Terra Magazine

quinta-feira, 30 de junho de 2011

plus: o faceBook de google?

Tags:, , , , , - srlm às 08:00

ninguém precisa ser "especialista" para prever que orkut, a velha rede social de google, estava fadada a desaparecer. de qualquer forma, o blog disse exatamente isso, tempos atrás, e a opinião rolou em links variados dias atrás.

ontem, google [dono de orkut] anunciou google+ [pronuncie google plus; não se sabe se vai rolar um google mais, em português] a alternativa de google, parecedíssima com facebook… a facebook. xkcd não teve pena:

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google está tomando todos os cuidados do mundo para lançar a coisa, depois dos fracassos retumbantes de buzz e wave; só rola por convite, ninguém sabe se e quando vai ser liberado pra geral e se e como vai evoluir.

sábias decisões de partida. até porque, cada vez mais, é a comunidade [às vezes, a comunidade potencial] que decide o que um serviço tem que ser, ao invés de seu designer ou provedor. e gato escaldado…

a cara do google+ [ a minha, ou do meu avatar, pelo menos...] é…

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um bom sumário do que google+ vai tentar fazer, em relação a faceBook, é criar uma plataforma de rede social onde cada usuário tenha bem mais controle do que compartilha e, ao mesmo tempo, mais liberdade de ação. e, no topo disso, consiga integrar sua rede social aos serviços já oferecidos por google na web. o alvo são os pontos fracos de faceBook [e buzz... só que lá dentro, num tab, tem buzz!].

quem já está em google+ [e tinha conta no orkut] parece estar achando o serviço mais interessante e estável do que a "velha" rede social de google. ninguém sabe se isso será suficiente para estancar a sangria de brasileiros do orkut para facebok, na intensidade em que vem acontecendo nos últimos meses. muito menos se vai atrair gente, noutras geografias, para viabilizar o esforço.

como ninguém ignora, competir efetivamente com faceBook tem muito mais a ver com a estratégia [global] de negócios [sociais] de google para google+ e sua percepção [e captura de valor] pelos usuários em potencial do que com funcionalidades, interfaces e, de resto, qualquer pirotecnia tecnológica. vamos ter que esperar para ver.

se você está fora, saiba que quem está dentro não tem como lhe convidar agora. o sistema de convites ficou sobrecarregado e saiu do ar. bom sinal.

assumindo que orkut já era, agora é esperar pela transição, no brasil, de orkut pra google+. segundo a empresa

"…como o Orkut é a rede social número um do Brasil e tem sido muito bem sucedido, nosso objetivo é estender os novos recursos do Google+ para os usuários do Orkut conforme eles se tornam disponíveis…"

é só esperar que, se tudo der certo, mais hora menos hora orkut vai estar igualzinho a google+ e, tomara, tudo o que você compartilhou, em orkut, vai migrar para google+ sem nenhum trabalho adicional de sua parte.

ok, confesso: não foi isso que eles escreveram; mas era exatamente isso que todos os usuários de orkut gostariam de ter lido. se vai rolar ou não… aí são outros quinhentos. só o futuro dirá.

o futuro também vai dizer se google+ vai servir de plataforma para aplicações sociais da mesma forma que faceBook está se tornando. a "máquina de zuckerberg" parece, cada dia mais, um engenho social universal sobre o qual se pode escrever qualquer aplicação intensiva em conectividade para interação, aí incluídas redes sociais como branchOut, um "linkedIn dentro de faceBook".

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se era tarde para descartar orkut na competição pelos mercados sociais, talvez fosse cedo demais para tirar google da corrida, que talvez tenha começado agora; tomara. sempre que há competição efetiva e se evita monopólios, somos nós, usuários que ganhamos…

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

google: monopólio? e daí?

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imagesegundo uma advogada americana especializada em casos federais contra monopólios, "google obteve, de forma legítima, um monopólio no mercado de busca [na web]". uma das autoridades no assunto prevê que isso vai levar a uma ação federal para investigar se a empresa está "provendo eficiência e facilidade de uso [de seus serviços] aos consumidores ou detonando a competição ao entregar resultados polarizados [na direção que bem quer e entende]". as duas afirmações entre aspas, acima, estão neste longo texto da forbes americana, que ainda faz, no título, a pergunta: o sucesso é ilegal?

se google for mesmo investigado pelos reguladores americanos, não será novidade. antes dele, e por aspas muito parecidas, foi a vez da IBM, AT&T e microsoft, casos que envolveram anos de trabalho e custos astronômicos.

no caso da AT&T, em 1981-4, o resultado foi a quebra de seu monopólio nas telecomunicações americanas, com impactos globais. parte do que aconteceu no brasil, na quebra do monopólio e privatização das partes da telebrás, veio das decisões americanas sobre a AT&T. vinte anos depois, a AT&T caminha para se tornar, de novo, um monopólio: sua proposta de compra da T-mobile nos EUA está sendo discutida pelos reguladores e justiça americana.

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no caso da IBM, a disputa com reguladores e justiça se arrastou por décadas, desde um "consent decree" [algo como um termo de ajuste de conduta] em 1956 por práticas trazidas à empresa desde anos 10 do século passado pelo primeiro t. j. watson até um processo de 1969 que se arrastou por 13 anos, tinha mais de cem mil páginas e cujo efeito colateral foi criar a indústria de software [separada dos fabricantes de hardware].

livre do consent decree desde 1997, a IBM volta à mira de reguladores na europa e pode, mais uma vez, enfrentar um longo e custoso processo: por trás das acões da união européia está a comissão que multou a microsoft em mais de um bilhão de euros por práticas anticompetitivas.

no caso da microsoft, nos estados unidos, a companhia foi acusada de monopolizar o software para a plataforma x86 da intel e de recorrer a práticas que excluíam toda e qualquer competição do mercado de software para PCs. o julgamento inicial dispôs que a companhia deveria ser quebrada em duas, uma de sistemas operacionais e outra para os outros sistemas, mas o acordo final da empresa com a justiça levou à abertura de suas interfaces a terceiros e ao provimento de mais acesso, sem restrições, a uma parte de seu código.

vencedora da batalha legal que pedia seu desmanche [à la AT&T, o que talvez não fosse possível na prática], a microsoft nunca mais foi a mesma. segundo michael cusumano, da sloan school of management, o processo resultou numa empresa "muito mais cautelosa, muito menos agressiva". o que deu na microsoft de hoje, talvez, cujas ações valem a metade do pico de 2000 e não dão qualquer sinal de recuperação.

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e google, agora? nos EUA, não é ilegal criar um monopólio. mas não é legal abusar da posição dominante para limitar a escolha dos consumidores ou o acesso da competição aos mercados [o que dá no mesmo]. caso se prove que google está drenando tráfego de outros sites de forma injusta, a companhia vai se complicar. pra se chegar a uma conclusão como esta, vai ser preciso analisar montanhas de dados, levando ao primeiro julgamento baseado em "big data" de toda a história legal americana e talvez mundial.

a pré-defesa de google parece muito com a da microsoft no caso que começou em 1997. será que isso pode complicar google ainda mais? a microsoft se enrolou por causa da combinação de browser com sistema operacional, coisas que google, hoje, funde com algo que a microsoft não tinha há quase quinze anos, seus múltiplos serviços online.

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clicando na imagem acima, você vai ver uma análise das semelhanças entre o processo que pode ser iniciado contra google e processos antitruste que fizerem história nos EUA.

como se não bastasse a FTC investigando o googlepólio nos EUA, a comissão européia [provocada pela microsoft!] dá sinais de que vai fazer o mesmo. o caso, em sua forma e geografias, passando pela longa lista de inimigos de google, começa a parecer muito com os da microsoft e IBM e pode se desenrolar do mesmo jeito.

a pergunta de forbes fecha nosso texto: o sucesso é ilegal?

depende. de como você chegou lá e, em tendo chegado lá, o que faz com o que conseguiu, até para manter o tal do sucesso. se for em frente, o caso contra google vai tentar responder estas perguntas.

e a empresa, ao responder, vai tentar não perder tanta energia e valor como a IBM [que, no processo, abriu espaço para empresas como a microsoft] e a própria microsoft [que, por sua vez, abriu espaço para empresas como google!...] perderam pois, logo atrás dela, vem faceBook, outro possível futuro monopólio da rede, prontinho pra tomar seu lugar.

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a vida continua. falando nisso, quem é que vai dar o pontapé inicial de um processo antitruste contra faceBook? e vai rolar antes ou depois da empresa atingir um bilhão de usuários? aliás, será que faceBook vai atingir um bilhão de usuários e se tornar onipresente a ponto de ser alvo de um processo por monopólio?…

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domingo, 26 de junho de 2011

invadir e derrubar e-gov.BR? pode ser trivial…

Tags:, , , , , - srlm às 10:20

até ontem, a internet esteve sob uma onda de ataques virtuais nunca antes vista. a galera do @LulzSec mostrou que é preciso fazer muito mais do que está sendo feito para garantir a segurança de informação, sistemas e sites que estão se tornando cada vez mais essenciais para a vida, economia e sociedade contemporânea. segundo os próprios

For the past 50 days we’ve been disrupting and exposing corporations, governments, often the general population itself, and quite possibly everything in between, just because we could. All to selflessly entertain others — vanity, fame, recognition, all of these things are shadowed by our desire for that which we all love. The raw, uninterrupted, chaotic thrill of entertainment and anarchy. It’s what we all crave, even the seemingly lifeless politicians and emotionless, middle-aged self-titled failures. You are not failures. You have not blown away. You can get what you want and you are worth having it, believe in yourself.

…toda a bagunça foi criada por diversão, e só porque era possível. o grupo anunciou, ontem, férias coletivas por período indeterminado.

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este blog tratou dos ataques de @LulzSec em um texto que está neste link e sugeriu, neste outro, que está na hora de pensar não só em novos mecanismos de segurança para os sistemas mas também em novas soluções para controle de acesso aos mesmos: a velha combinação de nome e senha, usada em quase todo canto, já não dá mais conta do problema, em nossos tempos. até porque já faz tempo que os órgãos de segurança estão identificando um movimento dos crimes e criminosos para a web, como mostra este texto ["na web, o crime é mais seguro"] publicado aqui no blog há três anos.

ondas internacionais se espalham, e sites do governo do brasil, incluindo o planalto, STJ, ministério da saúde, petrobrás e um monte de outros foram invadidos, derrubados ou contaminados por @LulzSec_BR, uma galera local que "aderiu" ao esforço do @LulzSec, tendo como alvo especial o governo, estatais e políticos. ao contrário do esforço de hacking global, que talvez passe por um período mais calmo nos próximos tempos, no brasil a viagem do que se convencionou chamar de "jangada" dos lulz pode estar só começando e é capaz de trazer dor de cabeça pra muita gente.

se você acha que é difícil invadir sites e sistemas do governo brasileiro, algo que requer habilidades realmente especiais… não é. olhe a imagem abaixo, citada neste texto do blog, sobre os problemas e oportunidades do e-gov no brasil.

veja os números: 65% das instituições analisadas pelo TCU em 2010 não tinha uma política de segurança de informação e 97% não tinha um plano de continuidade do negócio em vigor. ou seja… é trivial invadir mais da metade dos sites de governo e estatais e, invadidos e/ou derrubados, vão continuar assim por algum tempo. este foi o caso do ministério da defesa no fim de semana, ainda fora do ar 13 horas depois de ser derrubado por @LulzSec_BR, um claro exemplo de completa ausência de processo para dar conta de incidentes de segurança.

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e você pensaria: e se uma galera do mal resolve invadir coisas realmente importantes, como os sistemas de geração e distribuição de energia e o controle do tráfego aéreo? difícil pensar que alguém vá fazer isso só por divertimento, só por "lulz". mas, por outras –e muitas- razões, pode ser só uma questão de tempo.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

hora de mudar passwords…

…de vez. leia este texto do gizmodo. não preciso nem repetir aqui a conversa que tivemos neste outro texto, do blog, sobre a onda de invasões "demonstrativas", promovidas por @LulzSec, cujos efeitos colaterais foram também o vazamento de montanhas de contas e senhas em sistemas de informação online.

de repente,  a combinação login/password, ou nome/senha, parece coisa de um passado remoto e ingênuo onde não havia muita gente capaz de entrar nas bases de dados onde elas estão armazenadas… às vezes sem qualquer codificação.

quinze anos de internet, web e todo tipo de sistemas online e uma geração inteira de jovens que nasceu neste ambiente, a velha combinação de nome e senha para ter acesso a qualquer coisa parece ultrapassada e incapaz de servir de barreira de entrada a dados e funcionalidades que deveriam ser exclusivos de seus donos ou usuários autorizados..

pode ser que seu emeio não precise necessariamente ter a segurança de sua conta bancária. por outro lado, dependendo da informação que trafega por lá e das pessoas que estão interessadas nela, talvez ele devesse ter um nível de segurança muito maior do que sua conta no banco. e o problema é se –e como- os dois podem ser garantidos por adaptações do mecanismo clássico de identificar o usuário e lhe solicitar uma senha, como vem sendo feito em computação desde 1963, no projeto MAC.

