Terra Magazine

sábado, 4 de fevereiro de 2012

a justiça e os limites para novos modelos de negócios

a justiça francesa condenou google a pagar danos de €500,000 à bottin carto, que está no negócio de mapas, mais uma uma multa de €15,000 por práticas anticompetitivas. o cerne da questão é que a bottin vende mapas e google "dá" mapas. pelo menos segundo o advogado da empresa francesa e o juiz que lhe deu ganho de causa, interpretando o tratado de funcionamento da união européia e atacando google [maps] direto no modelo de negócios.

curioso é que estudos sobre inovação mostram [há tempos] que o modelo de negócios é locus importante de inovação e fonte crucial de criação de valor. novas tecnologias, se não tocam nos modelos de negócios, mudam o cenário em muito menor escala do que quando reescrevem parte do mercado.

google, claro, não "dá" nada a ninguém. tudo lá é pago, a empresa não é uma casa de caridade, tem acionistas e lhes deve rendas. o modelo de negócio da maioria dos serviços de google é capturar a atenção dos usuários e usá-la para fazer com que terceiros, que têm um ou mais interesses em nossos comportamentos, paguem a conta. simples assim. google [e faceBook, twitter...] tem um modelo de negócio multifacetado, onde quem está usando um serviço nem sempre está pagando por ele. ou sempre está: em  quase todos os serviços de google, com informação. e há limites: se você "pedir" mais de 25.000 mapas por dia, a companhia já avisou que vai cobrar por uso, e de você.

bottin vende mapas. de certa forma, como google. só que não tem a opção grátis. não tenta vender anúncios a terceiros para fornecer, de graça, mapas a ninguém. talvez por causa disso, eu e você nunca tenhamos ouvido falar deles. o modelo de negócios associado a "mapas" está em evolução há uns 8.000 anos. o mais antigo ainda legível é um mapa-mundi centrado na babilônia, datado do séc. VI AC. na antiguidade, a posse de mapas era poder, que obviamente não se vendia. você já viu isso em tantos filmes que nem dá pra contar. como todos sabem, mapas eram impressos em papel. imagine o efeito que a internet teve nos negócios de todos que viviam disso. eu mesmo não ponho os olhos num guia de estradas impresso há anos. pela ótica da bottin, a internet não deveria ter sido permitida… pelo menos sem que, antes, se indenizasse as casas de cartografia, como as que fizeram a tabula peutingeriana abaixo, único mapa que restou dos cursus publicus do império romano.

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se todas as inovações que rompem com modelos de negócio do passado [ou seja, quase todas de grande impacto] tivessem que indenizar o tal "passado" e seus donos, teria havido haveria dinheiro e energia suficientes, no planeta, pra ter saído da idade da pedra?

faça sua lista pessoal, do fogo e primeiras ferramentas pra cá, e pense o que haveria de novo se cada inovação tivesse que acertar as contas com o passado, qual quer a justiça francesa neste caso.

em terra pátria, tramitou durante 11 anos na câmara o projeto de lei 4502 do então deputado aldo rebelo, que tinha por fim "proibir a adoção, pelos órgãos públicos, de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra". ainda bem que foi detonado numa comissão. tivesse sido aprovado à época do correio a cavalo… até hoje não haveria sedex. nem correio aéreo. internet, então, nem pensar. e ninguém poderia teclar [ou tocar] seus próprios textos, estaríamos à mercê de um exército de esteno-datilógrafas para tal.

pense: fosse você juiz lá na frança, remuneraria a bottin pela "incompetência competitiva" ou os mandaria plantar batatas, talvez usando google maps? google, aliás, vai recorrer da sentença. e tomara que ganhe. se perder, é capaz de explicar de vez porque não vemos muita coisa inovadora vinda da europa: ao invés de criar o ambiente [inclusive legal] para construir o futuro, cada vez mais se reforça as muralhas que tentam, o tempo todo proteger um passado que não dá mais conta do presente.

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sexta-feira, 24 de julho de 2009

imbroglio: TRT aumenta o risco para empresas de TICs

Tags:, , , , - srlm às 01:21

imagine-se uma fábrica de software. um dia, você tem contratos, no outro não. uma das formas de gerenciar seu risco é, ao ganhar um projeto, só aumentar sua força de trabalho numa proporção que você acha que vai ser sustentável ao fim do contrato. esta é uma realidade óbvia em empresas que dependem de projetos, que por sua vez dependem dos humores da economia.

você tinha 200 colaboradores, ganhou um negócio que vai precisar de mais 100 pessoas para executar, mas sua noção de risco lhe diz que seria muito prudente aumentar o tamanho de sua galera em apenas 20%, ou quarenta engenheiros de software. a solução natural, mundial, é terceirizar os outros 60. você não fica com o lucro inteiro, mas diminui muito o seu risco, irriga os cofres de seus parceiros, gera empregos e diversidade, e todo mundo cresce junto.

ainda mais, pode ser que, no projeto, uma boa parte das competências “de software” necessárias para realizar o projeto não sejam específicas de sua empresa ou, mesmo que correlacionadas, você não queira tornar-se competente nelas, pois isso tiraria sua empresa de foco, dispersando energia, em última análise perdendo competitividade.

como se disse, é assim que o mundo funciona. o mundo, mas não o brasil. aqui, cada vez mais, são os TRTs que definem como as empresas têm que funcionar. são os TRTs que definem o que é e o que não é competência essencial das empresas, o que pode ser subcontratado a outros negócios ou não.

uma das principais competências da índia, em TICs e serviços intensivos em TICs, é o que se chama, por aqui, de call center, a galera especializada em –pelo menos em tese- resolver os problemas dos usuários de uma instituição qualquer. ligue pra uma grande empresa americana e, se a [ou o] telefonista atender… será alguém na índia. atender o telefone [mas não só], como terceirizado, agrega renda e valor na índia, onde se criou uma economia de serviços altamente especializada que, juntamente com a de desenvolvimento e manutenção de software, soma US$47B à economia do país e emprega dois milhões de pessoas. muitas milhares das quais [principalmente em software] trabalham para empresas brasileiras: no brasil, terceirizar para o brasil é um grande risco; para a índia, não. isto é incrível.

e isso ocorre nas empresas médias, grandes, gigantescas e diminutas: dia destes conversei com um startup que, vacinado pelos custos e riscos trabalhistas de outras criações de seus empreendedores, tem todo o seu desenvolvimento de software na… polônia. tudo pela web, por encomenda, tudo andando bem, mas nenhum emprego gerado no brasil. à medida que mais empresas descubram como é simples e efetivo fazer isso, perderemos cada vez mais bons empregos… e isso pode não estar muito longe.

a indústria de TICs e serviços habilitados por TICs, na índia, pensa muito mais alto: em 2020, quer ser 6% do PIB do país e 28% de suas receitas externas, empregando de forma direta e indireta 30 milhões de pessoas. e pode pensar em muitas dezenas –ou centenas- de milhares trabalhando para empresas brasileiras, em empregos que poderiam –e talvez deveriam- estar aqui.

mas terceirizar o que você acha, pelo seu entendimento do negócio, pela sua capacidade de tocá-lo, pode ser muito complexo nestas nossas terras. sem nem entrar no mérito da decisão [dado que o autor não tem a competência], veja esta notícia: o TRT das minas gerais decidiu que todos os 4.000 profissionais de atendimento que trabalham para a TIM por lá devem, a partir d’agora, ser contratados diretamente pela empresa. a TIM deve ter um plano de negócios, sem a menor dúvida; se entendesse que o atendimento era uma função necessariamente interna, assim ela seria. mas não, no brasil quem decide o que é ou não essencial ao funcionamento das empresas são os TRTs.

além de ter que contratar os quatro mil, a TIM está condenada a pagar uma multa de R$6M por “danos à coletividade” e multas de adicionais de R$2M para cada caso de descumprimento da decisão do TRT. o imbroglio deve parar no TST e deve servir de exemplo, na decisão final, para o setor. a indústria de call centers, responsável por muitas centenas de milhares de empregos em todo o país, vai aguardar ansiosamente o resultado.

mude o cenário e, agora, imagine a APPLE. a empresa de steve jobs deve lançar uma megaoperação no brasil, em agosto, vendendo tudo. como é bem sabido, a APPLE não fabrica nada, e há muito tempo. como vai importar para vender aqui, o que e como ela faz está fora da jurisdição local, indiscutivelmente. mas… e se resolvessem fabricar o iPhone ou o “novo tablet” aqui, ao invés de taiwan?… será que algum TRT iria se meter no plano de negócios da empresa e exigir que ela contratasse funcionários próprios para fabricar seus modelos no país? a usar o mesmo raciocínio deste caso dos call centers da TIM, é muito provável. até porque a contribuição dos fabricantes, para os negócios da APPLE, é bem maior do que a dos atendentes ao negócio da TIM. exemplo? a foxconn teve um papel muito relevante no design e engenharia do iPhone, além de ser o fabricante. usando as regras do caso que estamos discutindo, o trabalho não poderia ser terceirizado, no brasil, pois desenhar e realizar a engenharia do sistema seria uma competência essencial da APPLE.

no mundo, o que é uma competência essencial? é o que eu sei fazer, ou consigo aprender a fazer, no tempo que eu tenho para fazer, se conseguir fazer a custos competitivos, que mantenha a minha empresa no mercado, gerando receita, renda, trabalho, empregos e impostos. não é o que pensam os TRTs. talvez nós estejamos usando, por aqui, os conceitos do trabalho do começo da revolução industrial, onde o empregado era sempre [e na maioria dos casos era mesmo] explorado pelo empregador e foi necessária [e essencial] um ordenamento das relações entre o capital e o trabalho, para garantir uma sociedade sustentável.

um número de tais regras centenárias continua sendo essencial ao trabalho nos nossos dias [pense férias!]… mas o mundo mundou, muda cada vez mais rapidamente e o brasil, ao continuar com o estado tutelando, em excessos gritantes, não só as relações de trabalho e emprego mas também as decisões –em casos como este- de negócio das empresas, aumenta muito significativamente o risco de se empreender no brasil e, em última análise, age contra o interesse to trabalhador.

se o estado imagina que, quanto mais microgerenciado, mais emprego o mercado vai gerar, se engana redondamente. todas as evidências apontam para o contrário.

no caso dos call centers, é só esperar angola e moçambique se conectarem à internet, de verdade e em larga escala, e começar e mandar pra lá os empregos que [parece que] não queremos aqui. aliás, se há uma coisa que não dá pra entender é como estes dois países, pobres e empenhados em gerar empregos em massa, não entenderam como podem ser a índia… do brasil.

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sábado, 14 de junho de 2008

google condenado [por causa do uso do orkut]

a 6ª câmara cível do tribunal de justiça do rio condenou google a pagar R$10K a uma pessoa que se sentiu ofendida por comentários feitos em uma das comunidades da rede social orkut. a defesa de google alegou que” o usuário é autor do perfil de sua página do orkut; ele é também quem controla qualquer informação inserida por ele próprio ou por terceiros; que seria impossível fazer o monitoramento, controle e bloqueio prévios de inserção de conteúdo e que ainda não há legislação que obrigue os provedores a exercer o controle do conteúdo inserido na internet”… mas não rolou. a justiça do rio manteve a sentença e, espera-se, a companhia vai recorrer até o supremo.

2_235_15220_crime.jpgem casos anteriores [e antigos, de 2005] a polícia chegou nos culpados e eles foram presos; é difícil entender porque, na situação atual, o julgado é a ferramenta e não o ato cometido. se google perder na instância final, quais serão as conseqüências? na web, muitas e radicais. neste blog, por exemplo, o terra poderá ser processado porque alguém [anonimamente] “ofendeu” um outro alguém, nos nossos comentários. no mundo físico, a tramontina será processada porque, ao fabricar facas, criou as condições para que alguém matasse um desafeto. e há as fábricas de ferramentas, automóveis… e tudo o que puder ser usado como meio para agredir alguém [anonimamente]. e o correio, em última análise, terá que responder por todas as cartas anônimas que rolam pelo brasil afora, talvez muitos milhares por dia.

alternativas? muitas. entender melhor o que é a web é uma delas, certamente a principal. os limites e possibilidades atuais da web são muitos e uma pá de coisas não é viável na prática. identificar, de forma irrecorrível, um usuário [da rede] é uma delas. tal dificuldade é quem cria, por sinal, o “problema” lá do orkut [ou aqui no blog], pelo qual google, o dono da rede social, foi condenado. e que pode ser generalizado pra todo lugar, na web, onde seja possível escrever algo sem identificação positiva.

pra complicar, poder-se ia perguntar: e nós, homens e mulheres, queremos viver num mundo onde a via da identificação perfeita possa se transformar em controle total? queremos que todo mundo que comente, escreva, publique seja inequivocamente identificado? que tipo de mundo seria este? matrix? que tal ouvir neo e morpheus?
[morpheus:] a matrix está em todo lugar. à nossa volta. mesmo agora, nesta sala. você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua televisão. você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos. é o mundo que foi colocado diante de seus olhos para que você não visse a verdade. [neo:] que verdade? [morpheus:] que você é um escravo. como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. uma prisão para sua mente.” provavelmente com um endereço ip, móvel, certificado, pra cada mente.

o problema de segurança on-line não é trivial. ainda mais porque estamos em tempos em que o hardware e software da rede redefinem uma parte cada vez maior da nossa cultura em termos de cultware, uma cultura digital, popular, on-line, onde as fronteiras são irrelevantes na maior parte dos casos. no novo mundo de cultware, ainda não temos as interpretações e entendimentos necessários para separar ações, atores e meios. resultado? acabamos condenando o lápis e o papel pelo que o bobo da corte -certo ou errado- escreveu.

este problema não é novo. a tecnologia, domínio das possibilidades, sai na frente. okeyboard.jpg entendimento, vindo das ciências humanas, precisa de experiência e reflexão e, necessariamente, segue o líder, muito tempo depois. aconteceu antes, vai continuar acontecendo. mas como o mundo -em modo beta- gira cada vez mais rápido, podemos ao menos ter a esperança de que o judiciário, à medida em que passe a viver na sociedade da informação, entenda muito mais -e na prática- o que está acontecendo aqui na rede. e que isso leve a melhores decisões sobre os assuntos em que a rede tenha um papel preponderante… ou seja, daqui a algum tempo, todos.

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