Terra Magazine

quarta-feira, 8 de junho de 2011

ruído social pode ajudar produtos medíocres?

kathy sierra terminou seu blog [creating passionate users] em um dia qualquer de 2007, deixando um rastro de contribuições sobre um monte de coisas que tem a ver com usuários, produtos e serviços e também com o que acontece dentro das empresas. seus textos eram pontuados por imagens como a mostrada abaixo, que está pregada na porta da minha sala há anos…

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…que deveria ser óbvia para qualquer gestor, especialmente de processos ou negócios inovadores, mas não é. o resumo da figura diz que "quanto maior é seu grau de intervenção, como gestor, no que seus colaboradores fazem… menos eles usam seus cérebros". resultado? empresas formadas por zumbis, como tantas que vemos por aí.

estas empresas microadministradas são normalmente descritas por seus executivos como "muito estruturadas", ou "muito hierárquicas", quiçá [!] "tradicionais".  em que pese o grau de controle exercido pela administração sobre os colaboradores, já se começa a ver um número delas à procura de uma estratégia social, como o blog descreve nesta série de textos sobre redes sociais nos negócios. mas isso só vai dar resultado se o índice "zumbi" da empresa diminuir muito.

sierra reapareceu ontem no blog de @gapingvoid, discutindo o papel das redes sociais para os produtos e serviços e seu impacto nos clientes e usuários, especialmente quando se trata da conversão de "follow", "RT", "like" e "+1" em "PAY", que é o que traz o leite das crianças para casa ao fim do expediente.

o texto, como sempre é o caso, é inspirado e competente. depois que você lê, acha que é óbvio, que qualquer um poderia ter escrito a mesma coisa. só que o deslumbramento com certas plataformas de redes sociais faz com que muita gente ainda pense que "botar um produto nos TTs" tem uma relevância muito maior do que botar um produto nos casas e nas mãos dos usuários.

pra quem chegou agora, TT é o mesmo que "trending topics", as coisas que estão bombando no twitter [e que poderiam estar, na prática, na "moda" em qualquer rede social].

sierra nos traz de volta à realidade com mais um gráfico para ser lembrado e usado em muitas discussões sobre produtos, serviços, mercado, usuários e compradores e… redes sociais.

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é preciso lembrar que o foco da discussão sobre produtos e serviços deve ser [sempre] se nós, fabricantes e provedores, agregamos valor à vida dos usuários ["users kick ass", no gráfico] ou atrapalhamos ["users FAIL"].

se o produto é uma porcaria, não há quantidade ou qualidade de esforço, associado a seja lá qual for a palavra da moda na hora [a "buzzword"... pode ser social, viralização, gamificação... o que for] que ajude. se o produto ou o serviço é "o dez", quase certamente não precisa de buzzwording promovido pelos seus fabricantes ou provedores, pois compradores e usuários vão fazer todo o trabalho, por razões óbvias: o produto é muito bom.

entre os dois extremos, está a região que sierra chamou de "montanha da mediocridade": a oferta é "mais ou menos" e precisa de um grande esforço de buzzwording para decolar. o gráfico tenta mostrar o impacto potencial de redes sociais, por exemplo, em produtos que não são horríveis ou ótimos e deveria balizar muito das discussões sobre retorno de investimento em qualquer tipo de "mídia", como a "mídia" chama.

sierra não descarta redes sociais de pronto, mas…

Oh, social media does play a massive role in the success of a product that people love, but it is not the product-to-users “engagement” that matters, it is users-to-users (and users-to-potential-users). If people love what a product, book, service let’s them *do*, they will not shut up about it. The answer has always been there: to make the product, book, service that enables, empowers, MAKES USERS AWESOME. The rest nearly always takes care of itself.

…deixa claro o que escreveu por muito tempo lá no seu velho blog: nosso esforço em desenhar produtos deve estar centrado em criar coisas que apaixonam seus usuários, mesmo sob restrições de funcionalidade e, certamente, preço.

peter drucker já ensinava que inovação é criatividade com qualidade. criatividade pode ser definida como a combinação de RIP, MIX e BURN: pegue umas coisas daqui e dali, recombine [raramente introduzindo algo novo, seu] e apresente o novo desenho ao mercado. e qualidade é o que o usuário quer, pelo preço que ele pode pagar. inovação em produtos e serviços, definida desta forma, fica muito mais simples de ser entendida na prática, na fábrica e na agência.

e torna muito mais fácil lidar com o gráfico da montanha da mediocridade. não é porque seu produto é barato que é ruim. nem tampouco porque a tela do celular não é AMOLED que os usuários vão detestá-lo. tudo depende do que, para quem, por quanto, com que propósito e em que faixa de poder aquisitivo. se esta combinação não fizer sentido para uma certa classe de usuários, pode tentar a quantidade de buzzwording que você quiser ou puder pagar e ela não irá desenhar, criar, promover… o produto certo, pois seus usuários nunca irão "kick ass" .

bom ver sierra de volta, nem que seja por um post. vá ler com calma, vale.

como o título deste texto fala de produtos medíocres, aqui vai uma outra imagem de sierra definindo, em perguntas, o que seria uma hierarquia de necessidades e desejos dos usuários, capaz de levar a produtos e serviços "matadores". mesmo que seja para fazer uma estratégia social para um produto medíocre, é bom refletir sobre os sete níveis da figura abaixo…

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

mundo: plano ou picos? [final]

esta série de tres textos [o primeiro está neste link e o segundo aqui] surgiu de uma provocação de hagel e seely brown dizendo que, apesar de estarmos na era das redes, na sociedade da informação e economia do conhecimento [e certamente por causa disso], as tecnologias de informação e comunicação provavelmente deverão aumentar a importância dos locais em relação ao espaço.

bom… eles não dizem isso exatamente deste jeito, em termos de lugares [físicos] e espaço [o flowscape, o espaço de fluxos], como se fosse um discurso anticastells em termos do próprio castells [entenda esta conversa neste link]. hagel e seely brown dizem que

…location does matter and will continue to matter. People are moving into large urban areas at an accelerating rate — today over 50% of the world’s population lives in dense cities versus ~30% in 1950. If location no longer mattered in terms of economic potential for an individual, it seems likely that more people would stay in place rather than uproot themselves to relocate…

…o lugar ainda importa e vai continuar sendo importante; mais de 50% da população mundial mora em cidades densas [contra 30% em 1950]; se o lugar não importasse [em termos de potencial econômico individual], as pessoas não iriam se mudar para estes lugares densos onde parece haver mais oportunidades.

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segundo hagel e seely brown, isso ocorre por duas causas básicas: 1. o conhecimento tácito, que não é codificado e que circula nas conversações informais, locais, face-a-face, é cada vez mais importante e 2. existe uma atração natural [para os “melhores lugares”] de pessoas e recursos que precisamos mas que ainda não sabemos que existem.

um dos resultados é que, em lugares densos, a probabilidade de ocorrência de “serendipity”, encontros casuais de pessoais envolvidas com a mesma agenda é muito maior e de muito maior geração de potenciais resultados, como as discussões entre pessoas de múltiplas companhias no almoço do paço alfândega, no porto digital, os encontros entre grupos de vários prédios do tecnoPUC, em porto alegre, e os almoços, cafés e conversas, em sand hill road, no silicon valley, que criam muitas das companhias que [sem qualquer “má” inveja] muitos de nós gostaríamos de ter criado.

e aí os autores juntam o concreto e o abstrato…

…communities of interest, so common on the Web, tend to evolve into tighter communities of practice in urban areas as people engage in sustained efforts to develop things together. The passion of a few tends to inspire and draw in others. The ability to sustain interactions in online environments amplifies face-to-face interactions and fuels the passion of a growing number of participants. The physical/virtual community of practice becomes a magnet for others to move to the city. Certain cities become known for having a critical mass of passionate people, and that motivates even more people to relocate to these evolving urban spikes…

…observando que comunidades de interesse [na web] se tornam de prática [e tácitas, em sua maior parte], justamente em lugares onde muita gente está engajada em tornar realidade proposições teóricas que estão sendo discutidas online. a combinação das comunidades abstrata e concreta [virtual e física, segundo os autores], se torna um magneto e cada vez mais gente [interessada em certas ecologias de prática] tende a se mover para determinados lugares, o que leva ao efeito [que já discutimos no nosso segundo texto] do “ganhador-levar-tudo”.

