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25.10.09

bbc, click, tokyo, cyberdyne e… HAL [e XOS]

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a galera do programa click, da bbc inglesa, esteve andando por tokyo recentemente e produziu um vídeo de quase seis minutos, cujo resumo é… gente, muita gente, trens e metrô, e-wallets [carteiras eletrônicas] para pagar tudo, akihabara [e como a santa efigênia é de brincadeira], games, hordas de jogadores de dragonQuest nos nintendo ds, ambientes hi-tech para doação de sangue e… idosos, muito idosos e muitos idosos e a cyberdyne [de verdade].

a cyberdyne [de brincadeira] é a companhia que, na ficção, domina o planeta com a skynet e constrói os robôs terminator, popularizados nos filmes de schwarznegger. no cinema, a companhia é a mais pura e simples encarnação do fim do mundo.

image na vida real, o estranho senso de humor japonês batizou com o mesmo nome uma empresa que vai fabricar um robô de vestir, HAL [hybrid assistive limb], ou membros híbridos assistidos. a coisa é um exoesqueleto inteligente capaz de [veja figuras ao lado] auxiliar o movimento de quem o veste, mais ou menos assim…

1] quando tentamos nos movimentar, o cérebro envia estímulos elétricos aos músculos; como resultado, sinais bioelétricos muito fracos aparecem na pele;

2] para HAL funcionar, sensores bioelétricos colados à pele capturam os sinais enviados pelo cérebro aos músculos;

image3] estes sinais são enviados aos sistemas computacionais de HAL, que interpretam o movimento se deseja fazer e qual sua intensidade;

4] em sequência, sinais de controle são enviados para as partes desejadas do exoesqueleto, determinando que movimento deve ser feito e qual o torque a ser usado;

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5] em função disso, as unidades de potência geram o torque necessário e põem o exoesqueleto em movimento;

6] toda esta sequência de ações se dá em frações de segundo e, segundo os proponentes da “máquina”, vai resultar em um conjunto de movimentos muito natural.

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HAL tem um vasto banco de dados de sinais bioelétricos e seus possíveis encadeamentos e isso o torna, em tese, capaz de responder aos estímulos cerebrais com a naturalidade desejadas pelos seus projetistas e construtores.

se não é possível capturar sinais bioelétricos, o que pode ser o caso em algumas circunstâncias, o exoesqueleto pode ser dirigido por um controle remoto, o que certamente torna o processo muito mais complexo, mas oferece uma alternativa para casos muito mais difíceis do que idosos com problemas de mobilidade.

as tecnologias por trás de HAL vêm sendo desenvolvidas há muito tempo pelos laboratórios do prof. yoshiyuki sankai, na universidade de tsukuba, e podem ser um grande passo na assistência a pessoas com problemas de mobilidade causados por condições de idade ou acidentes.

mas o mesmo tipo de tecnologia, que está sendo desenvolvido em várias partes do planeta, muitas delas bem menos pacíficas do que o [atual] japão, pode ser usado para bem mais do que auxiliar idosos a se movimentar.

este é o caso de XOS, um exoesqueleto de uso militar que está sendo desenvolvido pela raytheon para o governo dos EUA e que pode ser visto em ação neste vídeo aqui.

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os dois projetos são candidatos a se tornarem inovações radicais, capazes de mudar a vida de seus usuários. alguns vão poder voltar andar. outros vão poder andar muito mais, por muito mais tempo, carregados de armas e munições. resultados de HAL certamente servirão de base para projetos militares e tecnologias oriundas de XOS serão vistas em produtos parecidos com HAL. a tecnologia, por si própria, não tem moral ou caráter. vai caber a quem a usa decidir o que fazer com ela. como sempre, desde sempre.

vamos esperar que nenhum dos projetos seja a base para transformar a cyberdyne de hoje na de amanhã…

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01.08.09

gamePlay: palestra de abertura

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quinta passada rolou a abertura do gamePlay, simpósio/exposição sobre interatividade e games, no itaú cultural, em são paulo. tive o prazer de fazer a palestra inaugural, que tomara tenha sido gravada e vá pra rede alguma hora. quando for, anuncio o link aqui no blog.

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enquanto isso, republico abaixo o comentário que guilherme kujawski escreveu no blog do itauLab sobre minha contribuição ao evento. os slides estarão disponíveis neste fim de semana e o link pra eles vai aparecer num PS deste texto e no meu twitter. inté.

Ele dorme pouco. Suas olheiras, porém, não revelam cansaço; muito pelo contrário. Sua postura é enérgica, vibrante; suas ações são vigorosas. Seu raciocínio é aguçado. Ele sabe que não há tempo para o sono no colo do gigante adormecido chamado Brasil. Há muito por se fazer contra a mediocridade que grassa, seja no congresso nacional ou nos congressos estudantis.

Esse incansável lutador lembra um pouco a energia infinda de Gordon Pask, o cientista britânico que, durante suas longas horas de vigília, propôs uma teoria da conversação que abarcasse humanos e máquinas. Mas tratamos de Silvio Meira, cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, que realizou a palestra inaugural do Simpósio GamePlay, ontem, dia 30 de julho.

E que palestra! Em sua preleção, associou os processos de interação – substância da exposição GamePlay – com o devir existencial, com o “ser-aí” (dasein) de Martin Heidegger, a potencialidade do ente em disparada, em constante atualização, em sua busca constante por uma tensão dinâmica que lhe proporcione recursos contra a entropia, o fluxo bêbado do mundo exterior.

Após algumas contextualizações filosóficas, Meira se desculpou por supostas imposturas intelectuais, e seguiu em frente em sua análise sobre o papel dos jogos eletrônicos na sociedade contemporânea. Se hoje eles espelham simulacros, é porque nos distanciamos por demais das percepções imediatas, da presença do real (a realidade propriamente dita) e do Real (a única realidade possível, segundo Lacan, a saber, a morte). Se os videogames tornaram-se hiperreais – a ponto de incluírem em seus ambientes sofisticadas simulações de leis de física – é porque, de certa maneira, nos tornamos escravos das formas puras platônicas, independentes dos mecanismos de percepção imediata.

No futuro, de acordo com as previsões do filósofo pernambucano, “game is over”. Sim, pois ao invés de fingirmos tocar a guitarra de George Harrison no videogame musical The Beatles: Rock Band, vamos literalmente reproduzir os acordes, sem o recurso da simulação. A coisa real será o apelo.

Logo, os personagens virtuais dos videogames serão materializados em robôs autônomos ou semi-autônomos que sentarão com humanos para redigir uma nova legislação de robótica, menos antropocêntrica que as três leis de Asimov. A lógica das percepções transformadas em emoções, hoje restrita ao universo dos humanos, fará parte de uma população de máquinas inteligentes não elaboradas para serem escravas ou assassinas de aluguel, mas simplesmente parceiras de jogos para a raça humana.

Ao final, Meira contou sobre o que parece ser a solução para os aborrecidos videogames educacionais: competições em redes sociais. Tal é o fundamento do projeto OjE (Olimpíada de Jogos Digitais e Educação), iniciativa de vários players tecnológicos de Recife. Ao invés de coibir a fuga de alunos para as lan houses, por que não trazê-las para o pátio dos colégios? O ensino não deveria ser um jogo de conhecimento?

Silvio Meira quer mais que um estado de bem-estar; quer um Welfare State of Mind. Conte conosco, caro filósofo das técnicas!

PS: para chegar nos slides usados nesta palestra, clique aqui [32MB, .pptx].

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29.07.09

robôs [final]: onipresentes. oniscientes? sob quais regras?

image os tres primeiros textos desta série descreveram alguns cenários, de guerra a futebol, onde há evidências consideráveis de que robôs terão uma participação no futuro. menos em futebol do que em guerra, talvez infelizmente. mais em trânsito do que na sala de aula, talvez felizmente. qualquer que seja o campo, toda discussão informal sobre robótica inteligente [inteligente mesmo, bem mais do que máquinas de solda em montadoras] passa pelas chamadas “leis” da robótica, primeiro formuladas por isaac asimov.

asimov foi um dos mais prolíficos e sofisticados autores de ficção científica de todos os tempos. como parte de sua produção, há um grande número de textos que gira ao redor dos problemas práticos [e psicológicos] de robôs ideais, construídos para operar segundo regras românticas, as tais “três leis”, publicadas pela primeira vez em "run around", de 1942.

image as leis são muito simples, e representam uma certa hierarquia de valores [antropocêntricos]: 1ª lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal2ª lei: um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a primeira lei; 3ª lei: um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e segunda leis.

as leis dizem que os robôs [ideais, ou “de asimov”] estão sujeitos às nossas vontades, desde que estas não impliquem em causar mal a outros humanos e que, garantidas estas condições, os robôs devem cuidar de sua própria subsistência. há um grande número de variações das leis, parte delas de autoria do próprio asimov, que tempos depois incluiu um lei “zero”, determinando que robôs não podem agir no interesse de humanos como indivíduos; devem agir no interesse de toda a humanidade. a idéia, aqui, era elevar o interesse coletivo acima do individual, tornando os robôs um bem universal e não um benefício pessoal para um ou outro humano.

porque tais leis podem ser consideradas ingênuas? porque alguém poderia construir um robô armado e… burro. o exemplo da torre de vigia robotizada que supostamente está sendo usada na fronteira entre as coréias é claro: trata-se de uma máquina de matar gente, que pode –ou não- ter humanos no processo de tomada de decisão. veja o caso desta máquina de paintball: no jogo, é mortífera. sem humanos no controle. somos simples e puros alvos. nada mais.

o primeiro e segundo texto desta série trataram cenários em que robôs autônomos podem ter a capacidade de eliminação de seres humanos [sem humanos para tomar a decisão…] e, pior, onde estas coisas podem fugir de nosso controle e passar a tomar decisões que estejam fora dos planos originais [por mais violentos que tenham sido] de seus construtores e donos.

na série, até agora, muitos comentaram que os engenheiros trabalhando em tais projetos deveriam procuram algo mais interessante para fazer, como minorar a fome do mundo. o comentário deve ser levado em conta, mas é primário e ingênuo. tecnologia é, quase sempre, o possível, agora. se for possível fazer robôs [armados] que vigiam lojas, casas, prédios, bases e fronteiras, eles serão feitos. e usados.

nosso problema é outro. assumindo que tais sistemas começam a aparecer, quais são as regras às quais eles, seus donos, projetistas e fabricantes deveriam estar sujeitos?… dentro de tais regras, quem é responsável pelo que, em que termos? se um bug no software de um robô levá-lo a atirar em alguém, de quem será a culpa? principalmente se o robô for completamente autônomo? se for, será que é possível impedir que uma máquina seja hackeada para se comportar de uma forma não prevista anteriormente? como? nesta discussão, temos que necessariamente descer ao ponto de  discutir se um robô [autônomo] deveria ter “porte de arma” ou não.

neste contexto, que por sinal é o atual, as leis de asimov não servem para nada. as mudanças feitas no conjunto original de leis por roger clarke também não resolvem o caso, pois clarke continua assumindo [em seu texto de 1993/94] que os robôs são necessariamente “do bem”. não são. e olha que clarke tem uma lei que considera que robôs podem projetar e construir outros robôs…

num artigo bem recente, yueh-hsuan weng, chien-hsun chen e chuen-tsai sun propuseram, no topo das “inteligências” que robôs muito sofisticados [autônomos, conscientes] poderiam vir a ter, uma inteligência de “segurança”, que tornaria tais máquinas seguras num ambiente majoritariamente humano e, claro, antropocêntrico [onde as prioridades, a ética, a moral, os meios e métodos… e tudo mais são estabelecidos ao redor de demandas e satisfação humanas].

de forma muito clara, os robôs que a toyota e muitos outros vão tentar vender para nossas casas hão de se guiar por regras parecidas com as de weng et al. os robôs da toyota são baseados em “harmonia com as pessoas” que, apesar de não garantir que tudo vai dar certo e nunca haverá um acidente fatal envolvendo um robô da marca, pelo menos nos dizem que a marca japonesa vai tentar, no limite da sua competência, cumprir a promessa.

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no lado oposto, há robôs sendo feitos para tratar humanos como alvo. sobre estes, é urgente impor regras como as de john canning, da marinha americana, que propõe que os robôs podem entrar em combate autônomo entre eles mas, quando o alvo for humano, têm que solicitar a ajuda de um humano para tomar a decisão de atirar ou não. um diagrama explicando o básico das regras de canning é mostrado a seguir.

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a matriz de canning baliza o comportamento de robôs autônomos armados em situações onde haja pessoas e “coisas” [inclusive outros robôs]. se, no ambiente, só há coisas que são objetivos militares válidos, sinal verde e o pau canta, literalmente. se há pessoas e coisas que são objetivos válidos, os robôs devem mirar as coisas e pedir autorização superior para detonar as pessoas. em qualquer outra situação, os robôs não devem fazer nada, exceto se defender caso estejam sendo atacados.

não se sabe, ao certo, que conjunto de algortitmos implementariam tal capacidade de decisão e como eles seriam provados corretos na prática e em todas as situações.

tenho minhas dúvidas, face ao tamanho do esforço, se isso será possível algum dia. independentemente disso, sistemas robóticos armados continuarão sendo construídos de forma acelerada pelos países mais ricos, até porque diminuem o risco humano e político da guerra. mau sinal.

certo mesmo é que vamos enfrentar uma ampla discussão sobre ética robótica nas próximas décadas, inclusive porque poderemos, no médio prazo, construir máquinas capazes de raciocinar e tomar decisões de forma mais “esperta” [no sentido humano] do que nós próprios.

uma das atitudes subdesenvolvidas mais clássicas, em casos como este, é fingir que o assunto –de tão ameaçador ou complexo- não é conosco; dá-se uma de avestruz, a enfiar a minúscula cabeça na terra e deixar de fora e bem visível um traseiro –um alvo- centenas de vezes maior. nunca dá certo.

ao contrário, a associação americana de inteligência artificial encomendou a um painel de cientistas, mencionado no segundo texto desta série, um estudo sobreexpectations and uncertainties about the development of increasingly competent machine intelligences, including the prospect that computational systems will achieve “human-level” abilities along a variety of dimensions, or surpass human intelligence in a variety of ways.

se existe a possibilidade de sistemas computacionais poderem, em futuro próximo, atingir níveis de performance igual ou superior aos humanos em um número de áreas, talvez se deva –todos nós, em todo o mundo- ajudar a escrever o livro de regras debaixo dos quais tais inteligências artificiais vão se comportar. na escola e na estrada, na casa e no escritório, na brincadeira, no hospital, no jogo, na guerra e na paz.

antes que elas próprias queiram escrever o livro de regras. talvez todas as regras.

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[acima, níveis de necessidade humanos {de acordo com maslow}, níveis correspondentes para um robô de pesquisa da nec e exemplo de atitude do robô quando seu nível de satisfação é baixo e ele realiza uma ação para aumentá-lo.]

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28.07.09

robôs [3]: campeões do mundo? de futebol?

Tags:, , , , , , - srlm às 07:00

robocup é o nome da família de campeonatos mundiais de futebol de robôs. por enquanto, é jogado entre eles e os melhores lances das partidas decisivas são, no mínimo, risíveis. quer ver? clique no vídeo abaixo.

se você viu o show , deve ter notado que, na abertura, uma galera chega ao estádio num carro dirigido por um… robô. trata-se de junior, segundo lugar no darpa urban challenge de 2007, cujo desafio era fazer um carro autônomo atravessar uma cidade [imaginária]. breve, nas rotas da sua vida, ônibus e táxis sem motoristas e, mais longe, já que motoristas amadores são tão perigosos, podem acabar proibindo você de dirigir seu próprio carro, que será um robô. enquanto não rola, veja alguns outros vídeos da última copa mundial em graz, na áustria, neste link.

image a rede mundial de instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento, inovação e empresas, de dezenas de países [incluindo o brasil] tem um objetivo muito imodesto: em 2050 [ano de copa do mundo!] ter criado um time de robôs humanóides completamente autônomos capaz de vencer a seleção [humana] campeã mundial. não é pouca coisa. mas, daqui pra lá, são mais de quarenta anos. a favor dos robôs.

em se tratando deles, vamos lembrar o que disse um dos comandantes responsáveis pelo programa de sistemas autônomos das forças armadas americanas, citado no primeiro texto desta série: segundo o tenente-general david deptula, o que nós estamos vendo hoje, comparado com o que está por vir nos próximos 30 anos, “são os anos 1920”…

e tempo, aqui, faz uma grande diferença. quando se compara os quarenta anos entre 1965 e 2005, a evolução exponencial das capacidades de processamento, armazenamento e comunicação fez com que, pelo mesmo dinheiro da década de 60, se comprasse um sistema um bilhão de vezes mais poderoso quarenta anos depois.

considerando os avanços atuais, quando se dobra a capacidade de processamento pelo mesmo preço a cada treze meses, e medindo a partir do mesmo 2005, em quanto tempo compraríamos, pelo mesmo preço da metade desta década, um sistema um bilhão de vezes mais capaz? meros 25 anos; em 2030 será possível comprar, por dois mil reais de hoje, um laptop cuja capacidade de processamento [e não, note bem, a “inteligência”] será igual à de um cérebro humano.

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ao redor de 2050, ano do possível embate futebolístico entre humanos e robôs, os mesmos dois mil reais serão capazes de comprar uma capacidade de processamento igual à de todos os humanos vivos, juntos. onze craques robóticos, a dois mil reais por cérebro, mais estrutura, sensores e atuadores… vamos imaginar astronômicos duzentos mil reais por “jogador”. no brasil de hoje, é o preço de pebolistas da série C do brasileirão. dois milhões daria pra montar um time inteiro de máquinas. pra ganhar da seleção campeã mundial?… que teria, entre muitos outros um kaká de cento e cinquenta milhões de reais?

das duas, uma: não vai haver, nunca, um robô jogando como um kaká ou cristiano ronaldo e craques como eles vão comandar valores astronômicos em seus contratos para sempre. ou vai haver, algum dia [julho de 2050?], robôs jogando como kaká e o futebol [e a vida] terá mudado para sempre. incluindo os salários dos jogadores humanos…

e hoje, onde estamos? o prêmio de vídeo mais inovador da última ijcai, uma das mais reputadas conferências mundiais de inteligência artificial, foi para um robô, ACE [autonomous city explorer, explorador autônomo de cidades] capaz de andar [ou melhor, rodar] sozinho, por cerca de 1.5km, atravessando uma parte do centro de munique. veja o vídeo.

 

 

há um detalhe não trivial a observar: ACE não tem acesso a mapas da cidade, dados de GPS, falhas do pavimento… e tem que interagir com pessoas que lhe indicam, com sinais, como se movimentar para chegar a seu destino. no experimento que gerou o vídeo, ACE está imerso em um ambiente essencialmente humano e interage com gente o tempo todo. e chega onde queria chegar.

é um bom começo. tem mais quatro décadas pra parecer gente e fazer o mesmo e mais, realmente sozinho, se possível driblando que nem os melhores humanos do mundo. se chegar lá, vamos precisar das regras que você poderá ler ao clicar na imagem abaixo.

 

 

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27.07.09

robôs [2]: máquinas –autônomas- de guerra?

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asilomar, califórnia, fevereiro de 2009: um seminário de alto nível, reunindo alguns dos principais especialistas em inteligência artificial do planeta, discute se deveríamos impor limites às pesquisas que podem levar à perda de controle humano sobre sistemas computacionais autônomos. estamos falando de sistemas que começam a realizar um conjunto cada vez maior de funções que nos acostumamos a pensar privativas de pessoas como nós, tipo conversar ao telefone, dirigir veículos, realizar funções sofisticadas como acompanhante, assistente ou secretária e… ir à guerra.

neste último quesito, o grupo de asilomar concluiu querobots that can kill autonomously are either already here or will be soon: já existem ou existirão, muito em breve, robôs que capazes matar de forma autônoma. isso significa, em português bem claro, máquinas capazes de selecionar um alvo que atenda seus objetivos [supostamente definidos por humanos] e eliminá-lo, sem que para isso seja preciso intervenção humana.

no fim de 2007, o departamento de defesa dos estados unidos publicou um documento [Unmanned Systems Roadmap: 2007-2032] que define a estratégia americana para “guerra sem gente”, que não é pura e simples aventura dos generais no campo de tecnologia. a lei 106-398, aprovada pelo congresso em 2001, define na seção 220 que, a partir de 2010, um terço das aeronaves em operações “deep strike” [sem cobertura, em território hostil] sejam não tripuladas e, para 2015, determina que um terço de todos os veículos de combate terrestre sejam não tripulados.

em 2007, uma nova lei [a 109-364] passou a exigir [na seção 941.2] que os comandantes militares, ao contratar o desenvolvimento de um sistema tripulado, se certifiquem que as demandas do programa correspondente não podem ser atingidas por sistemas não tripulados. o plano de longo prazo para sistemas militares não tripulados é uma exigência legal que, talvez nos EUA mais do que por aqui, mandada pelo legislativo, deve ser cumprida pelo executivo.

algum problema nisso? o “roadmap” original e sua revisão, de 2009 [cuja capa você vê na figura abaixo] não mencionam a palavra ética uma vez sequer. mas, você diria, guerra tem ética? tem sim. a guerra tem leis e regras de engajamento, e deixar de cumpri-las torna os marginais criminosos de guerra, como foi o caso de slobodan milošević.

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um estudo da calPoly [Autonomous Military Robotics: Risk, Ethics, and Design], preparado para a marinha americana, começa…

Imagine the face of warfare with autonomous robotics: Instead of our soldiers returning home in flag‐draped caskets to heartbroken families, autonomous robots—mobile machines that can make decisions, such as to fire upon a target, without human intervention—can replace the human soldier in an increasing range of dangerous missions: from tunneling through dark caves in search of terrorists, to securing urban streets rife with sniper fire, to patrolling the skies and waterways where there is little cover from attacks, to clearing roads and seas of improvised explosive devices (IEDs), to surveying damage from biochemical weapons, to guarding borders and buildings, to controlling potentially‐hostile crowds, and even as the infantry frontlines.

…criando um cenário de guerra cada vez mais sem seres humanos e, em parte, sem intervenção humana em sua condução. um pouco mais na frente, o relatório alerta para os problemas embutidos no cenário…

Technology, however, is a double‐edge sword with both benefits and risks, critics and advocates; and autonomous military robotics is no exception, no matter how compelling the case may be to pursue such research. The worries include: where responsibility would fall in cases of unintended or unlawful harm, which could range from the manufacturer to the field commander to even the machine itself; the possibility of serious malfunction and robots gone wild; capturing and hacking of military robots that are then unleashed against us; lowering the threshold for entering conflicts and wars, since fewer US military lives would then be at stake; the effect of such robots on squad cohesion, e.g., if robots recorded and reported back the soldier’s every action; refusing an otherwise‐legitimate order; and other possible harms.

…incluindo responsabilidades das partes envolvidas [inclusive as das máquinas, claro], captura e hacking de robôs, possivelmente convertidos em inimigos de seus donos originais, o efeito de robôs em grupos de batalha mistos [humanos e máquinas] e a maior “facilidade” de entrar em guerra, devido ao menor número de vidas [e risco, inclusive político] envolvido.

o estudo da calPoly não é mero exercício acadêmico. as máquinas estão indo à guerra: não estamos discutindo se deveríamos usar robôs em conflitos, qual santos dumont refletindo sobre usos militares de uma de suas invenções. precisamos discutir e avaliar, rápida e profundamente, quais são as consequências dos sistemas autônomos e robôs na guerra, realidade que nos afeta agora.

o orçamento americano para sistemas de defesa “não tripulados” é de pelo menos US$20B para o período 2009-2013. os americanos têm centenas de UAV e milhares de outras máquinas de todos os tipos. mas, se o orçamento americano é, disparado, o maior do mundo para tais sistemas, estima-se que outros quarenta países e organizações [como o hezbollah, há anos] tenham acesso, hoje, a UAVs, veículos aéreos de ataque não tripulados como os que mostramos no primeiro texto da série.

ao contrário de artefatos nucleares, de dificílima obtenção e alvo de severa fiscalização e controle, sistemas autônomos e inteligentes podem ser construídos e programados por muita gente, em qualquer lugar e para quase qualquer tipo de situação. o conhecimento correspondente está publicado em livros, jornais e revistas, existe em muito larga escala na internet e os sub-sistemas e componentes necessários para construir um UAV de ataque podem ser adquiridos com facilidade. exagerando, é como construir um aeromodelo [muito] sofisticado. qualquer dia destes, pode esperar, vamos vê-los em ação no maior conflito urbano brasileiro, a guerra pelo controle do tráfico no rio de janeiro. e nas mãos de vários lados.

voltando a asilomar, e se máquinas capazes de matar estiverem mesmo soltas por aí… e não forem maluquices situadas em distopias datadas em um futuro remoto?… você já ouviu falar de um certo robô [fixo] de patrulha de fronteira da coréia do sul? o país gasta 120.000 homens-ano para patrulhar sua fronteira com a belicosa coréia do norte e a taxa de natalidade local está caindo. daí pra alguém pensar em automatizar o processo, foi um pulo. veja o vídeo abaixo.

 

pelo que se sabia, o robô seria produzido pela samsung e já deveria estar sendo usado na fronteira entre as coréias. mas, de repente, não se falou mais disso e a informação sobre o “produto” deixou de constar da página da subsidiária da samsung que, em tese, o produz. será que este é um daqueles sistemas que o grupo de asilomar diz que “já existe”?…

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26.07.09

robôs [1]: fora de controle? como? quando?

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a imagem à esquerda não é exatamente um robô; trata-se de um predator, um “avião” do tipo UAV [unmanned aerial vehicle, ou VANT, veículo aéreo não tripulado, em português], disparando um míssil hellfire, ou fogo do inferno, em algum lugar do planeta. de acordo com seus alvos prediletos, o taliban e a al-qaeda, o “sistema” [e não veículo] predator é muito mais preocupante do que tanques, aviões normais ou qualquer outra coisa que mata, no ar, na terra no mar. o predator é o irmão menor do reaper; somando um e outro, há pelo menos 210 deles em operação nas forças armadas dos EUA. abaixo, outra foto do predator, cortesia do timesOnline.

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segundo o timesOnline, dois dias depois de sua posse o presidente obama já estava dando ordens para que suas forças no afeganistão usassem os UAV contra alvos no paquistão, onde, teoricamente pelo menos, não há uma guerra contra os EUA e na direção de onde, também em tese, não se poderia atirar. os hellfire disparados por predators já mataram, com sua carga explosiva de fragmentação de 4kg, centenas de pessoas no paquistão.

segundo fontes paquistanesas687 civilians have been killed along with 14 Al Qaeda leaders in some 60 drone strikes since January 2008 — just over 50 civilians killed for every Al Qaeda leader. nossa atenção, na frase, deve ser para o “just”, que quer indicar, ao que parece, que “só” cerca de 50 civis foram mortos para cada líder da al qaeda, como se isso desse um ar de normalidade ao quase certo assassinato, à distância, de seres humanos como eu e você.

por enquanto, veículos como os predators são comandados por seres humanos. numa reportagem recente [de 24/jul] a cnn explica, no detalhe que é possível para sistemas e operações do tipo, como a coisa funciona. os “pilotos” dos predator que “lutam” no oriente estão em bases continentais nos EUA, como creech, nevada, para onde vai, nos seus dias de trabalho, o major morgan andrews. segundo a cnn, depois de beijar a mulher e dirigir uma hora de carro… within minutes [he] could be killing insurgents on the other side of the world. você pode ver vídeos das ações dos pilotos de creech, detonando o outro lado do mundo, neste link.

tudo remoto, limpo, impessoal, matando insurgentes e não pessoas, sem qualquer risco [a não ser a perda do predator], do ar condicionado de uma sala em nevada, no expediente… e depois é só dirigir de volta pra casa, beijar a mulher, ajudar os filhos nas tarefas da escola… que amanhã tem, de novo, tudo igual. só mais uns alvos a eliminar ali e acolá.

os UAV como o predator têm se mostrado tão eficazes que o secretário de defesa dos estados unidos, robert gates, anda dizendo que os F35, a próxima geração de aviões de caça dos EUA, serão, também, suas últimas máquinas tripuladas. segundo um alto comandante da inteligência da força aérea americana, o que nós estamos vendo hoje, comparado com o que está por vir nos próximos 30 anos, “são os anos 1920”… pra comparar, veja a imagem abaixo: são de havilland DH9A, da royal air force, nos anos 1920. talvez a gente devesse estar mais preocupado…

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segundo o tenente-general david deptula, sistemas deste tipo estão… destined to work with decreasing human input. em bom português, sistemas como o predator e seu irmão maior, o reaper, estão destinados a depender, cada vez menos, de decisões e controles humanos. até que ponto? ao ponto de serem completamente independentes? e quais seriam as possíveis consequências? em que prazo e para quem? e se eles “fugirem do nosso controle”?…

é isso que vamos discutir durante a semana. você pode acompanhar as pílulas da discussão [entre outras muitas coisas] em twitter.com/srlm.

enquanto o próximo texto não vem, veja o vídeo abaixo, do bigDog, um “cão-robô” que está sendo desenvolvido para o exército americano. vá até o fim do vídeo; a coisa é capaz de carregar 150kg em inclinações de até 35 graus. e a idéia é que ele seja o “melhor amigo” dos soldados…

 

 

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20.11.08

doente? tome um computador…

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ss-20081120010832-ipill.pnga philips acaba de anunciar uma cápsula, que chama de iPill, dispositivo que parece [e tem o tamanho de] um comprimido normal, só que contém um computador, bateria, sensores, um rádio [para se comunicar com dispositivos externos ao corpo por onde passa], um receptáculo para medicamentos e um mecanismo para liberar o remédio que carrega exatamente onde, no trato digestivo, possa ter o maior resultado e os menores efeitos colaterais.

a idéia é simples, antiga e, ao mesmo tempo, genial. como todas as coisas práticas, tecnológicas ou não. os sensores podem captar uma variedade de condições do corpo, desde a temperatura do local onde estão até a acidez do ambiente ao redor. tais dados podem ser enviados para um sistema de informação externo ao corpo e decisões sofisticadas podem ser tomadas sobre quando e onde liberar a carga de fármacos carregada pelo pequeno viajante.

recentemente, falamos aqui de uma outra cápsula, capaz de, guiada externamente mas com sistema de propulsão próprio, navegar pelo sistema sangüíneo do corpo a velocidades de até 10cm/s. pense na combinação das duas. entregar drogas exatamente onde o organismo precisa delas é muito importante para o tratamento de quase todos os males que nos afligem.

pelo andar da carruagem, o que era visto até agora como o simples ato de "tomar uma pílula" vai começar a implicar em uma relação muito mais íntima, pessoal e profunda com dispositivos computacionais passeando dentro da gente. tomara que eles saibam, de um jeito ou de outro, o que estarão fazendo…

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