Terra Magazine

segunda-feira, 30 de maio de 2011

e-gov: os problemas e o tamanho da oportunidade

o tribunal de contas da união informa: “há uma total ausência de comprometimento dos altos escalões com a área [de tecnologias de informação e comunicação do governo federal]”. o TCU vem analisando a infraestrutura e sistemas de informação de governo, sob várias perspectivas, desde 2007, de uma forma sistemática. mas o interesse do tribunal de contas e sua influência sobre os negócios federais de informática vem de longe, como mostra o gráfico abaixo.

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a imagem acima vem de uma apresentação do ministro aroldo cedraz no dia 26 de maio pp., e aponta um aumento de 15 vezes no número de decisões do TCU sobre “contratações de TI” em um período de 15 anos. isso é muito e dá uma idéia da importância que o tribunal credita às tecnologias de informação e comunicação e suas aplicações na gestão e nos serviços públicos.

para entender a quantas anda a governança dos sistemas públicos de TICs e aplicações, vá ver os slides da apresentação do ministro cedraz, onde se aponta os dez órgãos de governança superior que deveriam dar conta da política, estratégia, planejamento e operações de TICs na gestão pública e nas estatais.

com tantas deliberações e órgãos para dar conta da TI federal, como anda o estado da arte da informática nas instituições federais? veja o slide abaixo, que reporta a pesquisa feita pelo TCU com 300 órgãos públicos em 2010 e tire suas próprias conclusões…

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que tal ler, detalhando um pouco mais, a imagem acima?… mais da metade das instituições públicas faz software de forma amadorística; mais de 60% não tem [na prática] política e estratégia para sua informática e segurança de informação; 74% não têm nem mesmo as bases de um processo de gestão de ciclo de vida de informação; por conseguinte, há informação que detêm e não sabem e outras que não, mas que acham que sim, está em algum lugar, só não pode ser encontrada “agora”. um dia, quem sabe?…

e tem mais: 75% não gerencia incidentes de segurança de informação, como invasão de sites e sistemas e perdas ou [pior?] alteração de dados; 83% não faz ideia dos riscos a que a informação sob sua responsabilidade está sujeita, quase 90% não classifica informação para o negócio, o que significa que a instituição está sob provável e permanente caos informacional e quase 100% não tem um plano de continuidade de negócio em vigor. ‘

o que quer dizer que se o lugar for atingido por uma pane elétirca grave, enchente, raio, incêndio… a comunidade alvo dos serviços do órgão pode ficar semanas sem ser atendida e pode haver descontinuidades muito graves do ponto de vista da história da informação no [e para o] governo e os serviços públicos.

se informação e informática são tão importantes para empresas, governo e sociedade, porque estamos neste estado de coisas no governo federal? a pesquisa do TCU dá uma boa idéia das razões…

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mais da metade de quem manda no lugar não se responsabiliza pelas políticas de TI, o que quer dizer, na prática, que “não estão nem aí” para o que estiver sendo feito ou acontecendo; quase metade não designou um comitê de gestão para TI, quase 60% dos altos gestores das organizações não estabeleceu objetivos de gestão e uso para a área de TI e, finalmente, 76% não estabeleceu indicadores de desempenho para a área.

observado deste ponto de vista, os resultados do slide anterior não surpreendem, não é mesmo?…

neste contexto, há razões para ser otimista? pode não parecer, mas há. a secretaria de fiscalização de tecnologia da informação do TCU está trabalhando em conjunto com muita gente para criar e manter políticas de sistemas e informação nos órgãos federais. e isso quer dizer operar o presente de forma eficaz, eficiente e segura e criar o futuro ao mesmo tempo. não estamos falando de uma área que evolui lentamente ou que tem pouca demanda interna e externa. a tendência, no governo, tem sido a de informatização do caos, coisa que este blog apontou neste texto e comentou neste áudio, na CBN.

como os dados da SEFTI/TCU mostram, estamos muito longe do ideal. neste momento, isso é uma grande oportunidade, pois as infraestruturas e sistemas de informação estão mudando de forma radical.

todos governos mundiais estão planejando, iniciando e operando federações de infra e serviços [a tal “nuvem”, veja mais aqui] que vai mudar a visão de mundo da informática pública [city of orlando CIO: “I want to get out of the server business and into the services business.”], gerando economias de escala antes inimagináveis, como a redução do custo operacional total das infraestruturas de informação federais em 2/3 ou mais.

nos EUA, o governo obama criou o posto de CIO –chief information officer- federal, responsável por pensar, planejar, orientar, articular toda a estratégia e operações federais de TICs e suas aplicações. até abril passado, só em 2011 o CIO vivek kundra havia fechado 39 data centers, dos 137 que fechará este ano. até 2015, 800 dos atuais 2094 data centers federais deixarão de funcionar.

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tais centros não estão sendo fechados porque é “moda”, mas porque novas formas de coletar, processar, conectar, compartilhar e preservar dados estão disponíveis e permitem, através de seu uso criativo e inovador, realizar muito mais com muito menos, em termos de investimento em informática e sistemas de informação em rede.

há uma “nova” forma de fazer informática, baseada em “máquinas sociais”, sistemas programados e programáveis em rede, conectados e integrados pela rede. na verdade, a idéia não é nem tão nova assim: olhe aqui o que este blog escreveu sobre “informaticidade” na revista CIO em 2006 e veja aqui uma revisão de 2008 sobre o mesmo assunto.

as oportunidades de simplificação de infraestrutura e ganhos de escala nos sistemas de informação e seu desenvolvimento, manutenção e evolução. criadas por infraestrutura e software como serviço, na nuvem, deveriam ser combinadas com a necessidade de mais e melhor governança apontadas pelo TCU para abrir um amplo espaço de criatividade, inovação, operação e gestão na informática pública brasileira.

e isso pode ter pouco a ver com fazer cada órgão da informática pública federal cumprir o caderno de determinações do TCU na “sua” informática, mas começar a fazer com que uma verdadeira “rede” de infra, sistemas e serviços federais seja formada a partir dos órgão mais competentes, mais determinados e mais abertos a realizar um papel bem maior e acima do que dar conta, simplesmente, do seu quintal.

as economias de escala e a simplificação dos processos, inclusive os de controle, são óbvios. a dificuldade de implementar tal estratégia em um país como o nosso também é óbvia. seria mais fácil primeiro levar todo mundo a um nível mínimo de proficiência e, depois, fazer um processo de seleção não natural. mas esta seria a forma certa, também, de perdermos esta década fazendo o que os outros países fizeram na década passada.

com tanto poder e capacidade de articulação e alinhamento à disposição do TCU, bem que o tribunal poderia agitar o cenário um pouco mais e fazer com que as “TICs” federais gastassem bem menos e fizessem bem mais nesta década, evitando a duplicação de sistemas e equipes e, ainda por cima, um aumento significativo da informatização do caos.

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

o tamanho e o potencial da internet na economia

Tags:, , , , , , , - srlm às 08:08

esta semana aconteceu em paris o e-G8, encontro da galera que acha que manda no mundo pra discutir -na opinião de muitos, minha inclusive- como mandar na internet. sarkozy bateu o centro dizendo que "a internet era um território virgem, a ser conquistado"… e @jpbarlow, um dos fundadores da EFF, detonou de cara, no twitter: "e eu estou aqui justamente para impedir que isso aconteça". e depois foi dizer isso e muito mais em um painel sobre propriedade intelectual na rede. @lessig talvez tenha ido ainda mais longe, dizendo que "o futuro não foi convidado" para o e-G8. que aí se tornava uma reunião dos donos do mundo para continuar dominando o mundo.

em qual destes contextos [sarkozy+... ou barlow+...] o brasil seria, como o blog apontou no último texto, um e-leader global? tomara que estejamos lutando pelo cenário onde a rede está mais sendo construída, de forma paulatina, iterativa e experimental, do que sendo regulada, de forma quase sempre truculenta e burra, por desejos como o do presidente da frança que, neste tema em particular, tem seguidores a rodo ao sul do equador.

mas não adianta só torcer. tem que fazer o dever de casa. que tal a gente dar uma olhada nos dados que a mcKinsey apresentou no primeiro dia do eG8 [e que eu comento em áudio, na CBN, neste link]?

pra começar, o brasil foi incluído no estudo, o que é raro. a mcK considerou os BRIC [brasil, rússia, índia e china] e nove outros países. na soma destas economias, a internet já responde por 3.4% do PIB, como mostra a figura abaixo.

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como o mundo está atrasado em relação aos principais países, estima-se que a contribuição da internet ao PIB global seja de 2.9%. entre 2004 e 2009, a internet respondeu por 21% do crescimento do PIB do dos países onde a rede já está bem estabelecida…

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…e, nos países que estão atrasados, como nós, a contribuição foi evidentemente menor…

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…e no nosso particular caso, a rede representou meros 2% do crescimento do PIB na meia década entre 2004 e 2009.

por que? ora, veja o gráfico abaixo…

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…não é o que se espera de um candidato a e-leader global, não é? neste conjunto de países, somos penúltimos em capital financeiro e ambiente de negócios e os piores em capital humano e infraestrutura.

e aí fazemos o que? desistimos? não. precisamos entender que estamos diante de uma grande oportunidade e que, se acertarmos o passo, podemos usar a rede para muito mais do que conectar pessoas. porque o efeito colateral disso, se olharmos para o futuro, é um ecossistema muito mais rico para todos, de governo a indivíduos, passando por empresas e instituições de todos os tipos. mas a mudança é de grande porte: veja de onde vem a renda, na economia da rede, olhando para a economia dos países considerados…

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…no brasil, rússia e itália, 100% das 250 maiores empresas consideradas no estudo [que neste ponto é discutível...] são de telecom. nada de hardware, internet ou software e serviços. china e coréia detonam em hardware e estados unidos e índia em software. nós, em telecom. neste setor, qual é a capacidade de geração de novos negócios inovadores de crescimento empreendedor? perto de zero: em telecom, tanto quanto em toda a economia de rede do brasil, não há qualquer empresa brasileira de classe mundial ou alcance global.

por que é que a gente deveria mexer neste cenário? olhe a imagem abaixo…

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…que nos diz que países que têm um ecossistema de fornecedores de internet de classe global têm uma contribuição da internet ao PIB local muito maior do que os que são meros consumidores. óbvio, não é? sim… e para quem participa das discussões sobre o assunto, no brasil, é óbvio desde 1991, por ali, uns vinte anos atrás, quando o brasil começou a pensar nisso.

a diferença entre nós e os indianos [aqui, o PIB de internet é 1.5% do total; lá, 3.2%...] é que eles fizeram algumas coisas e se tornaram uma potência global de software. nós, não.

ainda dá tempo, você perguntaria? sim, dá. a dinâmica de inovação na rede é tão rápida que a gente sempre vai estar atrasado –e muito- se tentar seguir alguma tendência "atual", como muita gente aqui está sempre fazendo. uma delas, já se disse aqui no blog, é criar "mais um site de compras coletivas" para competir com os quinhentos ou mais que já estão por aí.

mas há esperança. mesmo quando os grandes temas nacionais da área são a fábrica da foxconn, a licitação 2/2010 do PNBL, de infraestrutura para a "bandinha" do brasil, para a qual uma "avaliação conservadora" do TCU diz que o "sobrepreço" foi de R$53,6 MILHÕES e quando há uma proposta que parece com uma reserva de mercado para fornecimento ao setor de telecom [no blog, neste link] sendo discutida lá na anatel, ainda há esperança.

aqui, a esperança é a última que morre. não deve ser à toa que a JWT temperou sua esperança no brasil como e-leader mundial com uma imagem do cristo redentor…

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

a e-vez do brasil: será?

este blog já disse várias vezes que é sempre muito mais fácil imaginar e criar o futuro do que prever o que vai acontecer nos próximos anos. ainda mais quando o assunto envolve tecnologia e suas consequências, o que passa comportamento das pessoas, das comunidades, das empresas.

a JWT, uma das maiores agências de propaganda do planeta, não está no negócio de fazer previsões, mas de criar o ambiente para que empresas, marcas, produtos e serviços se encontrem, no mercado, com clientes e consumidores. fazer isso passa por criar comportamentos, o que pode sair muito caro. mas também passa por identificar situações, problemas, casos e comportamentos emergentes e, descoberta uma onda que ainda não tem uma "crowd" tentando pegar… chegar lá antes do resto, ou da maioria, e ganhar os benefícios disso.

todo ano a JWT publica uma lista de 100 coisas nas quais a gente deveria "prestar atenção", para entender e atender o mundo. o mercado, a gente sabe, são as interações entre fornecedores e consumidores, de qualquer coisa e interações são entendimentos transformados em atendimento. claro que nenhuma lista é absoluta ou definitiva. e óbvio que há listas e listas e uma delas, minha ou sua, vai ter muito menos impacto do que a da JWT. aliás, a 13a. das 100 coisas que eles nos dizem para prestar atenção é…

