Terra Magazine

terça-feira, 26 de abril de 2011

alta frequência nas redes sociais… piora suas notas?

Tags:, , , , , - srlm às 13:50

bem, não se sabe ao certo. mas é o que parece dizer um artigo de kirschner e karpinski publicado na revista acadêmica computers in human behavior. o artigo, cujo título é “faceBook and academic performance” diz logo na abertura que seus resultados…

…show that Facebook users reported having lower GPAs and
spend fewer hours per week studying than nonusers…

…mostram que usuários de faceBook relataram menores notas [GPA, grade point average, um coeficiente de rendimento escolar] e gastam menos horas por semana estudando.

o artigo considerou um pequeno grupo de alunos, americanos, e uma das conclusões é de que, entre os alunos que acreditam que faceBook pode causar um impacto em sua performance acadêmica [cerca de 25% da amostra], 75% indicam que este impacto é negativo, nas notas inclusive.

image

um dos principais efeitos do uso de faceBook [e provavelmente de outras redes de relacionamento, não consideradas no estudo] é o aumento do índice de procrastinação, com os alunos deixando para estudar depois de fazer “tudo” o que tinham que tratar com suas relações sociais [virtuais].

aqui pra nós, isso mostra que faceBook é o problema? não, não mostra. o problema pode ser que a escola –e as oportunidades de aprendizado que rolam por lá, para a vasta maioria dos alunos- deixou de ser interessante. aliás, disso se pode ter certeza; a escola não acompanhou a linguagem dos “alunos”, especialmente nestas últimas duas décadas de games e rede, de games em rede.

será que a escola não deveria usar isso a seu favor? sim, e é isso que os governos do rio de janeiro e pernambuco estão tentando fazer, e com resultados muito interessantes, usando uma plataforma de redes sociais para jogos interativos [uma olimpíada, online, de jogos e educação, uma rede social para “jogar” conteúdos do currículo escolar…] para trazer os alunos de volta para o “ambiente” escolar. ainda por cima, este experimento em grande escala já criou a joyStreet, um dos startups mais interessantes do portoDigital.

image

imagine que a escola transcenda prédios, práticas e processos seculares e adote –também- um novo ambiente e linguagem, se expandindo para ele, em rede. se houvesse cada vez mais ambiente e conteúdo educacional interessante e interativo, jogável e em redes sociais, será que não aprenderíamos muito mais, muito mais rápido?

esta é uma pesquisa acadêmica que deveria ser feita de imediato. os resultados, dado um ambiente que capturasse a imaginação dos aprendizes, quase certamente nos diriam que o problema apontado pelo estudo que citamos no começo deste texto é da escola… e não da rede social.

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

educação empreendedora: 3

Tags:, , , - srlm às 14:49

este post é parte de uma série sobre educação empreendedora, derivado de uma palestra dada no sebrae nacional, em brasilia, no 27 de janeiro passado. pode até ser que você entenda o texto que se segue sem ler os posts anteriores; mas os textos foram escritos como se fossem uma palestra, uma conversa, o que significa que há uma sequência, começo meio e, espero, um fim, uma conclusão que faça sentido.

o primeiro post da série está neste link… passe por lá, até para entender o preâmbulo e contexto desta conversa.

nesta série, antes deste texto: 1, 2; depois, nenhum, ainda. simbora.

. : . : . : .

no texto anterior, terminamos a conversa perguntando o que eram novos negócios inovadores de crescimento empreendedor, o que nos leva a considerar em que tipo de…

image

…tais empreendimentos acontecem. é bom notar que perguntamos que tipo de negócio "está" [ao invés de "é"] esse, para dar uma noção muito crítica da fluidez dos conceitos que definem ou se aplicam aos negócios num ambiente de redes de conhecimento como o que temos hoje.

desde há muito tempo, o cenário para qualquer tipo de empreendimento é o mercado; isso é aparentemente óbvio mas, incrivelmente, não parece ser levado em conta por um bom número de candidatos a empreendedor ou de agências de fomento [privadas e públicas] ao empreendedorismo. sem falar nos inúmeros centros de "inovação" que ainda pensam em "inovação tecnológica" como algo separado do mercado, um valor em si, e não de valor porque há, para tecnologias inovadoras, um lugar no mercado.

ao concordar que o mercado deve estar no centro de nossas preocupações empreendedoras, talvez fosse prudente definir o que é esse tal de mercado, hoje.

lá atrás, em 1999, quando a internet começou a afetar os negócios [hoje, e-commerce representa US$8 bilhões por dia só no mercado americano, quase US$10 trilhões por ano no mercado mundial...] um pequeno grupo de pessoas escreveu um conjunto de 95 teses sobre como seria [como estava começando a ser...] o mercado no mundo em rede.

tal conjunto de teses, reunido sob o nome…

image

…ganhou um site com a tradução das teses em muitas línguas, um livro e discussões sobre o assunto no mundo todo. e a razão muito é simples: cluetrain tem a simplicidade genuína e cativante dos conteúdos geniais; depois que se lê as teses, tudo parece óbvio e o leitor se pergunta como é que ele mesmo não escreveu aquilo, se é "tão simples", tão claro e tão útil, como sempre acontece com a maior parte descobertas geniais, depois de explicitadas. desde que as teses comemoraram dez anos, tenho conversado sobre o assunto com muita gente, em palestras e fora delas, no brasil. para minha surpresa, muita gente[digamos 75% da minha amostra informal...], incluindo profissionais de marketing e vendas online, nunca ouviu falar do assunto. em outras áreas [como gente que está em sistemas de informação na web, incluindo quem faz infraestrutura para negócios online] o desconhecimento das teses passa de 90%. pense num índice preocupante, a esta altura do campeonato…

as tres primeiras teses de cluetrain manifesto estão sumarizadas na idéia de que…

image

…são nada mais nada menos do que…

image

…que acontecem entre…

image

…e, se são pessoas que estão conversando, deveria ser óbvio [mas nem sempre é...] que tais transações interpessoais ocorrem em uma…

image

…que, como hão poderia deixar de ser… é…

image

o que deveria ser óbvio, não é?

é por isso que você e eu não toleramos conversas com "call centers". porque os humanos que estão nos atendendo, lá, são desumanizados por um script que as pessoas que nos atendem têm que obedecer e do qual não podem fugir. quando ligamos para um call center, estamos conversando com um script… e não com outra pessoa. claro que há exceções, mas a regra geral…

esta ideia-força de que "mercados são conversações entre pessoas, conduzidas em uma voz humana", explica também o sucesso das redes sociais [virtuais] e define porque as empresas [que são mercados, internos...] não conseguirão fugir à sua própria transformação em redes sociais.

este blog discutiu o assunto, intensamente, nesta série sobre redes sociais nas corporações e, se você estiver interessado no tema, vale a pena passar por lá.

amanhã, vamos discutir o que o mundo digital e as conexões e mobilidade intrínsecas desta nova infraestrutura para condução de negócios [e de resto, da vida na terra] tem a ver com esta história toda e com o nosso tema principal: os porquês, comos, ondes e muito mais de uma educação verdadeiramente empreendedora e seu impacto geográfico, social e econômico. até lá.

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

educação empreendedora: 2

este post é parte de uma série sobre educação empreendedora, derivado de uma palestra dada no sebrae nacional, em brasilia, no 27 de janeiro passado. pode até ser que você entenda o texto que se segue sem ler os posts anteriores; mas os textos foram escritos como se fossem uma palestra, uma conversa, o que significa que há uma sequência, começo meio e, espero, um fim, uma conclusão que faça sentido.

o primeiro post da série está neste link… passe por lá, até para entender o preâmbulo e contexto desta conversa.

nesta série, antes deste texto: 1; depois3. simbora.

. : . : . : .

se precisamos de uma combinação efetiva de educação e oportunidades de qualidade para criar esperança e as duas primeiras dificilmente ocorrem no vácuo… então… qual é o…

image

…na construção de um cenário sócio-econômico que leve à combinação de uma população empreendedora preparada para aproveitar as oportunidades que apareçam [naturalmente] ou sejam criadas [por ação dos instrumentos de políticas públicas]?

há quase uma década, tive a sorte de participar de uma longa conversa de craig barrett, então presidente da intel, com ministros da área estratégica, de desenvolvimento e economia do governo brasileiro. os ministros falavam de seus planos [a maioria nunca chegou ao papel, quanto mais sair dele...], perguntavam e vez por outra voltavam ao mesmo ponto: "por que a intel não abre uma fábrica de chips no brasil?" ao fim da reunião, resumi as múltiplas explicações de barrett, todas apontando para os deveres de casa que o brasil não estava conseguindo fazer, nem bem nem mal, em três frases que passaram a representar, para mim, quais são os papéis fundamentais do governo, qualquer que seja, e dos agentes de políticas públicas [como o sebrae].

o primeiro papel do governo é…

image

pelo que sabemos e esperamos, esta é a "década da educação" no brasil. o papel do governo federal será crucial neste quesito, pois o caos educacional nacional transcende, em muito, o velho bordão de "mais investimentos em educação". os sistemas nacionais de ensino –em todos os níveis- e seu acoplamento com as demandas humanas, econômicas e sociais precisam ser revisados e, em certos casos e regiões inteiras, completamente reimplementados.

a educação brasileira precisa sair dos "projetos-piloto" educacionais, para os quais temos prêmios internacionais em profusão, mas cuja implementação em escala nacional [ou estadual, que seja...] é uma confusão, isso quando há alguma tentativa de implementação. a educação fundamental, que é onde se ganha ou se perde os aprendizes quase de uma vez por todas, precisa ser resolvida de uma vez por todas, se esta vai ser mesmo a tal "década da educação".

e isso envolve mudanças radicais: como ter um ensino fundamental eficaz, minimamente coerente e eficiente se cabe a cada prefeito, em cada cidade, decidir o que e como ensinar aos muito jovens? isso quando, graças aos céus, se ensina alguma coisa. nunca deixei de ficar assustado ao encontrar alunos de pós-graduação [sim, eu disse pós!], na ufpe, cujo domínio da língua portuguesa lembra o dos semi-analfabetos do meu tempo de ginásio.

