Terra Magazine

12.11.09

eletrônicos: a crise ainda não acabou e…

image dados recentes da abinee, associação da indústria do setor eletroeletrônico, mostram que a crise continua por aí, e em variados setores da economia. clique no gráfico ao lado, que mostra as exportações do setor nos últimos três anos [2009 em verde, bem abaixo de 2007, em vermelho, e do azul de 2009], que você vai direto para o balanço feito pela abinee até setembro deste ano.

a crise neste mercado tem vários componentes, incluindo o day after da crise de crédito e a valorização do real. e o real forte não causoimageu, por exemplo, um aumento excessivo das importações, como mostra o gráfico à direita, onde se vê que a entrada de eletrônicos, em 2009 [verde], voltou aos níveis de 2007 [vermelho]. mas a valorização da moeda brasileira pode ter tido um efeito negativo muito sério na competitividade de produtos brasileiros lá fora: só a exportação de celulares, no ano e em valor, caiu 38% em relação ao mesmo período de 2008.

a única consequência benigna do atual estado de coisas  [?] é que o déficit do setor, eterna preocupação dos formuladores de política para a área, caiu, imagee caiu muito, como mostra o histograma ao lado. em relação a 2008, estamos economizando mais de cinco bilhões de dólares até agora. a previsão para 2009 é de US$22B de compras e US$7B de vendas, o que vai causar um rombo de US$15B nas contas do país. grande, muito grande, mas bem menor do que os US$22B do ano passado.

pra se ter uma idéia comparada do tamanho do problema, a tonelada de soja [este mês; veja os dados históricos aqui] está cotada ao redor de US$400 e o brasil deve exportar cerca de 25 milhões de toneladas de soja este ano o que vai resultar em US$10B do lado positivo da balança: por estas contas, precisamos de safra e meia de soja [exportada] só para cobrir o déficit de eletrônicos.

segundo a abinee, o mercado de 2009 será de 5 a 7% menor do que 2008, e a indústria deve voltar a crescer no ano que vem, mas… "Não há um futuro muito promissor… A tendência é que o déficit volte a aumentar em 2010". talvez voltemos aos níveis de 2008, e aí será necessário exportar duas safras de soja [no ano] pra pagar a conta: haja desmatamento.

a pergunta que talvez devêssemos fazer, sobre a crise da balança de pagamentos de eletrônicos, é… quais são as causas estruturais do déficit ou, talvez, qual é a principal causa estrutural do déficit? a indústria tem sua lista, ela é longa e passa pelos onipresentes e reais juros altos, parte do ubíquo custo brasil.

do lado de cá do blog, meus botões e muitos especialistas acham que o problema é mais profundo. o fato é que nós não somos competitivos no mercado internacional porque não temos o custo da china [e parece que nunca teremos] e, ao mesmo tempo, não somos inovadores como a finlândia [por exemplo]. e a consequência é que, no negócio de eletrônica em geral, informática inclusive, continuamos [majoritariamente] produzindo commodities para o mercado nacional.

precisamos de muito, mas muito mais empresas e empreendimentos que, ao invés de se pensarem num quintal de mundo e aceitarem como uma espécie de dádiva divina o quinhão que lhes sobra, quase que por definição e exclusão, passem a pensar no mundo como um quintal de suas operações. claro que é um quintal complexo e difícil, cheio de gente, parte da qual muito competente. mas competir em mercados internacionais nunca foi fácil e sem riscos.

para competir, de verdade, é preciso inovar. e a receita é conhecida: vamos ver o que pensa paulo tigre, presidente da fiergs: a inovação é a chave para a competitividade das empresas e o desenvolvimento do país e, consequentemente, determinante para o aumento da produtividade e da renda real. quase todo ator de primeira grandeza do cenário industrial e de negócios brasileiro, se provocado, daria uma declaração similar.

mas enquanto as empresas brasileiras de eletrônica e informática, inclusive muitas que se acham inovadoras, continuarem pensando em cópias rápidas e rasteiras de produtos existentes no mercado internacional, criadas para substituir importações para o mercado nacional, sempre num espírito rasteiro de “precisamos correr atrás”… continuaremos, sim, atrás e muito pouco competitivos no mercado internacional. e a balança comercial do setor continuará desbalanceada.

e os sinais de que ela pode se tornar ainda mais negativa são muitos, incluindo o significativo número de empresas brasileiras [de hardware] planejando a terceirização de sua produção para o sudeste da ásia. quando isso acontecer [é só o dólar cair um pouco mais…] o governo certamente reagirá com barreiras à importação, reinstalando com toda força o mercado cinza do setor, pelos caminhos desastrosos, do ponto de vista de trabalho, renda e impostos, que todos nós já conhecemos.

a crise da balança comercial dos eletrônicos e da informática não é superficial e tampouco conjuntural; ela é profunda, estrutural e nunca [na história deste país…] foi tratada com a atenção, dedicação, conhecimento e investimento que deveria, tanto do ponto de vista das empresas como das políticas públicas. enquanto isso não for feito, a crise não será resolvida, pois não se resolverá sozinha.

e o resto é economia de elevador, publicada todo mês como se fora tábua de marés, com números dançando para cima e para baixo, sobre discursos vazios e ouvidos ocos.

Blogs que citam este Post

31.10.09

tempo de twitinovação

Tags:, , , - srlm às 07:00

com a palavra, evan williams, CEO de twitter, talvez o negócio mais inusitado, improvável, querido e, quem sabe, do ponto de vista de retorno sobre investimento… entre os mais lucrativos do futuro próximo:

"Most companies or services on the Web start with wrong assumptions about what they are and what they’re for. Twitter struck an interesting balance of flexibility and malleability that allowed users to invent uses for it that weren’t anticipated."

…a maioria das companhias e serviços na web parte de pressupostos falsos sobre o que são e pra que servem. twitter atingiu um equilíbrio interessante entre flexibilidade e maleabilidade que permite inventar usos [do site, sistema] que não haviam sido antecipados.

agora ouça o que diz eric von hippel, autor de democratizing innovation, ninguém menos do que o líder do grupo de inovação e empreendedorismo da sloan school of management do MIT…

“Twitter’s smart enough, or lucky enough, to say, ‘Gee, let’s not try to compete with our users in designing this stuff, let’s outsource design to them’ ”…

…twitter é inteligente ou sortudo [ou esperto] o suficiente para dizer… “peraí, não vamos competir com nossos usuários no desenho deste negócio, vamos deixar que eles o façam, vamos terceirizar nossa inovação para nossa comunidade”.

image resumo? inove com seu público, seus usuários e clientes. mais: permita, crie espaços, entradas, infraestruturas para que sua comunidade se torne o motor de inovação do negócio. ela é parte essencial de sua empresa e cadeia de valor e sabe, ou vai descobrir, com você [se tiver chance e meios], o que é bom pra todos. e isso acaba sendo bom pra você, seu negócio e renda também.

caso contrário? todos se tornarão seus ex-usuários, serão parte de outra comunidade onde seja possível ser mais do que simples parte da audiência.

na web, aliás, audiência já era. pra sempre, aliás. ainda bem.

Blogs que citam este Post

22.10.09

espaços, criatividade, inovação e… gambiarras

Tags:, , , - srlm às 07:00

o texto anterior deste blog tratou de espaços para inovação [e criatividade], usando como exemplo um “veículo” desenvolvido em taperoá, no interior da paraíba. e isso levou a uma discussão [via twitter] com marcelo tas sobre criatividade, inovação, o brasil, suas periferias e as condições, lá longe, de desenvolvimento de novos produtos e serviços.

o que, por sua vez, levou à procura de referências brasileiras sobre o assunto e à dissertação de mestrado de rodrigo boufleur, a questão da gambiarra: formas alternativas de desenvolver artefatos e suas relações com o design de produtos, onde se desenha, logo na abertura, uma definição e contextualização do tema:

Dentre diversos significados relacionados, o termo gambiarra vem sendo freqüentemente usado de maneira informal para identificar formas de improvisação: adaptações, adequações, ajustes, consertos, reparos, encaixes, emendas, remendos, inventos inteiros, engenhocas, geringonças.

A despeito das depreciações que se costumam atribuir a alguns destes tipos de procedimentos – em muitos casos com total fundamento, na qualidade de “precário”, “feio”, “malandro”, “tosco”, o termo gambiarra recebe também conotações positivas. Acompanhando um momento de mudança na maneira como alguns pensadores e a própria população brasileira têm enxergado sua cultura e identidade, o termo gambiarra tem sido remetido à idéia do pronunciado “jeitinho brasileiro”, numa visão que busca enfatizar em seu próprio povo, uma propensão ao espírito criativo, à capacidade inventiva e inovadora, à inteligência e dinâmica da cultura popular; levando em consideração a conjuntura de adversidades e vicissitudes às quais todos nós (muitos evidentemente mais) estamos expostos; entendendo-a como uma prática que se aproxima de conceitos como reutilização/reciclagem ou bricolagem.

Independentemente de questões vernaculares, o termo gambiarra é usado por muitos para definir qualquer procedimento necessário para a constituição de um artefato ou objeto utilitário improvisado. Neste sentido, sob a ótica da cultura material, o termo gambiarra pode ser entendido como uma forma alternativa de design: Gambiarra é uma forma heteróclita de desenvolver uma solução funcional / aplicada. Ou seja, um processo baseado no raciocínio projetivo imediato, elaborado a partir de uma necessidade particular ou algum recurso material disponível - os quais proporcionam a constituição de um artefato de maneira improvisada. Esta relação nos leva a compreender a gambiarra como um paradigma paralelo, o qual surge a partir dos limites e dos impactos proporcionados pelo modelo industrial de produção e consumo. Se a atividade do design de produtos se define, não pelo estilismo, mas principalmente pelo desenvolvimento de artefatos (sejam eles industriais ou não), então na essência, design e gambiarra são procedimentos similares.

O que tende a ser diferente, são alguns fatores relacionados a cada contexto que podem variar, como por exemplo, a tecnologia empregada, os métodos, a infra-estrutura envolvida (fábrica, pessoas, equipamentos, matéria-prima, etc), o processo industrial, seus propósitos políticos e alguns objetivos corporativos, como por exemplo, para quem, porquê e para quê se produz.

O intuito de relacionar os termos design e gambiarra nos induz a uma reflexão sobre valores, mitos e significados, as contribuições e conseqüências dos objetos na configuração da cultura e no desenvolvimento da sociedade pós-moderna. A questão da gambiarra envolve temas como o desenho de artefatos, o resgate da função social do design, a problemática do lixo, o contexto da indiossincrasia e das necessidades específicas, bem como a identidade da cultura material brasileira.

lá no meio da conversa, rodrigo chega no ponto: design e gambiarra são a mesma coisa. gambiarra é design limitado por restrições de conhecimento, ambiente, meios… a gambiarra é design na periferia. o diagrama abaixo [também da dissertação] dá uma idéia geral da conversa. pra quem estiver interessado, a dissertação, com muitas imagens legais, está neste link. boa leitura.  image

Blogs que citam este Post

11.06.09

CEOs must be… DESIGNERS!

Tags:, , - srlm às 18:36

o texto que segue este parágrafo foi originalmente publicado há dois anos no meu “velho” blog, que ainda está no ar. mas tenho encontrado com tanta gente que está preocupada com este assunto que resolvi republicá-lo aqui, abaixo, na íntegra, sem nenhuma modificação. todas as palavras ainda estão no lugar. e a palestra de nussbaum, de 2007, ainda é perfeita. vá ver.

bruce nussbaum, na business week desde 1977 [ano em que me graduei…] é um dos principais jornalistas americanos na advocacia de design como um meio essencial dos negócios. segundo ele, pra entender isso é so pensar steve jobs e conectar com o iphone. nenhuma outra empresa, hoje, conseguiria o feito que se conseguiu com o iphone: 100 mil celulares por dia na primeira semana. e muitos mais no porvir. e olha que há anti-clones [coisas que já existiam, antes] do iphone, aos montes. mas ninguém, nos outros fabricantes, nenhum visionário, líder, polêmico e maverick, com quem seus compradores e usuários se relacionem na intensidade em que isso acontece com jobs.

vá ler, com atenção, a palestra que nussbaum deu, recentemente, em londres, o centro do mundo segundo ele próprio, no royal college of art. uma pérola. eu assino quase cada parágrafo dela… como este aqui: Innovation is no longer just about new technology per se. It is about new models of organization. Design is no longer just about form anymore but is a method of thinking that can let you to see around corners. And the high tech breakthroughs that do count today are not about speed and performance but about collaboration, conversation and co-creation.

não perca. valerá cada pequeno grande segundo do tempo que você dedicar à leitura e reflexão… there is Design as Peter Drucker or Design as Management Methodology. Design is popular today also because Design Thinking—the methodology of design taken out of the small industrial design context and applied to business and social process…

e se você tem ou está montando um negócio de TICs, talvez deva [se chegou até aqui] voltar e ler a palestra de nussbaum todinha [de novo], se perguntando a cada trecho como você pode ser o designer dos desejos de seus clientes, sejam eles gente ou empresas. isso pode ser fundamental pro seu negócio sobreviver…

Blogs que citam este Post

10.05.09

uma olimpíada… de jogos educacionais online

Tags:, , , - srlm às 00:48

numa palestra recente para um importante sistema nacional de ensino, meu primeiro slide era uma pergunta quase óbvia nos nossos dias:

sera que os alunos fugiram

o segundo slide tinha a resposta, em uma única palavra, ocupando todo o gigantesco espaço de projeção no auditório:

sim vermelho sobre fundo preto

este é o estado da arte: em todo lugar, em todas as escolas, públicas e privadas, se os alunos tiverem, em casa ou na rua, a menor chance de estarem na rede e não na sala de aula, é online que iremos encontrá-los.

e não é sem motivo: a sala de aula ficou tão pra trás da realidade [virtual] em que vivemos que dá a impressão que só ficaremos lá se não houver nenhuma alternativa à disposição. pra completar, um grande número de iniciativas que deveria ajudar a reverter tal situação acaba levando pra rede uma filosofia, processos e métodos educacionais completamente desconectados do novo mundo, online, onde os alunos vivem. resultado? fracasso total.

a pergunta da hora é: será que dá pra fazer alguma coisa, online, na escola ou na rede escolar, que atraia alunos e professores para uma experiência lúdica, educacional, sem a chatice que os alunos [principalmente] vêem nos métodos, digamos, clássicos de educação? dá sim. quer ver um exemplo?

o sistema de educação pública de pernambuco está promovendo uma iniciativa pioneira: uma olimpíada de jogos educacionais, uma competição virtual entre times de estudantes que, apoiados por professores, irão desenvolver um trabalho colaborativo, criando estratégias de jogo e se articulando em atividades de resolução de problemas… participando de uma aventura virtual que levará as melhores equipes a uma competição final concorrendo a prêmios especiais vinculados à cultura digital.image

a olimpíada de jogos educacionais [OJE] é uma maratona de jogos online entre equipes [de seis a dez alunos] de escolas estaduais do ensino fundamental [oitava e nona séries] e médio, onde a diversão “esconde” o aprendizado e, além da motivação educacional, há prêmios para os vencedores. pense: jogue, se divirta, aprenda, apareça, forme rede com seus colegas e ainda ganhe um laptop. não tô nem tão velho assim, mas às vezes fico pensando porque é mesmo que não estou nascendo agora…

um dos jogos da OJE [serão doze, este ano] é imuno [veja a tela de entrada na imagem abaixo], onde você comanda uma nave que tenta salvar oswaldyr pontes, cuja vida não é lá muito saudável: nosso anti-herói é fumante, come muita gordura, não pratica exercícios, sofre de bronquite crônica e tem alto risco de ataque cardíaco…

image

imuno explora biologia, anatomia, imunologia, educação alimentar e comportamento. e é divertido. jogar em time é ainda mais divertido: todos constroem, juntos, a estratégia, os mais habilidosos jogam de fato [e ensinam os outros a jogar], o professor tira as dúvidas e ajuda o time. pena que não dá –ainda- pra você jogar; no momento, apenas os alunos pernambucanos inscritos na OJE vão ter acesso aos jogos da competição.

um outro jogo online da OJE é machina [tela do jogo na imagem abaixo], que explora, ao mesmo tempo, princípios de história, geografia e física clássica. pegue uma nave e vá atrás de objetos históricos numa escavação em algum lugar do planeta. e gaste pouco combustível e tempo, pois sua eficácia e eficiência são o que vão levar seu time para o topo da tabela da competição. não é você contra o jogo [veja o regulamento aqui]: é você e seu time, no jogo, contra todos os outros muitos times. isso pega, pode crer.

image

ainda estamos a cinco dias do fim das inscrições e mais de 2.200 times, de 337 escolas em 120 das 186 cidades de pernambuco já estão inscritos, atingindo quase 15.000 alunos da rede estadual. e esta é só a primeira rodada; a depender dos resultados e do marketing real e viral desta edição, podemos ter dez vezes mais alunos na OJE de 2010 em pernambuco, 150.000 de um total de 800.000 alunos.

a OJE é uma iniciativa da secretaria de educação do estado, que não está tendo medo de arriscar, cair na rede e tentar atrair a atenção dos alunos para processos de aprendizado que, queiramos ou não, serão cada vez mais digitais e em rede. a secretaria articulou o desenvolvimento e execução da OJE com o porto digital, arranjo produtivo local de TICs de pernambuco, situado no bairro do recife antigo, envolvendo uma rede empresas de jogos digitais, acrescida do cesar.edu [especialista em conteúdo e processos educacionais], fazendo com que os conceitos e capacidades locais em educação para o futuro e games contribuam para a melhoria do sistema educacional do estado.

mas não só: a iniciativa está sendo essencial para o aumento das competências técnicas e negociais locais em soluções, processos e jogos educacionais, e pelo menos um outro estado da federação e um grupo de escolas privadas já está interessado em ter uma OJE para seus alunos e professores. tomara. os alunos, tenho certeza, vão agradecer.

Blogs que citam este Post

04.05.09

IRPF: hora de inovar, de novo

semana passada foi o fim da temporada do imposto de renda. o conjunto de infraestruturas e sistemas que permite mais de 25 milhões de brasileiros declararem, online, seu ajuste de contas com a receita é um dos mais bem sucedidos exemplos mundiais de governo eletrônico. só os mais velhos, que tinham que enfrentar [além das alíquotas] os formulários de papel e a fila, confusão e carimbos do sistema bancário sabe do que a gente tá falando.

e olhe que governo eletrônico não significa o fim da burocracia. muito pelo contrário: se quem está do lado de lá –o governo- se confundir, os do lado de cá –cidadãos, contribuintes, empresas- podem ter muito mais problemas do que tinham com o velho sistema papel-caneta-e-carimbo. neste aspecto, o brasil é campeão: o peso da nossa burocracia, nos negócios e na vida das pessoas, é quase quatro vezes maior do que cingapura.

mas, no caso do IRPF, houve competência e sorte do lado do governo. declarar imposto de renda no brasil, hoje, é muito simples, mesmo com a parafernália de regras que temos por aqui. como não simplificaremos as regras, no médio prazo pelo menos, está na hora da receita federal inovar [de novo!] e simplificar, radicalmente, a declaração do imposto.

charge de ivan cabral; clique na imagem para visitar o site dele

como? a receita bem que poderia disponibilizar, em seu site, o que ela acha que já sabe sobre nosso passado fiscal recente. de posse do cpf, do recibo da última declaração [fechada] e, caso se ache necessário, de uma assinatura eletrônica [não acho que precisa tanto…] a gente pegaria, no site, o formulário juntamente com os dados que a receita já reuniu, durante o ano, sobre nossa vida fiscal.

de posse desta pré-declaração, tudo o que faríamos seria concordar ou discordar da receita e acrescentar –se fosse o caso- coisas que, por um ou outro motivo, ela ainda não sabe [e vai, não se engane, saber, mais cedo ou mais tarde], ou não confere com o que fizemos. aí a nossa vida, e a da receita, iria ficar muito mais fácil.

é possível? sim. é difícil? não. enquanto o ano se desenrola, a receita já acumula dados de empregadores, empresas, profissionais liberais, todo tipo de negócios e pessoas. nestes dados, já estamos nós e nossas receitas e despesas. ainda por cima, não se muda de emprego todo ano, por exemplo; há uma chance muito boa de que o cnpj de sua principal fonte de renda, ano que vem, seja o mesma deste ano. da mesma forma, filhos não mudam de escola como de camisa; não só a receita poderia deixar no meu arquivo o nome e o cnpj da escola das crianças, se não quisesse me dizer quanto ela acha que eu paguei à escola… mas ela sabe, ao fim do ano, quanto meu cpf transferiu para o cnpj da escola. e eu só teria, se ela me dissesse, que confirmar tal número. ou não.

o mesmo raciocínio vale para um sem número de situações. ninguém se separa e recasa todo ano, troca de médico, de carro, de casa… todo ano. ou seja, a vida das pessoas não sofre uma revolução fiscal em pouco tempo. e todas aquelas que passam por tal alteração caem, como não poderia deixar de ser, na malha fina do leão, até que provem o contrário.

uma parte dos dados, como o endereço, dependentes e bens, já fica armazenada na minha declaração anterior, que é importada para a declaração corrente. mas isso é muito pouco e meu risco é muito alto. quanta gente não perde seu disco, tem o laptop roubado, quantas situações de perda de dados podem ocorrer, entre uma e outra declaração?…mas a receita pode fazer mais, muito mais do que nos entregar, a cada fim de ano, um arquivo contendo o que ela acha que já sabe sobre nós.

pode estar na hora da receita prover, para quem quiser, um IRPF online, como serviço. e não só: em tal serviço, eu deveria poder acompanhar, à medida que passam os meses, como estão ficando meus acertos com o fisco. desta forma, a minha declaração de ajuste [que é o que entregamos na semana passada] seria só de ajuste mesmo, final. seria uma operação muito mais simples do que fazemos hoje, quando temos que entrar dezenas [pra quem tem pouca coisa a declarar] de documentos e passá-los todos pelo crivo do software da receita, em uns poucos dias.

ao mesmo tempo, construir a declaração de rendimentos e ajuste no correr do ano seria mais justo, mais democrático, mais eficiente, eficaz e prático para todos… menos para os sonegadores, que passariam a viver em um ambiente fiscalizado mais de perto e em tempo mais real.

parte deste ambiente, por sinal, está sendo construído no país inteiro, pela via de instrumentos como notas fiscais eletrônicas, que acabam com os velhos blocos impressos, aumentam a confiabilidade da nota, a capacidade de fiscalização e diminuem as possibilidades de sonegação. em pouco tempo, todas as empresas terão que, necessariamente, emitir nota fiscal eletrônica. o que significa que, seja lá o que estivermos pagando, a receita [municipal, estadual e federal…] saberá. na hora. no menor detalhe, tipo big brother fiscal.

ora, diríamos eu e você: me contem fora dessa. mas não dá mais. estamos vivendo um processo antigo, continuado e cada vez mais intenso de virtualização da economia. pode haver cada vez mais dinheiro na rua; mas cada vez menos dinheiro circula usando sua representação clássica de papel-moeda. a moeda, que é um virtual, representante do poder de compra, está sendo virtualizada de vez: deixa de ser metal, papel e plástico e passa a ser informação, pura e simples, registro de transação em [muitos, de preferência] sistemas de informação espalhados pela economia.

imagea receita federal tem competências tecnológicas e humanas para fazer até mais do que se sugere aqui. muito mais. mas já seria muito bom se, na minha declaração de ajuste de 2010, eu e outros vinte e tantos milhões de brasileiros pudéssemos começar a partir do que ela já sabe sobre as nossas contas. tudo muito mais simples e objetivo, governo eletrônico para pagadores de imposto que recolhem [aqui] como os do primeiro mundo e merecem tratamento de primeira classe.

e a história, ou o plano, do IRPF “como serviço”, conferido, preenchido e corrigido online, durante o ano inteiro, todo dia que quiséssemos, poderia ficar para 2011. a receita sabe e pode fazer. é só querer. e tomara que queira.

Blogs que citam este Post

28.03.09

modelo de negócios? reinvente um!

Tags:, , - srlm às 20:10

seja lá qual for seu negócio, de padaria a alta tecnologia, as maiores e mais radicais possibilidades de inovação estão em inovar no próprio modelo de negócios, criando novos níveis de alcance, performance, satisfação de usuários, renda e margens. quem sabe, redefinindo o mercado. aí, o exemplo canônico recente é a apple e o iPod, que chegou num mercado que já estava tomado por outros players… mas com um modelo de negócios que ligava o player às músicas, num ciclo de valor de hardware, software, conteúdo e serviços definido e controlado pela própria apple. o resultado é conhecido: a apple saiu do zero para US$10B de faturamento em iPod/Tunes em 1000 dias, resultando numa multiplicação do valor de mercado da empresa por um fator de 150 no mesmo período.

quer saber mais? um dos melhores artigos sobre negócios de 2008 foi escrito por um dos maiores especialistas em inovação do planeta [clayton christensen, de harvard] em parceria com henning kagermann, CEO da SAP e mark w. johnson, da innosight. o texto [Reinventing Your Business Model] está neste link e vale cada parágrafo. de quebra, ainda há uma curta entrevista de christensen no mesmo link.

mas nem pense em fazer exatamente o que a apple [ou qualquer outra empresa] fez, até porque ela já fez e é dona daquele pedaço. pra ir atrás dela, você teria que inovar sobre o modelo de negócios atual da competição e aparecer com alguma [r]evolução que atraísse, para seu negócio, os clientes dos outros e [mais importante] gente que não é cliente de ninguém… ainda, e vai ser seu. pra inovar no modelo de negócios, você tem que buscar seu próprio caminho e descobrir como revolucionar seu negócio. se der certo [e pra isso você vai ter que correr riscos], você pode estar criando um negócio bilionário. se der errado, comece de novo: afinal de contas, quase ninguém acerta na primeira.

e há, para os pequenos negócios, uma notícia muito boa: menos de 10% do investimento dos grandes, em inovação, tem o modelo de negócios por foco principal. o que significa que você, pequeno empreendedor, tem uma chance muito grande de pegar um grande negócio de surpresa com o seu, inovador e radical, modelo de negócios. pena que, no brasil, a vasta maioria dos novos [e pequenos] negócios seja uma cópia -muito mal feita, na maioria dos casos- do que já existe lá fora [e vai vir pra cá com marca, reputação e moeda forte...]. leia o artigo de christensen, kagermann, johnson e… arrisque!

PS: várias pessoas pediram auxílio para encontrar o artigo Reinventing Your Business Model em português. que eu saiba, não existe uma versão gratuita, na web. mas o texto foi publicado na versão brasileira da HBR em dezembro passado. os assinantes têm acesso ao conteúdo online e você pode ver aqui como conseguir cópias deste e de outros artigos.

em português, o resumo do paper é…

Por que uma empresa estabelecida tem tanta dificuldade para conseguir o crescimento novo que uma inovação no modelo de negócios pode trazer? É simples: essa empresa não entende seu modelo bem o bastante para saber se serviria para explorar uma nova oportunidade ou a asfixiaria. Pior ainda, não sabe como montar um novo modelo quando necessário.

Com base em seu vasto conhecimento de inovações de ruptura e na experiência em ajudar empresas estabelecidas a agarrar oportunidades transformadoras, Johnson, um consultor, Christensen, professor da Harvard Business School, e Kagermann, co-presidente da SAP, apresentam no artigo as ferramentas que um executivo precisa para ambas as tarefas.
 
Toda empresa de sucesso já segue um modelo de negócios que pode ser dividido em quatro elementos: uma proposta de valor ao cliente que ajuda a clientela a executar um trabalho importante de um jeito melhor do que o permitido por concorrentes; uma fórmula do lucro que define como a empresa ganha dinheiro no ato de proporcionar valor ao cliente; e os principais recursos e os principais processos necessários para que honre essa proposta de valor.
 
Uma oportunidade revolucionária traz uma proposta de valor ao cliente radicalmente nova: cumprir determinado papel de um jeito muito melhor (como a P&G fez com a vassoura Swiffer), resolver um problema até então sem solução (como fez a Apple com a dobradinha iPod/iTunes) ou contemplar uma base de clientes totalmente ignorada (como faz a Tata Motors com o Nano, o carro de US$ 2.500 voltado ao indiano que até aqui transportava a família inteira em motonetas). Explorar uma oportunidade dessas nem sempre exige um novo modelo de negócios: na hora de criar a Swiffer, por exemplo, a P&G usou o velho modelo para aproveitar sua força na inovação de produtos.
 
Muitas vezes, no entanto, é preciso um modelo novo para explorar uma nova tecnologia (caso da Apple), ou quando a oportunidade visa todo um novo grupo de clientes (caso do Nano). E certamente é algo necessário quando uma empresa estabelecida precisa enfrentar um concorrente que causou ruptura no mercado (algo que os rivais do Nano agora precisam fazer).

Blogs que citam este Post

Posts mais antigos »

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol