Terra Magazine

12.11.09

eletrônicos: a crise ainda não acabou e…

image dados recentes da abinee, associação da indústria do setor eletroeletrônico, mostram que a crise continua por aí, e em variados setores da economia. clique no gráfico ao lado, que mostra as exportações do setor nos últimos três anos [2009 em verde, bem abaixo de 2007, em vermelho, e do azul de 2009], que você vai direto para o balanço feito pela abinee até setembro deste ano.

a crise neste mercado tem vários componentes, incluindo o day after da crise de crédito e a valorização do real. e o real forte não causoimageu, por exemplo, um aumento excessivo das importações, como mostra o gráfico à direita, onde se vê que a entrada de eletrônicos, em 2009 [verde], voltou aos níveis de 2007 [vermelho]. mas a valorização da moeda brasileira pode ter tido um efeito negativo muito sério na competitividade de produtos brasileiros lá fora: só a exportação de celulares, no ano e em valor, caiu 38% em relação ao mesmo período de 2008.

a única consequência benigna do atual estado de coisas  [?] é que o déficit do setor, eterna preocupação dos formuladores de política para a área, caiu, imagee caiu muito, como mostra o histograma ao lado. em relação a 2008, estamos economizando mais de cinco bilhões de dólares até agora. a previsão para 2009 é de US$22B de compras e US$7B de vendas, o que vai causar um rombo de US$15B nas contas do país. grande, muito grande, mas bem menor do que os US$22B do ano passado.

pra se ter uma idéia comparada do tamanho do problema, a tonelada de soja [este mês; veja os dados históricos aqui] está cotada ao redor de US$400 e o brasil deve exportar cerca de 25 milhões de toneladas de soja este ano o que vai resultar em US$10B do lado positivo da balança: por estas contas, precisamos de safra e meia de soja [exportada] só para cobrir o déficit de eletrônicos.

segundo a abinee, o mercado de 2009 será de 5 a 7% menor do que 2008, e a indústria deve voltar a crescer no ano que vem, mas… "Não há um futuro muito promissor… A tendência é que o déficit volte a aumentar em 2010". talvez voltemos aos níveis de 2008, e aí será necessário exportar duas safras de soja [no ano] pra pagar a conta: haja desmatamento.

a pergunta que talvez devêssemos fazer, sobre a crise da balança de pagamentos de eletrônicos, é… quais são as causas estruturais do déficit ou, talvez, qual é a principal causa estrutural do déficit? a indústria tem sua lista, ela é longa e passa pelos onipresentes e reais juros altos, parte do ubíquo custo brasil.

do lado de cá do blog, meus botões e muitos especialistas acham que o problema é mais profundo. o fato é que nós não somos competitivos no mercado internacional porque não temos o custo da china [e parece que nunca teremos] e, ao mesmo tempo, não somos inovadores como a finlândia [por exemplo]. e a consequência é que, no negócio de eletrônica em geral, informática inclusive, continuamos [majoritariamente] produzindo commodities para o mercado nacional.

precisamos de muito, mas muito mais empresas e empreendimentos que, ao invés de se pensarem num quintal de mundo e aceitarem como uma espécie de dádiva divina o quinhão que lhes sobra, quase que por definição e exclusão, passem a pensar no mundo como um quintal de suas operações. claro que é um quintal complexo e difícil, cheio de gente, parte da qual muito competente. mas competir em mercados internacionais nunca foi fácil e sem riscos.

para competir, de verdade, é preciso inovar. e a receita é conhecida: vamos ver o que pensa paulo tigre, presidente da fiergs: a inovação é a chave para a competitividade das empresas e o desenvolvimento do país e, consequentemente, determinante para o aumento da produtividade e da renda real. quase todo ator de primeira grandeza do cenário industrial e de negócios brasileiro, se provocado, daria uma declaração similar.

mas enquanto as empresas brasileiras de eletrônica e informática, inclusive muitas que se acham inovadoras, continuarem pensando em cópias rápidas e rasteiras de produtos existentes no mercado internacional, criadas para substituir importações para o mercado nacional, sempre num espírito rasteiro de “precisamos correr atrás”… continuaremos, sim, atrás e muito pouco competitivos no mercado internacional. e a balança comercial do setor continuará desbalanceada.

e os sinais de que ela pode se tornar ainda mais negativa são muitos, incluindo o significativo número de empresas brasileiras [de hardware] planejando a terceirização de sua produção para o sudeste da ásia. quando isso acontecer [é só o dólar cair um pouco mais…] o governo certamente reagirá com barreiras à importação, reinstalando com toda força o mercado cinza do setor, pelos caminhos desastrosos, do ponto de vista de trabalho, renda e impostos, que todos nós já conhecemos.

a crise da balança comercial dos eletrônicos e da informática não é superficial e tampouco conjuntural; ela é profunda, estrutural e nunca [na história deste país…] foi tratada com a atenção, dedicação, conhecimento e investimento que deveria, tanto do ponto de vista das empresas como das políticas públicas. enquanto isso não for feito, a crise não será resolvida, pois não se resolverá sozinha.

e o resto é economia de elevador, publicada todo mês como se fora tábua de marés, com números dançando para cima e para baixo, sobre discursos vazios e ouvidos ocos.

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21.11.08

a balança dos eletrônicos [de novo]

Tags:, , , , - srlm às 12:57

em junho passado este blog publicou um texto sobre a importação e exportação de eletrônicos, onde se dizia que… o déficit da balança de eletrônicos, até maio deste ano, já está 61% maior do que no mesmo período no ano passado [que foi, por sua vez, 41% maior que 2006, comparando ano a ano]. estima-se que o rombo passe dos US$20B em 2009, resultado de um mercado interno que compra cada vez mais PCs, laptops, celulares e tudo que tem, dentro, componentes, partes e peças que importamos a granel da ásia, combinado com uma muita dificuldade de exportar o que é produzido aqui, por causa do que se convencionou chamar de “custo brasil”, que agora inclui um real tão valorizado como há uma década. 

de lá pra cá, o real se desvalorizou muito, o que deveria ser parte das boas notícias para o setor, mas não é: dólar mais caro significa insumos mais caros, principalmente componentes eletrônicos importados majoritariamente da ásia para o brasil, o que, como mostramos em outro texto, acaba complicando o cenário para os fabricantes nacionais de eletro-eletrônicos.

ss-20081121114513.pngpois bem. a abinee acaba de publicar os resultados da balança comercial até setembro [ou seja, até o começo da "crise"] e a situação piorou um pouco. nos primeiros nove meses do ano, o déficit de eletro-eletrônicos está 65% maior do que no ano passado, como mostra a figura deste parágrafo. segundo a associação da indústria eletro-eletrônica… No acumulado de janeiro a setembro de 2008, o déficit comercial de produtos eletroeletrônicos foi de US$ 17,22 bilhões, 65% acima do ocorrido no mesmo período do ano passado (US$ 10,44 bilhões). Este total é resultado de exportações de US$ 7,53 bilhões e importações de US$ 24,75 bilhões …este saldo negativo é recorde histórico, e o resultado acumulado nos nove primeiros meses deste ano foi superior ao total acumulado nos 12 meses dos anos anteriores. Vale lembrar que, no ano todo de 2007, o déficit atingiu US$ 14,75 bilhões.

a abinee ainda deixa claro que… neste período ainda não foram contabilizados os efeitos que podem ocorrer em função da crise mundial. Portanto, por enquanto, permanece a previsão de o setor encerrar este ano com saldo negativo de US$ 20,6 bilhões, resultado de exportações de US$ 9,3 bilhões e importações de US$ 29,9 bilhões.

por um lado, a notícia é boa: como o país está crescendo e qualquer parte da infra-estrutura de qualquer país depende de eletrônica e informática, estamos investindo massivamente no que deveríamos estar investindo, inclusive do ponto de vista pessoal, com um monte de empresas [e pessoas] comprando, por exemplo, seu primeiro PC.

por outro, talvez se deva notar que o setor industrial de informática, no país, não é competitivo internacionalmente, o que significa que temos em voga, ainda, uma política industrial de substituição das importações. importamos componentes e fabricamos equipamentos [PCs, celulares...] para suprir o mercado nacional, com uma pequena parcela de exportações para, principalmente, o mercado latino-americano [60% dos US$1.7B exportados em celulares foram para argentina e venezuela].

resumo da ópera? espera-se que o déficit da balança comercial esteja sendo pago pelo aumento da produtividade dos negócios e das pessoas, como já está demonstrado que é o caso da introdução massiva de informática na economia. mas isso vai acontecer mesmo é no longo prazo. no curto prazo, aqui e agora, o buraco da balança comercial de eletrônica está sendo coberto mesmo é pelo nosso sucesso nas commodities

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19.06.08

os PCs e a balança comercial

de acordo com pesquisa do idc, foram vendidos mais de 21 PCs por minuto no brasil durante o primeiro trimestre de 2008. isso dá quase 2.4 milhões de computadores pessoais nos três primeiros meses do ano, um aumento de quase 19% sobre período similar de 2007, que tinha sido considerado atípico [de tão bom].

segundo o idc, citado pela folha,  até 2010 o brasil alcançará o terceiro lugar em volume de vendas de PCs no mundo, atrás apenas de eua e china; pelas contas dos consultores, há cerca de 50 milhões de PCs funcionando no país, no momento.

e a balança comercial com isso? o déficit da balança de eletrônicos, até maio deste ano, jádecon141-import.gif está 61% maior do que no mesmo período no ano passado [que foi, por sua vez, 41% maior que 2006, comparando ano a ano]. estima-se que o rombo passe dos US$20B em 2009, resultado de um mercado interno que compra cada vez mais PCs, laptops, celulares e tudo que tem, dentro, componentes, partes e peças que importamos a granel da ásia, combinado com uma muita dificuldade de exportar o que é produzido aqui, por causa do que se convencionou chamar de “custo brasil”, que agora inclui um real tão valorizado como há uma década.

no passado, quando isso acontecia, fechava-se as fronteiras e se tratava de “substituir as importações”. à medida que o país se globaliza,decon142-deficit.gif o mercado [ou seja, todo mundo que não fabrica alguma coisa aqui, só para comércio local] quer os melhores produtos, pelos melhores preços, pouco importa de onde venham. até porque nosso argumento para vender [por exemplo] etanol nos estados unidos é menos barreiras na fronteira e menos subsídios dentro delas. se saímos com etanol, onde somos muito competitivos, os outros vão querer entrar com os produtos onde são muito competitivos. simples assim. antigamente, até que dava para pensar em ser competitivo em tudo. no mundo globalizado e conectado, onde a antiga brahma vai acabar comprando a cerveja símbolo dos eua, só burma e a coréia do norte acham que estão isoladas. por pouco tempo mais.

vamos ter que tomar e implementar decisões sérias de política industrial muito em breve, em muitas áreas. uma delas vai ser a de fabricação de commodities eletrônicas [PCs, laptops, celulares, câmeras, pods...] de baixo peso e alto valor agregado, onde o custo do transporte é irrelevante. ou se cria, aqui, condições para fazermos mais coisas pro brasil e outras partes do mundo ou acabaremos importando tudo pronto, até porque vai ficar, ao fim das contas, mais barato.

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