e as mudanças não param por aí e tem pouco a ver com o "hardware", os prédios e os laboratórios [e os recursos financeiros] para a educação. o nosso maior problema educacional em todos os níveis é o "software", o conteúdo, métodos e professores e instrutores, em sua quase totalidade despreparados para criar as oportunidades de aprendizado para o mundo competitivo em que nos encontramos hoje e em que viveremos pelos próximos séculos.

o país tem que escolher que futuro vai querer; tomara que esta escolha envolva mais e melhores conteúdos e práticas de lógica, matemática, computação, biologia, física e química para melhorar a qualidade de nosso peopleware, educando muito mais gente nos fundamentos para participar da economia do conhecimento como cidadão de primeira classe.

o segundo papel do governo e dos agentes de políticas públicas é…

image

…criar oportunidades de desenvolvimento pessoal, social, empreendedor e econômico, olhando para o futuro assim como dando conta das demandas complexas do presente e compensando o passado, trazendo para o mercado os que não tiveram, quando deveriam estar na escola, as oportunidades de aprendizado que deveriam ter tido.

parece complicado? é mais do que isso, é muito complexo [leia mais sobre o assunto neste link]. uma coisa é complicada quando temos uma boa possibilidade de convencer os atores e interessados de que algo deve ser feito mas não conseguimos estabelecer ao certo o que este "algo" deve ser. e uma coisa é complexa quando não estamos na zona de conforto nem das certezas sobre o que fazer nem tampouco na de possibilidade de acordo para fazer o que eventualmente se decida.

deixado por muito tempo ao sabor do tempo e do vento, um sistema complexo pode se tornar caótico e, quando isso acontece, é preciso muita energia e tempo para se trazer o processo de criação de oportunidades para uma região de média ou baixa complexidade. simples tal processo nunca é, pois a evolução de um mercado e seus agentes, especialmente em tempos de economia do conhecimento, é um processo essencialmente arriscado e inovador, cheio de perguntas [quase nunca feitas] sem respostas… que quando ocorrem, não são óbvias de maneira nenhuma.

se as pessoas estão sendo educadas e o processo de criação de oportunidades está em andamento, o próximo papel do estado é…

image

…o que é sempre muito mais delicado e complexo em sistemas políticos, sociais e econômicos como o nosso, consideradas nossas origens e tradições.

a tradição nacional dos poderes, em todas as facetas e níveis de governo, é a de promover e sustentar um "estado tutor", que não é nem forte nem fraco para as necessidades do país. trata-se de um estado intrusivo, disperso, difuso, ao mesmo tempo confuso e incoerente ao lidar com pessoas, instituições, empreendimentos e suas demandas e tempos.

se você acha que é difícil abrir uma empresa, tente fechar uma. o processo é quase kafkiano. se pensa que é difícil obter uma licença de construção, que tal tentar, depois de pronto o imóvel, tirar um "habite-se"? o prédio onde moro tenta há cinco anos… e, claro, o fato da prefeitura não conceder o habite-se não impede que todos moremos lá e que sejam cobrados todos os impostos.

o estado "na frente" [e não "à frente"] de tudo atrapalha muito mais do que ajuda; vai contra os processos de criação de oportunidades em maior qualidade e quantidade, inclusive as educacionais. o estado que legisla demais, sobre absolutamente tudo, inevitavelmente cria um sistema inconsistente de normas e regras que nos deixa, a todos, pessoas e empresas, de alguma forma ilegais. e isso, como não poderia deixar de ser, forma a base do processo de "criar dificuldades" para "vender facilidades".

sair da frente é simplificar o país. sair da frente é diminuir o "custo brasil". mas sair da frente não é deixar os agentes econômicos agirem ao seu bel prazer, e sim estabelecer limites, direitos e deveres e, depois, cobrar.

mas uma parte significativa dos órgãos de governo vem promovendo uma acelerada informatização do caos que pode travar o país em pouco tempo. sem simplificar o ordenamento ao qual estamos sujeitos, informatizar toda sua complexidade torna a vida das empresas e empreendedores muito mais difícil do que é suportável, principalmente para as pequenas empresas. e o resultado é a falta de competitividade das empresas nacionais no mercado internacional, isso quando elas sobrevivem à complexidade do processo de crescimento e se tornam, pelo menos localmente, sustentáveis.

mas… mais um congresso acaba de tomar posse e, mais uma vez, ouve-se vozes, aqui e ali, falando de reformas: política, fiscal, administrativa e muitas outras. em uníssono, qual manifestantes insatisfeitos com as condições para empreender e criar trabalho, emprego e renda no país, deveríamos clamar por um conjunto de reformas que simplificasse a vida nacional. aí, sim, mudaríamos de patamar competitivo e tudo, inclusive educar gente e criar oportunidades, seria mais fácil e menos caro.

daí…

image

…estaríamos bem mais perto de criar um…

image

…propício à…

image

image

como assim… novos negócios inovadores de crescimento empreendedor?…

image

…ou, ainda melhor…

image

…porque todo negócio, novo ou velho e como qualquer coisa em uma economia em rede, se tornou fluxo e está em estado de permanente mutação, afetado por todos os outros negócios e contextos ao seu redor, como o blog já discutiu nesta série sobre planos e picos no mundo real [em rede]. vá ler.

no próximo capitulo, vamos começar procurar respostas para esta pergunta, que talvez mais do que qualquer outra define a alma e essência dos negócios que têm mais chance de dar certo na economia dos nossos tempos. até lá.

