Terra Magazine

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a volta do "ciberespaço"

william hague é o equivalente do ministro de relações exteriores de sua majestade elizabeth II. lá, o nome literal do cargo é, simplesmente, o "secretário do estrangeiro". olhando do ponto de vista de mr. hague, o "estrangeiro" online está se transformando em um megaproblema.

ao ponto do governo inglês ter provocado e organizado a primeira grande conferência mundial de "segurança do ciberspaço". sim, ciberespaço, uma forma de nomear a internet que andava meio fora de moda. mas que pode fazer sentido, se a ótica for de que a internet –a rede- é a base para um ambiente que acontece sobre sua infraestrutura, serviços e aplicações. no topo desta tríade, rola um "espaço virtual", que interfere e se mistura com o concreto… e é este lugar que poderia ser denominado "ciberespaço".

o governo inglês quer que todos os outros países comecem a entender um bocado de coisas sobre a rede [ou o "ciberespaço"]  e sua segurança. avalia que ataques virtuais já custaram US$43 bilhões à economia da ilha e são a causa [direta] da falência de um fabricante de turbinas eólicas. por baixo do pano, diz-se que a culpa é da… sim, você adivinhou, da china. a coisa chegou a um ponto em se publica uma "matriz de retorno de investimento para crime virtual" que ser vista na imagem abaixo [para 2011], tirada deste relatório. e roubo de dados está lá, na crista da onda.

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segundo william hague, a conferência terminou com quatro mensagens bem claras para os governos: 1. seja lá qual for o país, o crescimento do crime virtual é uma ameaça séria para seus cidadãos e tratar este problema tem que deixar de ser uma atividade ocasional para se tornar parte das políticas, estratégias e operações de todos os países; 2. a internet não deve ser tratada como sendo propriedade dos governos e conter os problemas de segurança discutidos na conferência só vai ser possível trazendo para muito perto pessoas e instituições que estão fora do governo; 3. ataques virtuais incentivados ou apoiados por governos não interessam a ninguém no longo prazo e devem ser contidos imediatamente e 4. ignorar as forças da rede, que pedem e promovem mais transparência, abertura e intercâmbio, à guisa de tratar os problemas de segurança… é uma má ideia e vai dar errado.

hague ainda disse que a mensagem da conferência aos empreendedores e companhias é… continuem inovando; mantenham o fluxo de ideias e trabalhem junto com seus governos para salvaguardar propriedade intelectual e prevenir o crime virtual. para os indivíduos, o secretário inglês deixou claro que "este é o seu debate": sem as pessoas e sua participação, a rede não seria o espaço de expressão e diversidade de conteúdo e opinião global que é. e seu valor e importância seria muito menor. irrelevante, talvez.

um número de países não acha que deveria ser assim e está propondo, na ONU, um código de conduta global que chega perto de "relocalizar" a rede, como se a internet em cada país fosse a "sua" rede, para a qual valeriam controles geográficos e de fronteiras do começo do século passado.

joe biden, vice-presidente dos estados unidos, discorda:

"What citizens do online should not, as some have suggested, be decreed solely by groups of governments making decisions for them somewhere on high… No citizen of any country should be subject to a repressive global code when they send an email or post a comment to a news article. They should not be prevented from sharing their innovations with global consumers simply because they live across a national frontier. That is not how the internet should ever work in our view."

este embate faz parte do vai-e-vem da vida inteligente no planeta, nos eixos do espaço e tempo. toynbee já dizia que a civilização é um movimento e não uma condição, uma viagem e não um porto. por um tempo, pode ser possível "conter" as forças que se articulam na [e em] rede. pouco tempo. o tempo social, no entanto, é longo. esse "pouco" pode ser 50 anos. mas mais cedo ou mais tarde [pense daqui a cem ou, radicalize, mil anos] vai haver um só planeta, uma só civilização. com seus sotaques e costumes locais, claro. mas muitas coisas vão ser globais, como a grécia demonstra hoje em dia: pra ter a mesma moeda, tinha que ser a mesma economia.

na internet, ou no tal ciberespaço da conferência inglesa, pra fazer parte da mesma rede vamos ter todos que seguir os mesmos princípios, mais cedo ou mais tarde. de segurança, também.

mas não vai ser fácil. e vai ser preciso muito mais de uma conferência. esta pode não ter sido muito boa. ou um completo fracasso. e os princípios propostos por uns podem não ser aceitáveis por muitos. pode até ser que o reino unido tenha realizado tal encontro para se redimir de ter pensado em censurar a rede no quebra-quebra de londres. mas todos concordam que é preciso agir para garantir que todos vão ter acesso confiável e seguro à rede, tão livres de restrições e ataques quanto possível e que, sem uma ampla colaboração internacional, isso não vai acontecer.

