Terra Magazine

12.11.09

eletrônicos: a crise ainda não acabou e…

image dados recentes da abinee, associação da indústria do setor eletroeletrônico, mostram que a crise continua por aí, e em variados setores da economia. clique no gráfico ao lado, que mostra as exportações do setor nos últimos três anos [2009 em verde, bem abaixo de 2007, em vermelho, e do azul de 2009], que você vai direto para o balanço feito pela abinee até setembro deste ano.

a crise neste mercado tem vários componentes, incluindo o day after da crise de crédito e a valorização do real. e o real forte não causoimageu, por exemplo, um aumento excessivo das importações, como mostra o gráfico à direita, onde se vê que a entrada de eletrônicos, em 2009 [verde], voltou aos níveis de 2007 [vermelho]. mas a valorização da moeda brasileira pode ter tido um efeito negativo muito sério na competitividade de produtos brasileiros lá fora: só a exportação de celulares, no ano e em valor, caiu 38% em relação ao mesmo período de 2008.

a única consequência benigna do atual estado de coisas  [?] é que o déficit do setor, eterna preocupação dos formuladores de política para a área, caiu, imagee caiu muito, como mostra o histograma ao lado. em relação a 2008, estamos economizando mais de cinco bilhões de dólares até agora. a previsão para 2009 é de US$22B de compras e US$7B de vendas, o que vai causar um rombo de US$15B nas contas do país. grande, muito grande, mas bem menor do que os US$22B do ano passado.

pra se ter uma idéia comparada do tamanho do problema, a tonelada de soja [este mês; veja os dados históricos aqui] está cotada ao redor de US$400 e o brasil deve exportar cerca de 25 milhões de toneladas de soja este ano o que vai resultar em US$10B do lado positivo da balança: por estas contas, precisamos de safra e meia de soja [exportada] só para cobrir o déficit de eletrônicos.

segundo a abinee, o mercado de 2009 será de 5 a 7% menor do que 2008, e a indústria deve voltar a crescer no ano que vem, mas… "Não há um futuro muito promissor… A tendência é que o déficit volte a aumentar em 2010". talvez voltemos aos níveis de 2008, e aí será necessário exportar duas safras de soja [no ano] pra pagar a conta: haja desmatamento.

a pergunta que talvez devêssemos fazer, sobre a crise da balança de pagamentos de eletrônicos, é… quais são as causas estruturais do déficit ou, talvez, qual é a principal causa estrutural do déficit? a indústria tem sua lista, ela é longa e passa pelos onipresentes e reais juros altos, parte do ubíquo custo brasil.

do lado de cá do blog, meus botões e muitos especialistas acham que o problema é mais profundo. o fato é que nós não somos competitivos no mercado internacional porque não temos o custo da china [e parece que nunca teremos] e, ao mesmo tempo, não somos inovadores como a finlândia [por exemplo]. e a consequência é que, no negócio de eletrônica em geral, informática inclusive, continuamos [majoritariamente] produzindo commodities para o mercado nacional.

precisamos de muito, mas muito mais empresas e empreendimentos que, ao invés de se pensarem num quintal de mundo e aceitarem como uma espécie de dádiva divina o quinhão que lhes sobra, quase que por definição e exclusão, passem a pensar no mundo como um quintal de suas operações. claro que é um quintal complexo e difícil, cheio de gente, parte da qual muito competente. mas competir em mercados internacionais nunca foi fácil e sem riscos.

para competir, de verdade, é preciso inovar. e a receita é conhecida: vamos ver o que pensa paulo tigre, presidente da fiergs: a inovação é a chave para a competitividade das empresas e o desenvolvimento do país e, consequentemente, determinante para o aumento da produtividade e da renda real. quase todo ator de primeira grandeza do cenário industrial e de negócios brasileiro, se provocado, daria uma declaração similar.

mas enquanto as empresas brasileiras de eletrônica e informática, inclusive muitas que se acham inovadoras, continuarem pensando em cópias rápidas e rasteiras de produtos existentes no mercado internacional, criadas para substituir importações para o mercado nacional, sempre num espírito rasteiro de “precisamos correr atrás”… continuaremos, sim, atrás e muito pouco competitivos no mercado internacional. e a balança comercial do setor continuará desbalanceada.

e os sinais de que ela pode se tornar ainda mais negativa são muitos, incluindo o significativo número de empresas brasileiras [de hardware] planejando a terceirização de sua produção para o sudeste da ásia. quando isso acontecer [é só o dólar cair um pouco mais…] o governo certamente reagirá com barreiras à importação, reinstalando com toda força o mercado cinza do setor, pelos caminhos desastrosos, do ponto de vista de trabalho, renda e impostos, que todos nós já conhecemos.

a crise da balança comercial dos eletrônicos e da informática não é superficial e tampouco conjuntural; ela é profunda, estrutural e nunca [na história deste país…] foi tratada com a atenção, dedicação, conhecimento e investimento que deveria, tanto do ponto de vista das empresas como das políticas públicas. enquanto isso não for feito, a crise não será resolvida, pois não se resolverá sozinha.

e o resto é economia de elevador, publicada todo mês como se fora tábua de marés, com números dançando para cima e para baixo, sobre discursos vazios e ouvidos ocos.

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01.07.09

o caso do jornalismo –e a [des]regulamentação das profissões-meio [final]

aproveitando a decisão do supremo sobre a inexigibilidade de diploma para exercício das profissões de jornalismo, este blog está publicando uma série de textos sobre o tema, tratando o problema mais geral: que profissões deveriam ser regulamentadas? e que outras, especialmente no caso brasileiro, deveriam ser desregulamentadas? o primeiro texto da série está neste link; o segundo está aqui, clicando aqui você chega no terceiro, este aqui é o link do quarto texto e, hoje, publicamos o último texto da série, abaixo

há pouco mais de dois anos, escrevi um texto sobre trabalho e ele começava mais ou menos assim:

passamos a maior parte de nossas vidas úteis trabalhando, como se tivéssemos nascido só para isso. a cidade moderna, necessidade da revolução industrial para aglomerar trabalhadores –no passado, a mão-de-obra- perto das fábricas, nos acostumou a trabalhar em “locais de trabalho”, onde se encontravam, via de regra, as ferramentas necessárias para realizar a nossa parte.

mas os tempos mudaram. dos tempos modernos de chaplin prá cá, muito mais gente passou a processar informação, como trabalho, ao invés de manipular objetos físicos, atividade cada vez mais primária e passível de ser realizada por máquinas, robôs que tomam -devidamente- nosso lugar no esforço “manual”.

afinal, temos mais o que fazer: o trabalho repetitivo e impensado, pouco criativo, que exija “apenas” visão, audição, processamento básico de alguma informação [como o tráfego de automóveis e pedestres ao redor e os sinais de trânsito da rua] e a ação física de controlar alguns dispositivos, como freios, aceleradores e direções será realizado, em breve, por autômatos. não precisaremos de humanos para dirigir automóveis, mesmo em situações extremas. e, mais cedo do que tarde, é bem possível que um número muito grande de cirurgias mais complexas tenha que ser –obrigatoriamente- realizado por robôs, supervisionados e programados por cirurgiões… humanos.

a palavra-chave do último parágrafo é “programados”, não por acaso mostrada em negrito. por que? olhe para a frente, anos à frente. e pense: que trabalho e que funções essenciais, em cada um destes trabalhos, será privilégio de humanos?… estranha, tal reflexão, numa discussão sobre regulamentação de profissões, não?

não. porque ao invés de discutirmos profissões em termos de congelamento do passado, como quase sempre é o caso no brasil, deveríamos refletir sobre o assunto considerando os possíveis futuros do trabalho e das competências, habilidades e formações necessárias para exercê-lo. senão vamos acabar regulando profissões –e diploma obrigatório- de taxidermista e taquígrafo.

muito tempo atrás, poderíamos ter regulado a “profissão” de alfabetizado: fosse este o caso, só poderia ler e escrever quem tivesse uma formação e diploma específico, registro e autorização de um conselho “da área”. lá no começo da escrita, a coisa levava jeito: os escribas eram especialistas raros e regiamente remunerados. em muitos lugares, somente reis e nobres podiam se dar ao luxo de ter um ou outro deles a seu serviço. imagine o impacto da alfabetização em massa, percebida como um bem social, direito universal e dever do estado, na vida dos escribas. dançaram.

e tinham mesmo que dançar: proteger escribas era parar o tempo, impedir o livre intercâmbio de informação entre pessoas, instituições e regiões, em suma, manter o futuro à distância. ainda bem alfabetização em massa era inevitável. pra quem imaginava o futuro, aqui e agora, a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista também estava na classe das favas contadas; de mais de uma forma, tratava-se uma reserva de mercado para um dos tipos de “escribas” da nossa era.

olhando de frente para o futuro, o que -mesmo- é inevitável, visto a partir d’agora, numa sociedade de abundância de informação e conhecimento, onde até o papel da universidade [como principal centro de formação de elites de conhecimento] começa a ser questionado sob vários ângulos? segundo dan tapscott

Universities are finally losing their monopoly on higher learning. There is fundamental challenge to the foundational modus operandi of the University -the model of pedagogy. Specifically, there is a widening gap between the model of learning offered by many big universities and the natural way that young people who have grown up digital best learn.

The old-style lecture, with the professor standing at the podium in front of a large group of students, is still a fixture of university life on many campuses. It’s a model that is teacher-focused, one-way, one-size-fits-all and the student is isolated in the learning process. Yet the students, who have grown up in an interactive digital world, learn differently. Schooled on Google and Wikipedia, they want to inquire, not rely on the professor for a detailed roadmap.

They want an animated conversation, not a lecture. They want an interactive education, not a broadcast one that might have been perfectly fine for the Industrial Age, or even for boomers. These students are making new demands of universities, and if the universities try to ignore them, they will do so at their peril.

as universidades, especialmente na periferia, porque ainda estão tentando chegar [na maior parte das vezes pela via da simples –e pobre, porque com menos recursos- imitação] no patamar de suas matrizes de classe mundial, estão ignorando tais demandas, no meu entender, há mais tempo do que deveriam. mas não é só nos métodos e processos, como muito bem questiona tapscott, que as universidades estão se perdendo.

mark taylor, da columbia university, escreveu em abril passado um polêmico editoral do new york times ["The End of the University as We Know It"], atirando de frente no atual sistema universitário americano, modelo onde se espelha o mundo, inclusive o nosso:

Graduate education is the Detroit of higher learning. Most graduate programs in American universities produce a product for which there is no market (candidates for teaching positions that do not exist) and develop skills for which there is diminishing demand (research in subfields within subfields and publication in journals read by no one other than a few like-minded colleagues), all at a rapidly rising cost (sometimes well over $100,000 in student loans.

segundo taylor, a fonte do problema é antiga e pode ser datada de 1798, com a assinatura de ninguém menos que kant [em "The Conflict of the Faculties"]. segundo o filósofo alemão, as universidades deveriam…

…handle the entire content of learning by mass production, so to speak, by a division of labor, so that for every branch of the sciences there would be a public teacher or professor appointed as its trustee.

juntando os três textos, acima… as universidades atuais são sistemas de ensino que funcionam como fábricas da era industrial, onde cada ramo do conhecimento tem um departamento [ou um grupo de professores tentando criar um…], e um ou mais cursos e diplomas… e salas de aula funcionando exatamente como… na idade média. isso quando os estudantes chegando à universidade [pelo menos no mundo civilizado] nasceram na internet e já entenderam, há muito, que conhecimento –conteúdo, se quiserem- é o que importa. diploma é um mero efeito colateral.

aqui na periferia, porém, sem muitas alternativas de trabalho –porque ainda se vive, em um bom número de áreas de formação, em tempos de escassez, diploma tem outras interpretações. e em país de bacharéis, é documento multiuso: entre outras, serve como garantia de lugar especial na cadeia, separado do populacho [até quando?] e como passaporte para reserva de mercado para exercício da “profissão” que se consegue, aqui e ali, atribuir a certificados específicos.

dito isto, vamos perguntar de novo: quais são as profissões [humanas] do futuro? só e somente aquelas que exigirem, para seu exercício, processos mentais cuja sofisticação for essencialmente humana. ou seja, qualquer coisa que não exija níveis de pensamento mais altos e sofisticados será exercida por sistemas que haveremos de programar para tal. sistemas de todos os tipos, de pilotos automáticos a secretárias.

