Terra Magazine

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

internet e emburrecimento

imagereportagem recente da revista época pergunta se a "internet faz mal ao cérebro" e cita um número de estudiosos que aponta, entre os efeitos da rede, um aumento da distração, dispersão e um "emburrecimento" da população. entre os proponentes de tal avaliação do estado de coisas em rede está mark bauerlein, da emory university, autor de The Dumbest Generation: How the Digital Age Stupefies Young Americans and Jeopardizes Our Future(Or, Don’t Trust Anyone Under 30), publicado em 2008.

talvez o argumento central do livro seja que, apesar das oportunidades de educação, aprendizado, ação política e atividade cultural nunca terem sido tão grandes como agora, exatamente por causa da rede, os candidatos a aprendiz [os mais jovens, na perspectiva do autor e do texto] se conectam apenas entre si, para uma espécie de "socialização da imaturidade", ao invés se servirem do ambiente da web para conexão com pais, professores e outros adultos relevantes. segundo bauerlein, o resultado é que

…instead of using the Web to learn about the wide world, young people instead mostly use it to gossip about each other and follow pop culture, relentlessly keeping up with the ever-shifting lingua franca of being cool in school.

ao invés de usar a web para aprender sobre o grande mundo ao redor, os jovens usam a rede para fofocar uns sobre os outros e seguir a cultura pop, a todo tempo se mantendo atualizados com a sempre mutante língua franca que os torna "legais" na escola.

sei não. mas imagine que bauerlein esteja certo e os jovens estejam mesmo "emburrecendo" por causa da web e das redes sociais. bauerlein concorda que nunca se leu e escreveu tanto quanto hoje. segundo ele, o "problema" é que eles estão lendo e escrevendo as "coisas erradas": lá nos EUA a rede deveria estar sendo usada para ler mais shakespeare, milton, a grande literatura americana e discutir os problemas da sociedade e economia. mutatis mutandis, o adolescente local em rede deveria, ao fim do ensino médio –e só porque está na web, ter terminado grande sertão: veredas, de guimarães rosa, o romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, de ariano suassuna e a história da matemática de carl boyer. de preferência, claro, em inglês.

tal expectativa é completamente infundada. não só para a web, mas para qualquer outra "tecnologia". imagine prover telas, pincéis e tintas a seja lá que grande grupo for e espere pra ver se acontece algum picasso ou léger em poucas semanas ou mesmo alguns anos. mesmo que haja um processo de educação e aculturação, de mudança de comportamento, um conjunto de movimentos que possa levar a graus de interesse e desenvolvimento de competências capazes de fazer nascer um chagall, isso nem sempre –ou quase nunca- acontece.

como se não bastasse, como os mais jovens se conectariam aos mais velhos –para aprender, ou aprender mais, se estes demoraram muito a chegar na rede, perderam o ponto de entrada [faceBook, tecnologia feita por jovens para jovens, era só para estudantes no princípio] e, por conseguinte, a linguagem? eons, a rede social para idosos, não é exatamente quem está ditando as regras e padrões de comportamento. e as empresas e escolas, instituições em geral, assustadas com a democracia das redes sociais, uma espécie de 1968 online, resolveram se esconder do "problema" e o fizeram por muito tempo. e estão muito atrasadas no aprendizado da nova "linguagem".

resultado? os jovens saíram na frente e estão à frente, onde vão continuar por muito tempo. e isso é muito bom, sejam quais forem as consequências.

no processo de introdução de novas tecnologias de amplo impacto social, há uma mudança radical no espaço-tempo, na forma, conteúdo, significado e entendimento do que é feito e criado, do que acontece ou deixa de. e leva anos, muitos talvez, para que o equivalente [na web ou nas redes sociais] à pintura acima ser reconhecido como a expressão de um gênio, mesmo que apenas no novo contexto cultural induzido pelas novas tecnologias. e ainda mais tempo para que seja, de fato, uma obra prima em qualquer contexto.

estamos vivendo uma reinvenção do contemporâneo. em modo beta.

a reportagem da época e os argumentos de bauerlein e outros precisam levar em conta uma mudança como a que estamos vivendo na rede tem impactos muito maiores do que percebemos de dentro do espaço-tempo da mudança. pela própria natureza da coisa, não conseguimos entender o que está acontecendo antes de chegarmos em alguns arranjos mais estáveis dentro do processo. ao mesmo tempo, tendemos a superestimar o impacto das tecnologias no curto prazo e subestimar o mesmo efeito no longo, aforismo conhecido como a lei de amara.

em um outro texto, bauerlein dá conta de uma outra mudança induzida por tecnologia que já começou a grassar nos estados unidos e que, em breve, vai rolar pelo resto do mundo: as escolas de indiana, entre outros estados, vão deixar de insistir na escrita cursiva [caligrafia já dançou há tempos] e partir para o teclado e o toque. bauerlein cita estudos que parecem garantir que construir as letras à mão [o cursivo] ajuda no processo de leitura e escrita. pode ser. mas como insistir que as crianças aprendam a ler e escrever de forma cursiva se, logo depois, esta "tecnologia" é descartada?

estamos numa encruzilhada. os velhos métodos já não funcionam mais, pois o mundo aqui fora da da escola "passou" por ela. ao mesmo tempo, ainda não conseguimos entender o suficiente do presente para formatar os métodos e processos, juntamente com as tecnologias, que vão servir de base para aprender, no presente, o que vai ser essencial para o futuro.

