Terra Magazine

quarta-feira, 27 de julho de 2011

TICs: software, produtividade e emprego

fato 1: sempre que o crescimento de um mercado passa a depender, linearmente, da existência de capital humano qualificado, irá surgir uma inovação que fará tal mercado independer do tal "capital humano qualificado".

exemplo: telefonistas. as centrais telefônicas manuais exigiam a presença de telefonistas para realização de ligações. com o crescimento exponencial do mercado de comunicação telefônica, ficou óbvio que não seria possível colocar quase toda a população para realizar as ações elementares que conectavam um telefone a outro. uma inovação radical, a central telefônica automática, praticamente eliminou o trabalho e, consequentemente, o emprego de telefonista.

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lembrete: as mudanças deste porte não acontecem de uma hora para outra, o que leva muita gente a pensar que não vão acontecer. e isso é usado como argumento contra o futuro e para criar uma pseudossegurança no presente. no começo do século XX, comentava-se na inglaterra que não demoraria muito para que a metade do país estivesse trabalhando como telefonista para conectar chamadas para a outra metade.

mas o sistema automático, que começou a ser criado em 1888 a partir de desconfianças de um agente funerário em kansas city [!], levou décadas para ser usado em larga escala. e as últimas centrais manuais, como a mostrada abaixo, só foram desativadas na década de 70 passada nos países mais ricos, e muito depois nos países em desenvolvimento. o centro de informática da UFPE tinha uma delas, funcionando perfeitamente, até a metade da década de 90.

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fato 2: tudo é software. a economia inteira –que é, cada vez mais, da informação e do conhecimento- está se estruturando sobre software. na camada inferior uma "torre de software", está a infraestrutura física, a eletrônica de computação, comunicação e controle que cuida da manipulação e logística da informação "fisica". acima dela, o software básico, como sistemas operacionais, bancos de dados… que fornece os serviços essenciais, os fundamentos para o desenvolvimento de aplicações, que é o software que realmente interessa às empresas, pois são o suporte essencial aos seus modelos de negócios. o que a "torre de internet" é para comunicações [e conectividade, lado esquerdo da figura abaixo], a "torre de software" é para aplicações que provêem as funcionalidades [de suporte aos processos de negócios].

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nenhum negócio faz ou usa software [ou capital de giro] "porque gosta", mas porque é essencial para seus processos de negócios, para suas estratégias e operações. mas o fato puro e simples é que, se "desligarmos" o software, quase toda a economia, como conhecemos, vai parar. dos sinais de trânsito aos meios de transporte, dos geradores de energia aos sistemas de transmissão, dos estúdios às televisões, passando pelos elevadores, relógios e, claro, celulares, computadores e a rede.

fato 3: a escassez de capital humano para realizar todas as ações da rede de valor de software é crítica e global. e não tem solução no curto ou médio prazo, a não ser treinar boa parte da população mundial para fazer software.

aqui é onde entra a "sindrome da escassez de telefonistas", na sua versão moderna. não há como imaginar que a metade da população vá escrever, manter e operar software e sistemas intensivos em software para a outra metade. porque há muito mais a fazer e porque, feitas as contas, é possível sistematizar e automatizar uma parte considerável do que, outrora, precisava ser feito por humanos [na economia de software e serviços intensivos em software] e, hoje, pode ser feito por… software.

e você perguntaria… como assim? assim: uma boa parte dos serviços de instalação, operação e manutenção de infraestruturas e sistemas de informação pode e está sendo automatizada. serviços que exigiam  humanos educados para realizá-los estão sendo automatizados à medida que são padronizados e se aprende como executá-los de forma cada vez mais sistemática. e quando se chega ao entendimento que a especialização de tais infraestruturas representa um custo adicional insuportável para a maioria dos negócios. logo, melhor usar o "padrão".

resultado? a previsão abaixo, do gartner group… [neste link].

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o que são os IT services, onde "vai desaparecer" 25% das horas de trabalho até 2015? são os serviços associados aos centros de processamento de dados [os "data centers"], os serviços de manutenção e suporte técnico das infraestruturas de computação e comunicação dos negócios, os serviços associados à computação em nuvem [ou "cloud computing"]. veja este cardápio da IBM sobre tais coisas.

o que diz o slide do gartner group? que a automação de tais serviços é iminente e vai comoditizar uma parte do trabalho, reduzindo os custos e fazendo desaparecer funções, trabalho e empregos. que firmas atuando no mercado de IT services estão desenvolvendo ferramentas de automação e que este processo está se acelerando, inclusive pelo aumento da pressão sobre os custos e a indisponibilidade de capital humano.

consequência? se você trabalha em "suporte" ou se sua empresa é de "suporte", ponha as barbas de molho. e faça isso se preparando para subir alguns degraus na escala de valor de conhecimento e prática na "torre de software", assim como deveriam ter feito as telefonistas e, em TICs, os digitadores, duas décadas atrás. a hora é agora. depois, quando acontecer, será tarde demais.

perguntas? sim, pelo menos uma: nesta tal "torre de software", há algum "lugar seguro", atemporal? sim, claro: aprenda a programar, bem, sobre fundações de algoritmos e estruturas de dados e uma boa noção de complexidade computacional. estas competências estão agora, e estarão, eternamente, em altíssima e bem remunerada demanda, até porque sempre precisaremos delas para transformar tudo ao redor em… software.

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

TICs: lá fora, mais de cem mil na rua. aqui, falta gente.

Tags:, , , , , - srlm às 00:38

techcrunch resolveu montar uma lista dos anúncios de demissões na indústria de tecnologias da informação e comunicação [e correlatas] baseada no mundo [ao alcance deles], e lançou o techcrunch layoff tracker, que dá conta [até o dia 10/12] de 280 eventos que causaram a demissão de mais de 104.000 pessoas, da last.fm [280 em londres] à nxp [4.500, na holanda], passando por companhias em israel, índia, canadá, ao redor da europa e por negócios como a xerox, que estão demitindo no mundo inteiro. a lista, aliás, é informal e imprecisa: as demissões da nxp, por exemplo, foram anunciadas na holanda mas estão rolando no mundo inteiro. as demissões de temporários e terceirizados e os 1.500 demitidos de yahoo ainda não estavam lá no dia 11/12.

no brasil, por outro lado, continua faltando gente. empresas de TICs, de norte a sul, têm vagas em aberto e não há gente, em qualidade e quantidade, para preenchê-las. esta talvez fosse uma excelente oportunidade para  o brasil desligar um pouco nossa xenofobia e incentivar a migração, para o país, de especialistas de fora. segundo a lista de techcrunch, cerca de 1.500 demissões foram anunciadas, nas últimas semanas, só em israel. e o mercado de trabalho, por lá, não tem uma elasticidade muito grande. a mesma coisa vale para muitos países europeus que enfrentam ondas de demissões, como a finlândia, onde apenas a nokia já demitiu 600 pessoas.

se o brasil tivesse uma política agressiva para capital humano, esta era a hora de atrair uma parte deste povo pra cá. são pessoas competentes, que falam inglês fluentemente [uma das principais deficiências do nosso capital humano], que fazem negócios pelo mundo inteiro [outra de nossas incompetências...] e que estão, a partir d’agora, atrás de uma boa oportunidade pra recomeçar suas vidas.

há uma crise radical no mundo, não há o que esconder. mas boa parte da solução, do futuro, vai vir de países emergentes como o nosso, que ainda têm muito o que fazer pra estarem prontos até para o presente, sem nem pensar no futuro. são dezenas de milhares de empresas sem informática competente; milhares de cidades sem internet ou celular; governos estaduais, municipais e parte do federal ainda sem a informática que deveriam ter… um país inteiro para construir, que continuaremos construindo na crise, como sempre fizemos. para isso, precisamos de gente.

e informática, hoje, está na base de tudo. de plantar feijão a lançar foguetes. é hora de uma política de vistos de trabalho e incentivos para trazer técnicos, engenheiros, pessoas de negócio, do mundo inteiro, prá cá. já fizemos isso antes e deu muito certo. não é à toa que comemoramos, este ano, os cem anos da presença japonesa no país. mas precisamos fazer mais, muito mais. trazer pessoas prontas, nas quais não investimos um centavo sequer em formação e capacitação, gente que está e vive no mundo, principalmente gente de TICs, para o brasil, agora, talvez seja a grande oportunidade do século. se soubéssemos fazer isso rápido, teríamos muito o que comemorar daqui a 100 anos.

 

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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

crise? que crise?

Tags:, , , , - srlm às 01:21

enquanto parte da indústria de tecnologias de informação e comunicação [TICs] avisa que a crise financeira pode muito bem afetar seus resultados, o que tem tido um impacto sobre o valor das empresas, parece que não há sinais de diminuição da demanda por capital humano competente em TICs.

é coisa pra se duvidar, já que o tamanho do socorro americano à indústria financeira de lá vai chegar perto de US$700B. e isso vai ser a maior conta pública de todos os tempos em qualquer país, guerras e desastres fora. a insolvência de wall street é da ordem de magnitude de uma grande guerra; a do iraque já custou aos cofres americanos perto de US$600B e as estimativas são de que poderá custar pelo menos três trilhões de dólares.

mesmo diante de um pipoco de tal ordem de magnitude, não há sinais de que o mercado de trabalho de TICs esteja sendo afetado, pelo menos até agora. um relatório publicado logo antes do fim do mundo, que foi notícia na AP, diz que "Overall technology employment is up in America and the wages associated with it are up",  segundo a forrester research. ou pelo menos o mercado de trabalho de TICs tinha esta cara no dia 5 de setembro.

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apesar da apreensão geral, não há sinais de mudança radical até agora. em boa parte, pode ser porque, apesar do menor número de bancos, por causa das fusões e aquisições em andamento, os reguladores americanos e mundiais quase certamente vão exigir maiores níveis de controle sobre as ações e instituições do setor financeiro.

e como todo negócio, hoje -e principalmente nos mercados de capitais- é software, vai ser preciso mais software e gente pra escrevê-lo e mais hardware pra rodar tudo e gente de suporte pra manter as coisas no ar. mesmo se alguém se encontrar no olho da rua, um analista do setor lembra que"if you’re really good in IT, you won’t be on the street for very long".

 

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