Terra Magazine

terça-feira, 30 de agosto de 2011

o estado do brasil digital: escola, casas e empresas

a pesquisa TIC educação 2010 que está sendo divulgada pelo comitê gestor da internet brasil, www.cgi.br, mostra que 69% dos professores com 30 anos ou menos já se conecta à internet a partir de suas casas todo dia ou quase. isso é muito bom. mas só 20% de todos os professores estão na rede a partir de suas escolas quase todos os dias. e isso é muito pouco.

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as escolas são um dos principais espaços de criação de oportunidades de aprendizado em qualquer lugar. e a rede é parte essencial do ambiente de busca, descoberta, análise, crítica, reflexão, síntese… que deveria estar associado aos processos educacionais. ótimo que os professores mais jovens estão na web em casa quase todos os dias. talvez seja este o grupo que vai fazer a rede funcionar na escola, em todas as escolas públicas de todos os lugares, trazendo a rede para o centro do processo educacional. e, com ela, quem sabe, coisas que os alunos estão acostumados a usar fora da escola, como redes sociais e jogos.

não sei se vocês já viram os garotos de 9, 10 anos jogando minecraft e o tipo de visualização e manipulação 3D que eles conseguem fazer e a rapidez e precisão que atingem. até por falta do ambiente tecnológico adequado, minha geração nunca chegou no nível de performance da garotada de hoje, a não ser os poucos que se tornaram especialistas em computação gráfica, lá na década de 90, usando estações de trabalho que custavam muitas dezenas de milhares de dólares para fazer o que a garotada faz, hoje, em laptops de mil reais.

estar na rede, claro, não significa saber usar a rede competentemente. quase a metade dos professores que usam a internet tem dificuldade em baixar e instalar um programa, como mostra o histograma abaixo, quase a mesma porcentagem que estaria com problemas se tivesse que postar um vídeo de [ou para] seus alunos na rede.

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mais da metade teria problemas sérios em manter um blog de seus cursos, mas bem mais gente consegue participar de fóruns de discussão e das redes sociais. menos mal.

bem, isso é o que os professores dizem. e os coordenadores pedagógicos, dizem o que das habilidades de seus professores? segundo eles…

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…os professores não estão tão bem assim e apenas 3% dos coordenadores acham que todos os seus professores conseguiriam manter um blog sem dificuldade, ao passo que 7% acha que todos seus professores fariam uma apresentação em powerpoint.

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só que a pesquisa é muito extensa e rica. são muitas páginas sobre o universo das TICs na escola, uma visão interessante e competente do que está acontecendo e do que falta acontecer. o histograma acima mostra que os professores estão se movendo, tentando fazer seu trabalho com a rede e na rede. se um quarto deles já usa a rede quase todos os dias para preparar aula e buscar material para a sala de aula [a taxa semanal sobe para perto de 2/3 de todos os professores], nem tudo está perdido.

a impressão que se tem é que os professores mais novos, que já nasceram mais perto dos tempos digitais e em rede [leia {ou ouça} um texto do blog sobre "tecnologia através das gerações"] vão influenciar todos os outros, serão parte do processo de aprendizado deles e, daqui a uma década, se nada de estrutural tiver sido feito para trazer todos os professores para a rede, boa parte deles, mesmo assim, estará em rede de uma forma muito melhor do que hoje.

mas esta não é a única pesquisa saindo do forno do comitê gestor. uma outra, a TIC domicílios e empresas 2010, também está na rua. e o gráfico abaixo, na página 157, mostra o que os brasileiros acham que sabem fazer com um computador. cem por cento sabem usar um mouse, 50% sabem usar uma planilha [entre os professores, 54% têm dificuldade ou muita dificuldade em fazer o mesmo] e, surpreendentemente, 18% afirmam saber programar [de alguma forma] um computador.

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se for verdade, pense numa boa notícia, nem que seja em estado bruto. com pouco mais de 40% da população usando computadores [segundo a mesma pesquisa] e perto de 20% desta galera "programando", seriam 8% da nossa população tentando escrever software, alguma coisa perto de 15 milhões de "programadores".

como tudo é software e há sinais evidentes de que vai ser cada vez mais, em todas as vertentes da economia e cultura [sabia que o carro elétrico da GM, o VOLT, é 40% eletrônica e tem 10 milhões de linhas de código, cerca de 1/5 do tamanho de windows 7?...], 15 milhões de programadores em potencial é uma riqueza natural que poucos países, mesmo os mais populosos, têm.

taí uma oportunidade –se a gente conseguisse fazer uma política pra isso e implementá-la apropriada e rapidamente- de aprendizado, trabalho, renda e, quem sabe, empreendedorismo de classe mundial. tomara que seja verdade.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

nos EUA, o fim da indústria? e aqui?

este post, de fim de tarde de sexta, não é nem análise nem reflexão sobre coisas complexas que rolam no nosso mundo virtual e no substrato concreto que o sustenta, mas uma pergunta.

será que –hoje- as partes, peças, componentes e dispositivos da indústria de TICs [tablets, laptops, projetores, smartphones...] são feitos na china, taiwan, coréia e vizinhanças porque é mais barato fazer por lá ou porque não sabemos [mais] fazer estas coisas aqui?…

ligue os links a seguir pra se perguntar e refletir no fim de semana.

a amazon deve anunciar seu primeiro tablet rodando android nos próximos dois meses. e tem que ser antes do natal, e deverá ser uma máquina bem conectada com os serviços da amazon, incluindo armazenamento e talvez outros serviços na nuvem, coisa que a empresa de jeff bezos sabe fazer muito bem. mas, pra passar no teste de mercado e sobreviver, o tablet da amazon vai ter que vender muito, senão morrerá rápido, como mostra o exemplo da HP e seu touchPad, que chegou há pouco tempo, e já sumiu, tendo seu momento de glória exatamente na liquidação de despedida. e, claro, ninguém nem se lembra do KIN, o smartphone da microsoft, que nem –por assim dizer, apareceu. foram só algumas semanas de quase nenhuma venda [isto é, sem vender alguns centenas de milhares por semana, na partida] e… fim.

pois bem. como [quase] tudo o que é vendido no maior mercado do mundo, o amazonTablet não será feito nos estados unidos. em tempos de crise profunda na economia americana, com os níveis de emprego mais baixos das últimas décadas e até gente perguntando se a noção clássica de "emprego" ainda faz sentido, a pergunta que [lá] eles estão fazendo é… será que [mesmo que fosse competitivo em custo] o kindle, os iPads e o amazonTablet poderiam ser fabricados nos EUA?

a resposta, numa série de steve denning para a forbes, é que não. a capacidade de desenho, projeto e construção associada a indústrias inteiras foi transferida, por decisões tomadas ao longo de duas ou mais décadas, para o oriente. líderes empresariais, contadores, economistas, investidores, administradores, consultores… em suma, um monte de gente que deveria estar vendo muito mais do que, pura e simplesmente, os custos diretos de um produto e sua fabricação desconstruiram, paulatinamente, a indústria americana a ponto de, hoje, a tela do iPad ser essencialmente "estrangeira".

denning cita uma lista parcial de "indústrias inteiras" que sumiram do solo americano, vinda deste artigo de pisano e chih:

“Fabless chips”; compact fluorescent lighting; LCDs for monitors, TVs and handheld devices like mobile phones; electrophoretic displays; lithium ion, lithium polymer and NiMH batteries; advanced rechargeable batteries for hybrid vehicles; crystalline and polycrystalline silicon solar cells, inverters and power semiconductors for solar panels; desktop, notebook and netbook PCs; low-end servers; hard-disk drives; consumer networking gear such as routers, access points, and home set-top boxes; advanced composite used in sporting goods and other consumer gear; advanced ceramics and integrated circuit packaging…

vale a pena ler cada um dos quatro textos de denning. lendo, ou depois de ter lido, talvez valha a pena fazer umas perguntas sobre a situação aqui no brasil: 1. que gerações de indústrias já perdemos [neste nosso tempo]? 2. quais delas, no médio e longo prazo, têm maior potencial de futuro global? 3. em quantas destas temos [pré]condições humanas e materiais para tornar o país, aqui, competitivos em seus mercados, em quanto tempo? 4. e, daqui até lá, vamos fazer o que para remediar o problema de não sermos competitivos?

noutros tempos, fazer e responder tal tipo de perguntas equivalia a criar políticas industriais, coisa que parece estar mais fora de moda por aqui do que ir de polainas à praia. tomara que isso esteja mudando e que nós não estejamos confiando nosso futuro apenas a uma fábrica da foxConn a fazer, aqui, produtos [baratos?...] da apple e similares. pode ser o pior dos mundos. pois até nos EUA, o país do mercado livre, muita gente pensa que é hora de criar –lá- uma política industrial coerente e de longo prazo.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

a guerra das patentes

a indústria de TICs está metida numa monumental guerra de patentes em que todos só têm a perder. principalmente a inovação e nós, os usuários. para se ter uma vaga ideia do tamanho da confusão, olhe o diagrama abaixo… que só trata parte da indústria de mobilidade.