talvez não reste nenhuma outra alternativa a não ser tentar, errar e aprender. agora, enquanto o futuro ainda é recente. caso contrário, é olhar para o que o futuro parecia ser, no passado. a imagem abaixo, de 1910, tentava prever o que seriam as salas de aula do futuro, no ano 2000. vai ver que elas não são nem isso. e aí não é de assustar que os alunos, os "jovens", prefiram redes sociais e games. aqui pra nós, se eu fosse eles, estaria lá também. e estou.

image

PS: lá em 1968, nelson rodrigues [um dos mais competentes e deliciosos reacionários de todos os tempos] escrevia uma crônica [em maio... "eis o fato novo na vida brasileira: –o culto da imaturidade"] onde desancava o "novo" teatro, os "jovens" diretores da época [como zé celso] e sua visão de mundo e da encenação, botava a plateia no rolo e dizia que, naqueles tempos, o tempo exigia das pessoas plena imaturidade, que "neste final de século, a imaturidade é a musa perfeita, sereníssima, universal" e que, por fim "a inteligência está liquidando o teatro brasileiro". vai ver, o grande recifense teria razão hoje: a inteligência [juvenil] está liquidando a internet…

Blogs que citam este Post

terça-feira, 25 de outubro de 2011

pra você que tem insônia…

Tags:, , , , , - srlm às 08:00

…exatamente porque o bicho-papão e a mula-sem-cabeça não lhe deixam cair nos braços de morfeu, saiba que, se depender da máquina de guerra americana, a solução de seus problemas está a caminho. agora, a sério: as forças armadas de obama estão tocando um projeto que atende pelo apelido de "power dreams", cujo resumo é…

…research and development to augment the current Cognitive Behavioral Treatment (CBT) approaches for warrior trainees (WT) and other patients suffering with nightmares related to post traumatic stress disorder (PTSD)/traumatic brain injury (TBI) with technological advances in biofeedback and Virtual Reality (VR).

…pesquisa e desenvolvimento para expandir as alternativas de tratamento comportamental cognitivo com realimentação biológica e realidade virtual para pacientes que têm pesadelos relacionados sofrendo de pesadelos relacionados a PTSD [stress pós-trauma] e TBI [traumatismo craniano]. PTSD é coisa séria, em larga escala entre veteranos de guerra e pode levar a aposentadoria precoce por invalidez.

image

a intenção do projeto é construir avatares e ambientes em second life para finalidades terapêuticas, como induzir sonhos "amigáveis" e facilitar o sono, desenvolvendo estados fisio-emocionais que se contraponham ao stress causado por lembranças traumáticas. taí um uso muito interessante de mundos virtuais, e não só para veteranos, pois um grande número de pessoas depende de auxílios químicos para dormir. e as possibilidades são imensas, agora que estamos tentando entender como funciona o cérebro e como podemos intervir para resolver problemas desta ordem.

pra ver as possibilidades, leia o texto abaixo, aqui do blog, publicado há exatos três anos, e imagine o que foi feito de lá pra cá e vai ser feito nos próximos trinta. por que não, simplesmente, "apagar" o complexo PTSD do cérebro dos ex-combatentes?… ah, você diria, isso não dá pra fazer. bem, leia o texto…

philip k. dick publicou uma mini-novela surpreendente no Magazine of Fantasy & Science Fiction de abril de 1966. We Can Remember It for You Wholesale é uma mistura de realidade e memórias reais e falsas, que gira em torno de uma visita de turismo, ao planeta marte, por um cara que não tem recursos pra ir até lá de verdade. o problema é que, quando douglas quail, o candidato a turista virtual, visita a REKAL, empresa especializada na instalação de memórias falsas, se descobre que ele, de fato, foi a marte em missão secreta do governo. e aí a confusão começa de verdade, no texto que deu origem ao filme Total Recall. consiga uma cópia do original pra ler; é dez vezes melhor do que o filme.

na vida real, e bem recentemente, cientistas liderados pelo neurobiologista joe tsien,do medical college of georgia, entenderam como apagar, de forma seletiva, a memória de ratos. o grupo de tsien está estudando a proteína alpha-CaMKII  e descobriu que a atividade da proteína -que tem parte no processo de  aprendizado e memória- pode ser manipulada de tal forma a fazer com que ratos geneticamente modificados esqueçam experiências dramáticas sem nenhum prejuízo de suas outras lembranças.

questionado sobre as aplicações do tratamento em humanos, tsien disse que"the human brain is so complex and dramatically different from the mouse brain. That’s why I say I don’t think it’s possible you can do the same thing in humans. However, if that happens in my lifetime, I wouldn’t be surprised either". em bom português?… acho que dá pra ser feito e que vai ser feito. mas não me perguntem se eu faria. provavelmente sim… mas não vou dizer isso agora, em público.

breve, num cérebro perto de você…

a cada nova estrutura e processo cerebral que entendemos, a REKAL fica mais provável. e talvez com usos muito mais interessantes do que viagens virtuais a planetas desinteressantes como marte. já imaginou se, ao invés de anos e anos de escola, for possível, pura e simplesmente, "instalar" dados, informação e conhecimento no seu cérebro, sem passar pela interface clássica de símbolos em livros [mesmo que virtuais], salas de aula e sem resolver dezenas, centenas de perguntas para "fixar" o "conhecimento"?…

há quem diga que rola em trinta anos. ou em quarenta. até porque vai dar pra fazer um backup do que você aprendeu daqui a vinte anos. será?… não sei. se for, tomara que seja um sonho mesmo, e não um pesadelo.

image

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

educação empreendedora, 25: o brasil não é para principiantes

a série sobre educação empreendedora está quase no fim e os textos já publicados até aqui estão neste link. uma das ideias-chave da conversa é que deve ser feita uma mudança radical nas bases da educação brasileira, para criar uma atitude mais empreendedora [pra começar] entre professores e alunos em todo o sistema de criação de oportunidades de aprendizado.

no texto anterior, publicado em junho, falamos de negociação e de como, dentro e fora do negócio, você vai ter que negociar. não fosse assim, a aventura de empreender não resultaria numa coisa chamada negócio. como novos negócios inovadores de crescimento empreendedor são o tema da conversa, queremos discutir os problemas de fazer coisas distantes do empreendedorismo indigente que caracteriza parte dos empreendimentos por necessidade, aqueles que acontecem por causa [como diz o nome] da necessidade de sobrevivência do empreendedor, que de outra forma talvez nunca tentasse um negócio.

uma das coisas que a gente pode tentar [veja bem, eu disse tentar] fazer para incentivar as pessoas a empreender é convencê-las de que se trata de um processo como qualquer outro, fácil mesmo, citando como exemplo casos de acerto sem erro ou dor, de preferência muitos, e esconder debaixo do tapete as dificuldades, complicações e agruras. mas, além disso passar muito longe da honestidade, no caso do brasil levaria bem pouco tempo para o candidato a empreendedor descobrir que foi enganado. e isso porque o brasil, como dizia o maestro tom jobim, "não é um país para principiantes".

acaba de ser publicado o doing business 2012, do world bank e IFC, um estudo multifacetado que considera as condições de fazer negócios em 183 economias. um dos resultados é um índice de quão fácil ou difícil é criar e manter uma empresa em quase todos os países. e o brasil não se sai bem na situação atual, na evolução recente, na comparação com os principais concorrentes e, esticando a corda,  nas perspectivas para o futuro próximo.

quer ver?… pra começar, estamos em 126o. lugar entre 183 países, mas não só: à nossa frente estão a bósnia, a suazilândia e uganda.

image

a imagem acima tem duas partes do ranking: o topo da lista, onde a noruega tomou o sexto lugar da inglaterra entre o índice anterior e este, e a região onde está o brasil. acima, os países já mencionados e, abaixo, a tanzânia, honduras e indonésia. danado é que o brasil caiu seis posições na lista, mais do que o iraque, que no mesmo período caiu "só" cinco.

como em todos os rankings, é bom notar que não se trata necessariamente de uma piora de nossas condições absolutas, mas relativas. e isso é muito importante mesmo assim, porque significa que mais gente passou a ter condições melhores do que as nossas. os russos, por exemplo, subiram do 124o. para o 120o. lugar e cabo verde do 129o. para o 119o. lugar. a julgar pelo doing business, que é uma avaliação internacional bem respeitada, há um ano era mais difícil começar e manter um negócio na rússia e em cabo verde do que no brasil. agora, é o contrário. sem ir ver o ranking, quer saber onde está a argentina? 113o. o paraguai? 102o. o uruguai? 90o. e subiu 12 posições de um ano pra outro. somos os piores do mercosul. simples assim.

de lá pra cá, o que foi que aconteceu? muitos dos outros fizeram muito, e nós não fizemos nada para melhorar as condições de empreendedorismo no país. olhe o gráfico abaixo…

image

…onde se vê que o brasil está parado no tempo [com uma ligeira regressão], enquanto china, índia e rússia [nosso outro bloco, os BRICs] avançaram em direção à "fronteira" de melhores práticas para negócios nos últimos cinco anos. o progresso da índia é notável. no mesmo passo, a rússia vai se tornar um ambiente empreendedor de classe mundial em breve. e a china está, talvez, respirando pra se recuperar dos esforços dos últimos anos.

não vai surpreender se a gente disser que a correlação entre a facilidade de fazer negócios e a competitividade global é alta [0.82, pág. 27 deste link]. mas surpreende que, mesmo entre os BRICs, todos situados do meio para o fim da tabela, no brasil se leve de tres a quatro vezes o tempo que se leva na rússia, índia ou china para se abrir um negócio. houvesse alguma exigência de capital mínimo, aqui, iríamos pro fundo do poço, como se pode comparar na tabela abaixo.

image

abrir uma empresa em cingapura exige tres procedimentos, leva três dias, e o custo é 1/8 do brasil. na nova zelândia, apenas um procedimento, em um único dia, a 1/13 avos do custo brasil. isso, aliás, é o que se chama custo brasil. e não consta que qualquer destes países seja uma bagunça por causa da simplicidade ao abrir negócios, muito pelo contrário. a grande complicação nacional, por outro lado, os cartórios e excesso de processos em todos os lados da economia nacional levam nossos candidatos a empreendedor a perder preciosos tempo, energia e recursos que deveriam estar usando para… empreender.

você pode pegar o relatório inteiro neste link. boa leitura. e não se assuste. se você já ia começar um negócio de qualquer jeito, nada melhor do que entender a classe de dificuldades que você vai enfrentar em comparação com empreendedores de outros países que podem estar concorrendo diretamente com você. e lembre que empreendimentos como buscapé começaram em condições piores que as atuais e se tornaram sucesso de público, crítica, resultado e, finalmente de retorno espetacular para os empreendedores e investidores. não desista.

em muitos países "difíceis", não são poucos os candidatos a empreendedor que resolvem o problema de contexto de forma radical, mudando de país. e este é o processo de alguns programas e apoio ao empreendedorismo centrados apenas no empreendedor, que partem do pressuposto que, se mais empreendedores "dão certo" nas economias "certas" mais economias, como consequência, vão se acertar.

sei não, pode até ser. mas isso pode levar muito, muito tempo. talvez seja preciso [em particular, este é meu ponto de vista] fazer um trabalho de base, de mudanças estruturais na conjuntura empreendedora para facilitar –nem que seja apenas um pouco mais, a cada movimento- um trabalho que, por si só [como estamos vendo nesta série] não perde para nenhum outro em complexidade.

além de começar a empreender ou continuar empreendendo aqui, mesmo sabendo que há outros 125 países onde seria mais fácil [ou, como diriam os otimistas, que há quase 60 onde é ainda mais difícil], precisamos lutar por reformas amplas, profundas, que permitam ao empreendedor brasileiro criar muito mais valor, bem mais rapidamente e de forma bem menos arriscada e complicada do que é o caso, hoje, no país.

olhando os sinais do futuro, talvez seja para isso que vem aí o ministério da micro e pequena empresa. talvez ele tenha parte de suas ações voltadas para os novos negócios inovadores de crescimento empreendedor. tomara.

até porque, parafraseando tom jobim e sem intenção de ofender nenhum país, cidade ou região, qualquer lugar sensacional que não é o nosso não é tão bom assim e o nosso, mesmo sem ser tão bom assim, é sensacional. só falta a gente torná-lo [continuamente] melhor pra empreender. aí, sim, é que vai ficar bom de verdade.

image

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

o tempo dos [e os] mercados

olhe para o cenário de mercado das principais plataformas operacionais móveis, nos últimos quatro anos

…pra ter uma ideia de como sorte e destino de todo sistema, em contextos de intensa inovação [e não só em tecnologia] e competição mudam muito rapidamente.

o gráfico mostra uma rapidíssima consolidação do mercado de plataformas de mobilidade, começando com mais de 25% do mercado de 2007 [os "outros"] se tornando, praticamente, uns poucos porcento de bada, o sistema operacional móvel da samsung.

de metade do mercado em 2007 [e quase 75% em 2006], symbian, antigo sistema dominante da nokia, está perto de 20% do mercado agora, talvez a caminho de um fim incerto. ou certo e definitivo, a extinção.

windows phone, o competidor da microsoft, nunca foi grande; mas queria ser, por causa do efeito "família" [de sistemas e dispositivos, que voltou com toda força, agora] de redmond. acontece que a microsoft demorou muito, talvez demais, a chegar com uma oferta realmente competitiva como phone 7 "mango" e potenciais sucessores, como tem agora. e deu no que deu: olhe o gráfico. mas, entre as muitas variáveis a considerar, há skype, o poder de fogo da microsoft… e a família e seus efeitos.

blackberry, a oferta da RIM, levava jeito. mas a empresa se perdeu no presente, deixou passar o futuro e está em sérias dificuldades, sem ter, como a nokia, um parceiro da classe microsoft para tentar uma recuperação. há quem diga que a RIM está com os dias contados, com que 20% de seus usuários pensando em mudar de plataforma no curto prazo.

e quem causou este rolo todo? a apple, com o iPhone e iOS e, até em resposta tal proposta, google e sua rede de valor ao redor de android. e isso foi ontem, entre 2007 e 2009.

os mercados têm um tempo. podem até ficar muito tempo como que parados, ao sabor dos produtos, serviços e empresas incumbentes. mas, mais cedo ou mais tarde, descobre-se um desatendimento, algum tipo de descontentamento [talvez implícito]. aí, é partir pro abraço, desde que seja possível desenhar uma proposta de valor que atenda as necessidades [de novo, podem ser necessidades implícitas...] de um mercado ou de um nicho, nele, gerando benefícios que compensam em muito os custos de troca, deixando a competição a ver prejuízos.

ninguém, em sã consciência, descartaria a microsoft. a empresa renasce das cinzas o tempo todo, como demonstra o kinect, que já fez a o xbox360 passar o wii [o queridinho, dia destes] e começar a perseguir o ps3, a mais poderosa máquina de jogar de todos os tempos [ou era assim que a sony queria que fosse].

da mesma forma que o wii foi uma grande inovação e sucesso instantâneo, a revolução sem interface, ou onde você é a interface, reescreveu o mercado de jogos. e, como quem está lá no mercado de jogos sabe, o problema não é fazer um jogo dar certo, mas criar e evoluir famílias inteiras de jogos que, no tempo, mantêm a companhia que está por trás deles no mercado, com receita maior do que despesa. e o mesmo vale para sistemas inteiros como as plataformas operacionais de mobilidade.

foi isso que microsoft, RIM, nokia e outros esqueceram, pelo menos por um tempo. quantos deles estarão competindo de fato, como gente grande, no mercado de mobilidade em 2020?