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…o brasil liderando os comportamentos e mercados digitais. e não é só chute, pois eles partem de coisas como a maior penetração planetária de twitter [23%, aqui], nossa ligação com celulares e a propensão a aceitar e promover negócios e serviços digitais. certas horas, olhando para dados e fatos da e-conomia brasileira, a gente desconfia que o brasil até que tem um futuro digital, mas ele talvez não seja tão rico num futuro tão próximo como a JWT quer mostrar.

mas a lista não é só de e-coisas, mas de coisas de todos os tipos e o pessoal da JWT brasil deve ter "vendido" as coisas da pátria amada muito bem, porque a 15a. "thing to watch" da JWT global é…

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…aquela delícia para todas as idades que, se não rolar em aniversário, é porque o aniversário não rolou. e você diria: será que eu devo levar a sério uma lista que mistura liderança no cenário e economia digital com um docinho que pode se tornar tendência global? sim, por que não? e se alguém já houver descoberto isso antes da JWT e estiver pronto para se tornar o JBS/FRIBOI dos brigadeiros, olho de sogra, bem casados e quetais?… isso pode criar um líder no mercado mundial de doce. e bilhões de dólares do lado certo da balança comercial não nos ia fazer mal, principalmente agora.

claro que nem tudo que está na lista pega do mesmo jeito para todo mundo. veja o que aconteceu esta semana na câmara e olhe para esta tendência da JWT…

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…parece que os parlamentares brasileiros não estão muito ligados no futuro da humanidade ou do planeta, não é?…

vá ver a lista. tem coisa muito interessante lá, inclusive sobre o universo e a economia digitais, das quais vamos falar aqui no blog alguma hora. e há duas "tendências" brasileiras que já sabemos, há tempos, que são apostas certas: neymar e pedro lourenço. há muito mais potencial, em muito mais áreas, também sabemos disso. mas potencial não realizado não é mercado, não move montanhas de interesse e dinheiro.

sobre a e-vez do brasil… a gente discute os detalhes no próximo texto deste blog. antes de chegar lá, o que você acha? levamos jeito de liderar o que, pra quem, com que e como e ganhando quanto nos mercados digitais mundiais? ou só vamos "liderar" a nós próprios? neste caso, neste tipo de mercado que é quase sempre global, será que é possível vencer aqui sem ser global? ou sem, que seja, ter "classe global"?

perguntas, perguntas…

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

cidades digitais: inovadoras?

curitiba sediou semana passada a CICI2011, a conferência internacional de cidades inovadoras. com tantos problemas a resolver em cidades de todos os tamanhos e em todas as geografias, o assunto desperta interesses e paixões, atrai pensadores e realizadores de todos os tipos de competências.

parte essencial da discussão do que fazer é o debate sobre as causas da situação atual das cidades, especialmente das regiões metropolitanas e megalópolis. e uma das potenciais fontes de soluções inovadoras para os problemas das grandes cidades é a informática, as soluções que envolvem a combinação de um ou mais de seus três eixos fundamentais, computação, comunicação e controle.

e não há solução simples, por sinal. como nós estamos vendo nas grandes cidades brasileiras, de são paulo a recife, passando por todas as outras, só o problema de mobilidade já é um desafio quase irresolvível. enchentes e alagamentos anuais, então, estão se tornando a norma e não mais a exceção. dia destes ouvi alguém propor que o verão do sudeste deveria ser renomeado para a estação das monções, tal a semelhança com o regime de chuvas que costumávamos associar apenas à ásia.

claro que não chegamos na situação onde estamos por acaso. um certo "design", deliberado ou emergente, nos trouxe aos estados aparentemente caóticos em que estamos, resultado de ações e omissões dos gestores urbanos, por décadas, séculos a fio.

assumindo que seja inviável [pelas mais variadas razões] recomeçar do zero uma cidade inteira como recife ou são paulo, e partindo do princípio de que vamos fazer algumas coisas para tentar resolver várias das classes de problemas que atanazam os moradores das grandes cidades, o problema seguinte passa a ser o que e como fazer. porque o quando era anteontem.

aí é onde entra o "digital". interpretado de forma estreita, o conceito de "cidade digital" implica na integração de serviços públicos [destinados à cidadania] e acesso em banda larga, para todos e em toda a cidade, aos mesmos e à rede. como nesta reportagem aqui, de um ano atrás, onde se diz que o país terá quase 10% de suas cidades "digitalizadas" até 2014, o ano em que tudo vai acontecer por aqui. ou, por outro lado, nada.

mas isso é muito pouco quando consideramos a cidade como um todo, principalmente as grandes e seus problemas. pra começar, será que não poderíamos dar um tratamento "digital" ao megaproblema da imobilidade urbana? gastamos cada vez mais tempo indo de um ponto a outro da cidade, quase sempre de onde moramos para onde trabalhamos ou onde estamos indo encontrar pessoas. e as tentativas de resolver tal problema com mais pistas nas ruas e mais viadutos sobre as pistas têm tido um grau de sucesso muito baixo.

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a [i]mobilidade urbana foi discutida no dia das cidades digitais no CICI2011 e o blog participou do debate usando os slides que estão neste link. minha visão pode ser resumida em torno de como tratamos os…

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…que é meu resumo predileto da trilogia de castells sobre a era das redes e da informação, que se aplica tanto à sociedade como um todo quanto à cidade em particular, como as cores das letras da última palavra do slide acima deixam transparecer.

olhando a cidade como uma rede e, nela, seus atores [pessoas e coisas, como carros, motos, ruas, sinais de trânsito, rios e canais, bancas de revistas...] como podemos redesenhar as trocas e interações de tal forma que o espaço urbano seja usado de forma mais eficaz e eficiente?

vá dar uma olhada lá nos meus slides. claro que as formas são muitas, tantas quanto a diversidade de posições contra e a favor de qualquer uma delas. mas o certo é que, transformando a cidade em uma verdadeira rede, intensamente informatizada, podemos pensar em diminuir radicalmente a necessidade de trocas e interações físicas, que exigem [por exemplo] mobilidade urbana de longo curso, como atravessar a cidade inteira para trabalhar.

redesenhando a cidade como uma rede –em todos os sentidos e não só do ponto de vista de acesso aos serviços públicos e à internet-, poderíamos pensar no estabelecimento de workCenters altamente conectados, pontos de articulação concreta e virtual da grande rede urbana e seus fluxos. isso seria um reuso da idéia e implementação de shopping centers distribuídos pela cidade, lugares de trabalho mais próximos para que as pessoas se movam muito menos para trabalhar, coisa que quase todos os adultos fazem, quase todos os dias, quase sempre muito longe de sua moradia.

workCenters poderiam ser núcleos e nós de articulação de uma grande rede social urbana [ao invés de um sistema operacional urbano], parte da infraestrutura que poderia transformar a cidade num conjunto de…

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…ao invés dos poucos centros que atraem, hoje, tanto fluxo e causam, por sua vez, tanto tráfego.

redesenhando a cidade como uma grande rede de comunidades distribuídas e altamente conectadas, inclusive internamente às comunidades, deveria ser possível trocar parte substancial do fluxo concreto de pessoas e coisas por fluxos abstratos, de castells, virtuais. o impacto sobre a mobilidade, só pra citar um dos itens mais afetados, seria gigantesco. poderíamos ir tão longe quanto preciso fosse, nos afastando de casa apenas o suficiente para que tivéssemos acesso a workCenters de classe mundial em nossa vizinhança.

claro que há muitas considerações a fazer e o assunto é muito complexo. e só estamos dando uma pincelada no grande quadro dos problemas urbanos e suas soluções. e nem estamos falando de automação urbana em grande escala, como seria o caso de tratar chuvas, enchentes, manifestações e ordenação do tráfego.

deixando estas preocupações como pano de fundo, pense… e se sua [grande] cidade começasse a ter infraestruturas de comunicação digital de classe mundial, da mesma forma que quer ter [e algumas têm] viadutos e pontes monumentais, marcos do caos urbano? e se sua cidade tivesse IPTU positivo e negativo? prédios que resolvessem grandes problemas urbanos poderiam receber da cidade por isso, ao invés de pagar.

workCenters estariam nessa classe: perto de sua casa, pequenos, médios e grandes centros de trabalho onde você [ao invés de trabalhar sozinho em casa, coisa que nem todos conseguem] estaria em grupo, talvez com dezenas de pessoas do seu próprio trabalho, sem ter que "ir até lá", aquele lá longe, que hoje lhe faz perder [em são paulo...] quatro horas de sua vida, por dia, no trânsito.

se todos fôssemos, na cidade, mais locais e, ao mesmo tempo, mais globalmente conectados, seríamos mais glocais e talvez, ao contrário da grande cidade atual, onde…

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…porque eu raramente estou lá, nossa maior localidade física talvez nos fizesse prestar mais atenção e cuidar muito mais da nossa vizinhança, lugar que se torna muito mais interessante quando é, de verdade, uma comunidade.

para serem inovadoras e tratar alguns dos problemas profundos e reais de cidades de todos os portes, as iniciativas de cidades digitais terão que passar, e muito, da conectividade básica e do acesso aos serviços públicos.

a infraestrutura e serviços de informação que começa a ser tão essencial à cidade como água, esgoto e eletricidade tem que se tornar, e agora, uma preocupação essencial da cidade, seus gestores, seus moradores.

a cidade tem que ser vista por todos como uma rede, como um sistema social, emergente, em modo beta perpétuo, resultado das interações de uma rede de comunidades distribuídas, altamente conectadas, em evolução permanente. porque assim é a vida, das cidades inclusive.

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

debate na anatel: mercado e inovação em telecom

Tags:, , , , , - srlm às 11:31

o brasil está numa encruzilhada do tamanho do país e da nossa economia: perdemos muita competitividade nos últimos tempos, especialmente em setores industriais e de serviços mais sofisticados, como em hardware e software. no último índice de competitividade global, publicado pela IMD, caímos quatro posições em um ano e agora estamos em quadragésimo quarto lugar entre os 59 países analisados, considerando 331 critérios. o índice da IMD existe desde 1989 e nossa posição relativa é mostrada na tabela abaixo

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as causas principais da nossa baixa competitividade são conhecidas: baixa produtividade, déficit educacional [em quantidade e, quando temos esta, em qualidade], complexidade social [a burocracia estatal aí incluída], alta carga tributária, má qualidade da infraestrutura e, agora, nosso alto custo de vida. aliás, anda mais barato contratar engenheiros de software em portugal e espanha [note que não estamos falando de índia e china] do que no brasil.

segundo carlos arruda, da fundação dom cabral, mesmo quando o brasil aparece bem no índice de competitividade, como na geração de empregos, temos problemas graves:

"…os empregos gerados são em setores de baixa agregação de valor, que vão gerar pouco em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). E os investimentos que entraram foram para fazer oferta ao mercado doméstico ou para ganhos financeiros, não em infraestrutura ou indústria de alto valor".

não é surpreendente, pois, com a maioria dos investimentos destinados a suprir o mercado doméstico, a comparação mostrada em um dos meus slides no debate da anatel sobre pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor de telecom, regulado pela agência…

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a equação na parte de baixo do slide quer dizer que, em 2010, nosso déficit da balança comercial de eletrônica foi 2,7 vezes maior que o superávit da soja. e deve ser notado que não conseguimos exportar mais soja do que já exportamos por diversas razões, uma delas os limites do mercado mundial.

também não há nenhuma surpresa quando olhamos para nossa posição nos variados índices de qualidade no quesito infraestrutura, como mostrado na tabela abaixo, do global competitiveness report do fórum econômico mundial, onde o brasil caiu menos do que no índice da IMD: apenas duas posições, da 56 para a 58. em infraestrutura, estamos lá no 62o. lugar.

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o que a tabela mostra é o que sabemos, há tempos. nossos aeroportos são muito ruins, as estradas são horríveis, os portos são ainda piores, quase no fim do mundo. como queremos exportar mais, mesmo commodities, se estamos entre os 10% piores na qualidade dos portos?…

numa lista de 139 países considerados pelo WEF, estamos no grupo do meio, o dos emergentes, ou dos países movidos a "eficiência", o que não parece ser o caso por aqui. olhe o gráfico abaixo: tirante o tamanho do mercado [que atrai os tais investimentos para supri-lo...] e a sofisticação dos negócios [que não têm outra alternativa, num ambiente tão complexo como o nosso...] estamos muito perto da média do nosso grupo ou mesmo abaixo dela [como é o caso do ambiente macroeconômico].

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perguntados, os empresários responderam que os principais impeditivos para se fazer negócios no brasil são…

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…o que também não é nenhuma surpresa. não é preciso ser empresário ou investidor para entender que a combinação dos cinco primeiros itens acima com todas as outras deficiências estruturais que o relatório do WEF aponta é capaz de afastar qualquer um que não esteja no negócio de atender o grande mercado brasileiro.

resultado? somos pouco competitivos internacionalmente, isso já sabemos. mas se olharmos de perto o setor de telecom –ou qualquer outro, regulado- deveríamos fazer o que? sabemos que o contexto maior vai mudar pouco. há décadas que se fala de uma reforma fiscal e não se faz nada. há décadas que se fala de juros altos, mas ninguém esteve ou está disposto a levar a sério o descontrole dos gastos públicos. e por aí vai.

o problema na balança comercial em eletroeletrônicos é gravíssimo, mas é apenas a febre de uma doença interior muito mais grave. como a doença é complexa e muito difícil de combater, todo mundo parte para atacar a febre. no caso da anatel, a agência vai realizar uma consulta pública sobre o [lá dos meus slides]…

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…das teles. a idéia geral é dar algum tipo de preferência, na compra de infraestrutura das operadoras reguladas pela anatel, a produtos feitos no brasil, sem que isso configure uma [nova] reserva de mercado. todo mundo poderia comprar o que quisesse mas quem comprasse "made in brasil" ganharia pontos em um índice da anatel, que poderia vir a ser usado de várias formas, inclusive na avaliação de cumprimento de metas e renovação de concessões.

não deixa de ser uma boa idéia para minorar a febre. mas fica muito longe do que precisa ser feito para resolver a doença da balança comercial, que pode se tornar fatal se não for tratada na raiz. e, no caso de telecom ou do setor de produtos de ou intensivos em informática, o que fazem os países cujas empresas dominam o mercado, nacional e internacional?

bem… por lá, eles tratam de [dos meus slides, de novo]…

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…ou seja: ao invés de tratar pura e simplesmente a febre comercial, o que pode custar caro do ponto de vista de relações internacionais, cuida-se da doença como um todo. como? imagina-se e desenha-se o futuro e se encomenda das empresas [teles e fornecedores], instituições de inovação e universidades, aliadas a investidores, o tal futuro. em que horizonte? em cinco, sete, dez, quinze anos. por que? porque focar no passado da inovação, criando condições para nós, que não somos competitivos internacionalmente, atendermos nosso mercado agora, leva a uma situação que nos levará a repetir este processo a cada crise no futuro, próximo e distante.

o mercado brasileiro de telecom é muito grande. e é um grande atrator de fornecedores globais. mas nossa capacidade inovadora, de investimento e empreendimento são menores do que o que deveríamos ter para sermos, também, fornecedores globais. para tratar os problemas causados pela combinação de um grande mercado com a baixa capacidade inovadora, de investimento e empreendimento, temos que pensar além do mercado e além do tempo curto dos governos, mandatos e resultados imediatos.

sem um conjunto de visões, estratégias, planos e projetos inovadores que aliem os interesses e o mercado nacionais à construção de uma capacidade de entrega competitiva global, a partir do brasil, com uma densidade razoável de competências e conteúdos nacionais [e não só fabricação local, como parece que vai ser o caso da foxconn, a nova "salvação da lavoura"...], além de investimento e empreendedorismo brasileiros de classe mundial… vamos revisitar este problema da balança comercial a cada grande crise e, vez após vez, discutir as mesmas coisas que vimos discutindo há décadas.

mas talvez tratar a só a febre tenha uma consequência ainda pior: por sabermos que estaremos apenas respondendo perguntas e não resolvendo os problemas reais que temos que resolver para nos tornarmos mais competitivos, não vamos fazer, de verdade e a fundo, o que teríamos que fazer para dar conta da doença e só vamos baixar a febre. e só um pouco, por sinal…

pra terminar, olhe a imagem abaixo. segundo o WEF, estamos nos países do meio. este texto fala de inovação, coisa dos países do topo. mas pense, olhando para a figura, no número de problemas que não resolvemos mesmo entre os requisitos básicos dos países em desenvolvimento…

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a decisão de tratar o problema de inovação no setor de telecom pela via grandes problemas nacionais de classe [e mercado] global e encomendas estratégicas para resolvê-los não é fácil. é mais fácil tentar ordenar [tomara que não seja tutelar...] o poder de compra do setor privado ou estatal. mas a diferença fundamental entre as duas opções é que a primeira tem alguma chance de resolver o problema e a segunda, quase nenhuma.

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terça-feira, 17 de maio de 2011

uma inovação radical: dinheiro, entre pares

dinheiro, você sabe, é um virtual. a moeda de um país e a quantidade dela em sua conta define o que você pode comprar. se os desejos valem menos do que você tem, sobra-lhe crédito. se são mais do que sua capacidade de pagamento, ou você não compra ou cria um débito, seja com cartões de crédito, financeiras, amigos, uma caderneta de fiado na padaria… algum registro de que você comprou algo pelo qual não podia pagar na hora e ficou de pagar depois.

uma das coisas que define um governo é a capacidade de emitir moeda e controlar seu suprimento dentro de sua área de ação. a regulação dos meios de pagamento é uma preocupação essencial dos governos contemporâneos e interferir neste processo é tratado, independentemente do lugar, como crime federal dos mais graves. pra você ter idéia da seriedade da coisa, se você receber moeda falsa [sem saber], descobrir que a tem e retorná-la à circulação, sua pena pode variar de seis meses a dois anos.

daí o cuidado quase paranóico que se tem com os processos de fabricação e distribuição de papel moeda, como mostra a imagem abaixo, da nossa nota de cem reais.

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mas e se… nós nos articulássemos em rede e, em conjunto –na verdade, entre pares, muitos pares-, resolvêssemos emitir nossa própria moeda e os sistemas de transação e controles que regulariam seu uso nos mercados globais, passando a dispensar bancos, cartões de crédito, sistemas de transações… governos, em suma, de tudo o que está, hoje, associado à noção de remuneração, dinheiro, compra e pagamento?

estaríamos falando de uma inovação absolutamente radical, talvez a maior desde o templo de hera? ou de um crime contra a economia internacional, cujos autores seriam perseguidos aqui e algures pela interpol?…

isso é o que veremos em breve. aqui entra em cena a galera de bitcoin.org, responsáveis por criar uma moeda radicalmente virtual e distribuída, descrita por satoshi nakamoto neste link.

o que é bitcoin, uma moeda feita de/em bits?…

We define an electronic coin as a chain of digital signatures.  Each owner transfers the coin to the next by digitally signing a hash of the previous transaction and the public key of the next owner and adding these to the end of the coin.  A payee can verify the signatures to verify the chain of ownership.

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complicou?… a definição diz que uma moeda eletrônica é uma cadeia de assinaturas digitais. se a assinatura original é válida e representa um certo valor de troca, a sequência de assinaturas daí para a frente, caso seja igualmente válida, diz que o "dinheiro" é válido para a transação corrente.

note que este é exatamente o caso do "dinheiro" que carregamos. você me dá R$20, eu assumo que é uma nota válida, emitida [assinada] pelo banco central, representando o poder de compra equivalente ao que R$20 vale no mercado, e passo para a frente "pelo valor que comprei"… e por aí vai. só que, no caso das notas atuais, elas são físicas, recisam de uma casa da moeda e tal.

passando a emitir nossa própria moeda verdadeiramente virtual, de forma segura, não identificada e distribuída, na prática, tiramos de cena os governos, os cartões e… o banco central, que não há de gostar nem um pouco deste assunto. jason calacanis descreve o cenário atual de bitcoin neste texto, apostando que governos e bancos centrais vão proibir bitcoins dentro dos próximos 12 a 24 meses, porque o projeto seria "o mais perigoso que ele já viu". ainda por cima, ele diz também que este é o projeto de software aberto mais perigoso já concebido e em andamento.

mas por que? bem, veja o vídeo abaixo…

… porque você se junta com uma galera, para criar uma moeda, que é "minerada" computacionalmente, criada de forma previsível e limitada [só vinte um milhões de unidades até 2140], armazenada numa carteira digital sob seu controle. e vocês transferem valores entre si, de forma que não pode ser observada por terceiros… inclusive pelos tais governos, bancos centrais e sistemas de coleta de impostos de todos os tipos, como a receita federal.

o sistema todo é feito em código aberto e pode ser verificado por qualquer um que entenda a complexidade do processo. em tese, não é possível falsificar bitcoins, a não ser a custos computacionais que excedem, em muito, o valor da moeda nos mercados internacionais. aliás. cada bitcoin vale quase oito dólares, hoje, talvez resultado do artigo de calacanis.

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e quem aceita bitcoins, você perguntaria?… t’aqui a lista, que tem dezenas de lojas de muitos cenários de negócios, principalmente de bens digitais e online. e já há, inclusive, casas de câmbio, onde se pode inclusive trocar bitcoins por linden dollars [lembra da moeda de second life?] e, dela, por euros ou dólares. ou seja, a coisa já tem convertibilidade universal.

mas há um mais de um senão. além dos bancos centrais, que deverão se sentir desafiados por esta nova capacidade de emitir meios de pagamento [sem nenhuma autoridade "central" sobre ela], você deve ter notado, lá atrás, que eu mencionei o fato de bitcoins serem invisíveis aos mecanismos de verificação de transações e arrecadação de receita dos governos… porque são criados por pessoas, entre si, transacionadas de forma segura [pelo menos esta é a tese] e visíveis apenas para os que participam da transação, mesmo assim não diretamente identificados .

e daí? bem, só duas coisas são absolutamente certas: a morte e os impostos.

cedo ou tarde, mesmo se o banco central não ligar para bitcoins [porque irrelevantes, talvez?...] o fisco vai se interessar pelo assunto e querer entender, bit a bit, o que está acontecendo. e esta será a grande prova de sobrevivência de uma iniciativa que, se por um lado viabiliza transações potencialmente ilegais, por outro facilita, e muito, a vida dos cidadãos que a usariam só porque iria simplificar, e muito, suas vidas absolutamente legais.

o vídeo abaixo é de um this week in startups special sobre bitcoin, com os caras correntemente à frente do projeto, gavin andresen e amir taaki. vá ver.

por um número de razões, e mesmo sabendo dos riscos, toda minha torcida é pra que bitcoin se torne uma moeda de largo espectro, passando pelos muitos obstáculos que serão criados pelo "sistema". até já instalei minha carteira virtual… que aliás, como qualquer carteira, pode ser "roubada"…

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quinta-feira, 12 de maio de 2011

smartphones… em 2015 e depois

criar o futuro é muito mais fácil do que prever o futuro. dito popular nos mercados de tecnologia há décadas, esquecido vez por outra pelas casas especializadas em… previsões. mas, afinal, se não fizessem isso mesmo, apostar em futuros possíveis e prováveis, viveriam de que?

de todas as bolas de cristal que apontam para os futuros de tecnologias muitas, uma previsão em particular me chamou a atenção mês e meio atrás e, depois da compra de skype pela microsoft, busquei o link e fui ler de novo.

não é que a IDC, endereço de um dos mais respeitados grupos de analistas de mercado do planeta, está prevendo que windows phone 7 [8...] será o segundo sistema operacional móvel mais popular do planeta em meros quatro anos?…

pelo mostrado no gráfico abaixo, google dominaria o mercado por uma larga margem [o que parece óbvio], apple e RIM ficariam mais ou menos onde estão [e isso não é óbvio, pelo menos no caso de iOS], symbian [da nokia] desapareceria completamente [isso até eu acho que é óbvio] e a microsoft multiplicaria por quatro sua penetração no mercado de smartphones. o "resto", ou seja, todas as outras plataformas, teria menos de 5% do mercado daqui a quatro anos.

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o relatório é assinado por ramon t. llamas, william stofega, stephen d. drake e stacy k. crook só pra gente saber de quem cobrar se rolar alguma coisa muito diferente do histograma acima. ciosa, aliás, que não deve vir de uma análise trivial do mercado a ponto de transferir a participação da nokia pra microsoft, face a aliança recente entre as duas empresas. se bem que é isso que fica aparente na imagem acima, não é? muito dura, a vida dos futurologistas.

segundo a análise, foram vendidos 173.5 milhões de smartphones em 2009, 303.4 milhões [74.9% a mais] em 2010 e a previsão para 2011 é de 452.5 milhões de unidades, cerca de 50% a mais do que em 2010. em 2015, seriam 925.7 milhões de smartphones postos no mercado por todos os fabricantes. assumindo que um smartphone tem uma vida útil de [chute!] 24 meses, pouco mais, pouco menos, os 2 bilhões [arredondando...] de smarties rodando em 2015 teriam sido vendidos entre 2013 e 2015.

seria impossível a microsoft acertar o passo, criar as redes de valor [de fabricantes a desenvolvedores...] e sair de onde está para vice-líder [400 milhões de usuários] do mercado de smartphones, nestas condições? não. veja o texto anterior do blog sobre o que redmond anda comprando e articulando, como parte de sua estratégia. é difícil a microsoft chegar a 20% do mercado de smartphones em meros quatro anos? sim, e muito. vai dar um trabalho danado.

mas a empresa parte de mais de 80% de todos os usuários do planeta usando seus sistemas operacionais na vida privada e nas corporações. é quase um milagre [reverso] que tenha se embananado tanto no negócio de mobilidade a ponto de lançar e matar o KIN em dois meses e a custos bilionários. só mesmo uma empresa do porte da microsoft pode fazer uma besteira deste tamanho e sobreviver…

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…ainda por cima porque os KIN, que não tinham nada a ver com WP7, foram lançados logo depois do anúncio do novo sistema operacional móvel, em barcelona, ano passado. clique na imagem para ler um ótimo resumo de porque tudo deu errado.

mas uma coisa é certa: daqui a dez anos não haverá dez plataformas de software básico para mobilidade. cinco talvez ainda seja muito. é mais provável que sejam só três. pelas contas da IDC, 2015 mostra google e microsoft abrindo vantagem significativa sobre a competição. se você fosse futurologista deste negócio, quais seriam os três atores [ou sistemas] da sua aposta para 2020? e por que?…

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terça-feira, 10 de maio de 2011

e a microsoft comprou skype

Tags:, , , , - srlm às 13:23

em janeiro de 2010, apareceu aqui no blog o texto “skype incomodando as teles”, falando de como a empresa que começou e mantém mais de 40% de seus colaboradores em talinn, na estônia, estava começando a capturar muitos minutos de voz internacionais das operadoras clássicas. claro que não há nada mais óbvio do que isso, considerando os preços astronômicos que as operadoras cobram por ligações de longa distância, como se um portador humano, a cavalo, tivesse que carregar os bits de nossas chamadas.

e a coisa pode ficar muito pior se você estiver em roaming celular: um amigo pagou quase mil reais por dia de conta de dados no chile, por não ter levado em conta que os smartphones passam o tempo todo mandando e recebendo dados, especialmente se conectados a redes sociais. resultado? em 2009 skype detinha 12% do mercado mundial de conexões internacionais de voz, comparado com 4.4% em 2006. entre 2009 e 2010, foram mais de 100% de crescimento, chegando a 24.7% do tempo de conexão internacional. coisa de gente grande.

mas isso é a história vista de nosso mundo -dos bits- olhando para o das teles, que ainda teimam em enxergar os usuários em minutos na maior parte dos casos. e não é isso que a microsoft está comprando.

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om malik, que foi o primeiro a falar do assunto, elenca uma série de razões [do lado da vida digital, conectada, móvel] para a microsoft pagar US$8.5 bilhões de dólares por skype, tornando-o um bom negócio para eBay e todos os outros investidores. a coisa, como não poderia deixar de ser, passa guerra global de posições nas redes sociais e os papéis de google, apple, facebook e da própria microsoft.

imagea compra de skype pela última significa que google não pegou os 663 milhões de usuários de skype que, tratado como rede social, é 10% maior do que facebook. quer dizer também que facebook, de quem a microsoft é investidor [até para excluir google da cena…] pode pensar em construir uma liga entre seu grafo social e a conectividade distribuída oferecida por skype. ainda por cima, a apple vai ter que rebolar para enfrentar a combinação de microsoft, skype e facebook em todos os cenários, o que deve tornar a estratégia “social” de tim cook ainda mais difícil de ser executada.

em especial, a microsoft –há décadas expert em estratégias emergentes, inclusive e principalmente a partir do mercado- não gastou uma fortuna [1/6 do caixa da companhia] só para manter google longe de skype e aperriar a apple. os negócios de mobilidade de redmond, centrados em windows phone 7 e no acordo com a nokia, têm muito a ganhar com um skype “nativo”, até porque há teles que já acordaram para jesus e vinham conversando com skype sobre a transição para as redes LTE [long term evolution] que, de uma vez por todas, vão acabar com a história de “voz” e “minutos” nas operadoras móveis.

claro que há críticos e críticas de todos os tipos quando se trata de uma aquisição deste porte, por companhias de perfil tão elevado, num cenário competitivo tão acirrado. mas a grande maioria parece concordar que se a microsoft não “bagunçar” skype e souber usar, apropriadamente, o que sua mais nova aquisição oferece, o resultado pode ser um significativo aumento da competitividade de redmond nos mercados social e de mobilidade. como os dois estão cada vez mais visceralmente conectados… é bem capaz de steve ballmer ter feito a operação que vai garantir seu nome na história dos negócios da era da informação.

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

negócios são games?

Tags:, , - srlm às 09:04

de um tempo para cá, muita gente começou a falar de uma tal gamificação dos negócios. como assim? leia rick gibson, da games investor consulting:

“Some analysts estimate that 50% of companies will have ‘gamified’ by 2015. That’s 13.5 million businesses in the U.S. alone. That seems pretty ambitious to me.”

cinquenta por cento das companhias "gamificadas" em 2015? é muito, até porque jogos [digitais] podem ser coisas muito complexas de fazer e, às vezes, de jogar. dos mais de 80.000 jogos de faceBook, menos de 200 têm mais de um milhão de jogadores entre os 600 milhões de membros da rede social. os dados sobre jogos em geral mostram que mais de 75% das pessoas só entra num jogo uma vez –e nunca mais volta. dos que voltam, menos de 20% ainda estão jogando depois de um mês.

ainda assim, só se fala na gamificação dos negócios. se rolasse, o que seria isso? segundo a definição abaixo, de nick lovell:

…“using game-like mechanics to improve a business process, or customer experience, or profits”.

gamificar [pronuncia-se "gueimificar"] um negócio é usar mecânicas de jogos para melhorar processos de negócios, experiência do consumidor ou usuário, os lucros, o que for.

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há quem diga que a coisa é simples e que os fundamentos para transformar um negócio um jogo teriam por base as teorias comportamentais de skinner e pavlov, trazendo para os negócios um ciclo conhecido em outros cenários. primeiro, tem que se criar [ou levar a criar] uma contingência, que é o problema que o jogador deve resolver. segundo, abre-se o espaço para uma resposta, a ação ou conjunto de ações realizadas pelo jogador. por último, o reforço, ou prêmio dado ao jogador por ter realizado as ações esperadas, no nosso caso pelo negócio. e voltamos ao começo, no mesmo nível ou num nível superior do "jogo" de negócios.

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pode funcionar? sim, pode. em todos os casos? não se sabe. mas já há simpósios inteiros sobre o assunto, como o gamification workshop que acaba de acontecer em londres.

por sinal, quem estava lá era richard bartle, da university of essex, que noutro tempo publicou um artigo interessante chamado Virtual Worlds: Why People Play, onde há questões que talvez devessem ser respondidas sobre essa história de ver [e viver] negócios como se fossem jogos [ou mundos virtuais]:

Ask people why they play virtual worlds, and their response is likely to be some variant of “to have fun”. This is pretty well the bottom line for players, but it’s not detailed enough to be of much use to designers. What do they find fun? Why do they find it fun? How does their idea of what is fun change over time? What can designers do to make them have more fun? And what happens when they stop having fun?

em resumo? perguntadas, as pessoas diriam que jogam [mundos virtuais] para se divertir. se isso é suficiente para os jogadores, não o é para os designers destes mundos. para eles, o que interessa é descobrir o que e porque as pessoas acham divertido, como a noção de diversão muda com o tempo, como se pode fazer com que as pessoas se divirtam mais e, por fim, o que acontece quando as pessoas deixam de se divertir?

vai ver que estas são as mesmas perguntas que teríamos que fazer para descobrir como, ao transformar a experiência de trabalho e engajamento em um negócio em um jogo social, fazer com que as pessoas agregassem mais valor ao negócio e às suas vidas, se divertindo muito mais.

algo me diz que as respostas –e a sua implementação como um jogo- não devem ser nada fáceis. mas, onde se conseguir fazê-lo, os retornos podem ser muito significativos.

abaixo, o modelo de bartle de três dimensões de comportamento e oito tipos de jogadores em mundos virtuais. seriam os mesmos [com as mesmas perguntas] em empresas gamificadas? se sim [ou não] quais seriam as consequências?…

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

era da informação: dados demais, filtros de menos?

há pouco mais de um ano, este blog publicou um texto sobre o "dilúvio informacional" dentro do qual tentamos navegar no imenso oceano de dados em rede do mundo contemporâneo, para entender um pouco da era da informação e do conhecimento. nosso ponto de partida foi um relatório especial da economist sobre como estamos gerando dados e vivendo cercados por eles, quase sem ter como escapar.

imageinclusive porque já estamos na situação em que a torrente de informação gerada por pessoas e sistemas, informatizados e conectados, já não tem nem mais onde ser guardada, como mostra o gráfico ao lado. e isso há tempos: desde 2007, se cria bem mais informação do que os sistemas de arquivos podem armazenar. mas não é só a criação que importa, é o fluxo de informação também: segundo a CISCO, o tráfego global na internet cresceu 45% em um ano [entre 2009 e 2010], chegando a 15 exabytes por mês. e os sinais são de que tal fluxo será quatro vezes maior em 2014, chegando a 767 exabytes no ano. leve em conta que um exabyte é um quintilhão de bytes, algo com nada menos que 18 zeros depois do 1… e pense no volume de dados indo de um ponto a outro na rede mundial.

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se você clicar no histograma acima, vai cair num sistema [simples, vá lá] que permite explorar os dados que a CISCO, um dos maiores provedores mundiais de sistemas para a internet, vem coletando há tempos sobre a rede. neste histograma, se você clicar uma das setas da linha de baixo, aparece…

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…lembrando que os últimos dados consolidados que a empresa tem são de 2009, 2010 estando para sair. mas pense: dados móveis, a parte roxa do histograma, que ficava escondida em 2009, será quase 40 vezes maior em meros cinco anos. isso tem a ver com você, eu e todo mundo que a gente conhece usando a rede de dados móveis ou querendo usá-la assim que pintar na sua localidade ou tiver como pagar por ela.

resultado ? uma pesquisa [limitada, é verdade] da magnify, especialista em "curadoria de informação", descobriu que…

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…quase 50% dos respondentes está na rede durante todo o tempo em que está acordado. não sei vocês, mas este é o meu caso; meu modo offline coincide com minhas [poucas] horas de sono. até porque, nos momentos em que não estou interagindo com os dispositivos que me conectam à rede, eles, por iniciativa própria [e configuração minha], sincronizam meu emeio, agenda, baixam atualizações e por aí vai. isso se, sem minha autorização explícita, alguma coisa que não deveria estiver vazando para alguém que não sei nem quem é.

qual é o impacto desta conectividade em larga escala no ambiente de trabalho? olhe o que diz a imagem abaixo: mais de 3/4 das pessoas diz que seu trabalho requer disponibilidade online, mais de 40% percebe que os clientes esperam poder contactá-los a qualquer hora e mais de 30% acha que seus colegas deveriam estar disponíveis para interação a qualquer tempo.

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por baixo, por baixo, é possível dizer que pelo menos 30% de todos os trabalhadores está online o tempo todo e pronto para colaborar na solução de problemas do seu negócio. colaboração é coisa de time. isso envolve conceitos [saber], capacidades [saber fazer] e conexões, ou acesso à rede que sabe o que você não sabe e faz o que você não consegue. e que tem chaves, senhas, autorizações e poderes que você não tem ou, se é você que tem, está onde você não está e faz coisas que você nem imagina fazer.

lembrando que o negócio da magnify é "curadoria de informação", processo que envolve seleção e edição de material relevante para fins específicos, uma das descobertas do estudo é que…

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…mais de 60% das pessoas consultadas manifestaram o desejo de filtrar seu fluxo de dados, certamente de forma mais efetiva do que fazem hoje.

taí um grande negócio, e não só para a magnify, claro. se você já usa a caixa de entrada prioritária do gmail, sabe do que estou falando. claro que está longe de ser um sistema ideal e mais claro ainda que filtra "só" emeio. mas já é uma grande ajuda. o conjunto de filtros [como esse] que uso no meu emeio descarta, sem minha intervenção, 99% de todas as mensagens que me são dirigidas.

imagine ter um conjunto de filtros, programáveis de forma simples e por qualquer um, que lhe desse um controle bem maior sobre os fluxos de informação dos quais você, queirando ou não, [tem que] participa[r]. taí uma das coisas que aumentaria, e de forma significativa, a qualidade de vida de quem, por obrigação ou não, tem que viver em rede, o tempo todo.

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