Terra Magazine

segunda-feira, 18 de abril de 2011

a "bandinha" do brasil

Tags:, , - srlm às 13:24

faz pouco tempo que saiu a última versão do network readiness index do fórum econômico mundial e o brasil, nele, e pela primeira vez em anos, subiu de posição. o que isso quer mesmo dizer?

há quase um ano, escrevi na folha de são paulo um texto [o plano, a banda e a inclusão digital] que foi replicado em vários sites abertos, inclusive no CDES, o conselho nacional de desenvolvimento econômico e social, do qual faço parte. o texto, na íntegra, é repetido abaixo.

Nos últimos dez anos, regredimos mais de 20 posições nos índices de quantidade e qualidade da infraestrutura digital. Não que o Brasil estivesse indo para trás de forma acelerada: no período, o país viu uma quase universalização dos celulares, um bom aumento da proporção de residências com PCs e a conexão de um bom número de casas à rede.

O que a década de queda -do 38º para o 59º lugar no Network Readiness Index do World Economic Forum, por exemplo- quer dizer é que outros países se moveram muito mais rápido. E isso é um problema, agora e no futuro próximo, primeiro porque muitos deles são nossos competidores, mas também, e mais gravemente, porque o mundo conectado vive, intensamente, a sociedade e a economia da informação e do conhecimento. Estar fora da rede, hoje, é como estar fora do mundo.

E o Brasil perdeu tempo. Muito tempo. Desde os primórdios da internet por aqui, havia planos de universalização do acesso. Sabia-se desde o princípio que a rede iria mudar o mundo e se tornar mais uma de suas infraestruturas básicas, uma "utility" tão essencial como eletricidade, água e esgoto.

O conceito -hoje universal- de tratar telefonia e telefones como apenas mais uma aplicação sobre uma infraestrutura (servidores, roteadores, satélites…) e serviços (os protocolos da rede) padrão da internet tem quase década e meia.

Ou seja, faz tempo que se sabia e se dizia, aos quatro ventos, que tudo o que era comunicação ia convergir, mais cedo ou mais tarde, para a internet. Por que, então, ainda estamos no estágio de penetração e uso de banda larga relatado no "Comunicado 46" do Ipea

A razão fundamental é que o Brasil não teve, na última década e meia, políticas públicas que cuidassem de conectar o país na quantidade e na qualidade que precisamos.

Banda larga não chega nem à metade dos municípios e só existe em cerca de 21% dos lares.

Como se não bastasse, mais de 54% das nossas conexões "de banda larga" têm velocidades nominais abaixo de um megabit por segundo, o que significa que vídeo pela rede, por aqui, é coisa rara. E de má qualidade. O que torna muito difícil educação, saúde e negócios pela rede, entre outras tantas coisas que existem e são usadas, como fato consumado, mundo afora.

Sem falar que, mesmo para o uso comum da rede, mesmo para o que "dá para fazer" com a rede que se tem, o preço do megabit por segundo brasileiro é estratosférico: aqui, como porcentagem da renda familiar, banda larga custa dez vezes mais do que nos países mais conectados. Depois de quase 15 anos de privatização do setor, o "mercado", ou seja, o que temos de políticas públicas, regulação, reguladores e empresas, simplesmente não fez o que deveria ter feito.

Resultado? Voltamos quase a um ponto de partida e decretamos um Plano Nacional de Banda Larga, cuja gestação tem que ser debitada ao cenário descrito acima. A ineficiência das operadoras fixas no provimento de acesso em banda larga em quantidade, qualidade e preço acessível é a mãe do PNBL . Poderiam ter feito -e exigido- muito mais. Não o fizeram. Deu no que deu.

Um PNBL bem executado pode se tornar uma intervenção estatal de qualidade nos negócios de conectividade, e não necessariamente uma nova infraestrutura de serviços de rede necessária para tal.

Até porque o PNBL parece um novo "plano de integração nacional" e seu papel pode ser muito parecido ao das estradas e TVs no passado, ao trazer para a rede mais da metade dos municípios e 70%, 80% das casas.

Muita gente reclama e desconfia do plano, quase como se fosse uma reestatização do setor de telecom.

Mas telecom, a das antigas companhias de telefonia, não existe mais, transformou-se em conectividade, fixa e móvel. E é significativo que o PNBL não trate de mobilidade, e sim de conectividade fixa, onde o mercado, simplesmente, falhou.

a bem da verdade, o texto tem [pelo menos] um erro: na década passada, o brasil não regrediu do só 38º para o 59º lugar no network readiness index do world economic forum, mas do 38º para o 61º lugar, dois a mais do que o colunista da folha reportou.

imageagora, na avaliação 2010/2011, o WEF anuncia que o brasil subiu cinco posições e está no 56º lugar entre os 138 países considerados no estudo. pra comparar, a coréia do sul, que estava no 15º lugar em 2009/10, também subiu cinco posições, para o 10º lugar. o fato é que estamos, no concerto global dos países, dezoito lugares abaixo do que estávamos em 2000/2001… abaixo da china [36º] e índia, 48º. a rússia, o R dos BRICs, perdido no tempo, espaço e economia, subiu uma posição, do 78º para o 77º lugar. difícil. malásia e indonésia estão bem melhores que nós, assim como o chile, caso à parte na américa latina. vá ver o relatório.

em boa parte, o brasil está onde está por uma combinação de de falhas de mercado, operadoras e políticas públicas, como explicitado no texto citado acima. mas mesmo aqui no brasil, quem tem meios e mora nos lugares onde há uma infraestrutura acima da média, a banda não está "tão" ruim, apesar do país, de novo, não estar nem perto dos primeiros. a velocidade média efetiva de downloads, no brasil, é de 4.71 megabit/s segundo o netIndex, o que nos deixa no 68º lugar numa lista de 168 países. o líbano é o lanterna, com 0.5Mbps e no topo está a coréia do sul [lembra dela?... subiu cinco posições no índice do WEF] com nada menos do que 34.31Mbps.

imagee os uploads? a rede é multidirecional, certo? ou pelo menos deveria ser. da sua casa ou empresa para a rede, o brasil descamba para o 85º lugar no netIndex, com meros 1.09Mbps, entre oman e o nepal. áfrica do sul, paraguai, uganda, honduras, equador, chile, e até zimbabwe[!]… estão à nossa frente e no primeiro lugar está a coréia, de novo, com 22.05Mbps de velocidade de upload. lá a rede é "muito mais em rede" do que aqui: a velocidade em que você pode produzir informação para a rede é perto de 70% daquela que você usa para consumir informação da rede, enquanto que nós estamos perto de 20%. se você quiser, nossa rede é para uma web 1.0 de má qualidade, uma rede onde a maioria das pessoas é público e não comunidade. na web 1.0, nos "lemos" a rede; na web 2.0, nós lemos e "escrevemos" na rede, formando comunidades entre agentes que têm capacidades similares de contribuição.

mesmo para só "ler" a web, o brasil é muito desigual. segundo dados a akamai, quase 89% das conexões de recife são de velocidade menor do que 2Mbps; em florianópolis, são 79% e no rio 90%. ou seja, somos um país de banda estreita. como se não bastasse, nosso preço por megabit por segundo é mais de 40% acima da média mundial.

é neste contexto que ainda estamos discutindo gastar mais tres anos, daqui até 2014, para o PNBL levar 600Kbps a 35 milhões de casas brasileiras. ou, seja, estamos falando de uma "bandinha" de acesso à internet para daqui a tres anos, quando o acesso de quem estiver conectado a banda larga de verdade, e mesmo aqui no brasil, deverá estar ao redor dos 20Mbps. e quando projetos nacionais como o da alemanha estão trabalhando para…

…75 percent of German households [will] have broadband access of at least 50 Mbps by 2014; …covering 2015-2020, 50 percent of German households [will] have access to at least 100 Mbps and another 30 percent to 50 Mbps by 2020 …over a ten year period (2010–2020), the broadband investment is expected to result in 170.9 billion Euros of additional GDP (0.60% annual GDP growth) in Germany.

