Terra Magazine

02.10.09

se o mercado não resolve banda larga, o governo deve estatizar?

o seminário "a universalização do acesso à informação pelo uso das telecomunicações", do conselho de altos estudos e avaliação tecnológica da câmara dos deputados, dia 29/09, foi palco para uma declaração radical do secretário de logística e tecnologia da informação do ministério do planejamento, rogério santanna: "as operadoras não são parceiras. se eles são parceiras em algum momento, é para atrasar".

santanna estava falando do programa PC conectado e de muito mais. e sabe do que está falando. as operadoras vêm jogando um jogo perigoso há tempos, quando se trata de banda, universalização, atendimento e, de resto, qualquer coisa que envolve clientes [como nós] e regras [de concessão, que elas deveriam cumprir]. no topo disso [e pra contar só uma das histórias] o programa do PC conectado teve que ser renomeado para “computador para todos”… porque o governo e as operadoras não conseguiram acertas as bases do negócio. imagine o tamanho do sapo que o governo teve que engolir. como se verá, tudo tem seu preço.

por um problema estrutural que se estendeu por todo o governo lula e que não dá sinais de ser resolvido no médio prazo, a agência reguladora do setor, tratada por boa parte do executivo como um apêndice “entreguista”, não teve banda [de atuação] nem força, muito menos orçamento e sintonia com o executivo para por ordem no mercado.

e isso não aconteceu por causa ou culpa da anatel. há quem diga que o governo, deliberadamente, desestruturou as agências –principalmente a anatel- para que fosse possível uma intervenção estatal cada vez maior no mercado. especialmente se o mercado “não dá conta” do recado, como o secretário declara que é o caso na banda larga. se ele perguntar aos usuários, não vai achar muita gente satisfeita a ponto de defender as operadoras, e isso apesar da tabela abaixo, que mostra um crescimento de 150% dos usuários domiciliares de banda larga, no país, em três anos e meio.

imagemas e se a gente comparar com o resto do mundo? em período equivalente, o acesso a banda larga [por 100 hab.] no méxico e na turquia cresceu sete vezes; na grécia, foram quinze vezes. normalizado por população, nós crescemos duas vezes e meia em três anos e meio. não é exatamente uma performance de quem está acompanhando o mundo como deveria.

o resultado desta “evolução”, em boa parte causada pela inexistência de uma política pública para banda larga [do governo, que entregou o FUST ao superavit primário] e por uma intervenção tardia da anatel na regulação do setor [como no caso do speedy] está levando setores do executivo a pensar seriamente em estatizar parte do mercado.

o padrão é conhecido: decreta-se a falência do livre comércio de bens e/ou serviços [por causas variadas, provocadas ou não pelo setor público] e postula-se que somente a intervenção estatal pode botar a casa em ordem. e aí, ou e aqui, parte-se para criar [ou reviver] uma estatal que dará conta do recado, no caso a telebrás, que está a poucos passos de entrar em cena para ser a provedora de infraestrutura de informação para o .gov e os programas estatais de inclusão [de escolas, hospitais, e quem sabe o que mais]. a telebrás, talvez se deva lembrar, era a telerj, no rio, e a telpe, em pernambuco, duas das piores operadoras de telecom do mundo em suas épocas.

agora, segundo santanna, a nova… telebrás terá uma função de operadora da rede…alternativa à rede das grandes concessionárias… para os pequenos provedores. "o maior problema para que as pessoas tenham banda larga é o preço e a falta de oferta. e isso as empresas não resolveram”… "o estado pode ser esse backbone neutro capaz de permitir que todos concorram em pé de igualdade".

mesmo que se concorde com toda a argumentação do secretário, a conclusão [criar uma estatal para o setor] não é necessariamente derivável das premissas. até porque temos problemas similares em muitos outros setores, talvez tão ou mais críticos, onde o estado já está envolvido até o talo… e não resolve muita coisa.

exemplo? que tal esgoto, que é quase só estado no brasil inteiro? em 15 anos, de 1992 a 2007, o percentual de casas atendidas pela rede saiu de 39 para 52%. se o estado resolvesse todo tipo de problema, este, que é um dos mais graves da infraestrutura brasileira, deveria estar resolvido, não?

image

outro exemplo? alfabetização. o nordeste continua com mais de 30% de analfabetos funcionais, gente que, em plena economia de conhecimento, é candidata a uma única vaga, a da fila da bolsa família. no brasil, a porcentagem de analfabetos está parada há tempos, ao redor de 10%, 19 milhões de pessoas que, nem com banda larga [ou qualquer outra] vão ler este texto. exemplos não faltam, é só procurar que você vai achar um atrás do outro, de estradas e aeroportos [e controle do tráfego aéreo] a segurança pública e sistema prisional.

a sociedade e economia, aqui e em todos os países do mundo, dão provas inequívocas de que nem sempre a solução “estatal” é ideal, ou mesmo boa, para qualquer que seja o caso. talvez fosse melhor, no caso da banda larga e em muitos outros, estabelecer parâmetros políticos, sociais, econômicos, deveres e haveres, controles e avaliações do que se quer fazer para se ter o que, e quando, e seguir fazendo o combinado por um bom tempo, exatamente como não foi feito no setor de telecom…

talvez se pudesse ordenar, de verdade, o setor. como talvez nunca tenha sido feito. talvez isso, talvez aquilo… são muitos talvezes…mas isso tudo é história ou futuro, quando olhamos para as urgências do presente.

agora, as teles têm mesmo que se preocupar, pois santanna não está pra brincadeira e tem eco no resto do governo. andré barbosa, da casa civil, noutro evento um dia depois do desabafo de santanna, disse que até concorda em continuar negociando com as teles: "Não vejo nenhum problema de conversar com a iniciativa privada”… mas emendou: “É verdade o que o Rogério Santanna apresentou, de que as empresas ainda não são parceiras do governo. Mas acho que elas estão mais com medo de uma estatização do que de qualquer outra coisa. E nós já deixamos claro [que] é isso que pretendemos fazer".

pelo visto, parece mesmo que o governo cansou de esperar. alô, teles: hora de acordar pra jesus!…

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06.02.09

banda larga pra que [1]?

Tags:, , , - srlm às 15:41

image pra ligar seu xbox360 na internet e, por US$9 por mes, ver tantos vídeos quantos conseguir. nos primeiros 90 dias da oferta, nos EUA, mais de um milhão de clientes se associou ao serviço da netflix, em parceria com a microsoft [xbox live] e esta comunidade já assistiu mais de 1.5 bilhões de minutos de vídeo. mais de 12.000 filmes e vídeos estão disponíveis, o serviço é streaming em tempo real e, em breve, por poucos dólares a mais, todo HBO vai estar lá.

quem não tem banda larga não tem internet. simples assim.

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18.09.08

banda larga: estamos em terceiro lugar…

…de baixo para cima. estudo que acaba de ser publicado pela saïd business school da university of oxford, em conjunto com a universidad de oviedo, mostra o brasil no rabo da gata de uma lista de 42 países na combinação de penetração [cobertura] de banda larga nas casas, combinada com a qualidade do serviço. os primeiros países estão no quadro abaixo que, clicado, leva direto à página onde está o relatório.ss-20080917084415-broadband-leadership.png

a pesquisa levou em conta os países membros da OECD e os grandes emergentes [os BRICs: brasil, rússia, índia e china] e, usando uma medida denominada índice de qualidade de banda larga [BQS, broadband quality score], comparou o que é preciso, em quantidade e qualidade de banda, para ter as atuais e futuras [daqui a três, cinco anos] aplicações ricas [código, vídeo, interatividade] nas casas. para hoje, se determinou que é preciso ter um BQS de pelo menos 32 [veja o estudo para entender como calcular], o que significa que portugal [veja histograma abaixo] é o último país da lista do que estão em dia com o presente da rede.

ss-20080917091520-bqs-broadband.png

O BQS do futuro muito próximo, daqui a três anos, é calculado em 75, fazendo com que o japão, que foi um dos últimos países ricos a entrar na internet comercial, seja o único que já está pronto para as aplicações de amanhã. pra nós, que estamos com uma nota 13, lá no fim da linha, à frente apenas da índia e rússia, o que isto significa?

 ss-20080917084415-broadband-leadership-trailing.png

significa que, se seu negócio depende de um país conectado e você está tentando fazê-lo decolar no brasil, é bom diminuir o tamanho de seu país alvo e tentar fazer a coisa decolar em, digamos, parte do estado de são paulo. e que se você, pra trabalhar, depende de uma qualidade e distribuição de banda que lhe dê acesso à web 2.0 e suas aplicações, o lugar ainda não é o brasil. deveríamos repensar, aqui, sobre o outro campeonato mundial, onde se mede o tempo em que ficamos na rede.

no concurso de tempo na rede, o brasil ganha disparado, com 22h24 de uso por pessoa/mês. a seguir, na lista do ibope/nielsen, vêm estados unidos, com 19h52, frança, com 19h40, japão, com 18h29 e reino unido, com 17h46.  vai ver que isso ocorre justamente porque, entre os países que mais usam a rede, temos as piores conexões. fazendo uma comparação em termos de horas navegadas e qualidade de navegação, os japoneses talvez tenham acesso, a cinco vezes mais conteúdo do que nós, mesmo usando a rede quatro horas a menos, por mês.

de qualquer forma, o país entra na rede, até porque a classe C [e breve, a D] entra na rede pelas suas próprias mãos e bolso, face a completa ausência de políticas públicas para internet ou, como o mundo inteiro trata o assunto hoje, banda larga. como a imagem [do ibope] abaixo mostra, metade dos usuários da internet, no brasil, já é das classes C e D. é muito pouco, ainda [as classes A e B são apenas 15% da população], mas é muito, considerando que não há nenhum indício, até agora, de políticas públicas -do porte do brasil- pra resolver, como deveríamos, o problema de acesso à rede.

penetracao-internet-brasil-por-classe.jpg

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20.08.08

decolando: banda larga móvel

Tags:, , - srlm às 17:44

a american airlines é mais uma empresa aérea [depois de emirates, lufthansa, virgin, delta...] a oferecer banda larga móvel a bordo de seus aviões. não todos, e não ainda pro brasil, certamente. por enquanto, é só na civilização. a coisa começa a funcionar esta semana em cerca de 15 767-200 entre jfk-sfo, jfk-lax [US$13 pela conexão] e jfk-mia [US$10] e o serviço vai ser ampliado para 500 aviões da companhia.

laptop-plane-broadband.jpg

acho que muuuita gente estaria disposta a pagar R$15-20 pra ter conexão banda larga, aérea, que realmente funcionasse em vôos como rec-gru, rec-bsb, bsb-poa, gru-eze. a aircell, que provê o serviço móvel aéreo nos eua, diz que os usuários terão uma experiência equivalente a uma conexão de 2Mbit/s a bordo. duvido, mesmo com o uso de compressão e cache nos aviões.

a aircell já tem uma infra-estrutura de 92 [indo pra 500] antenas cobrindo as principais rotas aéreas dos estados unidos. pra funcionar aqui, alguém teria que fazer o mesmo e cobrir [por baixo] os caminhos [e descaminhos] por onde passam nossos vôos. coisa pra daqui a uma década, quem sabe…

ah, sim: pra quem está preocupado com a zorra a bordo, celular e VOIP não estarão disponíveis, pelo menos até a gente hackear o sistema…

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