Terra Magazine

01.10.09

a informática e as eleições

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depois de intensa articulação nos bastidores e ministros disso e daquilo chamados às pressas, o presidente da república sancionou, sem vetos importantes, a nova lei eleitoral. dois temas principais da reforma, do ponto de vista de informática, vão mudar o estado das coisas, talvez de vez.

imageprimeiro, ao contrário do que queriam os defensores da suposta segurança das atuais urnas eletrônicas, o voto vai ser auditado: uma porcentagem das urnas terá o voto impresso para posterior conferência. isso vai aumentar a transparência do processo de votação, senão do sistema eleitoral.

o sistema eleitoral brasileiro tem um problema radical, a concentração de poderes e execução do processo em uma única instituição, o TSE, que define a política, o processo, executa a eleição, dirime dúvidas e, do primeiro ao último caso, é o tribunal de si mesmo.

este blog fez uma longa série de considerações sobre o processo eleitoral antes das últimas eleições, em agosto e setembro de 2008, que você pode ver [pela ordem] aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

deixando o sistema eleitoral, como um todo, para lá [e por enquanto], começar a auditar as urnas pode ser parte do processo de mudança, da mesma forma que liberar a web, segunda parte da reforma no que diz respeito à informática, redefine o campo e parte das regras do jogo eleitoral.

isso porque revogamos parte do bisonho regulamento onde os candidatos só podiam usar, nas campanhas, o domínio “.can.br”, e onde a rede era tratada como se fosse, simplesmente, um amontoado de jornais eletrônicos. do jeito que ficou, candidatos e seus apoiadores [e opositores] podem usar do twitter ao facebook, do jeito que quiserem e até quando quiserem, para propagar seus planos e projetos. isso é muito bom.

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mas o efeito desta “abertura” do processo eleitoral na web é bem menor do que poderia ser, porque apenas uma parcela do país está na rede, e em sua maior parte [acho eu] aquela que não será muito afetada pelos argumentos de um ou outro lado da política [se é que a política brasileira tem lados e não só interesses].

mas é claro que as novas regras para a rede, na próxima campanha, vão aumentar a transparência das eleições brasileiras. vamos todos poder dizer o que pensamos e queremos de candidatos, nossos e dos outros. haverá um aumento significativo do espaço e tempo ocupado por política na web. mas a mudança verdadeira não será na eleição que vem, e sim à medida em que muito mais gente, de todas as classes e lugares, se tornar cidadão de primeira classe, na rede.

pra isso, precisamos de mais e melhor rede, em todos os recantos do país, e este é um problema político, como sempre. assim como educação: estamos cansados de saber quais são os problemas essenciais do processo e sistema educacionais do país. por que, então, ainda não temos soluções verdadeiramente nacionais? por que ainda não temos nem o equivalente de um SUS para educação? será que interessa, para algum [ou muitos] grupo[s] manter uma grande maioria da população na ignorância?…

as respostas a estes ingênuos dilemas são conhecidas. quanto mais ignorantes, mais manipuláveis os indivíduos. quanto mais desinformados, menos educadas, mais ignorantes as pessoas. quanto mais fora da rede, quanto mais isoladas dos grandes fluxos nacionais e mundiais de conhecimento, das redes sociais de todos os tipos que são, o tempo todo, habilitadas pela internet, mais as pessoas estão sujeitas ao cabresto político que toma conta de boa parte do brasil, desde sempre.

a verdadeira eleição em rede só vai rolar quando quase cada um for capaz de, na mais ampla rede possível, discutir, sem preconceitos e ofensas, as propostas de todos os lados da eleição, refletindo e sintetizando premissas, princípios, valores, políticas, estratégias, ações, resultados e possíveis consequências das opções de representação democrática.

a maior contribuição da informática para as eleições, que se inicia de forma histórica, no brasil, na próxima eleição, é aumentar a transparência do processo eleitoral. tanto antes, na discussão na web, quanto durante, na auditoria da urna. é um grande passo.

mas ainda falta muito. a falta de transparência é o maior problema de lugares pouco civilizados como o nosso. a opacidade dos sistemas [que tal “atos secretos”?…], processos e instituições permite, o tempo todo, que indivíduos e instituições se apossem do bem público, das coisas públicas, quando não do imaginário público, em benefício único de suas obscuras causas, metas e, por que não dizer, profundos bolsos.

precisamos incluir o ESTADO inteiro, aquele com “E” maiúsculo, de forma transparente, na rede. do processo eleitoral às decisões [e razões] dos tribunais. quando isso começar de fato a acontecer, os representantes do povo, que hoje são quase donos do povo, serão apenas… representantes do povo, mediadores da discussão e decisão democráticas. em qualquer poder. como nunca deveriam ter deixado de ser.

vai demorar. mas vai acontecer. quando chegarmos lá, daqui a muitas décadas, nossos tempos serão lembrados como uma espécie de idade média [moderna]. e as eleições “em rede”, começando pela de barack hussein obama II, serão comparadas a uma espécie de prensa de gutenberg da democracia. espere. e verá.

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20.03.09

brasil terá dinheiro celular em 2010: será?

os centro e trinta bancos associados à febraban, gente grande e que sabe que dinheiro é coisa séria, decidiram tratar em conjunto a oportunidade de usar os celulares como meio de pagamento. o banco central foi avisado da intenção e a meta é começar até o fim de 2010.

pra coisa dar certo, algumas constelações têm que se alinhar. além dos bancos todos querendo fazer a mesma coisa, o que parece já ser o caso, pois concordaram em lançar uma plataforma unificada para transações financeiras móveis até o final de 2010, o banco central tem que deixá-los fazer, porque o espaço é regulado. estes dois itens não são maior problema. há coisas mais complicadas.

os bancos resolveram, também, que vão conversar com as teles “depois”. celulares, como se sabe, funcionam sobre a infraesturtura e serviços das operadoras, que têm idéias próprias sobre o assunto. e aí, nesta constelação, é onde mora um dos perigos. pra começar, a oi tem seu próprio serviço de m-payment [mobile payment], o paggo, para o qual angariou 900 mil usuários e 22 mil lojas no primeiro ano de operação [2007/2008] e deve ter entre 1.2 e 1.5 milhão de usuários hoje. e a vivo, pra não ficar atrás, também vai lançar um m-payment. afinal de contas, nada melhor do que virar um banco, se você não se envolver com empréstimos podres, como alguns dos maiores do mundo.

a ntt/docomo [japonesa] descobriu isso há muito tempo: cartões de crédito que funcionam como os de plástico que carregamos, só que embutidos no celular, foram lançados em 2006. trata-se de muito mais que um paggo, a ponto da operadora ter requerido uma carta patente de banco aos reguladores japoneses. a docomo deu a partida, os outros seguiram. rápido. hoje, mais de 30 milhões de celulares são osaifu-keitai [mobile wallet, ou carteira móvel], cerca de 30% de penetração entre os celulares japoneses. seria como termos uns 50 milhões de celulares-cartão no brasil. um monte..

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os osaifu-keitai são usados pra tudo, de pagamento de passagens de ônibus, metrô e ingressos de todos os tipos a supermercados, máquinas de refrigerantes e o que mais você pensar. mas a vida não é tão simples quanto parece. os problemas associados ao uso do celular para transações financeiras não estão de todo resolvidos, mesmo no japão, país de povo viciado em keitai. pesquisa de outubro de 2008 mostra que apenas 15.6% dos japoneses usa seu banco a partir do celular, contra 68.2% de quem tem computadores pessoais na rede. .

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mas nossos bancos podem estar vendo longe, muito longe. ao anunciarem o celular-cartão brasileiro, a pergunta de muitos bilhões de reais é… será que os bancos vão falar com as operadoras “depois” porque planejam lançar uma operadora virtual deles próprios, combinando os serviços e lucros das duas operações?…

pelo andar da carruagem, a anatel pode autorizar operadoras virtuais [MVNOs, mobile virtual network operators] antes do fim de 2010. uma MVNO é uma operadora que existe para mim e para você mas que não existe de fato lá na infraestrutura. a marca, o marketing e parte dos serviços vendidos no mercado a diferenciam das operadoras “normais”, mas ela usa, lá atrás, infra alugada de uma ou mais operadoras, digamos, clássicas. no brasil, os estudos técnicos estão prontos e sabe-se que a anatel vai decidir entre duas alternativas de modelo de MVNO para o país.

junte as peças: os bancos vão lançar um celular-cartão brasileiro, com todos eles apoiando [e ganhando dinheiro, muito]. isso é bom. a anatel vai liberar as operadoras móveis virtuais. isso é muito bom, pois vai aumentar a competição e melhorar a vida dos usuários. os bancos vão conversar com as operadoras “depois”. os bancos, em conjunto, podem lançar um osaifu-keitai na sua própria operadora, se quiserem; têm capitais e competências para tal.

agora pense: se você fosse uma operadora, faria o que?…

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05.02.09

celulares: em baixa?

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no brasil, depois de um dezembro que já pode ser contado entre os piores da história, a indústria de mobilidade manda avisar que 2009 não vai ser muito melhor. as projeções de vendas de aparelhos celulares devem cair mais de 10% em relação a 2008. pela primeira vez em uma década, teremos uma retração no mercado de aparelhos celulares no país.

no mundo não vai ser diferente: as estimativas dos analistas apontam para vendas, no primeiro trimestre de 2009, 18% menores do que no último de 2008, com as vendas globais caindo de 305 para perto de 250 milhões de unidades. ao todo, em 2008 foram vendidos 1.2 bilhões de celulares, um aumento de 5% sobre 2007.

em meio ao caos, tem gente se dando bem? talvez: a nokia [38% das vendas em 2008] pode chegar a pouco mais de 40% do mercado este ano e a turma dos smart phones [rim, apple e htc, que têm 4.1% do mercado, em conjunto] pode ganhar espaço de quem vendia para o que se chama de middle market, os fones caros demais para terem escala de venda muito alta e não tão bons para servirem às demandas de executivos e corporações. mas isso se a crise não for ainda mais profunda do que está parecendo agora.

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03.02.09

eu, você e o a-erre-pê-u

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em entrevista recente ao teletime, o presidente da associação gsm américas disse que a penetração de celulares no brasil pode até crescer um pouco nos próximos tempos, mas que a receita [mensal] média por usuário vai continuar a mesma. esta receita é o a-erre-pê-u do título, average [monthly] revenue per user ou ARPU.

o sonho de toda operadora é um ARPU alto, por motivos óbvios: pra ter um cliente com um celular na mão, a operadora tem que construir e tocar uma infraestrutura cara e complexa, que ainda por cima deve atender as normas regulatórias da anatel. tem que ter serviços, marketing… em suma, não se trata de montar um bar na esquina. como se não bastasse, não estamos falando de um monopólio: há quatro companhias diferentes lutando pelo ARPU de cada um de nós. ainda por cima, como todas são muito parecidas e o serviço tem muito pouca ou, na maioria dos casos, nenhuma diferenciação ou valor agregado que torne uma companhia preferível a qualquer outra, os usuários podem trocar de serviço num piscar de olhos. principalmente agora, com portabilidade numérica e celulares desbloqueados.

resultado? o ARPU brasileiro é US$17, apenas um dólar acima da média da américa latina. e três vezes menor do que o americano. nossa renda média, claro, é menor do que na américa, assim como cobertura e qualidade de serviço na maioria dos lugares. mas outros fatores, tão importantes quanto, entram em cena: aqui se fala muito menos pelo mesmo preço, primeiro porque as operadoras cobram mais e segundo porque o brasil cobra dos usuários de celulares um dos impostos mais altos do mundo.

compare: em países como estados unidos e canadá, o imposto sobre conectividade é menos de 10%; em lugares como inglaterra e argentina, é da ordem de 20% e, por aqui… estamos ao redor de 40%. a cada um real de carga no seu pré-pago ou de conta de seu celular, perto de 40 centavos vão direto para os cofres públicos. o imposto médio, no mundo, sobre celulares, é abaixo de 18%. mas a sanha arrecadatória, por aqui, é radical…

e tudo fica muito mais grave [do ponto de vista do ARPU] por causa da imagem abaixo, da teleco, que mostra a distribuição dos celulares pré-pagos no país. olhando para o todo, 81.5% das pessoas que têm celular, no brasil, têm um pré-pago. isso é basicamente a área em vermelho no mapa, onde estão o sul e sudeste e mais o distrito federal e mato grosso do sul. na área verde os pré-pagos representam de 85 a 90% e na área azul são mais de 90% dos celulares. os pré-pagos [ARPU de um terço dos pós-pagos, ou menos] definem o ARPU de cada operadora e do sistema, portanto.

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não é segredo para mais ninguém que estamos frente a uma crise econômica mundial de grandes proporções. talvez fosse interessante dar uma olhada em estudos diversos que apontam para uma correlação entre a penetração de celulares, seu uso intensivo e o aumento da capacidade de desenvolvimento regional e nacional.

muito provavelmente, 10% de aumento de penetração [e uso efetivo] de mobilidade corresponderiam a mais de um ponto percentual de crescimento adicional da economia. pontinho adicional que poderia ser muito importante nos meses, talvez anos, que vamos viver daqui por diante. será que cortar 10 pontos percentuais do imposto sobre mobilidade, com obrigação de abatimento direto no preço de comunicação, para o usuário final, não seria um bom investimento, agora?… é, mas isso teria que mexer com os gastos do legislativo, judiciário e executivo. melhor esquecer, talvez.

o presidente da gsm américas, na mesma entrevista, dá uma receita para as operadoras: na iminência de ver o tráfego [e o ARPU!] reduzido por causa da crise, elas deveriam incentivar seus usuários a usar mais SMS e emeio móvel. a gsm américas certamente sabe do que está falando e também sabe [mas não disse] dos preços de dados móveis no brasil. 

os últimos dados que achei sobre o preço de SMS no brasil e no mundo[também da consultoria teleco]  são mostrados comparativamente a na imagem abaixo:

para cada SMS mandado por um de nós, um súdito de hugo chávez manda cinco e um chinês envia quinze. o título do histograma não reflete a verdade dos números; melhor seria “brasil tem um dos maiores preços de SMS do mundo”. será que as operadoras, no brasil, ganham muito com dados? não. na venezuela [SMS a US$0.03], dados são 31% do negócio; no brasil, [SMS a US$0.15 ou mais], dados representam apenas 14% do faturamento.

moral da história: a continuar valendo a conjunção de preços altos e impostos altíssimos, combinada com escassez de cobertura e serviços, aliada ao baixo grau de inovação das operadoras locais, o potencial de mobilidade, no brasil, continuará, por muito tempo, sendo um potencial.

o que seria uma pena. com o que sabemos e temos aqui, desde necessidades, mercado e capacidades locais até o mercado potencial no mundo, poderíamos fazer muito, muito mais.

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29.01.09

“custo brasil”: uma novela sem fim?…

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chips mao protegida memory em mais uma decisão das que a indústria costuma rotular de "tipicamente brasileira", a secretaria de comércio exterior [secex] decretou no último dia 26 uma barreira não tarifária sobre a importação de produtos e insumos, inclusive as partes e peças essenciais para a indústria de tecnologias de informação e comunicação continuar funcionando no país.

pela nova regra [de vida muito curta, veja a seguir], cerca de 60% de tudo o que o país importa iria passar por aprovação federal. ao que consta [e foi amplamente noticiado], nem o planalto nem o itamaraty foram consultados sobre o assunto… e muito menos, claro, a indústria.

estamos diante do que parece se tratar de mais um capítulo da novela "custo brasil", muito mais longa e complexa do que a interminável redenção, que foi ao ar pela extinta tv excelsior, entre 1966 e 1968, e que chegou a quase 600 episódios. na novela, cada personagem era uma subnovela particular. a licença de importação é um dos mais peculiares e inusitados capítulos do “custo brasil”.

pois bem. no que deveria ser uma política industrial estável para um setor cuja competitividade está quase sempre na corda bamba, o governo também decidiu que a fabricação nacional de laptops deve ter, a partir de agora, pelo menos 50% dos módulos de memória fabricadas no país. antes, a produção local tinha que ser de pelo menos 20% deste subsistema. por aqui, há apenas um fabricante de tais módulos e ninguém sabe de sua capacidade para atender a demanda adicional imposta pelas novas regras ou qual será o impacto de mais esta “nova regra” nos preços para o usuário final.

nos últimos poucos anos, um conjunto coerente de medidas federais acabou com o que indústria e governo chamavam de mercado cinza, na verdade uma ampla e sofisticada rede de valor especializada na importação [ilegal] de componentes, partes e peças para montagem [informal] de computadores e sistemas digitais. restrições como as anunciadas esta semana devem estar assanhando algumas de nossas fronteiras ao sul e muitas ruas e negócios de reputação duvidosa em todo país, pois podem ser um novo ponto de partida para o mercado cinza voltar a dominar a produção e comercialização de PCs e laptops.

para aumentar a atratividade do setor de TICs para contrabandistas, aproveitadores e sonegadores, é só o governo criar mais umas duas ou três “regras”, na ausência de uma política industrial ou de negócios que, ao invés de tornar a indústria nacional mais competitiva no cenário internacional, tenta proteger o mercado local para uma indústria tornada incompetente pelas estruturas e conjunturas de nossa plataforma de [in]competitividade global. e em nenhum setor isso acontece mais rápido do que em informática. a licença de importação, decretada no dia 26, já parava fábricas que trabalhavam com suprimentos just in time no dia 27. ainda bem que foi revogada dia 28. foi só uma piada de muito mau gosto [que ecoou em todo mundo]. mas a “portaria das memórias” continua vivinha da silva.

para se ter uma idéia de como vale a pena contrabandear memórias caso sua importação seja restrita, sobretaxada, ou o preço da produção local seja alto, um módulo de 2GB [dois bilhões de caracteres, padrão nos laptops] pode ser encontrado por um preço que vai de US$25 até US$250 no mercado mundial. a plaquinha [veja ao lado] pesa no máximo 50 gramas. a variação de preço está relacionada à quantidade de peças adquiridas e à velocidade, confiabilidade e outras caraterísticas do módulo e dos chips usados em sua construção. pras nossas contas, vamos assumir que o módulo custa US$100.

imaginando que nosso contrabandista é “de mala” e não “de container”, numa mala padrão de 30Kg devem caber uns quinhentos módulos e suas embalagens, pois a coisa é muito pequena e estreita. preço da mala no mercado internacional? US$50.000. se a diferença entre os preços local e global for “suficiente” [20% ou mais], já vai ter gente correndo o risco e pagando pra “internar” a mala e seu conteúdo no país.

fontes confiáveis disseram a este blog que a “tabela” para internação de mercadorias está ao redor de US$25 por quilo [excluindo substâncias tóxicas], o que tornaria possível trazer a tal “mala”, pelos canais informais, pagando meros US$750. num mercado de PCs e laptops, commodities que todo mundo tem e faz… um dos poucos diferenciais é o preço final e as condições de pagamento. tire suas conclusões. e se lembre que a conta acima é pra memórias, que são muito baratas porque produzidas em altíssimo volume. para outros módulos, o modelo cinza “de negócios” se justifica para volumes e diferenças percentuais bem menores.

a licença de importação, como dissemos, não vingou. a indústria articulou uma gritaria tão grande e tão coerente que a coisa durou menos de 48h. legal. mas a regra para as memórias está aí, somando-se à cacofonia de tarifas, impostos, taxas, regras, regulamentos, concessões, planos, aprovações e toda a parafernália da novela “custo brasil” que assombra, dia e noite, há décadas, a indústria nacional de qualquer coisa. aliás, há tantos atores [e seus interesses, contextos e consequências] na trama que uma outra novela, da mesma época que redenção, precisa ser lembrada.

image entre junho e dezembro de 1967, a globo levou ao ar anastácia, a mulher sem destino, escrita por emiliano queiroz. sem qualquer experiência em novela, o autor danou-se a adicionar histórias, personagens [e atores amigos] ao folhetim, o que resultou numa tremenda confusão na tela e numa situação na qual o que restou da audiência não entendia bulhufas.

aí pelo capítulo 100, janete clair foi chamada por glória magadan pra dar um jeito na coisa e, num terremoto, eliminou nada menos de 96% dos personagens, ordenando o seriado e chegando, como era de se esperar, a um final feliz, no capítulo 125.

taí uma alternativa pro “custo brasil”. só falta criar coragem, escolher e dar poderes a uma janete clair da hora, pra ela [em rede, conversando com muita gente e olhando para o futuro, agora e bem pra frente] reescrever “custo brasil” e chegar ao final, trocando inclusive o nome. sugestão do blog? muito simples: “brasil competitivo”.

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21.12.08

a rede está desprotegida

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a booz allen hamilton acaba de conduzir, nos eua, um "jogo de guerra" envolvendo 230 representantes de agências de segurança e defesa do governo americano, além de gente de companhias privadas e do terceiro setor. o jogo simulou um drástico aumento no número de ataques a alvos de rede em tempos de vulnerabilidade econômica, exigindo que os participantes reagissem usando os procedimentos de suas instituições na vida real.

segundo michael chertoff, secretário de segurança interna… "We know that if someone shoots missiles at us, they’re going to get a certain kind of response. What happens if it comes over the Internet?"… ou seja, se alguém nos atacar com mísseis, vai ter um certo tipo de resposta. mas o que acontece se o ataque vier pela internet? a simulação descobriu que… "There isn’t a response or a game plan…There isn’t really anybody in charge". em resumo, não há resposta ou plano de jogo, não há ninguém realmente tomando conta da rede. e isso lá nos eua, onde os níveis de segurança são bem mais elevados do que na média do planeta.

a conclusão é que um ataque aos eua, pela rede, poderia tirar do ar -entre outras- partes importantes do sistema financeiro, parte da rede de distribuição de energia elétrica, causando danos proporções monumentais. e isso sem enfrentar um alto e coordenado nível de resistência.

por aqui, recentemente, demos nota de um estudo do TCU sobre segurança de informação no governo brasileiro onde se colcluiu que… "a situação da governança de TI na Administração Pública Federal é bastante heterogênea e preocupante".em particular, não há planejamento estratégico de TICs em 59% das instituições e não há política de segurança de informação em 64% dos órgãos de governo". deve estar na hora da gente se preocupar com a segurança da rede por aqui, também.

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18.12.08

Oi + BrT = conflito de poderes?

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como este blog noticiou anteriormente, o tribunal de contas da união [TCU] entrou na linha das negociações em que a Oi está [ou estava] comprando a BrT e impediu, através de medida cautelar, que a anatel concedesse uma anuência prévia ao processo de fusão das teles. se tal consentimento fosse dado, estaria criada a super-tele nacional. juntando as operações das duas empresas, segundo o TCU, o negócio resultante exerceria o controle de mais de metade do mercado em muitas regiões e, em certos casos e cenários, teria 90% das operações de conectividade, como nas linhas fixas do centro-oeste, nordeste e norte do brasil.

o TCU, até aí, está coberto de razão. mas acontece que o BNDES é um dos principais interessados no negócio, e outra parte não menos poderosa [e tampouco menos interessada], e com muitas fichas na aposta, são os fundos de pensão das estatais. tudo e todos, de mais de uma forma, aponta para o planalto central e o executivo federal, ator principal da peça que se desenrola há meses nos bastidores e ensaios de brasília e do brasil e que, por obra do ministro raimundo carreiro, acaba de chegar na broadway das grandes decisões nacionais. o ministro emitiu seu juízo sobre o que seriam as cinco condições essenciais para a fusão das empresas, sustando o processo decisório da anatel… e parte do governo, desde então, está tentando mediar a crise de tal forma que tudo não desemboque no pior.

o que é o pior, no caso? considerando que o TCU parou o processo, usando um conjunto consistente de razões que em nada desabona o negócio em si, mas aponta para o despreparo da anatel em tratá-lo em toda sua complexidade, o pior seria o governo recorrer ao STF e, pela via de uma liminar, manter o rito processual da anatel. esta, por sua vez, terminaria aprovando a compra da BrT pela Oi, através do dispositivo de anuência prévia, contra um julgamento do TCU que muitos consideram, em brasília e no brasil, simples, bem fundamentado, líquido e certo. isso resultaria no que se convencionou chamar “conflito de poderes”, ou seja, tirar um tribunal importante como o TCU do cenário e continuar em frente numa linha da qual ele, tribunal, discorda publicamente. as consequências, no futuro, podem ser catastróficas… na antiguidade, tal resultado seria uma vitória de pirro.

se eu fosse as partes envolvidas, ouviria o TCU. e que razões, pra dentro da minha casa [Oi, BrT, acionistas de ambos e anatel], eu daria pra isso?

grandes companhias, como at&t, IBM e microsoft, foram alvo de julgamentos como o emitido pelo TCU esta semana. quem decidiu lutar contra o bom senso dos tribunais e sentenças se perdeu, por muitos e muitos anos, nos meandros judiciários. justamente por isso, muito de sua energia e competitividade se evaporou no embate e, como resultado, os renitentes acabaram sendo derrotados, no mercado, pelos competidores que não tinham quaisquer amarras legais. as muitas outras que entenderam que, ao seu redor, existe um mundo muito mais complexo do que elas próprias, saíram de seus processos de fusão, aquisição e, às vezes, de quebra de monopólio, fortalecidas e mais competitivas. a IBM é um dos exemplos positivos.

o governo e a Oi ainda podem escolher. mas só até o dezoito de dezembro às nove e meia da manhã. a tal escolha está sendo feita. se eu estivesse no conselho das duas empresas, no governo ou na anatel, minha opção seria por… negociar. nem a Oi pagaria qualquer multa por não conseguir algo que dela não depende… nem o brasil teria que engolir, goela a dentro, algo que o TCU não entende.

no longo prazo, pessoas muitas e instituições várias, mesmo estando certas de sua certeza, sempre têm muito a perder insistindo que estão certos e que são indiscutíveis. isso porque, na sociedade, boa -e talvez a maior- parte do nosso trabalho não é fazer seja lá o que for, mas convencer os outros de que alguma coisa -seja lá o que for- tem que ser feita. ou não. pelo menos enquanto o regime for democrático e as liberdades fundamentais continuarem sendo respeitadas. no brasil, ainda bem -e por enquanto- este é o caso. nada melhor, portanto, do que evitar conflitos desnecessários e trazer todos à mesa pra encontrar e implementar uma solução.

até porque, como diria são nicolau, é natal!… entendamo-nos, pois!…

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