Terra Magazine

terça-feira, 6 de julho de 2010

prince: “a internet acabou”

Tags:, , , , - srlm às 10:04

image não me lembro de ter ouvido qualquer música de prince [ou do “artista que costumava atender pelo nome de prince”] nos últimos anos. e olha que uma trilha sonora me acompanha o dia inteiro, de hypem.com [a trilha sonora dos audioblogs] a awdio.com [o som das festas e bares do planeta], passando por tudo quando é canto, inclusive as [boas] estações da bbc e pela rádio comunitária [ou “user-generated”] openbroadcast. isso sem falar de androRadio no carro, direto do meu droid.

mas pra prince, tudo acabou. para ele, a rede não passaria de uma moda passageira, como a MTV: “The Internet’s like MTV. At one time, MTV was hip, and suddenly it became outdated.” o artista parece ter ficado lá atrás, no tempo do suporte físico para o áudio e o visual, sem entender que o “tempo do gramophone” não vai voltar. nem de qualquer outro suporte físico, aliás.

e isso não vale só pra música, mas acontece com software, por exemplo: o programa que vinha em CD para você instalar e rodar na sua máquina agora existe na forma de SaaS, software como serviço, que roda você nem sabe –nem precisa saber- onde e lhe dá mais que o mesmo resultado. mais porque não é você quem cuida de atualizações, backup, segurança de dados, performance… e tudo o mais. SaaS, ou “no software” [segundo marc benioff] é o grande vencedor da antiga batalha entre software aberto e fechado, como escrevi neste texto de 2004

e a mesma revolução que matou o suporte físico para áudio e vídeo começa a acontecer, numa velocidade muito grande, para literatura, como dá pra ver claramente no caso dos textos e livros eletrônicos e seus leitores. o blog falou deste assunto neste link… e isso ainda está só começando.

por trás disso tudo há uma infraestrutura global de informação única, padrão, comum a tudo e a todos, que permite a alguém no interior de zâmbia ouvir a rádio jornal do comércio de recife, primeira na internet na américa latina, “falando para o mundo”. esta, por sinal, é a parte que prince não entendeu mesmo: a MTV pode ser tratada como se fosse uma “aplicação” sobre uma “infraestrutura” e “serviços” comuns que definem a plataforma “televisão”. a internet, por outro lado, é todo o conjunto de “infraestrutura”,  “serviços” e “aplicações” que se tornou –em muito pouco tempo- uma das mais amplas e universais infraestruturas globais, assim como as redes de estradas, água, esgotos e energia.

image ao contrário do que prince acha [ou melhor, delira], a internet não vai passar. mas o artista diz que“All these computers and digital gadgets are no good. They just fill your head with numbers and that can’t be good for you…” e vira porta-voz do novo luddismo ou anarcoprimitivismo, o que for mais radical. pelo menos no que toca à produção e disseminação cultural.

a internet, claro, não está nem aí, assim como cada vez menos gente parece estar aí para prince ou para artistas com posições parecidas com as suas. no primeiro trimestre deste ano, mais de um milhão de novos nomes de domínios foram criados no mundo, elevando o total de domínios de todos os tipos para 193 milhões. não parece ser exatamente algo em extinção. ao contrário de prince…

PS: você discorda [radicalmente, inclusive] do estilo do blog?… aproveite que está passando por aqui e leia "o blog, o conteúdo e o estilo", neste link. e divirta-se.

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

SBTVD: padrão latino-americano?

Tags:, , , , - srlm às 02:07

passei o dia inteiro ontem, em brasília, no julgamento do prêmio finep de inovação. o terra estava com problemas na interface de publicação e acabei enviando meu "relatório" das apresentações do prêmio para meu twitter. vá ver. há mais de vinte twits e links por lá. e um bom número de companhias faz coisas que vale a pena ver. [nada de novo, no entanto, no quesito tecnologias e plataformas de informação para o usuário final].

em brasília, e em ocasiões como esta, sempre se conversa com muita gente, gente que tem coisas a dizer [e não pode aparecer] e gente que, querendo aparecer, acaba inventando coisas que não deveria estar dizendo. um passarinho, do primeiro grupo, e dos muito bem informados no primeiro grupo, me cantou que o SBTVD, padrão brasileiro de TV digital, está a caminho de ser aceito como o padrão de TV digital de nada menos do que… argentina, paraguai, chile e peru, com outras conversas, em outros países, em andamento mas menos avançadas.

caso se confirme tamanha adesão, é capaz de estabelecermos o padrão de TVD aérea e aberta da américa latina, até porque o uruguai [segundo a mesma fonte] está morrendo de arrependimento por ter escolhido o padrão europeu. o que serve de muito mau exemplo para outros que estejam considerando o mesmo caminho.

esta coluna, claro, está vendendo a informação pelo preço que comprou. ninguém quer seu nome associado a tais declarações, até porque se este for mesmo o caminho das pedras… anunciá-lo antes de assinar tudo pode atrapalhar, e muito, o desfecho das negociações. depois, no futuro, a gente vê se era isso mesmo…

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

pirataria: a guerra, os lados e os dados

o governo [defunto] do presidente bush acaba de transformar em lei a proposta de proteção de propriedade intelectual -principalmente de música e filmes- chamada pro-ip. a coisa foi apoiada pela recording industry association of america [RIAA] e motion picture association of america [MPAA], além da u.s chamber of commerce. segundo esta última, aliás, as "perdas" americanas com pirataria chegam a US$250B por ano.

além de todos os problemas que o assunto levanta sempre que vem à tona, há um, especialmente interessante, por trás da argumentação que levou o governo americano a assinar a lei. e não é coisa menor. trata-se da veracidade dos dados, históricos, usados por associações como RIAA e MPAA para defender um maior combate à pirataria. segundo artigo publicado na arstechnica, as perdas de emprego e renda por causa da pirataria são meros chutes, velhos e sem qualquer sustentação. ou seja, a guerra contra a pirataria continua e as mentiras sobre o tema… também.

pirate.pnga indústria [lá nos eua] diz, há anos [décadas!], que o número de empregos perdidos nos setores afetados por pirataria de áudio e vídeo é um mitológico "750.000". julian sanchez descobriu a fonte: trata-se de um chute, radical, feito em -imagine!- 1986 pelo  secretário de comércio do governo reagan, malcom baldridge, e publicado pelo christian science monitor. segundo balridge, o impacto de pirataria em toda a indústria americana [na época] seria… "anywhere from 130,000 to 750,000 [jobs]". e isso era de bolsas louis vuitton falsificadas até vídeos copiados sem autorização. o número foi pro limite e referem-se a ele, agora, como se fosse a quantidade de postos de trabalho afetados pela pirataria sobre a indústria de mídia.

aqui pra nós, será que alguém realmente pensa que quem só pode comprar uma cópia de vuitton está no mesmo público de quem compra os originais? e será que é razoável que alguém tenha a patente das letras LV? mas isso é uma outra, muito longa conversa. tamos aqui, hoje, só pra dizer que os dados usados pelos apoiadores da nova legislação americana de proteção à propriedade intelectual são, no mínimo, um chute radical e sem nenhuma sustentação no mercado. isso neste blog. há quem diga que é mentira, pura e simples.

o "outro" número da discussão americana sobre pirataria são os fantásticos US$250B de perdas para os negócios. depois de muuuita busca, arstechnica descobriu a fonte: um artigo da forbes, em 1993, citado num debate do congresso americano em 1995. lá atrás, dizia-se que a pirataria que entrava no mercado americano era "um negócio mundial de cerca de US$200B", incluindo as tais bolsas da louis vuitton. sem fontes adicionais, sem dados baseados em apreensões e, de resto, nada que pudesse ser provado ou contestado de maneira minimamente formal. e os US$250B [atuais, ajustados pela inflação ou coisa que o valha], mesmo por tais contas, seria a estimativa da pirataria, ou ilegalidade, de todo tipo e mundo afora, exportada para os estados unidos. acabou se tornando, por repetição, a verdade sobre as perdas dos estúdios e gravadoras…

na guerra pra proteger propriedade intelectual vale absolutamente tudo. inclusive assumir que o mundo não mudou. na indústria de mídia, o que protegia o material das grandes casas de produção e distribuição era o custo, no passado, de gravar, produzir e distribuir o material. no presente, os estúdios são caseiros e o custo do suporte e distribuição se aproximam de zero. resultado? voltamos à era da performance. seu "material" sai por aí, grátis, fazendo propaganda de você, a "performance".

uma parte da indústria que outrora chamávamos "de mídia" ainda não entendeu o recado. e continua na briga, por leis que não fazem nada mais do que adiar o inevitável fim de um modelo de produção-cópia-distribuição de material criativo que faliu desde que a digitalização e a internet mudaram o mundo. da mesma forma que a prensa de gutenberg detonou o modelo de negócios dos monges copistas e seus mosteiros. é só ler a história do texto e sua replicação entre 1450 e 1500 pra entender o que está acontecendo agora.

ainda não chegamos no nível de radicalismo legal que bush vai deixar, nos eua, pra seus financiadores, mas pode não demorar a termos a mesma situação por aqui. por que? porque os dados usados para preparar o cenário, aqui no brasil, são ainda mais astronômicos do que nos eua, especialmente quando se leva em conta que a economia de lá, com ou sem crise, é dez vezes maior que a nossa. segundo o presidente do conselho nacional de combate à pirataria, "a pirataria provoca uma redução de dois milhões de postos de trabalho no mercado formal". é assustador. se nos estados unidos, o impacto [chutado] seria de 750.000 empregos, como é que aqui ronda os 2.000.000?… e ainda mais considerando que eles têm uma vez e meia nossa população, e um mercado de trabalho que é duas vezes o tamanho do nosso? segundo o mesmo conselho [noutro veículo] cada emprego informal elimina seis empregos formais. se for isso mesmo, a coisa é imbatível e impossível de erradicar: pense numa economia onde uma "forma" de emprego é seis vezes mais produtiva do que a outra. o estado pode fazer a força que quiser, mas não vai conseguir frear a primeira "forma"… ou vai?

pesquisa do instituto akatu mostra que 75% [isso mesmo, três quartos] dos brasileiros compra produtos piratas… e 09_12_pirata-peg.jpgsabe que está comprando pirataria e tem boas razões pra isso, incluindo uma noção bem precisa do que é custo benefício do produto em si e uma ampla desconfiança [quando o argumento contra a pirataria é sonegação] sobre o destino dos impostos que paga. sobre este assunto, aliás, tenho ouvido de mais de um jurista que a sociedade brasileira está no limiar de encontrar e usar justificativas filosóficas, éticas e morais para sonegar impostos. e não vai ser quem está quase pensando assim que vai dar ouvidos [de novo] ao conselho nacional de combate à pirataria, a nos dizer que o país perde, por ano, com pirataria,  R$30B em arrecadação de impostos. junte tais "dados" com outros tão bons quanto, como o depoimento de um dos deputados que apóiam o fórum nacional contra a pirataria, de que "só no ano passado o prejuízo foi de 700 bilhões de reais, quase um terço do PIB do Brasil", que aí é que não vai se conseguir montar uma argumentação sólida contra pirataria, seja ela concreta, das tais bolsas louis vuitton ou relógios rolex da feira do paraguai até música e software na internet.

este texto, claro, não é uma defesa aberta da pirataria e dos piratas de todos os tipos. pirataria pode ser letal. basta lembrar que há remédios piratas no mercado, cuja fórmula pouco tem a ver com a original… e cujas conseqüências podem ser fatais. mas o fato é que o brasil tem sido muito, mas muito ingênuo quando o negócio é copiar e imitar os outros, coisa que se faz entre países desde o início dos tempos. a maioria dos países emergentes [de qualquer época] só assina tratados internacionais que regulam mercados ricos e elaborados quando chega lá, quando se é rico e elaborado. nós não. educados na boa escola do imperador pedro II, que tirava uma onda de cidadão do mundo, fingimo-nos de civilizados e assinamos antes de chegar em qualquer lugar, garantindo um status quo normalmente contra nossos interesses.

softwarepiracy.jpgclaro que precisamos formalizar muitos dos nossos mercados. mas porque será que na finlândia, um dos países mais educados do planeta, a pirataria de software é de 25%? e porque será que lá mesmo, apesar de apenas 15% das pessoas reconhecer que copia música da internet, 85% do tráfego de saída das universidades corresponde a P2P?… será que isso tem a ver com os modelos [atuais] de negócio de software e música? aqui, agora, precisamos de uma discussão inteligente [e usando dados reais, confiáveis] sobre o que formalizar, pra que formalizar, pra atender que interesses, quando, e se isso é ou não o melhor para fazer agora. é preciso até entender, de perto, qual a função da pirataria no mercado. além de termos que lembrar, a todos os envolvidos, que em tempos onde as tecnologias de suporte estão mudando muito radical e velozmente, como é o caso dos setores da indústria "de mídia" agora "protegidos" pelo pro-ip americano [e só lá, por enquanto], congelar o passado em legislação e ação federal é suicídio puro. de postos de trabalho, de receitas e impostos, no futuro.

 

Blogs que citam este Post

sábado, 12 de julho de 2008

o G8 quer seu celular

Tags:, , , , , - srlm às 00:30

pirating-and-counterfeiting-is-a-bad-sport-no-rules-many-fouls-only-losers.jpgos países membros do G8, grupo dos países ricos onde o brasil quer entrar, está considerando seriamente ir atrás do celular de cada um. tirou uma foto de um gol num jogo? saiba que os direitos de "transmissão" do futebol [aqui e algures] foram vendidos, por quem de direito… e você não pode compartilhar a tal foto com ninguém, pois isso seria "transmissão". e isso se não lhe tomarem o celular por ter tirado a foto. 

a indicação de que isso pode vir a acontecer está nas páginas 12-13 de um relatório dos especialistas em propriedade intelectual liberado pela reunião de cúpula do japão. parte do texto diz que a primeira fase de um estudo do G8… will focus on digital piracy, which encompasses the infringement of all copyrighted materials including: recorded music, motion pictures, software, books and journals, through such methods as Internet piracy, direct computer to computer transfers, LAN file sharing and mobile phone sharing.

no segundo tempo, o estudo… may also incorporate a case study of digital piracy in the sports broadcasting industry. The study will seek to (i) describe the markets where digital piracy takes place, (ii) identify the drivers that underline the behaviour of the main market actors, (iii) present the main industry and government actions that affect the market and (iv) examine institutional regulations across different economies. [para traduzir o inglês, acima, use babelfish].

isso quer dizer que vão proibir bluetooth, por exemplo? ou proibir a sincronização de celulares e PCs?… e proibir celulares em estádios?… instituições como o G8 continuam tentando garantir a imortalidade de um passado já morto e enterrado. quase 100% dos celulares têm câmeras. eles irão a estados e elas vão tirar fotos. e as fotos serão compartilhadas. e isso é só o começo. o G8 deveria ouvir a galera com menos de 20 anos de idade sobre o tema, ao invés de agir em nome velha e cansada advocacia da outrora grande indústria de mídia.

o brasil tem que tomar cuidado pra, quando pegar estes barcos, não entrar na mesma camisa de força em que eles estão. mas isso é só vã esperança de minha parte… acho que nós vamos no mesmo caminho…

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol