companhia ter ganhos reais de 10%a.a. entre 1967 e 1999.

segundo mourkogiannis, os propósitos podem ser classificados em quatro categorias: descoberta [como na sony], altruísmo [como no wal-mart, preços baixos para todos], excelência [berkshire hathaway, de warren buffet, desde o princípio comprometido a construir a melhor rede de investimentos do planeta] e heroísmo [dos primórdios da ford, cujo propósito era democratizar o acesso ao automóvel].

ter propósito não significa, por si só, maior possibilidade de obter resultados. propósitos individuais ou parcialmente compartilhados pela comunidade que se busca atingir [sua empresa, seus sócios fundadores ou, no caso de políticas públicas, todos os parceiros em todos os setores] pode inclusive aumentar a chance de fracasso de práticas [nas empresas] e políticas [no setor público] de inovação. o ponto de partida de qualquer processo, proposta ou política de inovação é combinar, com tantos quantos forem os possíveis atores, o que se quer atingir e fazê-lo de forma dinâmica, interativa e continuada. pois o mundo muda e muda muito rápido.

falando de propósito e de políticas de inovação no setor público, é preciso, quase que necessariamente combinar as quatro vertentes de mourkogiannis: o planejador [público] de inovação pública tem que estar dotado dos propósitos de heroísmo [para mudar o mundo ao seu redor], altruísmo [para estar pensando no bem comum], excelência [para fazer nada menos do que o melhor para sua comunidade] e descoberta [para promover verdadeiros avanços nas empresas e entidades sob seu cuidado]. sem descuidar, claro, de nenhum dos quadrantes da figura abaixo… discutida neste link.

Visão Integral para o seu propósito na vida.

por isso que o trabalho e difícil, pra não dizer quase impossível, pois tudo isso é para se ter e ser feito ao mesmo tempo. principalmente em lugares que estão quase sempre perdendo as janelas da história como o brasil. no meu entender, é algo que só pode ser feito por alguém que se divirta, de maneira fundamental, com as dificuldades do encargo e que esteja [e seja] desprovido de qualquer tipo de preconceito contra quem ou o que quer que seja. o mesmo, por sinal, vale para quem quiser viver pensando em inovação nas empresas.

noutra hora, discutiremos como propósito pode ser uma alavanca essencial para seu negócio, startup ou vida pessoal fazer sentido e ter uma chance bem maior de sucesso. o que não tem nada a ver, por sinal, com fluxo de caixa e outras medidas cartesianas usadas nos negócios "comuns", que não inovam… e que –por isso mesmo- não vão sobreviver.

[para ler o paper de nikos mourkogiannis na íntegra, pegue o .pdf aqui.]

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