Terra Magazine

28.01.09

notícias: internet passa jornais [e vai passar TV]

pew internet newspapers as duas primeiras imagens deste texto dão uma idéia do tamanho do problema que a indústria de notícias já enfrenta, hoje, e também a pedreira daqui pra frente. à esquerda, um gráfico do pew research center for people and the press mostra que os jornais foram superados pela internet, este ano, como fonte de informação nos EUA.

entre 2007 e 2008, as notícias dos jornais ganharam 1% de audiência, as da TV perderam 4% e a internet –como fonte de informação- ganhou 16%. os totais de audiência, somados, passam de 100% porque a resposta é de escolhas múltiplas. de seu pico, em 2002, a TV perdeu 12 pontos; do pico de 2003, o rádio perdeu 15 pontos. por outro lado, de sua base de 2001, que é quando banda começa a se tornar realmente disponível para a internet nos EUA, a audiência para notícias, na rede, saiu de 13 para 40 pontos. sinal dos tempos.

internet empata com tv entre os jovens.mas mudança ainda mais radical já é percebida na faixa etária entre 18 a 29 anos. olhe a tabela à direita: nela, a internet já empata com TV como principal fonte de informação, enquanto rádio, jornais e revistas estão muito atrás. para os mais jovens, TV perdeu 11 pontos entre 2007/8 e a internet cresceu 25 pontos. isso pode ser resultado do interesse despertado pela campanha eleitoral americana, com o time vencedor usando a rede ostensivamente e atraindo, para lá, uma grande parcela dos mais jovens… ou vice-versa: o fato dos jovens estarem na rede fez o time de obama levar boa parte da campanha para lá e, com isso, quem já vivia a campanha, na rede, acabou vendo as notícias sobre a eleição e outras por lá mesmo. e pode ser uma combinação –definitiva- dos dois fatores.

estes resultados estão em linha com dois textos recentes deste blog, um sobre o destino [quase certo] dos jornais de papel, de 2 de dezembro passado, quando falávamos de mais de 13 mil jornalistas e pessoal auxiliar demitidos nos EUA, no ano, até então. nos últimos dias de 2008, mais 2 mil perderam o emprego levando a mais de 15.500 demissões no setor, nos EUA, em um único ano. no primeiro mês de 2009, quase 1.000 jornalistas e e assistentes já foram demitidos por lá. é como se toda uma era, incluindo a dos grandes jornais, estivesse chegando ao fim, com ícones como o new york times e o chicago tribune em vias de passar, também, para a história. o outro texto era sobre o crescimento da publicidade na internet, no brasil, que vem aumentando aí pelos 45% por ano, ritmo no qual deve passar rádio em 2009, depois de já ter empatado, em 2008, com TV por assinatura. e o total do investimento em propaganda, por sinal, deve cair na soma de todos os meios à medida que a internet cresce… como diz jeff zucker, da NBC, a revolução da informação é a transformação de dólares analógicos em centavos digitais.

e no brasil, quando é que veremos coisas como o PEW está descobrindo nos EUA? sem contar com mais e melhores pesquisas sobre comportamento na internet, pra começar, precisamos de muito mais banda e universalização. outro texto publicado aqui no blog, em setembro, relatava uma pesquisa da universidade de oxford onde o brasil aparece no honroso terceiro lugar… de baixo pra cima, em uma lista de 42 países, quando o assunto é qualidade da banda larga. ainda precisamos descobrir, por aqui, que quem não tem banda larga [mesmo] não tem internet.

logo depois, precisamos fazer a tal banda chegar em todos os lugares e à vasta maioria das pessoas no país, especialmente os locais mais remotos e à gente mais necessitada. feito isso, não vai dar outra: vai rolar por aqui o que está ocorrendo no mundo inteiro e iremos todos, e de uma vez por todas, para a internet. inclusive o rádio, jornais e TV, com muito maior contribuição, colaboração e controle do que se chamava de audiência, no passado, e que hoje se torna, onde há banda para todos, uma multitude de comunidades, criativas, participativas…

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07.10.08

comunicação, privacidade e os ajudantes do diabo

Tags:, , , , , - srlm às 01:05

lincoln_imp_150_150x180.jpgnas lendas inglesas, o diabo tem pequenas criaturas chamadas IMPs como seus ajudantes. os pequenos secretários do senhor das trevas ficam zanzando por aí, causando toda sorte de problemas e tentando pessoas de bem. um dos mais famosos IMPs está associado à catedral de lincoln, foi gravado na construção e aparece, simpático, na imagem ao lado, cortesia da BBC.

se eu e você fôssemos nomear um novo projeto em língua inglesa, certamente não seria IMP… se nós não quiséssemos associar nosso esforço aos tais ajudantes do demo. pois bem. aí entra em cena o GCHQ, centro nacional de interceptação de comunicações do governo inglês, sediado em cheltenham. o GCHQ foi um dos mais ativos centros de espionagem da época da guerra fria, parte essencial do esforço da OTAN para acompanhar tudo o que a união soviética estava fazendo [ou tramando, dependendo de quem você ouvisse].

os tempos mudaram, as conexões são em redes digitais, a sociedade é da informação e a economia é do conhecimento. e o interesse das centrais mundiais de espionagem deixou de lado os velhos grampos telefônicos e as ainda mais antigas cartas cifradas enviadas pelo correio e está partindo para esforços dignos da massa de transações digitais que fazemos todos os dias. quer uma idéia? estima-se que os ingleses enviam perto de 100 bilhões de mensagens de texto e algo como 3 bilhões de emeios por ano.

e o que o GCHQ [ou seja, o governo inglês e seus vários serviços de espionagem] quer fazer? simples: capturar e gravar para todo o sempre, num mega banco de dados, todas [isso mesmo, todas] as comunicações realizadas em território inglês. cada SMS, emeio, todos os posts em blogs, todas as visitas a sites de qualquer tipo, todas as transações, tudo. a alegação básica para que se faça tal esforço? em primeiro lugar, como sempre, a tal guerra contra o terror. em segundo, e não mencionado em nenhuma proposta, mais uma tentativa de controlar as comunicações entre os cidadãos e as empresas.

segundo o home office de sua majestade elizabeth II, "The changes to the way we communicate, due particularly to the internet revolution, will increasingly undermine our current capabilities to obtain communications data —essential for counter-terrorism and investigation of crime purpose[s]— and use it to protect the public,… [and] Proposals are being developed and full details of the draft Bill will be released later this year, allowing for full engagement with Parliament and the public." ou seja: precisamos ouvi-los e entendê-los [e talvez tutelá-los...] para protegê-los. agradeçam, pois.

gchq-benhall1.jpg

aliás, agradeçam ao IMP, ou interception modernisation programme [programa de modernização de interceptações], que foi -por sinal- retirado da lei de comunicação de dados que vai ser submetida à próxima legislatura inglesa mas que, segundo fontes seguras, será desenvolvido em sigilo pelo GCHQ [no prédio da foto acima, o "doughnut"]. o primeiro cheque para o programa pode ser de um bilhão de libras esterlinas [quase quatro bilhões de reais], uma "pequena" parte dos estimados doze bilhões de libras que o programa vai custar. pense num monte de dinheiro. dos grandes. este é gigantesco.

os grupos de advocacia das liberdades e direitos civis reclamam, e com razão, que todas as comunicações passarão a ser vigiadas por algoritmos rodando continuamente em super-computadores, o que vai tornar todo cidadão suspeito, passível de ser processado e ter que se explicar por qualquer coisa, inclusive contar piadas sobre o primeiro ministro ou, talvez, um vizinho poderoso. ou bem conectado. e lembram, também com razão, que as sociedades, amizades e relacionamentos sempre dependeram de assimetria de informação… não sabemos, durante a maior parte do tempo, tudo o que os outros pensam e dizem de nós, nem vice versa. e é exatamente por isso que a sociedade funciona. assimetria de informação. e o IMP vai abalar justamente tal princípio fundamental para o funcionamento  da humanidade.

comparados à enormidade do projeto inglês, que provavelmente vai ter problemas sérios de implementação e implantação mas, mesmo assim, há de causar danos severos às liberdades na internet do reino unido, os problemas que temos no brasil nos tornam liliputianos. um grampo aqui, uma conversa ali, algumas dezenas de milhares de pessoas grampeadas. e a sociedade está reagindo bravamente, a menos de uns e outros, com vocações claramente ditatoriais, que acham mais é que os cidadãos devem ser vigiados e tutelados. as piores ditaduras do mundo, sob qualquer bandeira, pensavam da mesma forma.

a hora de nos indignarmos e tentar controlar a fúria de supervisão e invasão de nossas comunicações é agora. se não o fizermos, pela fresta da porteira de hoje passará o estouro da boiada de amanhã. numa quase realização da profecia orwelliana, o IMP inglês vai mesmo ajudar o diabo a estar, o tempo inteiro, na vida de todo mundo, lá. melhor cuidarmos para que ele não se espalhe pra cá. até porque ainda corremos o risco de ter o mesmo cenário, em pindorama, usando o software e sistemas de informação que, se não tomarmos cuidado, eles nos venderão, como "ajuda" para combater o terrorismo… que deve vir pra cá atrás do pré-sal e tudo o mais.

o preço da liberdade, como se sabe, é a eterna vigilância. não do governo sobre a cidadania, mas ao contrário.

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