para programar tais sistemas, agora e no futuro, será preciso deter competências nos meios [informática] e nos fins, nas aplicações. excetuando os tipos de sistemas que são informática como um fim em si mesmo [compiladores, por exemplo], em todos os outros contextos em que usarmos informática ela será meio para se chegar em um certo conjunto de fins. o que discutiremos a seguir.

o núcleo central das profissões de informática [e são dezenas] está no ato de programar. tanto em computação, como em comunicação e controle, seja em hardware ou em software, informática é programa. um autômato é um programa; pode ser realizado em software ou hardware, mas é, na prática e nos fundamentos, programa. e um programa, um “software”, como se diz vulgarmente, é obviamente um programa. como programa, é [máquina e] linguagem, é meio para se fazer alguma coisa. seja um driver inteligente para uma broca de dentista ou o sistema de gestão de um banco, software e hardware são [quase sempre, como já dissemos] meio e não fim.

por esta lógica, exposta nos textos desta série, as profissões de informática não poderiam e não deveriam ser reservadas, como mercado, para os possuidores de diploma na área. afinal de contas, como você iria querer que seu cérebro fosse operado? por um sistema desenvolvido por neurocirurgiões que [juntamente com todas as profissões de informática envolvidas] criaram um robô de alta precisão [veja exemplo aqui] ou por uns engenheiros da computação que aprenderam neurocirurgia? eu tô com o primeiro grupo e não abro.

informática é [vista de longe] o espaço delimitado por computação, comunicação, controle e as aplicações dos tres. peter denning classifica informática e suas profissões em níveis de entendimento, que correspondem a perguntas e respostas essenciais para que se “entenda” a profissão.

no primeiro [e mais fundamental, “mechanics”] nível, a pergunta é o que as máquinas informacionais [concretas e abstratas] fazem, como e por que? máquinas são linguagens e mesmo aqui, na base, informática é meio e não deveria ser regulamentada, tal como matemática, lógica e filosofia. de resto, se você encontrar alguém [com qualquer formação] que consiga discutir a otimização de combinadores de curry-turner para execução de linguagens funcionais, pode trazer pra profissão que tá valendo, com qualquer ou nenhum diploma.

no segundo nível [“design”], a pergunta é… como organizar o pensamento [e a nós mesmos] quando estamos desenhando [“designing”, no sentido de projetando] computações [mais amplamente, informática, no sentido de computação, comunicação e controle]? organização e administração de times e processos é design, como tal é meio e não deveria depender de diploma; e o processo de desenhar [design, daqui pra frente], claramente uma linguagem, um meio, não deveria ser restrito apenas àqueles que têm um diploma em design, porque há design em tudo.

no terceiro dos quatro níveis de denning [“core technologies”], temos que nos perguntar… como é que fazemos o design da informática que suporta elementos comuns a múltiplas aplicações?… de novo, design; no topo disso, arquitetura, processos, complexidade,… partes significativas da ciência e engenharia da computação e de software. as “core technologies” dependem radicalmente do domínio de linguagens e infraestruturas muito complexas, que nos levam a escrever, por exemplo, sistemas de gerenciamento de bases de dados [SGBD] ou sistemas operacionais [SO].

em condições normais de temperatura e pressão, tal conhecimento está nas graduações em informática e não é nada que profissionais “formados” em medicina ou botânica aprendam de um dia para o outro. se o fizerem, também são muito bem-vindos à profissão, pois tal tipo de capital humano é extremamente escasso em qualquer lugar e tempo. aqui, regular pra que?… se a vasta maioria dos formados em qualquer curso de informática não sabe escrever um SGBD, um SO ou um compilador?…

finalmente, no quarto nível de denning [“application domains”], a pergunta é… como trabalhamos com outras pessoas, de outras formações, competências e habilidades, para desenhar a informática que lhes serve?… aqui é onde informática é meio mesmo; aqui é onde estão os sistemas de informação, o software que move a sociedade de forma mais ampla, exatamente o que se tem tentado regular no brasil, sem sucesso, há quase tres décadas. e logo aqui, no nível quatro de denning, onde informática é mais claramente meio, de forma simples e definitiva, e não poderia ser regulada [no sentido brasileiro, de reserva de mercado para diplomas] sob nenhuma ótica.

por que? neste último nível, temos desde os grandes sistemas de ERP até os pequenos programas em excel, feitos por times multidisciplinares, integrados à estratégia dos negócios, resolvendo problemas [e não trabalhando em áreas] das empresas, numa dinâmica de mercado, no espaço-tempo, que faz com que o programador de hoje seja o engenheiro de amanhã, o arquiteto na semana que vem, e o gerente daqui a um mês. e passe por atendimento, vendas, finanças e se transforme no principal administrador da empresa em pouco tempo.

muitos dos que apóiam a regulamentação da “profissão” de analista de sistemas, claramente um meio, o fazem porque reclamam do papel de alguns conselhos regionais de administração, que tentam puxar para seus tutelados os atributos de analistas de sistemas.

mas a solução, aqui, não é regulamentar “analistas”, que são meio, e sim desregulamentar “administradores”, que também fazem parte de uma profissão meio. e indubitavelmente “mais meio” do que analistas: as competências para administrar estão distribuídas em todos os tipos de formação, habilidades e práticas de negócios. graduação em administração, para negócios, é o mesmo que jornalismo, para informação. e deveria entrar na grande lista de profissões a se tornarem independentes de diploma, na lei, tornando a letra igual à prática, como já acontecia em jornalismo antes da decisão do supremo.

quase pra finalizar nossa conversa, visite este link para entender a posição da sociedade brasileira da computação CONTRA a regulamentação das profissões de informática. vale a pena. e vá neste texto, desta série, pra testar se sua formação e profissão deveriam ser regulamentadas. lembre-se que porque sim não é uma boa razão nem resposta; e você ter “perdido” anos para conseguir um diploma também passa longe. pense no interesse e benefícios para a sociedade e no longo prazo.

criar reservas de mercados para proteger interesses de uns poucos tem sido justamente uma das razões pelas quais as potencialidades do brasil são desenvolvidas de forma tão convolucionada. e o danado é ver, o tempo todo, gente que defende a regulamentação das mais estranhas profissões [que tal DJ?…] reclamando que o país é burocrático e cartorial.

se o congresso tivesse algo mais a fazer a não ser se debater em suas próprias mazelas e tentar legislar sobre causas confusas e de escasso interesse e valor para a sociedade [como a regulamentação da profissão de analista de sistemas “e suas correlatas”, proposta do senador azeredo], bem que poderia lançar um grande debate, estudo e revisão das profissões no país, botando no pacote a legislação trabalhista e sua institucionalidade, para ver se trazia nossa sociedade e economia do século XVIII para, pelo menos, o XX. quem sabe. a esperança é a última que morre. mesmo no congresso nacional.

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12.05.09

informática: SBC debate a regulamentação das profissões

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debate na revista eletrônica horizontes, da sociedade brasileira de computação [SBC], sobre a regulamentação [ou não] das profissões de informática.

CONTRA A REGULAMENTAÇÃO, ricardo anido, professor da unicamp e diretor de relações profissionais da  sbc [negrito nosso]:

…A restrição do exercício da profissão na área de Informática a detentores de diplomas de alguns cursos não condiz com a realidade, nem no Brasil nem no exterior. Em nenhum país com economia avançada essa restrição existe: Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Itália, Canadá, por exemplo, não restringem a atuação de profissionais da área. Nossos concorrentes diretos na busca por atração de oportunidades na área de informática, em especial Índia, China, Irlanda e Rússia, também não colocam qualquer restrição à atuação na área. Se a profissão fosse regulamentada na Suíça, Tim Berners-Lee não teria inventado e implementado a primeira versão da World Wide Web, já que ele tem um diploma de Física. Raymond Samuel Tomlinson, com diploma de Engenharia Elétrica, fosse a profissão regulamentada nos EUA, não teria construído o primeiro sistema de correio eletrônico. Bill Gates, primeiro programador e fundador da Microsoft, não terminou seu curso de graduação em Harvard e não poderia ter trabalhado na área e iniciado a maior empresa de software do mundo. 

desde sua fundação, a SBC tem lutado contra a regulamentação das profissões [e não da profissão, pois as profissões de informática são dezenas…] de informática. este combate tem tido sucesso até agora, mas um novo alinhamento de forças, no ambiente legislativo, ameaça restringir a atuação, na área, apenas aos diplomados por algum curso “da área”, registrados em um conselho profissional idem. por trás dos panos, há uma intensa atividade de fábricas de diplomas [que tem vagas, mas não alunos] e virtuais donos de conselhos regionais e federais, interessados nas anuidades dos seus futuros tutelados.

A FAVOR da regulamentação, antônio neto, presidente do sindicato dos trabalhadores em processamento de dados de são paulo [negrito nosso]:

…E o Bill Gates? Todos os modelos de regulamentação que temos proposto pressupõem a exigência de capacidade técnica comprovada apenas para os gerentes, líderes e/ou responsáveis pelo projeto. Pelo que nos consta, Bill Gates jamais foi o responsável (nem o principal executivo da empresa ele era) pelos seus projetos, e se fosse poderia contratar um gerente credenciado e continuar trabalhando normalmente. E os geniozinhos não seriam, em hipótese alguma, excluídos do mercado. Eles seriam, como qualquer pessoa de juízo e bom senso iria exigir, supervisionados por alguém que tivesse noções multidisciplinares e que colocasse ordem na casa. E não poderia fazer qualquer coisa que lhe desse na telha, sem a menor responsabilidade, como, com certeza, todos nós gostaríamos que acontecesse no desenvolvimento de algo que afetasse nossa saúde, segurança, dinheiro, governo, etc.

este blog apóia em gênero, número e grau a posição CONTRA A REGULAMENTAÇÃO promovida pela SBC desde o princípio dos tempos; não é porque o país é cartorial e tem suas relações de profissão, trabalho e emprego ainda no séc. XVIII que nós todos temos que cair no fosso comum e suicidar nosso futuro em nome de um carimbo, um conselho e uma “profissão” como tantas outras que só existem, hoje, só porque são “regulamentadas”.

além do mais, ninguém com mais de dois neurônios quer ser tutelado por qualquer outro alguém que bote “ordem na casa” e, por uma módica quantia, assinaturas nos projetos, como no sistema bisonho-cartorial de profissões regulamentadas  que temos hoje em pindorama.

regular as profissões de informática –se pegasse- teria todo tipo de efeito colateral, afetando inclusive o desenvolvimento de software livre, uma das mais criativas –e desordenadas- atividades do setor de software… que tem o apoio, em gênero, número e grau, de países emergentes como o brasil. segundo ricardo anido [negrito nosso]…

…E como ficaria o movimento de software livre? O desenvolvimento de software de forma cooperativa e distribuída é um dos exemplos mais interessantes e bem sucedidos do uso da tecnologia da Internet para o bem da sociedade. Pessoas com interesses comuns e conhecimento de programação têm desenvolvido soluções avançadas de software, de alta qualidade, que são utilizadas gratuitamente, tanto por empresas, governos ou indivíduos. Através de mecanismos às vezes complexos de revisão para garantia de qualidade, a comunidade de software livre consegue permitir que qualquer pessoa contribua no desenvolvimento dos aplicativos. As contribuições são aceitas considerando exclusivamente a qualidade do código produzido, não importando a nacionalidade, formação escolar ou profissão do contribuinte. Muitos médicos, engenheiros, músicos, físicos, biólogos, dentistas, matemáticos e outros profissionais participam ativamente do desenvolvimento de software livre, com o conhecimento em programação adquirido de forma auto-didata.

pra terminar, anido, em nome da SBC, diz que [negrito nosso]…

…A SBC entende que, para proteger os trabalhadores da área de informática, e lutar por melhores salários e condições de trabalho, o único caminho é fortalecer os sindicatos e as associações de classe. A proteção artificial que uma regulamentação da profissão baseada na exigência de diploma fornece aos trabalhadores da área de informática, pela restrição à atuação de profissionais competentes que não têm diploma, ou têm diploma em outra especialidade, é prejudicial à sociedade como um todo, além de fazer o país rapidamente perder competitividade, com grande prejuízo para as empresas, fechando um círculo vicioso que acabaria por diminuir o número de postos de trabalho na área de informática.

vá, você mesmo, ler a discussão na íntegra. você, eu, nós e nossos representantes no congresso é que vão decidir. tomara, para o brasil e para os brasileiros que trabalham em informática, que –pelo menos neste caso- vença o status quo… pois a atual desregulamentação das profissões de informática é uma das poucas atualidades do nosso regime profissional e trabalhista, de resto um arcabouço merecedor de uma completa e radical reescritura, porque fonte de todo tipo de ineficiências e responsável por uma parte considerável do que se costuma chamar de custo brasil.

e tem mais: há uma campanha em andamento para regulamentar uma porrada de outras profissões, incluindo design e dee-jaying. já imaginou? nem botar um som num bailinho você vai poder mais; para isso, será necessário uma graduação em animação & baladas, incluindo, na grade curricular, cadeiras como o lugar e o tempo do funk na noite carioca e lounge & debussy: uma estética lenta e suave para inaugurações e fins de festa.

e não só: o conselho federal de dee-jaying ordenará que só poderá tocar um certo tipo de música quem já tiver pago as cadeiras correspondentes e, claro, pago a anuidade. para garantir o mais estrito cumprimento das regras, será criada uma patrulha musical, responsável por investigar feijoadas, churrascos, buchadas, festas infantis, bares, restaurantes, casas noturnas e garantir que todo mundo perto de um pick-up é diplomado em curso reconhecido e tem sua carteirinha em dia. claro que o DJ só vai estar tocando o que o conselho autorizar para cada nível de formação e contexto.

pra garantir a ordem na casa, multas de todos os tipos e tamanhos serão lavradas contra os estabelecimentos que não cumprirem as regras [e não contra os supostos DJs, note bem], como forma de coagir a sociedade a acatar a supervisão dos responsáveis pela nossa diversão. botar um CD, ligar um iPod no amplificador ou sintonizar uma estação qualquer e deixar o som rolar, em lugares com mais de 50 pessoas, será terminantemente proibido e o conselho, para garantir o leite das crianças de quem investiu em uma graduação em dee-jaying, passará uma lei federal obrigando tais ambientes a ter um DJ permanente em sua folha, registrado e em dia com suas obrigações profissionais… vade retro.

parece exagero? volte pra informática, reescreva o exemplo dos DJs no contexto de software e programadores [por exemplo] e vai parecer com o que teremos rolando por aí se as profissões de informática forem mesmo regulamentadas. afinal de contas, uma profissão regulamentada é um monopólio… e os “donos” dos monopólios, como mostra a história universal, acabam querendo, sempre, dominar o mundo.

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15.03.09

mulheres & informática: por que elas não estão lá?…

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a proporção de mulheres trabalhando em ciências, matemáticas e engenharias, incluindo informática, é muito menor do que a proporção de mulheres na sociedade. e isso não tem nada a ver com uma maior capacidade dos homens para tais assuntos. mas o fato é que não é incomum, em conferências da área de informática, a audiência ser composta por 70, 80 e até 90% de homens.

um estudo que acaba de ser publicado, analisando os últimos 35 anos de pesquisas sobre o assunto, revela que as diferenças de sexo [cérebro, hormônios...] e institucionais [como discriminação e preconceito] não são fatores primários para explicar porque há muito menos mulheres nas engenharias e ciências exatas do que sua porcentagem na população.

uma das autoras do estudo, susan barnett, diz que as mulheres deveriam representar perto de um terço dos professores sênior de matemática, nos EUA, se fosse levado em conta, para chegar lá, a porcentagem de mulheres que estão entre os 1% melhores em matemática na população como um todo. mas as mulheres em posições de senioridade nos departamentos de matemática dos EUA são menos de 10%…

segundo o professor stephen j. ceci, que liderou o estudo, "A major reason explaining why women are underrepresented not only in math-intensive fields but also in senior leadership positions in most fields is that many women choose to have children, and the timing of child rearing coincides with the most demanding periods of their career, such as trying to get tenure or working exorbitant hours to get promoted"… ou seja,  a principal explicação para poucas mulheres em ciências, engenharia e, em geral, cargos de liderança, é que a maior parte das mulheres decide ter filhos, e a época em que isto acontece coincide com os períodos de maior demanda em suas carreiras; aí, os filhos ocupam as horas em que elas deveriam estar trabalhando feito loucas [como os homens o fazem] para se candidatar às promoções e espaços nas universidades e corporações.

tem mais: os autores concluem que não adianta, simplesmente, "atrair" mais mulheres para carreiras de ciências, matemáticas e engenharias; é preciso criar alternativas práticas de carreira para as mulheres, incluindo degraus de progressão, no trabalho, que levem em conta a maternidade e a possibilidade, durante a primeira fase de crescimento dos filhos, de trabalho em casa. coisas a se pensar quando se fala em "oportunidades iguais" no mercado de trabalho e se leva em conta que [pelo menos por enquanto] as mulheres precisam mesmo ter filhos… senão a humanidade não tem futuro.

o artigo, Women’s Underrepresentation in Science: Sociocultural and Biological Considerations, de stephen j. ceci, wendy m. williams e susan m. barnett, publicado no psychological bulletin, uma das revistas mais importantes do mundo na área, está disponível neste link. boa leitura.

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16.08.08

por um triz: phelps vs. cavic

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phelpscavic533.jpgo sistema de temporização da piscina olímpica de beijing é da omega [e sua descrição está aqui]. a precisão intrínseca do hardware e software do equipamento é de 1/1000 de segundo, mas cai para 1/100 porque a precisão de construção da piscina não passa disso [as raias têm diferenças milimétricas no comprimento].

sem esta tecnologia, phelps e cavic teriam repartido o primeiro lugar na piscina, ontem, nos 100 metros borboleta. como se sabe, phelps ganhou por 1/100 de segundo, exatamente o limite de decisão do sistema de temporização.

a sports illustrated tem uma série de oito fotos sobre a dramática chegada [na foto deste texto, phelps está à esquerda]. basta ter visto a decisão para imaginar que as medalhas em competições de classe mundial serão cada vez mais decididas por informática, dada a proximidade das competências dos principais atletas.

ao mesmo tempo, os recordes vão passar a depender cada vez mais do contexto da competição: quando se compara as piscinas onde phelps nada, hoje, com as que mark spitz nadava [e ganhava sete medalhas numa olimpíada], parece que spitz competia no mar revolto e seu compatriota [e nosso cesar cielo filho, medalha de ouro merecida, longe dos limites de medição da piscina] nada sozinho, numa piscina infinita, sem ondas…

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15.08.08

soja “não paga” hardware…

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soja-saco-peq.jpgo faturamento do setor de eletro-eletrônicos cresceu 33%, quando se compara o primeiro semestre deste ano ao mesmo período do ano passado, segundo dados da abinee. a mesma análise aponta um aumento de 148% na importação de celulares, o que é só uma pequena parte [US$334M] do déficit total da balança de pagamentos do setor para o ano de 2008, que deve chegar na casa de US$23.5B]. em comparação, as exportações do complexo da soja [grãos e derivados] foram de US$16.5B nos últimos 12 meses, o que resulta em uma vez e meia toda a soja e derivados só pra cobrir o déficit de eletrônicos…

ou desmatamos mais, pra plantar ainda mais soja, ou aumentamos em muito a produtividade da área plantada, ou nos tornamos muito mais competentes no setor de eletrônicos e fazemos mais coisas daqui pro mundo [e isso enquanto, no setor de informática, as exportações cairam 17% no semestre...], ou compramos menos informática e telecomunicação [isso parece que não rola], ou… o quê?

também no primeiro semestre, foram vendidos 5.7 milhões de computadores [cerca de 22 a cada minuto], um crescimento de 31% em relação a 2007. os laptops detonaram, com um crescimento de 186% [1.8 milhão de unidades vendidas]. a correlação parece óbvia: 31% a mais de PCs, 33% a mais de componentes, peças e partes, até porque o setor de eletrônica, como um todo [como já se disse], cresceu… 33%.

com tanta informática a mais no mercado, o brasil está crescendo também como fonte de spam: já estamos em quarto lugar, atrás apenas dos estados unidos, turquia [!] e rússia, segundo dados da symantec. ontem, um dia absolutamente típico para o estado do meu emeio, recebi 245 spams; até as 11 da manhã de hoje, eram 93. se nossos spammers trabalharem com afinco, em breve teremos a medalha de ouro no caos das comunicações na internet. pelo menos para tal "conquista", parece que estamos preparados. é questão de tempo, talvez.

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