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marc augé ensina que um lugar é relacional, histórico e onde há uma preocupação essencial com a identidade de cada um e do  próprio lugar. lugares, segundo augé, estão centrados nos indivíduos [que deles fazem parte], na cumplicidade [inclusive de linguagem] entre eles, no contexto e referências locias e em um certo modo, maneira, know-how de viver naquele lugar. são tais coisas que tornam o riode janeiro diferente de são paulo [mesmo quando se trata de negócios, exclusivamente] e de recife.

ainda segundo augé, o espaço, ao invés dos lugares, não é baseado em relações, história e identidades; o espaço é de certa forma um conjunto de não-lugares, parte dos quais existe fisicamente, como shopping centers [iguais em todo um país, quase iguais em quase todo mundo], aeroportos [onde ainda por cima a maior parte das pessoas está só de passagem e querendo sair de lá o mais rápido possível], cadeias de hotéis… que “servem” como moradia temporária e, todos parecidos, com a mesma assinatura, são iguais em todo canto e pertencem a “lugar nenhum”, são non-lieux, não-lugares.

aqui já dá pra articular uma ligação entre o abstrato e o concreto e começar a concluir nosso assunto, bem nos termos de hagel e seely brown. a rede, se estendermos a definição de augé, seria uma espécie de non-lieux; lá, principalmente nas redes sociais, participamos de uma identidade coletiva, temos uma anonimidade [de certa forma parcial e, de outra, temporária] e temos uma relação contratual com o todo [ou seu provedor, como twitter] e com todos [os que fazem parte da mesma rede que fazemos].

juntando as peças deste quebra-cabeça conceitual, josé alberto de vasconcelos simões, da UNL [portugal], observa muito bem que

Se metaforicamente a ideia de rede é sedutora, por dar conta quase intuitivamente da crescente interconexão planetária que se constitui a partir de diversos nódulos globalmente dispersos, é também verdade que a imagem que produz tende a enfatizar a importância dos fluxos em detrimento dos lugares, ignorando, de alguma forma, que qualquer fluxo provém (ou é desencadeado) a partir de algum lugar. Por outro lado, e esta seria uma das suas principais limitações (pelo menos nalgumas das suas acepções), deixa de fora uma parte considerável da população, nomeadamente aquela que não participa nos fluxos globais dominantes.

Os fluxos não são abstractos, etéreos, desligados dos lugares de onde provêm e para onde se encaminham, mesmo que se constituam independentemente de constrangimentos territoriais. Disso mesmo nos dão conta as múltiplas redes “virtuais” formadas por participantes em fóruns de discussão que se organizam em torno de temáticas específicas. Com efeito, as suas discussões encaminham-se para assuntos, pessoas e eventos concretos, para os quais podemos encontrar uma correspondência tangível, ancorada em algum lugar, ainda que este possa ser efémero e quem o habita provenha de origens geográficas dispersas.

redes e fluxos no espaço [o mundo de bush-drucker-castells] abstraem, estendem, complementam… os lugares concretos onde ainda vivemos, trabalhamos e empreendemos fisicamente. e cada um destes lugares tem símbolos, linguagem e cultura próprios; richard florida descreve e estuda, há anos, lugares especiais onde há uma combinação de talento, tecnologia e tolerância e –por causa disso, em tese e na prática- cuja participação na articulação entre os lugares e no espaço também é especial.

as redes mudaram o mundo, é certo; mas ainda não ao ponto onde só e somente as redes são o mundo. se este fosse o caso, não seriam apenas algumas poucas cidades que estariam capturando quase todo o valor gerado no mundo abstrato. pense seattle [microsoft e amazon] e o próprio silicon valley [de google a oracle, passando por facebook e twitter].