comparando maçãs e abacaxis, enquanto os alemães estão olhando para 75% das casas com 50Mbps em 2014 e 50% com 100Mbps em 2010, o que resultaria em um aumento anual adicional de 0.6% de crescimento do PIB de lá, do lado de cá, nós estamos com sérias dificuldades de começar pra valer o projeto nacional de prover uma "bandinha" de 600Kbps [de download] que, se for projetada, instalada e operada como a rede atual, vai ter uns 150Kbps de upload, se tanto. capaz de não dar nem pra voz sobre IP. vídeo, nem pensar.

na inglaterra, a BT e a virgin estão montando duas redes nacionais FTTH [fibra até a casa...] que vão levar gigabit/s a todas as cidades até 2015 e a fujitsu acabou de propor, dentro do escopo de um programa de inclusão digital do governo inglês, conectar todas as casas da zona rural, também a gigabit/s.

mas isso é coisa de gente grande, você diria. não, não é: é o entendimento de que a infraestrutura física para a internet é tão essencial quanto água, esgoto, ruas e estradas e energia. é a percepção política de que a rede é essencial para a educação, economia, governo… para todas as facetas da sociedade. a "bandinha" que está sendo proposta para brasil é mais um sinal de que ainda temos muito a evoluir até que entendamos qual é o papel da rede para a economia e a sociedade e quais são suas mais amplas implicações, inclusive [como no caso alemão] para o aumento da velocidade de crescimento da economia nacional.

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no brasil, parece que sempre reduzimos nossas expectativas do que pode ser feito para ajustá-las a uma performance que sabemos que não temos. talvêz devêssemos elevar muito as expectativas para puxar a performance para cima de forma significativa e fazer muito mais do que o meramente possível. é exatamente por estarmos sempre fazendo o possível dentro da baixa performance que temos, especialmente no domínio das políticas públicas e sua execução pelo estado, que estamos onde estamos… entre oman e nepal na velocidade de download.

por que não refazemos nosso plano de inclusão digital de casas e empresas, em banda muito larga e apostamos que, em dez anos e se aumentarmos muito nossa performance, pegamos a passamos a china, esteja ela onde estiver? são vinte posições entre nós e eles, apenas. se a coréia, que estava já lá em cima no network readiness index, conseguiu subir cinco lugares em um ano, porque não conseguiríamos vinte lugares em dez anos?

olha só o primeiro objetivo do plano de banda larga dos EUA para a década:

At least 100 million U.S. homes should have affordable access to actual download speeds of at least 100 megabits per second and actual upload speeds of at least 50 megabits per second.

isso é mais de 60% das casas a 100 megabit por segundo de download, com upload de pelo menos 50Mbps. este alvo é quase dez vezes o que os EUA têm hoje: 10.9Mbps de velocidade de download e 30º lugar no netIndex. ao contrário do que muitos esperam, que é o país do silicon valley pelo menos entre os dez primeiros.

e nós… vamos ou não vamos estabelecer um alvo cinco, dez vezes mais alto do que nossa situação atual de banda larga e conseguir chegar a tres, sete vezes o que temos agora ou, conformados em sermos puros e simples exportadores de commodities, vamos nos contentar em ser uma "zona rural" periférica e desconectada por uma "bandinha" do brasil?

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[acima, gráfico do plano americano de banda larga: hoje, se você quiser ter vídeo conferência em casa, tenha pelo menos sete megabit/s. pelo menos...]

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

educação empreendedora: 4

este post é parte de uma série sobre educação empreendedora, derivado de uma palestra dada no sebrae nacional, em brasilia, no 27 de janeiro passado. pode até ser que você entenda o texto que se segue sem ler os posts anteriores; mas os textos foram escritos como se fossem uma palestra, uma conversa, o que significa que há uma sequência, começo meio e, espero, um fim, uma conclusão que faça sentido.

o primeiro post da série está neste link… passe por lá, até para entender o preâmbulo e contexto desta conversa.

nesta série, antes deste texto: 1, 2, 3; depois, nenhum, ainda. simbora.