Blogs que citam este Post

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

educação empreendedora: 1

Tags:, , - srlm às 09:10

passou janeiro, nem parece que começou o ano… até porque o carnaval vai ser lá em março, quase perto do são joão, mas tem gente, muita gente, trabalhando. como o sebrae, por exemplo. e eu tive a sorte de ser convidado para uma conversa com todos os novos superintendentes da instituição que, por variadas razões, sempre penso como o "serviço brasileiro de educação empreendedora", como se fosse sebraee, assim mesmo com dois "e" no fim da sigla. como aqui em pernambuco e de resto, no brasil, a pronúncia é muito mais pra sé-brái que para sê-braê… acho que minha interpretação não fica muito longe da realidade. até porque todo mundo com quem converso no sebrae entende que um dos principais papéis da instituição é mesmo o de ser a excelência e referência nacional em educação empreendedora.

pois bem. estive no sebrae nacional para uma palestra dia 27 de janeiro passado e vou tentar, nos próximos posts, escrever o que falei e parte do que ouvi, até porque um dia pensei em escrever um livro sobre este assunto e nunca tive tempo. dadas as liberdades de conteúdo e estilo aqui do blog, dá pra gente discutir a essência das coisas sem se preocupar com formalidades e detalhes. é bom dizer, antes de começar pra valer, que tudo o que vai ser escrito a seguir é de minha pena e responsabilidade. agradeço o sebrae o convite para fazer estas reflexões e espero que, ao torná-las públicas, esteja contribuindo para uma maior disseminação e entendimento do que vem a ser empreendedorismo, dentro de um contexto de inovação, no brasil.

no que se segue, vamos ver imagens correspondentes aos slides da palestra do 27 de janeiro passado, na sequência apresentada, comentadas como se eu tivesse escrevendo para um público mais amplo a palestra que fiz para o sebrae. como nunca tentei este formato antes, não sei se vai dar certo nem se vai ser útil, nem para mim nem para os leitores. mas quem não tenta só erra e esta não é a minha linha de negócios. feitas as salvaguardas, vamos simbora. 

links para os textos seguintes da série: 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17

. : . : . : .

o meu primeiro slide só tinha uma palavra:

image

porque estamos falando de empreendedorismo e todo bom empreendimento, toda boa empresa, é uma boa escola. e não há exceções. ao ponto em que o colaborador de um negócio qualquer deveria, pelo menos uma vez por semana, se perguntar o que aprendeu nos últimos 7, 14, 21 dias. se, vez após vez, a resposta for muito pouco ou [quase] nada, é hora de procurar algum lugar que, junto com seus colaboradores, esteja construindo o futuro. em quase todos os lugares onde não aprende nada, isso não ocorre porque não há problemas, mas porque certos tipos de cegueira cognitiva reinantes no empreendimento impedem que se faça as perguntas que, feitas, criariam as oportunidades de aprendizado para todos. e negócios onde não se aprende o tempo todo, em tempos de economia do conhecimento, estão a caminho do grande cemitério dos CNPJ…

o sebrae –como muitos outros agentes públicos e privados- é um empreendimento que busca melhorar as condições para que tantos quantos queiram empreendam, cada vez mais e melhor. cada um destes agentes é, essencialmente ,um negócio de educação. na verdade, se a economia é do conhecimento, todos os negócios, públicos e privados, são ou estão centrados em educação. se olharmos para a imagem abaixo…

image

…e levarmos em conta as últimas décadas da vida nacional… uma possível interpretação é que levamos um longo tempo para por em ordem um número de aspectos essenciais à existência ordenada do país. a ordem democrática e a ordem econômica são duas conquistas que não podemos minimizar de nenhuma forma, sob pena de, esquecendo o passado, comprometer o futuro. em tempos mais recentes, houve também um grande progresso na ordem social, trazendo para a cidadania um sem-número de indivíduos e famílias que viviam completamente à margem da sociedade. mas isso não basta.

depois de dar os primeiros passos na direção de um país sem sobressaltos em qualquer das outras ordens, é preciso fazer muito mais, é preciso fazer com que cada cidadão entenda seus direitos e deveres, suas escolhas e riscos, o valor de sua contribuição à nação, seu poder como pagador de impostos e eleitor. sem esquecer de sua potencial contribuição econômica, ainda mais como empreendedor de si mesmo em uma economia onde conhecimento em rede é cada vez mais o principal vetor de atividade.

não é a toa que vemos, no imaginário e voz de candidatos e governantes, frases como…

image

…ocorrem com frequência e importância cada vez maior. este slide, em particular, é a fusão de duas declarações [esta e esta] da então candidata dilma rousseff, ditas no segundo semestre de 2010. aqui, como nos EUA, no mais recente state of the union address do presidente de lá, educação está sendo tratada, pelo menos retoricamente, como a "prioridade das prioridades" e como o único seguro seguro contra os males que atacam países e povos menos afortunados, como a miséria física, espiritual e política.

parece que o brasil está entendendo, tardia mas finalmente, que chegamos num platô de performance, como país, do qual dificilmente sairemos sem um aumento significativo da quantidade de pessoas que tenham passado, com uma boa performance, por um sistema educacional de qualidade.

tais sistemas, e não por acaso, não "fabricam" conhecimento em série, qual linhas de produção da revolução industrial. para atender educandos em quantidade e qualidade para as demandas de um país complexo em um cenário internacional de competição sem fronteiras [ou quase], é preciso que o sistema educacional seja baseado em métodos e mecanismos de criação de oportunidades de aprendizado que só costumamos ver como exceção no nosso ambiente educacional.

para competir mais e melhor, e em muito mais cenários [estamos indo muito mal na cena industrial de maior sofisticação, por exemplo] é preciso mais e melhor educação. mas não só. educação pura e simples pode levar a um tipo peculiar e muito danoso de exclusão, se não for combinado com…

image

…oportunidade. porque expressão educação + oportunidade resulta em…

image

…que é algo mágico na vida das pessoas, comunidades e países.

imaginar um futuro [muito] melhor do que o presente [e o passado] e saber que [mesmo paulatinamente] estão sendo criadas as condições pessoais e contextuais para se chegar onde se quer é essencial para desarmar muitas das agruras, queixas e tensões do presente. ao contrário, quando "não se tem nada a perder" o resultado pessoal e social são os problemas que vemos em boa parte da juventude deseducada e sem oportunidades que temos na periferia de nossas cidades, onde a violência –às vezes pura e simples- destrói vidas e, talvez ainda pior, mais esperança… e mais vidas, ad infinitum.

a combinação de educação e oportunidade [de empreendimento, inclusive] é muito mais do que um macroprocesso social de negócios, comércio, serviço e indústria. é uma condição essencial para o desenvolvimento sustentado de qualquer tipo de sociedade, em qualquer época e lugar.

neste cenário, qual é o papel das políticas públicas e seus agentes?… isso é o que veremos no próximo capítulo, amanhã. até lá.

 

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

educação: distância afeta qualidade e resultado?

Tags:, , , , , - srlm às 08:00

semana passada rolou um evento muito legal na @unibh em belzonte, mediado por marcelo tas e com mozart neves ramos, paulo barone e eu mesmo na conversa. para ver o debate na íntegra, gravado ao vivo, sem cortes, é só clicar aqui. a coisa tem quase duas horas e aborda uma gama de temas e problemas educacionais, especialmente os que afetam a performance e a qualidade da escola e do ensino nacionais.

alguma hora a discussão passou pelas novas mediações tecnológicas para o processo educacional; digo novas porque educação é um processo histórico, amplo e social que sempre foi mediado por tecnologias de muitos tipos. sala de aula é tecnologia; "giz-e-cuspe" é tecnologia e linguagem, escrita e livros são tecnologia. foi aí que EAD [educação à distância] entrou no debate e discutimos o que a internet tem [ou não] a ver com a melhoria [ou não] do processo de criação de oportunidades de aprendizado [de forma contínua] que, como vocês poderão ver logo no começo do vídeo, é a minha posição sobre o que educação, se fosse bem feita, deveria ser.

deve-se dizer que não está claro, para muitos ou para quase todos os educadores, qual é o impacto de EAD [que deveria ser educação em rede, ou E2R] na vida dos aprendizes e de sua performance na escola e depois.

a minha tese é que todos os jovens [interprete "jovem" como gente que tem 25 anos ou menos, ou seja, nascidos de 1985 pra cá] já nasceram em rede. talvez sofram de um déficit de conectividade por razões várias, mas são conectados por definição e querem, ainda por cima, estar mais e muito melhor conectados. para esta galera, a rede, a web, as redes sociais, são ambientes naturais para fazer qualquer coisa, desde "ir ao banco" a "criar relacionamentos", passando por "aprender" ou, como dissemos anteriormente, "participar de processos educacionais".

pois bem: um estudo feito pela university of nebraska-lincoln acaba de descobrir que…

…college students participating in a new study on online courses said they felt less connected and had a smaller sense of classroom community than those who took the same classes in person — but that didnt keep online students from performing just as well as their in-person counterparts…

…os estudantes que fazem cursos [só] online se sentem menos conectados e têm um menor sentido comunitário do que seus colegas que fazem os mesmos cursos presencialmente; mas isso não significa que tenham níveis de performance acadêmica menor que a dos colegas de sala de aula.

diga-se de passagem, a vasta maioria dos atuais mecanismos de EAD não faz nenhum esforço para conectar os alunos através, por exemplo, de redes sociais [educacionais ou não]; tais ambientes quase sempre são salas de aulas virtuais e remotas, com pouca ou nenhuma possibilidade de interação extra-aula como parte do processo de aprendizado [e socialização], o que sem nenhuma dúvida leva os alunos "remotos" a uma percepção bastante real isolamento.

o problema a resolver não é o de como levar os estudantes de volta para a sala de aula, até porque os processos de aprendizado dos quais todos vamos ter que participar são, para sempre, contínuos… é como se jamais, daqui pra frente, fôssemos sair da escola. ocorre que a escola não está preparada para tal, nem mesmo [na quase totalidade] a que tem os tais cursos de EAD.

porque o que é preciso mesmo é implementar conjuntos de estratégias, processos, práticas e ambientes de E2R, a verdadeira educação em rede, que levem a processos continuados, conectados, interligados, esteja o aluno dentro ou fora da escola, seja durante ou depois de seu tempo de curso, que possam proporcionar oportunidades contextualizadas de aprendizado, desaprendizado e reaprendizado, de socialização e formação de comunidades, que é o que todos temos e teremos que fazer, o tempo todo, para continuar gerando o valor que nos mantém não só nos níveis de competência e performance de nós exigidos pela sociedade e economia mas, em última análise… sãos.