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a imagem diz quem está processando quem e quem está licenciando o que para quem não quer ser processado. e representa só uma pequena parte de um estado de coisas que começou a ser criado –em larga escala- quando o USPTO, o escritório de patentes e marcas dos estados unidos, resolveu proteger ideias absolutamente triviais como "comprar algo que está numa página da web em um só click". esta é patente da amazon que causou imensa polêmica e abriu as portas para que se patenteasse quase tudo. e isso começou no agora longínquo 1999. mas a coisa como um todo vem de muito mais longe, e a primeira patente de software, inglesa, tem 50 anos.

uma década e meia depois do começo da web, que talvez tenha sido quando se tornou evidente que todo o futuro iria depender de software, todos os negócios globais têm um arsenal intelectual –devidamente protegido por lei- para processar qualquer outro. a situação é similar ao auge da guerra fria, quando a URSS e os EUA podiam se destruir mutuamente várias vezes, levando todo o resto em sua fúria. ainda bem que não rolou.

entre as grandes empresas de TICs, o litígio e seus custos só aumentam, a ponto de levar gente como google a comprar uma motorola inteira, tendo como principal argumento a "proteção do ecossistema android" contra o ataque de detentores de propriedade intelectual potencialmente danosa aos interesses das empresas que dele fazem parte.

o blog vai voltar ao assunto em breve, com uma série de textos sobre propriedade intelectual, inovação e empreendedorismo. por hoje, a ideia é só apontar para onde tudo parece ter começado: patentes de software. isso pode piorar muito no curto prazo, com o tipo de patentes que a europa planeja conceder. o que nos leva a pensar que talvez seja preciso revisar o sistema como um todo. é o que iremos discutir em outros textos desta série.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

redes e movimentos sociais e mudança real

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quem disse que a revolução não ia passar na TV enganou-se pelo menos um pouco, ontem. de mais de uma forma, as imagens [pra mim, na web] da tomada de trípoli pelas forças populares foram momentos únicos.

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passei horas trabalhando num laptop e vendo a alJazeera noutro. direto de tarābulus, binġāzī e mişrātah, a transmissão ao vivo da emissora árabe fez, em si mesma, história. e direto da confusão: repórteres no meio da multidão, parte dela armada, senhoras comemorando a tomada da capital a disparar AK-47 dos terraços… difícil acreditar que não morreu gente por acaso, feliz com o fim de mais uma ditadura árabe.

as patéticas mensagens do ditador, transmitidas pela TV estatal que ele, de alguma forma, ainda controlava, eram o contraponto à festa na rua. contra multidões na praça dos mártires, a máquina de propaganda governamental mostrava uns poucos gatos pingados agitando uma bandeira que não era mais a da líbia, pois que o povo tinha restaurado a antiga, que era de todos antes do ditador ter decretado a sua.

qual foi o papel da internet e das redes sociais na tomada da líbia pelas forças populares? difícil dizer agora, pelo menos com certeza. mas o fato é que o governo de lá desligou a rede entre o fim de fevereiro e começo de março, e só ontem o mundo começou a "ver" o país de novo em seus roteadores, e de forma esporádica.

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isso dá uma ideia do que move –verdadeiramente- o mundo. nas outras viradas árabes, a rede não desapareceu completamente ou, quando sumiu, foi por pouco tempo. o papel das redes sociais na articulação das pessoas, comunidades, resistência… foi enorme. mas, ao fim e ao cabo, não foi no mundo virtual que os "mubaraks" caíram, foi nas ruas, pela pressão ou, quando não foi possível, pela força popular.

o que nos leva ao brasil e dois marcos da nossa história: o fim da ditadura mais recente e as eleições diretas e o "fora collor". nos dois casos, ainda não havia a conectividade e a capacidade de mobilização da internet e do espaço social. o que mudou o rumo da história e das nossas vidas foi gente nas ruas, a pressão popular e insustentável, na época tanto provocada como ecoada pela grande mídia.

hoje, nas nossas redes sociais, vemos movimentos tênues "contra a corrupção", pela moralidade, como se um "trending topic" mundial feito no brasil fosse mudar o mundo. pelo menos o nosso. como se um país, uma sociedade inteira, fosse um produto. do ponto de vista social, amplo, não é um "pônei maldito" que vai nos redimir, resolver os grandes imbroglios nacionais, da nossa incompetência histórica para tratar os problemas essenciais [como a educação, fonte de quase todos eles] à nossa indisposição para mudança: queremos que tudo mude, desde que a mudança não nos afete pessoal e diretamente.

na líbia, a partir de hoje e dos próximos muitos meses, muita coisa vai mudar. uma grande rede humana e institucional vai determinar novos e emergentes comportamentos, criando novos arranjos nacionais que vão afetar a vida de quase todos, ao ponto de piorar [talvez muito] a vida de muitos que lutaram pela mudança. e que talvez, em alguns meses, estejam desiludidos, arrependidos e se tornem contra o novo tempo, saudosos de um passado que era ruim mas, de certa forma, melhor que um certo presente objetivo, prático, real, do seu dia a dia.

assim caminha a humanidade. no egito, líbia e outras geografias, ditaduras sanguinárias ficaram no poder por décadas a fio, suprimindo opinião e toda oposição, até que, com ou sem internet e rede social, não deu mais pra segurar. e tudo começou a mudar, em alguns lugares até para não mudar muito, talvez. no resto do mundo, para todas as outras mudanças, não será diferente.

se as pessoas físicas, no mundo concreto, não se movimentarem de verdade, a história recente mostra que não acontece… nada. mesmo que seja muito interessante e animado participar dos movimentos sociais virtuais, são os concretos, nas ruas, nas urnas e, quando elas não estão disponíveis, na força, que mudam o mundo.

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

o futuro, há 20 anos. e hoje?

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o futuro, vez por outra, pode ser previsto com poucos erros…

Tom Selleck, de MAGNUM, prevê o futuro pela AT&T e erra por pouco…

…em relação aos muitos acertos embutidos na maioria das previsões.

tom selleck, de MAGNUM, falando pela AT&T, nestes vídeos de 1993, prevê [de uma forma ou de outra] tablets, eBooks, GPS, videoconferência… e erra nas "cabines telefônicas" e "fax". afinal de contas, a AT&T era uma empresa de telefonia.

veja os vídeos. imagine que eles foram feitos antes da internet. e pense no que vai rolar daqui a 20 anos. estaremos em 2031…

se a lei de moore continuar valendo até lá… seu celular vai ser pelo menos 10 vezes mais rápido e ter umas 20 vezes mais armazenamento do que tem hoje. e as redes móveis –em 2031- deverão prover dezenas de megabit por segundo, por usuário, a custos bem menores do que hoje. será?… se for, quais são as possibilidades de tal infraestrutura?… quais serão os novos serviços, aplicações, os novos hábitos, processos, práticas, culturas… que podem ser criados por [em] tal contexto?

o futuro é sempre uma grande incógnita. veja o diagrama abaixo, da roland berger…

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…sobre inovações que aconteceram recentemente e podem acontecer em breve. já estamos na era do turismo sub-orbital com a virgin galactic. se tudo der certo, daqui a dez anos [na prática] poderemos ter estradas auto-reparáveis [tecnologia que é estudada há quase uma década]. mesmo? no país do DNIT, não dá pra acreditar.

mas dá pra tentar entender as "grandes ondas" de inovação por trás do que usamos nos últimos 250 anos e vamos ver nos próximos, pelo menos, 50…

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…e, certamente, muito do que vai rolar terá a ver com ciências da vida. ray kurzweil costuma dizer que se você não morrer nos próximos 20 anos, não morrerá jamais. se não quiser, claro. por outro lado, há boas razões para morrer, depois de um certo –longo- tempo de vida. se este não for o caso, uma das grandes máximas da sociedade moderna deixará de valer, aquela que diz que só há duas coisas inevitáveis, os impostos e a morte.

vai ver que, numa destas ondas de kondratieff, dão conta dos impostos também. aí deve ser a vida eterna, amém…

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

comportamento social .BR

a e-life, galera brasileira que entende de comportamento online há algum tempo, publicou uma pesquisa sobre o que os brasileiros "são" e "fazem" nas redes sociais. o blog entrevistou alessandro barbosa lima, um dos fundadores, pra entender um pouco mais do que eles descobriram [e pensam] sobre nosso comportamento em orkut, faceBoook, twitter e quetais.

semana passada, discutimos uma pesquisa sobre mobilidade, que se soma ao estudo corrente para nos dar dicas que levam a um entendimento de um novo [e esperado] universo de pessoas "digitais, conectadas, móveis", de que este blog falou neste link, no ano passado.

com vocês, alessandro barbosa lima.

pergunta 0. bio: quem é você, onde está, o que faz, links pro seu trabalho, como lhe achar…

Alessandro Barbosa Lima, 39 anos, fundador da E.life - empresa brasileira especializada em monitoramento, análise e gestão do relacionamento nas redes sociais.  Sou Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), onde estudei a comunicação interpessoal on-line através das redes sociais. Autor de E-LIFE – Idéias Vencedoras para Marketing e Promoção na Web e co-autor de Marketing Educacional em Ação.