. : . : . : .

no texto anterior, terminamos a conversa anunciando uma discussão sobre o mundo digital, esta já nem tão nova infraestrutura para tudo, inclusive a condução de negócios de todos os tipos. mas não discutimos o que eram os tais novos negócios inovadores de crescimento empreendedor de que falamos no segundo texto da série.

palavra por palavra: novo é um negócio que começou a existir há pouco tempo. tipo semanas, meses ou uns poucos anos. vamos combinar que um negócio é novo se ele tem menos de 1.000 dias de vida, uns tres anos. note que isso descarta um monte de negócios que estão incruados e encalhados em muitas das incubadoras nacionais há anos. dia destes ouvi dizer, numa delas, que uma certa empresa –que lá estava há mais de cinco anos- ainda não podia ser "graduada"; se fosse, morreria. claramente, trata-se de um caso, entre muitos, de empresas que só conseguem sobreviver em ambientes protegidos, fora do mercado. tão fora do mercado que um grande número delas jamais emitiu uma nota fiscal sequer… e vive de programas estatais de fomento à inovação empreendedorismo.

novo negócio inovador é um que muda [ou está tentando mudar] o comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e/ou consumidores de produtos e serviços. por esta definição [tirada de peter drucker], posso criar um novo negócio inovador alterando comportamentos na minha cadeia de valor de entrada, de saída ou em ambas. e devemos observar que negócios são inovadores em contextos; e contextos são temporais, geográficos, sociais, demográficos, às vezes de modos e modelos de uso, consumo e precificação… e não é preciso aparecer com produtos e serviços como amazon.com ou iPhone para fazer alguma coisa nova e inovadora [como os dois, por sinal, o são].

falta dizer o que é crescimento empreendedor: este é o tipo de crescimento de negócios onde o empreendedor faz a diferença. se o mercado onde seu negócio está inserido está crescendo [em média, digamos] x% por ano e seu negócio também está crescendo perto de x% por ano, é o mercado que está arrastando seu negócio e não você que o está empreendendo de forma diferenciada, de forma verdadeiramente empreendedora. crescimento empreendedor, em um mercado que cresce x% ao ano, é crescer 5x%, 10x% ao ano ou mais. é assim que doceiras se transformam em líderes do varejo nacional e um matadouro do interior de goiás domina o mercado mundial de carne.

mas há mais: se, no negócio que você imaginou, o lucro é uma porcentagem fixa sobre os custos, e esta porcentagem é baixa [digamos abaixo de 30% do faturamento...] é muito provável que seu negócio, por mais complexo que aparente ser, não vai apresentar o tal crescimento empreendedor, a não ser que haja vultosas injeções de capital para, literalmente, criar ou comprar o mercado.

novos negócios inovadores de crescimento empreendedor, pois, são negócios criados recentemente, que por vários motivos são diferentes do que havia no mercado quando apareceram, têm um grande potencial de mudar comportamento ao redor do que fazem e propõem ao consumidor e, ao mesmo tempo, crescem a taxas muito maiores do que os mercados onde estão inseridos.

é desnecessário dizer que o empreendedor deste tipo de negócio vive para a criação do negócio, todas as horas do dia, todos os dias da semana e não descansa enquanto sua criatura não atingir algum ponto que ele considere sustentável ou o negócio seja vendido.

nem precisa dizer que o candidato a empreendedor deste tipo de empresa corre riscos, muitos riscos, inclusive o de só achar um  modelo de negócios para o que quer fazer em sua segunda, terceira, quinta ou sétima tentativa de montar o negócio.

e não só: corre o risco maior de errar, aprender, errar, aprender… de passar por muitos ciclos de erro e aprendizado e, por várias razões, inclusive os tempos e as janelas de mercado e dos investidores [e de sua própria capacidade de realização e investimento], nunca "chegar lá". e isso faz parte das regras do jogo.

de nada adianta dourar a pílula e propalar que "qualquer um" consegue criar e evoluir um novo negócio, um novo negócio inovador ou, ainda mais radicalmente, um novo negócio inovador de crescimento empreendedor. muita gente não vai nem conseguir tocar um negócio já existente, quanto mais criar um novo, mesmo que seja um carrinho de pipoca.

é possível formar empreendedores, disso não há dúvida; mas há que haver um conjunto de precondições e predisposições individuais, sem as quais não adianta nem tentar. nem a melhor escola do mundo fará de um cidadão avesso a risco o empreendedor de um novo negócio inovador de crescimento empreendedor.

mas são exatamente estes negócios que precisamos criar para irrigar a base da economia, criando as possibilidades, em mercados maduros e empresas antigas, para, fora delas, tentar novas idéias, produtos e serviços. e novas formas de investir, de gerir, de trabalhar, de contribuir para o desenvolvimento.

tudo isso levando em conta que…

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…são pessoas, como já vimos, que definem o mercado e que, nos nossos tempos, estamos falando de…

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pessoas digitais são o tipo de gente que está nascendo e vivendo em um mundo muito diferente do que aquele onde, por exemplo, eu nasci há 56 anos. para descrever tal evolução, vamos reusar [quase na íntegra] um texto aqui mesmo do blog, de outubro passado, que descreve uma releitura  de um texto da alcatel/lucent [chamado the shift], onde

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…rotulamos as infraestruturas que sustentam os processos informacionais das gerações de pessoas vivas hoje, gente que, obviamente, é quem está definindo o mercado, como mostrado no slide abaixo:

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na coluna da esquerda, uma faixa de anos em que alguém nasceu ou, depois de 2010, ainda vai nascer; à direita, o modo de [comunicação ou] conectividade de seu tempo quando você tinha mais ou menos quinze anos, modo este que provavelmente possibilitou e limitou seu entendimento de mundo.

se você nasceu até 1925, você é do mundo do papel impresso; se teve sorte e estava no lugar certo [no brasil] teve acesso a bibliotecas e jornais [atrasados, e muito] quando tinha entre 15 e 20 anos. além de limitada, e muito, sua informação sobre o mundo era fora de tempo [especialmente na periferia] e pouco você podia dizer para o centro.

nascido entre 1925 e 1945, você é dos tempos gloriosos do rádio; o centro de seu mundo estava na rádio nacional, francisco alves, orlando silva e as rainhas das ondas hertzianas [!] aracy de almeida, dalva de oliveira, dolores duran, linda e dircinha batista, marlene e emilinha borba. entre muitos e muitas outras, claro

nascido entre 1945 a 1965, como eu, você é do tempo da TV; se nascido em 55, aos 15 você viu o brasil ganhar a copa do méxico pela TV ao vivo e isso marcou nossas vidas, por muito tempo. este é também o tempo do cinema, claro, mas a TV, nas casas, logo começou a ter um impacto muito maior e só recentemente o cinema [pelo menos por aqui] voltou a ser o palco que nunca deveria ter deixado de ser, pois ponto de encontro mediático e social.

os que nasceram entre 1965 a 1980 [pegue quem nasceu em 1970, por exemplo] viram os primeiros computadores pessoais assumir seus lugares nos bancos, lojas e supermercados quando tinham 15 anos. os mais afortunados entre este povo da era digital tinham acesso a um PC nos escritórios dos pais, quem sabe até em casa; mesmo com suas poucas centenas de kilobytes de memória e processadores que mais pareciam lesmas comparados aos atuais, era o início, perceptível e utilizável, de uma era digital nos escritórios e nas poucas casas que tinham um PC.

vale a pena lembrar que, aí por 1985, telefone fixo era coisa rara e celular não existia; tenho uma declaração de renda da época… em que linha telefônica era declarada como bem e, em recife, valia quatro mil dólares. coisa de louco. que estava para mudar muito em breve. ainda bem, por sinal.

os anos de fim de uma faixa e de começo da outra, na tabela, colidem e isso é proposital; as faixas, por sinal, não são  nem devem ser tratadas como muito precisas, servem apenas para nos dar uma idéia geral dos tempos em que mudanças e eventos marcantes aconteceram, e pode ter sido mais ou menos tempo e anos para cada coisa ou faixa, dependendo de quem você era ou estava.

