Terra Magazine

10.05.09

uma olimpíada… de jogos educacionais online

Tags:, , , - srlm às 00:48

numa palestra recente para um importante sistema nacional de ensino, meu primeiro slide era uma pergunta quase óbvia nos nossos dias:

sera que os alunos fugiram

o segundo slide tinha a resposta, em uma única palavra, ocupando todo o gigantesco espaço de projeção no auditório:

sim vermelho sobre fundo preto

este é o estado da arte: em todo lugar, em todas as escolas, públicas e privadas, se os alunos tiverem, em casa ou na rua, a menor chance de estarem na rede e não na sala de aula, é online que iremos encontrá-los.

e não é sem motivo: a sala de aula ficou tão pra trás da realidade [virtual] em que vivemos que dá a impressão que só ficaremos lá se não houver nenhuma alternativa à disposição. pra completar, um grande número de iniciativas que deveria ajudar a reverter tal situação acaba levando pra rede uma filosofia, processos e métodos educacionais completamente desconectados do novo mundo, online, onde os alunos vivem. resultado? fracasso total.

a pergunta da hora é: será que dá pra fazer alguma coisa, online, na escola ou na rede escolar, que atraia alunos e professores para uma experiência lúdica, educacional, sem a chatice que os alunos [principalmente] vêem nos métodos, digamos, clássicos de educação? dá sim. quer ver um exemplo?

o sistema de educação pública de pernambuco está promovendo uma iniciativa pioneira: uma olimpíada de jogos educacionais, uma competição virtual entre times de estudantes que, apoiados por professores, irão desenvolver um trabalho colaborativo, criando estratégias de jogo e se articulando em atividades de resolução de problemas… participando de uma aventura virtual que levará as melhores equipes a uma competição final concorrendo a prêmios especiais vinculados à cultura digital.image

a olimpíada de jogos educacionais [OJE] é uma maratona de jogos online entre equipes [de seis a dez alunos] de escolas estaduais do ensino fundamental [oitava e nona séries] e médio, onde a diversão “esconde” o aprendizado e, além da motivação educacional, há prêmios para os vencedores. pense: jogue, se divirta, aprenda, apareça, forme rede com seus colegas e ainda ganhe um laptop. não tô nem tão velho assim, mas às vezes fico pensando porque é mesmo que não estou nascendo agora…

um dos jogos da OJE [serão doze, este ano] é imuno [veja a tela de entrada na imagem abaixo], onde você comanda uma nave que tenta salvar oswaldyr pontes, cuja vida não é lá muito saudável: nosso anti-herói é fumante, come muita gordura, não pratica exercícios, sofre de bronquite crônica e tem alto risco de ataque cardíaco…

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imuno explora biologia, anatomia, imunologia, educação alimentar e comportamento. e é divertido. jogar em time é ainda mais divertido: todos constroem, juntos, a estratégia, os mais habilidosos jogam de fato [e ensinam os outros a jogar], o professor tira as dúvidas e ajuda o time. pena que não dá –ainda- pra você jogar; no momento, apenas os alunos pernambucanos inscritos na OJE vão ter acesso aos jogos da competição.

um outro jogo online da OJE é machina [tela do jogo na imagem abaixo], que explora, ao mesmo tempo, princípios de história, geografia e física clássica. pegue uma nave e vá atrás de objetos históricos numa escavação em algum lugar do planeta. e gaste pouco combustível e tempo, pois sua eficácia e eficiência são o que vão levar seu time para o topo da tabela da competição. não é você contra o jogo [veja o regulamento aqui]: é você e seu time, no jogo, contra todos os outros muitos times. isso pega, pode crer.

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ainda estamos a cinco dias do fim das inscrições e mais de 2.200 times, de 337 escolas em 120 das 186 cidades de pernambuco já estão inscritos, atingindo quase 15.000 alunos da rede estadual. e esta é só a primeira rodada; a depender dos resultados e do marketing real e viral desta edição, podemos ter dez vezes mais alunos na OJE de 2010 em pernambuco, 150.000 de um total de 800.000 alunos.

