Terra Magazine

quinta-feira, 28 de julho de 2011

um crescimento amazônico

pra quem achava, muito tempo atrás, que e-commerce não ia "dar dinheiro", taí a curva de crescimento dos negócios da amazon.com nos últimos dez anos…

…onde se vê que o volume de negócios aumentou quase vinte vezes desde 2000 e cresce, ainda, a taxas superiores a 50% por ano. não é coisa pouca para um negócio que já tem mais de 15 anos.

no começo, a amazon.com era uma livraria. depois, o maior shopping center do planeta. agora, além de ter virtualizado o negócio de livros com o kindle [a plataforma, e não só o dispositivo; quase US$5.5B este ano] e entrar no mercado de aplicações móveis e dispositivos de informatização pessoal [vem aí o tablet da empresa, sobre a plataforma android]…

…a amazon criou o primeiro e até agora mais efetivo negócio de infra e serviços computacionais e de informação sob demanda na internet [amazon web services, AWS]. não é coisa pouca: AWS, criado do zero a partir de 2006, já aponta para uma receita de US$2.5B em quatro anos.

a amazon começou do zero. o kindle também, apesar de canibalizar parte do negócio de venda de livros físicos. mas o impacto, aqui, é sobre a venda dos "livros dos outros" e não da amazon, que continua vendendo os livros, agora digitais, em volume ainda maior que físicos. e AWS também veio do zero, como parte dos dois níveis inferiores da "torre de software" de que falamos no texto passado aqui do blog.

isso é parte da explicação da curva lá em cima. inovações que não entram em conflito [direto, pelo menos] com negócios já existentes e sobre as quais não há uma arenga institucional relacionada à "proteção" de núcleos de receita e poder na corporação. resultado? mais receitas e mais lucros.

pra ter uma idéia da bronca num outro negócio onde o "novo" entra em conflito permanente e explícito com o "velho" e quais são as consequências para a receita, no tempo, olhe o gráfico abaixo…

chart of the day, microsoft, profit, income by division, july 2011

…que mostra cinco anos consecutivos de prejuízos da divisão de "serviços online" da microsoft. redmond, certamente, tem competência para "fazer" alguns dos melhores "sistemas online" do mundo. mas o tal do "online", lá, pode nunca ter tido a prioridade estratégica que kindle e AWS tiveram, na amazon, por causa do conflito em potencial com outras áreas de negócio da empresa. pra explicar o prejuízo do online, talvez a gente devesse olhar para o tamanho do lucro da "divisão office" do negócio de steve ballmer, muito mais lucrativo agora do que há cinco anos. o problema é… isso é sustentável por quanto tempo?

se eu fosse a microsoft –ou qualquer outro negócio, digital ou não, hoje- olhava mais para a amazon. muito mais. e muito mais de perto. afinal de contas, aquela curva lá em cima não é brincadeira…

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

TICs: software, produtividade e emprego

fato 1: sempre que o crescimento de um mercado passa a depender, linearmente, da existência de capital humano qualificado, irá surgir uma inovação que fará tal mercado independer do tal "capital humano qualificado".

exemplo: telefonistas. as centrais telefônicas manuais exigiam a presença de telefonistas para realização de ligações. com o crescimento exponencial do mercado de comunicação telefônica, ficou óbvio que não seria possível colocar quase toda a população para realizar as ações elementares que conectavam um telefone a outro. uma inovação radical, a central telefônica automática, praticamente eliminou o trabalho e, consequentemente, o emprego de telefonista.

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lembrete: as mudanças deste porte não acontecem de uma hora para outra, o que leva muita gente a pensar que não vão acontecer. e isso é usado como argumento contra o futuro e para criar uma pseudossegurança no presente. no começo do século XX, comentava-se na inglaterra que não demoraria muito para que a metade do país estivesse trabalhando como telefonista para conectar chamadas para a outra metade.

mas o sistema automático, que começou a ser criado em 1888 a partir de desconfianças de um agente funerário em kansas city [!], levou décadas para ser usado em larga escala. e as últimas centrais manuais, como a mostrada abaixo, só foram desativadas na década de 70 passada nos países mais ricos, e muito depois nos países em desenvolvimento. o centro de informática da UFPE tinha uma delas, funcionando perfeitamente, até a metade da década de 90.

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fato 2: tudo é software. a economia inteira –que é, cada vez mais, da informação e do conhecimento- está se estruturando sobre software. na camada inferior uma "torre de software", está a infraestrutura física, a eletrônica de computação, comunicação e controle que cuida da manipulação e logística da informação "fisica". acima dela, o software básico, como sistemas operacionais, bancos de dados… que fornece os serviços essenciais, os fundamentos para o desenvolvimento de aplicações, que é o software que realmente interessa às empresas, pois são o suporte essencial aos seus modelos de negócios. o que a "torre de internet" é para comunicações [e conectividade, lado esquerdo da figura abaixo], a "torre de software" é para aplicações que provêem as funcionalidades [de suporte aos processos de negócios].

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nenhum negócio faz ou usa software [ou capital de giro] "porque gosta", mas porque é essencial para seus processos de negócios, para suas estratégias e operações. mas o fato puro e simples é que, se "desligarmos" o software, quase toda a economia, como conhecemos, vai parar. dos sinais de trânsito aos meios de transporte, dos geradores de energia aos sistemas de transmissão, dos estúdios às televisões, passando pelos elevadores, relógios e, claro, celulares, computadores e a rede.

fato 3: a escassez de capital humano para realizar todas as ações da rede de valor de software é crítica e global. e não tem solução no curto ou médio prazo, a não ser treinar boa parte da população mundial para fazer software.

aqui é onde entra a "sindrome da escassez de telefonistas", na sua versão moderna. não há como imaginar que a metade da população vá escrever, manter e operar software e sistemas intensivos em software para a outra metade. porque há muito mais a fazer e porque, feitas as contas, é possível sistematizar e automatizar uma parte considerável do que, outrora, precisava ser feito por humanos [na economia de software e serviços intensivos em software] e, hoje, pode ser feito por… software.

e você perguntaria… como assim? assim: uma boa parte dos serviços de instalação, operação e manutenção de infraestruturas e sistemas de informação pode e está sendo automatizada. serviços que exigiam  humanos educados para realizá-los estão sendo automatizados à medida que são padronizados e se aprende como executá-los de forma cada vez mais sistemática. e quando se chega ao entendimento que a especialização de tais infraestruturas representa um custo adicional insuportável para a maioria dos negócios. logo, melhor usar o "padrão".

resultado? a previsão abaixo, do gartner group… [neste link].

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o que são os IT services, onde "vai desaparecer" 25% das horas de trabalho até 2015? são os serviços associados aos centros de processamento de dados [os "data centers"], os serviços de manutenção e suporte técnico das infraestruturas de computação e comunicação dos negócios, os serviços associados à computação em nuvem [ou "cloud computing"]. veja este cardápio da IBM sobre tais coisas.

o que diz o slide do gartner group? que a automação de tais serviços é iminente e vai comoditizar uma parte do trabalho, reduzindo os custos e fazendo desaparecer funções, trabalho e empregos. que firmas atuando no mercado de IT services estão desenvolvendo ferramentas de automação e que este processo está se acelerando, inclusive pelo aumento da pressão sobre os custos e a indisponibilidade de capital humano.

consequência? se você trabalha em "suporte" ou se sua empresa é de "suporte", ponha as barbas de molho. e faça isso se preparando para subir alguns degraus na escala de valor de conhecimento e prática na "torre de software", assim como deveriam ter feito as telefonistas e, em TICs, os digitadores, duas décadas atrás. a hora é agora. depois, quando acontecer, será tarde demais.

perguntas? sim, pelo menos uma: nesta tal "torre de software", há algum "lugar seguro", atemporal? sim, claro: aprenda a programar, bem, sobre fundações de algoritmos e estruturas de dados e uma boa noção de complexidade computacional. estas competências estão agora, e estarão, eternamente, em altíssima e bem remunerada demanda, até porque sempre precisaremos delas para transformar tudo ao redor em… software.

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

informática: padrões & políticas

o texto no fim deste post foi publicado neste link em fevereiro de 2006, logo antes do carnaval. e volta à cena por causa deste outro, publicado anteriormente aqui no blog, sobre uma "nova" política de informática para o brasil, mais uma vez focada na substituição de importações.

comentários ao segundo texto, pedindo alternativas à constatação de que temos [ou teremos?...] uma política de substituição de importações me lembraram do velho artigo dos tempos em que estava para sair um "padrão" de TV digital por aqui.

lá em 2006, definimos um padrão de TV digital [não no carnaval, mas no são pedro] para um dos mercados mais importantes do planeta, o nosso. a corrida toda foi para "definir o padrão", como se diz, ao invés de se criar todo um ambiente, incluindo política industrial, mais investimentos estatais e privados, que pudesse tornar o brasil –um dos principais mercados, como já se disse- um dos principais atores do jogo econômico mundial para o setor.

na china, ao contrário daqui, o problema de padrões e políticas industriais vem sendo tratado, há décadas, de forma sistêmica. caso seja de seu interesse, leia the role of standards in national technology policy in china, de mu rongping e wu zhuoliang, standardized confusion? the political logic of chinas technology standards policy, de michael murphree e dan breznitz, china standard time: a study in strategic industrial policy, de greg linden e, por fim, china’s impact on the global economy: from china price to china standard, de david bach, abraham newman e steven weber.

e o meu texto lá de 2006 diz isso: enquanto estávamos definindo um "padrão" brasileiro, derivado de um padrão japonês que é minoritário no mercado mundial, a china estava definindo uma política inteira, baseada também num padrão, para dominar o mercado mundial de TV digital em seja lá que padrão for. o plano [desde 2000...] é ser o maior fornecedor mundial em 2015 e, depois disso, nas próximas gerações, forçar um padrão chinês. e passar parte da fabricação, que agrega muito pouco valor, para terceiros ou quartos, que tenham custos competitivos para o mercado global.

pois bem: lançamos o nosso "padrão". que se saiba, até agora, ele não criou ou alavancou qualquer indústria nacional. até porque a interatividade, que era só nossa, ficou de lado, esquecida pelas TVs. que sempre acharam que TV digital era só HDTV e essa coisa de interatividade era uma roubada [pra eles, emissoras de TV].

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enquanto isso, lá vem a china, rápida e sempre, atrás dos mercados de todo mundo, incluindo o nosso. a foxconn, aliás, pedra de toque chinesa do novo estado de coisas, é um fabricador-de-qualquer-coisa, uma fábrica genérica que vai, muito provavelmente, fabricar TVD aqui, também. substituição de importações é isso aí: entramos com o mercado, agora, e entramos pelo cano, depois.

o texto de 2006 tinha a ver com isso e está replicado, na íntegra, abaixo. boa leitura.

Pelas alegorias que vinham sendo avistadas nos barracões e pelo batuque, acertos e evoluções na quadra,  até parecia, umas semanas atrás, que o G.L.R.C.C.M.TV.D. - Grêmio Lítero-Recreativo Cultural Carnavalesco Misto TV Digital - ia mesmo sair em tempo de Momo. Seria melhor desfilar um pouco depois, segundo quem não via enredo e evoluções prontas, quanto menos ensaiadas e havia uma certa confusão na torcida: sem tempo pra entender as alas do desfile, havia gente muito importante nas arquibancadas e camarotes ensaiando, por sua vez, uma estrondosa vaia bem no meio do desfile. Mas, segundo parte da diretoria, Carnaval é só uma vez por ano, vem aí, e não há tempo a perder, que depois é Cinzas.

Nas últimas poucas semanas, no entanto, algo parece estar mudando. A decisão sobre o sistema de TV digital a ser usado no país é a mais importante, em termos de impacto industrial e cultural, que será tomada pelo governo, em informática, na década. A outra, que não veremos nem tão cedo, seria uma política de inclusão digital, capaz de criar um mercado de muitos bilhões de reais para envolver algumas dezenas de milhões de pessoas a mais no grande desfile da internet. A chegada da TV digital, que de uma forma ou de outra aponta na passarela, vai mudar o país inteiro: mais de 9 em cada 10 famílias têm TV, há centenas de estações, repetidoras, estúdios, uma cadeia de valor complexa e sofisticada e muitas dezenas de bilhões de reais de negócios nas próximas décadas.

Para uns, a decisão chega atrasada, pois deveria ter sido tomada no fim do último governo. Para outros, é açodada, pois os sistemas existentes estão a ponto de ter sua segunda, mais avançada, versão em pouco tempo. Isso poderia levar o Brasil, caso tivéssemos a competência negocial para articular com os vários modelos existentes, a ser o primeiro onde uma fusão de modelos - um padrão mundial de próxima geração - entrasse em operação, com óbvias vantagens para todos os envolvidos no padrão local. Aliás, mundial. Por outro lado, poderíamos pender para um lado e, escolhendo a próxima geração de um certo padrão, alavancarmos a capacidade nacional de participar nos destinos de um possível padrão dominante nas próximas décadas…

Enquanto isso, a China, que como nós está à busca de um padrão, manda avisar que não acha que padrões farão qualquer diferença. O divisor de águas, segundo os práticos planejadores chineses, será a política industrial associada ao novo modo de ver e interagir com TV. Por isso mesmo, a China não vai anunciar, em 2006, um padrão, e sim uma política industrial para TV digital.  A China fará isso porque entende não ter a massa crítica de conhecimento e capital humano para atacar um padrão como um todo e vai incentivar - ou ordenar - suas empresas a fazer parcerias com os grandes fornecedores internacionais de tecnologia. O resultado é previsível: dentro de poucos anos, televisores chineses de todos os padrões em qualquer lugar do mundo…

Nas quadras de Brasília, o ensaio que se ouvia, uníssono, até a poucos dias, era o oposto de Beijing: tudo indicava que íamos anunciar um padrão e “convocar” a indústria para atendê-lo. Como quase não há indústria nacional na área, talvez a decisão fizesse sentido. Ou não: a definição de padrões é sempre uma oportunidade de criar mercados e indústrias, no mais das vezes exportadoras. Mas as indústrias e investidores nacionais pareciam estar, se muito, nas arquibancadas. E ensaiando a tal vaia. Ocorre que forças outras entraram no desenvolvimento do enredo e na arrumação do pagode, na rua, e parece que está começando a haver - antes tarde do que nunca - uma discussão baseada em conhecimento real do negócio de TV e TV digital, quando antes parecia que escolher um modelo de TV digital para o Brasil era apenas uma questão de definir a camada, digamos, "aérea", do sistema inteiro. Se for pra confiar nos boatos desta semana, não só parece que estamos discutindo tecnologia e modelos de negócio e investimentos, além de contrapartidas para a eventual adoção de um modelo já estabelecido… mas também qual a participação do país, pela via de sua capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, na evolução de um tal sistema.

Santa Clara, padroeira da televisão, vai ver, está entrando no samba e no Carnaval. Até pelas sábias palavras de Caetano, que parecia saber que um dia a gente até poderia usá-las num debate sobre escolhas, na TV digital: "Santa Clara, padroeira da televisão/ Que o menino de olho esperto saiba ver tudo/ Entender certo o sinal certo se perto do encoberto/ Falar certo desse perto e do distante porto aberto/ Mas calar/ Saber lançar-se num claro instante…".

Tomara. Tomara que ainda dê tempo pra pensar profundamente - antes do tal anúncio - os negócios de TV digital, sem o que a alegoria nacional de política de tecnologia, industrial e comércio exterior não impressionará muito a comissão julgadora. E a favorita pro nosso Carnaval Digital, talvez, passe a ser a Unidos de Beijing, desfilando o tema Festival da Primavera Industrial na TV Digital do Brasil

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

a nova política de informática

o brasil está desenhando uma "nova" política nacional de informática, cujo propósito aparente é a atração de grandes empreendimentos globais de tecnologias de informação e comunicação para o país, seja na forma de laboratórios de pesquisa e desenvolvimento ou fábricas.

e a palavra correta parece ser atração mesmo, e não criação. sendo de "atração", o efeito que teremos, se tudo correr bem, será um certo número de operações internacionais se instalarem no brasil, quase sempre para suprir o mercado local. isso porque os incentivos oferecidos como parte da nova política compensam o custo de importação e o risco de contrabando, mas não nos tornam competitivos [por razões amplamente conhecidas] no mercado global.

sob vários aspectos, estamos entre os maiores mercados mundiais de informática e telecom. e temos importado insumos e produtos de tal forma que as luzes vermelhas da balança comercial acenderam no planalto há tempos. este blog já discutiu o assunto múltiplas vezes. mas vale a pena lembrar que seriam necessárias mais de três vezes as exportações do complexo de soja só para compensar o déficit da balança comercial de eletro-eletrônicos previsto para 2011, acima de trinta bilhões de dólares.

tivéssemos cuidado da política de informática original, lá das décadas de 70 e 80, é provável que o brasil estivesse em outro patamar de competências tecnológicas, industriais e negociais, no espaço global, em tecnologias da informação e comunicação. mas qualquer análise da política de informática original vai descobrir que seu fracasso se deveu ao fato dela ter se tornado nada mais que uma política de substituição de importações para um mercado fechado.

parecidíssima, por sinal, com a "velha" e original política industrial que "trouxe" a indústria automobilística para o país. temos um dos maiores mercados de automóveis do mundo, muitos fabricantes internacionais aqui instalados e vivendo de um "lucro brasil" que não existe em nenhuma outra geografia. mas nenhuma fábrica brasileira de volume e classe mundial. agora [como se não bastasse...], estamos sofrendo uma invasão de fábricas chinesas e produtos idem..

TICs tem que ser uma das grandes estratégias nacionais na economia e indústria do conhecimento. porque é um grande mercado em si mesma e porque é transversal, sendo parte considerável dos insumos de quase todas as outras cadeias de valor.

estamos vivendo o auge, talvez, da onda mundial de inovação em torno de TICs. é muito provável que, dentro de 20, 30 anos, estejamos atrasados, como estamos hoje, dentro de outra onda mundial de inovação centrada em sustentabilidade, sistemas holísticos, biológicos, engenharia genética e o que mais.

o nosso tempo seria, pois, uma das últimas oportunidades para "acertar o passo" do que poderia vir a ser uma política nacional de competitividade no cenário mundial de tecnologias de informação e comunicação.

mas, ao definir uma política de atração de labs e indústrias já estabelecidas no mercado mundial, sob pressão de uma balança comercial insustentável no médio prazo [resultado dos múltiplos erros de políticas anteriores], será que isso também é um reconhecimento tácito da baixa capacidade tecnológica, investidora, inovadora e empreendedora do brasil e dos brasileiros?

ao centrar o que deveria ser uma política nacional de inovação em informática na atração de empreendimentos globais para substituição de importações, aliado a obrigações de um "processo produtivo básico" que exige conteúdo nacional relevante no longo prazo, será que estamos cientes da complexidade da verificação do atendimento de tal determinação… e aparelhados para cobrar das indústrias? fizemos uma avaliação de como isso foi feito na política de informática [quase] passada e estamos contentes com os resultados?

as obrigações de investimento da política de informática em vigor resultaram na contratação de muitas centenas de milhões de reais em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país, pelas empresas beneficiárias da lei vigente. dito isto, as evidências de que tal investimento tenha resultado em aumento significativo de conteúdo nacional em equipamentos e sistemas produzidos por aqui são pontuais. e não há sinal de que o investimento em P, D e I tenha aumentado a competitividade internacional da produção de base nacional.

depois de quarenta anos da primeira política de informática, aquela da reserva de mercado total, depois muito flexibilizada, a impressão que se tem é que estamos revisitando o ponto de partida, sem revisitar as razões pelas quais, de lá pra cá, continuamos pouco competitivos no mercado global.

o problema de falta de competitividade da indústria brasileira é estrutural e de dificílima solução. tratá-lo de forma adequada exigiria mudanças radicais até nas receitas e gastos públicos. daí porque atacar a conjuntura, o que é muito mais fácil e dá retornos e resultados aparentes em prazos muito mais curtos.

o danado é que as soluções conjunturais para problemas estruturais não são sustentáveis… razão pela qual… estamos onde estamos e, pelo andar da carruagem das soluções nacionais, onde ficaremos por muito, muito tempo ainda.