A E.life nasceu em 2006 a partir de um protótipo de software para monitoramento, é líder no Brasil em seu segmento (estamos em Recife e São Paulo, onde fico a maior parte do tempo) e atende mais de 60 empresas, com foco em países de língua portuguesa e espanhola. Possui clientes no Brasil, Espanha, México e Portugal.

pergunta 1, slide 9: 42,5% dos seus entrevistados estão em rede quase 6 ou mais horas por dia; estamos entrando na era em que todo mundo, breve, vai estar na rede o tempo todo?…

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A computação ubíqua já era prevista há pelo menos 4 décadas. O que não estava previsto, na verdade, era que com o avanço da tecnologia o nosso comportamento mudaria e a adoção das tecnologias da informação se popularizaria tanto, que não apenas nossos hábitos, mas mesmo as redes sociais se tornariam virtualizadas através dos dispositivos tecnológicos.

Se olharmos para trás, artefatos primitivos como a agenda em papel e mapas já eram formas de representar redes não apenas de lugares, mas pessoas, coisas etc. A prova maior disso é que hoje grande parte das atividades nos pontos de venda físicos pode ser monitorada pelas redes sociais. É o caso das filas. Cada vez mais munidos de smartphones, os usuários compartilham sua insatisfação não apenas para a pessoa que lhe atende no estabelecimento comercial, mas também para suas redes virtuais.

pergunta 2, slide 12: o acesso a web pelo celular, na pesquisa da e.life, subiu de 34,4% para 44.8% dos usuários em apenas um ano. qual a sua previsão para os próximos um, dois anos? o que você acha que será o estado de coisas lá na copa, daqui a três anos?

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As previsões apontam um crescimento espantoso e o celular como o meio de acesso prioritário em alguns anos. No Brasil, nossa base instalada de celulares já passa dos 210 milhões, porém temos problemas como: 1) não se sabe exatamente o quanto desta base tem capacidade de acessar a internet; 2) o custo do acesso ainda é alto; 3) as taxas de conexão são baixas, mesmo para acesso domiciliar e só agora o Governo e órgãos reguladores estão propondo algum tipo de controle; 4) a publicidade espera que os consumidores paguem pelo custo de usar a internet (exemplo: anúncios impressos com QR Codes onde o anunciante espera que o consumidor baixe o QR Code para acessar sua propaganda). Será que alguém vai comprar uma TV apenas para assistir a um comercial?

pergunta 3, slide 15: apenas 6% das pessoas que vocês consultaram não acessa redes sociais de nenhuma forma nos celulares. quais poderão ser as consequências, para os negócios de todos os tipos, de uma população tão grande como a brasileira, conectada, móvel, social, em escala?

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Em países como Coréia do Sul, o acesso à internet (assim como a educação) é mais que prioridade. Sabe-se que as pequenas e médias empresas movimentam a economia e estas empresas dependem massivamente de conexão à internet. Principalmente em áreas como a de Serviços, a internet se tornou tão vital quanto a energia elétrica e o próprio escritório físico da empresa. No Brasil, o Governo atentou recentemente para um plano de acesso às redes, porém com muitas críticas por conta de velocidades de acesso muito baixas.

O caso da própria E.life é um exemplo de como a Internet pode impulsionar negócios. Saímos de um faturamento de 0 (zero) a 10 milhões de reais em 5 anos, graças à internet e possibilidade que tivemos de ter um negócio sem escritório (mas com clientes). Hoje, ainda 50% dos nossos colaboradores trabalham em escritórios virtuais ou no regime de Home Office. Estas escolhas da E.life se deram pela falta absoluta de venture capital no Brasil (não há cultura e quando falamos de seed Money é praticamente impossível). Tenho certeza que educação+conexão podem impulsionar milhares de pequenos negócios como o nosso.

pergunta 4. slides 18+20: na sua amostra, faceBook já passou orkut em volume de usuários… e quase o dobro de pessoas diz usar mais faceBook do que orkut. que mudanças de comportamento estão por trás disso? dá pra identificar o que, agora? e quais as consequências para os negócios?

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Aqui vale uma consideração. Segundo dados da ComScore, o Orkut ainda é o líder absoluto no Brasil, mas cresce mais lentamente do que Facebook. O que podemos observar no nosso estudo é que de fato mais pessoas declararam usar o Facebook em 2010 em comparação a 2009 (quase o dobro), mas o Orkut se manteve no mesmo lugar (diferença pequena de 3 pontos percentuais, o que está dentro da margem de erro). Isso confirma que Facebook está na curva ascendente, enquanto Orkut ainda cresce entre os laggards (público adotante tardio – no Nordeste, segundo dados da ComScore de março, o Orkut ainda cresce).

Porém, a tendência (pode não ser este ano) é que o Orkut entre na curva descendente (isso se não houver nenhuma modificação na rede social).  Isso aconteceu na Índia em 2010 e, em breve, deve se confirmar no Brasil. Segundo Dunbar, o tamanho do córtex no cérebro humano define o tamanho das nossas redes sociais e que podemos gerenciar um número limitado de 150 contatos na nossa rede. É claro que o número de contatos que conseguimos gerenciar com os artefatos da Tecnologia da Informação ampliam a capacidade do nosso córtex, porém não creio que as pessoas possam trocar de rede social tão facilmente, a não ser que o incentivo seja muito bom. O Google nos passa uma mensagem confusa ao investir em uma nova rede social (Google+) ao invés de reforçar o Orkut em países onde ele é forte (como Brasil).

Para os negócios, o crescimento do Facebook é realmente uma benção. Isso porque desde o começo o Facebook se preocupou com as empresas, criando serviços e produtos mais focados no público corporativo. Basta ver, por exemplo, a adoção corporativa das empresas ao Facebook, que se deu muito mais rapidamente e em maior escala do que no Orkut. É mais provável que uma empresa que invista em redes sociais aqui no Brasil tenha uma presença no Facebook do que no Orkut. O Orkut atentou para isso e começou a investir em produtos próprios para as empresas. E tem atraído as organizações e os consumidores. O caso recente mais emblemático é da Coca Cola Brasil. Em 2 de junho, a empresa criou uma comunidade oficial no Orkut e hoje esta comunidade se aproxima do seu primeiro milhão de membros. Ou seja, a Coca Cola contradiz a máxima que o Orkut está morrendo.

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pergunta 5, slide 33: assistir TV e estar na rede parece ser simultâneo, em pelo menos parte do tempo, para 57,8% da sua amostra. quais são as consequências disso para TV? vocês percebem, na e.life, um elevado índice de atividade no twitter, faceBook e outras redes sociais, relacionado a programas e comerciais da TV? na sua opinião, que consequências isso tem para TV? e para a rede?…

Sim, notamos que há um uso simultâneo das redes sociais e mídia de massa desde as eleições do ano passado. Este ano, ao monitorarmos a estreia de “O Astro” observamos pico de tweets exatamente no mesmo horário em que a trama era exibida pela TV Globo. Observamos que os picos acontecem exatamente nos horários em que as novelas vão para o ar. Isso é um indicativo que as pessoas assistem a TV e acessam as redes sociais ao mesmo tempo.

No Twitter, é possível descobrir quem foi impactado por cada buzz da novela e criar novas formas de medir audiência qualitativa e quantitativa usando redes sociais. Com a adoção maciça da internet pela população e o uso disseminado das redes sociais irá substituir os índices de audiência tradicionais rapidamente.

mudanças, mudanças. muitas e sociais.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

TV digital: governo perdeu as rédeas do processo

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hoje é dia de ouvir luiz fernando gomes soares, o principal pesquisador por trás da especificação do padrão de interação do SBTVD, o sistema brasileiro de TV digital. a ideia da conversa surgiu a partir deste link, onde se diz que o SBTVD, lançado em 2007 [dezembro] tem até agora apenas 14 aplicações interativas comerciais. eu nunca vi promoção ou propaganda de nenhuma delas, não sei vocês. a isso, LF [como nosso entrevistado é conhecido no meio acadêmico] acrescenta que não existe nenhuma "narrativa interativa", comercial, ou seja, o uso da capacidade de interação do SBTVD para construção de histórias interativas, uma das possibilidades mais interessantes –inclusive do ponto de vista educacional- do novo ambiente.

esta entrevista é um marco. LF fala pouco mas, desta vez, diz muito. conta a história do que rolou até agora nos bastidores da interação no SBTVD. seja lá qual for o futuro do padrão brasileiro de TV digital e de seus mecanismos de interação, LF dá um testemunho marcante, daqueles que entram para a história.

esta conversa rolou por emeio e, salvo os negritos e itálicos nas respostas, que são aqui mesmo do blog, as respostas de LF estão publicadas na íntegra. boa leitura.

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0. uma curta biografia: quem é você, em um parágrafo, quais são os principais links pra seu trabalho, onde você pode ser achado?…

Sou Professor Titular do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Fui presidente da área de computação na CAPES, membro do Conselho de Assessores de Ciência da Computação (CA-CC) do CNPq, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e atual membro de seu Conselho, e vice-presidente do Laboratório Nacional de Redes de Computadores (LARC). Fui representante da comunidade científica no Comitê Gestor da Internet no Brasil e membro do seu Conselho Administrativo. Fui o responsável pelo desenvolvimento do ambiente Ginga-NCL do Sistema Brasileiro de TV Digital e Recomendação ITU-T para serviços IPTV. Sou o atual representante da academia no Módulo Técnico da Câmara Executiva do Fórum de TV Digital Brasileiro e de seu Conselho Deliberativo. Sou coeditor da Recomendação H.761 no ITU-T e Coordenador do GT de Middleware do Fórum SBTVD. Meu laboratório está neste link e o e-mail neste outro.

1. qual a história da interatividade no SBTVD até agora? quais foram os percalços da partida, da definição do padrão?

A história da linguagem NCL, e do middleware Ginga, começa em 1991, quando seu modelo de dados, chamado NCM (Nested Context Model), resolveu um problema em aberto na área de Sistemas Hipermídia. No ano de 1992, a solução encontrada foi incorporada ao padrão MHEG da ISO, que veio a se tornar o primeiro middleware para TV digital, sendo até hoje o middleware adotado no Reino Unido. Em 2005 submetemos a máquina de apresentação de aplicações NCL (o Ginga-NCL) como proposta para o SBTVD. Na época, o nome Ginga ainda não existia; na proposta se chamava MAESTRO. O Nome Ginga surgiu quando a proposta foi aceita como a única inovação, de fato, do SBTVD.

O início da definição do padrão, no entanto, não foi fácil. Muitos duvidavam que o Brasil pudesse ter feito uma tecnologia melhor da que a existente nos países ditos desenvolvidos. Cheguei a ouvir (em palestra na Câmara dos Deputados em Brasília) que o Brasil devia se preocupar com a exportação de frango e de laranja, e não com o desenvolvimento de tecnologia.

Tendo sido comprovada como a melhor tecnologia, tivemos, felizmente, apoio do Governo Federal na época, quando fui convidado a fazer o discurso de lançamento do SBTVD, cerimônia na qual o Presidente Lula e o ministro das Telecomunicações citaram o Ginga (passou a ser chamado assim poucos dias antes do lançamento oficial) como a grande conquista brasileira.

No entanto, ainda havia resistências no setor de radiodifusão e na indústria de recepção. Apenas quando pesquisadores europeus, japoneses e americanos começaram a elogiar a NCL como a melhor solução existente, salientando que finalmente se tinha uma solução tecnológica adequada para a TV digital, foi que a aceitação veio de fato. Ou seja, foi preciso sermos primeiro reconhecidos lá fora. Para se ter uma ideia, quem propôs a discussão de NCL e Ginga-NCL como Recomendação ITU-T não foi o Brasil, e sim o Japão.

2. quais foram os principais problemas do caminho, do lançamento do padrão em 2007 até agora?

O primeiro problema foi que diziam, em 2007, que não havia implementação comercial do Ginga-NCL e que o GEM (a parte imperativa escolhida, pela compatibilidade com o padrão Europeu) tinha problemas de royalties. Quanto a esse último ponto, ninguém atacava o Ginga-NCL, que incomodava justamente pelo contrário, por ser software livre e sem qualquer royalty. Ou seja, disponível para absolutamente todos.

Por não necessitar pagamento de royalties e por sua simplicidade, várias empresas de software foram criadas oferecendo a solução Ginga-NCL, ficando o primeiro problema resolvido. Foi então que alguns fabricantes perceberam que o Ginga-NCL fazia tudo o que o GEM fazia e melhor, de onde surgiu a proposta que se lançasse receptores só com o Ginga-NCL; o que chamaram de Ginga 1.0 na época. A ideia foi contestada pelos radiodifusores, que diziam que a presença do GEM era importante pela interoperabilidade com os outros padrões.

Em 2008, como já mencionei, a NCL e o Ginga-NCL foram propostos como Recomendação ITU-T para serviços IPTV. Aprovada em abril de 2009, pela primeira vez na história das TICs o Brasil contribuiu com um padrão mundial, na íntegra. Um marco que a imprensa ignorou. Como fato curioso, um jornalista, muito renomado, que evito dizer o nome, até por vergonha, de um dos veículos mais lidos do Rio de Janeiro, ao ser apresentado ao fato, disse para seu repórter trazer uma notícia do Adriano (que acabava de ser contratado pelo Flamengo) em alguma balada, pois era isso que trazia leitores.

Vale ressaltar que até hoje o ambiente Ginga-NCL é o único ambiente de middleware padrão para todas as plataformas IPTV, TV a cabo, TV broadband (TV conectada) e TV terrestre (TV aberta). Mesmo dentro do SBTVD, é o único padrão para todas as plataformas (receptores fixos, móveis e portáteis).

Ainda em 2009, iniciou-se um movimento para substituição do GEM por uma nova solução da Sun, que seria incorporada como Ginga-J, a princípio, livre de royalties. O movimento cresceu e em uma reunião do Conselho Deliberativo do Fórum foi dada a decisão final. Na época, o Ginga-NCL já pertencia à comunidade de software livre, tendo recebido contribuições de mais de uma dezena de universidades e outras instituições; várias empresas foram também criadas sobre essa solução.

A academia, por quase unanimidade (com exceção apenas do LSITec da USP, entre as 17 instituições ligadas ao Fórum do SBTVD), votou por não adotar a nova solução, proposta pela Sun e apadrinhada pelos radiodifusores, uma vez que a NCL, com sua linguagem de script Lua, fazia absolutamente tudo o que fazia a nova solução e com vantagens. A perda da interoperabilidade (tão propalada) vinda pela não adoção do GEM, não justificava mais a presença do Java nas estações clientes.

Na época, a indústria de recepção concordava com a academia, mas, devido a um acordo feito nos bastidores, a academia ficou isolada e perdeu a votação por 12 a 1 (só os radiodifusores mais a indústria de recepção somam 8 votos no Fórum do SBTVD).

Com o imbróglio do Ginga-J resolvido, começaram as reclamações que não podia haver nenhum produto sem antes ter uma suíte de testes para o Ginga. Deve ser ressaltado, no entanto, que a suíte de testes para o Ginga-NCL existe e também já é hoje um projeto ITU-T. Mais ainda, pela primeira vez, uma Questão ITU-T endossou oficialmente um trabalho colaborativo por meio de serviços web para a concepção dessa suíte.

Nesse meio tempo, o padrão brasileiro foi adotado em mais 10 países latino-americanos e começa a ser adotado em alguns países da África, e tudo tendo a interatividade do Ginga como carro chefe. Mais ainda, alguns desses países, como é o caso da Argentina, resolveram começar só com o Ginga-NCL, o que deveria ter sido feito no Brasil, na opinião derrotada da academia.

É bom ressaltar, para melhor entendimento, que, para ser Ginga, obrigatoriamente deve-se ter o Ginga-NCL. Outras partes opcionais podem ser agregadas, como o Ginga-J (obrigatório apenas no caso do SBTVD para receptores fixos), ou outros serviços, como aqueles oferecidos pelas TVs conectadas.

3. na sua avaliação, qual é o atual estado de coisas? quais são as perspectivas de uso prático, em escala comercial, de interatividade no SBTVD? você acha que as emissoras "deixaram interatividade pra lá", depois de ter conseguido vários de seus objetivos na transição do analógico para o digital, inclusive evitando a fragmentação do espectro para entrada de mais estações de TV?

Pois é, eu ainda não quero acreditar que as emissoras tinham apenas como objetivo impedir a entrada de mais estações de TV. Ainda sonho que haja algum compromisso público por parte daqueles que ganharam concessões públicas. Talvez seja apenas um sonho…. Mas não pensem que a academia foi ingênua.

