Terra Magazine

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

TV digital: governo perdeu as rédeas do processo

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hoje é dia de ouvir luiz fernando gomes soares, o principal pesquisador por trás da especificação do padrão de interação do SBTVD, o sistema brasileiro de TV digital. a ideia da conversa surgiu a partir deste link, onde se diz que o SBTVD, lançado em 2007 [dezembro] tem até agora apenas 14 aplicações interativas comerciais. eu nunca vi promoção ou propaganda de nenhuma delas, não sei vocês. a isso, LF [como nosso entrevistado é conhecido no meio acadêmico] acrescenta que não existe nenhuma "narrativa interativa", comercial, ou seja, o uso da capacidade de interação do SBTVD para construção de histórias interativas, uma das possibilidades mais interessantes –inclusive do ponto de vista educacional- do novo ambiente.

esta entrevista é um marco. LF fala pouco mas, desta vez, diz muito. conta a história do que rolou até agora nos bastidores da interação no SBTVD. seja lá qual for o futuro do padrão brasileiro de TV digital e de seus mecanismos de interação, LF dá um testemunho marcante, daqueles que entram para a história.

esta conversa rolou por emeio e, salvo os negritos e itálicos nas respostas, que são aqui mesmo do blog, as respostas de LF estão publicadas na íntegra. boa leitura.

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0. uma curta biografia: quem é você, em um parágrafo, quais são os principais links pra seu trabalho, onde você pode ser achado?…

Sou Professor Titular do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Fui presidente da área de computação na CAPES, membro do Conselho de Assessores de Ciência da Computação (CA-CC) do CNPq, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e atual membro de seu Conselho, e vice-presidente do Laboratório Nacional de Redes de Computadores (LARC). Fui representante da comunidade científica no Comitê Gestor da Internet no Brasil e membro do seu Conselho Administrativo. Fui o responsável pelo desenvolvimento do ambiente Ginga-NCL do Sistema Brasileiro de TV Digital e Recomendação ITU-T para serviços IPTV. Sou o atual representante da academia no Módulo Técnico da Câmara Executiva do Fórum de TV Digital Brasileiro e de seu Conselho Deliberativo. Sou coeditor da Recomendação H.761 no ITU-T e Coordenador do GT de Middleware do Fórum SBTVD. Meu laboratório está neste link e o e-mail neste outro.

1. qual a história da interatividade no SBTVD até agora? quais foram os percalços da partida, da definição do padrão?

A história da linguagem NCL, e do middleware Ginga, começa em 1991, quando seu modelo de dados, chamado NCM (Nested Context Model), resolveu um problema em aberto na área de Sistemas Hipermídia. No ano de 1992, a solução encontrada foi incorporada ao padrão MHEG da ISO, que veio a se tornar o primeiro middleware para TV digital, sendo até hoje o middleware adotado no Reino Unido. Em 2005 submetemos a máquina de apresentação de aplicações NCL (o Ginga-NCL) como proposta para o SBTVD. Na época, o nome Ginga ainda não existia; na proposta se chamava MAESTRO. O Nome Ginga surgiu quando a proposta foi aceita como a única inovação, de fato, do SBTVD.

O início da definição do padrão, no entanto, não foi fácil. Muitos duvidavam que o Brasil pudesse ter feito uma tecnologia melhor da que a existente nos países ditos desenvolvidos. Cheguei a ouvir (em palestra na Câmara dos Deputados em Brasília) que o Brasil devia se preocupar com a exportação de frango e de laranja, e não com o desenvolvimento de tecnologia.

Tendo sido comprovada como a melhor tecnologia, tivemos, felizmente, apoio do Governo Federal na época, quando fui convidado a fazer o discurso de lançamento do SBTVD, cerimônia na qual o Presidente Lula e o ministro das Telecomunicações citaram o Ginga (passou a ser chamado assim poucos dias antes do lançamento oficial) como a grande conquista brasileira.

No entanto, ainda havia resistências no setor de radiodifusão e na indústria de recepção. Apenas quando pesquisadores europeus, japoneses e americanos começaram a elogiar a NCL como a melhor solução existente, salientando que finalmente se tinha uma solução tecnológica adequada para a TV digital, foi que a aceitação veio de fato. Ou seja, foi preciso sermos primeiro reconhecidos lá fora. Para se ter uma ideia, quem propôs a discussão de NCL e Ginga-NCL como Recomendação ITU-T não foi o Brasil, e sim o Japão.

2. quais foram os principais problemas do caminho, do lançamento do padrão em 2007 até agora?

O primeiro problema foi que diziam, em 2007, que não havia implementação comercial do Ginga-NCL e que o GEM (a parte imperativa escolhida, pela compatibilidade com o padrão Europeu) tinha problemas de royalties. Quanto a esse último ponto, ninguém atacava o Ginga-NCL, que incomodava justamente pelo contrário, por ser software livre e sem qualquer royalty. Ou seja, disponível para absolutamente todos.

Por não necessitar pagamento de royalties e por sua simplicidade, várias empresas de software foram criadas oferecendo a solução Ginga-NCL, ficando o primeiro problema resolvido. Foi então que alguns fabricantes perceberam que o Ginga-NCL fazia tudo o que o GEM fazia e melhor, de onde surgiu a proposta que se lançasse receptores só com o Ginga-NCL; o que chamaram de Ginga 1.0 na época. A ideia foi contestada pelos radiodifusores, que diziam que a presença do GEM era importante pela interoperabilidade com os outros padrões.

Em 2008, como já mencionei, a NCL e o Ginga-NCL foram propostos como Recomendação ITU-T para serviços IPTV. Aprovada em abril de 2009, pela primeira vez na história das TICs o Brasil contribuiu com um padrão mundial, na íntegra. Um marco que a imprensa ignorou. Como fato curioso, um jornalista, muito renomado, que evito dizer o nome, até por vergonha, de um dos veículos mais lidos do Rio de Janeiro, ao ser apresentado ao fato, disse para seu repórter trazer uma notícia do Adriano (que acabava de ser contratado pelo Flamengo) em alguma balada, pois era isso que trazia leitores.

Vale ressaltar que até hoje o ambiente Ginga-NCL é o único ambiente de middleware padrão para todas as plataformas IPTV, TV a cabo, TV broadband (TV conectada) e TV terrestre (TV aberta). Mesmo dentro do SBTVD, é o único padrão para todas as plataformas (receptores fixos, móveis e portáteis).

Ainda em 2009, iniciou-se um movimento para substituição do GEM por uma nova solução da Sun, que seria incorporada como Ginga-J, a princípio, livre de royalties. O movimento cresceu e em uma reunião do Conselho Deliberativo do Fórum foi dada a decisão final. Na época, o Ginga-NCL já pertencia à comunidade de software livre, tendo recebido contribuições de mais de uma dezena de universidades e outras instituições; várias empresas foram também criadas sobre essa solução.

A academia, por quase unanimidade (com exceção apenas do LSITec da USP, entre as 17 instituições ligadas ao Fórum do SBTVD), votou por não adotar a nova solução, proposta pela Sun e apadrinhada pelos radiodifusores, uma vez que a NCL, com sua linguagem de script Lua, fazia absolutamente tudo o que fazia a nova solução e com vantagens. A perda da interoperabilidade (tão propalada) vinda pela não adoção do GEM, não justificava mais a presença do Java nas estações clientes.

Na época, a indústria de recepção concordava com a academia, mas, devido a um acordo feito nos bastidores, a academia ficou isolada e perdeu a votação por 12 a 1 (só os radiodifusores mais a indústria de recepção somam 8 votos no Fórum do SBTVD).

Com o imbróglio do Ginga-J resolvido, começaram as reclamações que não podia haver nenhum produto sem antes ter uma suíte de testes para o Ginga. Deve ser ressaltado, no entanto, que a suíte de testes para o Ginga-NCL existe e também já é hoje um projeto ITU-T. Mais ainda, pela primeira vez, uma Questão ITU-T endossou oficialmente um trabalho colaborativo por meio de serviços web para a concepção dessa suíte.

Nesse meio tempo, o padrão brasileiro foi adotado em mais 10 países latino-americanos e começa a ser adotado em alguns países da África, e tudo tendo a interatividade do Ginga como carro chefe. Mais ainda, alguns desses países, como é o caso da Argentina, resolveram começar só com o Ginga-NCL, o que deveria ter sido feito no Brasil, na opinião derrotada da academia.

É bom ressaltar, para melhor entendimento, que, para ser Ginga, obrigatoriamente deve-se ter o Ginga-NCL. Outras partes opcionais podem ser agregadas, como o Ginga-J (obrigatório apenas no caso do SBTVD para receptores fixos), ou outros serviços, como aqueles oferecidos pelas TVs conectadas.

3. na sua avaliação, qual é o atual estado de coisas? quais são as perspectivas de uso prático, em escala comercial, de interatividade no SBTVD? você acha que as emissoras "deixaram interatividade pra lá", depois de ter conseguido vários de seus objetivos na transição do analógico para o digital, inclusive evitando a fragmentação do espectro para entrada de mais estações de TV?

Pois é, eu ainda não quero acreditar que as emissoras tinham apenas como objetivo impedir a entrada de mais estações de TV. Ainda sonho que haja algum compromisso público por parte daqueles que ganharam concessões públicas. Talvez seja apenas um sonho…. Mas não pensem que a academia foi ingênua.

O ideal da inclusão digital, da democratização não só do acesso à informação, mas também do processo de produção de conteúdo, nos levou ao projeto da NCL e sua linguagem de script Lua. Sabíamos da dificuldade da transmissão, a terceira perna do processo de democratização, mas contávamos com o sucesso da TV pública e, principalmente, com a entrada futura dos serviços de IPTV.

Não acho que as emissoras tenham deixado a interatividade para lá. Creio apenas que, por incompetência ou lentidão, não encontraram um modelo de negócio para a interatividade. O que as emissoras fazem hoje de interatividade é muito pobre. Não explora nem 10% do que o Ginga-NCL possibilita. A produção ainda está nas mãos de engenheiros, que são bons engenheiros, mas produtores de conteúdo sem qualquer criatividade. Ainda não deixaram a interatividade chegar às mãos de quem realmente poderia criar as aplicações “campeãs”.

Ainda se pensa na interatividade como widgets acoplados a programas da TV convencional. Nesse sentido, o Ginga acrescenta pouco a mais do que os serviços das TVs conectadas, em termos de desempenho e expressividade. Só ganha por ser padrão e de código aberto. Entretanto, isso é muito importante. O grande problema das TVs conectadas atuais é que cada fabricante adotou sua solução proprietária, desde a linguagem de desenvolvimento dos widgets até a distribuição por meio de sua própria loja. Mesmo que se queira padronizar uma dessas formas proprietárias, basta fazer uma ponte com a NCL. Mais uma vez, NCL é uma linguagem cola, que não substitui, mas agrega facilidades. Com NCL, os fabricantes de receptores ainda poderiam controlar a distribuição de widgets, ainda controlariam totalmente o negócio, mas com a vantagem adicional de permitir a quem cria o conteúdo escrever um único código para todas as plataformas. Hoje, como está, o código tem que ser portado de um fabricante para outro.

A interatividade, no entanto, é muito mais do que widgets. São narrativas interativas, aplicações de interatividade geradas ao vivo, exploração de múltiplos dispositivos de exibição, personalização de conteúdo, etc., tudo o que a NCL pode oferecer a mais para complementar o que existe nas TVs conectadas.

É bom repetir que NCL é uma linguagem de cola. Ela não substitui, mas complementa o que pode ser oferecido nas TVs conectadas. O Ginga-NCL pode conviver em completa harmonia com os serviços da TV conectada, agregando outros serviços, como os de IPTV e TV terrestre (VoD, Vídeos interativos ao vivo, narrativas interativas, etc.). Ginga-NCL é o ambiente escolhido pelo ITU-T para possibilitar essa interoperabilidade e convergência total, quando então pararemos de ficar classificando as TVs digitais pelos seus modelos de negócio (TVs broadband, TVs broadcast, WebTV, IPTV), mas a consideraremos apenas como TV digital, com todos os seus serviços oferecidos agregados.

É muito preocupante a situação de hoje. Quem vai desenvolver conteúdo interativo tem que usar N padrões diferentes nas N redes de distribuição disponíveis? NET, TVA, Telefônica, ViaEmbratel, Oi, Sky, SBTVD, Samsung, LG, Sony, Philips, TOTVS… Quem vai pagar pelo trabalho de portar o conteúdo interativo para as múltiplas plataformas?

A solução para isso é o que se persegue hoje nos órgãos de padronização e é nesse ponto que o Brasil está muito à frente e é invejado em todo o mundo, por ser o único local onde esse modelo pode começar já.

Infelizmente, a falta de conhecimento dos dirigentes de nossas “filiais” das indústrias de recepção e dos nossos radiodifusores os impedem de ver um futuro diferenciado para o país e para seus negócios.

4. o governo e os órgãos reguladores brasileiros poderiam ter feito mais por interatividade no SBTVD? mais do que? se tivessem feito, e o que deveriam ter feito, qual poderia ter sido o impacto?

O governo começou muito bem quando viu na TV digital não apenas um negócio para a indústria de recepção, que no país ainda não passa de montadoras, e para o setor de radiodifusão.

A inclusão social pelo acesso e geração de conteúdo, o fortalecimento das TVs Públicas, a criação de empresas, de software e outras, a geração de empregos de qualidade, tanto na área tecnológica quanto nas artes e cultura, foram o carro chefe inicial do SBTVD.

Foi com esse enfoque que a NCL foi projetada: uma linguagem simples e fácil de ser usada por não especialistas. Uma linguagem simples, a ponto de permitir receptores de baixo custo sem, no entanto, perder sua expressividade, sem limitar em nada a criatividade. Uma linguagem simples, mas muito mais expressiva do que todas as outras linguagens declarativas usadas em qualquer middleware para TV digital existente até os dias de hoje. Também com essa concepção, foram criadas as bibliotecas NCLua. Lua é hoje a linguagem mais usada no mundo na área de jogos e entretenimento, mas parte de nossa indústria de conteúdos parece ainda ignorar isso.

Ginga-NCL foi desenvolvido como software livre, e desse software mais de uma dezena de pequenas empresas foram criadas, empresas de médio a grande porte, e centenas ou talvez milhares de empregos de alto nível tecnológico.

Mas o governo parou nesse primeiro momento, perdendo as rédeas do processo, que passou para os radiodifusores e mais recentemente para a indústria de recepção.

Ao não incentivar set-top boxes com o Ginga-NCL (e no primeiro momento era só o que poderia ser feito, pois a discussão do Java permanecia) e deixar o aparecimento de “zappers” (set-top boxes sem interatividade Ginga); ao permitir que a indústria de recepção se concentrasse apenas nas classes A e B com suas TVs de alta definição com conversores embutidos, impediu o acesso das classes menos privilegiadas a essa nova tecnologia.

A TV Pública ainda está patinando, e o incentivo ao desenvolvimento de aplicações (narrativas) interativas esbarrou na falta de capacidade dessas emissoras (na verdade, as emissoras privadas também não têm tal conhecimento).

De fato, faltou uma política para geração e distribuição de conteúdo.

A academia vem fazendo sua parte, o Programa Ginga Brasil é mais um exemplo, formando produtores de conteúdo, apoiando e incentivando a criação de empregos e empresas (inclusive de grande porte), apoiando órgãos do governo, como DATAPREV e PRODERJ no desenvolvimento de conteúdos de inclusão social.

Entretanto, produzir para ser transmitido por quem? Sem essa perna de inclusão, as duas outras (acesso e produção de informação) não operam. Temos que operacionalizar a TV pública.

O Plano Nacional de Banda Larga traz nova esperança. É mais uma chance que temos de levar tudo adiante. Temos de ver o plano também como propiciador de serviços. E a TV digital é um dos mais importantes, principalmente no que tange à inclusão social. Temos de tratar a IPTV, Web TV, broadband e broadcast TV não como soluções antagônicas (porque não são nem no modelo de negócios), mas complementares. O Brasil lidera esse processo mundialmente, reconhecidamente, no ITU-T. Todos esperam e vigiam nossos movimentos. O Ginga-NCL é visto como a ferramenta de integração (e aí vai um recado para a indústria de recepção mal informada: ferramenta de integração e não de substituição de suas aplicações residentes, como as que conferem acesso a suas lojas de widgets).

Tomara que o governo retome as rédeas do processo.

Mas a sociedade civil não está parada. Através das TVs Comunitárias, TVs Universitárias, Pontos de Cultura e outros coletivos audiovisuais, ela não vai deixar a peteca cair. Quem viver verá. Não subestimem esse movimento.

5. você acha que a TV digital interativa aberta está perdendo espaço para interatividade via IP e padrões globais propostos por forças há tempos dominantes no mercado mundial, como mostrado neste link? pensando bem… era possível prever isso há uma ou meia década, nos estágios de discussão e desenho e, depois, de lançamento do SBTVD?

Tudo era previsível desde o início. A academia presente no processo nunca foi ingênua. O Brasil se destaca na pesquisa na área há mais de 20 anos. O que acontece é que tudo está sendo visto de forma errada. Felizmente, lá fora isso está mudando, basta ver os esforços do ITU-T nos vários eventos de interoperabilidade e também os esforços do W3C. Aliás, o último evento de interoperabilidade foi conjunto e no Brasil (…e a imprensa nem noticiou, não é?).

Mas vamos lá. Os radiodifusores europeus se basearam em uma tecnologia ruim, o MHP, que nunca pegou e nunca foi padrão. A Europa era uma bagunça com várias implementações não compatíveis. Com isso, e por falta de escalabilidade, fizeram pouca coisa de interessante (tirando o Reino Unido, que usava outro padrão, o já mencionado MHEG). Por falta de escala, não conseguiram definir um modelo de negócios. O Brasil, ou melhor, a América Latina, é vista como a grande chance de se ter um padrão de fato. Na PUC-Rio, somos constantemente assediados por consórcios europeus querendo fazer testes no Brasil, pois não se vê chance de executá-los em uma Europa fragmentada.

Enquanto isso, a indústria de recepção conseguiu encontrar seu “negócio de interatividade” através de lojas, proprietárias, de widgets. Nesse momento a TV broadband (ou TV Conectada) passou a chamar atenção.

Já os serviços de IPTV eram oferecidos sempre como proprietários, e corriam, e ainda correm, por fora dessa briga.

Acontece que tudo vai se unir, quer queiram quer não. É só uma questão de tempo. Forças retrógradas podem atrasar o processo, mas não vão pará-lo. Quanto mais cedo perceberem que as coisas são complementares, todos vão ganhar, os negócios e a inclusão social, que foi o motor do SBTVD.

A TV híbrida (como gostam de chamar os europeus) vai chegar. Aliás, mencionando os europeus, o principal fabricante do principal padrão híbrido lá proposto incorpora o Ginga-NCL interoperando com sua solução. Mais um exemplo…, soluções interoperando o Ginga-NCL e LIME (padrão japonês) já estão prontas nos fabricantes de set-top boxes híbridos. Note que sempre com o Ginga-NCL. Por que só nós brasileiros é que não vemos nosso potencial?

6. considerando uma penetração cada vez maior de conectividade móvel, por um lado, e TV a cabo, por outro, qual é, na sua opinião, o futuro do SBTVD? vê o futuro da interatividade, na TV digital, dentro do SBTVD, como uma opção economicamente viável? em que termos?…

Bem a resposta a essa pergunta resume todas as outras.

No SBTVD, o Ginga-NCL é o único ambiente obrigatório tanto para dispositivos fixos, quanto para os móveis e portáteis da TV terrestre. No ITU-T é o ambiente padronizado para serviços IPTV. O ITU-T também trata de widgets e, embora ainda não definitivamente aprovado, o Ginga-NCL é visto como a solução para interoperar com as várias soluções proprietárias existentes.

Partindo do pressuposto que todos os serviços são complementares, o middleware brasileiro (adotado hoje já em 13 países), ou pelo menos o Ginga-NCL, tem um enorme potencial de suporte global, e isso pode muito bem ser explorado.

O setor de radiodifusão deve procurar seu nicho. As emissoras precisam começar a fazer aplicações reais de TV interativa terrestre, e não só de widgets incorporados a seus programas. Isso eles podem até fazer também, e vender nas diversas lojas de fabricantes de receptores. Mas será que aí está seu negócio?

Que tal explorar as narrativas interativas, os programas ao vivo, como eventos esportivos com a interatividade (a aplicação) gerada ao vivo? Propagandas personalizadas com narrativas interativas (vejam que começam a aparecer várias muito interessantes no YouTube) são sensacionais…

A TV Pública também tem de ocupar o seu lugar. O conteúdo gerado pelos vários coletivos de audiovisual só vão encontrar nelas os seus transmissores (e hoje posso garantir que tais coletivos já têm uma interatividade muito, mas muito mais interessante do que a produzida nas grandes emissoras). Os serviços de IPTV (e WebTV) devem ser vistos como complementares, bem como os da TV conectadas. Assim teremos, de fato, uma solução invejável, e o SBTVD poderá ser visto como um todo (e a Argentina já está fazendo isso).

Temos dois problemas: será que o pessoal do setor de radiodifusão e da “nossa” indústria (montadora) de recepção vai conseguir enxergar tão longe e pensar um pouco também na sua missão para o país? Será que o governo vai reassumir as rédeas do processo e propor uma política para o setor e para o país, como é seu papel, ou vai deixar as coisas acontecerem ao acaso?

neste último parágrafo, LF deixa no ar a grande pergunta sobre o SBTVD: será que vamos ter uma política, de novo [como o brasil queria ter no começo...] para TV digital?

TV, desta vez, não era simplesmente definir como a imagem era montada e transmitida, e como deveriam ser os sistemas de codificação, transmissão, recepção, decodificação e apresentação. depois que tudo isso foi decidido, o país resolveu [?] inovar e incluiu um padrão para interação.

depois, como bem diz LF, o brasil "perdeu as rédeas do processo". a dúvida, agora, é se há coesão e energia para dar direção e sentido a um esforço que vem, por mais que seus principais atores tentem, se arrastando há quase quatro anos e mostrando, como quase sempre, como é que se inova no brasil. ou, a bem dizer, como é que não se inova no brasil.

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

informática: padrões & políticas

o texto no fim deste post foi publicado neste link em fevereiro de 2006, logo antes do carnaval. e volta à cena por causa deste outro, publicado anteriormente aqui no blog, sobre uma "nova" política de informática para o brasil, mais uma vez focada na substituição de importações.

comentários ao segundo texto, pedindo alternativas à constatação de que temos [ou teremos?...] uma política de substituição de importações me lembraram do velho artigo dos tempos em que estava para sair um "padrão" de TV digital por aqui.

lá em 2006, definimos um padrão de TV digital [não no carnaval, mas no são pedro] para um dos mercados mais importantes do planeta, o nosso. a corrida toda foi para "definir o padrão", como se diz, ao invés de se criar todo um ambiente, incluindo política industrial, mais investimentos estatais e privados, que pudesse tornar o brasil –um dos principais mercados, como já se disse- um dos principais atores do jogo econômico mundial para o setor.

na china, ao contrário daqui, o problema de padrões e políticas industriais vem sendo tratado, há décadas, de forma sistêmica. caso seja de seu interesse, leia the role of standards in national technology policy in china, de mu rongping e wu zhuoliang, standardized confusion? the political logic of chinas technology standards policy, de michael murphree e dan breznitz, china standard time: a study in strategic industrial policy, de greg linden e, por fim, china’s impact on the global economy: from china price to china standard, de david bach, abraham newman e steven weber.

e o meu texto lá de 2006 diz isso: enquanto estávamos definindo um "padrão" brasileiro, derivado de um padrão japonês que é minoritário no mercado mundial, a china estava definindo uma política inteira, baseada também num padrão, para dominar o mercado mundial de TV digital em seja lá que padrão for. o plano [desde 2000...] é ser o maior fornecedor mundial em 2015 e, depois disso, nas próximas gerações, forçar um padrão chinês. e passar parte da fabricação, que agrega muito pouco valor, para terceiros ou quartos, que tenham custos competitivos para o mercado global.

pois bem: lançamos o nosso "padrão". que se saiba, até agora, ele não criou ou alavancou qualquer indústria nacional. até porque a interatividade, que era só nossa, ficou de lado, esquecida pelas TVs. que sempre acharam que TV digital era só HDTV e essa coisa de interatividade era uma roubada [pra eles, emissoras de TV].

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enquanto isso, lá vem a china, rápida e sempre, atrás dos mercados de todo mundo, incluindo o nosso. a foxconn, aliás, pedra de toque chinesa do novo estado de coisas, é um fabricador-de-qualquer-coisa, uma fábrica genérica que vai, muito provavelmente, fabricar TVD aqui, também. substituição de importações é isso aí: entramos com o mercado, agora, e entramos pelo cano, depois.

o texto de 2006 tinha a ver com isso e está replicado, na íntegra, abaixo. boa leitura.

Pelas alegorias que vinham sendo avistadas nos barracões e pelo batuque, acertos e evoluções na quadra,  até parecia, umas semanas atrás, que o G.L.R.C.C.M.TV.D. - Grêmio Lítero-Recreativo Cultural Carnavalesco Misto TV Digital - ia mesmo sair em tempo de Momo. Seria melhor desfilar um pouco depois, segundo quem não via enredo e evoluções prontas, quanto menos ensaiadas e havia uma certa confusão na torcida: sem tempo pra entender as alas do desfile, havia gente muito importante nas arquibancadas e camarotes ensaiando, por sua vez, uma estrondosa vaia bem no meio do desfile. Mas, segundo parte da diretoria, Carnaval é só uma vez por ano, vem aí, e não há tempo a perder, que depois é Cinzas.

Nas últimas poucas semanas, no entanto, algo parece estar mudando. A decisão sobre o sistema de TV digital a ser usado no país é a mais importante, em termos de impacto industrial e cultural, que será tomada pelo governo, em informática, na década. A outra, que não veremos nem tão cedo, seria uma política de inclusão digital, capaz de criar um mercado de muitos bilhões de reais para envolver algumas dezenas de milhões de pessoas a mais no grande desfile da internet. A chegada da TV digital, que de uma forma ou de outra aponta na passarela, vai mudar o país inteiro: mais de 9 em cada 10 famílias têm TV, há centenas de estações, repetidoras, estúdios, uma cadeia de valor complexa e sofisticada e muitas dezenas de bilhões de reais de negócios nas próximas décadas.

Para uns, a decisão chega atrasada, pois deveria ter sido tomada no fim do último governo. Para outros, é açodada, pois os sistemas existentes estão a ponto de ter sua segunda, mais avançada, versão em pouco tempo. Isso poderia levar o Brasil, caso tivéssemos a competência negocial para articular com os vários modelos existentes, a ser o primeiro onde uma fusão de modelos - um padrão mundial de próxima geração - entrasse em operação, com óbvias vantagens para todos os envolvidos no padrão local. Aliás, mundial. Por outro lado, poderíamos pender para um lado e, escolhendo a próxima geração de um certo padrão, alavancarmos a capacidade nacional de participar nos destinos de um possível padrão dominante nas próximas décadas…

Enquanto isso, a China, que como nós está à busca de um padrão, manda avisar que não acha que padrões farão qualquer diferença. O divisor de águas, segundo os práticos planejadores chineses, será a política industrial associada ao novo modo de ver e interagir com TV. Por isso mesmo, a China não vai anunciar, em 2006, um padrão, e sim uma política industrial para TV digital.  A China fará isso porque entende não ter a massa crítica de conhecimento e capital humano para atacar um padrão como um todo e vai incentivar - ou ordenar - suas empresas a fazer parcerias com os grandes fornecedores internacionais de tecnologia. O resultado é previsível: dentro de poucos anos, televisores chineses de todos os padrões em qualquer lugar do mundo…

Nas quadras de Brasília, o ensaio que se ouvia, uníssono, até a poucos dias, era o oposto de Beijing: tudo indicava que íamos anunciar um padrão e “convocar” a indústria para atendê-lo. Como quase não há indústria nacional na área, talvez a decisão fizesse sentido. Ou não: a definição de padrões é sempre uma oportunidade de criar mercados e indústrias, no mais das vezes exportadoras. Mas as indústrias e investidores nacionais pareciam estar, se muito, nas arquibancadas. E ensaiando a tal vaia. Ocorre que forças outras entraram no desenvolvimento do enredo e na arrumação do pagode, na rua, e parece que está começando a haver - antes tarde do que nunca - uma discussão baseada em conhecimento real do negócio de TV e TV digital, quando antes parecia que escolher um modelo de TV digital para o Brasil era apenas uma questão de definir a camada, digamos, "aérea", do sistema inteiro. Se for pra confiar nos boatos desta semana, não só parece que estamos discutindo tecnologia e modelos de negócio e investimentos, além de contrapartidas para a eventual adoção de um modelo já estabelecido… mas também qual a participação do país, pela via de sua capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, na evolução de um tal sistema.

Santa Clara, padroeira da televisão, vai ver, está entrando no samba e no Carnaval. Até pelas sábias palavras de Caetano, que parecia saber que um dia a gente até poderia usá-las num debate sobre escolhas, na TV digital: "Santa Clara, padroeira da televisão/ Que o menino de olho esperto saiba ver tudo/ Entender certo o sinal certo se perto do encoberto/ Falar certo desse perto e do distante porto aberto/ Mas calar/ Saber lançar-se num claro instante…".

Tomara. Tomara que ainda dê tempo pra pensar profundamente - antes do tal anúncio - os negócios de TV digital, sem o que a alegoria nacional de política de tecnologia, industrial e comércio exterior não impressionará muito a comissão julgadora. E a favorita pro nosso Carnaval Digital, talvez, passe a ser a Unidos de Beijing, desfilando o tema Festival da Primavera Industrial na TV Digital do Brasil

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TV: público vai se tornar, mesmo, comunidade…

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olhem só o que a motorola está descobrindo [nesta pesquisa] sobre os hábitos correntes e futuros dos "espectadores", aquele povo que só "via" TV e que, agora, começa interagir enquanto "vê" TV:

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a imagem é de baixa resolução, pelos limites naturais aqui do blog; mas dê um clique e você vai ver em detalhe que, nos treze mercados considerados pela moto, 51% das pessoas [os azuis e verdes] já interage com outras, em redes sociais, [muito] frequentemente, enquanto dá conta do que rola na TV.

e não estamos falando de TV digital interativa como a que planejamos no brasil, o SBTVD [veja aqui o que o blog achava do assunto em 2008...]. lá, a interação aconteceria "pela TV". esperávamos até que a TV digital [interativa] fosse um mecanismo de inclusão digital, ao chegar onde não havia internet e assumir, mesmo que de forma limitada, seu papel.

o que a imagem acima mostra é que as pessoas já estão interagindo com as outras enquanto vêem TV, e o estão fazendo usando um monte de mecanismos já disponíveis na internet, que de resto já são usados por elas mesmas enquanto não estão "vendo TV".

Infographic 4B - Soc Nets influence

falando em "já disponíveis na internet", a segunda imagem responde a pergunta "você estaria disposto a pagar por serviços integrados de TV e internet que permitissem, por exemplo, conversar com seus contatos na tela da TV enquanto assiste um programa"?…

só 18% dos pesquisados disse sim e outros 42% condicionou um eventual pagamento a estar convencido que isso vale o dinheiro que vai sair de seu bolso. afinal de contas, porque deveríamos pagar por tais "serviços" se eles já estão disponíveis no smartphone [que está ao meu lado, à mão], no laptop que está no colo… sem falar em pads como o samsung galaxy tab que, no brasil, tem TV analógica e digital como parte do pacote e mais todos os apps de vários mercados, pra conectar o ex-espectador com twitter, chat, emeio, facebook, 4sq e o que mais for o caso?

pra terminar a conversa, olhe a imagem abaixo:

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entre várias coisas, a imagem diz que 20% dos consultados já têm TVs conectadas à internet [como esta] e que outros 40% pretende adquirir uma nos próximos 18 meses. isso significa que a combinação que está dando certo, no caso de TV digital, porque está sendo comprada e usada pela comunidade [irrestrita, ao invés do público controlado pelas emissoras] é TV aberta ou a cabo como costumávamos ter, combinada com interatividade pela rede, nas formas que interagimos na rede desde sempre.

sim, você diria, e daí? daí que está na hora de tentar, errar e aprender um bocado com as novas possibilidades de interação associadas à TV e que, quem conseguir interpretar, antes ou mais competentemente que os outros, tais possibilidades… vai ter uma vantagem competitiva muito considerável no cenário de negócios que antes costumava ser chamado de… TV.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

SBTVD: padrão latino-americano?

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passei o dia inteiro ontem, em brasília, no julgamento do prêmio finep de inovação. o terra estava com problemas na interface de publicação e acabei enviando meu "relatório" das apresentações do prêmio para meu twitter. vá ver. há mais de vinte twits e links por lá. e um bom número de companhias faz coisas que vale a pena ver. [nada de novo, no entanto, no quesito tecnologias e plataformas de informação para o usuário final].

em brasília, e em ocasiões como esta, sempre se conversa com muita gente, gente que tem coisas a dizer [e não pode aparecer] e gente que, querendo aparecer, acaba inventando coisas que não deveria estar dizendo. um passarinho, do primeiro grupo, e dos muito bem informados no primeiro grupo, me cantou que o SBTVD, padrão brasileiro de TV digital, está a caminho de ser aceito como o padrão de TV digital de nada menos do que… argentina, paraguai, chile e peru, com outras conversas, em outros países, em andamento mas menos avançadas.

caso se confirme tamanha adesão, é capaz de estabelecermos o padrão de TVD aérea e aberta da américa latina, até porque o uruguai [segundo a mesma fonte] está morrendo de arrependimento por ter escolhido o padrão europeu. o que serve de muito mau exemplo para outros que estejam considerando o mesmo caminho.

esta coluna, claro, está vendendo a informação pelo preço que comprou. ninguém quer seu nome associado a tais declarações, até porque se este for mesmo o caminho das pedras… anunciá-lo antes de assinar tudo pode atrapalhar, e muito, o desfecho das negociações. depois, no futuro, a gente vê se era isso mesmo…

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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

a [falta de] interatividade na tv digital

o brasil resolveu lançar seu programa de TV digital -que por sinal não vai muito bem das pernas- sem interatividade. a partir de uma plataforma de hardware [para transmissão e recepção do sinal de vídeo e áudio] similar à japonesa, botamos a coisa no ar em são paulo há quase um ano [dezembro de 2007] e, de lá pra cá, a penetração do SBTVD, o sistema brasileiro de TV digital, vem andando a passo de cágado.

até porque, como o ministro das comunicações descobriu recentemente, ninguém mais tá falando de TV digital, a não ser os fabricantes de set top boxes [as caixas que convertem o sinal digital pras TVs analógicas], provedores de middleware [o sistema operacional dos boxes] e os potenciais desenvolvedores de aplicações. as grandes redes de televisão, depois de terem conseguido o que queriam -migrar para o padrão digital sem admitir novas estações no espectro e excluindo as operadoras de telecom da TV digital móvel- relaxaram e estão esperando que alguma coisa aconteça.

a questão é… que coisa? certamente não vai ser a TV aberta fazendo um monte de propaganda da TV digital. com um público reduzidíssimo [algumas dezenas de milhares de set top boxes vendidos e interesse dos anunciantes perto de zero], não há porque ninguém se preocupar, agora, com TV digital aberta. o cabo e o satélite, também digitais e há muito tempo, vão bem, com seus 52% de crescimento em cinco anos, chegando a mais de cinco milhões de lares hoje [sem contar os gatos de todos os tipos]. um milagre, pro brasil, mas pouco, ainda, pra um país do nosso tamanho. mas, mesmo assim, talvez cubra boa parte dos 15% da população que estão nas classes A e B e pode pagar por centenas de canais em casa… e que não têm nenhum interesse em TV digital aberta, que passa a mesma coisa que já se vê na TV digital… paga.

o que falta, mesmo? duas coisas, talvez. uma, outra ou as duas em conjunto. a primeira é uma programação diferente no canal digital. tipo o canal analógico da TV X passando titanic pela ducentésima vez, enquanto o digital da mesma emissora passa corinthians vs. palmeiras ao vivo no paulistão. aí a TV digital aberta, grátis [financiada por anunciantes], passaria a ter [parte d]a programação da TV paga e o público de baixa renda, que não pode pagar por TV fechada, iria pro SBTVD na hora. pode apostar em milhões de set top boxes vendidos em pouco tempo, dependendo só da capacidade das emissores e redes de prover uma cobertura decente pelo país afora.

a segunda é interatividade. poder mexer na programação, interagir com ela, apostar no resultado dos jogos, acessar o banco, pagar contas, comprar coisas cm o controle remoto, marcar uma consulta, ver o boletim de seu filho na escola. a menos de um detalhe: interatividade não deu certo na TV digital em nenhum lugar do mundo até agora. por causa de uma mistura de padrões confusos, direitos e propriedade intelectual ainda mais confusos e falta de planos de negócios viáveis para emissoras e anunciantes, todas as tentativas de dotar a TV digital de uma interatividade real e prática naufragaram. aqui no brasil, está se tentando fazer vingar uma plataforma de interatividade nacional, ainda não completamente especificada e tampouco preparada para o horário nobre.

e aí aparecem umas idéias de botar um monte de caixas na rua com uma versão inicial [um "beta"] e, depois, trocar [pelo ar?] seu sistema operacional [ou um conjunto significativo de suas funções básicas]. algo me diz que isso é muito complexo e não vai rolar. até porque os fabricantes do primeiro time [como philips, sony...] não vão querer desfilar com este modelito. talvez fosse melhor tentar alguma coisa de classe mundial, um modelo de negócios em que participássemos dos resultados junto com o resto do planeta, algo que fosse ser usado em quase todo canto e mais alguns.

nos estados unidos, depois de décadas de idas e vindas, as maiores operadoras de tv fechada [e digital, também] incluindo a comcast e time-warner [mais de 80% do mercado de 100 milhões de lares], fecharam com tru2way, o padrão da cableLabs, baseado na linguagem java e livre de royalties. isso porque ninguém nunca havia conseguido resolver, antes, o que pagar, e a quem, nos middleware anteriores como o mhp, um natimorto muito complexo [e caro]. somando-se a isso o apoio da intel, samsung, sony, panasonic e outros gigantes do setor, é capaz do problema de interatividade na TV digital estar sendo resolvido exatamente da forma que os americanos mais gostam: de forma prática, pela via do modelo de negócios, sem discussões filosóficas e teóricas… e no mercado.

enquanto eles pensam em negócios e tentam estabelecer padrões de fato, ficamos discutindo, aqui, o direito constitucional que deveria levar [?] à independência científica e tecnológica do país. ao perdedor, neste caso, as [cascas de] bananas…

falando nisso, um padrão americano [de fato] de rádio digital [IBOC, da ibiquity] está se infiltrando no brasil, insidiosamente e sem muita discussão, e pode acabar se tornando o padrão de fato da próxima geração de rádio nacional. e parece que este processo vai ser ainda mais natural do que a escolha do modelo japonês de TVD pelo brasil…

pra terminar, tenho conversado com muita gente, nos últimos anos, sobre interatividade em TV digital. e muito dessa gente me diz que o principal problema do padrão brasileiro de interatividade para TV digital é que ele não é muito interativo… no seu processo de definição e construção. e que uma boa parte dos atores que deveria estar sentada à mesa, decidindo principalmente o negócio de interatividade e os negócios ao redor dela… não está lá. exatamente o contrário do que sempre ocorre nos estados unidos, mesmo quando o padrão, comoo o tru2way, é feito por uma companhia qualquer. um dia, vai ver, a gente aprende alguma coisa com eles.

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

fórum de TV digital: lançamento foi um sucesso

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tempos atrás, publicamos o resumo de uma conversa, na cbn, entre carlos alberto sardenberg e daniela braun, onde sardenberg comentava que… “esse troço aí [tv digital] tem mais conversa do que realização“. resolvemos fazer três perguntas sobre o assunto ao fórum do sistema brasileiro de tv digital, a entidade que governa o padrão brasileiro de tv digital e sua introdução no país. as respostas, de moris arditti, vice-presidente do fórum, estão abaixo:

1. qual é a avaliação que o fórum faz do projeto do SBTVD, até agora?

Na opinião do fórum o lançamento da TV Digital no Brasil foi um sucesso. Sucesso ou fracasso se julga em função de expectativas. No período de um ano, conceber e instituir  o Fórum do SBTVD  e o Fórum SBTVD com consenso de seus participantes (emissores de TV, fabricantes de receptores, fabricantes de transmissores, indústria de software, universidades e governo) definir e agregar as evoluções tecnológicas brasileiras ao sistema ISDB-T e no dia previsto para o lançamento no Brasil,  fazer todas as emissoras estarem com seus sinais digitais, no ar, em caráter comercial e nas lojas estarem disponíveis os receptores, só pode ser considerado um sucesso. Em lugar nenhum no mundo a implantação da TV Digital foi tão rápida e sem apresentar maiores problemas. Hoje, além da Grande São Paulo, a TV Digital está presente em belo Horizonte e no Rio de Janeiro e irá avançar gradualmente pelas outras capitais e grandes cidades do País. Era esta a expectativa do Fórum e ela foi plenamente alcançada, portanto, pode se dizer que o lançamento foi sim um sucesso.

Críticas se fazem à cobertura do sinal e à pouca aderência por parte dos consumidores. Quanto à isto, quero comentar o seguinte…

Cobertura: Em São Paulo o sinal  digital  oferece uma cobertura muito, mas muito melhor que a do sinal analógico. Não sou eu nem as emissoras de TV quem dizem isto. A afirmação tem base numa medição metódica feita pelo grupo de especialistas da Universidade Mackenzie. Num raio de 10km em torno da antena de transmissão o sinal é recebido em 100% das localidades. De 10km até 20km em 80% das localidades. A recepção  do sinal analógico é drasticamente pior. E tem mais. Com o sistema analógico é difícil se colocar os “gap fillers” que são pequenos retransmissores para garantir sinal em áreas de sombra. Com o sinal digital isto é fácil de ser feito e irá ocorrer à medida que as emissoras julgarem que se fazem necessários.

Pouca adesão: Toda e qualquer nova tecnologia ao ser lançada começa com um preço mais alto e depois este preço vai se reduzindo. Temos o hábito de se esquecer destas coisas. Quanto custava o primeiro aparelho de videocassete oferecido no mercado brasileiro? E o primeiro tocador de CD? E o primeiro telefone celular? E o primeiro DVD, LCD, plasma?  E aí vai. Por que o conversor de TV Digital deveria ser uma exceção? O conversor para o SBTVD é único no mundo. Ele nasceu para atender a norma brasileira,  que é mais sofisticada do que a sua congênere japonesa, apesar de se basear no mesmo sistema. É natural que as primeiras unidades custassem mais. Mas agora, 7 meses após o lançamento no Brasil da TV Digital, já é possível encontrar-se conversores por 1/3 do preço daqueles originalmente lançados. O conversor e os aparelhos de TV capazes de receber a TV Digital brasileira não requerem qualquer componente “custom”. Os componentes todos são “itens de prateleira” ou normalmente disponíveis no mercado e seus  preços irão cair à medida que vão sendo mais consumidos. Quero lembrar que o consumo não é representado apenas pelos conversores e TV brasileiros, mas por todos os STB no mundo que decodificam o MPEG4, como as caixas de  IP-TV, por exemplo. Em São Paulo, quem tinha poder aquisitivo para comprar conversores caros, via de regra, não o fez porque já era relativamente bem servido com a TV paga  pelo cabo ou satélite. Agora, com a erosão dos preços, a ampliação geográfica da cobertura, não tenho dúvidas que a TV Digital brasileira irá se expandir. De novo, julgar o sucesso ou fracasso depende da expectativa. Os volumes ora comercializados estão  dentro das previsões feitas pela indústria tradicional de receptores de TV no Brasil. Neste setor não há frustração.


2. o que é preciso, na opinião do fórum, para que se acelere o processo de introdução de tv digital aberta, grátis, no brasil, via SBTVD?


A aceleração irá ocorrer com a redução natural do preço dos receptores, da melhor divulgação das vantagens que traz a TV Digital  e logo mais, com a interatividade.


3. além das conversas, debates e reuniões [
como diria carlos alberto sardenberg] quais são as realizações do fórum [e do projeto, como um todo] até agora?

Eu iria ter que escrever um romance para enumerar as realizações do Fórum mas faço aqui uma síntese. Foi a de implantar no Brasil, em tempo recorde, o melhor sistema de TV Digital do mundo. A qualidade e robustez do SBTVD são incontestáveis e isto sem mesmo considerar a maravilha que é a parte da portabilidade. O SBTVD deu a engenheiros de hardware e software brasileiros a oportunidade de desenvolver produtos (estes profissionais hoje em dia são altamente disputados). A superioridade do SBTVD foi recentemente reconhecida por entidades japonesas  públicas e privadas. E se passa pela cabeça de alguém ter o Fórum criado um “Frankenstein”, único no mundo,  quero me permitir dizer que está errado. Os aparelhos japoneses não funcionam adequadamente no Brasil porque são menos evoluídos, mas os  brasileiros poderiam funcionar no Japão.

no caso de TVD no brasil, saberemos se tudo vai dar certo quando… tudo der certo. e isso vai levar tempo. é preciso muito esforço, articulação e, eu diria, um modelo de negócios fundamentalmente diferente daquele que está sendo tentado até aqui. mas isso é outra história.

a tv digital aberta brasileira, vai ser muito ajudada pela falta de banda larga no país. vídeo na rede, por aí, é realidade mais que virtual. aqui, claro, não temos banda pra tanto; se tivéssemos, não teríamos preço. onde há banda, larga e barata, há quem diga que o tempo de vida de tv digital aberta não vai passar de sete, no máximo dez anos. pode ser, pode ser…

de qualquer forma, com o brasil comprando quase um computador a cada dois segundos e conectando todos eles na internet, que é para onde as pessoas todas estão indo… [e, mais cedo ou mais tarde, em banda larga] pode ser que a importância relativa de tv aberta, quando a equação toda estiver no lugar, seja muito menor do que queremos hoje. qualquer dia voltamos a esta discussão, pra falar de tv digital no celular, que parece ser uma outra história.

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quinta-feira, 3 de julho de 2008

nos eua, a tv envelhece. e aqui?

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senhora-jogando-boliche.jpgestudo da magna global, que acaba de ser publicado nos estados unidos, revela que a mediana de idade do espectador de tv ao vivo das cinco redes nacionais americanas acaba de atingir cinquenta anos. a rede “mais velha” é a cbs, com uma mediana de 54 anos; e isso quando a mediana de idade, nos estados unidos como um todo, é 38 anos.

o que parece irreal, no cenário, é que as redes “testam” seus programas com grupos de espectadores cuja mediana de idade é mais perto da nacional… ou seja, mesmo que os programas estejam dando certo com os grupos de teste, não são eles, na população em geral, que estão vendo tv.

os dados confirmam, em todas as pesquisas, que TV é, cada vez menos, a principal tela das pessoas; a mediana de idade vem subindo há uma década e, entre os mais jovens, internet, [inclusive vídeo online] celulares e games são muito mais importantes como meios de informação, conexão e entretenimento. e os mais idosos não parecem estar parados… o controle remoto nas mãos da senhora, na foto que ilustra este texto, não é de tv, mas do wii… e ela está jogando boliche virtual [veja a reportagem inteira, do telegraph, aqui].

verdadeiras ligas de esportes virtuais estão sendo formadas em retiros para a terceira idade no mundo inteiro e os residentes parecem estar achando a estória toda muito mais divertida do que tv pura e simples. há saídas para a tv? sim. mas nenhuma delas parece com a tv de hoje. na inglaterra, por exemplo, a bbc vai tornar seu iPlayer disponível em televisões digitais conectadas à  internet, o que permite ver, pela rede e sob demanda, qualquer programa que tenha ido ao ar nos últimos sete dias. na tela da tv. com a tv sendo só a tela, nada mais. todo resto é internet.

diante de tal cenário global, onde fica nossa tv digital aberta [da qual se ouve falar muito pouco, por sinal]? um executivo do grande varejo nacional diz que, no topo de todos os problemas já citados [mas mitigados pela baixa penetração da internet banda larga no brasil], nosso sistema de tvd, sem conteúdo diferenciado e/ou interatividade, compete com uma pura e simples antena externa.

isso porque os receptores de tvd precisam de antena externa para funcionar em boa parte das situações, especialmente onde, hoje, a recepção [analógica] com antena interna não é boa. neste caso, uma antena externa propriamente instalada já muda a qualidade do sinal analógico da água para o vinho. sem programação dedicada nem interação, pra que comprar o set top box, se uma antena resolve o problema?…

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terça-feira, 3 de junho de 2008

a tv digital já deu certo

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noite de poucos graus em são paulo, nossa mesa no aguzzo ladeada por uma confraria de vinho, eles lá tomando notas dos teores e sabores de muitas garrafas, nós aqui comentando o fim da conversa de carlos alberto sardenberg com daniela braun no cbn tecnologia da informação da quinta feira passada, quando sardenberg, depois de discutir com daniela as várias facetas do processo de implantação da tv digital aberta, gratuita, no brasil, concluiu que… “esse troço aí [tv digital] tem mais conversa do que realização“. e tá lá na página da cbn; é só clicar e ouvir.

um de nossos convivas era um industrial, figurinha carimbada [e anônima, aqui], conhecedora da indústria brasileira de tecnologia de informação e comunicação por dentro e por fora, incluindo as teles, TVs e os fabricantes e fornecedores de insumos pras duas. enquanto debatíamos, veio dele a sentença: “sardenberg está errado: o SBTVD já deu certo“. sem entender, inclusive porque só há uns poucos milhares de set top boxes [ou STBs] na rua, quase nenhuma programação nas grandes redes, problemas de cobertura, pouca programação e nenhuma interatividade, perguntamos todos, em quase uníssono… como assim? e ele: “pra medir o sucesso da iniciativa, é bom deixar claro que o propósito maior do SBTVD, enquanto política, era fazer a transição da TV analógica para a digital, no país, mantendo a mesma estrutura de competição, os mesmos canais, as mesmas concessões e propriedades, sem qualquer mudança no status quo…”

e mais: “não se pode exigir muito de uma inovação que veio pra manter tudo igual, não é? e depois saem por aí dizendo que o problema da TV digital, no brasil, é o elevado preço do STB; não é. o problema é terem criado uma TV digital que é analógica de nascença. mesmo assim, como já cumpriu seu propósito político, já deu certo…”. é, pode ser. vai ver que, por enquanto, nosso anônimo paulistano tá certo. resta ver o que ainda se pode fazer, em que tempo e a que custo, pra se ter TV digital de vera no país inteiro. se é que vamos ter uma algum dia.

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