Terra Magazine

29.12.08

o futuro da arqueologia digital

daqui a algumas décadas, talvez não haja como entender o que aconteceu na última eleição americana sem ter acesso aos sites dos candidatos, aos muitos milhares de blogs que se envolveram na disputa, às centenas de instâncias de redes sociais, aos posts no twitter, ao processo online de coleta de contribuições para as campanhas… e por aí vai. barack obama é o primeiro governante eleito -literalmente- na rede e há sinais de que seu governo fará uso intensivo das ferramentas de rede para se comunicar com os americanos.

em breve, todas as eleições de todos os lugares, assim como as transações entre o setor público e entes privados e, de resto, tudo o que acontecer na sociedade estará -temporariamente, pelo menos- registrado na rede. em alguma parte dela, nos blogs, redes sociais e sites variados.

e o problema está no fato o armazenamento de informação, na rede, tem um caráter essencialmente temporário. no passado, deixávamos nosso rastro social em papel e fita, nos jornais, rádios e TVs da mídia "central", que registrava, com sua visão, nosso dia-a-dia. hoje, graças às ferramentas de rede, cada um pode dizer o que acha e bem entende, onde e quando quiser. e isso é ótimo. o problema é quando queremos, anos ou décadas depois, entender o que estava acontecendo em um mundo que, se tudo continuar rolando como vai… poderá não ter deixado nenhuma memória.

seu blog pode ser removido pelo provedor [como foi o caso do sombarato], sua entrada numa rede social desaparece, o próprio provedor desaparece, a tecnologia que suportava sua história envelhece e você não consegue migrar seus dados para a próxima… a empresa não preserva sua história, o governo não cuida dos seus registros. e este não é um problema local, deste ou daquele país ou empresa primitiva ou desorganizada. é um problema global, de proporções dantescas, como aponta ro relatório parcial da Task Force on Sustainable Digital Preservation and Access, operação conjunta de instituições americanas e inglesas.

o relatório da força-tarefa estima que a informação no planeta terá saído dos 200 exabytes [1 exabyte = 1.152.921.504.606.846.976 bytes] de 2006 para cerca de 1.800 exabytes em 2011, sendo que a quantidade de armazenamento permanente para guardar tal material começou a se tornar escassa em 2007. pelas contas da IDC, mencionadas no relatório, a diferença entre a informação que deveria ser armazenada e a informação que será armazenada chegará a quase 1.000 exabytes em 2011. isso significa que a maioria da informação será transiente, ou terá existência efêmera, como um SMS que você manda e que, depois de lido e deletado, não está mais no seu celular e tampouco no de quem o recebeu.

é certo que nem tudo pode e deve ser gravado; mas o relatório trata justamente do material que deveria ser gravado e não está sendo porque a atitude da maioria das pessoas e instituições, hoje, é a de que um "outro" alguém deveria estar fazendo tal trabalho. como todo mundo está pensando desta forma, não há ninguém dando conta deste recado.

ou melhor, parece que vai haver, mas não exatamente para nos ajudar a entender o passado, lá no futuro. na inglaterra [como este blog noticiou tempos atrás] o GCHQ está pensando em gastar cerca de R$50B pra gravar absolutamente tudo o que circular no país, de chamadas telefônicas a SMS, passando por entradas em redes sociais e comentários em blogs… como forma de "proteger a sociedade".

não é exatamente nisso que se pensa quando se fala em preservar informação; a idéia mais ampla, e muito mais razoável do ponto de vista social, é preservar a informação que está publicamente disponível, no contexto de sua publicação e uso, criando um túnel do tempo através do qual gerações futuras poderiam descobrir, para um dado site e discussão, quais eram os links a partir dali [e o que eles armazenavam], que audiência a coisa teve, o que a causou e quais foram as suas conseqüências.

aí é onde mora o problema. segundo a força-tarefa, há um desalinhamento de interesses utilitários e econômicos entre quem poderia vir a fazer uso da informação e quem está disposto a investir para que tal informação [como o conteúdo deste blog] exista daqui a 30, 50, 100 anos… [se o terra resolver tirá-lo ao ar].

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pra se ter uma idéia, todo o site da NO., revista eletrônica muito importante do começo desta década, sumiu sem deixar rastro. uma pequena fração do conteúdo foi gravada pelo archive.org, mas não chega nem perto da riqueza original. semanas antes do site ir para o espaço de vez, consegui recuperar meus 100 textos escritos entre 2000 e 2002, que reuni em uma coletânea que pode ser baixada neste link. isso até que o serviço de compartilhamento de arquivos que uso saia do ar [não acho que eles ganham dinheiro com o que fazem...] e, aí… tudo será poeira digital. estes textos, por acaso, só existem em formato digital, no .PDF que você pode baixar a partir do link

o futuro da arqueologia digital, pois, é nebuloso. aliás, é abstrato. demais, até: pode acabar sendo, todo ele, apenas uma vaga lembrança.

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26.07.08

telefone = radio comunitária [?]

"Hoje não adianta fazer varreduras nos telefones. Estou convencido que o meu telefone é uma rádio comunitária. É só ter a responsabilidade para não ter de dizer coisas que gerem dupla interpretação".

a frase, lapidar, é do ministro das relações institucionais, josé múcio monteiro, citada no blog do noblat e na mídia inteira. zé múcio, conterrâneo de meu adotado pernambuco, é famoso pela verve, capacidade de articulação e veia cômica: muito pouca gente sabe de tantas histórias, reais ou imaginárias, como ele… e menos gente ainda é capaz de contá-las tão bem como ele conta.

mas a citação acima não é piada, imaginação ou mera ironia; é um sentimento de realidade que grassa, no país inteiro, entre pessoas que têm, ou detêm, por momentaneamente que seja, qualquer nesga de poder. o sigilo das comunições, garantia essencial da [e para o funcionamento da] democracia, virou piada [de mau gosto] no brasil. todos assumem que estão sendo vigiados, copiados e, ainda mais, que são parte de algum dossiê.

e o sistema vai além: ser "suspeito" de alguma coisa, ao invés de indicar mera "suspeição’, como a palavra parece, quer indicar e, de fato, indica, se tornou fato consumado, crime ao invés de mera hipótese. wanderley guilherme dos santos, em texto no valor, diz que"Ser suspeito" deixou de configurar uma hipótese a respeito de alguém, convertendo-se em um crime em si. Embora seja obscura a pena a que os criminosos de "suspeição" estão ameaçados, o crime é de identificação rápida e por inumeráveis indícios. Por exemplo, receber por motivo trivial telefonema, bilhete, enfim, ter estabelecido qualquer tipo de comunicação com alguém que cometeu um dos crimes tradicionais do Código Penal é indício - e por indício, no ilícito discutido, serve como prova - do crime de "suspeição".

com razão, pois, está um ministro de estado, próximo ao presidente da república, dado que trata das relações institucionais, ao dizer que telefone de todo tipo é rádio comunitária. as tensões entre o direito à privacidade e o direito de acesso à informação [principalmente sobre pessoas públicas], combinados com a liberdade de informar de uma imprensa livre [num estado democrático] serão eternas. independentemente delas, ninguém pode ser privado de sua privacidade, garantidade constitucionalmente, a menos que mudemos a carta magna para tal.

enquanto a lei continuar como está, investigações que deveriam conduzir a julgamentos formais para apuração de culpa e eventual condenação não podem -e não devem- resultar em textos, áudio e vídeo expostos nos jornais nacionais, impressos, em áudio ou vídeo e na internet, sob pena de transformar suspeitos em culpados e, pior, fragilizar os processos aos quais os tais "suspeitos" deveriam ser submetidos. no fim das contas, expostos à sanha da midia, mesmo que condenados, muitos acabarão fazendo com que nós, meros contribuintes, acabemos pagando pelos graves deslizes constitucionais que o estado, através de seus agentes, cometeu ao investigá-los.

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se um ministro de estado de primeiro time acha -e diz em público- que seu celular é uma rádio comunitária, tá mais do que na hora de fazer alguma coisa para voltarmos a algum estado de normalidade das transações informacionais no país. porque vivermos numa sociedade da informação nunca quis dizer, hora nenhuma, que tivéssemos aceitado cohabitar na sociedade da esculhambação informacional em que parece que estamos, pelo menos no brasil. até porque o atual estado de coisas pode ser só o começo… quer ver? clique na imagem acima…

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