O ideal da inclusão digital, da democratização não só do acesso à informação, mas também do processo de produção de conteúdo, nos levou ao projeto da NCL e sua linguagem de script Lua. Sabíamos da dificuldade da transmissão, a terceira perna do processo de democratização, mas contávamos com o sucesso da TV pública e, principalmente, com a entrada futura dos serviços de IPTV.

Não acho que as emissoras tenham deixado a interatividade para lá. Creio apenas que, por incompetência ou lentidão, não encontraram um modelo de negócio para a interatividade. O que as emissoras fazem hoje de interatividade é muito pobre. Não explora nem 10% do que o Ginga-NCL possibilita. A produção ainda está nas mãos de engenheiros, que são bons engenheiros, mas produtores de conteúdo sem qualquer criatividade. Ainda não deixaram a interatividade chegar às mãos de quem realmente poderia criar as aplicações “campeãs”.

Ainda se pensa na interatividade como widgets acoplados a programas da TV convencional. Nesse sentido, o Ginga acrescenta pouco a mais do que os serviços das TVs conectadas, em termos de desempenho e expressividade. Só ganha por ser padrão e de código aberto. Entretanto, isso é muito importante. O grande problema das TVs conectadas atuais é que cada fabricante adotou sua solução proprietária, desde a linguagem de desenvolvimento dos widgets até a distribuição por meio de sua própria loja. Mesmo que se queira padronizar uma dessas formas proprietárias, basta fazer uma ponte com a NCL. Mais uma vez, NCL é uma linguagem cola, que não substitui, mas agrega facilidades. Com NCL, os fabricantes de receptores ainda poderiam controlar a distribuição de widgets, ainda controlariam totalmente o negócio, mas com a vantagem adicional de permitir a quem cria o conteúdo escrever um único código para todas as plataformas. Hoje, como está, o código tem que ser portado de um fabricante para outro.

A interatividade, no entanto, é muito mais do que widgets. São narrativas interativas, aplicações de interatividade geradas ao vivo, exploração de múltiplos dispositivos de exibição, personalização de conteúdo, etc., tudo o que a NCL pode oferecer a mais para complementar o que existe nas TVs conectadas.

É bom repetir que NCL é uma linguagem de cola. Ela não substitui, mas complementa o que pode ser oferecido nas TVs conectadas. O Ginga-NCL pode conviver em completa harmonia com os serviços da TV conectada, agregando outros serviços, como os de IPTV e TV terrestre (VoD, Vídeos interativos ao vivo, narrativas interativas, etc.). Ginga-NCL é o ambiente escolhido pelo ITU-T para possibilitar essa interoperabilidade e convergência total, quando então pararemos de ficar classificando as TVs digitais pelos seus modelos de negócio (TVs broadband, TVs broadcast, WebTV, IPTV), mas a consideraremos apenas como TV digital, com todos os seus serviços oferecidos agregados.

É muito preocupante a situação de hoje. Quem vai desenvolver conteúdo interativo tem que usar N padrões diferentes nas N redes de distribuição disponíveis? NET, TVA, Telefônica, ViaEmbratel, Oi, Sky, SBTVD, Samsung, LG, Sony, Philips, TOTVS… Quem vai pagar pelo trabalho de portar o conteúdo interativo para as múltiplas plataformas?

A solução para isso é o que se persegue hoje nos órgãos de padronização e é nesse ponto que o Brasil está muito à frente e é invejado em todo o mundo, por ser o único local onde esse modelo pode começar já.

Infelizmente, a falta de conhecimento dos dirigentes de nossas “filiais” das indústrias de recepção e dos nossos radiodifusores os impedem de ver um futuro diferenciado para o país e para seus negócios.

4. o governo e os órgãos reguladores brasileiros poderiam ter feito mais por interatividade no SBTVD? mais do que? se tivessem feito, e o que deveriam ter feito, qual poderia ter sido o impacto?

O governo começou muito bem quando viu na TV digital não apenas um negócio para a indústria de recepção, que no país ainda não passa de montadoras, e para o setor de radiodifusão.

A inclusão social pelo acesso e geração de conteúdo, o fortalecimento das TVs Públicas, a criação de empresas, de software e outras, a geração de empregos de qualidade, tanto na área tecnológica quanto nas artes e cultura, foram o carro chefe inicial do SBTVD.

Foi com esse enfoque que a NCL foi projetada: uma linguagem simples e fácil de ser usada por não especialistas. Uma linguagem simples, a ponto de permitir receptores de baixo custo sem, no entanto, perder sua expressividade, sem limitar em nada a criatividade. Uma linguagem simples, mas muito mais expressiva do que todas as outras linguagens declarativas usadas em qualquer middleware para TV digital existente até os dias de hoje. Também com essa concepção, foram criadas as bibliotecas NCLua. Lua é hoje a linguagem mais usada no mundo na área de jogos e entretenimento, mas parte de nossa indústria de conteúdos parece ainda ignorar isso.

Ginga-NCL foi desenvolvido como software livre, e desse software mais de uma dezena de pequenas empresas foram criadas, empresas de médio a grande porte, e centenas ou talvez milhares de empregos de alto nível tecnológico.

Mas o governo parou nesse primeiro momento, perdendo as rédeas do processo, que passou para os radiodifusores e mais recentemente para a indústria de recepção.

Ao não incentivar set-top boxes com o Ginga-NCL (e no primeiro momento era só o que poderia ser feito, pois a discussão do Java permanecia) e deixar o aparecimento de “zappers” (set-top boxes sem interatividade Ginga); ao permitir que a indústria de recepção se concentrasse apenas nas classes A e B com suas TVs de alta definição com conversores embutidos, impediu o acesso das classes menos privilegiadas a essa nova tecnologia.

A TV Pública ainda está patinando, e o incentivo ao desenvolvimento de aplicações (narrativas) interativas esbarrou na falta de capacidade dessas emissoras (na verdade, as emissoras privadas também não têm tal conhecimento).

De fato, faltou uma política para geração e distribuição de conteúdo.

A academia vem fazendo sua parte, o Programa Ginga Brasil é mais um exemplo, formando produtores de conteúdo, apoiando e incentivando a criação de empregos e empresas (inclusive de grande porte), apoiando órgãos do governo, como DATAPREV e PRODERJ no desenvolvimento de conteúdos de inclusão social.

Entretanto, produzir para ser transmitido por quem? Sem essa perna de inclusão, as duas outras (acesso e produção de informação) não operam. Temos que operacionalizar a TV pública.

O Plano Nacional de Banda Larga traz nova esperança. É mais uma chance que temos de levar tudo adiante. Temos de ver o plano também como propiciador de serviços. E a TV digital é um dos mais importantes, principalmente no que tange à inclusão social. Temos de tratar a IPTV, Web TV, broadband e broadcast TV não como soluções antagônicas (porque não são nem no modelo de negócios), mas complementares. O Brasil lidera esse processo mundialmente, reconhecidamente, no ITU-T. Todos esperam e vigiam nossos movimentos. O Ginga-NCL é visto como a ferramenta de integração (e aí vai um recado para a indústria de recepção mal informada: ferramenta de integração e não de substituição de suas aplicações residentes, como as que conferem acesso a suas lojas de widgets).

Tomara que o governo retome as rédeas do processo.

Mas a sociedade civil não está parada. Através das TVs Comunitárias, TVs Universitárias, Pontos de Cultura e outros coletivos audiovisuais, ela não vai deixar a peteca cair. Quem viver verá. Não subestimem esse movimento.

5. você acha que a TV digital interativa aberta está perdendo espaço para interatividade via IP e padrões globais propostos por forças há tempos dominantes no mercado mundial, como mostrado neste link? pensando bem… era possível prever isso há uma ou meia década, nos estágios de discussão e desenho e, depois, de lançamento do SBTVD?

Tudo era previsível desde o início. A academia presente no processo nunca foi ingênua. O Brasil se destaca na pesquisa na área há mais de 20 anos. O que acontece é que tudo está sendo visto de forma errada. Felizmente, lá fora isso está mudando, basta ver os esforços do ITU-T nos vários eventos de interoperabilidade e também os esforços do W3C. Aliás, o último evento de interoperabilidade foi conjunto e no Brasil (…e a imprensa nem noticiou, não é?).

Mas vamos lá. Os radiodifusores europeus se basearam em uma tecnologia ruim, o MHP, que nunca pegou e nunca foi padrão. A Europa era uma bagunça com várias implementações não compatíveis. Com isso, e por falta de escalabilidade, fizeram pouca coisa de interessante (tirando o Reino Unido, que usava outro padrão, o já mencionado MHEG). Por falta de escala, não conseguiram definir um modelo de negócios. O Brasil, ou melhor, a América Latina, é vista como a grande chance de se ter um padrão de fato. Na PUC-Rio, somos constantemente assediados por consórcios europeus querendo fazer testes no Brasil, pois não se vê chance de executá-los em uma Europa fragmentada.

Enquanto isso, a indústria de recepção conseguiu encontrar seu “negócio de interatividade” através de lojas, proprietárias, de widgets. Nesse momento a TV broadband (ou TV Conectada) passou a chamar atenção.

Já os serviços de IPTV eram oferecidos sempre como proprietários, e corriam, e ainda correm, por fora dessa briga.

Acontece que tudo vai se unir, quer queiram quer não. É só uma questão de tempo. Forças retrógradas podem atrasar o processo, mas não vão pará-lo. Quanto mais cedo perceberem que as coisas são complementares, todos vão ganhar, os negócios e a inclusão social, que foi o motor do SBTVD.

A TV híbrida (como gostam de chamar os europeus) vai chegar. Aliás, mencionando os europeus, o principal fabricante do principal padrão híbrido lá proposto incorpora o Ginga-NCL interoperando com sua solução. Mais um exemplo…, soluções interoperando o Ginga-NCL e LIME (padrão japonês) já estão prontas nos fabricantes de set-top boxes híbridos. Note que sempre com o Ginga-NCL. Por que só nós brasileiros é que não vemos nosso potencial?

6. considerando uma penetração cada vez maior de conectividade móvel, por um lado, e TV a cabo, por outro, qual é, na sua opinião, o futuro do SBTVD? vê o futuro da interatividade, na TV digital, dentro do SBTVD, como uma opção economicamente viável? em que termos?…

Bem a resposta a essa pergunta resume todas as outras.

No SBTVD, o Ginga-NCL é o único ambiente obrigatório tanto para dispositivos fixos, quanto para os móveis e portáteis da TV terrestre. No ITU-T é o ambiente padronizado para serviços IPTV. O ITU-T também trata de widgets e, embora ainda não definitivamente aprovado, o Ginga-NCL é visto como a solução para interoperar com as várias soluções proprietárias existentes.

Partindo do pressuposto que todos os serviços são complementares, o middleware brasileiro (adotado hoje já em 13 países), ou pelo menos o Ginga-NCL, tem um enorme potencial de suporte global, e isso pode muito bem ser explorado.

O setor de radiodifusão deve procurar seu nicho. As emissoras precisam começar a fazer aplicações reais de TV interativa terrestre, e não só de widgets incorporados a seus programas. Isso eles podem até fazer também, e vender nas diversas lojas de fabricantes de receptores. Mas será que aí está seu negócio?

Que tal explorar as narrativas interativas, os programas ao vivo, como eventos esportivos com a interatividade (a aplicação) gerada ao vivo? Propagandas personalizadas com narrativas interativas (vejam que começam a aparecer várias muito interessantes no YouTube) são sensacionais…

A TV Pública também tem de ocupar o seu lugar. O conteúdo gerado pelos vários coletivos de audiovisual só vão encontrar nelas os seus transmissores (e hoje posso garantir que tais coletivos já têm uma interatividade muito, mas muito mais interessante do que a produzida nas grandes emissoras). Os serviços de IPTV (e WebTV) devem ser vistos como complementares, bem como os da TV conectadas. Assim teremos, de fato, uma solução invejável, e o SBTVD poderá ser visto como um todo (e a Argentina já está fazendo isso).

Temos dois problemas: será que o pessoal do setor de radiodifusão e da “nossa” indústria (montadora) de recepção vai conseguir enxergar tão longe e pensar um pouco também na sua missão para o país? Será que o governo vai reassumir as rédeas do processo e propor uma política para o setor e para o país, como é seu papel, ou vai deixar as coisas acontecerem ao acaso?

neste último parágrafo, LF deixa no ar a grande pergunta sobre o SBTVD: será que vamos ter uma política, de novo [como o brasil queria ter no começo...] para TV digital?

TV, desta vez, não era simplesmente definir como a imagem era montada e transmitida, e como deveriam ser os sistemas de codificação, transmissão, recepção, decodificação e apresentação. depois que tudo isso foi decidido, o país resolveu [?] inovar e incluiu um padrão para interação.

depois, como bem diz LF, o brasil "perdeu as rédeas do processo". a dúvida, agora, é se há coesão e energia para dar direção e sentido a um esforço que vem, por mais que seus principais atores tentem, se arrastando há quase quatro anos e mostrando, como quase sempre, como é que se inova no brasil. ou, a bem dizer, como é que não se inova no brasil.

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

quem é o consumidor móvel em 2011?…

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wMcCann e grupo.mobi publicaram uma pesquisa muito interessante sobre o comportamento digital, conectado e móvel dos brasileiros e o blog conversou com ricardo cavallini, que conduziu o trabalho pela wMcCann, sobre o que está por trás do trabalho e a interpretação de alguns dos resultados.

ricardo cavallini, que reside em http://cava.net.br/, é vice presidente de convergência da wMcCann e autor dos livros "o marketing depois de amanhã", sobre novas tecnologias e seu impacto sobre o comportamento do consumidor, "onipresente", que coloca em um contexto histórico a transição do mercado de comunicação, de "mobilize", sobre as possibilidades de propaganda e marketing no universo móvel e "a arte de desperdiçar energia", sobre o site pornô mais famoso do brasil.

a seguir, nossa conversa, pautada por slides da apresentação da pesquisa, que estão neste link. os itálicos e negritos, nas respostas, são daqui do blog.

pergunta 1, sobre o slide 9: qual o sentimento de vocês sobre os 44.4% dos proprietários de celulares convencionais que pretende trocar de celular nos próximos seis meses? as ofertas existentes no mercado farão que parte deste público de dezenas de milhões de usuários migrar para smartphones, e consequentemente, acesso a internet móvel? e quais serão as consequências disso?

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Nenhuma pesquisa traz respostas exatas ou definitivas, mas uma pesquisa bem conduzida pode servir para entendermos uma tendência, um norte. Quando escrevi o livro Mobilize ano passado, com o Leo Xavier e o Alon Sochaczewski, tivemos muita dificuldade para levantar números mais precisos ou oficiais sobre muitas coisas. O universo móvel está crescendo rapidamente, temos mais de 200 milhões de linhas de celular mas ainda conhecemos muito pouco sobre os hábitos dos brasileiros.

A velocidade de troca é um destes assuntos. Através de informações internas de operadoras e especialistas, era de conhecimento comum que a troca de aparelho no brasil ocorria a cada 2 anos (de 18 a 24 meses em média). Mas na pesquisa ficou claro que existe uma faixa da população (de 20% a 30%) que não costuma trocar de aparelho nunca. Esta faixa empurra a média para cima. Se ignorarmos esses "atrasados", a maioria das pessoas troca de aparelho em até 1 ano. Só não podemos dizer que o aparelho celular virou descartável porque sabemos que uma pessoa passa seu telefone para frente (para família ou amigos) quando compra um aparelho novo.

Por não atingir a maior parte da população, a posse do smartphone está
hoje nas mãos dos mais conectados. Por outro lado, o fato da tecnologia estar cada vez mais disponível e mais fácil pode acelerar esta curva de adoção. A banda larga móvel ainda não está disponível para todas as cidades mas estará em poucos anos. As vendas de smartphone estão acelerando e agora sendo impulsionadas pelos subsídios das operadoras.

Quanto mais acessível, mais fácil e mais possibilidades tivermos, mais
usaremos. O iPhone é um ótimo exemplo disso. Por sua facilidade, seu uso e interação é muito mais forte que em outros aparelhos. Por isso digo que o crescimento de vendas de smartphone poderá causar uma explosão no uso como acesso à internet, download de aplicativos e
acelerar a queda de uso de SMS. Quando falamos de acesso à internet e outras coisas, o smartphone é causa, mas também é consequência.

pergunta 2, sobre o slide 31: pelos resultados da pesquisa, 40.8% dos consultados já acessa a internet através do celular. mais gente, proporcionalmente, do que a internet "fixa" quatro anos atrás. 83% do acesso vem de smartphones. as empresas, de mídia e negócios, estão preparadas para esta mudança? deveriam? por que? como?

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Se compararmos com a internet fixa de quatro anos atrás, ela recebia
muito mais investimento (suor, atenção e grana) do que o universo móvel hoje. Acredito que isso aconteça por dois fatores. Primeiro, acho que não aprendemos com os nossos erros. Muitos ignoraram o digital nos últimos 15 anos e vão continuar ignorando as mudanças que estamos sofrendo.

O segundo fator é também um agravante, mobile está crescendo e
evoluindo muito mais rápido do que a internet fixa
. E isso não é algo novo, já aconteceu várias vezes (internet atingiu 50 milhões de usuários mais rápido que TV, que por sua vez cresceu mais rápido que o rádio, que cresceu mais rápido que o telefone fixo, etc.), e continuará acontecendo.

Para empresas cuja estrutura e cultura não é concebida para evolução e inovação, está cada vez mais difícil acompanhar a mudança. Talvez por  isso temos tantos exemplos atuais de empresas que eram líderes há poucos anos e hoje se encontram em situações tão delicadas (Nokia, por exemplo).

No livro, mostramos vários cases de empresas que já estão trabalhando no universo móvel. Apesar disso, o número de empresas que vejo perder
oportunidades é muito maior do que as que estão experimentando.

Em resumo, na minha opinião, as empresas deveriam estar se preparando e rápido, para não cometerem o mesmo erro que cometeram com a internet nos últimos 15 anos. Assim como a internet, o celular não é apenas mais um meio (como muitos comunicadores acreditam). É muito mais do que isso. É uma mudança de comportamento e cultural, isso é bem maior do que apenas propaganda e marketing.

pergunta 3, sobre o slide 42: mesmo na classe C, que tem o menor acesso a smartphones [19%, contra 49,7% na classe A], o acesso móvel a faceBook está bem perto de orkut [50,3% vs. 56,4%]. o que isso quer dizer? que futuro você prevê para orkut? qual será o papel de google+ neste cenário?

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No acesso via computador, o crescimento do Facebook foi brutal nos
últimos 2 anos. Apesar do Orkut continuar crescendo, não é mais um líder isolado. Segundo a ComScore, o Facebook já tem 70% dos usuários do Orkut.

Ainda assim, é interessante ver que no acesso móvel esta diferença caiu para margem de erro, mesmo na classe C. Esta pequena diferença também acontece quando olhamos para usuários de celular convencional.

O valor de uma comunidade não são suas features ou suas ferramentas, mas sim a própria comunidade (segundo a lei de Metcalfe). Não quer dizer que o Orkut está morto, mas quero dizer que o maior diferencial do Orkut deixou de ser diferencial.

Também mostrou que a leitura de que "Orkut é coisa de pobre" e "Facebook é coisa de rico" era apenas uma visão preconceituosa. Estávamos passando por uma migração e não uma segregação. Com o provável crescimento do Google+, será interessante descobrirmos se existe espaço para termos 3 "sugadores de atenção" tão parecidos. Eu não arriscaria um palpite agora, é uma discussão mais longa, mas seria interessante lembrar que, com tantas opções, ninguém é mais fiel a nada. Nem a produtos e serviços, nem a comunidades online.

pergunta 4, sobre o slide 65: cerca de 15% dos usuários já comprou alguma coisa a partir do seu -como dizem os portugueses, telemóvel. como você vê a evolução deste cenário nos próximos 1.000 dias e como será o impacto disso, principalmente sobre o varejo tradicional e os shoppings, por exemplo?…

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Dos cerca de 40% que acessam a internet pelo celular, cerca de 15% já
compraram através do aparelho. A maior parte deles, da Classe A. É um número absoluto muito baixo. Por outro lado, segundo a ebit, temos 23 milhões de compradores online. Se temos 81 milhões de internautas (segundo o Datafolha), significa que cerca de 28% deles são compradores.

Dado a escassez (ou melhor, quase inexistência) de lojas adaptadas para o ambiente móvel, com este comparativo, os 15% se tornam monstruosamente grandes para dados coletados no começo de 2011.

Todos os hábitos adquiridos e conquistados no acesso via computador
serão transferidos para o celular
. Toda a curva de aprendizado, mudança comportamental e cultural não precisaram ser "reconstruídas", foram herdadas.

Os brasileiros têm o hábito de acessar redes sociais e levaram este comportamento para o celular. Os brasileiros que compram pela internet o farão no ambiente móvel também. Então, o resultado pode não vir no curtíssimo prazo, mas se eu fosse um varejista, começaria ontem a experimentar e marcar minha presença no ambiente móvel.

Nos próximos mil dias, acho que a influência do celular na compra será  mais importante do que a compra em si através do celular. O aparelho  será nossa grande interface com o mundo analógico. Poderemos comparar preços, ver opinião de outros consumidores e até achar lojas próximas com ofertas melhores. Todo aquele poder que a internet trouxe para o consumidor, na sua mão, o tempo todo.

pergunta 5, sobre o slide 49: os aplicativos mais instalados nos celulares de todos os tipos são jogos [cada vez mais sociais...] redes sociais e variados tipos de instant messenger. os aplicativos considerados mais importantes são os de redes sociais e mensagens [como mostra o slide 50]. somos todos, mesmo, móveis, conectados, sociais? que consequências isso pode ter para os negócios?

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O celular é um sucesso no Brasil. Redes sociais então, nem se fala. Era quase óbvio que iria terminar em casamento.

Em outra pesquisa da WMccann, olhando apenas para o comportamento digital da Classe C, descobrimos que os consumidores emergentes usam as redes sociais muito mais profundamente do que algumas pessoas imaginam. Além de usar para socializar, usam também para realizar negócios, ajudar na carreira e até na família. Coisas como aprender a ser melhores pais, interagir com especialistas da sua profissão e até mesmo ganhar dinheiro, vendendo na web.

Ironicamente, o brasileiro aprendeu usar as redes sociais de maneira mais profunda e intensa do que a maioria das empresas, mesmo comercialmente falando.

Respondendo a pergunta, para quem ainda acredita que redes sociais é apenas coisa de desocupado, nenhum impacto. Para quem percebeu o tamanho da mudança que isso representa, o impacto é monstruoso.

Na próxima década, o celular será a interface das pessoas com o mundo à sua volta, provendo localização, contexto e comunicação com lugares, pessoas e objetos. Novamente, é quase óbvio que isso vai trazer mais opção e mais poder para o consumidor. E isso muda tudo, de novo.

pesquisas como esta estão melhorando muito nosso conhecimento sobre o mercado brasileiro em muitos sentidos. sempre fomos famosos [notórios, talvez] por não termos dados sobre quase nada do que acontecia no país. fazer tais pesquisas e liberar boa parte do resultado para o grande público é uma contribuição ímpar para um melhor conhecimento do mercado brasileiro e para o desenvolvimento, por todos e para todos, de uma economia digital mais sustentável. a wMcCann e o grupo.mobi estão de parabéns. e nós todos esperamos que o esforço não seja episódico, mas parte de um trabalho estrutural que possa continuar ainda por muito tempo.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

um brasil maior: mesmo?

o programa brasil maior, ação mais recente do governo federal na direção de uma política industrial e de comércio exterior, foi bem recebido pelo setor de software. as empresas da área deixam de pagar encargos trabalhistas de 20% sobre a folha de pagamentos e passam a recolher um imposto de 2.5% sobre a receita bruta do negócio. isso de forma experimental, de quando o assunto for regulamentado ate dezembro de 2012, quando o assunto será reavaliado.

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edmundo oliveira, diretor de relações institucionais da associação brasileira de empresas de tecnologia da informação e comunicação, a brasscom, disse a tele.síntese acreditar "que a medida terá um impacto muito positivo para o setor e vai permitir o aumento da competitividade das empresas de TI do país”.

o blog concorda, em tese, com a brasscom. pelo menos o governo federal saiu da imobilidade que sempre o distanciou de um dos setores mais ativos da economia durante décadas e fez alguma coisa pelas empresas de software. para saber o que vai –ou pode- acontecer na prática e quais são as consequências no curto, médio e longo prazos, falamos com césar gon, um dos fundadores e atual diretor presidente da ci&t, uma das empresas de software que mais crescem no país, com clientes pelo mundo afora e bases no EUA, japão e china, além do brasil.

SM: qual o impacto que as medidas do plano brasil maior poderão ter na indústria de software nacional? como elas aumentam a competitividade das empresas baseadas no brasil no mercado mundial? que expectativa de geração de novos empregos nós temos? ou se trata de medidas para manter o grau de emprego da indústria nacional de software?

CG: Acho que são dois contextos distintos: para o mercado doméstico, são muito positivas e certamente contribuem para uma melhoria horizontal no setor, com aumento da formalização e incentivo ao emprego. São também defensivas, pois criam mais uma barreira para reduzir a migração de empregos locais para países mais competitivos que o Brasil como Argentina, Uruguai, China e Índia.

Num contexto mais global, o caminho para a real competitividade é bem mais longo. O impacto positivo dessa desoneração é certamente menor que a perda com a variação cambial nos últimos dois anos, período no qual o Brasil viu sua (já pequena) participação no mercado mundial diminuir para menos de 2%. Completando o cenário, o protagonismo das empresas nacionais no volume total de exportações (US$ 2,39B em 2010, segundo o IDC) é muito baixo, de menos de 10%, número aliás muito parecido com a participação das empresas de capital nacional no mercado doméstico.

Esse fracasso, se olharmos com cuidado, está associado a questões bem mais fundamentais do que o câmbio ou o custo trabalhista. O nosso atraso está ligado à estrutura da nossa indústria, a uma cultura de curto prazo e pouca diferenciação.

Como exemplo, veja que estamos falando de uma "experiência" de  desoneração (e expectativa de resultados) com um prazo de 13 meses
(dez/11 a dez/12), quando qualquer estratégia de internacionalização  precisa ser pensada num horizonte bem maior, de no mínimo 10 anos. O que vi nas duas últimas décadas foi um movimento pendular e inócuo: as empresas nacionais decidem exportar quando o mercado doméstico está desaquecido e a relação dólar/real favorável. Em seguida, o cenário  muda, a demanda interna aumenta e/ou o dólar se deprecia e as  iniciativas de exportação perdem prioridade. O fato é que o processo de internacionalização leva tempo, consome capital e demanda inovação.

Não é algo para ser feito em dois ou três anos. Montar a estrutura  executiva local, estabelecer credibilidade, inovar para diferenciar a oferta em cada mercado/cultura etc. são atividades críticas e que demandam tempo para maturar.

SM: além das medidas atuais, o que mais é preciso fazer para se ter um brasil realmente competitivo frente a indústria internacional de software?

CG: Para criar uma forte e exportadora indústria nacional de TI, não basta atacar a crônica falta de competitividade do capital humano brasileiro. Sob um olhar mais estratégico, não será exportando serviços de baixo valor agregado que iremos conquistar espaço numa das mais competitivas e inovadoras indústrias do mundo.

Não dá para desenhar uma estratégia de exportação baseada apenas em arbitragem de custos através de alocação de mão-de-obra (no jargão do setor, "body shopping"), que é a modalidade de serviço ainda predominante na indústria doméstica. Além disso, impera ainda a cultura extrativista de "vender para depois contratar" em contraposição ao investimento contínuo em formação de profissionais, o que cria um ambiente de alta rotatividade e baixa qualidade.

É preciso olhar para o futuro. O mercado de produção de software
offshore é resultado de uma transformação do final do século passado, liderada pela Índia e baseada numa enorme disponibilidade de mão-de-obra técnica, de baixo custo e fluente em inglês. O Brasil não participou daquela transformação e não deve almejar ser um protagonista tardio.

Por outro lado, existe um processo radical de mudança na indústria
global de serviços de TI, que será novamente transformada, dessa vez
pela "consumerização" do uso da tecnologia, pela massificação da
computação em nuvem e pela pervasividade dos dispositivos móveis e das redes sociais.

Tais transformações representam uma enorme oportunidade para um posicionamento de maior valor para todas as empresas de TI, inclusive
as nacionais. E os fatores críticos para que essa oportunidade possa ser capturada pela indústria nacional de software são 1) alongar a visão de investimentos,
2) criar ecossistemas empresariais mais inovadores; e 3) apostar pra valer num intenso processo de formação de capital humano de qualidade, em grande quantidade.

a julgar pelas respostas de césar gon, parece que estamos vendo surgir mais uma solução conjuntural [e parcial] para um problema estrutural [e muito mais complexo de ser tratado], similar ao que está acontecendo no mercado de hardware, assunto que já discutimos neste e neste textos.

e as coisas não são assim porque brasília não entende o assunto, cenário, mercado, empresas e seus problemas. é porque se trata de uma situação complexa e, como tal, de solução trabalhosa e potencialmente complexa.

mas os políticos parecem ter perdido a noção do que realmente significa governar um país: deveriam governar para resolver problemas, a maioria dos quais complexos, multifacetados, interconectados, históricos… que assolam seus cidadãos, as empresas e as instituições em geral. claro que isso não é simples e nem pode ser feito sem atingir interesses variados, em quase todo caso. resultado? como tudo o que é estrutural e daria resultados de curto, médio e longo prazos é difícil de ser feito, prefere-se o conjuntural, muito mais simples de ser atacado e que pode até dar resultados no curto prazo e dentro de um escopo limitado.

e o futuro, de verdade? parece que fica para o próximo mandato. se houver um. ou para quem estiver no lugar em alguns anos, seja quem for. ele ou ela que pague os custos políticos de resolver os problemas de verdade. foi pensando assim que a atenas e roma [antigas e atuais] afundaram, que os EUA estão na situação em que se encontram… que a argentina patina há décadas… e que nós e os russos [parece até que, desta vez, combinamos com eles] realizamos muito menos do nosso potencial do que poderíamos e os BRICs são, cada vez mais, só IC, de índia e china.

o que talvez esteja em falta, na política de muitos países e empresas, é criatividade para tratar os problemas da era da complexidade. sem falar na pura e simples confiança, determinação e coragem para não fugir dos grandes problemas.

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

software, regulando tudo

srlm às 08:00

em "code and other laws of cyberspace", larry lessig diz que nosso comportamento é regulado por modalidades de restrição. a lei é só uma delas. as outras são as normas sociais, o mercado e a arquitetura física da sociedade, onde está, por exemplo, software.

james grimmelmann discorda. ele propõe [e eu concordo] que software é uma modalidade diferente de restrição, porque 1] é automatizado: uma vez escrito e rodando, o custo de continuar fazendo o que faz é marginal, a menos que tenha que ser modificado [vide 3]; 2] é imediato: o tipo de restrição imposta por um sistema é tal que, se uma certa operação [financeira, por exemplo]  não é permitida, você não pode realizá-la, mesmo que queira, caso toda aquela classe de operações estiver informatizada; e 3] é plástico, permitindo que quase qualquer restrição, por mais complexa que seja, possa ser implementada, desde que possa ser descrita a contento.

grimmelmann fala sobre o estado atual de software e retrata uma situação corrente na sociedade, que é a de software sendo usado na sua forma mais comum de habilitação, regulação e restrição às ações sócio-econômicas. toda vez que "software" aparece no texto, pense em "sistema", no mesmo sentido em que o atendente que está tentando resolver um problema para você lhe diz que "não dá", porque o "sistema não deixa".

ainda segundo grimmelmann, software tem quatro propriedades como modalidade de regulação e restrição. a primeira é que software é baseado em regras e não em padrões [de comportamento]. de uma certa forma, seja lá qual for sua demanda, a decisão já está tomada e o "sistema" não vai pensar sobre seu caso. um certo conjunto de regras no sistema que processa o IRPF leva sua declaração para a malha fina sem qualquer julgamento de valor [!] ou noção de contexto.

depois, software não precisa ser transparente [para ser aceito e usado]. pouquíssima gente sabe como funciona o software por trás dos principais sistemas de informação que usa o tempo inteiro. quase ninguém faz idéia do que está por trás de google, twitter, youTube, faceBook, windows, word ou android. e bilhões de pessoas são, o tempo todo, habilitadas e têm seu comportamento regulado e restrito por estes "sistemas". por outro lado, mesmo se houvesse uma boa quantidade de pessoas disposta a entender como bing ou google funcionam, é quase certo que as empresas por trás de tais sistemas se recusariam a mostrar seus algoritmos e respectivas implementações.

ainda mais, as regras determinadas no [ou pelo] software não podem ser ignoradas. no caso de sistemas de informação isso é cada vez mais verdadeiro, como efeito colateral da transformação das organizações em métodos e processos definidos, habilitados e restritos por software. se não está codificado, é porque não existe ou não será feito. nas teles, por exemplo, o principal problema do lançamento de um novo serviço não é o software e hardware que habilitam o serviço propriamente dito, mas a modificação do sistema de "billing" onde se contabiliza seu uso e de onde sai o boleto de pagamento. se não entra no billing, o serviço não existe.

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finalmente, software está sujeito a falhas [súbitas]. primeiro, porque sofre de defeitos de implementação de especificações conhecidas. depois, porque há coisas que deveria dar conta e não dá, porque não havia especificações para tal. como se não bastasse, software está sujeito a hacking e não é robusto: atacado, não recupera seu estado anterior por si próprio na vasta maioria dos casos e, sob demanda, pode colapsar devido a problemas de sobrecarga e performance.

o paper de grimmelmann é uma leitura interessante e termina com a discussão de um dos ambientes mais intensamente regulados e restritos por software, os mercados eletrônicos similares à NASDAQ. poderia ter sido o sistema eleitoral, uma das bases da democracia representativa: no brasil, ele é inteiramente regulado por software, opaco como poucos e fonte permanente de intensos debates sobre sua segurança [veja aqui, por exemplo].

a pergunta que fica é… se tudo é software [tente escapar disso na vida cotidiana...] e software está passando a regular tudo… quem regula software?

ou, ainda mais radicalmente, será que é possível regular software, restringir o que software [lembre-se: no nosso caso, "sistema"] faz ou deixa de fazer? em que contextos, por que, como? e pra que e por quem?

System_Software_Life_Cycle

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