Terra Magazine

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

as oportunidades digitais da copa. e não só.

a copa [no brasil] e a olimpíada [com ela, no rio] vão resolver todos os problemas do país. da cobertura de celular e banda larga móvel [em quantidade e qualidade] às crateras das ruas e avenidas de recife e das grandes metrópoles, passando por lixo e reciclagem, planejamento urbano, segurança, ensino de línguas nas escolas, qualidade dos hospitais e postos de saúde… sem falar na solução definitiva dos problemas de mobilidade urbana e transporte público. acho que esqueci as enchentes… mas capaz de estarem no pacote também. e a lei geral da copa, instrumento de exceção imposto ao país pela [e para a FIFA], pode não só trazer a cerveja de volta aos estádios, mas vai garantir que esteja geladíssima, sempre.

claro que muito pouco de tudo isso vai acontecer de fato, a não ser –pelo andar da carruagem- a lei geral copa, que deverá valer de vinte dias antes do primeiro jogo até cinco dias depois do último. coisas do futebol. e de países sujeitos a ele, talvez. mas o certo é que a esperança messiânica de setores inteiros da economia e do pensamento nacional quase que exigem que a copa e olimpíada, além de serem grandes oportunidades, sejam também a solução definitiva para problemas seculares do país, como o verdadeiro ensino de línguas nas escolas, problema que pode ter a ver, até, com a baixa penetração das pequenas empresas brasileiras nos mercados internacionais, dado que, aqui, falar inglês é raro e caro.

deixando o contexto mais amplo de lado, o motivo deste post é um debate promovido pelo sebrae-DF sobre oportunidades digitais criadas pela ou por causa da copa de 2014, do qual tive o prazer de participar. o cenário do "digital" pode ser descrito, por um lado, pelas tecnologias que suportam a…

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informaticidade, ou computação, comunicação e controle. uma parte do problema é usar o que existe de tecnologia e infraestruturas associadas para resolver [ou criar] problemas e levar ao mercado soluções que façam surgir novos negócios inovadores de crescimento empreendedor. outra parte é [re]criar as próprias tecnologias associadas à  informaticidade, se bem que o esforço, aqui, é consideravelmente maior, mais complexo e, normalmente, fora do alcance da quase totalidade das micro e pequenas empresas.

informaticidade traz as pessoas para ambientes digitais, conectados, onde mobilidade informacional é a norma e, breve, onde programabilidade de parte da solução pessoal e do contexto global também pode vir a ser a regra, ao invés da exceção. o contexto criado por tal conjunção de fatores é mostrado abaixo…

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…e quer descrever um espaço de fluxos que conectam pessoas, que estão [ou estariam, ou estarão] usando [e/ou falando sobre e se relacionando com] coisas [pense ônibus, carros, ruas, sinais de trânsito] e instituições [pense nas de saúde, educação, segurança...] e, claro, com as marcas espalhadas por todo canto e querendo participar de todas as interações, afinal de contas isso é um mercado. um mercado social, de grandes oportunidades.

negócios associados a grandes eventos que usem ou dependam do digital, conectado, móvel e programável não precisam, necessariamente, da copa ou olimpíada como contexto ou [nicho de] mercado. na verdade, somos um país de grandes eventos, que ocorrem há tempos, durante todo o ano, em quase toda parte. o slide abaixo, da minha apresentação no debate do sebrae-DF, tem uma pequena lista de possibilidades, que não incluiu nem o são joão do nordeste, por absoluta falta de espaço.

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qual é a ideia? simples: se você vai fazer alguma coisa muito interessante para a copa, porque não haveria de começar pelo campeonato brasileiro? isso aqui não é o qatar, onde vai ser a copa de 2022, que tem 1/9 da área de pernambuco e a população de recife. o conjunto anual dos campeonatos brasileiros e estaduais é muito maior do que qualquer coisa que veremos, localmente, na copa. os carnavais de pelo menos tres cidades [rio, recife, salvador], idem. aqueles engarrafamentos de 250km de são paulo, também. a quantidade de pessoas fora de casa, em busca de informação e serviços, a cada verão, é muito, mas muito maior do que os 500 mil turistas que devem visitar o país em 2014, se a crise econômica mundial deixar. pra se ter uma ideia, as praias de natal atraem quatro vezes mais turistas do que os estrangeiros previstos para a copa. e há o ENEM, os concursos, que também são "eventos", de longa duração, que atraem milhões de pessoas…

qual é a mensagem? se você vai fazer alguma coisa para a copa, não espere pela copa. o mesmo vale para a olimpíada. já temos muitos problemas muito relevantes que podem começar a ser resolvidos agora, em eventos nacionais de classe mundial que representam oportunidades gigantescas. a copa pode ser o vetor de espalhamento internacional da sua solução.

ao mesmo tempo, não pense que só nós estamos olhando para a copa no brasil. ou para a olimpíada. todos estão, especialmente os que já estão associados a tais eventos há tempos. a rede de valor é complexa, de grande porte, e não há espaço e tempo para improvisação muito perto da FIFA. como se não bastasse, iniciativas como airBnb e couchsurfing são mundiais e certamente serão usadas por gente que já faz parte de suas redes e vem pra cá nos grandes eventos.

e qual é a oportunidade? criar, a partir daqui, e em função de competências que temos ou estamos desenvolvendo nos nossos próprios grandes eventos "nacionais", soluções de classe mundial [mesmo que locais] capazes de gerar os novos negócios inovadores de crescimento empreendedor dos quais este blog tanto fala. até porque, se não for pra fazer isso, pode ser melhor…

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…afinal de contas, o carnaval vem aí… e tem todo santo ano.

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

e-gov: os problemas e o tamanho da oportunidade

o tribunal de contas da união informa: “há uma total ausência de comprometimento dos altos escalões com a área [de tecnologias de informação e comunicação do governo federal]”. o TCU vem analisando a infraestrutura e sistemas de informação de governo, sob várias perspectivas, desde 2007, de uma forma sistemática. mas o interesse do tribunal de contas e sua influência sobre os negócios federais de informática vem de longe, como mostra o gráfico abaixo.

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a imagem acima vem de uma apresentação do ministro aroldo cedraz no dia 26 de maio pp., e aponta um aumento de 15 vezes no número de decisões do TCU sobre “contratações de TI” em um período de 15 anos. isso é muito e dá uma idéia da importância que o tribunal credita às tecnologias de informação e comunicação e suas aplicações na gestão e nos serviços públicos.

para entender a quantas anda a governança dos sistemas públicos de TICs e aplicações, vá ver os slides da apresentação do ministro cedraz, onde se aponta os dez órgãos de governança superior que deveriam dar conta da política, estratégia, planejamento e operações de TICs na gestão pública e nas estatais.

com tantas deliberações e órgãos para dar conta da TI federal, como anda o estado da arte da informática nas instituições federais? veja o slide abaixo, que reporta a pesquisa feita pelo TCU com 300 órgãos públicos em 2010 e tire suas próprias conclusões…

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que tal ler, detalhando um pouco mais, a imagem acima?… mais da metade das instituições públicas faz software de forma amadorística; mais de 60% não tem [na prática] política e estratégia para sua informática e segurança de informação; 74% não têm nem mesmo as bases de um processo de gestão de ciclo de vida de informação; por conseguinte, há informação que detêm e não sabem e outras que não, mas que acham que sim, está em algum lugar, só não pode ser encontrada “agora”. um dia, quem sabe?…

e tem mais: 75% não gerencia incidentes de segurança de informação, como invasão de sites e sistemas e perdas ou [pior?] alteração de dados; 83% não faz ideia dos riscos a que a informação sob sua responsabilidade está sujeita, quase 90% não classifica informação para o negócio, o que significa que a instituição está sob provável e permanente caos informacional e quase 100% não tem um plano de continuidade de negócio em vigor. ‘

o que quer dizer que se o lugar for atingido por uma pane elétirca grave, enchente, raio, incêndio… a comunidade alvo dos serviços do órgão pode ficar semanas sem ser atendida e pode haver descontinuidades muito graves do ponto de vista da história da informação no [e para o] governo e os serviços públicos.

se informação e informática são tão importantes para empresas, governo e sociedade, porque estamos neste estado de coisas no governo federal? a pesquisa do TCU dá uma boa idéia das razões…

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mais da metade de quem manda no lugar não se responsabiliza pelas políticas de TI, o que quer dizer, na prática, que “não estão nem aí” para o que estiver sendo feito ou acontecendo; quase metade não designou um comitê de gestão para TI, quase 60% dos altos gestores das organizações não estabeleceu objetivos de gestão e uso para a área de TI e, finalmente, 76% não estabeleceu indicadores de desempenho para a área.

observado deste ponto de vista, os resultados do slide anterior não surpreendem, não é mesmo?…

neste contexto, há razões para ser otimista? pode não parecer, mas há. a secretaria de fiscalização de tecnologia da informação do TCU está trabalhando em conjunto com muita gente para criar e manter políticas de sistemas e informação nos órgãos federais. e isso quer dizer operar o presente de forma eficaz, eficiente e segura e criar o futuro ao mesmo tempo. não estamos falando de uma área que evolui lentamente ou que tem pouca demanda interna e externa. a tendência, no governo, tem sido a de informatização do caos, coisa que este blog apontou neste texto e comentou neste áudio, na CBN.

como os dados da SEFTI/TCU mostram, estamos muito longe do ideal. neste momento, isso é uma grande oportunidade, pois as infraestruturas e sistemas de informação estão mudando de forma radical.

todos governos mundiais estão planejando, iniciando e operando federações de infra e serviços [a tal “nuvem”, veja mais aqui] que vai mudar a visão de mundo da informática pública [city of orlando CIO: “I want to get out of the server business and into the services business.”], gerando economias de escala antes inimagináveis, como a redução do custo operacional total das infraestruturas de informação federais em 2/3 ou mais.

nos EUA, o governo obama criou o posto de CIO –chief information officer- federal, responsável por pensar, planejar, orientar, articular toda a estratégia e operações federais de TICs e suas aplicações. até abril passado, só em 2011 o CIO vivek kundra havia fechado 39 data centers, dos 137 que fechará este ano. até 2015, 800 dos atuais 2094 data centers federais deixarão de funcionar.

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tais centros não estão sendo fechados porque é “moda”, mas porque novas formas de coletar, processar, conectar, compartilhar e preservar dados estão disponíveis e permitem, através de seu uso criativo e inovador, realizar muito mais com muito menos, em termos de investimento em informática e sistemas de informação em rede.

há uma “nova” forma de fazer informática, baseada em “máquinas sociais”, sistemas programados e programáveis em rede, conectados e integrados pela rede. na verdade, a idéia não é nem tão nova assim: olhe aqui o que este blog escreveu sobre “informaticidade” na revista CIO em 2006 e veja aqui uma revisão de 2008 sobre o mesmo assunto.

as oportunidades de simplificação de infraestrutura e ganhos de escala nos sistemas de informação e seu desenvolvimento, manutenção e evolução. criadas por infraestrutura e software como serviço, na nuvem, deveriam ser combinadas com a necessidade de mais e melhor governança apontadas pelo TCU para abrir um amplo espaço de criatividade, inovação, operação e gestão na informática pública brasileira.

e isso pode ter pouco a ver com fazer cada órgão da informática pública federal cumprir o caderno de determinações do TCU na “sua” informática, mas começar a fazer com que uma verdadeira “rede” de infra, sistemas e serviços federais seja formada a partir dos órgão mais competentes, mais determinados e mais abertos a realizar um papel bem maior e acima do que dar conta, simplesmente, do seu quintal.

as economias de escala e a simplificação dos processos, inclusive os de controle, são óbvios. a dificuldade de implementar tal estratégia em um país como o nosso também é óbvia. seria mais fácil primeiro levar todo mundo a um nível mínimo de proficiência e, depois, fazer um processo de seleção não natural. mas esta seria a forma certa, também, de perdermos esta década fazendo o que os outros países fizeram na década passada.

com tanto poder e capacidade de articulação e alinhamento à disposição do TCU, bem que o tribunal poderia agitar o cenário um pouco mais e fazer com que as “TICs” federais gastassem bem menos e fizessem bem mais nesta década, evitando a duplicação de sistemas e equipes e, ainda por cima, um aumento significativo da informatização do caos.

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

o império contra ataca

nada como revelar uns poucos [face ao total, claro] segredos do poder  e dos poderosos para que a resposta, feroz e precisa, venha atrás de quem, sabendo ou não das consequências, abriu o bico ou a caixa de pandora.

o blog disse [no último post] e repetiu [analisando o "cableGate" na CBN] que as sociedades e a diplomacia mundial, além da política local e da vida pessoal, estão baseados em –porque construídos sobre- assimetria de informação. isso quer dizer que nunca, em tempo algum, ninguém sabe [ou deveria saber] tudo sobre qualquer outro alguém que lhe interessa, sob pena da ruína relacional imediata. o que sempre leva a processos dolorosos, quando não impossíveis, de reconstrução das ligações perdidas ou interrompidas.

por isso que o cableGate causado pelo wikiLeaks tem impactos tão espalhados e profundos. claro que se sabe que os donos da arábia saudita gostariam muito de fazer sumir o irã atual; mas um diplomata americano dizendo que eles realmente dizem isso?… não tem preço. claro que se sabe que, mesmo aqui, pedaços inteiros do governo não se bicam; mas ler um telegrama do ex-embaixador americano clifford sobel dizendo isso com todas as letras tem outro peso. e um outro conjunto de medidas.

Wikileaks cables breakdown

os exemplos são tantos que nem vale a pena citar. e são tão demolidores que a secretária de estado hillary clinton disse que a coisa toda é um golpe nas relações internacionais. se é, e o povo do wikiLeaks deveria saber e sabe que é, sim, desde que o material lhe veio às mãos, ninguém demoraria muito para ligar os pontos e descobrir que o atacado, se tão poderoso, se voltaria contra o atacante.

julian "wikiLeaks" assange está sendo procurado pela interpol, face a uma ordem de prisão emitida na suécia, que quer investigá-lo por estupro e tem gente bem situada no poder internacional [e não só nos EUA] que defende que ele deveria ser, simplesmente, executado. isso é parte [natural, nas circunstâncias] da guerra fria contra wikiLeaks. quer esteja envolvido ou não no incidente do qual é acusado, assange deve ter visto pelo menos uma [dúzia!] de filmes onde tal cenário [o poder, acuado, reage com força desmesurada contra o indivíduo, indefeso] onde se dá tal tipo de situação.

e isso é o de menos, porque o verdadeiro contra-ataque do império foi, na prática, forçar a amazon.AWS, a banda da amazon que provê serviços de informaticidade [veja nossa definição aqui], a não mais servir de plataforma de suporte ao wikiLeaks. aí é onde a coisa pega. veja só:

Sen. Joe Lieberman (I-CT), the chairman of the Senate Homeland Security Committee… said in a statement that Amazon’s "decision to cut off Wikileaks now is the right decision and should set the standard for other companies Wikileaks is using to distribute its illegally seized material."

Committee staff had seen news reports yesterday that Wikileaks was being hosted on Amazon’s servers… Staffers then… called Amazon to ask about it, and left questions with a press secretary including, "Are there plans to take the site down?"

Amazon called them back this morning to say they had kicked Wikileaks off… Amazon said the site had violated unspecified terms of use.

então: um senador americano, não por acaso o presidente do comitê de segurança nacional, perguntou à amazon se "havia planos pra detonar wikiLeaks", que havia saído de seu provedor, na suécia, por causa de ataques ao site. a amazon "cumpriu a ordem" [que deve ter vindo também de muitas outras fontes e causado um imenso debate interno...], anunciando que o site violava seus "termos de uso", que tentam evitar [a promoção de] atividades ilegais. que se saiba, wikiLeaks não está sendo processado por nada e muito menos foi condenado por qualquer coisa.

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em debate está muito mais do que a simples suspensão do serviço de suporte a wikiLeaks. no passado, quando os jornais de papel faziam a cabeça do povo, governos de todos os tipos atacaram suas plataformas de redação, impressão e distribuição, restringindo o papel de impressão, invadindo redações, prendendo, espancando e matando jornalistas. basta passear pela história do última hora, de samuel wainer, pra entender parte do contexto.

o problema que nós precisamos tratar daqui pra frente é mais ou menos descrito assim:

se a liberdade de informar e o direito de ser informado são essenciais para a democracia e se tal liberdade e direito dependem, cada vez mais, de informaticidade [ou do provimento de sistemas e informação em rede], como garantir que as infraestruturas, serviços e aplicações que sustentam as fontes de informação de todos as vertentes de política e poder possam ser usadas, livres de pressão e censura, por todos e qualquer um, garantidos os preceitos da legislação vigente?…

forçar a saída de wikiLeaks da amazon não foi uma ação muito esperta, mesmo que não possa ser debitada diretamente ao governo americano. haverá outras formas de armazenar e distribuir o cableGate e, em última análise, a coisa toda pode parar no torrent, até porque a advocacia das grandes empresas, provável próximo alvo do wikiLeaks, não vai descansar enquanto o site estiver no ar.

aliás, se isso acontecer, estaremos vendo a reedição, na era das redes, dos samiztadt que mantiveram viva o que havia de oposição à ditadura soviética. vai ver que é aí mesmo onde vamos parar…

 

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domingo, 21 de março de 2010

o futuro do trabalho e o trabalho no futuro

Tags:, , , - srlm às 00:44

adriana salles gomes, editora-executiva da HSM management, entrevistou o blog para a edição março/abril da revista, que já está nas bancas. o assunto foi o trabalho no futuro e o futuro do trabalho e como nós, no brasil, poderíamos nos sair muito melhor das crises e transformações pelas quais as organizações, o trabalho e a vida citadina [estão passando e] vão passar nas próximas décadas.

a entrevista, que tem por título os seis Cs do futuro do trabalho, ocupa oito páginas da versão impressa da revista e, até onde eu sei, não irá para a web. pra ler, procure a banca mais próxima…

a seguir, um pequeno trailer da abertura da entrevista, que fizemos num daqueles dias de janeiro passado em que são paulo quase se acaba. da conversa e o almoço, no spadaccino, vou lembrar por anos a fio. o temporal… melhor deixar pra lá.

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ASG: As conversas da hora do cafezinho nas empresas giram, na maioria, em torno do sonho de trabalhar de maneira diferente. Isso é utopia? Ou faz sentido?

SRLM: É e-topia, mas factível [risos]. Esse é o título de um livrinho brilhante do arquiteto William Mitchell, que todos os interessados no futuro do trabalho e das cidades deveriam ler. Eu tenho certeza de que vamos redesenhar o modus vivendi e o modus operandi. Precisamos viver e trabalhar de forma diferente. Não há como manter o jeito atual. O modo de trabalhar ainda tem a ver com uma época em que os meios de produção eram caros e escassos, e era preciso levar as pessoas até eles. Construíram- se cidades para juntar gente, primeiro para abastecer os workshops [oficinas], depois as fábricas, porque, sem massa crítica de trabalhadores, não fazia sentido o investimento na infraestrutura para produzir algo. Mas isso está mudando rapidamente. Em uma economia contemporânea típica, entre 80% e 85% das pessoas já trabalham em serviços, e apenas 15% a 20%, em produção agropecuária ou fabril. À medida que se automatizam as máquinas e que se pode controlá-las de longe, como vem acontecendo, há umadiminuição significativa do número de pessoas necessárias à produção fabril ou agropecuária. E os meios de produção, no caso dos serviços, intensivos em informação, não são nem caros nem escassos, o que faz com que eles possam ser “deslocalizados”, em vez de serem centralizadores –e ordenadores– do processo de produção.

ASG: O meio de produção vai às pessoas…

SRLM: Sim, tanto aos clientes como aos funcionários. Exemplo corrente são os restaurantes nos diversos bairros de uma cidade, contratando e servindo a quem está por perto. Tal tipo de “deslocalização”, além de mudar as cidades, modifica a essência de uma organização de negócios.