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é muito provável que o cenário que queremos para o planeta seja o que o GBN e a rockfeller foundation descrevem como "clever together", ou todo mundo muito esperto, junto, o que quer dizer alta adaptabilidade e alto alinhamento político e econômico. travar a rede, criar restrições para o maior engenho de alinhamento e crescimento [em todos os sentidos] global, seja lá por qual razão for, não é um bom começo. tomara que nem tentem. e, se tentarem, aí é que vamos ter que nos alinhar e provar que valemos os links das redes que estamos construindo.

na rede, o problema é muito mais complexo e bem maior do que segurança. a imagem abaixo é um link para um relatório onde se discute os possíveis cenários para a internet em 2025, ou como vamos evoluir de uma rede de 2 bilhões de pessoas [e 3 trilhões de dólares anuais] hoje para 5 ou 6 bilhões de pessoas, lá, e todo um novo mundo pra se conectar e [re]descobrir.

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ciberespaço, internet, rede ou web, a história do virtual só está começando. e as decisões desta década terão impactos profundos nas próximas e todo cuidado é pouco. e o cuidado com a rede… tem que ser em rede.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

TICs, na década: mudanças e mais mudanças

olhe a imagem abaixo. leve em conta que o tempo corre da esquerda para a direita. a figura é deste post sobre as mudanças nas TICs [tecnologias da informação, comunicação] e suas aplicações neste século. olhe a imagem com calma. depois, abaixo, veja a continuação deste texto.

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a primeira observação é que todos nós tendemos a superestimar os efeitos das mudanças tecnológicas no curto prazo e a subestimá-las no longo prazo. este ditado é conhecido como a lei de amara e se aplica a muito da imagem acima.

no topo da figura, observe a transição [que já está acontecendo] entre GUI [graphical user interface, as interfaces gráficas das estações de trabalho da década de 80 e, depois, de MACs e PCs] e "touch", as interfaces baseadas em toque, nossas contemporâneas. "toque" não é necessariamente a última interface que usaremos, claro. o kinect e o começo das interfaces baseadas em gestos, e à distância, estão aí para provar isso. daí que vem a citação à lei de amara no parágrafo anterior.

ainda bem que o texto de onde vem a imagem, logo depois dela, começa a discutir a próxima meia década das mudanças em TICs e suas aplicações e não o próximo século. 

parte do resumo da conversa é que os usuários [inclusive os corporativos] querem aplicações de [ou intensivas em] TICs mais ceis [no sentido de simples de usar], veis [em todas as plataformas, em todos os lugares] e sociais, conectando todos os sistemas, pessoas e instituições. tem cara de brincadeira chamar tal tríade de famosos, mas vão acabar chamando.

e o problema mais interessante apontado pelo texto de dion hinchcliffe é a distância entre as aplicações e sistemas famosos e a atual capacidade das corporações de prover infraestruturas e serviços de informação. e o tamanho do desafio que as empresas enfrentarão para diminuir tal abismo.

muitos negócios não conseguirão fazer as mudanças necessárias a tempo. porque o "abismo informacional" entre o que existe e sistemas "famosos", para a maioria, é tão grande e –dentro do contexto clássico de TICs nos negócios- exige investimentos de tal porte que, para um grande número de empresas, não haverá capacidade de investimento para as novas demandas informacionais da cadeia de valor e, principalmente, dos usuários.

a parte crítica do parágrafo anterior é o dentro do contexto clássico de TICs nos negócios. coisas como achar que, como todo negócio depende muito de software, todo o software deve estar sob o comando e controle da empresa, como parte dos problemas de seu grupo de "tecnologia", como se diz no mercado. em um número de empresas isso quer dizer, inclusive, que o "social" está se tornando parte do problema da galera de "tecnologia"… o que pode ser um problema a mais, ao invés de uma solução.

os negócios do passado distante migraram de isolados para cadeias e, depois, para redes de valor. e as plataformas tecnológicas que servem de infraestrutura para os negócios terão que fazer o mesmo nesta década. e serão usadas como serviços essenciais entregues por provedores de informaticidade, de forma similar ao que acontece com outras "utilities" como eletricidade e comunicação. com alguma sorte, sem os monopólios naturais que causam tantos problemas nas infraestruturas clássicas de serviços públicos.

mas migrar os sistemas de informação empresariais para a "nuvem" resulta em muito menos do que se quer: primeiro, que os sistemas de informação empresariais estejam centrados nas pessoas, para representar um estado de coisas que já existe, em e na rede, há uma década. segundo, um passo decisivo para integrar as pessoas e coisas no mesmo ambiente. sem estratégia, planejamento e investimento para tal, os incumbentes de muitos mercados estarão criando espaços para novos e bem mais conectados competidores. pra ver do que estamos falando, veja o vídeo abaixo…

ericsson: a rede social das coisas [conectada a das pessoas...]

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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

livro vira serviço…

Tags:, , , , , - srlm às 11:08

…e enciclopédia também. a imagem abaixo é do "app" da encyclopaedia britannica no iPad, que tamém vai rolar em breve para iPhone e android.

[PTECH]

transformada em app, a britannica custará dois dólares por mês, contra US$70 por ano da versão web e meros US$1400 do impresso, se você quiser ter um na sua estante. e isso se, num futuro próximo, sua casa ainda tiver uma estante.

a wikipedia, como se sabe, é grátis. e tem dezenas de apps pelas quais podemos interagir com seu conteúdo. em relação aos 144.000 artigos da britannica em inglês, a wikipedia na mesma língua tem quase 3,7 milhões de textos, e não há comparação quando o domínio é atualidades: a wikipedia ganha longe, apesar de ser criticada por imprecisão e polarização. nada que crowd curation não resolva. e, enquanto houver uma economia da boa vontade em que uns poucos financiem o que quase todo mundo usa, vai continuar grátis.

a imagem acima é de um "mapa de links", as conexões entre o artigo que você está lendo e todos os outros itens que têm a ver com ele. os links, é óbvio, são para outros textos da britannica. este blog tem dito que o futuro do "livro", ou da literatura, é digital, interativo, estendido, conectado, em rede, compartilhado, como serviço. no mundo real [ou seja, fora e além da britannica] os links de um app de leitura como mostrado acima seriam para todo tipo de fonte "confiável" e "estável" em toda a rede.

estamos vendo apenas as primeiras gerações de tal mudança. a transição papel-kindle deu conta, no começo, apenas da transposição do analógico para o digital. o @author, também da amazon, criou uma ponte interativa entre leitor e autor. de repente, a amazon [jeff bezos, atrasado] conectou 11.000 bibliotecas americanas ao kindle: se você é membro de uma delas, pode tomar um livro emprestado via kindle, sem sair de casa. de repente, também, as bibliotecas estão deixando de precisar de estantes.

sony e barns&noble chegaram às bibliotecas antes da amazon. mas é o peso do maior negócio de vendas online do mundo que deverá mudar tudo mais rápido. os livros que você toma emprestado vão para o kindle, ficam lá pelo tempo do empréstimo, "voltam" para a biblioteca… mas suas anotações "ficam" na sua conta da amazon [e não no seu kindle] e aparecem de volta quando o livro, comprado ou emprestado de novo, "voltar" ao kindle.

não tenho certeza de que chegamos ao modelo de suporte à literatura digital que vai durar séculos, como foi o caso de gutenberg para o analógico. na nova economia da literatura, quase tudo é altamente experimental, a menos da digitalização propriamente dita e da óbvia transformação do conteúdo em serviço sobre múltiplas interfaces. ainda há muito a fazer e estamos longe [veja aqui] das fundações, formatos, funcionalidades, flexibilidade e facilidades que vão definir o futuro de longo prazo do livro digital.

mas que não reste dúvida: o futuro é digital, interativo, estendido, conectado, em rede, compartilhado, como serviço. só estamos tentando, errando e aprendendo para decidir "como"… e não mais "se".

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

TICs: software, produtividade e emprego

fato 1: sempre que o crescimento de um mercado passa a depender, linearmente, da existência de capital humano qualificado, irá surgir uma inovação que fará tal mercado independer do tal "capital humano qualificado".

exemplo: telefonistas. as centrais telefônicas manuais exigiam a presença de telefonistas para realização de ligações. com o crescimento exponencial do mercado de comunicação telefônica, ficou óbvio que não seria possível colocar quase toda a população para realizar as ações elementares que conectavam um telefone a outro. uma inovação radical, a central telefônica automática, praticamente eliminou o trabalho e, consequentemente, o emprego de telefonista.

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lembrete: as mudanças deste porte não acontecem de uma hora para outra, o que leva muita gente a pensar que não vão acontecer. e isso é usado como argumento contra o futuro e para criar uma pseudossegurança no presente. no começo do século XX, comentava-se na inglaterra que não demoraria muito para que a metade do país estivesse trabalhando como telefonista para conectar chamadas para a outra metade.

mas o sistema automático, que começou a ser criado em 1888 a partir de desconfianças de um agente funerário em kansas city [!], levou décadas para ser usado em larga escala. e as últimas centrais manuais, como a mostrada abaixo, só foram desativadas na década de 70 passada nos países mais ricos, e muito depois nos países em desenvolvimento. o centro de informática da UFPE tinha uma delas, funcionando perfeitamente, até a metade da década de 90.

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fato 2: tudo é software. a economia inteira –que é, cada vez mais, da informação e do conhecimento- está se estruturando sobre software. na camada inferior uma "torre de software", está a infraestrutura física, a eletrônica de computação, comunicação e controle que cuida da manipulação e logística da informação "fisica". acima dela, o software básico, como sistemas operacionais, bancos de dados… que fornece os serviços essenciais, os fundamentos para o desenvolvimento de aplicações, que é o software que realmente interessa às empresas, pois são o suporte essencial aos seus modelos de negócios. o que a "torre de internet" é para comunicações [e conectividade, lado esquerdo da figura abaixo], a "torre de software" é para aplicações que provêem as funcionalidades [de suporte aos processos de negócios].

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nenhum negócio faz ou usa software [ou capital de giro] "porque gosta", mas porque é essencial para seus processos de negócios, para suas estratégias e operações. mas o fato puro e simples é que, se "desligarmos" o software, quase toda a economia, como conhecemos, vai parar. dos sinais de trânsito aos meios de transporte, dos geradores de energia aos sistemas de transmissão, dos estúdios às televisões, passando pelos elevadores, relógios e, claro, celulares, computadores e a rede.

fato 3: a escassez de capital humano para realizar todas as ações da rede de valor de software é crítica e global. e não tem solução no curto ou médio prazo, a não ser treinar boa parte da população mundial para fazer software.

aqui é onde entra a "sindrome da escassez de telefonistas", na sua versão moderna. não há como imaginar que a metade da população vá escrever, manter e operar software e sistemas intensivos em software para a outra metade. porque há muito mais a fazer e porque, feitas as contas, é possível sistematizar e automatizar uma parte considerável do que, outrora, precisava ser feito por humanos [na economia de software e serviços intensivos em software] e, hoje, pode ser feito por… software.

e você perguntaria… como assim? assim: uma boa parte dos serviços de instalação, operação e manutenção de infraestruturas e sistemas de informação pode e está sendo automatizada. serviços que exigiam  humanos educados para realizá-los estão sendo automatizados à medida que são padronizados e se aprende como executá-los de forma cada vez mais sistemática. e quando se chega ao entendimento que a especialização de tais infraestruturas representa um custo adicional insuportável para a maioria dos negócios. logo, melhor usar o "padrão".

resultado? a previsão abaixo, do gartner group… [neste link].

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o que são os IT services, onde "vai desaparecer" 25% das horas de trabalho até 2015? são os serviços associados aos centros de processamento de dados [os "data centers"], os serviços de manutenção e suporte técnico das infraestruturas de computação e comunicação dos negócios, os serviços associados à computação em nuvem [ou "cloud computing"]. veja este cardápio da IBM sobre tais coisas.

o que diz o slide do gartner group? que a automação de tais serviços é iminente e vai comoditizar uma parte do trabalho, reduzindo os custos e fazendo desaparecer funções, trabalho e empregos. que firmas atuando no mercado de IT services estão desenvolvendo ferramentas de automação e que este processo está se acelerando, inclusive pelo aumento da pressão sobre os custos e a indisponibilidade de capital humano.

consequência? se você trabalha em "suporte" ou se sua empresa é de "suporte", ponha as barbas de molho. e faça isso se preparando para subir alguns degraus na escala de valor de conhecimento e prática na "torre de software", assim como deveriam ter feito as telefonistas e, em TICs, os digitadores, duas décadas atrás. a hora é agora. depois, quando acontecer, será tarde demais.

perguntas? sim, pelo menos uma: nesta tal "torre de software", há algum "lugar seguro", atemporal? sim, claro: aprenda a programar, bem, sobre fundações de algoritmos e estruturas de dados e uma boa noção de complexidade computacional. estas competências estão agora, e estarão, eternamente, em altíssima e bem remunerada demanda, até porque sempre precisaremos delas para transformar tudo ao redor em… software.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

internet: como aproveitar as grandes oportunidades?

dia destes o blog publicou um texto sobre o tamanho e o potencial da internet na economia, mostrando onde estamos e onde poderíamos chegar SE tivéssemos políticas, estratégias e determinação para tal, ao invés de, pura e simplesmente, conversas, manobras e desencontros.

o texto passado usou gráficos da mcKinsey publicados durante o e-G8 em paris e, logo depois, a consultoria internacional publicou o texto completo, Internet matters: The Net’s sweeping impact on growth, jobs, and prosperity, que vale a pena ler e guardar pra fazer comparações no futuro.

como já discutido aqui, avalia-se o tamanho da oportunidade da internet para países como o brasil olhando para um dos gráficos do relatório, justamente a imagem de sua chamada na web:

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a imagem acima diz que nos países onde a rede está bem estabelecida a contribuição da internet ao crescimento do PIB foi, em média, 21% nos cinco anos entre 2004 e 2009. nos BRIC, grupo em que estamos, onde ainda persiste todo tipo de problema para conectar pessoas, economia e sociedade, tal contribuição ficou em 3%, com o brasil ficando em apenas 2%.

o relatório, de 70 páginas, fornece evidências para apoiar grandes projetos nacionais de inclusão digital, intensa, em todos os níveis, de pessoas e negócios. veja esta…

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…mostrando que pequenos e médios negócios que atingem alta proficiência e intensidade de uso da web crescem e exportam duas vezes mais do que outros, menos competentes na rede.

ocorre que aqui no domínio .BR as coisas não estão como talvez devessem. olhem só o gráfico abaixo…

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…mostrando a correlação dos índices i4F, de intensidade e qualidade de capital humano, financeiro, infraestrutura e ambiente de negócios e supply, de intensidade de fornecimento, que indica se o país é mais pra fornecedor do que consumidor das tecnologias e serviços de rede. o brasil está lá no fundo do poço dos dois índices neste conjunto de treze países.

nada pra gente ficar se lamentando que aqui as coisas não andam, que o lugar não tem jeito e a choradeira de sempre. trata-se de entender a oportunidade, seu tamanho –mundial e não apenas local- e partir pra dar conta dela. o relatório da mcKinsey dá algumas pistas do que fazer, todas elas conhecidas há muito tempo por aqui, parte do grande diagnóstico nacional e raramente alvo de um conjunto de ações, profundas, financiadas e de longo prazo, que nos façam resolver parte considerável do problema.

falta gente: temos que educar mais e melhor; temos que fazer e, mais cedo ou mais tarde, vamos fazer isso. só que esse “isso”, educar, leva tempo. até lá, mesmo que comecemos a educar mais e melhor agora, que tal trazer gente de fora? isso não faz mal, ao contrário do que muita gente pensa, até porque somos um país de imigrantes, no momento um monte dos quais ilegais, fugindo de seus problemas na américa latina para aproveitar a boa fase do brasil. por que não criamos condições para gente do mundo todo vir para cá, agora que precisamos de tanta gente, especialmente em TICs, e não há?…

temos poucos sistemas locais de inovação como o porto digital e o tecnopuc, focados em TICs: que tal criar mais e financiar muitos, inclusive os que existem, numa escala que os torne globalmente competentes? fora dos estados unidos, todo mundo fez e faz isso: inglaterra, coréia, espanha, china… e nossa política de parques tecnológicos é um vagalume. vez por outra acende. mas só muito vez por outra. ao invés dos bilhões de reais que deveríamos destinar para aglomerar competências tecnológicas e de negócios e aumentar a escala e alcance das empresas, nos contentamos com uma tal pequena empresa de base tecnológica que raramente atinge um estágio de maturidade que a torna economicamente interessante.

há pouco investimento em inovação e empreendedorismo em TICs: que tal ampliar os mecanismos de financiamento existentes e promover, em larga escala, o investimento privado? de risco, principalmente, em todos os degraus da escada de valor de criação e evolução de novos negócios inovadores de crescimento empreendedor? EUA, coréia, china, israel e, mais recentemente, inglaterra e chile estão fazendo isso. aliás, chega a ser constrangedor ver startups brasileiros sendo levados para o chile [veja isso aqui, startupchile.org, “…a program of the Chilean Government to attract world-class early stage entrepreneurs to start their businesses in Chile”]. dos 110 projetos de 28 países escolhidos pelos chilenos para 2011, 4 são brasileiros [e 13 são argentinos].

nossa infraestrutura é deficiente, disso sabemos há muito. vamos criar e operar, a sério e a longo prazo, políticas, estratégias e financiamentos para o setor privado resolver o problema?… o japão fez isso, há tempos, forçando a NTT, estatal, a sair de sua paralisia e agir pra não perder mercado. aqui, estamos tentando criar uma estatal para fazer o setor privado sair de seu sono eterno?… por outro lado, quando há evidências que o setor privado não pode dar conta do problema pois não há renda suficiente no mercado alvo, o estado tem mesmo que intervir e isso acontece até em países muito ricos como a suécia, onde o governo está investindo mais de meio bilhão de euros para oferecer alta conectividade a populações de áreas pouco densas.

finalmente, capital: empresas de tecnologia de informação e comunicação não são construídas com empréstimos, mas com investimentos inteligentes, que têm agenda, design, conectados a múltiplas redes de valor.  e isso tem que estar associado a muitas outras condições, como uma política de encomendas estratégicas, ao invés de compras governamentais [já falamos disso aqui]. esta é uma constatação global, não é algo que serve para o brasil ou países em desenvolvimento.

nem tudo está perdido. o que perdemos até aqui foram os primeiros 15 anos de negócios da economia das redes, da informação e do conhecimento. isso não deveria ser razão para não olharmos o futuro de forma curiosa, confiante e decidida. há 100 anos, china, japão, coréia, índia, israel, finlândia e mesmo EUA não existiam num cenário industrial global dominado por uns poucos países europeus. israel, então, não existia literalmente. e eles não chegaram onde estão por acaso. nós tampouco chegaremos em qualquer lugar relevante só dependendo de acasos.

mas podemos fazer mais, muito mais. e podemos começar já. ontem.

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PS: acima, uma sessão do conselho nacional de política industrial e comercial, em 1944. o conselho, cuja missão era desenhar o país do futuro, depois da guerra, teve vida curta: criado em 1944, fechou em 1945. mesmo assim, foi palco de grandes debates, protagonizados por roberto simonsen, eugênio gudin e muitos outros. mas foi só, ao fim e ao cabo, palco. e por pouco tempo.

pra desenhar um futuro no presente, de verdade, pro futuro, precisaremos de muito mais que palco. senão, mal comparando, ainda veremos um mário, sobrinho de roberto, inaugurando fábrica de alguma “cobra” do futuro daqui a 30 anos, como parte de uma reserva de mercado da época, como na foto abaixo, de 27 de julho de 1979.

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quinta-feira, 12 de maio de 2011

smartphones… em 2015 e depois

criar o futuro é muito mais fácil do que prever o futuro. dito popular nos mercados de tecnologia há décadas, esquecido vez por outra pelas casas especializadas em… previsões. mas, afinal, se não fizessem isso mesmo, apostar em futuros possíveis e prováveis, viveriam de que?

de todas as bolas de cristal que apontam para os futuros de tecnologias muitas, uma previsão em particular me chamou a atenção mês e meio atrás e, depois da compra de skype pela microsoft, busquei o link e fui ler de novo.

não é que a IDC, endereço de um dos mais respeitados grupos de analistas de mercado do planeta, está prevendo que windows phone 7 [8...] será o segundo sistema operacional móvel mais popular do planeta em meros quatro anos?…

pelo mostrado no gráfico abaixo, google dominaria o mercado por uma larga margem [o que parece óbvio], apple e RIM ficariam mais ou menos onde estão [e isso não é óbvio, pelo menos no caso de iOS], symbian [da nokia] desapareceria completamente [isso até eu acho que é óbvio] e a microsoft multiplicaria por quatro sua penetração no mercado de smartphones. o "resto", ou seja, todas as outras plataformas, teria menos de 5% do mercado daqui a quatro anos.

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o relatório é assinado por ramon t. llamas, william stofega, stephen d. drake e stacy k. crook só pra gente saber de quem cobrar se rolar alguma coisa muito diferente do histograma acima. ciosa, aliás, que não deve vir de uma análise trivial do mercado a ponto de transferir a participação da nokia pra microsoft, face a aliança recente entre as duas empresas. se bem que é isso que fica aparente na imagem acima, não é? muito dura, a vida dos futurologistas.

segundo a análise, foram vendidos 173.5 milhões de smartphones em 2009, 303.4 milhões [74.9% a mais] em 2010 e a previsão para 2011 é de 452.5 milhões de unidades, cerca de 50% a mais do que em 2010. em 2015, seriam 925.7 milhões de smartphones postos no mercado por todos os fabricantes. assumindo que um smartphone tem uma vida útil de [chute!] 24 meses, pouco mais, pouco menos, os 2 bilhões [arredondando...] de smarties rodando em 2015 teriam sido vendidos entre 2013 e 2015.

seria impossível a microsoft acertar o passo, criar as redes de valor [de fabricantes a desenvolvedores...] e sair de onde está para vice-líder [400 milhões de usuários] do mercado de smartphones, nestas condições? não. veja o texto anterior do blog sobre o que redmond anda comprando e articulando, como parte de sua estratégia. é difícil a microsoft chegar a 20% do mercado de smartphones em meros quatro anos? sim, e muito. vai dar um trabalho danado.

mas a empresa parte de mais de 80% de todos os usuários do planeta usando seus sistemas operacionais na vida privada e nas corporações. é quase um milagre [reverso] que tenha se embananado tanto no negócio de mobilidade a ponto de lançar e matar o KIN em dois meses e a custos bilionários. só mesmo uma empresa do porte da microsoft pode fazer uma besteira deste tamanho e sobreviver…

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…ainda por cima porque os KIN, que não tinham nada a ver com WP7, foram lançados logo depois do anúncio do novo sistema operacional móvel, em barcelona, ano passado. clique na imagem para ler um ótimo resumo de porque tudo deu errado.

mas uma coisa é certa: daqui a dez anos não haverá dez plataformas de software básico para mobilidade. cinco talvez ainda seja muito. é mais provável que sejam só três. pelas contas da IDC, 2015 mostra google e microsoft abrindo vantagem significativa sobre a competição. se você fosse futurologista deste negócio, quais seriam os três atores [ou sistemas] da sua aposta para 2020? e por que?…

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

novos tempos, novo trabalho, novos contratos?

uma das discussões mais importantes dos nossos tempos trata do trabalho, da formação, profissões, modos e lugares de trabalhar, empregos, carreiras e suas evoluções e de nosso envolvimento, reconhecimento e remuneração pelo trabalho realizado.

do ponto de vista dos negócios, também é muito importante o custo do trabalho e a complexidade do ambiente que cerca a criação e manutenção de postos de trabalho no país. ainda mais em um contexto onde a legislação trabalhista é considerada por muitos um dos maiores entraves ao empreendedorismo e à criação e evolução de negócios e empregos..

se os negócios consideram a legislação antiquada, caótica e cara, todos nós, candidados a empreendedor e trabalhador, deveríamos estar muito preocupados, pois quase certamente isso quer dizer que as empresas dificilmente hão de gerar, no país, tantos empregos quantos poderiam. será que o histograma abaixo, publicado aqui mesmo no blog há pouco tempo, não é uma das consequências disso? os dados mundiais mostram que as empresas nascentes brasileiras estão entre as que têm as menores expectativas de geração de emprego do planeta…

…e só 20% dos empreendedores em estágio inicial de construção de seus negócios, aqui, acha que vai criar 20 ou mais empregos. igual à zâmbia e bolívia. e metade da áfrica do sul, e menos da metade de chile e colômbia.

e isso quando se pode ver claramente que qualquer política nacional de desenvolvimento econômico e social tem que ser centrada na geração de postos de trabalho e, em particular, em postos de trabalho tão qualificados e de alta rentabilidade e remuneração quanto for possível.

o problema não se resolve nenhum país de nenhuma outra forma. veja este texto de andy grove, um dos fundadores da intel, sobre porque os estados unidos precisam, para voltar a crescer de forma produtiva, sustentada e inovadora, voltarem a ser uma “job-centric economy”.

para tal, há que se educar as pessoas, há que se criar oportunidades, as oportunidades devem ser de classe mundial e, para aproveitá-las, o mesmo deve ser verdade para a capacidade empreendedora resultante da educação, experiência e expectativa dos candidatos a empreendedor, lá no mercado.

dá pra pensar e agir nestes termos, numa economia do conhecimento onde não “desligamos os cérebros” ao sair do local de trabalho e responder emeio “da firma” fora dela pode configurar risco trabalhista para o empregador?

é bem capaz de não dar. talvez seja preciso reescrever as regras do jogo… e rapidamente, já enquanto estamos perdendo postos e oportunidades de trabalho para lugares que estão reinterpretando seus contratos e sistemas legais para dar conta de um novo tempo, muito mais simples e complexo ao mesmo tempo. e isso ao invés de ficarmos presos no [e reclamando do] complicado, no político e, muitas vezes, no caótico. para entender a diferença entre os cinco termos em negrito, vá ver este texto sobre o assunto, aqui mesmo do blog.

depois, assista o vídeo abaixo, parte de uma entrevista sobre trabalho [e os locais de trabalho] que o autor do blog deu para a HSM no ano passado.

a íntegra de outra entrevista [em texto] sobre o mesmo assunto, também para a HSM, está neste link e no link da imagem abaixo. boa leitura.

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segunda-feira, 28 de março de 2011

o voo, decifrado?

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uma das cenas mais intrigantes de blade runner, um dos maiores clássicos da ficção científica, é o "vôo da coruja". a coruja, claro, é um android, e abre a cena em que deckard [harrison ford] se encontra com rachael [sean young]. você pode conferir no vídeo abaixo.

o "voo da coruja": deckard se encontra com rachel em blade runner
por alguma –e misteriosa- razão, a platéia do filme [isso lá em 1982, e de lá pra cá] ficava pelo menos tão impressionada com a possibilidade de uma coruja "artifical" do que com os replicantes hiperdotados do filme de sir ridley scott. e muita gente ficou mais preocupado com a coruja –que voa, claro- do que com "meros humanóides"… tão parecidos conosco e, se tão fortes, tão frágeis, pois de tempo de vida limitadíssimo.

pois: a festo, uma empresa alemã, anunciou recentemente uma "gaivota artificial" que replica, literalmente, o voo de uma herring gull.  você pode conferir o vídeo da coisa voando abaixo…

festo smartBird: um dos primeiros "pássaros artificiais"…

…onde a empresa não brinca em serviço e diz que sua gaivota artificial "decodifica o voo" dos pássaros, um dos objetivos da humanidade há milênios. sem jogar tanto confete, o fato é que o smartBird da festo decola, voa e pousa sozinho. ainda é, basicamente, uma obra de engenharia mecatrônica e tem pouca capacidade de percepção e processamento, digamos, onboard..

mas imagine, partindo deste ponto, onde se pode chegar. veja o vídeo de novo e pense nas possibilidades das próximas gerações da gaivota e outros replicantes dentro de oito anos, já que blade runner se dava logo ali, em 2019. e radicalize: e daqui a vinte, trinta, cinquenta anos?…

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

o futuro nunca se engana

a conversa com gariel dudziak, já rendeu um texto, aqui, sobre a transição da internet “quando possível” para “comigo o tempo todo”, outro sobre cloud computing se tornando o padrão de informatização dos negócios mais um sobre o uso da internet nas eleições de 2010… e ainda outro sobre alcance das mídias sociais e nossa privacidade, nelas.

gabriel também tinha uma pergunta sobre propriedade intelectual, assunto que este blog já tratou em muitas outras ocasiões e para o que, face à chegada de –literalmente- montanhas de leitores digitais no mercado, devêssemos chamar atenção de um texto específico, de mais de um ano atrás, sobre pirataria na literatura. vá ler.

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era exatamente sobre isso que gabriel queria conversar: Brevemente, qual é a sua visão sobre a difícil questão dos direitos autorais e livre acesso a informações e conteúdos na internet?

eu não mudei de opinião em relação a textos anteriores deste blog; clique neste link, da tag “pirataria”, para ter acesso a vários deles. aliás, não há, no cenário, nenhuma novidade que exija qualquer mudança de opinião no momento… e a minha é que…

…Estamos num período de transição, onde a base tecnológica do suporte ao conteúdo ainda está mudando; o impacto sobre os livros, por exemplo, mal começou.

Em tempos como este, não podemos simplesmente querer proteger o passado a qualquer custo, pois tal sempre se mostrou impossível.

Seria como se ainda ouvíssemos música em grafonolas (introduzidas no mercado em 1907) porque seus fabricantes teriam conseguido impedir a chegada dos discos de 78RPM… do LP… do CD… e depois do MP3.

Dado que ciência e tecnologia são -digamos assim- formas de expressão humana e, como tal, livres, cada um pode propor o que quiser, é exatamente isso que vai rolar.

Meu chute é que passaremos de um modelo de propriedade física do container da expressão cultural (o livro, o CD, o DVD, o mp3…) para assinantes de um serviço que provê tais conteúdos no tempo e espaço, em modelos variados de catálogo, qualidade, disponibilidade… mas ainda há um longo caminho até lá.

As viúvas do "disco" e, em breve, as do "livro", assim como as do "vídeo", ainda vão lutar muito -e com toda a razão- para preservar suas preciosas fontes de receita.

Mas é uma questão de tempo. Como dizia Machado de Assis, o futuro sempre chega, e ele nunca se engana.

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domingo, 11 de abril de 2010

o futuro, os jovens, a política e o capital em rede

Tags:, , , , , , - srlm às 11:24

“a política, quando realmente nos inspira, oferece uma nova visão do futuro”. a frase abre a introdução do relatório “To tackle the challenges of tomorrow, young people need political capital today…” [ou AN ANATOMY OF YOUTH], escrito por celia hannon e charlie tims para a demos, com a participação de gente como danah boyd e zygmunt bauman [de quem você pode ver uma entrevista a maria lúcia garcia pallares-burke neste link].

o que o relatório tenta descobrir é como os jovens britânicos [12% da população do reino unido, em 2007, tinha entre 16 e 24 anos de idade] querem e podem da vida e o que farão do futuro, num país onde, daqui a duas décadas, os maiores de 65 anos serão duas vezes mais, em número, que os “jovens”.

no brasil, costumamos pensar que não temos este problema; mas nossa população começa a envelhecer rapidamente e a pirâmide populacional dos anos oitenta [vermelho, abaixo] já mostra, hoje [laranja, abaixo], uma “barriga” de idade que vai nos levar a uma situação similar a dos países mais desenvolvidos do ponto de vista de distribuição etária da população. o que não deveria ser nenhuma surpresa, já que estamos simplesmente, no tempo, copiando seus modelos de desenvolvimento e evolução social.

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dentro de muito pouco tempo [ou agora?…] o que teremos que gastar para prover os aposentados estará minando, seriamente, os investimentos públicos que seriam necessários para garantir mais e melhores possibilidades de futuro para os jovens. mas isso é outra história; o interesse do blog se volta para os capítulos do estudo que tratam da juventude em rede. em “owning a digital identity”, danah boyd observa que…

Privacy is not dead among teenagers, but it is being realigned. Historically, young people had to go out of their way to make something public; spreading rumours widely was possible but not always easy. Today, sharing publicly is often the default. Instead of thinking about what to make public, today’s teenagers think about what to make private.

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o mesmo parace ser verdade também no brasil: ao invés de considerar o que compartilhar, o que está em discussão entre os jovens é o que manter privado; o “novo” padrão, para os “jovens” é compartilhar tudo. isso muda muita coisa e tem impactos de porte na [por exemplo] atitude em relação à disponibilidade e uso de mídia na web. desde que a rede é rede, os “jovens” sabem que copiar arquivos protegidos por copyright, sem licença, é ilegal, [88%, neste estudo de 2004…] mas não estão nem aí pra isso: no mesmo reino unido desta discussão, dois terços dos jovens copia música da rede, todo dia.

o governo [britânico, e muitos outros] vai tentar apertar com mais legislação punindo download ilegal… mas o efeito será nulo, porque ídolos dos “jovens”, eles próprios jovens como liam gallagher, ex-oasis, saem dizendo [sexta passada] que “não estou nem aí pra cópia ilegal de música online” e, logo depois, liga a metralhadora giratória contra seus pares que reclamam disso, usando a linguagem do seu tempo de “jovem”:

“Downloading’s the same as what I used to do – I used to tape the charts of the songs I liked [off the radio]. I don’t mind it. I hate all these big, silly rock stars who moan – at least they’re fuckin’ downloading your music, you c*nt, and paying attention, know what I mean?”

attention. atenção. será que todos os autores e donos de copyright estão prestando atenção e entendendo o que gallagher está dizendo?

atenção era o que deveríamos prestar, todos, também, à abertura do texto de zygmunt bauman no capítulo sobre “belonging to changing communities”, do relatório, onde o filósofo do tempo e da modernidade “líquidas” alerta:

Young people emanate anxiety, restlessness and impatience as they confront an apparent abundance of chances, and the fear of overlooking or missing the best among them. Idols to watch and fashions to follow are as profuse as they are short-lived. Chances pop up and disappear with little or no warning, and the rules of the game are changed before the player had time to finish.

ou… os jovens emanam ansiedade, desassossego e impaciência à medida que confrontam uma aparente abundância de oportunidades e têm medo de deixar passar ou perder as melhores entre elas. ídolos e modas, a seguir e usar, existem em tanta profusão quanto em brevidade. alternativas surgem e desaparecem com pouco ou nenhum aviso e as regras do jogo mudam antes mesmo que o jogador tenha tempo de chegar no último nível.

resumo? nunca antes [mesmo!] na nossa história nenhuma infraestrutura tecnológica, de negócios, usos e costumes evoluiu tão rapidamente como a internet e a web. e não foi por causa de lula ou de um governo do PT, claro.

tentar prender a fluidez deste nosso tempo em regras de uma outra era é causa perdida e esforço jogado fora, porque a velocidade da mudança só tende a aumentar, tanto no que diz respeito a coisas tópicas [e irrelevantes, no contexto mais amplo] como downloads ilegais quanto nos mecanismos de participação de mais gente, e muita gente jovem, nas definições do que o planeta, e suas economias e sociedades, serão.

é só questão de tempo, o pouco tempo entre o agora e quando os jovens descobrirem o capital político que detêm num mundo em rede. por sinal, vêm aí as eleições…

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