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terça-feira, 19 de julho de 2011

a rede em risco

imagea OSCE, organization for security and co-operation in europe, maior organização regional de segurança do planeta, perguntou aos 56 países membros quais deles têm legislação específica para garantir a neutralidade de suas infraestruturas de suporte à internet. a resposta está no pie chart deste parágrafo: só um, a finlândia, país de longa e estável tradição democrática.

nos estados unidos, entre outros países, há regras [mas não leis] que os órgãos reguladores tentam impor às teles, fixas e móveis, com o propósito de garantir bases iguais de serviços para todos. no caso americano, isso quer dizer que os serviços têm que ter…

i. Transparency. Fixed and mobile broadband providers must disclose the network management practices, performance characteristics, and terms and conditions of their broadband services;

…transparência: nós usuários, temos que saber quais são as práticas dos provedores; o que e como é feito para tratar o tráfego em suas redes;

ii. No blocking. Fixed broadband providers may not block lawful content, applications, services, or non-harmful devices; mobile broadband providers may not block lawful websites, or block applications that compete with their voice or video telephony services; and

além disso, nenhum conteúdo ou aplicação [legal] pode ser bloqueada, mesmo que seja competição para os serviços das operadoras e…

iii. No unreasonable discrimination. Fixed broadband providers may not unreasonably discriminate in transmitting lawful network traffic.

…não pode haver qualquer discriminação de tráfego.

no brasil, a neutralidade da rede faz parte da discussão sobre o marco civil da internet, processo que está sendo atropelado pelo AI5 digital, projeto de vigilância e criminalização de comportamentos em rede que vem da época em que o deputado azeredo era senador. a isca, para o legislativo, é óbvia: enquanto garantir acesso universal e neutralidade de rede é por natureza complexo e difuso [até porque atende interesses difusos da sociedade] a vigilância e criminalização de comportamentos em rede atende diretamente a mercados e empresas que têm interesses explícitos e ampla capacidade de fazer campanha por eles.

isso é aparente no estudo da OSCE, onde se vê um número muito maior de países que restringe comportamentos do que promove acesso universal, de qualidade, neutro… e por aí vai. veja o número de instâncias de "outlawing" na imagem abaixo, que você pode ver em maior detalhe na página 224 do estudo da OSCE.

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continuando nessa pisada, qual é a tendência de longo prazo? claramente, é a transformação da rede em "mídia" e "sistema de comunicação" controlado pelos mesmos centros de outrora [e do presente, em muitos lugares], contra os princípios e interesses democráticos e libertários que nortearam o nascer e evoluir da rede até agora. e todo e qualquer incidente e contexto é usado, pelos defensores do antigo status quo, para justificar suas tentativas de controle da internet.

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a seguir, um texto que publiquei na folha de são paulo no dia 7 de julho pp., onde defendo que a discussão e estabelecimento do marco civil para a rede deve, necessariamente, ocorrer antes de qualquer outra tentativa de legislar sobre a internet no país, até porque não há nada de novo no front que leve a uma mudança de prioridades. o que há, parece, é uma necessidade pouco explicada de mostrar serviço a sabe-se lá quem. ou… sabe-se?…

Crime e Castigo na Internet

Como é de conhecimento geral, sites de todas vertentes e níveis de governo estiveram sob ataque de um enxame de hackers nas últimas semanas. Muitos foram derrubados e uns poucos invadidos, o que podia interromper a prestação de serviços à cidadania e empresas. Não que isso tenha acontecido; serviços essenciais como a Receita atravessaram incólumes o tsunami.

Defensores da internet vigiada entendem que só isso já é motivo para acelerar a passagem da Lei Azeredo (o “AI-5 digital”) pela Câmara, onde a proposição se encontra depois de aprovada pelo Senado. Mas não é. O surto de ataques e os sites de e-gov prejudicados são resultado de um fenômeno muito mais básico e, por isso mesmo, endêmico na administração pública: a falta de políticas e estratégias e, na presença delas, a incapacidade operacional.

Segundo relatório recente do TCU, nada menos de 65% dos órgãos federais não têm uma política de segurança da informação (veja http://bit.ly/lUQni0), o que tira muito da graça de derrubar seus sites e invadi-los para subtrair, aqui e ali, informação via de regra irrelevante.

Nos últimos 15 anos, toda uma geração cresceu na internet, íntima de muitos de seus segredos. Parte dela transformou tal intimidade em ferramentas que tornam possível, a quase qualquer um, feitos que o imaginário, ao desconhecê-las, atribui à genialidade. Menos, muito menos do que isso está em jogo na vasta maioria dos casos.

Mas é certo que a geração hacker cresceu à margem do veio social, ignorada e, ao mesmo tempo, quase sempre ignorando um mundo onde quase ninguém sabe o que é ou joga World of Warcraft. E muito menos do que é capaz uma linha de comando na hora e lugar certos. Esta separação levou a visões de mundo, de cada lado, que são de difícil articulação sem que se faça um esforço consciente, coerente e de longo prazo para atrair hackers de todas as matizes para o jogo social. De pouco ou nada adianta um “dia do hacker” no governo, sem que haja uma política continuada de absorção de suas competências pela sociedade.

Até porque não há uma guerra, no sentido de assaltos premeditados, liderados e articulados, que visam causar danos às infraestruturas de informação essenciais à sociedade e economia. Pelo menos por enquanto: na onda de ataques de que falamos, não se tentou invadir bancos, roubar senhas, inviabilizar serviços e utilidades públicas.

Existe, sim, uma ideologia juvenil, dispersa e pouco articulada, de combate à corrupção, especialmente da classe política. E uma crença de que muito se pode descobrir sobre os porões do poder nos repositórios de informação espalhados pelos órgãos públicos. E que sua exposição levaria a culpados muitos. Fala-se de licitações fraudadas, trocas de emeios entre interessados em dilapidar o erário, mas pouco se produziu, até agora, de substancial e comprovado.

Isso quer dizer que não estamos procurando um (ou melhor, muitos) Raskólnikov: nada, ainda, foi destruído, direta ou colateralmente. Tampouco há qualquer adolescente com um teclado na mão e um drama psicológico na cabeça, atormentado pelos seus atos “contra” o sistema. Ainda não chegamos neste nível de consciência, trama e trauma. Mas podemos chegar, e os culpados, merecedores de castigo, estarão muito mais do lado de cá, por não entender e saber capturar o imaginário de uma geração, do que de lá, que podem começar a entender e saber usar, cada vez mais e como a geração 68, seus recém-adquiridos poderes.

Usar uns poucos e irrelevantes incidentes, devidos mais à incompetência de gestão e operação públicas do que às capacidades dos hackers, como argumento para acelerar a criminalização comportamentos em rede, antes que se discuta e decida por um marco civil para a internet no Brasil é mais do que botar o carro à frente dos bois. É ignorar a imensa comunidade que vem, paulatinamente (sim, leva tempo) tentando criar um marco legal para uma rede cidadã, e não um ambiente viciado e vigiado onde seremos, todos, culpados até prova em contrário.

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

mobilidade: mudanças na ecologia…

Tags:, , , , , , - srlm às 09:48

olhe para o diagrama abaixo, da vision mobile

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…descrevendo [parcial, abstratamente] a ecologia de android, e se pergunte o que mudou no cenário econômico de mobilidade de uns tempos pra cá.

o relatório de onde esta imagem veio é bem recente e analisa como marcas e desenvolvedores estão tentando ganhar dinheiro numa nova economia de mobilidade, representada pelas "grandes plataformas" como android, iOS, RIM e windowsPhone, que vem por aí.

se você ainda não notou o que mudou, aqui vai: olhe à direita, onde está o smartphone, e veja que ele é descrito como sendo fabricado por "OEMs", que vem a ser "original equipment manufacturers", a galera que faz os aparelhos a partir de projeto, ordem e encomenda de terceiros. no caso da apple, isso é a mais pura verdade: a empresa de cupertino não tem fábrica há tempos e usa uma ampla rede de fornecedores e fabricantes para fazer os produtos que levam sua marca.

no caso de google, isso é menos claro mas o diagrama, forçando a barra, mostra como as coisas estão se desenrolando para os fabricantes de hardware e serve para explicar um bom conjunto de coisas sobre muitos deles.

ao não perceberem que o aumento significativo da sofisticação dos equipamentos iria centrar a percepção de valor do usuário na experiência de uso, provida pelo hardware mas controlada e apresentada pelo software, os fabricantes cuja especialização era mais claramente de hardware parecem ter perdido o bonde da história e entregue o valor de suas ecologias às empresas que controlam a plataforma, como apple, google e microsoft.

no caso da terceira, isso já era verdade há tempos, mesmo sem o controle radical exercido pela apple. qualquer máquina rodando windows é uma máquina rodando windows, seja ela qual for, e é exatamente isso que permite que, ao não gostar do meu atual provedor de hardware ["meu" OEM] eu troque para outro num piscar de olhos, sem perder nada significativo da experiência de uso.

a apple pode trocar de fornecedor –OEM- sem que você perceba. a microsoft já podia desde o princípio pois, ao contrário da apple, nunca foi fabricante de hardware. e agora, google: se podemos trocar nosso android X por um Y sem que uma parte significativa da experiência de uso seja modificada… é porque o fornecedor de smartphones foi reduzido a um OEM e vai ter que ralar muito, muito mesmo, para se diferenciar de dezenas ou centenas de outros que estão fazendo [quase o] mesmo hardware.

na minha ou sua mão, o que vai interessar mesmo são as camadas acima do físico, onde a sorte da plataforma é decidida…

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quinta-feira, 14 de julho de 2011

a web, o social, os jornais

srlm às 08:20

quanto maior a penetração de redes sociais…

maior a queda na circulação [paga] dos jornais. e o brasil é uma exceção. a circulação paga, por aqui, aumentou 20,7% entre 2005 e 2009, enquanto na áfrica do sul observou-se um aumento de 6,1%. se os dados dissessem a mesma coisa, do mesmo jeito, para todas as geografias, ou a áfrica do sul deveria ter tido um crescimento de 10% ou o brasil um de 12% [ou coisa parecida]. mas não foi isso que rolou.

podemos assumir que o aumento de penetração de internet e redes sociais, a níveis ingleses e americanos, vai diminuir a circulação paga dos jornais e a propaganda, neles, a ponto de inviabilizá-los? não se sabe: é o que vamos ver nos próximos dez anos.

sabe-se, ao certo, que o investimento de marketing na "midia" web já passou o rádio e está indo atrás das revistas e jornais, como mostra o gráfico abaixo para os gastos em anúncios no brasil em 2010.

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meu chute? até 2015, os investimentos brasileiros em marketing na web [aí incluídas as redes sociais] serão superiores aos das revistas e jornais. e até o fim da década o investimento na TV aberta [excluindo esportes] vai estar igual ou menor do que os recursos destinados à web como um todo [aí incluídos os investimentos em mobilidade].

na década passada, vale lembrar, os investimentos em TV só cresceram 10%, o rádio caiu 10%, os jornais 40%… enquanto a web [no brasil] viu o aporte em marketing crescer três vezes.

mas… por que ainda cresce a circulação de papel em regiões como o brasil, méxico, quase toda áfrica, india e ásia?  será que é porque, nos países emergentes, ainda estamos chegando na fase de "ler um jornal [de papel}", coisa que o resto do mundo está começando a deixar de fazer?

é capaz: entre muitos efeitos similares, professores da rede pública de um número de estados brasileiros começou a ler jornais recentemente, como parte de políticas de melhoria da qualidade do ensino que entendem que os professores... devem ler jornais.

mas será que ler os jornais que os professores estão lendo tende a melhorar alguma coisa na qualidade do aprendizado a seu encargo?... especialmente quando se considera a qualidade dos jornais [excetuando-se os poucos, de sempre] que eles estão lendo?…

será [para o bem dos alunos e do futuro do país?...] que a maior parte dos professores que recebe o jornal como parte do pacote educacional de seu estado está usando a maior parte dos jornais para o fim a que o papel-jornal mais se presta, o de limpar vidros em geral e, onde não houver vigilância sanitária, embrulhar peixe?

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

a economia das APPs

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semana passada tuitei um dado sobre a rentabilidade das aplicações depositadas no appStore da apple…

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…e várias pessoas entraram na conversa imediatamente, chamando a atenção para o fato de que downloads pagos e gratuitos estavam no mesmo saco.

tudo bem, a ideia era esta: para "vender" alguma coisa num appStore, quase todo mundo oferece algo grátis e cobra pela versão completa, profissional, sem anúncios, o que for que a diferencie da básica. o modelo de negócios freemium, aliás, começa a se estabelecer como "o" modelo para jogos móveis, que de resto ocupam 75% das posições entre as 100 apps com maior número de downloads em qualquer appStore.

AppStore Top100GrossingGames Freemium vs Premium resized 600

a conta lá do tweet, que vem de informação de techMeme, diz que somando apps pagas e gratuitas, a renda por app é US$0,17, o que dá alguma coisa perto de R$0,27. a apple fica com 30% do total pago; os números acima se referem ao que é pago aos desenvolvedores. o appStore da apple está registrando, hoje, 24 milhões de downloads por dia, sobre um universo potencial de 425.000 aplicações disponíveis.

se tudo fosse igual para todo mundo, cada aplicação teria perto de 60 downloads por dia, correspondendo a uma renda de pouco mais de R$15, ou perto de R$450 reais por mês. se você fizer uma destas tais aplicações "médias", é isso que você pode esperar, durante o tempo de vida da sua aplicação, algo como dois anos.

ocorre que mais de 50% das aplicações não chega a 1.000 downloads durante todo seu ciclo de vida; se vocês estiver nos 50% que consegue pelo menos 1000 downloads, são R$270 em caixa. e isso é um problema para boa parte das aplicações: para os jogos, o custo de desenvolvimento está entre US$10.000 e US$50.000. e esqueça anúncios: leia neste link como um jogo que teve 10 milhões de downloads rendeu apenas US$30.000, para um total de 108 milhões de anúncios servidos… cuja taxa de click-through [métrica de pagamento na maioria dos casos] não passou de 1%.

veja um pequenos estudo sobre a economia dos appStores neste link. claro que isso tudo ainda está em estágio inicial e, para quem está no jogo, trata-se muito mais [pelo menos no momento] de aprender do que lucrar.

à medida que os três [ou quatro] appStores que vão existir no futuro [apple, android, microsoft {e amazon}] amadurecerem e servirem de base para a personalização de quatro ou cinco bilhões de smartphones, os volumes aumentarão, novos modelos de negócio vão aparecer e coisas vão mudar.

apesar dos appStores terem melhorado muito o jogo para o lado dos desenvolvedores e pequenas empresas de software em relação ao que nos ofereciam [argh!] as teles, parece que ainda não chegamos ao ponto em que podemos comemorar.

é preciso bem mais do que uma ideia na cabeça e um jogo [ou qualquer outra coisa] em algum appStore para se declarar vencedor. para gerar renda de verdade e sustentar uma galera trabalhando nisso, então, é um esporte diferente, para o qual é preciso ter imaginação, estratégia, modelo de negócios, criatividade, inovação, execução… tudo o que sempre foi preciso para criar um novo negócio inovador de crescimento empreendedor.

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PS: passando bem perto do tema deste post, john battelle acaba de publicar um texto [time for a new software economy] que aponta os problemas que temos, hoje, na economia de software. battelle questiona se não está na hora de se repensar as plataformas de suporte às ecologias de aplicações e serviços, na web e móveis. segundo ele, os atuais fundamentos da indústria de software são incapazes de promover uma ecologia saudável e de longo razo. eu concordo e acho que isso tem a ver com a necessidade de uma nova classe de suportes aos mercados de software e isso, por sua vez, tem a ver com uma ideia que estamos desenvolvendo no c.e.s.a.r e na UFPE, as máquinas sociais.

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

a vida social, virtual

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relatório do projeto PEW internet and american life de junho é rico em dados sobre o comportamento americano em rede social, coisa que no brasil, por falta de pesquisas e dados, só podemos imaginar.

o texto nem é tão longo [85 páginas], vale a pena ler de cabo a rabo. e pensar no que seriam as respostas para o brasil, pois os dados têm impacto em todos os setores, das relações sociais aos negócios, passando por educação e cultura.

quer ver uma coisa muito interessante?… olhe o histograma abaixo:

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no espaço de dois anos, a participação de pessoas entre 50 e 65 anos de idade nas redes sociais subiu de 9 para 20% do total, e a presença dos maiores de 65 anos foi multiplicada por três. claramente, as redes sociais de todos os tipos deixaram de ser um fenômeno jovem para ser uma articulação realmente social. como 13% dos americanos tem 65 anos ou mais… se todo mundo, lá, estivesse em alguma rede social, quase a metade dos mais idosos estariam conectados em rede.

veja este outro histograma:

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as mulheres ganham dos homens, na presença em quase todas as redes sociais, disparado. mas isso muda em linkedIn, onde o assunto é carreira e negócios. talvez as coisas tenham mudado mesmo, na sociedade como um todo, quando tivermos uma presença feminina bem maior em redes como linkedIn.

agora olhe o histograma abaixo, levando em conta que ano que vem há eleições presidenciais nos EUA…

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note que a rede social mais influente [em termos proporcionais, dentro da própria] é linkedIn, com quase 80% dos participantes tendo ido a alguma reunião ou comício político e com 36% tendo passado pela experiência de tentar influenciar os votos de terceiros.

cada vez mais, a política vai ser feita em rede social. se este foi o caso na última eleição americana, na próxima as redes poderão definir muito mais da campanha do que fizeram até agora. ainda mais quando gente de todas as faixas de idade e renda começa a ter, nas redes, representação proporcional à demografia do mundo real.

no brasil e no mundo, no médio prazo, o efeito vai ser o mesmo, com pequenas variações aqui e ali, pelo menos nos países democráticos.

falando em brasil, tá mais do que na hora de termos estudos como o da PEW referido aqui, realizados frequentemente e publicados quase ao tempo em que o estudo é feito. não é que não se faz estudos parecidos no brasil, mas quase sempre, quando são publicados, já fazem parte da história: nos ajudam a saber o que aconteceu, mas raramente servem de termômetro para o que está acontecendo e está para acontecer.

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

zynga: um meta IPO?

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zynga: empresa americana que desenvolve jogos sociais, alguns dos mais usados e importantes [ou seja, rentáveis] dos quais rodam sobre faceBook. a série de jogos "ville" é conhecida e jogada por centenas de milhões de pessoas em todo mundo e depende de faceBook como a vida, como conhecemos, depende de água.

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IPO: oferta pública inicial de ações, primeira vez que as ações de uma empresa são negociadas na bolsa. zynga quer atingir uma avaliação entre US$15B e US$20B no mercado americano no seu IPO, trazendo perto de US$2B para o caixa da companhia. coisa de gente grande. muito grande.

meta: do grego μετά, indica um conceito [ou situação, coisa] que é uma abstração de outra, relacionada. em certas situações o "meta" depende do conceito ou situação que abstrai, não podendo existir sem ele. se você quiser, pode tratar "meta" como a virtualização de algo que lhe serve de base.

fato: zynga não existiria [ou seria muito menos do que é] se não fosse faceBook. ao prover uma API [uma interface de programação aberta] para que terceiros desenvolvam seus programas sobre o grafo social que é seu negócio, faceBook promoveu a criação e evolução de toda uma classe de aplicações sociais e empresas que as fornecem para sua comunidade.

observação: qualquer movimento brusco, ou mal pensado, ou de efeito colateral indesejado, de uma plataforma como faceBook pode ser fatal para o nível meta, ou seja, para as empresas que dependem de faceBook ser o que é e evoluir, ele mesmo, junto com sua comunidade de desenvolvedores.

é isso que o mercado vai observar com cuidado e a precificar, dia a dia, assim que zynga começar a ser negociada em bolsa. 

por isso que a abertura do capital de zynga vai ser um meta IPO em mais de um sentido. é meta em si mesma porque será o IPO de um negócio que depende de faceBook pra quase tudo. e a sorte de zynga, e o público que carregar após o IPO, como usuários e acionistas, vai afetar também o IPO de fato que todo mundo espera para breve, o do próprio faceBook.

faceBook vai atingir o limite de 500 acionistas em outubro. até aí, pode manter em sigilo seu balanço. passando disso, tem que publicar seus números, o que deveria ocorrer pela primeira vez em abril de 2012. há quem ache que a companhia vai fazer seu IPO no primeiro trimestre do ano que vem, e que vai correr atrás de uma avaliação acima de US$100B, o que tornaria a abertura do seu capital a maior de todos os tempos entre as companhias de tecnologia, quatro vezes maior do que google em 2004.

primeiro, vamos ver o que vai rolar com zynga: no meio do caminho, há uma taxa a considerar, EV/EBTIDA, o valor do negócio dividido pelos ganhos antes de impostos, juros, depreciação e amortizações. tem gente dizendo que o EV/EBTIDA que vai resultar do meta IPO de zynga vai passar de 40… 46 pra ser mais exato.

se for, você não acha que o IPO de verdade, o de faceBook, não chegaria num EV/EBTIDA de 50?… pois é, o EBTIDA da companhia de zuckerberg já está acima de US$2B, e cresce de forma que até parece, no momento, que imprime dinheiro… o que pavimenta muito bem o caminho para um IPO de US$100B ou mais.

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por outro lado, abril de 2012 está tão longe que, daqui pra lá, tudo pode acontecer. inclusive nada.

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