a OJE é uma iniciativa da secretaria de educação do estado, que não está tendo medo de arriscar, cair na rede e tentar atrair a atenção dos alunos para processos de aprendizado que, queiramos ou não, serão cada vez mais digitais e em rede. a secretaria articulou o desenvolvimento e execução da OJE com o porto digital, arranjo produtivo local de TICs de pernambuco, situado no bairro do recife antigo, envolvendo uma rede empresas de jogos digitais, acrescida do cesar.edu [especialista em conteúdo e processos educacionais], fazendo com que os conceitos e capacidades locais em educação para o futuro e games contribuam para a melhoria do sistema educacional do estado.

mas não só: a iniciativa está sendo essencial para o aumento das competências técnicas e negociais locais em soluções, processos e jogos educacionais, e pelo menos um outro estado da federação e um grupo de escolas privadas já está interessado em ter uma OJE para seus alunos e professores. tomara. os alunos, tenho certeza, vão agradecer.

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24.09.08

guerra por talento: a convocação da embraer

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embraer-asa-180.jpgsegunda passada a gente falou de gente em TICs, no mercado americano, onde mesmo depois do naufrágio de alguns grandes bancos de investimento a perspectiva de mercado de trabalho para profissionais de TICs continua muito boa. falta gente e os salários estão subindo. segunda mesmo saiu um texto no K@W [Not What, Not How, but Who? Western Companies Face a Worldwide Talent Crunch] sobre as dificuldades que as companhias ocidentais -muitas delas vivendo em mercados de crescimento exponencial, como certos nichos de TICs- estão tendo para contratar gente, principalmente gente senior, líderes de projeto com dez ou mais anos de experiência.

jim hemerling, da consultoria BCG [de san francisco], diz que dois fatores estão por trás da "guerra" por talento: a "significant aging of the workforce in North America, Europe and Japan… shrinking the supply of experienced people in developed markets", e o crescimento das "rapidly developing economies, or RDEs, driving up demand".

segundo hemerling, um de seus principais clientes diz que… "We used to worry about what to do from a strategy standpoint. Then we worried about how – operations. Now, in addition to strategy and operations, we worry about who. Who is going to be there to get the work done? In fact, our biggest challenge is not what, it’s not how — it’s who." ou seja, a preocupação principal das empresas deixou de ser o que ou como fazer e passou a ser com quem fazer. não há gente.

e isso não é só no setor de TICs. e o que as companhais estão fazendo? além de rodar o mundo atrás de gente, contratando para si e terceirizando com outros, entraram no setor educacional e estão formando seu próprio pessoal. este é o caso de companhias tão diversas como motorola, na índia e embraer, no brasil. aqui, a empresa que já fabricou quase 5.000 aeronaves [que voam em quase 80 países] começou a formar engenheiros para si própria desde 2001, em um programa de especialização dirigido a engenheiros recém-formados. de lá pra cá, cerca de 1000 engenheiros entraram no programa de especialização da embraer, feito em parceria com o ITA, e todos os 850 que já terminaram foram imediatamente contratados. outros 150 estão no pipeline, no momento, para atender a demanda por projetistas e construtores de tudo que entra na fabricação, manutenção e evolução de uma aeronave, inclusive [e muito] software.

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se você está afim de trabalhar com aerodinâmica, estruturas, comandos de vôo, aviônica, engenharia elétrica e eletrônica, software embarcado… tá na hora de se inscrever no processo seletivo da especialização da embraer. só há lugar pros cem melhores, as inscrições já começaram e vão até nove de novembro. e boa sorte.

 

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23.08.08

nosso [olímpico] apagão humano

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"Vivemos um verdadeiro apagão humano. Esse é um tema que precisa ser discutido pelas empresas, fornecedores e universidades". a constatação é de wilson marques, da priceWaterhouseCoopers, feita na FGV-EAESP na sexta passada. segundo marques, que é sócio da área de BPO [business processing outsourcing, terceirização de processos de negócio] da PWC, a empresa tem que investir 2.000 horas para formar cada contratado, em governança e automação de processo e de negócios.

o apagão detectado por marques e pela PWC não é novidade e tampouco pontual: trata-se de um resultado construído por décadas de negligência no trato do que qualquer país tem de mais precioso, seu povo. nosso investimento em educação não passa nem perto da demanda nacional por quantidade e qualidade de engenheiros e, principalmente, técnicos. optamos pela educação fácil, nos cursos que não precisam de laboratórios, como se ainda fôssemos o país de bacharéis que um dia fomos [no império...]. e que talvez ainda sejamos, por não termos feito o que [para citar uns poucos] rússia, coréia, china e índia fizeram, atraindo seus jovens para as profissões que precisam de matemática, lógica, química e física, que resultam em formação que constrói as coisas, sistemas e serviços que compramos do mundo. resultado? marques [e o setor de software] não tem técnicos; e, quando consegue, tem que investir milhares de horas de educação, por contratado, para fazê-lo chegar no nível de exigência de suas empresas.

e as universidades, a quem marques apela? as melhores, olimpicamente, ignoram a demanda da realidade ao seu redor. usam o argumento de "formar com base, para o futuro", como desculpa para não dar aos seus alunos a combinação de formação teórico-prática de que o país e suas empresas precisam. sobre as piores escolas, há pouco a dizer. mas há as médias, entre as melhores e as piores, as que deveriam estar formando para empregabilidade, agora, no mercado de trabalho real onde o brasil pode ocupar um vasto espaço econômico no mundo. para estas, ao invés de se reclamar o cumprimento de um preceito difuso, do lado da oferta, de "indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão", os órgãos reguladores deveriam criar um mercado de escolas de formação para empregabilidade e cobrar-lhes resultados do lado da demanda. marques, a PWC e as empresas todas, com muita razão, querem pessoas que saibam, na prática, o que seus diplomas dizem que elas deveriam saber, em tese. ou seja, querem que o sistema de formação produza conteúdo e não diplomas.

street-dog.jpga frase de marques, quase no fim da olimpíada, é reforçada pela nossa, digamos, performance olímpica. lá em beijing, tendo que competir com o mundo [e não no pan, no rio, onde quase ninguém veio...] nossa equipe parece uma matilha de vira-latas, com as sempre raras e pouquíssimas exceções, os cielo, maggi, scheidt e muitos poucos outros. a grande exceção à regra é o vôlei, não por acaso resultado de um sistema de seleção, formação e preparação para criar resultados de classe mundial, que quando não chega no ouro [como as meninas, no sábado, e talvez os homens, neste domingo] está sempre lá, sempre competindo, contra tudo e todos, sem medo de cara feia, brigando pelo primeiro lugar. com rosto, expectativas, olhar, preparo e competências de mundo.

para resolver nosso apagão olímpico, precisamos melhorar o sistema de educação como um todo, descobrindo atletas lá na base, selecionando, treinando, criando oportunidades de competir com os melhores, em todos os lugares do mundo. para resolver nosso apagão humano, em tecnologias da informação e comunicação, a receita não é muito diferente: precisamos melhorar a formação de matemática na base da pirâmide; precisamos trazer lógica para o currículo, precisamos de laboratórios de física e quimica nas escolas, temos que universalizar o acesso a internet para alunos [na escola] e professores [nas suas casas, inclusive] e temos que tratar professores e alunos como o futuro da nação.

dia destes me pediram para contribuir para a feitura de um índice que medisse a qualidade da educação no brasil. a idéia era completar a frase "educação básica, no brasil, será um problema resolvido quando…" e meu complemento foi… "quando nenhuma professora primária no interior estiver ganhando menos do que um motorista de ônibus na capital". simples. porque todo mundo funciona dentro de um universo de incentivos. você pode até querer muito uma medalha olímpica e, mesmo sem um sistema, tornar-se um herói e conseguir uma, como o ouro de maggi. mas, sem sistema, como querer que atletas olímpicos que ganham salário mínimo [como a goleira da equipe feminina de futebol] estejam consistentemente no topo do mundo? eles precisam pagar contas, como todos nós. ela, a goleira, que é de recife e vive aqui, talvez possa se dar muito melhor [na vida] como motorista de ônibus [aqui, o piso é R$1.140]. talvez a minha frase sobre educação também valha para os atletas…

os vira-latas de beijing, resultado de acasos, sem apoio de um sistema estruturado para levar brasileiros aos pódios do mundo, tem um paralelo no mercado de trabalho: são muitos os brasileiros correndo atrás de trabalhos que existem, mas para os quais a larga maioria dos que têm diploma [e estes são muito poucos, em relação ao total] não têm o menor preparo prático, para a vida real. resultado? na olimpíada do mercado, que rola todo dia, dia e noite, no mundo, passamos ao largo do pódio do conhecimento e somos, cada vez mais, um país de commodities. como no império. e aí o negócio talvez seja, mesmo, formar bacharéis… e esquecer o trabalho e as medalhas.

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