no futuro, pode até ser que o flowscape englobe todos os lugares; que todos possam participar das redes [no lugar ou no espaço] que quiserem, em pé de igualdade, em qualquer lugar onde estiverem. mas para isso nossa experiência de rede, de fluxos, terá que ser muito mais rica do que temos hoje e no futuro próximo. bote aí uns 20 anos e, quem sabe, vai dar para empreender no “east of london” sem sair do porto digital ou, ainda melhor, empreender no porto digital sem sair do east of london.

será?… não sei. mas a resposta apropriada parece ser… “só será se for possível gerar e capturar, do lugar onde se está, o mesmo valor que seria gerado e capturado caso se migrasse para o outro lugar”.

aí, sim, o mundo seria mesmo plano, sem picos. até que isso seja verdade, ainda vamos conviver com muitos picos. o que deixa claro a necessidade, o problema e a oportunidade de termos pelo menos alguns deles, e de classe mundial, no nosso plano de brasil.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

mundo: plano ou picos? [2]

Tags:, , , , , , - srlm às 08:00

para entender o que vamos falar neste texto, talvez seja interessante ler o primeiro capítulo desta série, que está neste link. o primeiro texto serviu para fazer a pergunta do título, a partir de uma visão de mundo em que…

…a economia e sociedade em rede podem ser definidas ao redor de conhecimento, organizadas em termos de informação e tratadas, do ponto de vista de sua dinâmica, como conjuntos de fluxos, como se tudo fosse um flowscape, um espaço de fluxos,

e nossa conversa vem de uma provocação de hagel e seely brown, básica [e de mais de uma forma] controversa: eles acham que, apesar de estarmos na economia do conhecimento [e inclusive por causa disso!], as tecnologias de informação e comunicação provavelmente deverão aumentar a importância das cidades [principalmente as muito densas] e aumentar o fluxo de pessoas para tais lugares.

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para hagel e seely brown, o mundo não é plano, mas cheio de picos; e os picos vão se tornar ainda mais altos e distintos em relação ao resto, que passaríamos a chamar de plano [mesmo]. isso seria o mesmo que dizer que nas economias de escala no mundo físico, no caso das cidades, um pequeno [em relação ao todo] grupo de cidades "leva tudo". ou seja, tanto quanto na web, onde vale a lei do "winner takes all" e a geografia seria regida por um modelo de rede "livre de escala", em que um número de nós [cidades], privilegiados de uma ou outra forma, atrai muito mais atenção e gera muito mais riqueza do que as outras.

certo, você diria; mas isso é assim hoje, tem sido assim desde, pelo menos, roma antiga e antes. pois é, mas acontece que uma das teses derivadas da visão bush-drucker-castells que descrevemos no texto anterior é de que isso seria radicalmente mudado pela rede. um dos textos que sustenta tal visão é de thomas friedman em "the world is flat", onde se promove a noção de que tudo mudou e radicalmente: a se acreditar em friedman, um trabalhador [de conhecimento] fisicamente isolado no norte da índia, mas conectado em rede com o resto do mundo… é equivalente a qualquer outro, em qualquer lugar. pra ver os porquês em detalhe, clique na imagem abaixo.

mas, se o lugar é mesmo qualquer, e consequentemente não importa, porque haveria picos como o silicon valley? não, em tese não haveria. no médio prazo [seja lá o que isso for] os efeitos de rede deveriam aniquilar as vantagens da proximidade geográfica e o mundo, a partir daí, seria mesmo plano.

segundo hagel e seely brown, não é bem isso que está acontecendo e as teorias e evidências que melhor explicam o atual estado de coisas vêm, por exemplo, de richard florida, defensor da idéia de que o mundo está ficando mais "spiky", mais cheio de picos e, por sinal, de picos mais altos.

em 1998, kevin kelly, então editor da wired, dizia [citado por undheim aqui, na pág. 152] que…

”This new economy has three distinguishing characteristics. It is global. It favours intangible things – ideas, information, and relationships. And it is intensely interlinked. [It changes the scope of things] From places to spaces…physical proximity (place) is replaced by multiple interactions with anything, anytime, anywhere (space)”.

em outras palavras, kelly diz algo mais que bush-drucker-castells, pois conclui que o lugar [place] onde as coisas acontecem será substituído pelo espaço [space] de interações de todos os tipos e em qualquer hora e lugar. ao invés de lugares, lugares conectados, suas interações e fluxos.

imagemas… mesmo assim… em que lugares haveria mais gente, mais conectada, possivelmente gerando mais valor e a que lugares mais gente iria se conectar, o que tornaria tais locais, de novo, "places", picos, neste mundo "space", talvez nem tão plano assim?

a equação acima [em bose-einstein condensation in complex networks, de bianconi e barabási] dá conta de que a probabilidade de um nó em uma rede se conectar a outro nó depende da aptidão do nó ao qual a conexão seria feita. e isso vale sempre que a rede em questão se assemelha a um condensado de bose-einstein, o que parece ser o caso da web. é daí que surgem os googles, facebooks e twitters no mesmo "space" em que outros, tão bons quanto [em funcionalidade], não chegam a lugar nenhum.

a questão é: e no caso das cidades? porque empreender em taperoá, PB, é intrinsecamente mais difícil do que em palo alto, CA, especialmente se seu negócio for intensivo em TICs?…

aqui entram undheim e sua tese de doutorado de 2002, tentando explicar porque nem tudo eram ou são rosas, pelo menos não ainda. undheim nos diz [aqui, na pág. 33] que o vale do silício é um processo contínuo de "place making", de [re]construção de um lugar, o que se dá ao redor de um território, organizações, conhecimento e tecnologia. assim como, muito depois, o porto digital [em recife], o vale do silício é um espaço ao qual está associado um repertório próprio, como se [o espaço] fosse um trabalhador de conhecimento e onde, por sua vez, um trabalhador de conhecimento fosse algo absolutamente "normal", o que não seria o caso, por variadas razões, em taperoá, PB. ou no norte da índia, ou no interior de roraima.

e aí é onde o espaço, em tese, pelo menos, perde para o lugar; na norma, na prática, na história. segundo undheim [na pág. 173]…

…I will claim that Castells exaggerates the disembodiment of global business. Probably he would realize this if he started doing interviews instead of looking at statistics of major global information flows. That these flows increase is true, but this fact cannot deny the experience of day-to-day business. Simultaneously with the global spaces of flows of Castells, the de-spacing and corresponding place-making of workers through close encounters, and engagements in few, bounded communities of practice occurs all the time. Knowledge community and knowledge creating relationships evolve over time, and cannot easily be moved….

…castells exagerou na dose; o lugar não desapareceu por causa do espaço e isso se vê ao conversar com as pessoas ao invés de olhar as estatísticas. é claro que os fluxos são mais intensos [ainda mais do que em 2002] mas o lugar ainda é muito importante, em certos lugares muito mais importante do que o espaço. o silicon valley seria um destes lugares, onde comunidades baseadas em conhecimento evoluem no tempo, em termos de relações que não podem ser facilmente deslocalizadas.

prova disso talvez seja o número de caravanas que visita o silicon valley [e, no brasil, o porto digital] para tentar entender como a coisa funciona e como replicá-la no seu "lugar". pelo menos no porto digital, nossa  resposta é uma só e muito simples: pra começar, aprenda com nossos erros; este lugar não é ideal e provavelmente copiá-lo para o "seu" lugar não faz sentido; ao invés, desenhe seu lugar e os fluxos que, a partir dele e para ele, vão torná-lo diferenciado e único no espaço. ou seja, no mundo. como estamos tentando fazer, em recife, no porto digital e tantos outros o estão, para seus lugares, no resto do mundo.

mas afinal, pelo menos por enquanto, qual é a conclusão? ah… fica para amanhã. até lá, pense: por quanto tempo, ainda, o lugar vai continuar [se é que vai] sendo mais importante e relevante do que o espaço, e para que tipos de negócios?

nossa série continua…

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

mundo: plano ou picos? [1]

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a provocação para esta série de textos vem de john hagel III e john seely brown, o último um dos autores do seminal "the social life of information". os dois acabam de escrever um ótimo ponto de partida para uma discussão sobre o modus operandi da nova economia mundial.

aliás, nem tão nova assim; a economia do conhecimento contemporânea tem seus primórdios datados do fim da segunda guerra mundial.

coordenador do esforço americano de pesquisa e desenvolvimento na segunda guerra, vannevar bush tratou do futuro do tema ainda em 1945. em "as we may think", publicado numa revista leiga, discutindo a relação entre pessoas e conhecimento e, em particular, como poderíamos ter mais e melhor acesso a toda a informação existente, criando uma nova forma de pensar, auxiliada por ambientes e ferramentas capazes de estender a mente humana.

se você acha que isso tem tudo a ver com a internet, tem mesmo. claro que este bush não concebeu a internet; mas o engenho descrito no texto acima e mostrado na figura abaixo [clique], chamado memex, talvez possa ser considerado a mãe de todos os hipertextos. e hipertexto, grupos de textos ligados, ou interligados, é a base da web que vannevar, falecido em 1974, não chegou a ver.

memex-1.jpg

em um outro texto de 1945, "science: the endless frontier", um relatório para o presidente roosevelt sobre as possibilidades descortinadas pela ciência na economia, sociedade e vida pessoal, bush, depois de considerar os últimos anos de avanços científicos [incluindo as razões que levaram os EUA a ganhar a guerra] diz que

Advances in science when put to practical use mean more jobs, higher wages, shorter hours, more abundant crops, more leisure for recreation, for study, for learning how to live without the deadening drudgery which has been the burden of the common man for ages past. Advances in science will also bring higher standards of living, will lead to the prevention or cure of diseases, will promote conservation of our limited national resources, and will assure means of defense against aggression. But to achieve these objectives - to secure a high level of employment, to maintain a position of world leadership – the flow of new scientific knowledge must be both continuous and substantial.

…ciência vai estar em tudo, mas não só: para que ciência e conhecimento estejam em absolutamente tudo e gerem como resultado mais trabalho, mais saúde, uso mais racional dos recursos… e muito mais, o fluxo de conhecimento "novo" deveria ser não só substancial mas, também, contínuo.

vannevar bush não foi o único a perceber, ao fim da segunda guerra, que o mundo se articularia, a partir daí, ao redor de informação e conhecimento e não de recursos naturais, agricultura e indústria. não que estes fossem desaparecer; afinal de contas, ainda precisamos [por exemplo] comer. mas as riquezas do passado, que haviam definido o mundo até então, iriam ser rapidamente redefinidas e controladas por quem gerasse, detivesse, organizasse, conectasse, distribuísse e negociasse informação e conhecimento.

peter drucker, que viveu tanto [1909-2005] e sempre parece ter-se ido antes do tempo, já descrevia os trabalhadores do conhecimento em 1959 e, do ponto de vista sócio-técnico, nos deu uma síntese [em 1984] do que bush queria dizer, muito antes da internet e da nossa percepção de uma sociedade em rede. e o fez de forma bem simples:

Three hundred years of technology came to an end after World War II. During those three centuries the model for technology was a mechanical one: the events that go on inside star such as the sun. This period began when an otherwise almost unknown French physicist, Denis Papin, envisaged the steam engine around 1680. They ended when we replicated in the nuclear explosion the events inside a star. For these three centuries advance in technology meant -as it does in mechanical processes- more speed, higher temperatures, higher pressures. Since the end of World War II, however, the model of technology has become the biological process, the events inside an organism. And in an organism, processes are not organized around energy in the physicist’s meaning of the term. They are organized around information.

então… se bush dizia que conhecimento –para manter a sociedade do pós-guerra funcionando- deve ser substancial e contínuo e drucker propõe que o modelo para as tecnologias contemporâneas e seu uso e impacto é baseado em e organizado ao redor de informação, é bom introduzir, por completude, a definição de fluxos criada por manuel castells:

...purposeful, repetitive, programmable sequences of exchange and interaction between physically disjointed positions held by social actors in the economic, political, and symbolic structures of society.

fluxos são sequências propositais, repetidas e programáveis de trocas e interações realizadas por atores [sociais, de todos os tipos] sobre as estruturas econômicas, políticas e simbólicas da sociedade.

pense: a economia e sociedade em rede podem ser definidas ao redor de conhecimento, organizadas em termos de informação e tratadas, do ponto de vista de sua dinâmica, como conjuntos de fluxos, como se tudo fosse um flowscape, um espaço de fluxos.

neste universo de conhecimento, onipresente na economia e sociedade planetária, definido em termos de bush-drucker-castells, cabe a pergunta:

o mundo físico é plano [o lugar onde você está não importa...] ou cheio de picos [lugares onde o conhecimento, seus trabalhadores e os fluxos são mais, muito mais densos]?

