Terra Magazine

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a volta do "ciberespaço"

william hague é o equivalente do ministro de relações exteriores de sua majestade elizabeth II. lá, o nome literal do cargo é, simplesmente, o "secretário do estrangeiro". olhando do ponto de vista de mr. hague, o "estrangeiro" online está se transformando em um megaproblema.

ao ponto do governo inglês ter provocado e organizado a primeira grande conferência mundial de "segurança do ciberspaço". sim, ciberespaço, uma forma de nomear a internet que andava meio fora de moda. mas que pode fazer sentido, se a ótica for de que a internet –a rede- é a base para um ambiente que acontece sobre sua infraestrutura, serviços e aplicações. no topo desta tríade, rola um "espaço virtual", que interfere e se mistura com o concreto… e é este lugar que poderia ser denominado "ciberespaço".

o governo inglês quer que todos os outros países comecem a entender um bocado de coisas sobre a rede [ou o "ciberespaço"]  e sua segurança. avalia que ataques virtuais já custaram US$43 bilhões à economia da ilha e são a causa [direta] da falência de um fabricante de turbinas eólicas. por baixo do pano, diz-se que a culpa é da… sim, você adivinhou, da china. a coisa chegou a um ponto em se publica uma "matriz de retorno de investimento para crime virtual" que ser vista na imagem abaixo [para 2011], tirada deste relatório. e roubo de dados está lá, na crista da onda.

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segundo william hague, a conferência terminou com quatro mensagens bem claras para os governos: 1. seja lá qual for o país, o crescimento do crime virtual é uma ameaça séria para seus cidadãos e tratar este problema tem que deixar de ser uma atividade ocasional para se tornar parte das políticas, estratégias e operações de todos os países; 2. a internet não deve ser tratada como sendo propriedade dos governos e conter os problemas de segurança discutidos na conferência só vai ser possível trazendo para muito perto pessoas e instituições que estão fora do governo; 3. ataques virtuais incentivados ou apoiados por governos não interessam a ninguém no longo prazo e devem ser contidos imediatamente e 4. ignorar as forças da rede, que pedem e promovem mais transparência, abertura e intercâmbio, à guisa de tratar os problemas de segurança… é uma má ideia e vai dar errado.

hague ainda disse que a mensagem da conferência aos empreendedores e companhias é… continuem inovando; mantenham o fluxo de ideias e trabalhem junto com seus governos para salvaguardar propriedade intelectual e prevenir o crime virtual. para os indivíduos, o secretário inglês deixou claro que "este é o seu debate": sem as pessoas e sua participação, a rede não seria o espaço de expressão e diversidade de conteúdo e opinião global que é. e seu valor e importância seria muito menor. irrelevante, talvez.

um número de países não acha que deveria ser assim e está propondo, na ONU, um código de conduta global que chega perto de "relocalizar" a rede, como se a internet em cada país fosse a "sua" rede, para a qual valeriam controles geográficos e de fronteiras do começo do século passado.

joe biden, vice-presidente dos estados unidos, discorda:

"What citizens do online should not, as some have suggested, be decreed solely by groups of governments making decisions for them somewhere on high… No citizen of any country should be subject to a repressive global code when they send an email or post a comment to a news article. They should not be prevented from sharing their innovations with global consumers simply because they live across a national frontier. That is not how the internet should ever work in our view."

este embate faz parte do vai-e-vem da vida inteligente no planeta, nos eixos do espaço e tempo. toynbee já dizia que a civilização é um movimento e não uma condição, uma viagem e não um porto. por um tempo, pode ser possível "conter" as forças que se articulam na [e em] rede. pouco tempo. o tempo social, no entanto, é longo. esse "pouco" pode ser 50 anos. mas mais cedo ou mais tarde [pense daqui a cem ou, radicalize, mil anos] vai haver um só planeta, uma só civilização. com seus sotaques e costumes locais, claro. mas muitas coisas vão ser globais, como a grécia demonstra hoje em dia: pra ter a mesma moeda, tinha que ser a mesma economia.

na internet, ou no tal ciberespaço da conferência inglesa, pra fazer parte da mesma rede vamos ter todos que seguir os mesmos princípios, mais cedo ou mais tarde. de segurança, também.

mas não vai ser fácil. e vai ser preciso muito mais de uma conferência. esta pode não ter sido muito boa. ou um completo fracasso. e os princípios propostos por uns podem não ser aceitáveis por muitos. pode até ser que o reino unido tenha realizado tal encontro para se redimir de ter pensado em censurar a rede no quebra-quebra de londres. mas todos concordam que é preciso agir para garantir que todos vão ter acesso confiável e seguro à rede, tão livres de restrições e ataques quanto possível e que, sem uma ampla colaboração internacional, isso não vai acontecer.

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é muito provável que o cenário que queremos para o planeta seja o que o GBN e a rockfeller foundation descrevem como "clever together", ou todo mundo muito esperto, junto, o que quer dizer alta adaptabilidade e alto alinhamento político e econômico. travar a rede, criar restrições para o maior engenho de alinhamento e crescimento [em todos os sentidos] global, seja lá por qual razão for, não é um bom começo. tomara que nem tentem. e, se tentarem, aí é que vamos ter que nos alinhar e provar que valemos os links das redes que estamos construindo.

na rede, o problema é muito mais complexo e bem maior do que segurança. a imagem abaixo é um link para um relatório onde se discute os possíveis cenários para a internet em 2025, ou como vamos evoluir de uma rede de 2 bilhões de pessoas [e 3 trilhões de dólares anuais] hoje para 5 ou 6 bilhões de pessoas, lá, e todo um novo mundo pra se conectar e [re]descobrir.

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ciberespaço, internet, rede ou web, a história do virtual só está começando. e as decisões desta década terão impactos profundos nas próximas e todo cuidado é pouco. e o cuidado com a rede… tem que ser em rede.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

a guerra santa [nos ônibus do mundo?]

Tags:, , - srlm às 10:21

em julho passado, este blog deu conta de uma campanha de mídia ambulante que estaria nos ônibus de londres [e de muitas outras cidades inglesas] neste janeiro, patrocinada por grupos ateístas, agnósticos e outros. a principal estrela do projeto foi um placar, na lateral dos ônibus londrinos, onde se lia… "provavelmente, deus não existe. pare de se preocupar e aproveite a vida". você pode ver o resultado na foto abaixo, onde também aparecem [da esquerda para a direita] a comediante ariane sherine [que iniciou o movimento] o cientista e escritor richard dawkins e a escritora e colunista [do guardian] polly toynbee.

imageagora, a campanha começa a se espalhar pelos vagões do metro de londres, onde foi fotografado o cartaz abaixo, que cita douglas adams, autor do hitch-hiker’s guide to the galaxy, ao lado do slogan do movimento: será que não dá só pra ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar que há fadinhas por perto?…

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sherine conseguiu muito mais do que queria, tanto em fundos para o esforço [o plano inicial era levantar US$8K, já conseguiu US$220K] como em disseminação mundial: campanhas similares já rodaram em barcelona, madrid e washington, d.c. e, em março, haverá posters em gênova com os dizeres… a má notícia é que deus não existe; a boa é que não precisamos dele. mais polêmica à vista, nas ruas, metros e ônibus, sem nenhuma dúvida.

até porque, segundo a revista time, os cristãos estão começando a reagir, e por londres, hoje: três grupos de crentes começam, esta semana, a rodar anúncios em 125 ônibus londrinos apregoando [de várias formas] a existência do divino. um partido religioso vai direto ao ponto… claro que deus existe; entre no partido cristão e aproveite a vida. a london’s trinitarian bible society entra mais pesado, tentando desqualificar a competição através do salmo 53.1: diz o néscio no seu coração: hão há deus.

e isso pode ser só o começo. o pessoal da BHA, a british humanist association, parece ter dinheiro de sobra, no caixa, pra rodar uma tréplica à campanha da fé. de um e de outro lado, os homens e mulheres de bem, crentes [veja aqui a aposta de pascal] ou não [veja aqui o argumento de russell] esperam que tudo seja apresentado, como se diria, na mais santa paz.

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

a aposta de pascal e outras apostas

cerca de 30 ônibus londrinos estarão carregando uma propaganda muito diferente em janeiro: um placar em toda a lateral do veículo dirá que… "provavelmente, deus não existe. pare de se preocupar e aproveite a vida". a idéia é da BHA, british humanist association, que planejava levantar uns R$20 mil pra propagar a idéia de que as pessoas têm que se preocupar um pouco mais com o aqui-e-agora, as outras pessoas, o mundo ao nosso redor… em suma, com a vida real. para surpresa da própria associação, mais de R$700 mil já estão em caixa para sustentar a campanha, que deve durar um mês e que pode, por excesso de fundos disponíveis, se espalhar pelas principais cidades do reino unido. a foto abaixo é de uma maquete do que será o anúncio.

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para uns, ao invés de ajudar a espalhar a felicidade, a aposta da BHA pode fazer justamente o contrário. por que? um argumento filosófico interessante para se apostar na existência de deus foi proposto por pascal, no que veio a ser chamado "aposta de pascal", que rola mais ou menos assim: você não perde nada em apostar que deus existe. apostando nisso, e se ele existe mesmo, você ganha muito; senão, as coisas ficam como estão. e você, se não estiver entregando dinheiro para alguma das falcatruas convertidas em igreja que existem por aí, não perde nada. caso contrário, se você aposta que deus não existe e, de repente, é provado que ele existe, você se lasca; caso contrário, as coisas ficam como estão. segundo pascal, pelo sim, pelo não, é melhor, do ponto de vista do resultado pessoal, apostar na existência do todo-poderoso.

para os ônibus londrinos, é um ciclo que se fecha, depois de haver, por lá, propagandas católicas, islâmicas e de quase todo outro credo que se possa imaginar. e nós com isso? nós podemos apostar de verdade no assunto, em dinheiro real, pela internet! a casa de apostas inglesa paddy power, especialista em apostas esportivas, também tem uma categoria de apostas religiosas e está pagando 4 por 1 na aposta Does God Exist? se você acredita mesmo e acha que pode ganhar bem mais neste negócio do que na bolsa [que, de resto, anda um inferno], junte seus caraminguás e faça esta "aposta de pascal". mas cuidado: toda aposta tem regras e esta tem regras particularmente estritas: você quadruplica seu capital somente se… scientific proof emerges by 31st Dec 2009, to confirm his omnipresence in order for bets to be deemed winners.

a história recente desta aposta tem a ver com o large hadron collider [LHC], mega-instrumento científico multinacional que está procurando o que alguns erroneamente chamam da "partícula de deus", o higgs boson. quando o LHC entrou no ar, a aposta pagava 20 por 1… quando quebrou, passou a pagar 33 por 1 e agora, quando apareceu a história dobre as propagandas nos ônibus londrinos, o retorno caiu pra 4 por 1, por causa do maior número de apostas. mais de 20 mil reais já foram apostados e, se deus for mesmo encontrado até o fim de 2009, paddy power vai perder mais de 200 mil. mas as chances [em qualquer prazo] do LHC achar mesmo o higgs boson [veja explicações bem simples sobre este coisículo neste link] e isto provar a existência de deus são perto de zero.

em qualquer caso, façam suas apostas. aliás, se a aposta na prova da existência do divino parecer radical demais, você pode apostar em quem será, por exemplo, o próximo papa da igreja romana: dom cláudio hummes está pagando 12 por 1 e -veja só- BONO paga 1000 por 1!… o favorito, em apenas 6 por 1, é o patriarca de veneza, cardeal angelo scola. ah, sim: o prazo para esta aposta é 31 de dezembro próximo…

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