Terra Magazine

sexta-feira, 20 de março de 2009

brasil terá dinheiro celular em 2010: será?

os centro e trinta bancos associados à febraban, gente grande e que sabe que dinheiro é coisa séria, decidiram tratar em conjunto a oportunidade de usar os celulares como meio de pagamento. o banco central foi avisado da intenção e a meta é começar até o fim de 2010.

pra coisa dar certo, algumas constelações têm que se alinhar. além dos bancos todos querendo fazer a mesma coisa, o que parece já ser o caso, pois concordaram em lançar uma plataforma unificada para transações financeiras móveis até o final de 2010, o banco central tem que deixá-los fazer, porque o espaço é regulado. estes dois itens não são maior problema. há coisas mais complicadas.

os bancos resolveram, também, que vão conversar com as teles “depois”. celulares, como se sabe, funcionam sobre a infraesturtura e serviços das operadoras, que têm idéias próprias sobre o assunto. e aí, nesta constelação, é onde mora um dos perigos. pra começar, a oi tem seu próprio serviço de m-payment [mobile payment], o paggo, para o qual angariou 900 mil usuários e 22 mil lojas no primeiro ano de operação [2007/2008] e deve ter entre 1.2 e 1.5 milhão de usuários hoje. e a vivo, pra não ficar atrás, também vai lançar um m-payment. afinal de contas, nada melhor do que virar um banco, se você não se envolver com empréstimos podres, como alguns dos maiores do mundo.

a ntt/docomo [japonesa] descobriu isso há muito tempo: cartões de crédito que funcionam como os de plástico que carregamos, só que embutidos no celular, foram lançados em 2006. trata-se de muito mais que um paggo, a ponto da operadora ter requerido uma carta patente de banco aos reguladores japoneses. a docomo deu a partida, os outros seguiram. rápido. hoje, mais de 30 milhões de celulares são osaifu-keitai [mobile wallet, ou carteira móvel], cerca de 30% de penetração entre os celulares japoneses. seria como termos uns 50 milhões de celulares-cartão no brasil. um monte..

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os osaifu-keitai são usados pra tudo, de pagamento de passagens de ônibus, metrô e ingressos de todos os tipos a supermercados, máquinas de refrigerantes e o que mais você pensar. mas a vida não é tão simples quanto parece. os problemas associados ao uso do celular para transações financeiras não estão de todo resolvidos, mesmo no japão, país de povo viciado em keitai. pesquisa de outubro de 2008 mostra que apenas 15.6% dos japoneses usa seu banco a partir do celular, contra 68.2% de quem tem computadores pessoais na rede. .

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mas nossos bancos podem estar vendo longe, muito longe. ao anunciarem o celular-cartão brasileiro, a pergunta de muitos bilhões de reais é… será que os bancos vão falar com as operadoras “depois” porque planejam lançar uma operadora virtual deles próprios, combinando os serviços e lucros das duas operações?…

pelo andar da carruagem, a anatel pode autorizar operadoras virtuais [MVNOs, mobile virtual network operators] antes do fim de 2010. uma MVNO é uma operadora que existe para mim e para você mas que não existe de fato lá na infraestrutura. a marca, o marketing e parte dos serviços vendidos no mercado a diferenciam das operadoras “normais”, mas ela usa, lá atrás, infra alugada de uma ou mais operadoras, digamos, clássicas. no brasil, os estudos técnicos estão prontos e sabe-se que a anatel vai decidir entre duas alternativas de modelo de MVNO para o país.

junte as peças: os bancos vão lançar um celular-cartão brasileiro, com todos eles apoiando [e ganhando dinheiro, muito]. isso é bom. a anatel vai liberar as operadoras móveis virtuais. isso é muito bom, pois vai aumentar a competição e melhorar a vida dos usuários. os bancos vão conversar com as operadoras “depois”. os bancos, em conjunto, podem lançar um osaifu-keitai na sua própria operadora, se quiserem; têm capitais e competências para tal.

agora pense: se você fosse uma operadora, faria o que?…

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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

finanças: na internet, quem está seguro?

Tags:, , , , - srlm às 11:40

ontem, relatamos aqui que o inspetor geral americano está dizendo que a segurança de informação da receita federal de lá não é tão boa como deveria ser para proteger os dados dos contribuintes. hoje, é a vez de notar que, na frança, uma galera conseguiu entrar na conta bancária de ninguém menos do que o presidente nicolas sarkozy e tirou do seu banco "pequenas quantidades de dinheiro" várias vezes. segundo os investigadores, não é coisa de amadores. e o crime na internet cresceu 9% na frança, este ano, contra uma queda de mais de 2.3% no crime em geral, mas em linha com um aumento de 8.9% nas infrações econômicas e financeiras. se os números da estatística francesa estiverem corretos, a internet é "só mais um lugar" para se cometer um crime.

no brasil, o ritmo de crescimento do crime na internet é assustador: em 2006, foram julgadas 7.000 ações criminais. até setembro de 2007, já tinham sido julgadas 15.000. este crescimento é um argumento poderoso do pessoal que defende a criminalização de certas condutas na internet, como proposto pelo senador azeredo em projeto que põe, no mesmo saco, ladrões de contas bancárias na rede e gente que compartilha música. e o caso da conta do sarkozy vai acabar entrando na argumentação, também.

teclado-maos-luva.jpgminha opinião? não é preciso nenhuma nova lei pra enquadrar ladrões de banco da internet. o que é difícil é pegar ladrões de banco na rede. se eu fosse roubar dinheiro de alguém, na web, não iria fazê-lo da minha casa, no meu laptop, na minha conexão de internet e com meu endereço IP, tudo facilmente identificável pela operadora e, conseqüentemente, pela polícia, certo? não que seja possível, ainda, identificar minha máquina, mas por via das dúvidas, ela não seria a "arma" do crime. ladrões "de verdade" usam carros e armas roubadas. ladrões virtuais, dos competentes, usam máquinas roubadas, pirateiam conexões sem fio desprotegidas [e muitas delas] e navegam através de anonimizadores [como TOR], o que torna um pouco [ou muito] mais difícil achá-los. alias, se o cara for mesmo competente, é quase impossível achá-lo.

e o que a lei azeredo tenta fazer? em boa parte, neste caso, tirar a responsabilidade dos bancos nas invasões de seus sistemas de informação, jogando parte do problema para os provedores e usuários [e correntistas]. normal, considerando que as perdas das instituições financeiras podem estar na casa das muitas dezenas de milhões por ano… daí que, segundo muita gente boa, os bancos aproveitaram a guerra à pedofilia na rede [que era o objetivo inicial de projetos tramitando no congresso] e movimentaram sua bancada para injetar, na legislação, os controles que queriam ver na rede. resultado? o projeto de lei do senador azeredo, relatado pelo senador mercadante, foi aprovado em marcha batida no senado e está esperando a câmara começar a trabalhar para passar por lá tão rapidamente quanto. 

este blog discutiu a lei azeredo, antes, em outro texto. a conclusão de lá pode muito bem ser repetida aqui: …nosso desafio, ao combater o crime na rede, será o de fazê-lo sem transformar a internet em um estado policial, onde quase tudo é proibido ou suspeito. se isso acontecer, perderemos a rede. o que que ninguém, em sã consciência e vivendo pelo menos no presente, quer. o que significa que o debate sobre crime on-line, sua prevenção, nossos direitos e responsabilidades, vai ser fundamental nos próximos anos da web. e do brasil.

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