Terra Magazine

24.07.09

imbroglio: TRT aumenta o risco para empresas de TICs

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imagine-se uma fábrica de software. um dia, você tem contratos, no outro não. uma das formas de gerenciar seu risco é, ao ganhar um projeto, só aumentar sua força de trabalho numa proporção que você acha que vai ser sustentável ao fim do contrato. esta é uma realidade óbvia em empresas que dependem de projetos, que por sua vez dependem dos humores da economia.

você tinha 200 colaboradores, ganhou um negócio que vai precisar de mais 100 pessoas para executar, mas sua noção de risco lhe diz que seria muito prudente aumentar o tamanho de sua galera em apenas 20%, ou quarenta engenheiros de software. a solução natural, mundial, é terceirizar os outros 60. você não fica com o lucro inteiro, mas diminui muito o seu risco, irriga os cofres de seus parceiros, gera empregos e diversidade, e todo mundo cresce junto.

ainda mais, pode ser que, no projeto, uma boa parte das competências “de software” necessárias para realizar o projeto não sejam específicas de sua empresa ou, mesmo que correlacionadas, você não queira tornar-se competente nelas, pois isso tiraria sua empresa de foco, dispersando energia, em última análise perdendo competitividade.

como se disse, é assim que o mundo funciona. o mundo, mas não o brasil. aqui, cada vez mais, são os TRTs que definem como as empresas têm que funcionar. são os TRTs que definem o que é e o que não é competência essencial das empresas, o que pode ser subcontratado a outros negócios ou não.

uma das principais competências da índia, em TICs e serviços intensivos em TICs, é o que se chama, por aqui, de call center, a galera especializada em –pelo menos em tese- resolver os problemas dos usuários de uma instituição qualquer. ligue pra uma grande empresa americana e, se a [ou o] telefonista atender… será alguém na índia. atender o telefone [mas não só], como terceirizado, agrega renda e valor na índia, onde se criou uma economia de serviços altamente especializada que, juntamente com a de desenvolvimento e manutenção de software, soma US$47B à economia do país e emprega dois milhões de pessoas. muitas milhares das quais [principalmente em software] trabalham para empresas brasileiras: no brasil, terceirizar para o brasil é um grande risco; para a índia, não. isto é incrível.

e isso ocorre nas empresas médias, grandes, gigantescas e diminutas: dia destes conversei com um startup que, vacinado pelos custos e riscos trabalhistas de outras criações de seus empreendedores, tem todo o seu desenvolvimento de software na… polônia. tudo pela web, por encomenda, tudo andando bem, mas nenhum emprego gerado no brasil. à medida que mais empresas descubram como é simples e efetivo fazer isso, perderemos cada vez mais bons empregos… e isso pode não estar muito longe.

a indústria de TICs e serviços habilitados por TICs, na índia, pensa muito mais alto: em 2020, quer ser 6% do PIB do país e 28% de suas receitas externas, empregando de forma direta e indireta 30 milhões de pessoas. e pode pensar em muitas dezenas –ou centenas- de milhares trabalhando para empresas brasileiras, em empregos que poderiam –e talvez deveriam- estar aqui.

mas terceirizar o que você acha, pelo seu entendimento do negócio, pela sua capacidade de tocá-lo, pode ser muito complexo nestas nossas terras. sem nem entrar no mérito da decisão [dado que o autor não tem a competência], veja esta notícia: o TRT das minas gerais decidiu que todos os 4.000 profissionais de atendimento que trabalham para a TIM por lá devem, a partir d’agora, ser contratados diretamente pela empresa. a TIM deve ter um plano de negócios, sem a menor dúvida; se entendesse que o atendimento era uma função necessariamente interna, assim ela seria. mas não, no brasil quem decide o que é ou não essencial ao funcionamento das empresas são os TRTs.

além de ter que contratar os quatro mil, a TIM está condenada a pagar uma multa de R$6M por “danos à coletividade” e multas de adicionais de R$2M para cada caso de descumprimento da decisão do TRT. o imbroglio deve parar no TST e deve servir de exemplo, na decisão final, para o setor. a indústria de call centers, responsável por muitas centenas de milhares de empregos em todo o país, vai aguardar ansiosamente o resultado.

mude o cenário e, agora, imagine a APPLE. a empresa de steve jobs deve lançar uma megaoperação no brasil, em agosto, vendendo tudo. como é bem sabido, a APPLE não fabrica nada, e há muito tempo. como vai importar para vender aqui, o que e como ela faz está fora da jurisdição local, indiscutivelmente. mas… e se resolvessem fabricar o iPhone ou o “novo tablet” aqui, ao invés de taiwan?… será que algum TRT iria se meter no plano de negócios da empresa e exigir que ela contratasse funcionários próprios para fabricar seus modelos no país? a usar o mesmo raciocínio deste caso dos call centers da TIM, é muito provável. até porque a contribuição dos fabricantes, para os negócios da APPLE, é bem maior do que a dos atendentes ao negócio da TIM. exemplo? a foxconn teve um papel muito relevante no design e engenharia do iPhone, além de ser o fabricante. usando as regras do caso que estamos discutindo, o trabalho não poderia ser terceirizado, no brasil, pois desenhar e realizar a engenharia do sistema seria uma competência essencial da APPLE.

no mundo, o que é uma competência essencial? é o que eu sei fazer, ou consigo aprender a fazer, no tempo que eu tenho para fazer, se conseguir fazer a custos competitivos, que mantenha a minha empresa no mercado, gerando receita, renda, trabalho, empregos e impostos. não é o que pensam os TRTs. talvez nós estejamos usando, por aqui, os conceitos do trabalho do começo da revolução industrial, onde o empregado era sempre [e na maioria dos casos era mesmo] explorado pelo empregador e foi necessária [e essencial] um ordenamento das relações entre o capital e o trabalho, para garantir uma sociedade sustentável.

um número de tais regras centenárias continua sendo essencial ao trabalho nos nossos dias [pense férias!]… mas o mundo mundou, muda cada vez mais rapidamente e o brasil, ao continuar com o estado tutelando, em excessos gritantes, não só as relações de trabalho e emprego mas também as decisões –em casos como este- de negócio das empresas, aumenta muito significativamente o risco de se empreender no brasil e, em última análise, age contra o interesse to trabalhador.

se o estado imagina que, quanto mais microgerenciado, mais emprego o mercado vai gerar, se engana redondamente. todas as evidências apontam para o contrário.

no caso dos call centers, é só esperar angola e moçambique se conectarem à internet, de verdade e em larga escala, e começar e mandar pra lá os empregos que [parece que] não queremos aqui. aliás, se há uma coisa que não dá pra entender é como estes dois países, pobres e empenhados em gerar empregos em massa, não entenderam como podem ser a índia… do brasil.

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12.12.08

TICs: lá fora, mais de cem mil na rua. aqui, falta gente.

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techcrunch resolveu montar uma lista dos anúncios de demissões na indústria de tecnologias da informação e comunicação [e correlatas] baseada no mundo [ao alcance deles], e lançou o techcrunch layoff tracker, que dá conta [até o dia 10/12] de 280 eventos que causaram a demissão de mais de 104.000 pessoas, da last.fm [280 em londres] à nxp [4.500, na holanda], passando por companhias em israel, índia, canadá, ao redor da europa e por negócios como a xerox, que estão demitindo no mundo inteiro. a lista, aliás, é informal e imprecisa: as demissões da nxp, por exemplo, foram anunciadas na holanda mas estão rolando no mundo inteiro. as demissões de temporários e terceirizados e os 1.500 demitidos de yahoo ainda não estavam lá no dia 11/12.

no brasil, por outro lado, continua faltando gente. empresas de TICs, de norte a sul, têm vagas em aberto e não há gente, em qualidade e quantidade, para preenchê-las. esta talvez fosse uma excelente oportunidade para  o brasil desligar um pouco nossa xenofobia e incentivar a migração, para o país, de especialistas de fora. segundo a lista de techcrunch, cerca de 1.500 demissões foram anunciadas, nas últimas semanas, só em israel. e o mercado de trabalho, por lá, não tem uma elasticidade muito grande. a mesma coisa vale para muitos países europeus que enfrentam ondas de demissões, como a finlândia, onde apenas a nokia já demitiu 600 pessoas.

se o brasil tivesse uma política agressiva para capital humano, esta era a hora de atrair uma parte deste povo pra cá. são pessoas competentes, que falam inglês fluentemente [uma das principais deficiências do nosso capital humano], que fazem negócios pelo mundo inteiro [outra de nossas incompetências...] e que estão, a partir d’agora, atrás de uma boa oportunidade pra recomeçar suas vidas.

há uma crise radical no mundo, não há o que esconder. mas boa parte da solução, do futuro, vai vir de países emergentes como o nosso, que ainda têm muito o que fazer pra estarem prontos até para o presente, sem nem pensar no futuro. são dezenas de milhares de empresas sem informática competente; milhares de cidades sem internet ou celular; governos estaduais, municipais e parte do federal ainda sem a informática que deveriam ter… um país inteiro para construir, que continuaremos construindo na crise, como sempre fizemos. para isso, precisamos de gente.

e informática, hoje, está na base de tudo. de plantar feijão a lançar foguetes. é hora de uma política de vistos de trabalho e incentivos para trazer técnicos, engenheiros, pessoas de negócio, do mundo inteiro, prá cá. já fizemos isso antes e deu muito certo. não é à toa que comemoramos, este ano, os cem anos da presença japonesa no país. mas precisamos fazer mais, muito mais. trazer pessoas prontas, nas quais não investimos um centavo sequer em formação e capacitação, gente que está e vive no mundo, principalmente gente de TICs, para o brasil, agora, talvez seja a grande oportunidade do século. se soubéssemos fazer isso rápido, teríamos muito o que comemorar daqui a 100 anos.

 

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09.10.08

TICs em tempos de crise: pressa vs. desespero

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o planeta está em recessão, as empresas estão apertando seus orçamentos e, sempre que isso acontece, a tendência é cortar no que se chama "áreas-meio", ou seja, tudo o que não está diretamente ligado às funções e operações que a empresa realiza para se manter viva, para sobreviver. e sobreviver em tempos de crise não é fácil.

e o danado é que, em tempos de economia da informação, onde "toda empresa é uma empresa de software" [frase de watts humphrey, autor de winning with software] e onde a infra-estrutura de informação e comunicação do negócio pode ser justamente o local onde sua sobrevivência será decidida, há quem comece os cortes por lá, porque, afinal… TICs é "’área meio". não, não é. faz tempo que não é. TICs [sigla para tecnologia da informação e comunicação] é parte essencial da estratégia e execução de qualquer negócio que tenha algum futuro, é o motor de qualquer tipo de empresa. pensar num negócio sem uso competente e estratégico de TICs, agora, é o mesmo que imaginar, trinta anos atrás, fábricas sem eletricidade, movidas a cavalos reais ou rodas d’água.

a mckinsey publicou recentemente um pequeno texto sobre estratégias para TICs em tempos de crise, e vale a pena ler, com calma, os pequenos recados que a grande casa de consultoria, baseada em sua larga experiência em crises anteriores a esta, nos dá. são só seis páginas, é gratuito [mas você tem que criar um login no site deles].

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o artigo se chama managing IT in a downturn e seu resumo é bem simples: 1) As the economic slowdown intensifies, companies are looking for ways to cut costs, and IT budgets are a prime target [cortes de custos, na crise, têm TICs como um dos primeiros alvos]; 2) Rather than implement across-the-board cuts, managers should take a more integrated view of how IT is used throughout the business [ao invés de cortes homogêneos, a gestão deveria entender como TICs são usadas em todo o negócio] e 3) Targeted IT investments can make operations more efficient and increase revenues, delivering returns larger than simple cost-cutting measures typically do [mesmo na crise, investimentos pontuais em TICs podem tornar o negócio mais eficiente, aumentar receitas e dar melhores resultados {e margens maiores} do que as medidas mais triviais de cortes de custos normalmente conseguem].

simples, quase trivial. mas dificilmente feito, na prática, porque as corporações, em tempos de crise, emburrecem muito. até porque as crises criam urgências e urgências exigem respostas rápidas. e uma resposta rápida, burra e fácil de implementar, sempre, é cortar homogeneamente, em todo lugar. sem se perguntar se, no meio da confusão, não seria melhor investir exatamente onde outros estão cortando.

mas, se a gente pensar bem, crises exigem pressa. e não desespero. desespero aprofunda a crise, quase sempre. e a diferença entre o apressado e o desesperado é que, apesar de ambos saírem correndo atrás de respostas na mesma velocidade, o apressado tem um plano.

mesmo que seu negócio seja uma bodega, farmácia, mercearia, apresse-se e vá ler o texto da mckinsey [entre outros]. se for um médio ou grande negócio, leia também. em qualquer caso, pense duas vezes antes de cortar justamente as raízes do seu negócio. porque, como já se disse aqui… toda empresa é uma empresa de software.

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02.10.08

nasdaq [e TICs] em tempo de crise

a temperatura da nasdaq, a bolsa onde são negociadas as ações das empresas de tecnologias de informação e comunicação, anda elevada. dia 30 de setembro, as ações google deram um tilt e chegaram a ser negociadas por US$250, o que foi depois atribuído a "ordens erradas" e expurgado do pregão. quando tudo vai mal, tudo fica ainda pior. o que mesmo está acontecendo no setor? nos últimos três meses, quando a crise financeira americana foi mesmo para o fundo do poço, a bolsa nasdaq caiu cerca de 10%. pra você comparar, a bovespa caiu 20% no mesmo período. apesar do que diz a propaganda governamental [e boa parte da mídia nacional], eles espirram por lá e a gente tem que se limpar por aqui. mas vamos voltar a tecnologia propriamente dita, olhando pro gráfico abaixo, cortesia de yahoo finance.

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a linha azul é google, que está em seu menor valor desde 2006, abaixo de US$400 e prometendo migrar para a linha de US$350; perdeu 22.5% em três meses [e vale perto da metade de seu pico]. recessão significa menos anúncios, no topo de todas as dúvidas que pairam sobre o modelo de negócios da companhia. a linha verde é a intel, com quase 15% a menos; recessão significa menos chips vendidos. a linha marrom é a própria nasdaq, com a depressão mais à direita no gráfico correspondendo ao dia em que o congresso americano não aprovou a proposta original para salvar as instituições financeiras. neste único dia, o valor que desapareceu das companhias de tecnologia foi de mais de US$110B.

a linha vermelha é a amazon, que sofreu em relação a agosto, quando valia 20% a mais do que hoje. aparentemente, mais recessão siginifca menos vendas [de livros, também]. a linha amarela, bem perto da perda zero, é a microsoft. significa que, crise ou não, a empresa venderá mais windows e office? não: quer dizer que a microsoft está muito bem estabelecida no mercado e que, mesmo depois das correções da economia, o mundo vai continuar funcionando. a empresa está na bolsa desde abril de 1986 e vale, hoje, 30.000% a mais do que no seu primeiro dia na nasdaq. a ibm, que já estava na bolsa quando a microsoft chegou, vale umas três vezes mais.

sobre a crise, ouça steve ballmer, o CEO de redmond: "We have a lot of business with the corporate sector as well as with the consumer sector and whatever happens economically will certainly effect itself on Microsoft… I think one has to anticipate that no company is immune to these issues… There are parts of our every business which are probably ’safe’ in the sense that it’s not like our business would go to zero… On the other hand, when businesses have less money -they can borrow less money, they can spend less money- that can’t be good." em suma? a economia afeta a microsoft; quando os negócios têm menos dinheiro e gastam menos, isso não pode ser bom para ninguém. até aqui em pindorama parece que tal análise tá pegando… inclusive na propaganda governamental.

no encantado mundo de google, por outro lado, eric schmidt, que toca o barco, diz que "o negócio continua como sempre", bem ao estilo da companhia e do silicon valley. mas… todo mundo concorda que a janela para IPOs, o primeiro lançamento de ações das companhias nas bolsas, tá fechada. e que vamos ter uma start-up depression, ou seja, quem tem investidor vai provavelmente perder se não estiver muito perto de se tornar negócio de verdade; quem está dizendo que já conseguiu um está muito provavelmente enganando a si mesmo e quem não tem… bem… que tal fazer um ótimo, ao invés de bom, plano de negócios? com um protótipo que já pareça muito com a coisa que vai vender antes de falar com os investidores e se preparar pra muita, mas muita conversa antes de ver qualquer dinheiro?

seja lá qual for seu caso, se anime: até agora, o mundo não acabou, tanto que a internet continua ligada e acessível. meu primeiro sinal de fim de mundo -ou da civilização como conhecemos- é a internet saindo do ar, razão pela qual sempre acho que meu provedor é o fim do mundo. mesmo que acabe, temporariamente, pra você, saiba que o empreendedor de verdade sempre tem cartas na manga, mesmo que use t-shirts. e veja uma lista de companhias que foram para o espaço no .bomb [em 2000/1] e o que seus empreendedores estão fazendo hoje. e confirme que o verdadeiro empreendedor sempre volta a empreender, como se empreendedorismo fosse um tipo, talvez incurável, de neurose.

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22.09.08

crise? que crise?

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enquanto parte da indústria de tecnologias de informação e comunicação [TICs] avisa que a crise financeira pode muito bem afetar seus resultados, o que tem tido um impacto sobre o valor das empresas, parece que não há sinais de diminuição da demanda por capital humano competente em TICs.

é coisa pra se duvidar, já que o tamanho do socorro americano à indústria financeira de lá vai chegar perto de US$700B. e isso vai ser a maior conta pública de todos os tempos em qualquer país, guerras e desastres fora. a insolvência de wall street é da ordem de magnitude de uma grande guerra; a do iraque já custou aos cofres americanos perto de US$600B e as estimativas são de que poderá custar pelo menos três trilhões de dólares.

mesmo diante de um pipoco de tal ordem de magnitude, não há sinais de que o mercado de trabalho de TICs esteja sendo afetado, pelo menos até agora. um relatório publicado logo antes do fim do mundo, que foi notícia na AP, diz que "Overall technology employment is up in America and the wages associated with it are up",  segundo a forrester research. ou pelo menos o mercado de trabalho de TICs tinha esta cara no dia 5 de setembro.

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apesar da apreensão geral, não há sinais de mudança radical até agora. em boa parte, pode ser porque, apesar do menor número de bancos, por causa das fusões e aquisições em andamento, os reguladores americanos e mundiais quase certamente vão exigir maiores níveis de controle sobre as ações e instituições do setor financeiro.

e como todo negócio, hoje -e principalmente nos mercados de capitais- é software, vai ser preciso mais software e gente pra escrevê-lo e mais hardware pra rodar tudo e gente de suporte pra manter as coisas no ar. mesmo se alguém se encontrar no olho da rua, um analista do setor lembra que"if you’re really good in IT, you won’t be on the street for very long".

 

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23.08.08

nosso [olímpico] apagão humano

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"Vivemos um verdadeiro apagão humano. Esse é um tema que precisa ser discutido pelas empresas, fornecedores e universidades". a constatação é de wilson marques, da priceWaterhouseCoopers, feita na FGV-EAESP na sexta passada. segundo marques, que é sócio da área de BPO [business processing outsourcing, terceirização de processos de negócio] da PWC, a empresa tem que investir 2.000 horas para formar cada contratado, em governança e automação de processo e de negócios.

o apagão detectado por marques e pela PWC não é novidade e tampouco pontual: trata-se de um resultado construído por décadas de negligência no trato do que qualquer país tem de mais precioso, seu povo. nosso investimento em educação não passa nem perto da demanda nacional por quantidade e qualidade de engenheiros e, principalmente, técnicos. optamos pela educação fácil, nos cursos que não precisam de laboratórios, como se ainda fôssemos o país de bacharéis que um dia fomos [no império...]. e que talvez ainda sejamos, por não termos feito o que [para citar uns poucos] rússia, coréia, china e índia fizeram, atraindo seus jovens para as profissões que precisam de matemática, lógica, química e física, que resultam em formação que constrói as coisas, sistemas e serviços que compramos do mundo. resultado? marques [e o setor de software] não tem técnicos; e, quando consegue, tem que investir milhares de horas de educação, por contratado, para fazê-lo chegar no nível de exigência de suas empresas.

e as universidades, a quem marques apela? as melhores, olimpicamente, ignoram a demanda da realidade ao seu redor. usam o argumento de "formar com base, para o futuro", como desculpa para não dar aos seus alunos a combinação de formação teórico-prática de que o país e suas empresas precisam. sobre as piores escolas, há pouco a dizer. mas há as médias, entre as melhores e as piores, as que deveriam estar formando para empregabilidade, agora, no mercado de trabalho real onde o brasil pode ocupar um vasto espaço econômico no mundo. para estas, ao invés de se reclamar o cumprimento de um preceito difuso, do lado da oferta, de "indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão", os órgãos reguladores deveriam criar um mercado de escolas de formação para empregabilidade e cobrar-lhes resultados do lado da demanda. marques, a PWC e as empresas todas, com muita razão, querem pessoas que saibam, na prática, o que seus diplomas dizem que elas deveriam saber, em tese. ou seja, querem que o sistema de formação produza conteúdo e não diplomas.

street-dog.jpga frase de marques, quase no fim da olimpíada, é reforçada pela nossa, digamos, performance olímpica. lá em beijing, tendo que competir com o mundo [e não no pan, no rio, onde quase ninguém veio...] nossa equipe parece uma matilha de vira-latas, com as sempre raras e pouquíssimas exceções, os cielo, maggi, scheidt e muitos poucos outros. a grande exceção à regra é o vôlei, não por acaso resultado de um sistema de seleção, formação e preparação para criar resultados de classe mundial, que quando não chega no ouro [como as meninas, no sábado, e talvez os homens, neste domingo] está sempre lá, sempre competindo, contra tudo e todos, sem medo de cara feia, brigando pelo primeiro lugar. com rosto, expectativas, olhar, preparo e competências de mundo.

para resolver nosso apagão olímpico, precisamos melhorar o sistema de educação como um todo, descobrindo atletas lá na base, selecionando, treinando, criando oportunidades de competir com os melhores, em todos os lugares do mundo. para resolver nosso apagão humano, em tecnologias da informação e comunicação, a receita não é muito diferente: precisamos melhorar a formação de matemática na base da pirâmide; precisamos trazer lógica para o currículo, precisamos de laboratórios de física e quimica nas escolas, temos que universalizar o acesso a internet para alunos [na escola] e professores [nas suas casas, inclusive] e temos que tratar professores e alunos como o futuro da nação.

dia destes me pediram para contribuir para a feitura de um índice que medisse a qualidade da educação no brasil. a idéia era completar a frase "educação básica, no brasil, será um problema resolvido quando…" e meu complemento foi… "quando nenhuma professora primária no interior estiver ganhando menos do que um motorista de ônibus na capital". simples. porque todo mundo funciona dentro de um universo de incentivos. você pode até querer muito uma medalha olímpica e, mesmo sem um sistema, tornar-se um herói e conseguir uma, como o ouro de maggi. mas, sem sistema, como querer que atletas olímpicos que ganham salário mínimo [como a goleira da equipe feminina de futebol] estejam consistentemente no topo do mundo? eles precisam pagar contas, como todos nós. ela, a goleira, que é de recife e vive aqui, talvez possa se dar muito melhor [na vida] como motorista de ônibus [aqui, o piso é R$1.140]. talvez a minha frase sobre educação também valha para os atletas…

os vira-latas de beijing, resultado de acasos, sem apoio de um sistema estruturado para levar brasileiros aos pódios do mundo, tem um paralelo no mercado de trabalho: são muitos os brasileiros correndo atrás de trabalhos que existem, mas para os quais a larga maioria dos que têm diploma [e estes são muito poucos, em relação ao total] não têm o menor preparo prático, para a vida real. resultado? na olimpíada do mercado, que rola todo dia, dia e noite, no mundo, passamos ao largo do pódio do conhecimento e somos, cada vez mais, um país de commodities. como no império. e aí o negócio talvez seja, mesmo, formar bacharéis… e esquecer o trabalho e as medalhas.

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05.07.08

descolagem@nave: vídeo

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estive [via rede, a partir de recife e economizando meus créditos de carbono...] no descolagem, evento conduzido por beto largman no nave rio, no debate sobre as tecnologias da informação e comunicação e seus impactos na sociedade. minha contribuição está no goovid abaixo. é só clicar.

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