é um ou outro ou os dois ao mesmo tempo? e em que intensidade e interações? em qualquer caso, o arranjo atual é estável? se não –agora, estamos indo para um mundo mais ou menos plano e que consequências isso teria para pessoas, empresas, cidades, regiões e oportunidades?…

perguntas, perguntas. em breve, por aqui, mais um capítulo desta novela.

Waldseemüller map

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domingo, 28 de setembro de 2008

inovação [pela hora da morte?...]

Tags:, , , , - srlm às 23:58

inovação, nos ensina peter drucker, é a única fonte de aumento [sustentado] de produtividade e esta, por sua vez, é a única maneira de sobreviver numa economia competitiva. muitos milhares de páginas têm sido escritos sobre o assunto nas últimas décadas e milhões de horas são gastos nas empresas, no mundo inteiro, na busca das melhores práticas pra garantir que a empresa saia de onde está para um lugar mais competitivo em sua cadeia de valor. e inovar, quase a qualquer custo, se transformou num mantra corporativo no mundo inteiro.

nakamats_water-inventor.jpgse você pensa que não há um método garantido para "inovar", esqueça suas crenças pregressas e vá ao encontro do dr. yoshiro nakamatsu, [ou "dr. nakamats"] de quem o guinness book of records diz que é o recorde mundial de patentes, cerca de 3.200. nakamatsu san ganhou o igNobel de 2005, tem uma análise de todas as suas refeições dos últimos 34 anos e pretende viver pelos próximos 64, pelo menos, o que significa não morrer antes dos 144.

método do "dr.", para garantir idéias, patentes e inovação permanente: mergulhar sem nenhum auxílio até que a morte chegue bem perto, munido de um sistema, que ele mesmo inventou, pra tomar notas debaixo d’água [veja foto deste texto]. segundo o japonês com quem a ibm tem uma relação continuada, as melhores idéias rolam meio segundo antes da morte certa. aí ele tem um surto de imaginação e "cria" alguma coisa, logo antes de morrer afogado… e a satisfação de fazê-lo o traz de volta à superfície. usando tal processo, muito pouco usual e provavelmente suicida [para qualquer mortal comum. inclusive ele], o doutor pretende chegar às 6.000 patentes em seu [longo, se tudo der certo] tempo de vida. mas não tente imitá-lo, em casa ou no trabalho, sem supervisão de adultos sãos. até porque o "método" nada tem a ver com inovação.

por que? porque inovação tem muito pouco a ver com patentes ou mergulhos suicidas [de qualquer tipo...] para ter "idéias": inovação é a mudança de comportamento de agentes, no mercado, como consumidores e/ou fornecedores de qualquer coisa. e mudar o modo de ver, sentir e estar tem pouco a ver com idéias e sim com a execução, premeditada e ao mesmo tempo imperfeita, porque sempre aprendendo, de estratégias que consideram as necessidades dos consumidores, a [nova] forma de atendê-las, os benefícios e custos envolvidos e a atitude da competição em relação ao que você está tentando fazer.

você pode até ter uma "idéia" genial usando um método como o do dr. nakamats ou qualquer outro tão idiota quanto. mas inovação não tem nada a ver com este tipo de pirotecnia. e pode, muito bem, ser transformada em processo e realizada por mortais comuns, dentro dos ambientes mais insuspeitos. é só ter objetivos, metas e métricas, criar [no seu negócio] a energia para mudar e mantê-la no ar, com processos e incentivos apropriados, que os resultados não demoram a aparecer. e estão aparecendo em todos os lugares que estão fazendo justamente isso.

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