Terra Magazine

28.09.09

o futuro da música… na rede

Tags:, , , , - srlm às 06:00

diego assis, do G1, me mandou três perguntas por emeio, dia destes, para uma reportagem que estava fazendo [juntamente com lígia nogueira e amauri stamboroski] sobre o estado da “arte” dos negócios de conteúdo, em particular sobre um certo conjunto de posições de muitos artistas que, no passado, eram “a favor” da rede [leia-se: não estavam muito aí pras cópias de suas músicas circulando] e agora parecem ser “contra” [leia-se: estão se sentindo “prejudicados” pela web].

este blog tem falado sobre o assunto em muitas ocasiões [confira cenas da “mídia” brasileira; pirataria: chegou para ficar; pirataria: a guerra, os lados e os dados; conteúdos e meios: indústria de música vai muito bem e pirataria [digital] chega à literatura [de uma vez por todas], entre muitos outros posts].

e os artistas que reclamam do atual estado de coisas têm toda razão de reclamar, claro; mas sua arenga vai servir de muito pouco, porque não se trata mais nem de ordenar o “modelo mp3” de conteúdo. mp3 ficou velho, vai morrer de morte morrida e o que vamos ter, na rede [na minha opinião] é conteúdo como serviço. parte grátis, parte pago. e pra isso só está faltando infraestrutura: é só termos mais banda larga, mais barata, em muito mais lugares, e música, vídeo, literatura, imagens… e tudo vira serviço. questão de tempo. pouco, tomara.

abaixo, a entrevista que dei pra diego, por emeio, semana passada. se faltar contexto, aqui, pra entender a conversa, leia meus links acima e também o bom trabalho de diego, amauri e lígia lá no G1.

Diego Assis: Nas últimas semanas, duas importantes decisões foram tomadas em favor dos detentores de direitos autorais contra usuários que trocam arquivos protegidos pela internet – uma no Paraná, outra na França. Também recentemente, grandes hubs de p2p como PirateBay e Mininova foram atingidos pela justiça. Nesta briga de pelo menos 10 anos (desde o surgimento do Napster), qual é a importância dessas decisões?

Silvio Meira: as decisões são importantes porque representam uma espécie de "começo do fim" do embate entre o modelo de negócios de mídia que já passou [o das "gravadoras"] e o que está por vir, o de entretenimento como serviço. é curioso, em plena era da internet, que as pessoas ainda tenham que "baixar" arquivos. isso porque este é outro modelo falido. imagine comunicação verdadeiramente banda larga [pense dezenas de megabit/s no seu celular, centenas de megabit/s no fixo]… porque você iria querer "ter", possuir, arquivos? pra que?

o futuro do entretenimento digital pode vir a ser o de serviço, onde se assina uma programação tão ampla quanto se queira, que você decide qual é… e não algum tipo de programador central, que é do tempo das gravadoras… da TV aberta, do rádio FM.

até que este novo modo de entretenimento aconteça de verdade, viveremos, decerto, um embate entre um passado que morreu de velho e um presente que se torna obsoleto à medida em que a rede vai ficando realmente larga, universal, ubíqua.

DA: Não muito tempo atrás, uma fatia significativa dos artistas e músicos estava pregando o discurso da independência, não raro liberando faixas ou álbuns na íntegra para download em seus sites –alegando que a promoção possibilitada pela web era mais importante do que fazer dinheiro vendendo disquinhos de plástico. Agora, alguns desses mesmos artistas – como Lily Allen, que se tornou conhecida no mundo por ter liberado faixas (muitas sampleadas) graças ao MySpace, estão dizendo o contrário. Que é preciso frear a  pirataria na rede, caso contrário os músicos não sobreviverão. Como vê essa mudança de discurso?

SM: acho que sob a ótica da resposta anterior… um número muito grande de artistas se acha sacaneado pela quantidade de faixas suas que circula por aí, tecnicamente pirateada. no contexto atual, estes mesmos artistas têm uma certa dificuldade de entender que artista [médio] nunca ganhou dinheiro com disco, mas com performance. é assim desde que o mundo é mundo. se eu tivesse um monte de coisas minhas na rede, pirateadas e circulando aos montes, iria ter a certeza de que muito mais gente estaria disposta a comprar o ingresso de um show pra me ver cantando os hits da rede.

mas é claro que nem todo mundo pensa assim e ainda há quem pense em "vender" coletâneas [que a gente costumava chamar de "disco", ou "cd"...], onde eu, que comprava tais coisas nas décadas de 60 a 90, nunca vi uma que tivesse metade de suas músicas [por exemplo, no caso de um cd] que valesse a pena comprar. metade ou mais era enchimento de linguiça… porque havia um certo espaço a preencher. a bolacha tinha que sair inteira, os formatos eram padrão, tipo simples, duplo, long play, EP. hoje, não mais. o espaço, agora, é infinito. o problema é o tempo, e um seu correlato, a atenção.

com tanta oferta e tão pouco tempo e atenção, cada música, vídeo, qualquer coisa, corre o risco -e a vasta maioria é só isso- de ser um "flash in the pan"… um momento em que todo mundo se concentra naquilo, que fica irrelevante logo depois, porque a atenção simplesmente se volta para outro flash, e por aí vai.

aberta a caixa de pandora, não há como fechar. as viúvas das gravadoras, da escassez, têm que começar a construir o próximo modelo, um que depende de muita banda, muito barata, em todo canto, com serviços baseados em micropagamentos, para estarem disponíveis para muita gente, para que eles, os autores e intérpretes, sejam remunerados por sua participação percentual no fluxo de atenção.

até lá… vai ser uma longa e penosa batalha para se ganhar… nada, tentando enfiar a rede de volta na caixa, de onde na verdade ela nunca veio. muita tensão, sofrimento, lamentos… para nada. deveríamos gastar nosso tempo construindo, agora, os modelos de negócio para quando tivermos rede, de verdade.