imagee olhe que sistemas online estão começando servir de interface, em larga escala, para o mundo físico. a chave de sua casa, tão velha quanto senhas e contrassenhas do egito e roma antiga, começa a ser substituída por sistemas que podem abrir e fechar sua porta, o prédio, a garagem, loja, agência bancária, o que for, com você muito longe da porta. e aí, em alguns casos, vamos falar de invasões mesmo, de verdade. são sistemas de informação que têm a forma de "apps" na mão de seus usuários e que estão associados a sensores e atuadores em prédios, portas, carros e tudo mais. o que acontece se seu celular, que detém uma ou mais "chaves eletrônicas", cai em mãos erradas?… e se alguém "clona" você em outra cópia da aplicação? e se um outro clona a aplicação inteira, capturando seus usuários e senhas?

e não só: dia destes o blog falou de BITCOIN, uma moeda virtual, P2P; aí, alguém publicou uma base de login/passwords de uma das bolsas da moeda, fazendo a cotação despencar de perto de vinte dólares por BITCOIN para alguns centavos. se BITCOIN fosse uma moeda de alguma importância no mundo real, hoje, o impacto seria desastroso para seus usuários e um grande número de instituições e mercados. como alguma coisa parecida com BITCOIN vai ser a moeda do futuro, é bom estudarmos com cuidado, agora [no modo alfa da moeda], os problemas de segurança e suas potenciais soluções, para não termos que fazer isso em tempo real e tarde demais, daqui a alguns anos.

o problema central é que boa parte da economia e sociedade dependem de software; e software tem nomes e senhas de acesso… que são, em quase todos os casos, inseguros.

a solução, desde o acesso à minha e à sua conta numa rede social até o sistema de gestão da distribuição de energia elétrica do país, passa por aumentar muito, por ordens de magnitude, a segurança dos sistemas de controle de acesso, sem no entanto tornar o processo complexo demais, principalmente para o usuário normal e os sistemas padrão, como emeio e redes sociais.

aceita-se sugestões. qual é a sua?…

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sexta-feira, 17 de junho de 2011

educação empreendedora, 24: aprenda a negociar

Tags:, - srlm às 10:34

a série sobre educação empreendedora está quase no fim e os textos já publicados até aqui estão neste link. uma das ideias que norteia toda a conversa é que uma mudança, radical e necessária, deve ser feita nas bases da educação brasileira, para estimular uma atitude mais empreendedora [pra começar] entre professores e alunos em todo o sistema de criação de oportunidades de aprendizado.

mas este blog entende que toda boa empresa é uma boa escola, da mesma forma que uma boa "escola" é uma boa plataforma de lançamento para a grande empreitada conhecida como "vida".

e uma empresa nascente, um startup, é uma "escola amadurecendo no carbureto". se você não sabe, carbureto, ou carbeto de cálcio, é o composto químico usado desde sempre no amadurecimento de bananas, como discute a dissertação de mestrado disponível neste link. de acordo com dona zuila, minha mãe, as bananas que passam pelo processo não têm [nem de perto] o mesmo gosto das bananas amadurecidas naturalmente. mas as chances de que todas as bananas que você esteja consumindo terem sido amadurecidas "no carbureto" são muito altas. alguns diriam que "assim é a vida".

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o processo de construção de um novo negócio inovador de crescimento empreendedor sempre ocorre numa janela de tempo tão estreita que não há nenhuma outra opção prática que não "amadurecer os empreendedores no carbureto". ao fim, quando tudo estiver funcionando [mais ou menos] os envolvidos terão as marcas do processo e certamente serão muito diferentes do que seriam se tivessem todo o tempo do mundo para dar partida no seu negócio. mas "todo o tempo do mundo", ou mais tempo do que o possível dentro das condições de mercado, competição, investimento… não é o caso, nunca.

daí, decolar seu negócio significa decolar mesmo, com você e sua tripulação aprendendo a pilotar enquanto projetam e constroem o avião, quase sempre em condições adversas, contra o relógio, com os propósitos do avião e o destino mudando aqui e ali, sem falar que, além de vocês, há muito mais gente tentando chegar lá. não se trata só de fazer e pilotar um avião, mas fazer isso de forma mais eficaz e eficiente do que um bom número dos outros [preferencialmente todos] está fazendo. se bem que vocês podem, dado a oportunidade e disposição das partes, se aliar com uma parte da turma que está tentando a mesma coisa [ou coisa parecida] ou até mesmo se juntar a um ou alguns deles, "fundindo" projetos, construção, destinos e rotas.

em qualquer caso, dentro e fora do seu negócio, você vai ter que negociar.

não fosse assim, a aventura toda não seria chamada negócio. e estamos tratando de novos negócios inovadores de crescimento empreendedor, sendo criados no "carbureto", possivelmente a partir de uma situação onde você e a maioria dos empreendedores não faz a menor ideia do que é um negócio ou uma negociação.

de negócios estamos falando nesta série desde que ela começou, mas nada se disse de negociação. tá na hora de falar disso, nem que seja para deixar a preocupação de que negociações bem sucedidas são uma das essências de negócios de sucesso.

e isso não quer dizer que, a cada negociação, você extrai o máximo do outro lado dando o mínimo do seu. porque tal método [e seu sucesso, no curto prazo, fazendo uso dele] não leva a um modelo de negócios sustentável… até porque o inevitável rastro de destruição vai afastar muita gente do seu caminho. e isso pode ser muito ruim, porque a maioria destas pessoas e instituições seria essencial para o sucesso de seu negócio.

negociação não é arte. mas negociar com sucesso está relacionado à percepção [de pessoas, cenários, oportunidades, mercados...] e intuição, que tem a ver com o desenho e execução de linhas de ação sem conhecer o todo, seja ele qual for. negociar é uma atividade intensiva em descobrir e entender o que o outro [os outros?] lado pretende e como quer ter a mesma [ou outra?] coisa que você. isso quer dizer que não podemos formalizar o processo ou criar um conjunto de regras gerais que sempre funciona. não é assim, neste caso, que as coisas funcionam…

estamos falando de percepção e intuição mas também em conexões e compartilhamento de princípios, valores, problemas, preocupações e resultados. e isso depende de quanto estamos dispostos a colaborar para resolver os problemas do negócio, dentro e fora dele. ocorro que quase todos estamos acostumados a entrar em uma negociação dispostos a arrancar do outro lado tudo o que queremos, pensando que qualquer concessão de nossa parte é uma "perda".

com isso em mente, pense que você detém o conhecimento tecnológico necessário para começar um novo negócio. preste atenção: necessário, mas não suficiente. conhecimento nunca é suficiente para nada; se fosse, negócios como google não teriam mudado seus algoritmos desde a fase de startup, muito menos desenvolvido tudo o que lançaram no mercado desde lá. lembre-se que, no começo, google não tinha um modelo de negócios [veja aqui um slide deles, de 1999, sobre receitas!...] que apareceu depois [anúncios], o que não rolou por acaso, mas porque a companhia aprendeu. muito.

e pense nas negociações pra chegar lá. pense na pressão dos investidores, [se] perguntando [e exigindo respostas, soluções] como o dinheiro deles ia voltar. agora, claro, tudo são flores. mas… e quando google já tinha centenas de milhões de investimento e zero de receita?…

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olhando para o gráfico acima deve ficar claro que de 1999, quando ninguém fazia a menor ideia de onde viria a receita, até 2002, quando ela começou a aparecer, não deve ter sido fácil. e só em 2005, quando a receita líquida passou de 20%, as coisas devem ter se acalmado de vez. talvez.

mas as negociações continuam, o tempo todo e vez por outra, mesmo em google, a falta de acordo sobre como tocar um negócio leva a separações. daí os episódios deste ano na empresa.

negociar é algo suficientemente complexo para um pequeno texto num blog qualquer oferecer uma contribuição significativa sobre o tema. mas, como em todos os outros textos desta série, a ideia é deixar no ar perguntas que levariam o leitor a descobrir o que não sabe sobre negociações, e provocar reflexões e aprendizados que agregariam mais conhecimento ao processo de criação e evolução de um negócio.

até esta semana, eu mesmo não conhecia o gráfico abaixo, que tenta descrever pelo menos uma parte do processo de negociação entre dois entes quaisquer, A e B.

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putz!… você diria: este rolo todo "só" para representar uma negociação entre duas partes?… pois é: e isso não é nada, pois o gráfico representa apenas uma pequena [mas muito significativa] parte das considerações em pauta.

o gráfico está explicado neste link e almeja codificar, pelo menos em parte, o que acontece numa negociação. BATNA, best alternative to negotiated agreement, ou melhor opção a um acordo negociado [MOAN], é o que o nome quer dizer. é o seu bottom line pra entrar numa negociação, o mínimo que você teria mesmo sem o acordo. cada lado tem uma MOAN e, quase sempre, um lado só tem uma vaga ideia da MOAN do outro lado. por isso, é bom estudar, e muito, o outro lado; interpretar o que o outro lado quer fazer, o que acha que pode conseguir e o que ele poderia fazer se não chegasse a um acordo com você.

quando estiver negociando com investidores, lembre que por mais escassas que sejam as competências técnicas, dinheiro inteligente conectado é ainda mais escasso, principalmente do ponto de vista do investidor. o que quer dizer que sua MOAN é normalmente perto de fazer tudo sozinho e a do outro lado é fazer outra das alternativas de investimento sendo negociadas e não a sua.

claro que isso não quer dizer que você vai aceitar tudo o que o investidor propuser, de cabeça baixa e encomendando uma novena depois. mas, ao mesmo tempo em que ele esta o tempo todo negociando para fazer algum empreendedor entender qual é o papel do investimento na criação de valor para o negócio, você tem que fazer o mesmo.

ZOPA, ou zone of possible agreement [em português, zona de possível acordo, também ZOPA...] é a região do gráfico à direita da MOAN de A e acima da de B. fora desta zona, se ninguém mudar radicalmente de posição durante a negociação, não vamos conseguir nada.

a fronteira de eficiência do gráfico nos diz que chegar a todo potencial de um dos negociantes implica em reduzir o outro à sua MOAN. quando isso ocorre, o resultado de tentar obter o máximo para uma das partes –e não o mais interessante para os dois, em conjunto- é a ausência de acordo, pois o outro lado vai certamente querer ficar na dele.

o objetivo maior de um processo de negociação deve ser elevar o valor do negócio para ambas as partes, saindo ponto de desacordo [a interseção das MOANs dos negociantes] para um ponto tão próximo quando possível da fronteira de eficiência. é isso que mostra [na direita do gráfico] o conjunto de pontos marcados por tentative settlement [tentativa de acordo] e terminando em final contract [contrato final].

no meio do caminho, que pode ser longo e difícil, há que se criar [create] e agregar [claim, reclaim] valor para as partes, de tal maneira que o processo atenda os interesses de todos os que estão à mesa. mal conduzido, o valor criado por uma parte é [integralmente] capturado pela outra, o que leva a uma ruptura no relacionamento, agora ou no longo prazo.

um exemplo de tal cenário, no setor de software, é o relacionamento entre cliente e fornecedor nos processos de terceirização de desenvolvimento de software, pois as fábricas não têm conseguido, historicamente, capturar pelo menos parte do valor que geram aumentando a produtividade dos serviços. mecanismos como mesa de compras em clientes leoninos e a pressão da folha de pagamentos levam as fábricas a aceitar contratos que estão abaixo do que gostariam que fosse sua MOAN, e as consequências de longo prazo não são boas para nenhum dos lados.

imagea literatura internacional sobre negociação é ampla e tem muitas visões e tendências. pouco importa a que você escolher: comece lendo alguma coisa para saber do que se trata e se prepare para negociar o tempo inteiro. ao invés de cair como um patinho em reuniões com parceiros, fornecedores, clientes, usuários e investidores, desenhe uma estratégia e possibilidades reais de sua implementação prática que atendam aos seus e aos outros interesses. e crie, exercite, simule um conjunto de táticas que vão dar conta de sua estratégia, sempre levando em conta que o objetivo nunca é ganhar do outro lado mas ganhar junto com o outro jado.

até porque, seja qual for seu novo negócio inovador de crescimento empreendedor ele só existe porque você descobriu um desatendimento no mercado e está criando, pela longa via das tentativas, erros e aprendizado, um entendimento que leva a um atendimento que resolve o problema e consegue pagar bem mais do que suas contas.

no meio deste caminho, não conseguir se entender com os outros atores de sua grande história simplesmente porque não estava preparado para tal, a ponto de ignorar práticas elementares de negociação, seria uma pena. e é. e você não acreditaria a frequência com que acontece e as oportunidades e o valor que se perdem por isso. portanto, prepare-se. na prática. negocie.

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terça-feira, 14 de junho de 2011

rindo da sua segurança…

Tags:, , - srlm às 12:40

…desde 2011.

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na "listagem" acima, que é um relatório a invasão de bethesda softworks e zeniMax media, está o lema de LulzSec, a galera que parece estar por trás de incidentes na sony, nintendo, PBS, NHS.uk, senado americano, alguns bancos, sites pornográficos… ou seja, uma moçada resolveu provar que os sites, todos os sites, são ou estão suficientemente inseguros para serem invadidos de várias formas.

atacadas, as instituições acima e muitas mais ordenaram uma revisão, em maior ou menor grau, de seus procedimentos de segurança. em alguns casos, como no NHS inglês, isso passa por métodos, processo e cultura: LulzSec descobriu senhas de administradores de sistemas, lá, que eram incrivelmente simples de "quebrar". no senado americano, a ordem da casa parece ser revisar a infraestrutura  e quase que negar a invasão. seja onde for, o cenário parece o mesmo: hackers competentes, resolvidos a expor informação que deveria ser mantida longe dos olhos de terceiros, pode vazar para a rede.

no caso das senhas dos sites pornográficos, as redes sociais de alguns dos usuários acabaram sabendo dos hábitos de seus conhecidos; LulzSec "convidou" seus seguidores no twitter a entrar nas contas publicadas e revelar os hábitos de seus donos. daí o slogan do grupo; "sua" segurança, no caso, é a de todo mundo, instituições e pessoas. todas.

e por que as coisas se dão deste jeito? será que poderia ser mais seguro? muito mais seguro? especialistas em segurança não estão achando ruim o atual surto de atividade de LulzSec e de outros grupos, como Anonymous. para eles, os hackers estão expondo as entranhas mal resolvidas de alguns dos mais importantes sistemas de informação do planeta.

como diz patrick gray, depois de uma década tentando convencer companhias e seus dirigentes sobre a necessidade urgente de políticas, estratégias, métodos, processos, ferramentas e competências de segurança…

…maybe, just maybe, using insecure computers to hold your secrets, conduct your commerce and run your infrastructure is a shitty idea.

…porque usar infraestrutura insegura para guardar segredos, rodar seu comércio eletrônico e sua infraestrutura é uma ideia idiota. mas

No one who mattered listened. Executives think it’s FUD. They honestly think that if they keep paying their annual AV subscriptions they’ll be shielded by Mr. Norton’s magic cloak. Security types like LulzSec because they’re proving what a mess we’re in.

…ninguém ouviu. e LulzSec está mostrando que eles, os tomadores de decisão, estavam errados. i told you so.

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mas… dito isto, fazer o que? investir em segurança. começando por escrever o software que está por trás dos serviços de informação que estão na web de forma mais segura. por incrível que pareça, esta não tem sido uma preocupação central da maioria das instituições até agora. até porque a educação dos engenheiros de software ainda trata o problema de segurança forma periférica, a ponto de, mesmo em fábricas de software que têm uma boa reputação, é raro encontrar um sistema destinado à web que não seja invadido por hackers contratados especialmente para este fim, logo nas primeiras tentativas.

por que isso acontece? pra começar, é mais difícil e mais caro escrever software mais seguro. só no brasil, estima-se que haja uma demanda não atendida por 70.000 programadores e engenheiros de software. logo, não há gente para fazer todo o novo software que se torna necessário a cada dia e manter e evoluir o que já está sendo usado, quanto mais para fazer isso de forma segura. a demanda por mais software, mais funcionalidade, supera em muito a capacidade nacional e mundial de fazer software. o resultado é a baixa performance, as interfaces abaixo da crítica, os problemas de segurança de sistemas e de informação e por aí vai.

a solução?

bem… primeiro, precisamos de mais e melhores engenheiros de software, e isso está diretamente ligado a uma melhoria significativa na qualidade da sua formação. talvez esteja na hora de formar, na graduação, engenheiros de software e bons programadores instrumentados com métodos, processos, ambientes e ferramentas… e não aprendizes que nunca passaram perto de um sistema que pareça minimamente real. na maioria dos cursos, o conhecimento e práticas de engenharia de software é efeito colateral de disciplinas que não são de engenharia de software e de sistemas de informação, mas de cursos de ciência da computação. vistos de longe, os três parecem a mesma coisa… mas não são. se não entendermos isso, nada vai mudar.

segundo, precisamos escrever menos software: isso não quer dizer que teremos menos funcionalidades ou sistemas. ocorre que se escreve muito software repetido hoje, mas muitas vezes repetido mesmo. para se ter uma ideia, há bancos que têm mais de uma dúzia de operações diferentes para retirar dinheiro de uma conta, seja pela web, agência, caixa automático, TED… e todas têm que ser mantidas [porque as regras do BC mudam] e evoluir [porque as demandas mudam]. resultado? operações incoerentes, aumento de custo de manutenção e evolução e uma dificuldade muito maior de se garantir a segurança de tantas operações aparentemente diferentes para se fazer a mesma coisa.

para se escrever menos software, ao mesmo tempo mantendo a taxa de inovação sustentada por software na sociedade e economia, seria preciso reusar software e/ou serviços de informação. mas ocorre que reuso é difícil e seu custo de partida é mais caro, pois o software ou o serviço têm que ser desenhados e implementados ao redor de correção, performance, usabilidade e segurança, testada, verificada e validada. senão o nível de reuso não irá compensar o custo adicional de se fazer um software inicial mais complexo, sofisticado e caro. mas mesmo os bancos, do alto de suas margens de lucro, estão começando a pensar seriamente no assunto, como você pode ver na página 13 deste relatório.

em suma: para se ter mais e melhor segurança de informação, é preciso ter sistemas e infraestruturas mais seguras. e isso depende de mais e melhor engenharia, aplicação de princípios já conhecidos por engenheiros melhor educados e do desenvolvimento de novos e melhores princípios, métodos e sistemas.

capturar hackers pela invasão de sistemas intrinsecamente inseguros é tapar o sol com uma peneira. pior: há constelações inteiras de sistemas de informação e as peneiras são muito poucas. algo me diz que grupos como LulzSec vão continuar, por muito tempo, publicando informação "secreta", que está ali, num sistema perto de você, só esperando para ser libertada…

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sábado, 11 de junho de 2011

e quando os livros de papel desaparecerem?

no tempo que o conhecimento mundial, formal e informal, estava publicado em livros, editoras, livrarias e bibliotecas, públicas e privadas, guardavam os livros físicos. e bibliófilos como josé mindlin deixavam para a humanidade coleções de valor inestimável como a brasiliana, contendo preciosidades como A Relação da entrada que fez o Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro […], o primeiro livro [um folheto de 24 páginas] impresso no brasil, em 1747. clique na imagem e vá ver a história composta pelo doutor luiz antonio rosado da cunha, entre outros afazeres… “provedor de defuntos”.

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mas… e quando o livro físico, de papel, desaparecer completamente, como parece que vai ser o caso, quem dará conta da preservação dos arquivos digitais que o representam, ou que representam seus substitutos, de tal forma que daqui a 250 anos seja possível ter acesso ao conteúdo deste blog, exatamente como está sendo publicado agora, nem que seja para reclamar do estilo do autor?…

aí está um problema monumental, ao qual se dedica muito pouca atenção. ao ponto de que o único projeto de preservação do conteúdo de parte da web é o internet archive, onde você pode olhar como era minha “home” em janeiro de 2000. a ideia do archive, projeto de brewster kahle, é criar uma biblioteca digital da internet, o que significa tentar manter cópias de todas as páginas da rede à medida que ela evolui. o archive tem 150 bilhões de páginas guardadas e, óbvio, está muito longe de representar toda a riqueza do passado da web. mas é um esforço gigantesco, e muito bem realizado, nesta direção. até porque o archive não é só de “páginas”: vá ouvir um dos mais de 90.000 concertos ao vivo ou ler algum dos mais de 2.800.000 textos que estão depositados lá.

em when hard books disappear, kevin kelly analisa o livro no nosso tempo e diz que, em algumas gerações, vai ser tão esquisito para um ser humano ver um livro de papel quanto é, hoje, ver um leão ao natural. verdade.

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a menos que se vá ao internet archive: kahle está guardando, de forma segura, pelo menos uma cópia física de cada livro digitalizado, até porque, quem sabe, talvez seja preciso, por uma razão qualquer, redigitalizar o mesmo livro daqui a, digamos, décadas. é pra isso que servem os containers acima. vá ler a história inteira aqui.

mas e o material nunca impresso, como este blog? bem… provavelmente vai se perder de vez, alguma hora. pra começar, a página robots.txt daqui não deixa a wayback machine do archive copiar o conteúdo. vai ver isso vale para todo o terra.com.br. a vida de um blog depende de sua hospedaria: meus 100 textos para a revista eletrônica NO. entre 2000 e 2002 só existem, ainda, porque eu mesmo os preservei neste link. NO. desapareceu há quase uma década. e você pode deixar de existir no hospedeiro: meus 66 textos para o G1, publicados entre 2006 e 2007, sumiram da web há anos e foram preservados por mim mesmo neste link. cuide dos seus, pois…

conclusão do texto de kevin kelly sobre o archive?…

A prudent society keeps at least one specimen of all it makes, forever. It still amazes me that after 20 years the only publicly available back up of the internet is the privately funded Internet Archive. The only broad archive of television and radio broadcasts is the same organization. They are now backing up the backups of books. Someday we’ll realize the precocious wisdom of it all and Brewster Kahle will be seen as a hero.

mindlin foi um herói para os livros brasileiros, para a cultura brasileira. kahle é um herói para a internet, para a cultura mundial. ocorre que o foco dele é a língua e a cultura inglesa, por razões óbvias. pra nós, resta a pergunta: de onde está vindo nosso mindlin digital e, ainda mais, porque ele já não está, há anos, cuidando de preservar uma parte significativa da web.BR?…

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[acima, um snapshot do que restou da NO.; clique para ver no archive.]

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

ruído social pode ajudar produtos medíocres?

kathy sierra terminou seu blog [creating passionate users] em um dia qualquer de 2007, deixando um rastro de contribuições sobre um monte de coisas que tem a ver com usuários, produtos e serviços e também com o que acontece dentro das empresas. seus textos eram pontuados por imagens como a mostrada abaixo, que está pregada na porta da minha sala há anos…

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…que deveria ser óbvia para qualquer gestor, especialmente de processos ou negócios inovadores, mas não é. o resumo da figura diz que "quanto maior é seu grau de intervenção, como gestor, no que seus colaboradores fazem… menos eles usam seus cérebros". resultado? empresas formadas por zumbis, como tantas que vemos por aí.

estas empresas microadministradas são normalmente descritas por seus executivos como "muito estruturadas", ou "muito hierárquicas", quiçá [!] "tradicionais".  em que pese o grau de controle exercido pela administração sobre os colaboradores, já se começa a ver um número delas à procura de uma estratégia social, como o blog descreve nesta série de textos sobre redes sociais nos negócios. mas isso só vai dar resultado se o índice "zumbi" da empresa diminuir muito.

sierra reapareceu ontem no blog de @gapingvoid, discutindo o papel das redes sociais para os produtos e serviços e seu impacto nos clientes e usuários, especialmente quando se trata da conversão de "follow", "RT", "like" e "+1" em "PAY", que é o que traz o leite das crianças para casa ao fim do expediente.

o texto, como sempre é o caso, é inspirado e competente. depois que você lê, acha que é óbvio, que qualquer um poderia ter escrito a mesma coisa. só que o deslumbramento com certas plataformas de redes sociais faz com que muita gente ainda pense que "botar um produto nos TTs" tem uma relevância muito maior do que botar um produto nos casas e nas mãos dos usuários.

pra quem chegou agora, TT é o mesmo que "trending topics", as coisas que estão bombando no twitter [e que poderiam estar, na prática, na "moda" em qualquer rede social].

sierra nos traz de volta à realidade com mais um gráfico para ser lembrado e usado em muitas discussões sobre produtos, serviços, mercado, usuários e compradores e… redes sociais.

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é preciso lembrar que o foco da discussão sobre produtos e serviços deve ser [sempre] se nós, fabricantes e provedores, agregamos valor à vida dos usuários ["users kick ass", no gráfico] ou atrapalhamos ["users FAIL"].

se o produto é uma porcaria, não há quantidade ou qualidade de esforço, associado a seja lá qual for a palavra da moda na hora [a "buzzword"... pode ser social, viralização, gamificação... o que for] que ajude. se o produto ou o serviço é "o dez", quase certamente não precisa de buzzwording promovido pelos seus fabricantes ou provedores, pois compradores e usuários vão fazer todo o trabalho, por razões óbvias: o produto é muito bom.

entre os dois extremos, está a região que sierra chamou de "montanha da mediocridade": a oferta é "mais ou menos" e precisa de um grande esforço de buzzwording para decolar. o gráfico tenta mostrar o impacto potencial de redes sociais, por exemplo, em produtos que não são horríveis ou ótimos e deveria balizar muito das discussões sobre retorno de investimento em qualquer tipo de "mídia", como a "mídia" chama.

sierra não descarta redes sociais de pronto, mas…

Oh, social media does play a massive role in the success of a product that people love, but it is not the product-to-users “engagement” that matters, it is users-to-users (and users-to-potential-users). If people love what a product, book, service let’s them *do*, they will not shut up about it. The answer has always been there: to make the product, book, service that enables, empowers, MAKES USERS AWESOME. The rest nearly always takes care of itself.

…deixa claro o que escreveu por muito tempo lá no seu velho blog: nosso esforço em desenhar produtos deve estar centrado em criar coisas que apaixonam seus usuários, mesmo sob restrições de funcionalidade e, certamente, preço.

peter drucker já ensinava que inovação é criatividade com qualidade. criatividade pode ser definida como a combinação de RIP, MIX e BURN: pegue umas coisas daqui e dali, recombine [raramente introduzindo algo novo, seu] e apresente o novo desenho ao mercado. e qualidade é o que o usuário quer, pelo preço que ele pode pagar. inovação em produtos e serviços, definida desta forma, fica muito mais simples de ser entendida na prática, na fábrica e na agência.

e torna muito mais fácil lidar com o gráfico da montanha da mediocridade. não é porque seu produto é barato que é ruim. nem tampouco porque a tela do celular não é AMOLED que os usuários vão detestá-lo. tudo depende do que, para quem, por quanto, com que propósito e em que faixa de poder aquisitivo. se esta combinação não fizer sentido para uma certa classe de usuários, pode tentar a quantidade de buzzwording que você quiser ou puder pagar e ela não irá desenhar, criar, promover… o produto certo, pois seus usuários nunca irão "kick ass" .

bom ver sierra de volta, nem que seja por um post. vá ler com calma, vale.

como o título deste texto fala de produtos medíocres, aqui vai uma outra imagem de sierra definindo, em perguntas, o que seria uma hierarquia de necessidades e desejos dos usuários, capaz de levar a produtos e serviços "matadores". mesmo que seja para fazer uma estratégia social para um produto medíocre, é bom refletir sobre os sete níveis da figura abaixo…

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

de WIMP para… MPG?

Tags:, , , , , - srlm às 08:00

o que você está vendo na figura abaixo…

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…é a interface de "windows 8", que a microsoft anunciou recentemente, sem anunciar nada oficialmente. veja os detalhes neste link e o vídeo de onde tirei a imagem acima, postado pela própria microsoft, neste aqui.

a estratégia da microsoft é, sem dúvida, a de criar um conjunto de sistemas operacionais para smartphones, tablets e desktops [laptops e etc. incluídos] que tenha exatamente a mesma experiência de uso. o jeitão que você vai ver no vídeo curto, acima, está muito mais detalhado neste link; se tiver tempo, veja este último. tem muita coisa nova lá…

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não por acaso, esta é a mesma estratégia de google [android rodando em tudo o quanto é plataforma] e, sem dúvida, é o que a apple pretende fazer.

a pergunta de mike elgan, ontem, é sobre a WWDC, hoje: como a apple vai trazer o tipo de experiência de uso representado por MPG [multi-touch, physics, gestures... ou multitoque, física e gestos] para o desktop? será que este é o grande anúncio da empresa de cupertino hoje?…

a interface a que estamos acostumados no desktop vem da década de 70 e atende pelo apelido de WIMP, um acrônimo para "window, icon, menu, pointing device" ou janela, ícone, menus e dispositivo apontador, que vem a ser o mouse em quase todos os desktops.

claro que não se trata, tanto no caso da microsoft quanto de apple e google, de pura e simples troca de interface. não só está havendo uma mudança radical nas estruturas que sustentam nosso uso das interfaces mas há um afunilamento no número de combinações de fundações e interfaces no mercado de computação como um todo.

claro que cada um de nós gostaria muito –e pagaria por isso- para ter a mesma experiência de uso no seu laptop, tablet, desktop, smartphone, TV, vídeo game, nos painéis de interação e controle do carro, máquina de lavar, geladeira, caixa automático e por aí vai. melhor ainda se uma aplicação feita para uma destas "plataformas" simplesmente "rodar" em todas as outras ou puder ser transportada de uma para outra com esforço mínimo por parte do desenvolvedor.

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no passado distante, cada fabricante de hardware fazia seu próprio sistema operacional, as interfaces eram de linhas de comando [a experiência de uso, portanto, só era aconselhável para nerds] e algumas empresas até faziam as aplicações para seus computadores. mas isso era há uns quarenta anos.

só que todo mundo passou a usar sistemas computacionais, do caixa automático à web, passando por quase tudo com que interagimos, e tornou-se necessário empoderar o usuário comum, sem especialização em informática, no uso dos sistemas com os quais ele tem que interagir para, quase que literalmente, viver a vida contemporânea.

isso quer dizer que quanto mais simples e direta for a experiência de uso que nós temos nos sistemas, mais eficaz e eficientemente os usaremos e, aí, os usaremos cada vez mais. especialmente se as plataformas permitirem amplo acesso a aplicações que estendam as funcionalidades essenciais das plataformas, como já é o caso dos mercados associados a cada uma das plataformas da apple, google e microsoft. isso é bom pra todo mundo, usuário ou desenvolvedor de aplicações para smartphone, tablet, laptops e desktop, como o da figura abaixo…

neste jogo estão, para valer, microsoft, google e apple. lá na frente, do ponto de vista da experiência, está a apple, que deve anunciar em breve algo parecido com os vídeos da microsoft para seu sistema operacional e interfaces. lá atrás está google, que assume paulatinamente a liderança no mercado de smartphones mas ainda tem um longo caminho a percorrer nos outros formatos.

no negócio de sistemas operacionais há tanto tempo quanto a apple, a microsoft tem nada menos de um bilhão de usuários no desktop. o desafio da empresa é trazer este povo todo para o futuro, ao mesmo tempo em que captura parte do mercado de smartphones e tablets, juntamente com sua ampla cadeia de valor. improvável? não. este blog já discutiu o assunto neste link e há quem ache que a microsoft passa a apple, neste mercado, antes de 2015…

vamos escutar o que a apple tem a dizer. até porque é em parte por causa dela que MPG deverá tomar o lugar de WIMP em todos os formatos, nesta década. e o mundo da informática pode ficar muito mais interessante e animado por causa disso. perca quem perder do lado dos fornecedores, nós, usuários, só temos a ganhar.

PS: se você quiser ver a WWDC 2011, começa hoje às 1400h BSB, vídeo neste link.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

internet: como aproveitar as grandes oportunidades?

dia destes o blog publicou um texto sobre o tamanho e o potencial da internet na economia, mostrando onde estamos e onde poderíamos chegar SE tivéssemos políticas, estratégias e determinação para tal, ao invés de, pura e simplesmente, conversas, manobras e desencontros.

o texto passado usou gráficos da mcKinsey publicados durante o e-G8 em paris e, logo depois, a consultoria internacional publicou o texto completo, Internet matters: The Net’s sweeping impact on growth, jobs, and prosperity, que vale a pena ler e guardar pra fazer comparações no futuro.

como já discutido aqui, avalia-se o tamanho da oportunidade da internet para países como o brasil olhando para um dos gráficos do relatório, justamente a imagem de sua chamada na web:

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a imagem acima diz que nos países onde a rede está bem estabelecida a contribuição da internet ao crescimento do PIB foi, em média, 21% nos cinco anos entre 2004 e 2009. nos BRIC, grupo em que estamos, onde ainda persiste todo tipo de problema para conectar pessoas, economia e sociedade, tal contribuição ficou em 3%, com o brasil ficando em apenas 2%.

o relatório, de 70 páginas, fornece evidências para apoiar grandes projetos nacionais de inclusão digital, intensa, em todos os níveis, de pessoas e negócios. veja esta…

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…mostrando que pequenos e médios negócios que atingem alta proficiência e intensidade de uso da web crescem e exportam duas vezes mais do que outros, menos competentes na rede.

ocorre que aqui no domínio .BR as coisas não estão como talvez devessem. olhem só o gráfico abaixo…

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…mostrando a correlação dos índices i4F, de intensidade e qualidade de capital humano, financeiro, infraestrutura e ambiente de negócios e supply, de intensidade de fornecimento, que indica se o país é mais pra fornecedor do que consumidor das tecnologias e serviços de rede. o brasil está lá no fundo do poço dos dois índices neste conjunto de treze países.

nada pra gente ficar se lamentando que aqui as coisas não andam, que o lugar não tem jeito e a choradeira de sempre. trata-se de entender a oportunidade, seu tamanho –mundial e não apenas local- e partir pra dar conta dela. o relatório da mcKinsey dá algumas pistas do que fazer, todas elas conhecidas há muito tempo por aqui, parte do grande diagnóstico nacional e raramente alvo de um conjunto de ações, profundas, financiadas e de longo prazo, que nos façam resolver parte considerável do problema.

falta gente: temos que educar mais e melhor; temos que fazer e, mais cedo ou mais tarde, vamos fazer isso. só que esse “isso”, educar, leva tempo. até lá, mesmo que comecemos a educar mais e melhor agora, que tal trazer gente de fora? isso não faz mal, ao contrário do que muita gente pensa, até porque somos um país de imigrantes, no momento um monte dos quais ilegais, fugindo de seus problemas na américa latina para aproveitar a boa fase do brasil. por que não criamos condições para gente do mundo todo vir para cá, agora que precisamos de tanta gente, especialmente em TICs, e não há?…

temos poucos sistemas locais de inovação como o porto digital e o tecnopuc, focados em TICs: que tal criar mais e financiar muitos, inclusive os que existem, numa escala que os torne globalmente competentes? fora dos estados unidos, todo mundo fez e faz isso: inglaterra, coréia, espanha, china… e nossa política de parques tecnológicos é um vagalume. vez por outra acende. mas só muito vez por outra. ao invés dos bilhões de reais que deveríamos destinar para aglomerar competências tecnológicas e de negócios e aumentar a escala e alcance das empresas, nos contentamos com uma tal pequena empresa de base tecnológica que raramente atinge um estágio de maturidade que a torna economicamente interessante.

há pouco investimento em inovação e empreendedorismo em TICs: que tal ampliar os mecanismos de financiamento existentes e promover, em larga escala, o investimento privado? de risco, principalmente, em todos os degraus da escada de valor de criação e evolução de novos negócios inovadores de crescimento empreendedor? EUA, coréia, china, israel e, mais recentemente, inglaterra e chile estão fazendo isso. aliás, chega a ser constrangedor ver startups brasileiros sendo levados para o chile [veja isso aqui, startupchile.org, “…a program of the Chilean Government to attract world-class early stage entrepreneurs to start their businesses in Chile”]. dos 110 projetos de 28 países escolhidos pelos chilenos para 2011, 4 são brasileiros [e 13 são argentinos].

nossa infraestrutura é deficiente, disso sabemos há muito. vamos criar e operar, a sério e a longo prazo, políticas, estratégias e financiamentos para o setor privado resolver o problema?… o japão fez isso, há tempos, forçando a NTT, estatal, a sair de sua paralisia e agir pra não perder mercado. aqui, estamos tentando criar uma estatal para fazer o setor privado sair de seu sono eterno?… por outro lado, quando há evidências que o setor privado não pode dar conta do problema pois não há renda suficiente no mercado alvo, o estado tem mesmo que intervir e isso acontece até em países muito ricos como a suécia, onde o governo está investindo mais de meio bilhão de euros para oferecer alta conectividade a populações de áreas pouco densas.

finalmente, capital: empresas de tecnologia de informação e comunicação não são construídas com empréstimos, mas com investimentos inteligentes, que têm agenda, design, conectados a múltiplas redes de valor.  e isso tem que estar associado a muitas outras condições, como uma política de encomendas estratégicas, ao invés de compras governamentais [já falamos disso aqui]. esta é uma constatação global, não é algo que serve para o brasil ou países em desenvolvimento.

nem tudo está perdido. o que perdemos até aqui foram os primeiros 15 anos de negócios da economia das redes, da informação e do conhecimento. isso não deveria ser razão para não olharmos o futuro de forma curiosa, confiante e decidida. há 100 anos, china, japão, coréia, índia, israel, finlândia e mesmo EUA não existiam num cenário industrial global dominado por uns poucos países europeus. israel, então, não existia literalmente. e eles não chegaram onde estão por acaso. nós tampouco chegaremos em qualquer lugar relevante só dependendo de acasos.

mas podemos fazer mais, muito mais. e podemos começar já. ontem.

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PS: acima, uma sessão do conselho nacional de política industrial e comercial, em 1944. o conselho, cuja missão era desenhar o país do futuro, depois da guerra, teve vida curta: criado em 1944, fechou em 1945. mesmo assim, foi palco de grandes debates, protagonizados por roberto simonsen, eugênio gudin e muitos outros. mas foi só, ao fim e ao cabo, palco. e por pouco tempo.

pra desenhar um futuro no presente, de verdade, pro futuro, precisaremos de muito mais que palco. senão, mal comparando, ainda veremos um mário, sobrinho de roberto, inaugurando fábrica de alguma “cobra” do futuro daqui a 30 anos, como parte de uma reserva de mercado da época, como na foto abaixo, de 27 de julho de 1979.

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