Terra Magazine

segunda-feira, 30 de maio de 2011

e-gov: os problemas e o tamanho da oportunidade

o tribunal de contas da união informa: “há uma total ausência de comprometimento dos altos escalões com a área [de tecnologias de informação e comunicação do governo federal]”. o TCU vem analisando a infraestrutura e sistemas de informação de governo, sob várias perspectivas, desde 2007, de uma forma sistemática. mas o interesse do tribunal de contas e sua influência sobre os negócios federais de informática vem de longe, como mostra o gráfico abaixo.

image

a imagem acima vem de uma apresentação do ministro aroldo cedraz no dia 26 de maio pp., e aponta um aumento de 15 vezes no número de decisões do TCU sobre “contratações de TI” em um período de 15 anos. isso é muito e dá uma idéia da importância que o tribunal credita às tecnologias de informação e comunicação e suas aplicações na gestão e nos serviços públicos.

para entender a quantas anda a governança dos sistemas públicos de TICs e aplicações, vá ver os slides da apresentação do ministro cedraz, onde se aponta os dez órgãos de governança superior que deveriam dar conta da política, estratégia, planejamento e operações de TICs na gestão pública e nas estatais.

com tantas deliberações e órgãos para dar conta da TI federal, como anda o estado da arte da informática nas instituições federais? veja o slide abaixo, que reporta a pesquisa feita pelo TCU com 300 órgãos públicos em 2010 e tire suas próprias conclusões…

image

que tal ler, detalhando um pouco mais, a imagem acima?… mais da metade das instituições públicas faz software de forma amadorística; mais de 60% não tem [na prática] política e estratégia para sua informática e segurança de informação; 74% não têm nem mesmo as bases de um processo de gestão de ciclo de vida de informação; por conseguinte, há informação que detêm e não sabem e outras que não, mas que acham que sim, está em algum lugar, só não pode ser encontrada “agora”. um dia, quem sabe?…

e tem mais: 75% não gerencia incidentes de segurança de informação, como invasão de sites e sistemas e perdas ou [pior?] alteração de dados; 83% não faz ideia dos riscos a que a informação sob sua responsabilidade está sujeita, quase 90% não classifica informação para o negócio, o que significa que a instituição está sob provável e permanente caos informacional e quase 100% não tem um plano de continuidade de negócio em vigor. ‘

o que quer dizer que se o lugar for atingido por uma pane elétirca grave, enchente, raio, incêndio… a comunidade alvo dos serviços do órgão pode ficar semanas sem ser atendida e pode haver descontinuidades muito graves do ponto de vista da história da informação no [e para o] governo e os serviços públicos.

se informação e informática são tão importantes para empresas, governo e sociedade, porque estamos neste estado de coisas no governo federal? a pesquisa do TCU dá uma boa idéia das razões…

image

mais da metade de quem manda no lugar não se responsabiliza pelas políticas de TI, o que quer dizer, na prática, que “não estão nem aí” para o que estiver sendo feito ou acontecendo; quase metade não designou um comitê de gestão para TI, quase 60% dos altos gestores das organizações não estabeleceu objetivos de gestão e uso para a área de TI e, finalmente, 76% não estabeleceu indicadores de desempenho para a área.

observado deste ponto de vista, os resultados do slide anterior não surpreendem, não é mesmo?…

neste contexto, há razões para ser otimista? pode não parecer, mas há. a secretaria de fiscalização de tecnologia da informação do TCU está trabalhando em conjunto com muita gente para criar e manter políticas de sistemas e informação nos órgãos federais. e isso quer dizer operar o presente de forma eficaz, eficiente e segura e criar o futuro ao mesmo tempo. não estamos falando de uma área que evolui lentamente ou que tem pouca demanda interna e externa. a tendência, no governo, tem sido a de informatização do caos, coisa que este blog apontou neste texto e comentou neste áudio, na CBN.

como os dados da SEFTI/TCU mostram, estamos muito longe do ideal. neste momento, isso é uma grande oportunidade, pois as infraestruturas e sistemas de informação estão mudando de forma radical.

todos governos mundiais estão planejando, iniciando e operando federações de infra e serviços [a tal “nuvem”, veja mais aqui] que vai mudar a visão de mundo da informática pública [city of orlando CIO: “I want to get out of the server business and into the services business.”], gerando economias de escala antes inimagináveis, como a redução do custo operacional total das infraestruturas de informação federais em 2/3 ou mais.

nos EUA, o governo obama criou o posto de CIO –chief information officer- federal, responsável por pensar, planejar, orientar, articular toda a estratégia e operações federais de TICs e suas aplicações. até abril passado, só em 2011 o CIO vivek kundra havia fechado 39 data centers, dos 137 que fechará este ano. até 2015, 800 dos atuais 2094 data centers federais deixarão de funcionar.

image

tais centros não estão sendo fechados porque é “moda”, mas porque novas formas de coletar, processar, conectar, compartilhar e preservar dados estão disponíveis e permitem, através de seu uso criativo e inovador, realizar muito mais com muito menos, em termos de investimento em informática e sistemas de informação em rede.

há uma “nova” forma de fazer informática, baseada em “máquinas sociais”, sistemas programados e programáveis em rede, conectados e integrados pela rede. na verdade, a idéia não é nem tão nova assim: olhe aqui o que este blog escreveu sobre “informaticidade” na revista CIO em 2006 e veja aqui uma revisão de 2008 sobre o mesmo assunto.

as oportunidades de simplificação de infraestrutura e ganhos de escala nos sistemas de informação e seu desenvolvimento, manutenção e evolução. criadas por infraestrutura e software como serviço, na nuvem, deveriam ser combinadas com a necessidade de mais e melhor governança apontadas pelo TCU para abrir um amplo espaço de criatividade, inovação, operação e gestão na informática pública brasileira.

e isso pode ter pouco a ver com fazer cada órgão da informática pública federal cumprir o caderno de determinações do TCU na “sua” informática, mas começar a fazer com que uma verdadeira “rede” de infra, sistemas e serviços federais seja formada a partir dos órgão mais competentes, mais determinados e mais abertos a realizar um papel bem maior e acima do que dar conta, simplesmente, do seu quintal.

as economias de escala e a simplificação dos processos, inclusive os de controle, são óbvios. a dificuldade de implementar tal estratégia em um país como o nosso também é óbvia. seria mais fácil primeiro levar todo mundo a um nível mínimo de proficiência e, depois, fazer um processo de seleção não natural. mas esta seria a forma certa, também, de perdermos esta década fazendo o que os outros países fizeram na década passada.

com tanto poder e capacidade de articulação e alinhamento à disposição do TCU, bem que o tribunal poderia agitar o cenário um pouco mais e fazer com que as “TICs” federais gastassem bem menos e fizessem bem mais nesta década, evitando a duplicação de sistemas e equipes e, ainda por cima, um aumento significativo da informatização do caos.

image

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

filas, hospitais e [falta de] informação

Tags:, , , - srlm às 11:49

segundo uma crença muito bem estabelecida no poder central, o problema da saúde, no brasil, é a falta de recursos. tanto que criaram um imposto que deveria servir só pra investimentos e custeio da saúde [a extinta cpmf] e, apesar do aumento da arrecadação federal [em dezenas de bilhões de reais por ano...] mesmo sem cpmf, estão tentando criar a coisa de novo, com outro nome. ou seja, imposto pra saúde só se for cobrado pra saúde mesmo; se não for, é desviado pra outra coisa…

img127.jpg

mas veja a foto acima, tirada em um celular, em movimento, hoje, às 07:27h, de uma fila gigantesca [centenas de pessoas!] à entrada de um dos maiores hospitais da região metropolitana do recife. a fila, que compartilha um grande número de cidadãos entre um dia e outro, está lá todo dia, todo mês, todo ano. sexta passada, no rádio, uma senhora dizia [chorando] que havia saído de casa às quatro da manhã para acampar na entrada do hospital e que, "na vez dela", não havia mais fichas para atendimento. o que ela não sabia é que, desde a madrugada, pela simples análise de sua posição na fila, o hospital já sabia que "não haveria ficha".

até porque a foto e a fila não têm nada a ver com a capacidade do sistema de saúde. nenhum sistema, de saúde ou não, público ou privado, pode ser desenhado e construído para tratar picos de demanda como se eles fossem regime permanente. o custo seria insuportável para qualquer base de receita. como todo mundo que está na fila permanece lá por horas a fio, em pé, dificilmente será o caso de que todos estes potenciais pacientes sejam graves ou agudos. o problema, aí, é de gestão, pois confundiu-se, no mesmo lugar, o acesso à informação sobre o serviço [há vagas, hoje?] e o serviço propriamente dito.

o problema da fila, de fato, é de gestão de informação. hospitais têm capacidade de atendimento; tal capacidade deveria ser administrada por um sistema de gestão de informação capaz de reservar tempo [e, por conseguinte, espaço, por tipo de atendimento, em clínicas] que fosse capaz de distribuir, a priori e longe do hospital, senhas para quem quisesse ver o médico ou fazer um exame qualquer. isso pode ser feito com software e sistemas de informação que estão disponíveis hoje, em muitas cidades do brasil e em muitos serviços públicos.

ao invés de sair de sua periferia distante para o hospital e passar horas na fila, ao custo de duas passagens de ônibus, alimentação e, principalmente, tempo perdido para a pessoa e o sistema, o cidadão poderia ir numa lanhouse e, por menos de um real, reservar uma posição de atendimento. e isso no pior caso: um investimento em políticas públicas de inclusão digital [como também vem acontecendo em muitas cidades] faria com que as pessoas só tivessem que ir até o ponto público de acesso a internet mais próximo e entrar num sistema de reservas do serviço de saúde.

nada do que se diz acima é genial e muito menos original. está tudo ai, esperando para ser usado, para desafogar o sistema de saúde ou qualquer outro. mas é preciso pensar de forma diferente do que se faz hoje. é preciso pensar que toda empresa, sistema ou serviço [que funciona, hoje] é definido pelo software usado para torná-lo realidade. quer ver? a fila do hospital poderia se repetir nos aeroportos se as empresas aéreas não tivessem um sistema de reservas e check-in, com lista de espera. o colapso de transporte aéreo que sofremos, algum tempo atrás, derivou justamente da venda de muito mais passagens [reservas de vagas a bordo de aviões] do que a real capacidade de voar pessoas entre pontos x e y. e os aeroportos, por uns dias, ficaram iguais aos hospitais públicos…

no caso dos aeroportos, o caos se transformou em notícia diária, horária, de todas as rádios, TVs, jornais e da internet. a conjunção de clamor público e ação de órgãos reguladores, apoiadas por pressão de Estado, fez com que o caos aéreo fosse resolvido em alguns meses. pois nos hospitais o caos é diário. médicos e assistentes em permanente stress face ao monte de gente à porta, gente desesperada ao sol e chuva do lado de fora mas… infelizmente, sem meios de transformar seu caos particular em clamor coletivo, em ação dos reguladores, em pressão do e no Estado. nos hospitais, como nas empresas aéreas, a solução se encontra na gestão eficiente e eficaz de informação sobre o sistema.

a pergunta que deveríamos fazer é: se conseguimos resolver o problema nos aeroportos, porque não fazemos o mesmo nos hospitais? eu tenho um chute. podem até tentar me provar que não, mas acho que a resposta a esta pergunta tem uma relação muito forte com o poder aquisitivo dos participantes dos dois caos: nos aviões, voam ministros, governadores, deputados, senadores, prefeitos, empresários, jornalistas, médicos, engenheiros, advogados, delegados, juízes… as classes alta e média em geral e… uns muito poucos pobres, quando as passagens ficam muito baratas, muito raramente.

no caos dos hospitais, ao relento, os pobres e desassistidos. os sem voz. o brasil sem formação e sem informação, sem direitos, condenado a ficar, por uma vida a fio, na fila. por pura e simples incapacidade, de quem estar do lado de cá, de atacar o problema com ferramentas que existem e estão à disposição de todos.

 

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol