Terra Magazine

25.12.08

dez coisas que não estarão por aí em 2009

entre as muitas listas que se pode ler na rede no fim de ano, mike elgan escreveu uma que pode servir de aviso a muita gente que, no brasil, continua insistindo em imitar aqui o que estava dando certo no mundo, e isso muito depois de já ter dado errado lá fora. uma boa sugestão de natal a empreendedores desavisados, pois: leiam a lista de elgan.

por que? porque ela faz muito sentido, listando um número de negócios que não leva jeito de sobreviver à recessão. e isso pode economizar muito tempo e esforço de muitos candidatos a empreendedor. ao mesmo tempo, entender a lista e suas consequências pode gerar um bom conjunto de princípios para olhar o futuro e criar, para ele, negócios inovadores e sustentáveis.

qual é o decálogo de derrocadas de elgan? 1] suporte gratuito [0800 pilotado por humanos, em empresas de tecnologia]: em seu lugar, usuários, grupos e comunidades; 2] wi-fi pago: com menos dinheiro livre, as pessoas vão correr pra lugares que ofereçam wi-fi grátis, mesmo que seja mais lento [eu já fiz isso...]; 3] telefone fixo [e isso nos EUA]: os consumidores vão fugir de qualquer coisa que tenha custo fixo e utilidade duvidosa… e telefone fixo é uma delas [eu tô quase fazendo isso]; 4] lojas de locação de vídeo [nos EUA], substituídas por discos enviados pelo correio [à la netflix] e, em breve, por downloads pela rede [modelos equivalentes podem chegar no brasil mais rápido do que se pensa]; 5]companhias de web 2.0 sem plano de negócios: óbvio ululante. dá pra viver sem na abundância mas, em tempo de crise, é um dos princípios da seleção natural. elgan cita, diretamente, twitter. e eu concordo. eu acho twitter arretado mas… não vejo como eles vão recuperar o investimento. parece um bem público: é meu, seu, nosso, não-rival e não-excludente. twitter pode ter como –único- destino ser comprado por alguém muito grande, assim como aconteceu com youTube.

e a outra metade do que não vai sobreviver à recessão? 6] três quartos das companhias do vale do silício [começando pelas companhias de web 2.0 sem plano de negócios]: parte do processo de seleção natural e da sobrevivência dos mais aptos; 7] palm inc., apesar da injeção de US$100M por um fundo de investimentos que tem bono como um de seus líderes]; 8] yahoo, que deve se juntar ao cemitério de CNPJs onde já estão netscape, aol, napster e muitos outros; 9] metade das lojas [físicas] de varejo [nos EUA e na europa], cuja estrutura de custos e padrão de consumo está desalinhada com o estado da economia, mesmo sem crise. a recessão só vai acelerar sua substituição por varejo online [e isso vai rolar aqui no brasil, e rápido]; 10] rádio via satélite [nos EUA], por ineficiência do modelo de negócios e por falta de novos veículos, em grande quantidade, assinando o serviço.

a lista de elgan não foi escrita por um desavisado qualquer. e uma boa parte dela vale para o brasil. aqui, é impressionante o número de pessoas que está pensando em começar um negócio sem… plano de negócios. converso com uns cinco a dez deles por semana. sem falar na galera que acha que vai montar um negócio suportado por anúncios, sem nunca ter olhando para as economias de escala… talvez porque as contas mostrem claramente que modelos de negócio como ad-supported e freemium só dão certo para negócios online que atinjam grandes volumes de usuários, o que quase nunca é o caso das propostas de empreendimento do tipo me too que vemos no brasil.

se você está pensando em empreender [na rede ou não] nesta crise, dê a si mesmo um presente de natal, respondendo com cuidado esta outra lista de perguntas sobre seu negócio futuro: 1] que necessidades você vai atender? 2] de que forma elas vão ser atendidas? 3] quais são [para você e seu público, que inclui clientes, usuários investidores] os benefícios e os custos envolvidos no desenvolvimento e adoção de sua forma de atender as necessidades identificadas no item 1? 4] quem é a competição, agora e no futuro, incluindo a possibilidade da competição ser simplesmente as pessoas, mesmo não tendo nenhuma alternativa, não usarem [por qualquer razão] sua forma de resolver o problema?… 5] por último, mas não menos importante, como –no maior detalhe imaginável- seu negócio é remunerado, incluindo montagem da cadeia de receitas, agentes, comissões, taxas, impostos, margens…

sem ter tais respostas, empreender é sempre um grande risco, muito maior do que se você tiver conversas muito boas para responder estas cinco [classes de] perguntas. e, com muito menos dinheiro no mercado, correr atrás de investidores sem ter feito este dever de casa é tempo, precioso, perdido para nada. e vai tornar você [como empreendedor em potencial] a undécima coisa que não vai estar por aí em 2009.

por isso, se dê um presente de natal: não saia por aí falando que vai criar um negócio… saia sabendo o que fazer, para quem, como, com que benefícios e custos, como [exatamente, lembre-se] a coisa se paga, que investimento é preciso para se chegar lá e que retorno se pode esperar, e isso depois de entender, e muito bem, a competição em potencial. esta é a alma dos negócios que dão certo.

se você está achando difícil, potencialmente demorado e muito complexo, a única alternativa talvez seja acreditar em papai noel… feliz natal!

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10.12.08

prêmio finep de inovação: os ganhadores

o vice-presidente josé de alencar e o ministro de ciência e tecnologia, sérgio rezende, premiar os ganhadores do prêmio finep 2008. CITs, SciTech, instituto PALMAS, E3S, BRASILATA, e jaírton dupont [na categoria inventor]. você pode descobrir porque e o que eles ganharam neste link, que leva à página da finep. a cerimônia ocorreu no palácio do planalto hoje à tarde,

inovação está começando a se tornar coisa séria no brasil. este ano, os ganhadores das etapas regionais e nacionais do plano foram contemplados com financiamentos da finep que chegam a dez milhões de reais. se você e sua empresa estão envolvidos com inovação, fique atento: o edital do prêmio para 2009 deve estar na página da finep em março próximo.

se você e seu negócio não estão nem aí para inovação, comece a procurar emprego. sua empresa, em breve, vai estar no imenso cemitério de CNPJs para onde já foram todas as iniciativas que achavam que não havia, no mundo, uma imensa disputa por clientes e usuários, vencida sempre pelos mais aptos, como diria charles darwin. ou pelos mais inovadores, como dizemos hoje…

 

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14.10.08

novos negócios para economias em crise

mashable é um blog colaborativo focado em redes sociais que tem uma audiência não-trivial e uma influência idem. no fim de semana que passou, mark hopkins botou no ar, lá, uma lista de negócios que podem ter uma chance muito boa de dar certo em economias onde, digamos, a escassez de meios é bem maior que o normal. a lista não é exaustiva, foi pensada em termos da economia de países desenvolvidos… mas algumas das sugestões podem muito bem dar certo por aqui. até porque, no brasil, do ponto de vista de investimento [capital empreendedor], a escassez de meios é sempre muito maior [que a do silicon valley, por exemplo]. vamos à lista

1. espaços compartilhados para trabalho: como as empresas podem ter maior dificuldade em ter espaço próprio [e as pessoas podem ter menos recursos para se mover...], um bom negócio pode ser criar espaços compartilhados para trabalho, mesmo que sejam pequenos como office nomads. ao invés de trabalhar em casa, você pode trabalhar perto de casa, junto a pessoas que podem até estar trabalhando para a mesma empresa que você, o que evita grandes viagens dentro do trânsito caótico de grandes cidades. ainda por cima, cria-se a possibilidade de trabalhar em escritórios que estarão praticamente em toda grande cidade onde você for.  o principal problema a resolver, aqui, é de mudança de hábitos, de costumes de trabalho.

2. "bootstrapping": esta não é bem uma idéia de negócios, mas uma sugestão de como começar um. bootstrapping, do ponto de vista de negócios, quer dizer uma empresa criada e sustentada a partir de seu próprio processo de crescimento, sem a contribuição de mashicon1.pnginvestimentos externos. normalmente leva mais tempo para chegar onde se quer e se rala muito mais, mas há a vantagem de se criar uma coisa com a sua cara, sem investidores metendo o bedelho em tudo. como no brasil não há muitos investidores mesmo, a maioria dos negócios de todos os tipos, aqui, já é criada por bootstrapping mesmo. e acho que temos muita coisa a ensinar aos americanos e ao mundo neste capítulo. por outro lado, a principal perda é que, se seu investidor fosse competente, dedicado e experiente, não tê-lo a seu lado será uma grande perda para o negócio…

3. ferramentas de colaboração: mais gente vai estar em modo remoto no trabalho, seja em home office ou em co-working. em qualquer caso, ferramentas de colaboração muito melhores do que temos hoje serão essenciais. o detalhe é que, enquanto na europa, eua e ásia rica a infra-estrutura está pronta para suportar o trabalho remoto e as ferramentas mais sofisticadas, aqui, se você escolher esta linha de negócios, tem que levar em conta que não temos banda larga, mas o que poderíamos chamar de NAO, ou nearly always on. aquela "linha" que deixou de ser discada mas não é larga mesmo e que, ainda por cima, funciona quando a operadora quer. a alternativa é fazer daqui pro mundo, o que dá muito mais trabalho mas é possível… com muita sorte, dedicação, perseverança e um conjunto de idéias inovadoras e muito bem implementadas. boa sorte.

4. mercado de idéias: este eu não acho uma boa alternativa. o problema dos processos de inovação ou criação de negócios não são as idéias, que todo mundo tem aos montes, mas gente que tenha capacidade de empreendê-las. o inovador de verdade não é o nerd que fica atrás de uma mesa pensando e tirando patentes, mas o empreendedor que vai à luta e faz as idéias funcionarem, na prática, no mercado. e estes caras normalmente têm um monte de idéias próprias e uma grande paixão por elas e suas conseqüências práticas. mark hopkins tava meio dormindo quando botou este item na lista.

5. mercados de trabalho [virtuais]: isso aqui pode dar muito mais resultado do que o item anterior, até porque já há um número de mercados de trabalho virtuais funcionando pelo mundo afora. a idéia pode ser implementada em [ou a partir de] qualquer lugar, criando ambientes em rede onde pessoas põe competências à disposição e outras, que delas precisam, formam times virtuais e distribuídos  para entregar uma encomenda e que debandam após sua realização. processos e mecanismos de alocação e gestão do trabalho distribuído, de certificação de competências, de geração e distribuição de receitas, de reputação de fornecedores e consumidores serão absolutamente essenciais. algo me diz que as comunidades de software aberto têm muito a dizer e fazer sobre isso pois, à parte a remuneração, realizam seu trabalho de forma distribuída, assíncrona e virtual há tempos.

neste último caso, o futuro do trabalho pode depender muito de como tais mercados são criados e absorvidos pelos sistemas legais dos espaços que ainda costumamos chamar de países. com o tempo médio de residência em cada emprego caindo o tempo todo, cada vez mais gente terá que empreender a si próprio, e por muito tempo, talvez por toda a vida, como uma parte dos chamados "profissionais liberais" já faz, hoje. uma semana, você estaria com russos e indianos trabalhando num projeto austríaco. na seguinte, de férias em noronha. na terceira, com brasileiros, italianos e noruegueses resolvendo um rolo na islândia. sem sair de perto de casa, com ferramentas de colaboração da próxima geração, e ganhando tanto quanto a sua rede de reputação diz que você vale. e se qualificando pra mais, se quiser. quer vida melhor do que esta? crise, que crise?…

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02.10.08

nasdaq [e TICs] em tempo de crise

a temperatura da nasdaq, a bolsa onde são negociadas as ações das empresas de tecnologias de informação e comunicação, anda elevada. dia 30 de setembro, as ações google deram um tilt e chegaram a ser negociadas por US$250, o que foi depois atribuído a "ordens erradas" e expurgado do pregão. quando tudo vai mal, tudo fica ainda pior. o que mesmo está acontecendo no setor? nos últimos três meses, quando a crise financeira americana foi mesmo para o fundo do poço, a bolsa nasdaq caiu cerca de 10%. pra você comparar, a bovespa caiu 20% no mesmo período. apesar do que diz a propaganda governamental [e boa parte da mídia nacional], eles espirram por lá e a gente tem que se limpar por aqui. mas vamos voltar a tecnologia propriamente dita, olhando pro gráfico abaixo, cortesia de yahoo finance.

ss-20081001231239-acoes-tres-meses-ate-out-1.png.

a linha azul é google, que está em seu menor valor desde 2006, abaixo de US$400 e prometendo migrar para a linha de US$350; perdeu 22.5% em três meses [e vale perto da metade de seu pico]. recessão significa menos anúncios, no topo de todas as dúvidas que pairam sobre o modelo de negócios da companhia. a linha verde é a intel, com quase 15% a menos; recessão significa menos chips vendidos. a linha marrom é a própria nasdaq, com a depressão mais à direita no gráfico correspondendo ao dia em que o congresso americano não aprovou a proposta original para salvar as instituições financeiras. neste único dia, o valor que desapareceu das companhias de tecnologia foi de mais de US$110B.

a linha vermelha é a amazon, que sofreu em relação a agosto, quando valia 20% a mais do que hoje. aparentemente, mais recessão siginifca menos vendas [de livros, também]. a linha amarela, bem perto da perda zero, é a microsoft. significa que, crise ou não, a empresa venderá mais windows e office? não: quer dizer que a microsoft está muito bem estabelecida no mercado e que, mesmo depois das correções da economia, o mundo vai continuar funcionando. a empresa está na bolsa desde abril de 1986 e vale, hoje, 30.000% a mais do que no seu primeiro dia na nasdaq. a ibm, que já estava na bolsa quando a microsoft chegou, vale umas três vezes mais.

sobre a crise, ouça steve ballmer, o CEO de redmond: "We have a lot of business with the corporate sector as well as with the consumer sector and whatever happens economically will certainly effect itself on Microsoft… I think one has to anticipate that no company is immune to these issues… There are parts of our every business which are probably ’safe’ in the sense that it’s not like our business would go to zero… On the other hand, when businesses have less money -they can borrow less money, they can spend less money- that can’t be good." em suma? a economia afeta a microsoft; quando os negócios têm menos dinheiro e gastam menos, isso não pode ser bom para ninguém. até aqui em pindorama parece que tal análise tá pegando… inclusive na propaganda governamental.

no encantado mundo de google, por outro lado, eric schmidt, que toca o barco, diz que "o negócio continua como sempre", bem ao estilo da companhia e do silicon valley. mas… todo mundo concorda que a janela para IPOs, o primeiro lançamento de ações das companhias nas bolsas, tá fechada. e que vamos ter uma start-up depression, ou seja, quem tem investidor vai provavelmente perder se não estiver muito perto de se tornar negócio de verdade; quem está dizendo que já conseguiu um está muito provavelmente enganando a si mesmo e quem não tem… bem… que tal fazer um ótimo, ao invés de bom, plano de negócios? com um protótipo que já pareça muito com a coisa que vai vender antes de falar com os investidores e se preparar pra muita, mas muita conversa antes de ver qualquer dinheiro?

seja lá qual for seu caso, se anime: até agora, o mundo não acabou, tanto que a internet continua ligada e acessível. meu primeiro sinal de fim de mundo -ou da civilização como conhecemos- é a internet saindo do ar, razão pela qual sempre acho que meu provedor é o fim do mundo. mesmo que acabe, temporariamente, pra você, saiba que o empreendedor de verdade sempre tem cartas na manga, mesmo que use t-shirts. e veja uma lista de companhias que foram para o espaço no .bomb [em 2000/1] e o que seus empreendedores estão fazendo hoje. e confirme que o verdadeiro empreendedor sempre volta a empreender, como se empreendedorismo fosse um tipo, talvez incurável, de neurose.

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08.06.08

web 2.0 -> bolha 2.0?

Tags:, , , - srlm às 22:15

memes-web-20.jpg

pra quem está empreendendo [ou tentando entender] alguma coisa de web 2.0 no brasil, vale a pena ver o que aconteceu no debate sobre uma “bolha 2.0″ na TiECON East, resumido por don dodge aqui. a parte final da conclusão?…

MacroMyopia, the tendency to overestimate the short term impact, and underestimate the long term results, is evident today. It is similar to the hype cycle; a period of early hype, followed by disillusionment, followed by real payoffs and impact. It happens in every business cycle. The question is, where are we now in the cycle?

onde estamos no ciclo? na web 1.0, o brasil entrou no jogo com um atraso de anos. quando entrou, foi logo antes da bolha. e foram poucos os investidores e empreendedores nacionais que conseguiram  criar valor no longo prazo… porque a maioria dos investimentos apostava, como na conclusão de dodge, em retornos fantásticos no curto prazo. e os negócios de verdade são construídos no longo prazo.

vamos ver, desta vez, o que vai rolar por aqui. até agora, como se sabe, não aconteceu quase nada. o que é uma pena, pois há muita competência técnica e de negócios, descasada da capacidade de investimentos, também existente, que levaria os primeiros a criar valor de interesse dos últimos, dos clientes e da sociedade. pelo visto, estamos nos encontrando pouco, no brasil, pra falar de negócios 2.0…

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