mas uma coisa é certa: se você nasceu de 1980 pra frente, quando você tinha quinze anos ou menos havia algo ao redor, ou ao seu alcance [ainda na década de 90, com sorte], chamada internet e esta coisa tinha um caráter completamente diferente de tudo o que tinha acontecido antes em se tratando de tecnologias de informação e comunicação: servia para conectar, mais do que para comunicar. nossa conectividade veio pela internet, e aí nos tornamos agentes independentes, em rede, capazes de contar nossas histórias pela nossa própria e desintermediada voz.

pense numa mudança radical, que mudou tudo o que já existia do ponto de vista de mídia. quer ver? olhe este texto, aqui mesmo do blog, sobre impresso, rádio e TV sendo literalmente consumidos pela web.

mas a vida continua; no brasil, já são 193 milhões de celulares e os telemóveis, no mundo, acabam de atingir 79% de penetração: pelo menos em tese, é quase como se quatro em cada cinco habitantes do planeta tivessem um celular em suas mãos agora; são [ou seriam, dependendo de nossa crença nos dados] cinco bilhões e trezentos milhões de assinantes móveis, contra "apenas" dois bilhões de usuários da internet

isso inclusive porque, se você nasceu de 2000 pra cá, sua era é a da mobilidade; você sabe que pode carregar sua informaticidade com você, que não precisa [e nem deve, talvez] compartilhá-la com mais ninguém e que todas as fontes de informação do mundo para você e de você para o mundo podem ser parte quase que inseparável de sua identidade. afinal de contas, como foi que, num mundo em que "todo mundo" tem um número e onde não há mais nenhuma lista telefônica… todo mundo [que lhe interessa] sabe "seu" número? de que outra forma, aliás, os assinantes móveis do planeta trocariam 200.000 SMS por segundo?…

finalmente, há os que ainda estão para nascer de 2015 pra frente. claro que isso [e é verdade para cada uma das faixas] já inclui gente pequena e grande que está aí agora, hoje: estamos passando a viver em tempos onde temos acesso [e queremos ter acesso] à programabilidade do mundo e dos dispositivos ao nosso redor. não queremos mais, e apenas, acesso às fontes de informação; queremos e vamos programá-las para que forneçam a informação que queremos, que sabemos que temos direito a ter e que, por falta de alguém para programá-la para nós, em nossos formatos, nós mesmos o faremos.

um sinal é a web 3.0, a rede onde, além de inserir meu próprio conteúdo, eu programo as funções que acho que deveriam estar lá. outro, muito mais pessoal, é a grande rede de dispositivos móveis programáveis, onde cada um já "programa" seu smartphone para que ele tenha as funcionalidades essenciais [ou simplesmente preferidas...] do ponto de vista de cada um, vindas de um mercado de apps de possibilidades cada vez maiores, que nos deixa tratar quase cada smartphone como um lego infinito [se tanta memória tivesse para tal].

dentro de uma década não haverá nenhum "celular" que não seja smart, pela simples razão de que "celular", o telefone, já é há muito tempo apenas uma aplicação a mais em um dispositivo [e sistema] que nos habilita, a todos e a cada um, a fazer muito mais do que simplesmente "falar" ao telefone.

este é o mundo de hoje e do amanhã. se você vai simplesmente usá-lo ou está pensando em empreender nele ou para ele, se lembre que as gerações que detêm [hoje] e estão criando [para daqui a pouco] a maior parte das formas de geração de renda, consumo e poder são aquelas das pessoas que estão vivendo em contextos e mercados digitais, conectados, móveis e programáveis.

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isso está centrado em quem nasceu de 1965 em diante, pessoas que hoje têm quarenta e cinco anos ou menos. mas não está e nem vai ficar restrito a estas gerações, pois todo mundo, entre os mais antigos, acaba entrando em fase e em cena, no seu tempo.

este é o mercado onde se vai criar novos negócios, porque estas são as pessoas que fazem o mercado. este é um universo de…

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…para onde nos mudamos e de onde não voltaremos. nem ditadores acossados por muito tempo conseguem "desligar" a rede dos seus países definitivamente, pois rede agora é como eletricidade, é informaticidade, é informática, provida e usada de forma tão simples como eletricidade e bilhetada [e cobrada] como tal, por uso. "desligar" a rede é desligar o país, o governo, os negócios, os hospitais. o tempo da rede não tem volta.

e a informatização pessoal redefine o que é a informática. veja o slide abaixo, combinação de previsões de várias fontes [IDC, forrester, GSMA] sobre o número de smartphones no brasil no ano passado e nos próximos anos:

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seriam 19 milhões de smartphones no fim de 2010, 27 no fim de 2011 [meu chute pessoal é 35 milhões no fim do ano, me cobrem], 75 milhões em 2013 e, no ano da copa, mais da metade da população brasileira teria um smartphone e uma conta de dados. isso afeta mercados estabelecidos [como lanhouses...] e modifica comportamentos em todos os lugares. quer ver?…

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a foto acima é do poço do cânion 2 do rio preto, logo depois da cachoeira,no parque nacional da chapada dos veadeiros, tirada e tuitada de lá, no meu milestone. pedaço de paraíso com cobertura de banda larga móvel, mais de 250km ao norte de brasília. já que deve para tuitar uma foto, aproveitei, troquei uns dois ou tres emeios, ajustei uns itens na agenda, fiz duas ligações e continuei a caminhada, servindo de pasto pros mosquitos da chapada, que devoram repelente como parte da entrada.

então, nosso universo de empreendedorismo [e de educação empreendedora é um de…

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neste contexto… o que é um…

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pois é exatamente isso que vamos tentar responder, com a ajuda de muita gente, no próximo texto desta série. continue conosco.

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

um mapa mundi…

…de relações humanas. como? assim: crie uma infraestrutura que permita que quase 10% da população da terra se conecte, virtual e livremente. depois, faça um mapa destas conexões. data? dezembro de 2010. taí:

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agora chegue mais perto, trazendo o brasil mais pro centro, e…

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…olhe ainda mais perto pra ver que…

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…ainda não estamos tão conectados [usando a tal infra, que é facebook]entre nós quanto chile, paraguai, uruguai e argentina entre eles, mas a coisa tá pegando no sudeste… e olha a densidade de links que sai do nordeste para a… europa:

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e, sobre nosso último post [falando de como, depois de facebook ter passado orkut na índia, orkut ficou isolado no brasil…], olhe pra cobertura quase total de facebook no subcontinente…

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…observando também que a maior parte da conectividade das redes sociais é local e não global. estamos nos tornando globalmente conectados mas, muito mais, melhor conectados localmente. e isso é bom, pois quer dizer que as redes sociais virtuais podem ser um poderoso instrumento de formação e evolução de comunidades geograficamente conexas, para elicitação, compartilhamento e resolução de seus problemas locais.

dados, dados, montes de dados. e descoberta de conhecimento neles. o blog falou disso aqui. se o walmart gera 167 vezes o volume de dados da biblioteca do congresso dos EUA por hora… e isso nos caixas, com a lista de quantas fraldas e cervejas você comprou, quantos cliques por hora dão os 600 milhões de usuários de facebook, que em poucos dias transformaram cityVille de um nada em um jogo comunitário de 20 milhões de usuários?…

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experimentação, simulação, codificação, ciclo de vida de formas de ver o mundo, de muitas formas, mas, principalmente, através da mediação dos “códigos”, dos algoritmos que [flusser!], ao redor, condicionam, quase de uma vez por todas, nossa forma de criar e experimentar a realidade.

falando em algoritmos, se você quiser ver como o mapa foi feito, por um estagiário de facebook, é só clicar neste link. boa leitura e até a próxima.

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sexta-feira, 19 de junho de 2009

seu[s] próximo[s] celular[es]

Tags:, , , - srlm às 16:31

image stuart henshall acaba de publicar um texto interessante sobre as mudanças –muito rápidas- no uso dos nossos celulares.

primeiro, no começo dos anos 90, os celulares eram telefones, pura e simplesmente. depois, foi a vez de trazer entretenimento para o dispositivo: vimos chegar, um após o outro, foto, áudio e vídeo; mais recentemente, de boa qualidade e em grande quantidade, em todos os casos, resultado da miniaturização cada vez mais radical das memórias e sistemas de captura de informação, combinados com processadores mais capazes e mais eficientes no uso de energia.

hoje, sem abrir mão de nada conquistado antes, o que costumava ser um celular multimídia se tornou dispositivo essencial para conectividade, para mediar nossas relações com tudo o que está na ou vem da rede. o que implica, quase que necessariamente, se conectar com coisas que não têm nada [e isso existe?] a ver com a rede, como o rádio do seu carro. claro, óbvio: se peguei uma música online, pelo wi-fi do celular, como que vou tocar no trânsito? só pelos fones do celular?… deveria ser pelo bluetooth do rádio do carro…

a análise de henshall vale para quem tem um celular do tipo “smart”, que tem uma tela “grande” [para um celular], como um iPhone, blackBerry e palmPre… e que tem uma conta com razoável [que tal ilimitado em volume, limitado –mas não muito- em velocidade e a custo mensal fixo?] acesso à internet. você poderia dizer… sim, mas quem tem acesso a isso? no mundo inteiro, cada vez mais gente. num futuro próximo, quase todo mundo. inclusive no brasil. cobertura nacional 3G, novos celulares e novos e mais competitivos modelos de negócio vão mudar tudo o que pensamos de celulares e como eles são usados para mudar nossas vidas. de novo.

segundo henshall, há sete razões pelas quais os celulares estão mudando tudo, de novo. as razões e os comentários originais estão lá no texto dele. vou reduzir sete pra três, derivados do meu uso [atua] de celulares:

1. leitura: celulares se tornam, porque disponíveis o tempo todo, em todo lugar, telas para ler. para os mais velhos, as telas são pequenas; diziam o mesmo dos teclados. mas e daí? se você viajou para são paulo e as páginas do guia da cidade estão na telinha na sua mão, com busca, mapas, endereços e telefones, fazer o que? aprender a usar telas pequenas, e rápido, para sobreviver.

2. internet [conectividade e aplicações]: o guia do parágrafo anterior era um .pdf que você montou [eu já montei muitos]; mas o barato dos celulares, mesmo, é sintonizar a internet. e ninguém está na internet pela internet; a rede é só um meio pra conectar pessoas, sistemas, serviços, instituições. alguma hora talvez passemos a chamar de internet só a infra-estrutura e os serviços que tornam todo o resto, as aplicações, possível. e são as aplicações, de emeio a twitter, que nos dão conectividade. meu celular carrega operaMini pra navegar, nimbuzz pra chat & VOIP, gravity pra twitter e googleMaps com myLocation preu dizer pro taxi, em qualquer lugar do mundo, pra onde ele tem que ir. essencial, mas nem sempre dá certo: dia destes, em são paulo, a coisa insistia que eu estava em bangcoc…

3. mídia: seu celular fotografa, filma, grava, reproduz tudo o que captura e é enviado pra ele. mas poucos –não achei os apps ideais pra isso, pelo menos- conseguem integrar, de uma forma transparente, a imagem que acabei de captar, na rua, a um texto e, no próximo click, fazer a coisa aparecer aqui no blog, direto, sem sofrimento. integrar imagens a aplicações e sistemas, em rede, está se tornando muito mais importante do que uma camera de 12 megapixel e terabytes de memória. afinal de contas, o destino de suas fotos não é seu celular, mas um repositório [abetro ou não] em rede. mas isso é só uma questão de tempo, e pouco; os celulares vão se transformar em instrumentos revolucionários e universais de conectividade pessoal e institucional, bem como em ferramentas para capturar, processar e apresentar informação, de forma integrada e em todos os sentidos, em rede.

e você e eu trocamos de celular o tempo todo, tipo uma vez a cada dois anos, por aí. pra sua próxima troca, faça a lista de características e, seja quais forem, bote internet [incluindo wiFi e conexões tipo blueTooth, parte essencial de sua “rede local”], uma plataforma móvel para qual haja [ou vá haver] muitas aplicações [fora do controle do fabricante], uma tela boa o suficiente para ler [livros, se for o caso!] e capacidades variadas de tratar, de forma integrada com as aplicações e a internet, todos os tipos de mídia. seu celular, afinal de contas, não é um celular: usá-lo como telefone é tão séc. XX…

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