ASG: Como isso mudou? Tecnologia?

SRLM: A infraestrutura digital disponível em larga escala quase no mundo inteiro nos permite discutir de forma muito mais séria como reordenar o trabalho e as cidades que foram montadas nos últimos 150 anos. Temos de fazê-lo, porque o custo de transação para uma pessoa ir de onde mora aonde trabalha é astronômico, tanto em preço absoluto, por conta dos preços de estacionamento, combustível etc., como em preço de tempo.

ASG: O que vai acontecer?

SRLM: Provavelmente, em vez de 6 mil pessoas irem trabalhar em um megaprédio em um lugar, a empresa se dividirá em 12 espaços de trabalho espalhados pela cidade ou região, cada qual com capacidade para 500 pessoas, para o pessoal se movimentar menos… [continua na revista…]image

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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

informaticidade: informática “medida” em megawatt-hora?

Tags: - srlm às 10:00

a era da informação, segundo peter drucker, não começou com a internet, mas bem antes, ao fim da segunda guerra mundial. até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora. as palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. o domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deu um ar de fim-da-história ao mundo da energia. a partir daí, os processos biológicos passaram a ser a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de informação e seu processamento.

temos meio século, pois, de era da informação, o que coincide com a idade das máquinas computacionais, digamos, modernas, inauguradas com o eniac em 1946. os primeiros processadores eletrônicos de informação eram tão complexos que as organizações que os tinham em casa foram obrigadas a criar departamentos de tecnologia, populados por gente que entendia de sistemas computacionais -os computadores propriamente ditos e sua infra-estrutura de software-, capaz de fazer as “máquinas” produzirem os “resultados” exigidos pelos negócios. da mesma forma como, no princípio dos tempos da energia, as indústrias de sucesso tinham seu próprio departamento de energia [e algumas o têm até hoje], os negócios mais inovadores destes sessenta anos de era da informação foram aqueles que melhor souberam tirar proveito dos computadores, usando para isso a competência tecnológica interna e de tantos parceiros quantos foi possível.

os computadores e seu uso nos negócios foram inovações radicais do século XX, mudando o mundo e criando possibilidades que, processando dados à mão, eram impensáveis. mas toda inovação é incompleta, imperfeita e impermanente, e sempre chega, de novo, a hora de inovar. não que informática tenha se tornado commodity e qualquer um, em qualquer lugar, possa provê-la. mas, lá atrás, energia se tornou eletricidade, disponível na tomada, e não queremos saber como nos chega. usamos, pagamos e pronto.

da mesma forma, processamento de informação vira informaticidade: interfaces especificadas e entendidas, escondendo funções e procedimentos que queremos, sim, saber o que fazem. suas propriedades são mais complexas do que os fluxos de corrente [da “energia elétrica”] que produzem calor, luz e movimento.  mas, uma vez a par dos significados por trás das interfaces e tendo acesso remoto, confiável, de alta performance e barato, não precisamos, para usar tal informaticidade, de departamentos de tecnologia do lado de cá da rede.

e isso é uma boa notícia para todos. primeiro, para o pessoal “de tecnologia”, que vai trabalhar onde os problemas “tecnológicos” estão, e onde é mais interessante e divertido estar: lugares como amazon s3 [armazenamento online], netvibes.com [ecologia de informação] e salesforce.com [cadeia de valor de processos de automação de negócios]. todos são exemplos de informaticidade, atrás do conector, sem que o usuário pense em segurança, performance, updates, backup… problemas lá do pessoal “de tecnologia”.

software-como-serviço é outro nome que se dá a informaticidade; mas esta é bem mais que aquela: inclui hardware-como-serviço, rede-como-serviço e, quase de brincadeira, serviço-como-serviço, quando não temos que fazer o serviço que deveríamos, pois tal poderia ser realizado compondo outros, já disponíveis na rede.

por outro lado, quem ficar do lado de cá do conector terá que se concentrar no que é essencial para o negócio: informação. durante muito tempo -quase todos estes sessenta anos- os interesses informacionais dos negócios estiveram subjugados às competências, humores e modismos de seu pessoal de “tecnologia”. apesar do chefe, lá, atender pelo título de chief information officer, que significava, de fato, chief information technology officer. com a tecnologia escondida na informaticidade, o pessoal “de tecnologia” que restar será o que der conta, enfim, da informação.

a agenda dos “novos” cios, nos negócios, será pautada na criação, manutenção, implantação e operação de políticas e estratégias de informação, cobrindo o ciclo de vida de informação no negócio, de criação ou captura até  terminação, passando por  processamento, armazenamento, preservação, apresentação…  para o que precisarão desenhar sistemas de informação, parte da funcionalidade dos quais, breve, será provida pela informaticidade da rede, através da composição de funções disponíveis em muitos fornecedores. e o resto, que tivermos que definir e escrever nós mesmos, será em boa parte complementos e conexões de coisas que outros irão nos fornecer como serviço.

em algum lugar, lá atrás, estarão, a suportar tudo, as tecnologias de informação. gozando pela primeira vez, em sua curta história, da imunidade do anonimato. algo me diz que, neste novo mundo, as coisas serão muito mais calmas e que, por isso mesmo, poderemos inovar muito mais.

[o texto acima foi publicado em agosto de 2006 {com o título informaticidade se escreve com “i” de inovação} em blog.meira.com. o texto serve, aqui, como introdução, longa, para um parágrafo que saiu na forbes, esta semana, comentando o anúncio da microsoft sobre sua estratégia de serviços online.]

power-lines-2.jpgsegundo a forbesNext year Microsoft will open a 100-megawatt data center (these facilities are measured in power usage now, not in numbers of servers) in Chicago, bigger than anything Google has running tamanho de datacenters medido em termos de seu consumo de energia… certamente estamos começando a chegar mais perto da minha definição de informaticidade.

mas ainda falta muita coisa: de acordo com debra chrapaty, que toca os datacenters da msft15% of all future computing resources in the corporate data centers will be just for developers working in Azure. "When you look at G[oogle], what they’re doing is really just search and mail. That’s two of a myriad of things going on here," she says. "We put more servers in, every month, than Facebook has."  pra fazer este "future" funcionar, a microsoft já gastou US$3B em datacenters [o último a ficar pronto foi o de quincy, wa., com 300.000 servidores e 27MW de consumo] e está disposta a [e precisa] gastar muito mais [até porque uma regra de três simples põe perto de um milhão de servidores no datacenter de chicago...]. google também, e a amazon idem. e tomara que gastem mesmo.

informaticidade vai ser a norma somente se e quando tivermos abundância de processamento e pervasividade de conexões, combinado com simplicidade radical no uso das funcionalidades disponíveis. aí, informática vai ser informaticidade e nós vamos ter, de vez, convergência de computação, comunicação e, claro, de sistemas de informação. tipo as fotos de seu celular armazenadas direto na rede. tipo seu PC com disco virtual simples, seguro e de fábrica, como parte de sua conta telefônica, transparentemente… tipo todo seu ciclo de vida [ou seja, a informação sobre ele] administrado de forma simples e fluida, da mesma forma como se liga uma luz ou um liquidificador. ainda vai levar algum tempo, mas vamos chegar lá.

os quase-giga datacenters são só uma pequena parte do que vamos precisar pra ter informaticidade nas casas, empresas, ruas, celulares… teremos ainda que reescrever, na rede e pra rede, quase todo o software que usamos, pessoas ou empresas. neste processo, havia uma carta fora do baralho, exatamente a microsoft. ao anunciar uma estratégia para computação na rede [ou "cloud computing"] ray ozzie manda avisar a todo mundo -competidores principalmente- que a galera que domina os desktops mundo afora tem algo a oferecer, na rede, como continuidade de sua estratégia e dominância dos últimos, pelo menos, quinze anos.

competição é isso aí. tomara que, no fim desta rodada, haja mais alternativas, melhores serviços e menores custos pra todos os usuários. até porque, dentro da próxima década, vai fazer pouca diferença se você usa a rede de um laptop ou celular e teremos, no ar, de três a quatro bilhões de usuários. boa parte do planeta. conectada, cada vez mais, por informaticidade. informática tão simples quanto eletricidade.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

na direção, caos à vista

Tags:, , , , , - srlm às 01:14

já que as olimpíadas começam hoje, e em beijing, vejam só o que a china vai nos trazer, como inovação, daqui a pouco… os retrovisores vão sair de moda. em seus lugares, câmeras, sensores de presença e telas lcd assumindo o papel dos espelhos externo e interno do carro.

você já pode comprar, na china [e na internet] seu próprio conjunto câmera + tela lcd sensível ao toque + bluetooth + microfone [veja imagem] prá deixar o trânsito pra lá e fazer chamadas [e DMT, dirigir-mandando-torpedos] diretamente do retrovisor do seu carro. a coisa dubla como tela de dvd, também. ou painel de qualquer objeto que "fale" bluetooth.

resta saber quando tal "evolução" vai nos chegar, barato, baratinho, direto de shanghai ou shenzen, passando pela zona de livre comércio do paraguai…

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

convergência: presente, passado e futuro

a HSM está organizando um ciclo “convergência em debate” no brasil, que começou no 20 de maio em BH e terminará no rio [em agosto], via curitiba e brasilia [que já rolaram]. a cobertura completa do evento está aqui [para BH] e o pessoal se esmerou: no caso da minha palestra e do debate que se seguiu, estão lá as imagens, um resumo muito bem feito do que eu disse e os slides que usei. se você está interessado em telecom, informática e vizinhanças, vale a pena dar uma olhada.

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sábado, 31 de maio de 2008

perguntas & respostas

Tags:, - srlm às 19:28

mais de 65% das buscas na web são feitas em google. e são respondidas por uma rede de data centers que pode ter, hoje, algo entre 200 e 500 mil servidores [dependendo de quem faz a estimativa]. e a tal rede está crescendo, até porque porque uma pergunta envolve o trabalho de 700 a 1.000 servidores diferentes até se transformar numa resposta [segundo marissa mayer, vp de busca de google].

google constrói boa parte do seu próprio hardware, e isso faz parte do espírito do negócio: pra ser melhor do que a concorrência, é preciso saber fazer melhor do que a concorrência -e seus fornecedores. abaixo, foto de um rack básico de servidores de google.

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pra saber o tamanho do problema que é operar uma infra-estrutura do porte que empresas como a microsoft, yahoo, google, ebay e amazon, têm, hoje, na internet, pra servir o software que chega às nossas telas, veja o que diz jeff dean sobre a problemática de operar o monte de servidores de google: In each cluster’s first year, it’s typical that 1,000 individual machine failures will occur; thousands of hard drive failures will occur; one power distribution unit will fail, bringing down 500 to 1,000 machines for about 6 hours; 20 racks will fail, each time causing 40 to 80 machines to vanish from the network; 5 racks will “go wonky,” with half their network packets missing in action; and the cluster will have to be rewired once, affecting 5 percent of the machines at any given moment over a 2-day span, Dean said. And there’s about a 50 percent chance that the cluster will overheat, taking down most of the servers in less than 5 minutes and taking 1 to 2 days to recover... [para traduzir este texto em babelfish, clique aqui].

a descrição de dean lembra as primeiras décadas da rede de geração e distribuição de energia elétrica, quando absolutamente tudo podia falhar o tempo todo e… falhava mesmo. google resolve o problema replicando tudo, muitas vezes, para que tenhamos a impressão, de longe, de que nada falha. o que faz muito bem. mais na frente, em alguns anos, a maioria dos sistemas computacionais não só vai parecer simples mas, externamente e, em boa parte, internamente, será mais simples de verdade. informática, então, parecerá mais com eletricidade e estaremos chegando mais perto de informaticidade… ou de uma informática tão simples e tão invisível que terá desaparecido atrás das paredes e das poucas interfaces quase transparentes que vamos usar.

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