Terra Magazine

12.12.08

TICs: lá fora, mais de cem mil na rua. aqui, falta gente.

Tags:, , , , , - srlm às 00:38

techcrunch resolveu montar uma lista dos anúncios de demissões na indústria de tecnologias da informação e comunicação [e correlatas] baseada no mundo [ao alcance deles], e lançou o techcrunch layoff tracker, que dá conta [até o dia 10/12] de 280 eventos que causaram a demissão de mais de 104.000 pessoas, da last.fm [280 em londres] à nxp [4.500, na holanda], passando por companhias em israel, índia, canadá, ao redor da europa e por negócios como a xerox, que estão demitindo no mundo inteiro. a lista, aliás, é informal e imprecisa: as demissões da nxp, por exemplo, foram anunciadas na holanda mas estão rolando no mundo inteiro. as demissões de temporários e terceirizados e os 1.500 demitidos de yahoo ainda não estavam lá no dia 11/12.

no brasil, por outro lado, continua faltando gente. empresas de TICs, de norte a sul, têm vagas em aberto e não há gente, em qualidade e quantidade, para preenchê-las. esta talvez fosse uma excelente oportunidade para  o brasil desligar um pouco nossa xenofobia e incentivar a migração, para o país, de especialistas de fora. segundo a lista de techcrunch, cerca de 1.500 demissões foram anunciadas, nas últimas semanas, só em israel. e o mercado de trabalho, por lá, não tem uma elasticidade muito grande. a mesma coisa vale para muitos países europeus que enfrentam ondas de demissões, como a finlândia, onde apenas a nokia já demitiu 600 pessoas.

se o brasil tivesse uma política agressiva para capital humano, esta era a hora de atrair uma parte deste povo pra cá. são pessoas competentes, que falam inglês fluentemente [uma das principais deficiências do nosso capital humano], que fazem negócios pelo mundo inteiro [outra de nossas incompetências...] e que estão, a partir d’agora, atrás de uma boa oportunidade pra recomeçar suas vidas.

há uma crise radical no mundo, não há o que esconder. mas boa parte da solução, do futuro, vai vir de países emergentes como o nosso, que ainda têm muito o que fazer pra estarem prontos até para o presente, sem nem pensar no futuro. são dezenas de milhares de empresas sem informática competente; milhares de cidades sem internet ou celular; governos estaduais, municipais e parte do federal ainda sem a informática que deveriam ter… um país inteiro para construir, que continuaremos construindo na crise, como sempre fizemos. para isso, precisamos de gente.

e informática, hoje, está na base de tudo. de plantar feijão a lançar foguetes. é hora de uma política de vistos de trabalho e incentivos para trazer técnicos, engenheiros, pessoas de negócio, do mundo inteiro, prá cá. já fizemos isso antes e deu muito certo. não é à toa que comemoramos, este ano, os cem anos da presença japonesa no país. mas precisamos fazer mais, muito mais. trazer pessoas prontas, nas quais não investimos um centavo sequer em formação e capacitação, gente que está e vive no mundo, principalmente gente de TICs, para o brasil, agora, talvez seja a grande oportunidade do século. se soubéssemos fazer isso rápido, teríamos muito o que comemorar daqui a 100 anos.

 

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24.09.08

guerra por talento: a convocação da embraer

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embraer-asa-180.jpgsegunda passada a gente falou de gente em TICs, no mercado americano, onde mesmo depois do naufrágio de alguns grandes bancos de investimento a perspectiva de mercado de trabalho para profissionais de TICs continua muito boa. falta gente e os salários estão subindo. segunda mesmo saiu um texto no K@W [Not What, Not How, but Who? Western Companies Face a Worldwide Talent Crunch] sobre as dificuldades que as companhias ocidentais -muitas delas vivendo em mercados de crescimento exponencial, como certos nichos de TICs- estão tendo para contratar gente, principalmente gente senior, líderes de projeto com dez ou mais anos de experiência.

jim hemerling, da consultoria BCG [de san francisco], diz que dois fatores estão por trás da "guerra" por talento: a "significant aging of the workforce in North America, Europe and Japan… shrinking the supply of experienced people in developed markets", e o crescimento das "rapidly developing economies, or RDEs, driving up demand".

segundo hemerling, um de seus principais clientes diz que… "We used to worry about what to do from a strategy standpoint. Then we worried about how – operations. Now, in addition to strategy and operations, we worry about who. Who is going to be there to get the work done? In fact, our biggest challenge is not what, it’s not how — it’s who." ou seja, a preocupação principal das empresas deixou de ser o que ou como fazer e passou a ser com quem fazer. não há gente.

e isso não é só no setor de TICs. e o que as companhais estão fazendo? além de rodar o mundo atrás de gente, contratando para si e terceirizando com outros, entraram no setor educacional e estão formando seu próprio pessoal. este é o caso de companhias tão diversas como motorola, na índia e embraer, no brasil. aqui, a empresa que já fabricou quase 5.000 aeronaves [que voam em quase 80 países] começou a formar engenheiros para si própria desde 2001, em um programa de especialização dirigido a engenheiros recém-formados. de lá pra cá, cerca de 1000 engenheiros entraram no programa de especialização da embraer, feito em parceria com o ITA, e todos os 850 que já terminaram foram imediatamente contratados. outros 150 estão no pipeline, no momento, para atender a demanda por projetistas e construtores de tudo que entra na fabricação, manutenção e evolução de uma aeronave, inclusive [e muito] software.

1_legacy_600_cockpit_baixa-400.jpg

se você está afim de trabalhar com aerodinâmica, estruturas, comandos de vôo, aviônica, engenharia elétrica e eletrônica, software embarcado… tá na hora de se inscrever no processo seletivo da especialização da embraer. só há lugar pros cem melhores, as inscrições já começaram e vão até nove de novembro. e boa sorte.

 

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23.08.08

nosso [olímpico] apagão humano

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"Vivemos um verdadeiro apagão humano. Esse é um tema que precisa ser discutido pelas empresas, fornecedores e universidades". a constatação é de wilson marques, da priceWaterhouseCoopers, feita na FGV-EAESP na sexta passada. segundo marques, que é sócio da área de BPO [business processing outsourcing, terceirização de processos de negócio] da PWC, a empresa tem que investir 2.000 horas para formar cada contratado, em governança e automação de processo e de negócios.

o apagão detectado por marques e pela PWC não é novidade e tampouco pontual: trata-se de um resultado construído por décadas de negligência no trato do que qualquer país tem de mais precioso, seu povo. nosso investimento em educação não passa nem perto da demanda nacional por quantidade e qualidade de engenheiros e, principalmente, técnicos. optamos pela educação fácil, nos cursos que não precisam de laboratórios, como se ainda fôssemos o país de bacharéis que um dia fomos [no império...]. e que talvez ainda sejamos, por não termos feito o que [para citar uns poucos] rússia, coréia, china e índia fizeram, atraindo seus jovens para as profissões que precisam de matemática, lógica, química e física, que resultam em formação que constrói as coisas, sistemas e serviços que compramos do mundo. resultado? marques [e o setor de software] não tem técnicos; e, quando consegue, tem que investir milhares de horas de educação, por contratado, para fazê-lo chegar no nível de exigência de suas empresas.

e as universidades, a quem marques apela? as melhores, olimpicamente, ignoram a demanda da realidade ao seu redor. usam o argumento de "formar com base, para o futuro", como desculpa para não dar aos seus alunos a combinação de formação teórico-prática de que o país e suas empresas precisam. sobre as piores escolas, há pouco a dizer. mas há as médias, entre as melhores e as piores, as que deveriam estar formando para empregabilidade, agora, no mercado de trabalho real onde o brasil pode ocupar um vasto espaço econômico no mundo. para estas, ao invés de se reclamar o cumprimento de um preceito difuso, do lado da oferta, de "indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão", os órgãos reguladores deveriam criar um mercado de escolas de formação para empregabilidade e cobrar-lhes resultados do lado da demanda. marques, a PWC e as empresas todas, com muita razão, querem pessoas que saibam, na prática, o que seus diplomas dizem que elas deveriam saber, em tese. ou seja, querem que o sistema de formação produza conteúdo e não diplomas.

street-dog.jpga frase de marques, quase no fim da olimpíada, é reforçada pela nossa, digamos, performance olímpica. lá em beijing, tendo que competir com o mundo [e não no pan, no rio, onde quase ninguém veio...] nossa equipe parece uma matilha de vira-latas, com as sempre raras e pouquíssimas exceções, os cielo, maggi, scheidt e muitos poucos outros. a grande exceção à regra é o vôlei, não por acaso resultado de um sistema de seleção, formação e preparação para criar resultados de classe mundial, que quando não chega no ouro [como as meninas, no sábado, e talvez os homens, neste domingo] está sempre lá, sempre competindo, contra tudo e todos, sem medo de cara feia, brigando pelo primeiro lugar. com rosto, expectativas, olhar, preparo e competências de mundo.

para resolver nosso apagão olímpico, precisamos melhorar o sistema de educação como um todo, descobrindo atletas lá na base, selecionando, treinando, criando oportunidades de competir com os melhores, em todos os lugares do mundo. para resolver nosso apagão humano, em tecnologias da informação e comunicação, a receita não é muito diferente: precisamos melhorar a formação de matemática na base da pirâmide; precisamos trazer lógica para o currículo, precisamos de laboratórios de física e quimica nas escolas, temos que universalizar o acesso a internet para alunos [na escola] e professores [nas suas casas, inclusive] e temos que tratar professores e alunos como o futuro da nação.

dia destes me pediram para contribuir para a feitura de um índice que medisse a qualidade da educação no brasil. a idéia era completar a frase "educação básica, no brasil, será um problema resolvido quando…" e meu complemento foi… "quando nenhuma professora primária no interior estiver ganhando menos do que um motorista de ônibus na capital". simples. porque todo mundo funciona dentro de um universo de incentivos. você pode até querer muito uma medalha olímpica e, mesmo sem um sistema, tornar-se um herói e conseguir uma, como o ouro de maggi. mas, sem sistema, como querer que atletas olímpicos que ganham salário mínimo [como a goleira da equipe feminina de futebol] estejam consistentemente no topo do mundo? eles precisam pagar contas, como todos nós. ela, a goleira, que é de recife e vive aqui, talvez possa se dar muito melhor [na vida] como motorista de ônibus [aqui, o piso é R$1.140]. talvez a minha frase sobre educação também valha para os atletas…

os vira-latas de beijing, resultado de acasos, sem apoio de um sistema estruturado para levar brasileiros aos pódios do mundo, tem um paralelo no mercado de trabalho: são muitos os brasileiros correndo atrás de trabalhos que existem, mas para os quais a larga maioria dos que têm diploma [e estes são muito poucos, em relação ao total] não têm o menor preparo prático, para a vida real. resultado? na olimpíada do mercado, que rola todo dia, dia e noite, no mundo, passamos ao largo do pódio do conhecimento e somos, cada vez mais, um país de commodities. como no império. e aí o negócio talvez seja, mesmo, formar bacharéis… e esquecer o trabalho e as medalhas.

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