Terra Magazine

29.01.09

“custo brasil”: uma novela sem fim?…

Tags:, , - srlm às 10:00

chips mao protegida memory em mais uma decisão das que a indústria costuma rotular de "tipicamente brasileira", a secretaria de comércio exterior [secex] decretou no último dia 26 uma barreira não tarifária sobre a importação de produtos e insumos, inclusive as partes e peças essenciais para a indústria de tecnologias de informação e comunicação continuar funcionando no país.

pela nova regra [de vida muito curta, veja a seguir], cerca de 60% de tudo o que o país importa iria passar por aprovação federal. ao que consta [e foi amplamente noticiado], nem o planalto nem o itamaraty foram consultados sobre o assunto… e muito menos, claro, a indústria.

estamos diante do que parece se tratar de mais um capítulo da novela "custo brasil", muito mais longa e complexa do que a interminável redenção, que foi ao ar pela extinta tv excelsior, entre 1966 e 1968, e que chegou a quase 600 episódios. na novela, cada personagem era uma subnovela particular. a licença de importação é um dos mais peculiares e inusitados capítulos do “custo brasil”.

pois bem. no que deveria ser uma política industrial estável para um setor cuja competitividade está quase sempre na corda bamba, o governo também decidiu que a fabricação nacional de laptops deve ter, a partir de agora, pelo menos 50% dos módulos de memória fabricadas no país. antes, a produção local tinha que ser de pelo menos 20% deste subsistema. por aqui, há apenas um fabricante de tais módulos e ninguém sabe de sua capacidade para atender a demanda adicional imposta pelas novas regras ou qual será o impacto de mais esta “nova regra” nos preços para o usuário final.

nos últimos poucos anos, um conjunto coerente de medidas federais acabou com o que indústria e governo chamavam de mercado cinza, na verdade uma ampla e sofisticada rede de valor especializada na importação [ilegal] de componentes, partes e peças para montagem [informal] de computadores e sistemas digitais. restrições como as anunciadas esta semana devem estar assanhando algumas de nossas fronteiras ao sul e muitas ruas e negócios de reputação duvidosa em todo país, pois podem ser um novo ponto de partida para o mercado cinza voltar a dominar a produção e comercialização de PCs e laptops.

para aumentar a atratividade do setor de TICs para contrabandistas, aproveitadores e sonegadores, é só o governo criar mais umas duas ou três “regras”, na ausência de uma política industrial ou de negócios que, ao invés de tornar a indústria nacional mais competitiva no cenário internacional, tenta proteger o mercado local para uma indústria tornada incompetente pelas estruturas e conjunturas de nossa plataforma de [in]competitividade global. e em nenhum setor isso acontece mais rápido do que em informática. a licença de importação, decretada no dia 26, já parava fábricas que trabalhavam com suprimentos just in time no dia 27. ainda bem que foi revogada dia 28. foi só uma piada de muito mau gosto [que ecoou em todo mundo]. mas a “portaria das memórias” continua vivinha da silva.

para se ter uma idéia de como vale a pena contrabandear memórias caso sua importação seja restrita, sobretaxada, ou o preço da produção local seja alto, um módulo de 2GB [dois bilhões de caracteres, padrão nos laptops] pode ser encontrado por um preço que vai de US$25 até US$250 no mercado mundial. a plaquinha [veja ao lado] pesa no máximo 50 gramas. a variação de preço está relacionada à quantidade de peças adquiridas e à velocidade, confiabilidade e outras caraterísticas do módulo e dos chips usados em sua construção. pras nossas contas, vamos assumir que o módulo custa US$100.

imaginando que nosso contrabandista é “de mala” e não “de container”, numa mala padrão de 30Kg devem caber uns quinhentos módulos e suas embalagens, pois a coisa é muito pequena e estreita. preço da mala no mercado internacional? US$50.000. se a diferença entre os preços local e global for “suficiente” [20% ou mais], já vai ter gente correndo o risco e pagando pra “internar” a mala e seu conteúdo no país.

fontes confiáveis disseram a este blog que a “tabela” para internação de mercadorias está ao redor de US$25 por quilo [excluindo substâncias tóxicas], o que tornaria possível trazer a tal “mala”, pelos canais informais, pagando meros US$750. num mercado de PCs e laptops, commodities que todo mundo tem e faz… um dos poucos diferenciais é o preço final e as condições de pagamento. tire suas conclusões. e se lembre que a conta acima é pra memórias, que são muito baratas porque produzidas em altíssimo volume. para outros módulos, o modelo cinza “de negócios” se justifica para volumes e diferenças percentuais bem menores.

a licença de importação, como dissemos, não vingou. a indústria articulou uma gritaria tão grande e tão coerente que a coisa durou menos de 48h. legal. mas a regra para as memórias está aí, somando-se à cacofonia de tarifas, impostos, taxas, regras, regulamentos, concessões, planos, aprovações e toda a parafernália da novela “custo brasil” que assombra, dia e noite, há décadas, a indústria nacional de qualquer coisa. aliás, há tantos atores [e seus interesses, contextos e consequências] na trama que uma outra novela, da mesma época que redenção, precisa ser lembrada.

image entre junho e dezembro de 1967, a globo levou ao ar anastácia, a mulher sem destino, escrita por emiliano queiroz. sem qualquer experiência em novela, o autor danou-se a adicionar histórias, personagens [e atores amigos] ao folhetim, o que resultou numa tremenda confusão na tela e numa situação na qual o que restou da audiência não entendia bulhufas.

aí pelo capítulo 100, janete clair foi chamada por glória magadan pra dar um jeito na coisa e, num terremoto, eliminou nada menos de 96% dos personagens, ordenando o seriado e chegando, como era de se esperar, a um final feliz, no capítulo 125.

taí uma alternativa pro “custo brasil”. só falta criar coragem, escolher e dar poderes a uma janete clair da hora, pra ela [em rede, conversando com muita gente e olhando para o futuro, agora e bem pra frente] reescrever “custo brasil” e chegar ao final, trocando inclusive o nome. sugestão do blog? muito simples: “brasil competitivo”.

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19.06.08

os PCs e a balança comercial

de acordo com pesquisa do idc, foram vendidos mais de 21 PCs por minuto no brasil durante o primeiro trimestre de 2008. isso dá quase 2.4 milhões de computadores pessoais nos três primeiros meses do ano, um aumento de quase 19% sobre período similar de 2007, que tinha sido considerado atípico [de tão bom].

segundo o idc, citado pela folha,  até 2010 o brasil alcançará o terceiro lugar em volume de vendas de PCs no mundo, atrás apenas de eua e china; pelas contas dos consultores, há cerca de 50 milhões de PCs funcionando no país, no momento.

e a balança comercial com isso? o déficit da balança de eletrônicos, até maio deste ano, jádecon141-import.gif está 61% maior do que no mesmo período no ano passado [que foi, por sua vez, 41% maior que 2006, comparando ano a ano]. estima-se que o rombo passe dos US$20B em 2009, resultado de um mercado interno que compra cada vez mais PCs, laptops, celulares e tudo que tem, dentro, componentes, partes e peças que importamos a granel da ásia, combinado com uma muita dificuldade de exportar o que é produzido aqui, por causa do que se convencionou chamar de “custo brasil”, que agora inclui um real tão valorizado como há uma década.

no passado, quando isso acontecia, fechava-se as fronteiras e se tratava de “substituir as importações”. à medida que o país se globaliza,decon142-deficit.gif o mercado [ou seja, todo mundo que não fabrica alguma coisa aqui, só para comércio local] quer os melhores produtos, pelos melhores preços, pouco importa de onde venham. até porque nosso argumento para vender [por exemplo] etanol nos estados unidos é menos barreiras na fronteira e menos subsídios dentro delas. se saímos com etanol, onde somos muito competitivos, os outros vão querer entrar com os produtos onde são muito competitivos. simples assim. antigamente, até que dava para pensar em ser competitivo em tudo. no mundo globalizado e conectado, onde a antiga brahma vai acabar comprando a cerveja símbolo dos eua, só burma e a coréia do norte acham que estão isoladas. por pouco tempo mais.

vamos ter que tomar e implementar decisões sérias de política industrial muito em breve, em muitas áreas. uma delas vai ser a de fabricação de commodities eletrônicas [PCs, laptops, celulares, câmeras, pods...] de baixo peso e alto valor agregado, onde o custo do transporte é irrelevante. ou se cria, aqui, condições para fazermos mais coisas pro brasil e outras partes do mundo ou acabaremos importando tudo pronto, até porque vai ficar, ao fim das contas, mais barato.

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03.06.08

a tv digital já deu certo

Tags:, , - srlm às 02:44

noite de poucos graus em são paulo, nossa mesa no aguzzo ladeada por uma confraria de vinho, eles lá tomando notas dos teores e sabores de muitas garrafas, nós aqui comentando o fim da conversa de carlos alberto sardenberg com daniela braun no cbn tecnologia da informação da quinta feira passada, quando sardenberg, depois de discutir com daniela as várias facetas do processo de implantação da tv digital aberta, gratuita, no brasil, concluiu que… “esse troço aí [tv digital] tem mais conversa do que realização“. e tá lá na página da cbn; é só clicar e ouvir.

um de nossos convivas era um industrial, figurinha carimbada [e anônima, aqui], conhecedora da indústria brasileira de tecnologia de informação e comunicação por dentro e por fora, incluindo as teles, TVs e os fabricantes e fornecedores de insumos pras duas. enquanto debatíamos, veio dele a sentença: “sardenberg está errado: o SBTVD já deu certo“. sem entender, inclusive porque só há uns poucos milhares de set top boxes [ou STBs] na rua, quase nenhuma programação nas grandes redes, problemas de cobertura, pouca programação e nenhuma interatividade, perguntamos todos, em quase uníssono… como assim? e ele: “pra medir o sucesso da iniciativa, é bom deixar claro que o propósito maior do SBTVD, enquanto política, era fazer a transição da TV analógica para a digital, no país, mantendo a mesma estrutura de competição, os mesmos canais, as mesmas concessões e propriedades, sem qualquer mudança no status quo…”

e mais: “não se pode exigir muito de uma inovação que veio pra manter tudo igual, não é? e depois saem por aí dizendo que o problema da TV digital, no brasil, é o elevado preço do STB; não é. o problema é terem criado uma TV digital que é analógica de nascença. mesmo assim, como já cumpriu seu propósito político, já deu certo…”. é, pode ser. vai ver que, por enquanto, nosso anônimo paulistano tá certo. resta ver o que ainda se pode fazer, em que tempo e a que custo, pra se ter TV digital de vera no país inteiro. se é que vamos ter uma algum dia.

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