não sei o que diz a sua bola de cristal, mas a minha aponta para três. a apple e iOS, certamente. google e android, idem. você acha que há algum terceiro [no cenário acima e fora dele...] mais provável do que a microsoft e a "família" windows?…

PPT: porque a gente precisa de um cachorro…

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

a gambiarra e o rubik

Tags:, , , , , - srlm às 08:00

vez por outra a gente fala de robôs, como quando os robôs baianos se saíram bem melhor na robocup 2010 do que o time do brasil na copa do mesmo ano. ou quando a foxConn anunciou que iria trocar uma parte de seus montadores por um milhão de robôs, e em pouco tempo. ou quando mencionamos as máquinas de guerra autônomas que estão sendo desenhadas para ir à guerra no lugar dos soldados humanos de outrora. e passamos pelos robôs que serão amados e farão sexo com humanos. será? não sei. trata-se de uma tese de david levy. vá ler.

boa parte disso parece ficção científica, distante do dia a dia de mortais comuns como eu e você. mas agora imagine uma arrumação caseira, uma gambiarra feita com uns blocos de lego [se bem que dos mais radicais] e um smartphone, capaz de bater o recorde dos humanos pra resolver o cubo de rubik, aquele quebra-cabeças infernal que gastou infinitas horas dos nossos passados. pensou? clique no vídeo abaixo pra ver a gambiarra resolvendo o cubo…

…mais rápido do que feliks zemdegs, dono do recorde mundial humano, de 5.66 segundos de manipulação, depois de analisar o problema. a gambiarra do vídeo faz tudo em perto de sete segundos. e é só uma gambiarra.

sabe onde os alunos de hoje em dia estão aprendendo os fundamentos das tecnologias por trás de robôs como este? no ensino fundamental. veja esta busca, que tem como resultado uma pá de links para ensino e campeonatos de robótica no nível mais básico do ensino. e estamos falando da galerinha de 8 a 12  anos de idade, aprendendo a combinar computação, controle e comunicação pra fazer o futuro funcionar. crianças que estão tratando de sensores e atuadores quando não estão nos seus video games. isso vai mudar muita coisa, pode esperar.

pena que no ensino público, onde está a vasta maioria dos alunos, haja muito pouco disso. uma ou outra experiência aqui e ali são o que se vê. e nada de uma política nacional abrangente que pudesse usar o interesse natural que a robótica desperta nos alunos para criar mais e melhores oportunidades de aprendizado, a maioria delas, por sinal, transdisciplinar.

se nada for feito –rápido- no ensino público, esta será mais uma daquelas desigualdades a resolver lá na frente, pois as escolas privadas estão ligadas desde sempre na importância dos robôs e gambiarras robóticas no processo de aprendizado e participam, há tempos, de campeonatos internacionais.

image

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

desigualdade digital metropolitana no brasil

os pesquisadores luiz cesar de queiroz ribeiro, andré salata, lygia costa e marcelo gomes ribeiro, do instituto nacional de ciência e tecnologia observatório das metrópoles, estão estudando inclusão digital [PC em casa] e conectividade [acesso à rede em casa] nas metrópoles brasileiras. seu artigo "a reprodução digital das desigualdades: acesso e uso da internet, posição de classe e território" apresentado no encontro da ANPOCS de 2011, traz informação e reflexões interessantes sobre o estado da rede nas regiões metropolitanas.

no primeiro gráfico…image

…se vê que mais que dobrou a porcentagem de domicílios metropolitanos que possuem computadores pessoais. abaixo, se mostra a distribuição de PCs por níveis de renda na população, onde…

image

…descobrimos a desigualdade na posse de computadores se assemelha [como talvez não pudesse deixar de ser] à desigualdade na distribuição de renda no país. os 20% da faixa de renda mais baixa melhoraram muito [de 1,6% das casas com computador em 2001 para 13,6% em 2009] mas têm 1/3 da densidade de PCs da terceira faixa de renda e mais de 70 pontos percentuais a menos do que os 20% de maior renda.

entre os que têm computador em casa, o acesso a internet é melhor distribuído…

image

…porque computador é uma coisa por si só e outra, radicalmente diferente, com acesso à rede. mas enquanto o acesso se tornou quase universal entre os que têm PC em casa na faixa de renda mais alta, só 6 em cada 10 das pouco mais de 1 em cada 10 das casas mais pobres estão na rede.

redes têm um valor, como um todo, e para quem a elas pertence; segundo odlyzko, o valor de uma rede de N participantes tem uma forma parecida com Nlog[N]. o valor [V] da rede cresce menos do que N ao quadrado [a lei de metcalfe para redes do tipo web] e muito mais do que numa razão linear [a lei de sarnoff para redes do tipo broadcast como TV].

mudando de ponto de vista, tongia e wilson, III propõem que, a partir de um ponto onde a maioria das pessoas está em rede, o custo da exclusão é igual ao valor da rede [V]. tomando por base os dados do ibope/nielsen, que mostram 77,8 milhões de pessoas [a partir de 16 anos] online para uma população total [fora os de 15 anos ou menos, cerca de 46 milhões] de 145 milhões [todos os dados são aproximados], o brasil já tem mais da metade da população da faixa de idade considerada online.  consequência?

image

segundo a equação acima, isso quer dizer que já chegamos no ponto em que o custo de exclusão, para quem está fora da rede, é o valor da rede, que é imenso. quem está fora da rede está fora das redes sociais, está perdendo contatos, conteúdo e contratos, pagando custos de transação do passado quase no futuro. e, para cada pessoa que entra na rede, que fica fora tem um prejuízo cada vez maior.

visto de outra forma, a sociedade como um todo está mais conectada se o número de pessoas [ou lares] cresce dez pontos percentuais. mas o custo para quem está fora da rede pode estar crescendo muito mais.

a pergunta é… e agora, o que fazer? os dados e conclusões do observatório falam das metrópoles, nem mesmo as grandes cidades são consideradas. mas parece inquestionável que temos [ou teremos, em breve] a maioria da população online. daqui pra frente, portanto, o papel das políticas públicas pode ser muito mais importante do que no princípio da era da conectividade.

lá no começo da internet, as tecnologias não estavam maduras, eram caras e o estado não daria conta de trazer todo mundo pra rede, muito menos de fazer isso rapidamente. agora, quando a rede é quase commodity, pode ser a hora de por em ação um conjunto de políticas compensatórias para trazer os atrasados para a rede, em alta velocidade. o custo da exclusão, daqui pra frente, tornar-se-á cada vez maior e seu impacto social idem.

é aí onde deveria entrar [por exemplo] o PNBL. mas olhe esta notícia, bem recente: são paulo, o estado mais rico e conectado do país, concentra 2/3 das cidades atendidas pelo plano nacional de banda larga. contra as 233 localidades do estado, o PNBL chegou a 111 no resto do brasil. no nordeste, onde está o maior problema de acesso [e de distribuição de renda], estão apenas 7,8% dos lugares. e, mesmo onde chegou, parece [segundo esta outra notícia] o PNBL não tem o impacto que deveria ter.

banda larga [e não acesso, simplesmente] é uma das infraestruturas do presente [e não do futuro, como alguns querem]. banda larga deveria ter o mesmo status de água, eletricidade, esgoto, estradas… mas parece que tudo isso vai progredir da mesma forma de sempre, com os mais ricos e melhor estruturados chegando bem antes do resto, sem nenhuma política nacional efetiva o suficiente para equilibrar o país como um todo.

quer ver? olhe o mapa abaixo, da CNT, que mostra a qualidade das estradas de são paulo…

image

surpreende descobrir que a vasta maioria das estradas do estado é ótima ou boa? e que 2/3 das cidades do PNBL, ao mesmo tempo, está lá? vá ver o mapa das estradas do seu estado. e compare com o número de cidades, no seu estado, atendidas pelo PNBL até agora. exclusão é isso aí…

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

as oportunidades digitais da copa. e não só.

a copa [no brasil] e a olimpíada [com ela, no rio] vão resolver todos os problemas do país. da cobertura de celular e banda larga móvel [em quantidade e qualidade] às crateras das ruas e avenidas de recife e das grandes metrópoles, passando por lixo e reciclagem, planejamento urbano, segurança, ensino de línguas nas escolas, qualidade dos hospitais e postos de saúde… sem falar na solução definitiva dos problemas de mobilidade urbana e transporte público. acho que esqueci as enchentes… mas capaz de estarem no pacote também. e a lei geral da copa, instrumento de exceção imposto ao país pela [e para a FIFA], pode não só trazer a cerveja de volta aos estádios, mas vai garantir que esteja geladíssima, sempre.

claro que muito pouco de tudo isso vai acontecer de fato, a não ser –pelo andar da carruagem- a lei geral copa, que deverá valer de vinte dias antes do primeiro jogo até cinco dias depois do último. coisas do futebol. e de países sujeitos a ele, talvez. mas o certo é que a esperança messiânica de setores inteiros da economia e do pensamento nacional quase que exigem que a copa e olimpíada, além de serem grandes oportunidades, sejam também a solução definitiva para problemas seculares do país, como o verdadeiro ensino de línguas nas escolas, problema que pode ter a ver, até, com a baixa penetração das pequenas empresas brasileiras nos mercados internacionais, dado que, aqui, falar inglês é raro e caro.

deixando o contexto mais amplo de lado, o motivo deste post é um debate promovido pelo sebrae-DF sobre oportunidades digitais criadas pela ou por causa da copa de 2014, do qual tive o prazer de participar. o cenário do "digital" pode ser descrito, por um lado, pelas tecnologias que suportam a…

image

informaticidade, ou computação, comunicação e controle. uma parte do problema é usar o que existe de tecnologia e infraestruturas associadas para resolver [ou criar] problemas e levar ao mercado soluções que façam surgir novos negócios inovadores de crescimento empreendedor. outra parte é [re]criar as próprias tecnologias associadas à  informaticidade, se bem que o esforço, aqui, é consideravelmente maior, mais complexo e, normalmente, fora do alcance da quase totalidade das micro e pequenas empresas.

informaticidade traz as pessoas para ambientes digitais, conectados, onde mobilidade informacional é a norma e, breve, onde programabilidade de parte da solução pessoal e do contexto global também pode vir a ser a regra, ao invés da exceção. o contexto criado por tal conjunção de fatores é mostrado abaixo…

image

…e quer descrever um espaço de fluxos que conectam pessoas, que estão [ou estariam, ou estarão] usando [e/ou falando sobre e se relacionando com] coisas [pense ônibus, carros, ruas, sinais de trânsito] e instituições [pense nas de saúde, educação, segurança...] e, claro, com as marcas espalhadas por todo canto e querendo participar de todas as interações, afinal de contas isso é um mercado. um mercado social, de grandes oportunidades.

negócios associados a grandes eventos que usem ou dependam do digital, conectado, móvel e programável não precisam, necessariamente, da copa ou olimpíada como contexto ou [nicho de] mercado. na verdade, somos um país de grandes eventos, que ocorrem há tempos, durante todo o ano, em quase toda parte. o slide abaixo, da minha apresentação no debate do sebrae-DF, tem uma pequena lista de possibilidades, que não incluiu nem o são joão do nordeste, por absoluta falta de espaço.

image

qual é a ideia? simples: se você vai fazer alguma coisa muito interessante para a copa, porque não haveria de começar pelo campeonato brasileiro? isso aqui não é o qatar, onde vai ser a copa de 2022, que tem 1/9 da área de pernambuco e a população de recife. o conjunto anual dos campeonatos brasileiros e estaduais é muito maior do que qualquer coisa que veremos, localmente, na copa. os carnavais de pelo menos tres cidades [rio, recife, salvador], idem. aqueles engarrafamentos de 250km de são paulo, também. a quantidade de pessoas fora de casa, em busca de informação e serviços, a cada verão, é muito, mas muito maior do que os 500 mil turistas que devem visitar o país em 2014, se a crise econômica mundial deixar. pra se ter uma ideia, as praias de natal atraem quatro vezes mais turistas do que os estrangeiros previstos para a copa. e há o ENEM, os concursos, que também são "eventos", de longa duração, que atraem milhões de pessoas…

qual é a mensagem? se você vai fazer alguma coisa para a copa, não espere pela copa. o mesmo vale para a olimpíada. já temos muitos problemas muito relevantes que podem começar a ser resolvidos agora, em eventos nacionais de classe mundial que representam oportunidades gigantescas. a copa pode ser o vetor de espalhamento internacional da sua solução.

ao mesmo tempo, não pense que só nós estamos olhando para a copa no brasil. ou para a olimpíada. todos estão, especialmente os que já estão associados a tais eventos há tempos. a rede de valor é complexa, de grande porte, e não há espaço e tempo para improvisação muito perto da FIFA. como se não bastasse, iniciativas como airBnb e couchsurfing são mundiais e certamente serão usadas por gente que já faz parte de suas redes e vem pra cá nos grandes eventos.

e qual é a oportunidade? criar, a partir daqui, e em função de competências que temos ou estamos desenvolvendo nos nossos próprios grandes eventos "nacionais", soluções de classe mundial [mesmo que locais] capazes de gerar os novos negócios inovadores de crescimento empreendedor dos quais este blog tanto fala. até porque, se não for pra fazer isso, pode ser melhor…

image

…afinal de contas, o carnaval vem aí… e tem todo santo ano.

image

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

steve jobs, 1955-2011

srlm às 21:00

image

a apple anunciou o falecimento de steve jobs em seu site com a nota acima.

o legado de steve, que lutou até o fim contra um mal muito acima da resistência de qualquer mortal, é maior do que a apple. é uma grande lição de pensar, criar, desenhar, editar, repensar, fazer. de mudar o mundo. a história da computação pessoal e suas interfaces e uso não teria sido a mesma, até aqui, sem ele.

boa viagem, steve.

Blogs que citam este Post

a grande promessa da teoria das redes

Tags:, , - srlm às 06:31

há quase um ano, este blog [na série mundo, plano ou picos?] conjurou uma combinação de redes e fluxos no espaço [o mundo de bush-drucker-castells] para ameaçar uma explicação do mundo conectado, aquele que friedman dizia plano. a conclusão é que o "mundo plano" é inerentemente cheio de picos. muitos picos. conectados, mas picos.

no texto introdutório para uma seção especial sobre teoria de redes no volume 5 [2011] do international journal of communication, castells et al. dizem que…

…power is the relational capacity by which people or institutions can impose their will on others… and, since networks are based on
relations, it follows that power resides in the network.

poder é a capacidade relacional através da qual pessoas ou instituições podem impor suas vontades sobre outras… e, como redes são baseadas em relacionamentos, conclui-se que o poder está na rede.

e isso abre uma conversa que passa por uma série de artigos, inclusive um do próprio castells [uma teoria de redes do poder], onde ele expõe e relaciona os quatro poderes da [ou em?...] rede.

primeiro, networking power, o poder em rede, o poder que os conectados [pessoas e instituições], especialmente os muito conectados [o core, o centro da rede] têm sobre os que não estão em rede; segundo, network power, o poder da rede, vindo dos padrões necessários para coordenar a interação em rede [e concentrado naqueles os que os definem]; terceiro, networked power, o poder na rede, exercido por atores que estão em rede sobre outros que também lá estão e, por último, network-making power, o poder de formar redes, o poder de desenhar [ou programar] redes segundo desejos, vontades ou habilidades dos programadores. é o tal "programe ou seja programado".

mesmo que fosse só pra ler uma teoria de redes do poder já era negócio ir ao international journal of communication. e não é coisa pra ler e sair falando na lata, pois é preciso refletir sobre muitas das implicações do que está dito lá. por exemplo, hackers e engenharia social estão incluídos? sim, podem inclusive deformar redes. redesenhar redes, terminá-las. e por aí vai.

mas há bem mais do que o texto de castells: em networks, societies, spheres: reflections of an actor-network theorist, bruno latour conclui [antes do fim do artigo], que…

Whenever an action is conceived as networky, it has to pay the full price of its extension. It’s composed mainly of voids. It can be interrupted. It is fully dependent on its material condition. It cannot just expand everywhere for free. (Its universality is fully local). Networks are a great way to get rid of phantoms such as nature, society,  or power, notions that before were able to expand mysteriously everywhere at no cost.

…sempre que uma ação é concebida "em rede", ela tem que pagar todo o preço de tal "extensão". será composta principalmente de vazios. poderá ser interrompida. depende totalmente de sua condição material, não pode se expandir para todo lugar gratuitamente (pois sua universalidade é local). redes são uma boa forma de dar conta de fantasmas como a natureza, a sociedade, ou o poder, noções que gozavam da misteriosa capacidade de se expandir para todo lugar a custo zero.

este workshop rolou no começo de 2010 [os resultados só saíram em 2011] e o debate sobre as contribuições vai continuar por muito tempo. porque [segundo castells] a promessa, afinal, é que…

…network theory could provide a common language, a common approach toward the understanding of nature and society through the fundamental shared networks of biological networks, neural networks, digital networks, and human communication networks.

…a teoria das redes poderia ser a linguagem comum para a criação de um amplo entendimento da natureza e da sociedade, pela via das muitas redes fundamentais e compartilhadas: as redes biológicas, neurais, digitais e de comunicação humana.

pense numa encomenda. vai dar um trabalho danado pra entregar…

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

TICs, na década: mudanças e mais mudanças

olhe a imagem abaixo. leve em conta que o tempo corre da esquerda para a direita. a figura é deste post sobre as mudanças nas TICs [tecnologias da informação, comunicação] e suas aplicações neste século. olhe a imagem com calma. depois, abaixo, veja a continuação deste texto.

image

a primeira observação é que todos nós tendemos a superestimar os efeitos das mudanças tecnológicas no curto prazo e a subestimá-las no longo prazo. este ditado é conhecido como a lei de amara e se aplica a muito da imagem acima.

no topo da figura, observe a transição [que já está acontecendo] entre GUI [graphical user interface, as interfaces gráficas das estações de trabalho da década de 80 e, depois, de MACs e PCs] e "touch", as interfaces baseadas em toque, nossas contemporâneas. "toque" não é necessariamente a última interface que usaremos, claro. o kinect e o começo das interfaces baseadas em gestos, e à distância, estão aí para provar isso. daí que vem a citação à lei de amara no parágrafo anterior.

ainda bem que o texto de onde vem a imagem, logo depois dela, começa a discutir a próxima meia década das mudanças em TICs e suas aplicações e não o próximo século. 

parte do resumo da conversa é que os usuários [inclusive os corporativos] querem aplicações de [ou intensivas em] TICs mais ceis [no sentido de simples de usar], veis [em todas as plataformas, em todos os lugares] e sociais, conectando todos os sistemas, pessoas e instituições. tem cara de brincadeira chamar tal tríade de famosos, mas vão acabar chamando.

e o problema mais interessante apontado pelo texto de dion hinchcliffe é a distância entre as aplicações e sistemas famosos e a atual capacidade das corporações de prover infraestruturas e serviços de informação. e o tamanho do desafio que as empresas enfrentarão para diminuir tal abismo.

muitos negócios não conseguirão fazer as mudanças necessárias a tempo. porque o "abismo informacional" entre o que existe e sistemas "famosos", para a maioria, é tão grande e –dentro do contexto clássico de TICs nos negócios- exige investimentos de tal porte que, para um grande número de empresas, não haverá capacidade de investimento para as novas demandas informacionais da cadeia de valor e, principalmente, dos usuários.

a parte crítica do parágrafo anterior é o dentro do contexto clássico de TICs nos negócios. coisas como achar que, como todo negócio depende muito de software, todo o software deve estar sob o comando e controle da empresa, como parte dos problemas de seu grupo de "tecnologia", como se diz no mercado. em um número de empresas isso quer dizer, inclusive, que o "social" está se tornando parte do problema da galera de "tecnologia"… o que pode ser um problema a mais, ao invés de uma solução.

os negócios do passado distante migraram de isolados para cadeias e, depois, para redes de valor. e as plataformas tecnológicas que servem de infraestrutura para os negócios terão que fazer o mesmo nesta década. e serão usadas como serviços essenciais entregues por provedores de informaticidade, de forma similar ao que acontece com outras "utilities" como eletricidade e comunicação. com alguma sorte, sem os monopólios naturais que causam tantos problemas nas infraestruturas clássicas de serviços públicos.

mas migrar os sistemas de informação empresariais para a "nuvem" resulta em muito menos do que se quer: primeiro, que os sistemas de informação empresariais estejam centrados nas pessoas, para representar um estado de coisas que já existe, em e na rede, há uma década. segundo, um passo decisivo para integrar as pessoas e coisas no mesmo ambiente. sem estratégia, planejamento e investimento para tal, os incumbentes de muitos mercados estarão criando espaços para novos e bem mais conectados competidores. pra ver do que estamos falando, veja o vídeo abaixo…

ericsson: a rede social das coisas [conectada a das pessoas...]

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol