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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

livro vira serviço…

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…e enciclopédia também. a imagem abaixo é do "app" da encyclopaedia britannica no iPad, que tamém vai rolar em breve para iPhone e android.

[PTECH]

transformada em app, a britannica custará dois dólares por mês, contra US$70 por ano da versão web e meros US$1400 do impresso, se você quiser ter um na sua estante. e isso se, num futuro próximo, sua casa ainda tiver uma estante.

a wikipedia, como se sabe, é grátis. e tem dezenas de apps pelas quais podemos interagir com seu conteúdo. em relação aos 144.000 artigos da britannica em inglês, a wikipedia na mesma língua tem quase 3,7 milhões de textos, e não há comparação quando o domínio é atualidades: a wikipedia ganha longe, apesar de ser criticada por imprecisão e polarização. nada que crowd curation não resolva. e, enquanto houver uma economia da boa vontade em que uns poucos financiem o que quase todo mundo usa, vai continuar grátis.

a imagem acima é de um "mapa de links", as conexões entre o artigo que você está lendo e todos os outros itens que têm a ver com ele. os links, é óbvio, são para outros textos da britannica. este blog tem dito que o futuro do "livro", ou da literatura, é digital, interativo, estendido, conectado, em rede, compartilhado, como serviço. no mundo real [ou seja, fora e além da britannica] os links de um app de leitura como mostrado acima seriam para todo tipo de fonte "confiável" e "estável" em toda a rede.

estamos vendo apenas as primeiras gerações de tal mudança. a transição papel-kindle deu conta, no começo, apenas da transposição do analógico para o digital. o @author, também da amazon, criou uma ponte interativa entre leitor e autor. de repente, a amazon [jeff bezos, atrasado] conectou 11.000 bibliotecas americanas ao kindle: se você é membro de uma delas, pode tomar um livro emprestado via kindle, sem sair de casa. de repente, também, as bibliotecas estão deixando de precisar de estantes.

sony e barns&noble chegaram às bibliotecas antes da amazon. mas é o peso do maior negócio de vendas online do mundo que deverá mudar tudo mais rápido. os livros que você toma emprestado vão para o kindle, ficam lá pelo tempo do empréstimo, "voltam" para a biblioteca… mas suas anotações "ficam" na sua conta da amazon [e não no seu kindle] e aparecem de volta quando o livro, comprado ou emprestado de novo, "voltar" ao kindle.

não tenho certeza de que chegamos ao modelo de suporte à literatura digital que vai durar séculos, como foi o caso de gutenberg para o analógico. na nova economia da literatura, quase tudo é altamente experimental, a menos da digitalização propriamente dita e da óbvia transformação do conteúdo em serviço sobre múltiplas interfaces. ainda há muito a fazer e estamos longe [veja aqui] das fundações, formatos, funcionalidades, flexibilidade e facilidades que vão definir o futuro de longo prazo do livro digital.

mas que não reste dúvida: o futuro é digital, interativo, estendido, conectado, em rede, compartilhado, como serviço. só estamos tentando, errando e aprendendo para decidir "como"… e não mais "se".

amazon_kindle_books.top.jpg

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terça-feira, 5 de julho de 2011

notícias em rede: sociais e interligadas, quando?

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há dois anos e meio, o blog perguntava: dá pra salvar o bom jornalismo? a pergunta faz mais sentido ainda quando se pergunta se vale a pena "salvar os jornais", e quais…

desde 2005, a internet começou a apontar como principal fonte de notícias no planeta, passando os jornais em 2008 e, claramente, "indo atrás da TV" daí por diante. este, aliás, é o tema de uma análise no the atlantic de janeiro deste ano, de onde vem a imagem abaixo, dos estudos da PEW sobre a internet e a vida americana.

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se você tem menos de 29 anos, desde 2008 a internet é sua principal fonte de informação, passando TV por muito; se tem entre 30 e 49, o mesmo vai acontecer nos próximos dois ou tres anos; entre os que têm de 50 a 64 anos, a internet vai passar os jornais neste 2011 e vai atrás da TV num pique impressionante. rádio, por causa de carros e engarrafamentos, tem hoje a mesma importância que tinha há dez anos. estamos falando dos EUA, claro, mas coisa parecida se aplica ao brasil, quase uma economia-espelho [bem mais pobre...] do que o país do norte.

logo, o problema não é –e nunca foi- salvar os "jornais", ou a "TV" no sentido de manter, a qualquer custo, a dominância dos suportes físicos associados às infraestruturas industriais de produção e distribuição de notícias que têm [ou tinham...] por base rotativas e bancas de jornais ou redações e redes de TV.

o problema a ser tratado e, tomara, resolvido, é como salvar a capacidade de investigar, reportar, libertar a informação para a comunidade, diminuindo a assimetria de informação entre os que decidem [e detêm o poder] e os que serão alvo [quase sempre literalmente] dos resultados de suas decisões.

estamos num estágio intermediário entre rádio, jornais e TV e um rico, complexo e poderoso ambiente social de notícias em rede. os sinais são muitos. o guardian e o observer, por exemplo, deixarão de publicar sua edição internacional em papel, para concentrar esforços na editoria e entrega em rede. papel está terminado como meio de transmissão de informação, papel que exerceu por séculos a fio, para o mundo todo.

newspress

acima, uma "double octuple newspaper press" de 1911, que podia imprimir, dobrar e contar 96.000 jornais de 16 páginas por hora. o papel que esta prensa exercia migrou para a rede nos últimos anos mas a mudança que vimos, até agora, é só o começo.

o livro e o jornal lineares e estáticos como os impressos na maravilha mecânica da imagem ainda estão sendo transpostos para a rede quase ipsis litteris, como se tudo a fazer em um jornal ou revista na rede fosse publicar o mesmo material na web, na mesma forma em que se fazia no tempo de comunicação para disseminação de informação. aqui mesmo no blog, há um número de leitores que ainda não entende que isso aqui é um link, uma ligação para um conteúdo noutra página, na maioria das vezes fora do TERRA

tudo bem, só faz 15 anos [apesar do conceito e seus primeiros protótipos terem quase 50...] que a noção de hipertexto começou a se disseminar; ninguém é obrigado a saber que existe e a saber usar, muito menos [no caso dos sites dos jornais na web e nos livros digitais] a saber escrever de forma hipertextual. mas assim é a web: nós, conteúdo e links, um grafo.

no lançamento de um livro em recife na sexta passada, combinei uma palestra sobre literatura na era digital. vai ser num lugar de livros e literatos e propus que o título da conversa seja… "o fim do livro". ao ouvir tamanha afronta, uma senhora perguntou: o fim do livro? onde foi que você leu isso? claro que a resposta esperada era… num livro; e a que eu dei foi "na web, claro". web –ou rede hipertextual- como a definida por ted nelson em xanadu, na década de 60… [veja este link, a partir da pág. 123]

"Well, by ‘hypertext’ I mean non-sequential writing - text that branches and allows choices to the reader, best read at an interactive screen. As popularly conceived, this is a series of text chunks connected by links which offer the reader different pathways."

…coisa que todos, ainda, vamos aprender a fazer e usar, em tudo que vai substituir as noções de jornal, livro, TV e rádio no médio e longo prazos. não é possível que eu não vá poder "clicar" em qualquer rádio [ou melhor, no fluxo que ela está transmitindo] pra ver onde mesmo é que fica a cidade onde estão dizendo que houve um terremoto, furacão ou algo assim.

afinal de contas

“Digital textuality opens an infinite field to expand literary expression. The difference between print and digital texts can be put simply: print text is static, digital text is dynamic.”

…o impresso [e o rádio e a TV atuais] são estáticos, e o digital, hipertextual, é dinâmico. mas’isso não é tudo: à dinâmica do digital vamos associar as conexões e as possibilidades do grafo social da web. e aí, quem sabe, está o futuro não só da literatura que costumava ser embutida no livro mas de todos os tipos de conteúdos, incluindo o que hoje chamamos de notícia.

imageo processo de digitalização da literatura está adiantado: a coréia, um dos lugares onde o digital, conectado e móvel está quase sempre à frente do resto do mundo, decidiu digitalizar todos os livros escolares até 2015 e vai substituir as mochilas dos alunos [que andam cada vez mais pesadas e há muito são um dos riscos à saúde dos estudantes] por tablets. a idéia é simples…

…the Ministry of Education, Science and Technology announced [that] it will invest US$2.2 billion by 2015 to create an environment where students can study using better and more interactive content anytime and anywhere… develop[ing] digital textbooks for all subjects and all schools;… digital textbooks will contain the contents of ordinary textbooks and various reference resources such as multimedia and FAQs to help students understand the materials better. …[all the material will be available over] a cloud computing system…, so that users can access a database of all digital textbooks and choose what they want from their tablet PCs…

…e os coreanos têm uma esquisita mania, raramente vista por aqui, de fazer o que planejam, e mais ou menos no prazo, no longo prazo.

começando por lá [e nós depois, mais uma vez, usando só como clientes...] e pelos alunos, que serão educados sobre plataformas digitais, conectadas, sociais, não há qualquer chance de que o analógico, na forma de livros, jornais ou rádio e TV clássicas, vá ser mais do que uma curiosidade no futuro.

por isso que está quase passando da hora, agora, de testar os formatos e modelos de negócio para conteúdo digital, interativo e social [e isso inclui, veja só, a bíblia].

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essa é, talvez, a grande notícia destes tempos. o resultado vai ter a forma de paper.li, flipboard ou vai haver um guardian digital, universal, pra ser lido no kindle, nook e web? pouco importa: a hora ainda é de experimentação, se bem que há quem esteja ganhando dinheiro, hoje, sem fazer ideia de quais são e como vão estar os formatos e conteúdos daqui a dez anos.

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

livro de papel: compre logo, antes que acabe…

Tags:, , - srlm às 12:53

toda vez que discuto a evolução do livro com qualquer público e digo minha posição [elementar, de que o livro de papel "vai desaparecer"] uma parte considerável da audiência de mais idade refuta minha tese de forma radical. um dos argumentos usados é o "tátil", de que precisamos "sentir" o papel, de que estamos acostumados ao passar de páginas, ao peso do livro, ao "shhhssshh" do escorregar de uma página noutra ao folhearmos um tomo qualquer.

ninguém usou como argumento, até agora, o mofo das estantes [seria o argumento "olfativo"?... ou "alergênico"?...], as traças, o amarelecimento natural do papel, os amigos que nos tomam livros emprestados e não devolvem nunca mais [nem nós pedimos, pois não lembramos a quem emprestamos]… e por aí vai.

mas tem um ruma de gente que pensou nestas objeções ao fim do papel como suporte para o livro. e elas, certamente, são tão boas quanto qualquer outra. pra citar uma, pessoal, dobro a quina das páginas interessantes dos livros que leio e isso me serve de mapa de releitura da maioria deles. como se não bastasse, escrevo nas bordas das páginas, enquadro parágrafos com marcadores coloridos, hachurio sentenças, colo postIts, insiro material de jornais, revistas e outros livros dentro de um livro que estou lendo. em suma, meus livros pessoais são "aumentados" pelo meu processo de leitura, criando um novo e muito "meu" livro.

nada disso está disponível nos ebooks e seus leitores atuais e eu continuo apostando que os livros de papel vão acabar, e rápido. como pode?…

olhe para o passado recente: há cinco anos, não havia um só dispositivo móvel no qual pudéssemos encapsular pelo menos parte da experiência de ler livros. o kindle, primeiro sistema [e não dispositivo...] digital prático para codificar livros, foi lançado em 19 de novembro de 2007. todo o estoque foi vendido em menos de seis horas, por US$399 cada, e a coisa só apareceu no mercado, de novo, cinco meses depois. a versão em software do kindle está disponível para múltiplas plataformas, de windows a blackBerry.

aí… entra o iPad: 200.000 vendidos no primeiro dia, um milhão no primeiro mês. e isso foi em abril de 2010, mês em que aparecerem mais de cinco mil aplicações no mercado e foram feitos doze milhões de downloads. os quatro primeiros meses de disponibilidade ampla do iPad estão correlacionados a um aumento de 20% na pirataria de livros só nos três principais repositórios de compartilhamento de arquivos do planeta, como mostrado no gráfico abaixo..

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o mesmo estudo aponta para um aumento de mais de 50% na pirataria de livros nos doze meses a partir de agosto de 2009, debitando o aumento, em parte, à possibilidade de downloads imediatos de livros disponíveis na web, seja lá em que parte dela estiverem, legal ou ilegal.

do iPad para cá, um número de tablets foi lançado e não há um fabricante que não os tenha ou não vá colocá-los no mercado ainda este ano. o iPad ainda domina o mercado dos mais-que-leitores mas motorola, samsung, hp, acer, toshiba, dell,… todo mundo está indo atrás da mina de ouro que a amazon descobriu e que a apple apontou como explorar em escala muito maior.

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se o kindle é um sistema para encapsular os "livros de gutenberg", simples arquivos de texto e imagens, máquinas como o iPad e o XOOM [imagem acima] podem fazer muito, muito mais. os tablets devem redesenhar todo o cenário de portabilidade da computação, controle e comunicação, criando a classe dos Sistemas de Informação Pessoais [e Conectados], os SIPc’s, capazes de fazer muito mais do que apresentar a informação visual estática de um livro "de gutenberg".

pense em livros animados. em simuladores de experiências de física que vão ser manipulados diretamente nas páginas do "livro virtual". e que tal explorar geografia, história, sociologia… sobre mapas interativos, atuais e históricos? e mais: como não fazer isso "socialmente", junto com gente que tenha os mesmos interesses? podemos anotar, questionar, discutir, corrigir [os erros dos livros, as razões de seus autores...], perguntar [ao livro, ao seu autor, aos editores...].

e não só: podemos resenhar, criticar e explicar o livro "ampliado" de que estamos falando aqui, tratando-o sempre como uma obra em rede. mesmo ficando o livro em si "fechado", no sentido de terminado pelo autor, enquanto houver nem que seja uma única pessoa que o leia, haverá a possibilidade de novos comentários, críticas e sugestões serem adicionados ao material.

e isso vai rolar, claro, no mercado: imagine que um livro seja vendido por X… e que uma resenha dele seja tão boa que as pessoas passem a comprar a resenha por 0,5X… e que mais resenhas do que livros sejam vendidos… e que o autor do livro, por ter criado [digamos assim] a plataforma original, seja remunerado também com uma porcentagem da renda das resenhas. aí, todos ganham e os incentivos, neste mercado, são muito maiores do que os existentes no mercado de livros que conhecemos hoje.

claro que, para tal cenário acontecer, os livros nunca vão "estar" em um iPad ou XOOM, mas em rede. na rede e conectados em rede, sempre. e aí é que está outro X, o da questão: como em todos negócios em rede, hoje, quase todos os agentes [da microsoft a google a apple a facebook e amazon e muitos mais...] estão trabalhando para fechar suas plataformas de serviço com os clientes dentro, criando silos para seu conteúdo, que de lá só sai pirateado, é preciso reverter tal situação para um cenário aberto.

este é o grande problema que teremos que enfrentar para que os livros, desde sempre um dos fatores libertários da humanidade, voltem a cumprir seu papel, de irem sempre o mais longe possível e ao alcance de todos, seja lá onde e por que meio de acesso tentarem.

podemos ser otimistas neste aspecto? acho que sim, porque na rede [de todos os tempos, passado, presente e futuro] a propriedade de "seus" dados e bens digitais deve, tem que ser sua; você tem que ser capaz de controlar sua identidade digital e disponibilizar que parte dela você quiser, sob seu exclusivo controle, para quem você achar que deve.

e o mesmo deve ser o caso para seus "bens" digitais. sua "cópia" de um ebook é sua e não da amazon, iTunes ou qualquer "market" digital. ainda vamos levar um monte de tempo para chegar a esta conclusão, inclusive do ponto de vista legal, mas vamos chegar lá. seria muito mais produtivo se congressos, mundo afora e aqui, ao invés de estarem discutindo a criminalização de comportamentos na rede, estivessem considerando questões bem mais relevantes como esta. mas é só uma questão de tempo, e vai acontecer naturalmente, quando os representantes começarem a ler… ebooks.

do ponto de vista técnico, o futuro deve chegar bem mais rápido, como sempre acontece. uma visão como a de tim o’reilly [de que livros vão se parecer com a internet] vai acabar prevalecendo e o "padrão" de livro [e biblioteca] eletrônico que vai dominar o mercado será de certa forma indistinguível dos padrões da própria rede. isso significa que o formato de representação de conteúdo, as APIs [sim, estamos falando de livros "programáveis"] e as funcionalidades que eles representam vão abrir incontáveis possibilidades de interação com ebooks e construção de novos conteúdos sobre o que um dia chamamos de livro.

e você diria… precisa mesmo de toda esta complexidade ao redor dos livros eletrônicos? os livros de papel não são muito mais simples? não. o livro de papel é resultado de uma grande e complexa rede de indústrias que começa no agribusiness [celulose...], passa por fábricas de papel, aliás, de papéis especiais que tiveram que ser desenvolvidos para os livros, pelo desenho e construção dos tipos e máquinas da indústria gráfica, pela composição e ilustração dos textos, pela logística de entrada e saída das gráficas e editoras, pela legislação especial para literatura [que não paga imposto de importação no brasil, por exemplo]… e por aí vai.

os ebooks, ou melhor os weBooks, os livros na web, vão reutilizar parte desta rede de valor, mas precisam de um outro conjunto de coisas, de certa forma bem mais simples, para "funcionarem" em rede como deveriam. e isso está começando a acontecer agora, enquanto você está lendo este texto na web. é por isso mesmo que, se você quiser uns livros de papel para mostrar para seus netos… compre agora, antes que acabem…

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

o livro digital e seus direitos de leitor

parece que os livros digitais vão começar a ser um mercado, de verdade e em breve. a amazon está lá, a sony também, assim como a barnes & noble e agora a apple, trazendo seus fanáticos consumidores para a cena do livro digital. sim, e há um monte, dezenas, de xing-ling-readers, pelo menos meia dúzia dos quais tem aspirações a ser a hyundai do livro digital. mas há que se lembrar que o “reader”, o dispositivo que fica na sua mão, é só uma pequena parte da solução. ou uma grande parte do problema, você escolhe.

claro que ninguém sabe, a esta altura do campeonato, o que vai acontecer com o livro digital; aliás, este foi o tom das discussões do primeiro congresso internacional do livro digital, CILD, que rolou em são paulo semana passada; este blog esteve na conversa e os slides da palestra estão neste link.

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este blog já discutiu, mais de uma vez, o livro digital e sua economia: mais recentemente, falamos sobre a chegada da pirataria digital à literatura, coisa que está para acontecer de várias e muito efetivas formas. num artigo correlato, reproduzimos um grande texto de nelson motta sobre as mudanças que o universo digital impingiu ao mercado de música, onde nelsinho deixa claro que, do ponto de vista de conteúdo e informação musical, a descentralização do poder e da capacidade de “produção”, resultados diretos da digitalização em rede… “pulverizou a informação e transformou um céu de poucas estrelas muito brilhantes em novas constelações e galáxias”. ao invés de poucos e “grandes” artistas, muitas, pequenas e grandes, possibilidades. como diria clay shirky, haja filtro.

pois é; de um jeito ou de outro, vem aí o livro digital e, com ele, a aplicação da lei de zucker ao mercado literário. jeff zucker, CEO da NBC/U, disse um dia quea revolução da informação é a transformação de dólares analógicos em centavos digitais”. troque o contexto geográfico e moeda dele pelos nossos e você vai ter uma idéia do que já acontece aqui na música e vídeo e acontecerá em breve na literatura. este. aliás, foi um de meus slides no CILD, reproduzido abaixo.

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mas isso é o mercado e, de uma forma ou de outra, ele vai se resolver. e este post é só sobre um dos temas mais quentes ao redor dos livros digitais, que eu passei quase ao largo na minha apresentação no CILD: quais são os direitos do leitor do livro digital? tipo… se você compra um livro [e paga por ele…] e, de repente, ele é recolhido pelo editor ou por ordem judicial, a sua cópia digital é recolhida? sim ou não? se sim, você é reembolsado? se o seu leitor for o kindle, a resposta é sim; e se for o iPad? a apple é mais radical e faz, e estará fazendo censura prévia de conteúdo, já para bater o centro. mais radicalmente, se um golpe de estado proíbe um livro que você tem [e certamente, leu] e resolve ir atrás dos leitores, os ditadores conseguem seu nome e endereço do fornecedor do seu livro? sim ou não?…

literalmente, o controle que a amazon e a apple querem exercer sobre seu modelo de livro digital é mais uma tentativa, em tempos de rede, de retornar o poder para o centro. aposto, pelas mais variadas razões, que não vai funcionar. e, pra não ficar só na aposta, aponto para e traduzo, aqui, parte de um texto da electronic fronteir foundation, a EFF, sobre livros digitais e os direitos dos leitores, que aponta oito principais crivos de sanidade para seu leitor digital. ah, lembre-se: seu leitor está em rede; ele não é um mero dispositivo e sim um sistema, tem um monte de software dentro e por trás dele e, não por acaso, troca dados sobre seus hábitos de leitura no mínimo com quem lhe vendeu o conteúdo.

vamos ver o crivo da EFF, que faz perguntas muito importantes sobre este novo mercado; ao lê-las, tenha em mente que estamos falando sempre de um sistema, cuja ponta visível é um dispositivo digital que mostra conteúdo e faz, ou deveria fazer, muito mais. e parte do problema é exatamente por aí: quanto deste mais é de nosso interesse e está sobre nosso controle?

1. seu e-reader [como um todo, serviço incluído] respeita sua privacidade? será que o sistema limita o envio de informação sobre o que você está lendo? e deixa você controlar a informação que ele coleta e envia [para outros sistemas] sobre você?

2. seu leitor lhe diz o que está fazendo? ou seja, mesmo que esteja enviando seus dados para o mundo, você sabe disso? seu leitor permite investigar se ele está vazando informação sobre você para algum ouvinte externo?…

3. o que acontece às adições feitas por você [comentários, anotações…] aos seus livros digitais? você é o dono e guardião delas, podendo controlar quem e como tem acesso às mesmas?

4. você é o dono do livro que lê ou só alugou ou licenciou o mesmo? você pode emprestar seu e-book? pode revender? seu livro pode ser editado ou deletado pelo vendedor por alguma razão?…

5. seu e-book é resistente à censura? quão fácil é tirar os livros dos leitores em função de alguma decisão de governo, justiça ou outra qualquer? os seus livros, “no” leitor, são controlados por uma entidade única, sujeita a pressão política ou qualquer outra, que venha a implicar na censura aos seus e-books como consequência?

6. seus livros digitais são “protegidos” por algum tipo de DRM [gestão de direitos digitais]? como DRM limita seu uso do livro? seu livro digital, em particular, só “funciona” no seu dispositivo atual? o que acontece se você trocar de dispositivo? vai ter que comprar seus livros “de novo”?…

7. sua escolha de “sistema” de livro digital promove o amplo acesso ao conhecimento? os autores podem, ou não, usar licenças do tipo creative commons ou doar o material ao domínio público? em que condições?

8. um particular sistema de livros digitais promove ou inibe a competição e inovação? ao comprar um sistema, você casa para sempre com um tipo de leitor e um formato de livro? seu provedor de literatura digital depende de ou promove acordos que limitam a competição?…

muitas boas perguntas, muitas delas sem nenhuma resposta de nenhum dos sistemas hoje no mercado, o que as torna um ponto de partida para a especificação de um conjunto de alternativas futuras, interoperáveis e transparentes, dos sistemas que realmente queremos usar.

de qualquer forma, as nossas esperanças de não perder o controle sobre nossas vidas e hábitos, da periferia para o centro e mesmo no confuso cenário atual, são muitos: alguém hackeou o iPad logo no primeiro dia e abriu as entranhas da coisa pra gente mexer no que quiser, correndo o risco que quiser. esta vai ser uma longa luta da comunidade, na periferia, contra os provedores, no centro, que querem ter nas mãos cada um dos nossos bits e, quem sabe, neurônios.

não é por acaso que o título da minha palestra era… literatura digital: o passado recente e o futuro próximo, vistos de um presente confuso… pois ainda falta muita, muita definição, padrões e, quem sabe, regulação, além de muito tempo e recursos investidos em tentativas, erro e aprendizado, até que a coisa toda fique mais ou menos normal, daqui a alguns anos, uma década, quem sabe. até lá, trate tudo deste mercado experiência.

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

pirataria [digital] chega à literatura [de uma vez por todas]

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que o suporte físico para áudio e vídeo está com os dias contados, não é novidade pra ninguém. a mudança do suporte físico [analógico] para o virtual [em rede, digital] desestruturou uma indústria secular, que havia começado com o gramophone da vovó. em alguns anos, a velha indústria de áudio e vida será só história, nada mais.

a pergunta que temos que fazer, agora, é: será que chegou a vez da mesma transição na literatura? até agora, o suporte físico clássico dos livros, o papel, vinha resistindo bravamente. livros tem um tempo de vida longo, as pessoas carregam de um para outro lugar, leêm na cama, no avião e nas praças, emprestam, armazenam em biblotecas, trocam, vendem pros sebos, enfim, existe uma longa história de uso pessoal e social do livro.os jornais e as revistas, bem… os jornais estão passando desta para a melhor. apanham até do twitter: twitter.com tinha 19,4 milhões de usuários no final de abril, nytimes.com tinha 15,5M e wsj.com estava ali pelos 12,2M. os jornais que não viraram portais parece que, também, já viraram história.

 

mas agora pense, no caso dos livros: e o sony reader? e o amazon kindle dx [imagem acima], que vem com qualidade “jornal”, tela de quase 10 polegadas, bateria para dias de leitura sem recarga e memória para carregar 3.500 textos, ou quase todos os livros que você leria na vida?…  já existem 275.000 livros disponíveis para o kindle, e o número cresce todo dia.

e isso não vai ficar por aí: o kindle ainda é P&B, meros 16 níveis de cinza, mas a philips está para lançar –em escala industrial- um “papel eletrônico” colorido [imagem ao lado] que vai, de novo e muito em breve, mudar as regras do jogo. o e-paper da companhia holandesa tem um brilho três vezes maior do que os atuais monitores de LCD e pode representar, também, o apagar das luzes desta tecnologia, ainda mais porque seu consumo de energia é muito menor.

como se não bastasse, o que dizer dos serviços online de compartilhamento de documentos, como slideshare.net, wattpad.com e scribd.com? cada um destes é uma plataforma de gestão de ciclo de vida de informação digital –conteúdo- que começa a ter um efeito cada vez mais global na disseminação de literatura digital, não necessariamente obedecendo os termos do copyright impresso [ou codificado] no material, digamos, original.

aí, então, você pode achar, na rede, o “livro proibido” de roberto carlos, a biografia do rei, muito bem pesquisada e escrita por paulo césar de araújo, que foi confiscada das livrarias por ordem judicial. no scribd.com, ela está neste link. quando tirarem de lá, vai estar noutro. só no scribd.com, há dezenas de links com a biografia “proibida”.

o caso da biografia do rei acentua um duplo problema: primeiro, o “livro” está na rede, compartilhado [pirateado?] muito provavelmente sem licença do autor e da editora; depois, descumpre-se uma decisão judicial que retirou a obra de circulação. os leitores agradecem, pois se trata uma obra de primeira, que consegui comprar antes da proibição, mas todo o resto do sistema de suporte literário, inclusive o aparato legal atual, vai pro espaço.

 

passado o calor da discussão sobre digitalização, rede, áudio e vídeo, é bem possível que o kindle dx, o e-paper colorido, flexível, de alta resolução e brilho, e os serviços de compartilhamento de “livros” e documentos sejam o começo do fim do que conhecemos como a indústria do livro.

e eu tô me inscrevendo na fila pra comprar uma coisa do tipo “kindle” colorido, de alta resolução, em rede, assim que for lançado no brasil. tomara que seja logo. minha coluna, cansada de carregar livros de papel por aí, vai agradecer. muito.

 

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