DA: Posso estar engando, e ainda vamos falar com ele [veja a entrevista de fred 04 neste link], mas outro que parece ter mudado significativamente de discurso foi o Fred Zero Quatro. De entusiasta das possibilidades da rede livre ("Dogville" disponibilizada de graça no site; incentivo à criação dos "videoclipes genéricos" da banda), o cantor defendeu em entrevista à Folha semana passada que a "web tem desestruturado quase todas as cadeias", que se não fosse a Sony "o manguebeat teria se limitado a uma coisa de gueto" etc. Sente que está havendo uma mudança de postura aí também?

SM: sim, sim. é o mesmo efeito, em quase qualquer coisa e em todo lugar. claro que a web desestruturou as cadeias de valor. e é claro, também, que outras cadeias de valor vão se reestruturar pela e na web. mas a velha cadeia da sony, que editou, paginou e mundializou o manguebeat… ela não vai se repetir do mesmo jeito, de jeito nenhum. não tem como, porque a arquitetura e as estruturas de criação, produção, distribuição e consumo mudaram para sempre.

as lágrimas choradas por quem veio do passado -das gravadoras- e tem que viver este doloroso presente encherão rios, que correrão todos para o mar da história, com muito pouco efeito prático no presente e no futuro. nós, mesmo os mais inovadores entre nós, temos muita saudade de quando as coisas eram… como eram. no equilíbrio que nossa revolução criou, uma vez revolucionários, quase todos nós queremos manter a "nossa" revolução exatamente como a desenhamos, sem perceber que outros revolucionários estão, o tempo todo, assumindo o papel, no nosso tempo, que no passado foi nosso.

e isso não é uma teoria ou constatação para o agora. é a mais pura e simples história dos tempos, a história da criação humana, das invenções, da inovação, da revolução… de todas as revoluções. pode ser até que a gente não queira, mas o fato é que, a qualquer momento, está começando uma nova revolução, muitas das quais vão dar em nada, mas algumas delas vão mesmo mudar tudo, desestruturar tudo. e criar outras estruturas. como sempre, desde sempre. e ainda bem que este “novo” nunca é “para sempre”…

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14.07.09

cenas da “mídia” brasileira

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domingo de muito sol. um pai está saindo de um grande restaurante numa cidade brasileira qualquer,  e há, na calçada, um display [quase um shopping] de centenas de DVDs na [permanente] liquidação “um é 5, três é 10”. o adulto, [des]avisado, compra três musicais por “10”. o blogueiro observa a normalidade do “shopping”, adultos, jovens e crianças, todos, escolhendo sua diversão matinal. e noturna. nisso, um adolescente entra em cena e admoesta: “pai, já disse pra você não fazer mais isso!…”

image aí eu penso: vixe! um jovem que aderiu ao discurso do fórum antipirataria… e me preparo pra fazer uma entrevista ali, ao vivo, que é desmontada na frase seguinte: “pare de comprar estes DVDs!… me diga o que você quer que eu pego num torrent!”

fecha o pano. a cena é real. e deve se repetir aos montes pelo país afora. pelo mundo afora.

esta semana, deu-se nota de um “report” escrito por um adolescente inglês [matthew robson, 15 anos] e publicado por ninguém menos que a morgan stanley [pegue o .pdf neste link], onde o jovem expert no comportamento de sua geração sintetiza…

Teenagers listen to a lot of music, mostly whilst doing
something else (like travelling or using a computer). This
makes it hard to get an idea of the proportion of their time that is
spent listening to music.

They are very reluctant to pay for it (most never having bought
a CD
) and a large majority (8/10) downloading it illegally from
file sharing sites
. Legal ways to get free music that teenagers
use are to listen to the radio, watch music TV channels (not
very popular, as these usually play music at certain times,
which is not always when teenagers are watching) and use
music streaming websites (as I mentioned previously).
Almost all teenagers like to have a ‘hard copy’ of the song (a file
of the song that they can keep on their computer and use at will) so that they can transfer it to portable music players and
share it with friends
.

How teenagers play their music while on the go varies, and
usually dependent on wealth –with teenagers from higher
income families using iPods and those from lower income
families using mobile phones. Some teenagers use both to
listen to music, and there are always exceptions to the rule.

A number of people use the music service iTunes (usually in
conjunction with iPods) to acquire their music (legally) but
again this is unpopular with many teenagers because of the
‘high price’
(79p per song). Some teenagers use a combination
of sources to obtain music, because sometimes the sound
quality is better on streaming sites but they cannot use these
sites whilst offline, so they would download a song then listen
to it on music streaming sites (separate from the file).

pra traduzir o texto para  o português, clique aqui.

matthew robson sabe o que está falando. e leva jeito pra analista. quem dera houvesse muitos robsons no mundo, aqui inclusive, com tal capacidade de análise e síntese. e a morgan stanley tá por dentro do lance: publicar em escala mundial um report de um estagiário de 15 anos de idade é um golpe mais que de mestre. é de aprendiz, de engenheiro do futuro, das coisas que não estão feitas, que ninguém sabe como vão ser. mas que se sabe, e muito bem, que não serão como eram. nunca mais.

este blog tem uma teoria sobre o que vai rolar. vamos falar dela aqui, amanhã.

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13.05.09

pirataria [digital] chega à literatura [de uma vez por todas]

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que o suporte físico para áudio e vídeo está com os dias contados, não é novidade pra ninguém. a mudança do suporte físico [analógico] para o virtual [em rede, digital] desestruturou uma indústria secular, que havia começado com o gramophone da vovó. em alguns anos, a velha indústria de áudio e vida será só história, nada mais.

a pergunta que temos que fazer, agora, é: será que chegou a vez da mesma transição na literatura? até agora, o suporte físico clássico dos livros, o papel, vinha resistindo bravamente. livros tem um tempo de vida longo, as pessoas carregam de um para outro lugar, leêm na cama, no avião e nas praças, emprestam, armazenam em biblotecas, trocam, vendem pros sebos, enfim, existe uma longa história de uso pessoal e social do livro.os jornais e as revistas, bem… os jornais estão passando desta para a melhor. apanham até do twitter: twitter.com tinha 19,4 milhões de usuários no final de abril, nytimes.com tinha 15,5M e wsj.com estava ali pelos 12,2M. os jornais que não viraram portais parece que, também, já viraram história.

 

mas agora pense, no caso dos livros: e o sony reader? e o amazon kindle dx [imagem acima], que vem com qualidade “jornal”, tela de quase 10 polegadas, bateria para dias de leitura sem recarga e memória para carregar 3.500 textos, ou quase todos os livros que você leria na vida?…  já existem 275.000 livros disponíveis para o kindle, e o número cresce todo dia.

e isso não vai ficar por aí: o kindle ainda é P&B, meros 16 níveis de cinza, mas a philips está para lançar –em escala industrial- um “papel eletrônico” colorido [imagem ao lado] que vai, de novo e muito em breve, mudar as regras do jogo. o e-paper da companhia holandesa tem um brilho três vezes maior do que os atuais monitores de LCD e pode representar, também, o apagar das luzes desta tecnologia, ainda mais porque seu consumo de energia é muito menor.

como se não bastasse, o que dizer dos serviços online de compartilhamento de documentos, como slideshare.net, wattpad.com e scribd.com? cada um destes é uma plataforma de gestão de ciclo de vida de informação digital –conteúdo- que começa a ter um efeito cada vez mais global na disseminação de literatura digital, não necessariamente obedecendo os termos do copyright impresso [ou codificado] no material, digamos, original.

aí, então, você pode achar, na rede, o “livro proibido” de roberto carlos, a biografia do rei, muito bem pesquisada e escrita por paulo césar de araújo, que foi confiscada das livrarias por ordem judicial. no scribd.com, ela está neste link. quando tirarem de lá, vai estar noutro. só no scribd.com, há dezenas de links com a biografia “proibida”.

o caso da biografia do rei acentua um duplo problema: primeiro, o “livro” está na rede, compartilhado [pirateado?] muito provavelmente sem licença do autor e da editora; depois, descumpre-se uma decisão judicial que retirou a obra de circulação. os leitores agradecem, pois se trata uma obra de primeira, que consegui comprar antes da proibição, mas todo o resto do sistema de suporte literário, inclusive o aparato legal atual, vai pro espaço.

 

passado o calor da discussão sobre digitalização, rede, áudio e vídeo, é bem possível que o kindle dx, o e-paper colorido, flexível, de alta resolução e brilho, e os serviços de compartilhamento de “livros” e documentos sejam o começo do fim do que conhecemos como a indústria do livro.

e eu tô me inscrevendo na fila pra comprar uma coisa do tipo “kindle” colorido, de alta resolução, em rede, assim que for lançado no brasil. tomara que seja logo. minha coluna, cansada de carregar livros de papel por aí, vai agradecer. muito.

 

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19.04.09

lei anti-pirataria “mata” metade da internet sueca

Tags:, , , , , - srlm às 19:35

a suécia botou em prática uma lei draconiana contra cópia de material protegido por copyright. no dia seguinte, o tráfego internet entre a suécia e o resto do mundo caiu de cerca de 160Gbps para ao redor de 90Gbps e continua nesta média até agora. cerca de metade da internet sueca, como vista pelo resto do mundo, "desapareceu". é isso que o gráfico abaixo, cortesia da netnod, mostra.

 

pra apertar ainda mais a grade onde o país quer prender sua rede, a suécia condenou a galera or trás do pirate bay, um dos principais sites de compartilhamento de conteúdo do planeta [mais de 4M de torrents por dia] a um ano de cadeia mais o pagamento de US$3.6M para compensar royalties supostamente "perdidos" por seus donos.

para a suécia, por enquanto, pirataria não é apenas mais um modelo de negócios. prá uns, é assim mesmo que tem que ser. pra outros, entre os quais um número de provedores de acesso na suécia, é o ponto de partida de um controle orwelliano sobre a internet do país.

eu acho que esta história de copiar arquivos tá com os dias contados; e isso nada tem a ver com leis e controles de estados como a suécia, ou com o que vai acabar sendo a "lei da internet" no brasil. mas porque "ter" um arquivo com você, seja lá em que dispositivo for, ainda é uma forma de manter o concreto dentro do abstrato, como se a rede fosse desaparecer a qualquer momento. com cada vez mais rede, cada vez mais presente e de cada vez mais qualidade, nós vamos ver, ouvir e participar de fluxos… e a localidade, armazenamento e propriedade de arquivos vai se tornar cada vez menos importante.

pense: numa rede onde todo mundo tenha 100Mpbs, o tempo todo, a custo fixo [vamos chegar lá, vai levar tempo, mas vamos chegar...] prá que mesmo é preciso ter alguma coisa, arquivo que seja, "local"?… prá que copiar música pro seu HD se você vai poder ouvir [entre tantas muitas outras...] grooveshark?… ainda mais, se ainda restar alguma inteligência na velha indústria de conteúdo, ao invés de brigar por leis pra manter o passado no futuro, é capaz de -olhando construtivamente para coisas como grooveshark- conseguirem, ao invés, trazer uma boa parte do futuro para o presente… enquanto isso, os suecos, sempre eficazes e eficientes, nada mais fazem, desta vez, do que perder tempo.

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15.01.09

internet em 2020 [4]: propriedade intelectual

relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado no fim do ano passado, chegou a seis conclusões. para tal, mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede foram consultados. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE, o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA e o terceiro sobre o futuro das INTERFACES.

hoje, vamos falar sobre propriedade intelectual. o PIP prevê que... Those working to enforce intellectual property law and copyright protection will remain in a continuing arms race, with the crackers who will find ways to copy and share content without payment… na próxima década continuará a disputa entre os donos de copyright e defensores de propriedade intelectual, de um lado, e crackers [e/ou piratas] do outro; a cada nova barreira contra disseminação de conteúdo imposta pelos primeiros, os segundos desenvolverào contra-medidas capazes de desbloquear o "material" e disseminá-lo sem pagamento de direitos, na rede.

em suma, o PIP prevê que o estado de coisas da rede continuará como hoje. eu acho que não. escrevi muitas coisas, no passado recente, sobre a "pirataria", ou sobre o conflito entre o passado e o presente dos modelos de negócio de conteúdo e sua distribuição. vamos dar uma olhada nos últimos quatro textos.

em 05.08.08, saiu pirataria: chegou pra ficar: lá, comentamos que… agora é oficial: a pirataria chegou pra ficar. estudo que acaba de ser publicado pela MCPS-PRS [aliança inglesa que representa os donos do copyright de mais de 10 milhões de títulos musicais] e bigChampagne [de medição de audiência online] mostra que, mesmo quando o preço de um bem digital chega perto de zero [caso do último álbum do radiohead, cujo preço podia ser escolhido pelo usuário], a vasta maioria das cópias que circula na rede vem de sites piratas.

image

dizendo de novo: mesmo quando o preço de um bem digital é ZERO, boa parte de sua distribuição é feita de forma não autorizada pelo proprietário. isso significa, entre várias outras coisas, que as plataformas de distribuição de conteúdo da indústria estão fora de sintonia com os mecanismos de busca, acesso e consumo do público, mesmo que ambos estejam na rede. mas de que adianta seu preço ser zero e seu material não aparecer na busca do limewire ou vuze?

em 12.08.08, saiu a parceria estúdio-pirataria, onde se dava conta que…  estúdios japoneses de anime [mercado de US$20B por lá] estão testando youTube e outros sites de compartilhamento de conteúdo como forma de ampliar sua interação com espectadores e usuários. kadokawa, a galera que faz haruhi suzumiya, está gastando US$1M para descobrir como é possível [se é que é] fazer um mashup de suas operações comerciais com o material gerado por fãs na internet.image

ou seja: será que dá pra diminuir o conflito com meus próprios consumidores e tratá-los como parte da minha [ou da nossa!] ecologia de valor? principalmente quando eles podem estar fazendo coisas que eu nunca 1] pensei; 2] saberia fazer nem 3] distribuir na velocidade e custo que eles fazem?… para trazer os fãs pra "dentro" de casa, tenho que mudar mais do que minha disponibilidade de encontrá-los no meio do caminho entre produção, distribuição, combinação, redistribuição e consumo: tenho que oferecer uma plataforma segura, do ponto de vista de propriedade intelectual e sua gestão, que não exponha fãs e colaboradores bem intencionados ao risco de, de repente, estarem sendo processados por infringir direitos [se o "dono" da coisa não gostar da minha "arte", por exemplo].

pra isso, naquele mesmo texto, se comentava que o… problema de compartilhamento e recombinação tem solução trivial. é só usar o modelo de proteção e autorização definido pelo creative commons, que permite ao autor estabelecer o nível de proteção que deseja para seu trabalho. quanto mais gente publicar seu material usando um mecanismo transparente como o de creative commons, mais coisas poderão ser feitas de forma inovadora, na rede, sem que seja necessário licenciar todo o material de base primeiro. e permitindo o compartilhamento de receita [se houver] depois.

ou seja: existe uma proposta prática e fácil de ser aplicada para tratar conhecimento não como ponto de chegada ou produto final, mas como ponto de partida e parte de um processo, para sempre inacabado. mas muito pouco tem sido feito, pela indústria, para discutir o assunto nestas bases. e menos ainda para disponibilizar [excetuando os indies, que não são "a" indústria] conteúdo desta maneira.

em 16.10.08, saiu… pirataria: a guerra, os lados e os dados, onde se 09_12_pirata-peg.jpgexpunha o muito duvidoso valor dos dados usados mundialmente no combate à pirataria. de acordo com o texto de outubro neste blog… a indústria [lá nos eua] diz, há anos [décadas!], que o número de empregos perdidos nos setores afetados por pirataria de áudio e vídeo é um mitológico "750.000". julian sanchez descobriu a fonte: trata-se de um chute, radical, feito em -imagine!- 1986 pelo  secretário de comércio do governo reagan, malcom baldridge, e publicado pelo christian science monitor. segundo balridge, o impacto de pirataria em toda a indústria americana [na época] seria… "anywhere from 130,000 to 750,000 [jobs]". e isso era de bolsas louis vuitton falsificadas até vídeos copiados sem autorização. o número foi pro limite e referem-se a ele, agora, como se fosse a quantidade de postos de trabalho afetados pela pirataria sobre a indústria de mídia.

aqui no brasil, não ficamos atrás na manipulação de dados ou na citação de números sem qualquer credibilidade. no mesmo texto… [segundo o conselho nacional de combate à pirataria]… o país perde, por ano, com pirataria,  R$30B em arrecadação de impostos [e de acordo com o depoimento de um dos deputados que apóiam o fórum nacional contra a pirataria]… "só no ano passado o prejuízo foi de 700 bilhões de reais, quase um terço do PIB do Brasil"… um terço do PIB em pirataria? e com uma carga tributária de quase 40%, o imposto perdido não teria sido quase R$300B?…

o artigo de 16.10.08 concluia que… claro que precisamos formalizar muitos dos nossos mercados. mas porque será que na finlândia, um dos países mais educados do planeta, a pirataria de software é de 25%? e porque será que lá mesmo, apesar de apenas 15% das pessoas reconhecer que copia música da internet, 85% do tráfego de saída das universidades corresponde a P2P?… será que isso tem a ver com os modelos [atuais] de negócio de software e música? aqui, agora, precisamos de uma discussão inteligente [e usando dados reais, confiáveis] sobre o que formalizar, pra que formalizar, pra atender que interesses, quando, e se isso é ou não o melhor para fazer agora. é preciso até entender, de perto, qual a função da pirataria no mercado. além de termos que lembrar, a todos os envolvidos, que em tempos onde as tecnologias de suporte estão mudando muito radical e velozmente, como é o caso dos setores da indústria "de mídia" agora "protegidos" pelo pro-ip americano [e só lá, por enquanto], congelar o passado em legislação e ação federal é suicídio puro. de postos de trabalho, de receitas e impostos, no futuro.

resumindo e olhando pra previsão do PIP, sobre a continuada guerra entre quem tem copyright e quer ser remunerado por ele e quem está na rede, em banda larga, e tem acesso a tudo, num click: não se trata do fim da propriedade intelectual e ponto final. se este fosse o caso, não haveria uma outra guerra, a de patentes, no ar. só em 2008, a IBM registrou 4.186 patentes nos EUA, recorde da companhia em todos os tempos e mais de tres vezes o registro da microsoft. no total, foram concedidas quase 160 mil patentes nos EUA em 2008.

a "pirataria" a que todos, inclusive o PIP, se referem com frequência é de música, vídeo e software. e ela existe, em boa parte, hoje, porque seu modelo de negócios ainda está em boa parte baseado no suporte físico para entrega do conteúdo ao comprador. e tal suporte físico foi, literalmente, evaporado. quem entendeu isso não está sendo pirateado… veja o caso de google. tudo o que vem de lá é software como serviço, na rede. mesmo que você instale alguma coisa, como gmail no seu celular, só traz a interface, pois as funcionalidades por trás dela estão na rede.

esta quarta previsão do PIP, caso se confirme, é preocupante. vai significar que, daqui a doze anos, ainda teremos uma boa parte das coisas que deveriam estar na rede circulando por aí sobre suportes físicos falidos. aliás, tem coisa que, mesmo já estando na rede, hoje, não deveria durar muito, como venda de música como "arquivo". música e vídeo [e software] tem que passar a ter um tratamento negocial similar à assinatura de um serviço, temporário ou permanente, ao invés de serem distribuídas como arquivos que podem se perder no seu drive, celular ou onde forem armazenadas. uma vez assinadas, o provedor cuidaria para que o conteúdo pudesse ser usado a seu bel prazer, de acordo com direitos que você adquiriu.

mas isso pode levar tempo. e aí nós chegamos ao último dos quatro artigos recentes que o blog publicou sobre o tema, em 12.11.08: inovação aprendendo com… pirataria? o texto começava dizendo que… pode ser, pode ser. quase certamente sim. recentemente, neste blog, tratamos dos números da pirataria no mundo [e no brasil], e vez por outra temos falado de luta entre o lado de lá [do modelo fechado de propriedade intelectual] e o lado de cá [dos modelos flexíveis, ou abertos, de copyright]. desta vez vamos falar do mesmo assunto de uma forma, digamos, mais radical: o que pirataria tem a ensinar pra inovação?… visto por um outro ângulo, lutamos contra os piratas ou aprendemos com eles?

pirate-cover.gifeste texto trata de uma conferência de matt mason, autor de the pirate’s dilemma, livro em que ele… tells the story of how youth culture drives innovation and is changing the way the world works. It offers understanding and insight for a time when piracy is just another business model, the remix is our most powerful marketing tool and anyone with a computer is capable of reaching more people than a multi-national corporation… ou seja, onde se historia como uma cultura jovem e de jovens muda os processos de inovação e por onde se muda os modelos de negócio do mundo… e onde se propõe a idéia de que pirataria é só mais um modelo de negócios, onde remix é um dos mais poderosos instrumentos de marketing e onde qualquer um com um computador [nota: computador, hoje, é o mesmo que computador ligado à rede] é uma multinacional.

o resumo da conversa de mason, que eu sugiro fortemente que você vá ler [tá resumida e comentada em sete parágrafos, no blog], é simples e radical: pirataria é só mais um modelo de negócios, com suas próprias noções de mercado, cliente, ecologia de valor e todo o resto. pirataria sempre existiu e existirá sempre. e combatê-la -em áudio, vídeo, software- tem a ver com a melhora da sua oferta, e não com a perseguição aos piratas, especialmente quando eles estão vendendo a mesma coisa que você vende, com a mesma qualidade, por 1/10 ou 1/20 do preço. ou distribuindo de graça. o resto é conversa. e tomara que, neste ponto, o PIP tenha errado muito e todo mundo se mude mesmo pra rede, inclusive -e principalmente- do ponto de vista dos modelos de negócio.

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12.11.08

inovação aprendendo com… pirataria?

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pode ser, pode ser. quase certamente sim. recentemente, neste blog, tratamos dos números da pirataria no mundo [e no brasil], e vez por outra temos falado de luta entre o lado de lá [do modelo fechado de propriedade intelectual] e o lado de cá [dos modelos flexíveis, ou abertos, de copyright]. desta vez vamos falar do mesmo assunto de uma forma, digamos, mais radical: o que pirataria tem a ensinar pra inovação?… visto por um outro ângulo, lutamos contra os piratas ou aprendemos com eles?

pirate-cover.gifeste texto trata de uma conferência de matt mason, autor de the pirate’s dilemma, livro em que ele… tells the story of how youth culture drives innovation and is changing the way the world works. It offers understanding and insight for a time when piracy is just another business model, the remix is our most powerful marketing tool and anyone with a computer is capable of reaching more people than a multi-national corporation… ou seja, onde se historia como uma cultura jovem e de jovens muda os processos de inovação e por onde se muda os modelos de negócio do mundo… e onde se propõe a idéia de que pirataria é só mais um modelo de negócios, onde remix é um dos mais poderosos instrumentos de marketing e onde qualquer um com um computador [nota: computador, hoje, é o mesmo que computador ligado à rede] é uma multinacional.

dito isto, tomara que a APCM não peça à justiça pra tirar este post do ar… certamente não estamos tratando, aqui, de apologia do crime organizado. e muito menos do crime, puro e simples. a associação anti-pirataria cinema e música revelou, recentemente, ter retirado do ar, apenas em 2008, 45 mil links [via remixtures...] e se orgulha muito disso. só que, se a gente acreditar nas teses de mason [e de quase todos os usuários da internet, talvez] a APCM pode estar dando um monte de tiros nos pés de seus associados e representados. ou, por outro lado, está simplesmente adiando a morte de um modelo de negócios, para mídia, que está… morto. enterrado, talvez.

sem mais delongas, o que mason disse na poptech2008? [o inglês dele tem tradução livre minha, logo após. veja os sete mandamentos... abaixo].

1. If you want to beat pirates, copy them. If pirates are adding values to your customers, it’s an example of market failure. Look at it as an opportunity to learn and do better. quer derrotar a pirataria? copie os piratas. os piratas [jogos "originais" para PS2 a R$10, com nota e garantia!] estão adicionando valor à clientela, num clássico exemplo de falha no mercado; aprenda com os piratas e faça melhor.

2. Good business is the best art. Quoting Andy Warhol, Mason notes that the way we rebel as a society has changed. The way we kill bad ideas is to change them. Music industry: take note. negócios são uma forma de arte; arte é rebelião; as novas formas de rebelião envolvem mudança, nos levam mudar o que não está funcionando, porque os meios para tal estão [especialmente no caso de mídia] à nossa disposição. de cada um e todo mundo, aqui e agora. inclusive dos big businesses, mas eles estão perdendo tempo com o passado ao invés de construir o futuro.

3. The art of storytelling is changing because of abundance. Today, it’s about letting people be part of the conversation, and letting them tell stories themselves. a arte de contar histórias mudou de uma vez por todas; hoje, por abundância de meios de expressão, cada um está contando [mais de uma] as suas. o grande negócio, hoje, é trazer as pessoas pra dentro da história, pra que elas nos agreguem a sua história… e vice-versa.

4. Never let the legal department ruin a good remix without talking to marketing first. When their legal teams kill YouTube video mash-ups of your product, they’re doing you more harm than good. cuidado com os advogados; em caso de dúvida sobre os seus, ligue para ronaldo lemos e pergunte o que ele acha. se seu departamento legal está tirando coisas do ar no youTube, pode apostar que o tiro é no seu pé. ah, sim: antes de ligar pro ronaldo, pergunte pros seus advogados se eles ouviram falar de "performance"; você paga seus advogados por performance e não por direito autoral.  não se toca o CD ou DVD deles defendendo um caso parecido com o seu no tribunal. eles têm que ir lá in vivo… raciocinar em tempo real, falar bonito, ter deferência e paciência com suas excelências e coisa e tal.

5. Abundance is better than advertising. When Novartis started giving their leukemia drug away to poor people in Thailand, they not only thwarted the pirates, they got a rep as a socially responsible company — advertising they could never have managed to afford. abundância é a melhor propaganda e muito melhor do que propaganda pura, simples e antiga. ninguém diz isso abertamente, mas pirataria é, há muito tempo, parte do modelo de negócio de varejo de todo tipo de software. quer ver? pergunte a bill gates; windows e office piratas são os maiores adversários de linux e open office…

ran.jpg

6. Some good experiences will always be scarce. Hollywood claims it’s being ravaged by pirates, but they’ve had several blockbuster summers. The experience in the theater is not the same as on TV, and people will still pay for that difference if it’s good enough. cinema é muito melhor do que TV e cobra ingresso; cinema é performance, DVD pirata pode ser cópia… mas qual é a maior tela que você pode ter, em casa, pra assistir RAN, de kurosawa? a cena de cavalaria da foto acima precisa de uma tela de milhares de polegadas pra dizer o que kurosawa queria transmitir… e pra vê-la, como tal, vamos pagar um ingresso de cinema. tomara que a projeção seja muito boa, senão quero meu dinheiro de volta.

7. In an economy based on abundance, your business model needs to be a virtuous circle. “Heroes,” one of most pirated tv shows on web, now has revenue streams — from itunes to publishing, to integrated ads, to t-shirts — that reinforce each other. em economias baseadas em abundância, seu modelo de negócios tem que ser um círculo virtuoso. entregue grátis aqui pra ganhar em performance ali, lance sua música em guitar hero, faça comerciais, se vire. acabou o tempo de ganhar a vida deitado em casa, como um nababo, ouvindo as moedinhas pingando no porquinho. já viramm o modelo de micro-comerciais embutidos no CQC? sejamos criativos…

claro que nem tudo o que mason diz se aplica a tudo o que fazemos. mas uma boa parte faz muito sentido e, entre estas, a que faz sentido mesmo é olhar ao redor e ver quais dos nossos modelos de negócio estão sendo vaporizados porque estamos falhando em um ponto muito simples: agregar valor aos consumidores e usuários, entregando qualidade no ponto de venda ou na casa do camarada. lembrando que a definição de qualidade é o que o cliente quer pelo preço que ele pode pagar. se algum modelo de negócios entregar isso na nossa frente, bate o nosso.

bons tempos os do gramophone, hein? mas pra quem?…

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16.10.08

pirataria: a guerra, os lados e os dados

o governo [defunto] do presidente bush acaba de transformar em lei a proposta de proteção de propriedade intelectual -principalmente de música e filmes- chamada pro-ip. a coisa foi apoiada pela recording industry association of america [RIAA] e motion picture association of america [MPAA], além da u.s chamber of commerce. segundo esta última, aliás, as "perdas" americanas com pirataria chegam a US$250B por ano.

além de todos os problemas que o assunto levanta sempre que vem à tona, há um, especialmente interessante, por trás da argumentação que levou o governo americano a assinar a lei. e não é coisa menor. trata-se da veracidade dos dados, históricos, usados por associações como RIAA e MPAA para defender um maior combate à pirataria. segundo artigo publicado na arstechnica, as perdas de emprego e renda por causa da pirataria são meros chutes, velhos e sem qualquer sustentação. ou seja, a guerra contra a pirataria continua e as mentiras sobre o tema… também.

pirate.pnga indústria [lá nos eua] diz, há anos [décadas!], que o número de empregos perdidos nos setores afetados por pirataria de áudio e vídeo é um mitológico "750.000". julian sanchez descobriu a fonte: trata-se de um chute, radical, feito em -imagine!- 1986 pelo  secretário de comércio do governo reagan, malcom baldridge, e publicado pelo christian science monitor. segundo balridge, o impacto de pirataria em toda a indústria americana [na época] seria… "anywhere from 130,000 to 750,000 [jobs]". e isso era de bolsas louis vuitton falsificadas até vídeos copiados sem autorização. o número foi pro limite e referem-se a ele, agora, como se fosse a quantidade de postos de trabalho afetados pela pirataria sobre a indústria de mídia.

aqui pra nós, será que alguém realmente pensa que quem só pode comprar uma cópia de vuitton está no mesmo público de quem compra os originais? e será que é razoável que alguém tenha a patente das letras LV? mas isso é uma outra, muito longa conversa. tamos aqui, hoje, só pra dizer que os dados usados pelos apoiadores da nova legislação americana de proteção à propriedade intelectual são, no mínimo, um chute radical e sem nenhuma sustentação no mercado. isso neste blog. há quem diga que é mentira, pura e simples.

o "outro" número da discussão americana sobre pirataria são os fantásticos US$250B de perdas para os negócios. depois de muuuita busca, arstechnica descobriu a fonte: um artigo da forbes, em 1993, citado num debate do congresso americano em 1995. lá atrás, dizia-se que a pirataria que entrava no mercado americano era "um negócio mundial de cerca de US$200B", incluindo as tais bolsas da louis vuitton. sem fontes adicionais, sem dados baseados em apreensões e, de resto, nada que pudesse ser provado ou contestado de maneira minimamente formal. e os US$250B [atuais, ajustados pela inflação ou coisa que o valha], mesmo por tais contas, seria a estimativa da pirataria, ou ilegalidade, de todo tipo e mundo afora, exportada para os estados unidos. acabou se tornando, por repetição, a verdade sobre as perdas dos estúdios e gravadoras…

na guerra pra proteger propriedade intelectual vale absolutamente tudo. inclusive assumir que o mundo não mudou. na indústria de mídia, o que protegia o material das grandes casas de produção e distribuição era o custo, no passado, de gravar, produzir e distribuir o material. no presente, os estúdios são caseiros e o custo do suporte e distribuição se aproximam de zero. resultado? voltamos à era da performance. seu "material" sai por aí, grátis, fazendo propaganda de você, a "performance".

uma parte da indústria que outrora chamávamos "de mídia" ainda não entendeu o recado. e continua na briga, por leis que não fazem nada mais do que adiar o inevitável fim de um modelo de produção-cópia-distribuição de material criativo que faliu desde que a digitalização e a internet mudaram o mundo. da mesma forma que a prensa de gutenberg detonou o modelo de negócios dos monges copistas e seus mosteiros. é só ler a história do texto e sua replicação entre 1450 e 1500 pra entender o que está acontecendo agora.

ainda não chegamos no nível de radicalismo legal que bush vai deixar, nos eua, pra seus financiadores, mas pode não demorar a termos a mesma situação por aqui. por que? porque os dados usados para preparar o cenário, aqui no brasil, são ainda mais astronômicos do que nos eua, especialmente quando se leva em conta que a economia de lá, com ou sem crise, é dez vezes maior que a nossa. segundo o presidente do conselho nacional de combate à pirataria, "a pirataria provoca uma redução de dois milhões de postos de trabalho no mercado formal". é assustador. se nos estados unidos, o impacto [chutado] seria de 750.000 empregos, como é que aqui ronda os 2.000.000?… e ainda mais considerando que eles têm uma vez e meia nossa população, e um mercado de trabalho que é duas vezes o tamanho do nosso? segundo o mesmo conselho [noutro veículo] cada emprego informal elimina seis empregos formais. se for isso mesmo, a coisa é imbatível e impossível de erradicar: pense numa economia onde uma "forma" de emprego é seis vezes mais produtiva do que a outra. o estado pode fazer a força que quiser, mas não vai conseguir frear a primeira "forma"… ou vai?

pesquisa do instituto akatu mostra que 75% [isso mesmo, três quartos] dos brasileiros compra produtos piratas… e 09_12_pirata-peg.jpgsabe que está comprando pirataria e tem boas razões pra isso, incluindo uma noção bem precisa do que é custo benefício do produto em si e uma ampla desconfiança [quando o argumento contra a pirataria é sonegação] sobre o destino dos impostos que paga. sobre este assunto, aliás, tenho ouvido de mais de um jurista que a sociedade brasileira está no limiar de encontrar e usar justificativas filosóficas, éticas e morais para sonegar impostos. e não vai ser quem está quase pensando assim que vai dar ouvidos [de novo] ao conselho nacional de combate à pirataria, a nos dizer que o país perde, por ano, com pirataria,  R$30B em arrecadação de impostos. junte tais "dados" com outros tão bons quanto, como o depoimento de um dos deputados que apóiam o fórum nacional contra a pirataria, de que "só no ano passado o prejuízo foi de 700 bilhões de reais, quase um terço do PIB do Brasil", que aí é que não vai se conseguir montar uma argumentação sólida contra pirataria, seja ela concreta, das tais bolsas louis vuitton ou relógios rolex da feira do paraguai até música e software na internet.

este texto, claro, não é uma defesa aberta da pirataria e dos piratas de todos os tipos. pirataria pode ser letal. basta lembrar que há remédios piratas no mercado, cuja fórmula pouco tem a ver com a original… e cujas conseqüências podem ser fatais. mas o fato é que o brasil tem sido muito, mas muito ingênuo quando o negócio é copiar e imitar os outros, coisa que se faz entre países desde o início dos tempos. a maioria dos países emergentes [de qualquer época] só assina tratados internacionais que regulam mercados ricos e elaborados quando chega lá, quando se é rico e elaborado. nós não. educados na boa escola do imperador pedro II, que tirava uma onda de cidadão do mundo, fingimo-nos de civilizados e assinamos antes de chegar em qualquer lugar, garantindo um status quo normalmente contra nossos interesses.

softwarepiracy.jpgclaro que precisamos formalizar muitos dos nossos mercados. mas porque será que na finlândia, um dos países mais educados do planeta, a pirataria de software é de 25%? e porque será que lá mesmo, apesar de apenas 15% das pessoas reconhecer que copia música da internet, 85% do tráfego de saída das universidades corresponde a P2P?… será que isso tem a ver com os modelos [atuais] de negócio de software e música? aqui, agora, precisamos de uma discussão inteligente [e usando dados reais, confiáveis] sobre o que formalizar, pra que formalizar, pra atender que interesses, quando, e se isso é ou não o melhor para fazer agora. é preciso até entender, de perto, qual a função da pirataria no mercado. além de termos que lembrar, a todos os envolvidos, que em tempos onde as tecnologias de suporte estão mudando muito radical e velozmente, como é o caso dos setores da indústria "de mídia" agora "protegidos" pelo pro-ip americano [e só lá, por enquanto], congelar o passado em legislação e ação federal é suicídio puro. de postos de trabalho, de receitas e impostos, no futuro.

 

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