Blogs que citam este Post

sábado, 2 de outubro de 2010

se eu fosse candidato…

Tags:, , , , , - srlm às 09:56

minha plataforma seria muito simples, e trataria do papel do governo na sociedade. governar não é complicado; é complexo [veja a diferença aqui]e isso, na maioria dos casos, exige propostas que sejam resumidas de forma muito básica, elementar. talvez sejam difíceis de executar, mas devem ser mostradas e explicadas de forma absolutamente elementar.

minha plataforma de governo teria três pontos, apenas: 1. educar gente; 2. criar oportunidades e 3. sair da frente.

sair da frente não quer dizer deixar tudo ao léu [além de 1 e 2]; envolve regulação em mercados críticos, por exemplo, até por causa de dos itens 1 e 2 da proposta. mas olhe ao redor e veja que em quase todo lugar onde o governo –qualquer tipo de governo- tenta fazer bem mais do que estes tres fundamentos, a ineficácia e ineficiência tomam conta do pedaço e pode levar décadas, ou séculos, para que o lugar ache um rumo de novo. os exemplos estão por aí e são muitos.

ano passado, em novembro, participei do TEDxSP e dei um “talk”, como são chamadas as curtas [15 minutos] palestras do TED sobre o primeiro ponto da agenda. o vídeo da palestra acaba de ser publicado e você pode dar uma olhada clicando na imagem logo abaixo. com tantas eleições neste fim de semana, resolvi republicar aqui no blog. vai ver, um ou outro candidato acha que educação é importante e pode até ser que o meu “talk” ajude.

TEDxSP 2009 - Silvio Meira from TEDxSP on Vimeo.

em tempo: não sou [nem serei] candidato a nada, em lugar ou governo nenhum. mas sempre achei que devemos [todos] ajudar a construir políticas públicas, pois que são para todos, pagas pelos impostos de todos, resultado de escolhas políticas e estratégicas de quem está no poder. historicamente, as evidências mostram que se nós não influimos no processo, e de forma bastante objetiva e direta, não dá para esperar que o resultado seja o que nós iríamos querer que fosse… ou não?

Blogs que citam este Post

domingo, 10 de maio de 2009

uma olimpíada… de jogos educacionais online

Tags:, , , - srlm às 00:48

numa palestra recente para um importante sistema nacional de ensino, meu primeiro slide era uma pergunta quase óbvia nos nossos dias:

sera que os alunos fugiram

o segundo slide tinha a resposta, em uma única palavra, ocupando todo o gigantesco espaço de projeção no auditório:

sim vermelho sobre fundo preto

este é o estado da arte: em todo lugar, em todas as escolas, públicas e privadas, se os alunos tiverem, em casa ou na rua, a menor chance de estarem na rede e não na sala de aula, é online que iremos encontrá-los.

e não é sem motivo: a sala de aula ficou tão pra trás da realidade [virtual] em que vivemos que dá a impressão que só ficaremos lá se não houver nenhuma alternativa à disposição. pra completar, um grande número de iniciativas que deveria ajudar a reverter tal situação acaba levando pra rede uma filosofia, processos e métodos educacionais completamente desconectados do novo mundo, online, onde os alunos vivem. resultado? fracasso total.

a pergunta da hora é: será que dá pra fazer alguma coisa, online, na escola ou na rede escolar, que atraia alunos e professores para uma experiência lúdica, educacional, sem a chatice que os alunos [principalmente] vêem nos métodos, digamos, clássicos de educação? dá sim. quer ver um exemplo?

o sistema de educação pública de pernambuco está promovendo uma iniciativa pioneira: uma olimpíada de jogos educacionais, uma competição virtual entre times de estudantes que, apoiados por professores, irão desenvolver um trabalho colaborativo, criando estratégias de jogo e se articulando em atividades de resolução de problemas… participando de uma aventura virtual que levará as melhores equipes a uma competição final concorrendo a prêmios especiais vinculados à cultura digital.image

a olimpíada de jogos educacionais [OJE] é uma maratona de jogos online entre equipes [de seis a dez alunos] de escolas estaduais do ensino fundamental [oitava e nona séries] e médio, onde a diversão “esconde” o aprendizado e, além da motivação educacional, há prêmios para os vencedores. pense: jogue, se divirta, aprenda, apareça, forme rede com seus colegas e ainda ganhe um laptop. não tô nem tão velho assim, mas às vezes fico pensando porque é mesmo que não estou nascendo agora…

um dos jogos da OJE [serão doze, este ano] é imuno [veja a tela de entrada na imagem abaixo], onde você comanda uma nave que tenta salvar oswaldyr pontes, cuja vida não é lá muito saudável: nosso anti-herói é fumante, come muita gordura, não pratica exercícios, sofre de bronquite crônica e tem alto risco de ataque cardíaco…

image

imuno explora biologia, anatomia, imunologia, educação alimentar e comportamento. e é divertido. jogar em time é ainda mais divertido: todos constroem, juntos, a estratégia, os mais habilidosos jogam de fato [e ensinam os outros a jogar], o professor tira as dúvidas e ajuda o time. pena que não dá –ainda- pra você jogar; no momento, apenas os alunos pernambucanos inscritos na OJE vão ter acesso aos jogos da competição.

um outro jogo online da OJE é machina [tela do jogo na imagem abaixo], que explora, ao mesmo tempo, princípios de história, geografia e física clássica. pegue uma nave e vá atrás de objetos históricos numa escavação em algum lugar do planeta. e gaste pouco combustível e tempo, pois sua eficácia e eficiência são o que vão levar seu time para o topo da tabela da competição. não é você contra o jogo [veja o regulamento aqui]: é você e seu time, no jogo, contra todos os outros muitos times. isso pega, pode crer.

image

ainda estamos a cinco dias do fim das inscrições e mais de 2.200 times, de 337 escolas em 120 das 186 cidades de pernambuco já estão inscritos, atingindo quase 15.000 alunos da rede estadual. e esta é só a primeira rodada; a depender dos resultados e do marketing real e viral desta edição, podemos ter dez vezes mais alunos na OJE de 2010 em pernambuco, 150.000 de um total de 800.000 alunos.

a OJE é uma iniciativa da secretaria de educação do estado, que não está tendo medo de arriscar, cair na rede e tentar atrair a atenção dos alunos para processos de aprendizado que, queiramos ou não, serão cada vez mais digitais e em rede. a secretaria articulou o desenvolvimento e execução da OJE com o porto digital, arranjo produtivo local de TICs de pernambuco, situado no bairro do recife antigo, envolvendo uma rede empresas de jogos digitais, acrescida do cesar.edu [especialista em conteúdo e processos educacionais], fazendo com que os conceitos e capacidades locais em educação para o futuro e games contribuam para a melhoria do sistema educacional do estado.

mas não só: a iniciativa está sendo essencial para o aumento das competências técnicas e negociais locais em soluções, processos e jogos educacionais, e pelo menos um outro estado da federação e um grupo de escolas privadas já está interessado em ter uma OJE para seus alunos e professores. tomara. os alunos, tenho certeza, vão agradecer.

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

guerra por talento: a convocação da embraer

Tags:, , , - srlm às 12:22

embraer-asa-180.jpgsegunda passada a gente falou de gente em TICs, no mercado americano, onde mesmo depois do naufrágio de alguns grandes bancos de investimento a perspectiva de mercado de trabalho para profissionais de TICs continua muito boa. falta gente e os salários estão subindo. segunda mesmo saiu um texto no K@W [Not What, Not How, but Who? Western Companies Face a Worldwide Talent Crunch] sobre as dificuldades que as companhias ocidentais -muitas delas vivendo em mercados de crescimento exponencial, como certos nichos de TICs- estão tendo para contratar gente, principalmente gente senior, líderes de projeto com dez ou mais anos de experiência.

jim hemerling, da consultoria BCG [de san francisco], diz que dois fatores estão por trás da "guerra" por talento: a "significant aging of the workforce in North America, Europe and Japan… shrinking the supply of experienced people in developed markets", e o crescimento das "rapidly developing economies, or RDEs, driving up demand".

segundo hemerling, um de seus principais clientes diz que… "We used to worry about what to do from a strategy standpoint. Then we worried about how – operations. Now, in addition to strategy and operations, we worry about who. Who is going to be there to get the work done? In fact, our biggest challenge is not what, it’s not how — it’s who." ou seja, a preocupação principal das empresas deixou de ser o que ou como fazer e passou a ser com quem fazer. não há gente.

e isso não é só no setor de TICs. e o que as companhais estão fazendo? além de rodar o mundo atrás de gente, contratando para si e terceirizando com outros, entraram no setor educacional e estão formando seu próprio pessoal. este é o caso de companhias tão diversas como motorola, na índia e embraer, no brasil. aqui, a empresa que já fabricou quase 5.000 aeronaves [que voam em quase 80 países] começou a formar engenheiros para si própria desde 2001, em um programa de especialização dirigido a engenheiros recém-formados. de lá pra cá, cerca de 1000 engenheiros entraram no programa de especialização da embraer, feito em parceria com o ITA, e todos os 850 que já terminaram foram imediatamente contratados. outros 150 estão no pipeline, no momento, para atender a demanda por projetistas e construtores de tudo que entra na fabricação, manutenção e evolução de uma aeronave, inclusive [e muito] software.

1_legacy_600_cockpit_baixa-400.jpg

se você está afim de trabalhar com aerodinâmica, estruturas, comandos de vôo, aviônica, engenharia elétrica e eletrônica, software embarcado… tá na hora de se inscrever no processo seletivo da especialização da embraer. só há lugar pros cem melhores, as inscrições já começaram e vão até nove de novembro. e boa sorte.

 

Blogs que citam este Post

sábado, 23 de agosto de 2008

nosso [olímpico] apagão humano

Tags:, , , , - srlm às 18:46

"Vivemos um verdadeiro apagão humano. Esse é um tema que precisa ser discutido pelas empresas, fornecedores e universidades". a constatação é de wilson marques, da priceWaterhouseCoopers, feita na FGV-EAESP na sexta passada. segundo marques, que é sócio da área de BPO [business processing outsourcing, terceirização de processos de negócio] da PWC, a empresa tem que investir 2.000 horas para formar cada contratado, em governança e automação de processo e de negócios.

o apagão detectado por marques e pela PWC não é novidade e tampouco pontual: trata-se de um resultado construído por décadas de negligência no trato do que qualquer país tem de mais precioso, seu povo. nosso investimento em educação não passa nem perto da demanda nacional por quantidade e qualidade de engenheiros e, principalmente, técnicos. optamos pela educação fácil, nos cursos que não precisam de laboratórios, como se ainda fôssemos o país de bacharéis que um dia fomos [no império...]. e que talvez ainda sejamos, por não termos feito o que [para citar uns poucos] rússia, coréia, china e índia fizeram, atraindo seus jovens para as profissões que precisam de matemática, lógica, química e física, que resultam em formação que constrói as coisas, sistemas e serviços que compramos do mundo. resultado? marques [e o setor de software] não tem técnicos; e, quando consegue, tem que investir milhares de horas de educação, por contratado, para fazê-lo chegar no nível de exigência de suas empresas.

e as universidades, a quem marques apela? as melhores, olimpicamente, ignoram a demanda da realidade ao seu redor. usam o argumento de "formar com base, para o futuro", como desculpa para não dar aos seus alunos a combinação de formação teórico-prática de que o país e suas empresas precisam. sobre as piores escolas, há pouco a dizer. mas há as médias, entre as melhores e as piores, as que deveriam estar formando para empregabilidade, agora, no mercado de trabalho real onde o brasil pode ocupar um vasto espaço econômico no mundo. para estas, ao invés de se reclamar o cumprimento de um preceito difuso, do lado da oferta, de "indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão", os órgãos reguladores deveriam criar um mercado de escolas de formação para empregabilidade e cobrar-lhes resultados do lado da demanda. marques, a PWC e as empresas todas, com muita razão, querem pessoas que saibam, na prática, o que seus diplomas dizem que elas deveriam saber, em tese. ou seja, querem que o sistema de formação produza conteúdo e não diplomas.

street-dog.jpga frase de marques, quase no fim da olimpíada, é reforçada pela nossa, digamos, performance olímpica. lá em beijing, tendo que competir com o mundo [e não no pan, no rio, onde quase ninguém veio...] nossa equipe parece uma matilha de vira-latas, com as sempre raras e pouquíssimas exceções, os cielo, maggi, scheidt e muitos poucos outros. a grande exceção à regra é o vôlei, não por acaso resultado de um sistema de seleção, formação e preparação para criar resultados de classe mundial, que quando não chega no ouro [como as meninas, no sábado, e talvez os homens, neste domingo] está sempre lá, sempre competindo, contra tudo e todos, sem medo de cara feia, brigando pelo primeiro lugar. com rosto, expectativas, olhar, preparo e competências de mundo.

para resolver nosso apagão olímpico, precisamos melhorar o sistema de educação como um todo, descobrindo atletas lá na base, selecionando, treinando, criando oportunidades de competir com os melhores, em todos os lugares do mundo. para resolver nosso apagão humano, em tecnologias da informação e comunicação, a receita não é muito diferente: precisamos melhorar a formação de matemática na base da pirâmide; precisamos trazer lógica para o currículo, precisamos de laboratórios de física e quimica nas escolas, temos que universalizar o acesso a internet para alunos [na escola] e professores [nas suas casas, inclusive] e temos que tratar professores e alunos como o futuro da nação.

dia destes me pediram para contribuir para a feitura de um índice que medisse a qualidade da educação no brasil. a idéia era completar a frase "educação básica, no brasil, será um problema resolvido quando…" e meu complemento foi… "quando nenhuma professora primária no interior estiver ganhando menos do que um motorista de ônibus na capital". simples. porque todo mundo funciona dentro de um universo de incentivos. você pode até querer muito uma medalha olímpica e, mesmo sem um sistema, tornar-se um herói e conseguir uma, como o ouro de maggi. mas, sem sistema, como querer que atletas olímpicos que ganham salário mínimo [como a goleira da equipe feminina de futebol] estejam consistentemente no topo do mundo? eles precisam pagar contas, como todos nós. ela, a goleira, que é de recife e vive aqui, talvez possa se dar muito melhor [na vida] como motorista de ônibus [aqui, o piso é R$1.140]. talvez a minha frase sobre educação também valha para os atletas…

os vira-latas de beijing, resultado de acasos, sem apoio de um sistema estruturado para levar brasileiros aos pódios do mundo, tem um paralelo no mercado de trabalho: são muitos os brasileiros correndo atrás de trabalhos que existem, mas para os quais a larga maioria dos que têm diploma [e estes são muito poucos, em relação ao total] não têm o menor preparo prático, para a vida real. resultado? na olimpíada do mercado, que rola todo dia, dia e noite, no mundo, passamos ao largo do pódio do conhecimento e somos, cada vez mais, um país de commodities. como no império. e aí o negócio talvez seja, mesmo, formar bacharéis… e esquecer o trabalho e as medalhas.

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol