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segunda-feira, 25 de julho de 2011

informática: padrões & políticas

o texto no fim deste post foi publicado neste link em fevereiro de 2006, logo antes do carnaval. e volta à cena por causa deste outro, publicado anteriormente aqui no blog, sobre uma "nova" política de informática para o brasil, mais uma vez focada na substituição de importações.

comentários ao segundo texto, pedindo alternativas à constatação de que temos [ou teremos?...] uma política de substituição de importações me lembraram do velho artigo dos tempos em que estava para sair um "padrão" de TV digital por aqui.

lá em 2006, definimos um padrão de TV digital [não no carnaval, mas no são pedro] para um dos mercados mais importantes do planeta, o nosso. a corrida toda foi para "definir o padrão", como se diz, ao invés de se criar todo um ambiente, incluindo política industrial, mais investimentos estatais e privados, que pudesse tornar o brasil –um dos principais mercados, como já se disse- um dos principais atores do jogo econômico mundial para o setor.

na china, ao contrário daqui, o problema de padrões e políticas industriais vem sendo tratado, há décadas, de forma sistêmica. caso seja de seu interesse, leia the role of standards in national technology policy in china, de mu rongping e wu zhuoliang, standardized confusion? the political logic of chinas technology standards policy, de michael murphree e dan breznitz, china standard time: a study in strategic industrial policy, de greg linden e, por fim, china’s impact on the global economy: from china price to china standard, de david bach, abraham newman e steven weber.

e o meu texto lá de 2006 diz isso: enquanto estávamos definindo um "padrão" brasileiro, derivado de um padrão japonês que é minoritário no mercado mundial, a china estava definindo uma política inteira, baseada também num padrão, para dominar o mercado mundial de TV digital em seja lá que padrão for. o plano [desde 2000...] é ser o maior fornecedor mundial em 2015 e, depois disso, nas próximas gerações, forçar um padrão chinês. e passar parte da fabricação, que agrega muito pouco valor, para terceiros ou quartos, que tenham custos competitivos para o mercado global.

pois bem: lançamos o nosso "padrão". que se saiba, até agora, ele não criou ou alavancou qualquer indústria nacional. até porque a interatividade, que era só nossa, ficou de lado, esquecida pelas TVs. que sempre acharam que TV digital era só HDTV e essa coisa de interatividade era uma roubada [pra eles, emissoras de TV].

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enquanto isso, lá vem a china, rápida e sempre, atrás dos mercados de todo mundo, incluindo o nosso. a foxconn, aliás, pedra de toque chinesa do novo estado de coisas, é um fabricador-de-qualquer-coisa, uma fábrica genérica que vai, muito provavelmente, fabricar TVD aqui, também. substituição de importações é isso aí: entramos com o mercado, agora, e entramos pelo cano, depois.

o texto de 2006 tinha a ver com isso e está replicado, na íntegra, abaixo. boa leitura.

Pelas alegorias que vinham sendo avistadas nos barracões e pelo batuque, acertos e evoluções na quadra,  até parecia, umas semanas atrás, que o G.L.R.C.C.M.TV.D. - Grêmio Lítero-Recreativo Cultural Carnavalesco Misto TV Digital - ia mesmo sair em tempo de Momo. Seria melhor desfilar um pouco depois, segundo quem não via enredo e evoluções prontas, quanto menos ensaiadas e havia uma certa confusão na torcida: sem tempo pra entender as alas do desfile, havia gente muito importante nas arquibancadas e camarotes ensaiando, por sua vez, uma estrondosa vaia bem no meio do desfile. Mas, segundo parte da diretoria, Carnaval é só uma vez por ano, vem aí, e não há tempo a perder, que depois é Cinzas.

Nas últimas poucas semanas, no entanto, algo parece estar mudando. A decisão sobre o sistema de TV digital a ser usado no país é a mais importante, em termos de impacto industrial e cultural, que será tomada pelo governo, em informática, na década. A outra, que não veremos nem tão cedo, seria uma política de inclusão digital, capaz de criar um mercado de muitos bilhões de reais para envolver algumas dezenas de milhões de pessoas a mais no grande desfile da internet. A chegada da TV digital, que de uma forma ou de outra aponta na passarela, vai mudar o país inteiro: mais de 9 em cada 10 famílias têm TV, há centenas de estações, repetidoras, estúdios, uma cadeia de valor complexa e sofisticada e muitas dezenas de bilhões de reais de negócios nas próximas décadas.

Para uns, a decisão chega atrasada, pois deveria ter sido tomada no fim do último governo. Para outros, é açodada, pois os sistemas existentes estão a ponto de ter sua segunda, mais avançada, versão em pouco tempo. Isso poderia levar o Brasil, caso tivéssemos a competência negocial para articular com os vários modelos existentes, a ser o primeiro onde uma fusão de modelos - um padrão mundial de próxima geração - entrasse em operação, com óbvias vantagens para todos os envolvidos no padrão local. Aliás, mundial. Por outro lado, poderíamos pender para um lado e, escolhendo a próxima geração de um certo padrão, alavancarmos a capacidade nacional de participar nos destinos de um possível padrão dominante nas próximas décadas…

Enquanto isso, a China, que como nós está à busca de um padrão, manda avisar que não acha que padrões farão qualquer diferença. O divisor de águas, segundo os práticos planejadores chineses, será a política industrial associada ao novo modo de ver e interagir com TV. Por isso mesmo, a China não vai anunciar, em 2006, um padrão, e sim uma política industrial para TV digital.  A China fará isso porque entende não ter a massa crítica de conhecimento e capital humano para atacar um padrão como um todo e vai incentivar - ou ordenar - suas empresas a fazer parcerias com os grandes fornecedores internacionais de tecnologia. O resultado é previsível: dentro de poucos anos, televisores chineses de todos os padrões em qualquer lugar do mundo…

Nas quadras de Brasília, o ensaio que se ouvia, uníssono, até a poucos dias, era o oposto de Beijing: tudo indicava que íamos anunciar um padrão e “convocar” a indústria para atendê-lo. Como quase não há indústria nacional na área, talvez a decisão fizesse sentido. Ou não: a definição de padrões é sempre uma oportunidade de criar mercados e indústrias, no mais das vezes exportadoras. Mas as indústrias e investidores nacionais pareciam estar, se muito, nas arquibancadas. E ensaiando a tal vaia. Ocorre que forças outras entraram no desenvolvimento do enredo e na arrumação do pagode, na rua, e parece que está começando a haver - antes tarde do que nunca - uma discussão baseada em conhecimento real do negócio de TV e TV digital, quando antes parecia que escolher um modelo de TV digital para o Brasil era apenas uma questão de definir a camada, digamos, "aérea", do sistema inteiro. Se for pra confiar nos boatos desta semana, não só parece que estamos discutindo tecnologia e modelos de negócio e investimentos, além de contrapartidas para a eventual adoção de um modelo já estabelecido… mas também qual a participação do país, pela via de sua capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, na evolução de um tal sistema.

Santa Clara, padroeira da televisão, vai ver, está entrando no samba e no Carnaval. Até pelas sábias palavras de Caetano, que parecia saber que um dia a gente até poderia usá-las num debate sobre escolhas, na TV digital: "Santa Clara, padroeira da televisão/ Que o menino de olho esperto saiba ver tudo/ Entender certo o sinal certo se perto do encoberto/ Falar certo desse perto e do distante porto aberto/ Mas calar/ Saber lançar-se num claro instante…".

Tomara. Tomara que ainda dê tempo pra pensar profundamente - antes do tal anúncio - os negócios de TV digital, sem o que a alegoria nacional de política de tecnologia, industrial e comércio exterior não impressionará muito a comissão julgadora. E a favorita pro nosso Carnaval Digital, talvez, passe a ser a Unidos de Beijing, desfilando o tema Festival da Primavera Industrial na TV Digital do Brasil

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TV: público vai se tornar, mesmo, comunidade…

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olhem só o que a motorola está descobrindo [nesta pesquisa] sobre os hábitos correntes e futuros dos "espectadores", aquele povo que só "via" TV e que, agora, começa interagir enquanto "vê" TV:

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a imagem é de baixa resolução, pelos limites naturais aqui do blog; mas dê um clique e você vai ver em detalhe que, nos treze mercados considerados pela moto, 51% das pessoas [os azuis e verdes] já interage com outras, em redes sociais, [muito] frequentemente, enquanto dá conta do que rola na TV.

e não estamos falando de TV digital interativa como a que planejamos no brasil, o SBTVD [veja aqui o que o blog achava do assunto em 2008...]. lá, a interação aconteceria "pela TV". esperávamos até que a TV digital [interativa] fosse um mecanismo de inclusão digital, ao chegar onde não havia internet e assumir, mesmo que de forma limitada, seu papel.

o que a imagem acima mostra é que as pessoas já estão interagindo com as outras enquanto vêem TV, e o estão fazendo usando um monte de mecanismos já disponíveis na internet, que de resto já são usados por elas mesmas enquanto não estão "vendo TV".

Infographic 4B - Soc Nets influence

falando em "já disponíveis na internet", a segunda imagem responde a pergunta "você estaria disposto a pagar por serviços integrados de TV e internet que permitissem, por exemplo, conversar com seus contatos na tela da TV enquanto assiste um programa"?…

só 18% dos pesquisados disse sim e outros 42% condicionou um eventual pagamento a estar convencido que isso vale o dinheiro que vai sair de seu bolso. afinal de contas, porque deveríamos pagar por tais "serviços" se eles já estão disponíveis no smartphone [que está ao meu lado, à mão], no laptop que está no colo… sem falar em pads como o samsung galaxy tab que, no brasil, tem TV analógica e digital como parte do pacote e mais todos os apps de vários mercados, pra conectar o ex-espectador com twitter, chat, emeio, facebook, 4sq e o que mais for o caso?

pra terminar a conversa, olhe a imagem abaixo:

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entre várias coisas, a imagem diz que 20% dos consultados já têm TVs conectadas à internet [como esta] e que outros 40% pretende adquirir uma nos próximos 18 meses. isso significa que a combinação que está dando certo, no caso de TV digital, porque está sendo comprada e usada pela comunidade [irrestrita, ao invés do público controlado pelas emissoras] é TV aberta ou a cabo como costumávamos ter, combinada com interatividade pela rede, nas formas que interagimos na rede desde sempre.

sim, você diria, e daí? daí que está na hora de tentar, errar e aprender um bocado com as novas possibilidades de interação associadas à TV e que, quem conseguir interpretar, antes ou mais competentemente que os outros, tais possibilidades… vai ter uma vantagem competitiva muito considerável no cenário de negócios que antes costumava ser chamado de… TV.

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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

a [falta de] interatividade na tv digital

o brasil resolveu lançar seu programa de TV digital -que por sinal não vai muito bem das pernas- sem interatividade. a partir de uma plataforma de hardware [para transmissão e recepção do sinal de vídeo e áudio] similar à japonesa, botamos a coisa no ar em são paulo há quase um ano [dezembro de 2007] e, de lá pra cá, a penetração do SBTVD, o sistema brasileiro de TV digital, vem andando a passo de cágado.

até porque, como o ministro das comunicações descobriu recentemente, ninguém mais tá falando de TV digital, a não ser os fabricantes de set top boxes [as caixas que convertem o sinal digital pras TVs analógicas], provedores de middleware [o sistema operacional dos boxes] e os potenciais desenvolvedores de aplicações. as grandes redes de televisão, depois de terem conseguido o que queriam -migrar para o padrão digital sem admitir novas estações no espectro e excluindo as operadoras de telecom da TV digital móvel- relaxaram e estão esperando que alguma coisa aconteça.

a questão é… que coisa? certamente não vai ser a TV aberta fazendo um monte de propaganda da TV digital. com um público reduzidíssimo [algumas dezenas de milhares de set top boxes vendidos e interesse dos anunciantes perto de zero], não há porque ninguém se preocupar, agora, com TV digital aberta. o cabo e o satélite, também digitais e há muito tempo, vão bem, com seus 52% de crescimento em cinco anos, chegando a mais de cinco milhões de lares hoje [sem contar os gatos de todos os tipos]. um milagre, pro brasil, mas pouco, ainda, pra um país do nosso tamanho. mas, mesmo assim, talvez cubra boa parte dos 15% da população que estão nas classes A e B e pode pagar por centenas de canais em casa… e que não têm nenhum interesse em TV digital aberta, que passa a mesma coisa que já se vê na TV digital… paga.

o que falta, mesmo? duas coisas, talvez. uma, outra ou as duas em conjunto. a primeira é uma programação diferente no canal digital. tipo o canal analógico da TV X passando titanic pela ducentésima vez, enquanto o digital da mesma emissora passa corinthians vs. palmeiras ao vivo no paulistão. aí a TV digital aberta, grátis [financiada por anunciantes], passaria a ter [parte d]a programação da TV paga e o público de baixa renda, que não pode pagar por TV fechada, iria pro SBTVD na hora. pode apostar em milhões de set top boxes vendidos em pouco tempo, dependendo só da capacidade das emissores e redes de prover uma cobertura decente pelo país afora.

a segunda é interatividade. poder mexer na programação, interagir com ela, apostar no resultado dos jogos, acessar o banco, pagar contas, comprar coisas cm o controle remoto, marcar uma consulta, ver o boletim de seu filho na escola. a menos de um detalhe: interatividade não deu certo na TV digital em nenhum lugar do mundo até agora. por causa de uma mistura de padrões confusos, direitos e propriedade intelectual ainda mais confusos e falta de planos de negócios viáveis para emissoras e anunciantes, todas as tentativas de dotar a TV digital de uma interatividade real e prática naufragaram. aqui no brasil, está se tentando fazer vingar uma plataforma de interatividade nacional, ainda não completamente especificada e tampouco preparada para o horário nobre.

e aí aparecem umas idéias de botar um monte de caixas na rua com uma versão inicial [um "beta"] e, depois, trocar [pelo ar?] seu sistema operacional [ou um conjunto significativo de suas funções básicas]. algo me diz que isso é muito complexo e não vai rolar. até porque os fabricantes do primeiro time [como philips, sony...] não vão querer desfilar com este modelito. talvez fosse melhor tentar alguma coisa de classe mundial, um modelo de negócios em que participássemos dos resultados junto com o resto do planeta, algo que fosse ser usado em quase todo canto e mais alguns.

nos estados unidos, depois de décadas de idas e vindas, as maiores operadoras de tv fechada [e digital, também] incluindo a comcast e time-warner [mais de 80% do mercado de 100 milhões de lares], fecharam com tru2way, o padrão da cableLabs, baseado na linguagem java e livre de royalties. isso porque ninguém nunca havia conseguido resolver, antes, o que pagar, e a quem, nos middleware anteriores como o mhp, um natimorto muito complexo [e caro]. somando-se a isso o apoio da intel, samsung, sony, panasonic e outros gigantes do setor, é capaz do problema de interatividade na TV digital estar sendo resolvido exatamente da forma que os americanos mais gostam: de forma prática, pela via do modelo de negócios, sem discussões filosóficas e teóricas… e no mercado.

enquanto eles pensam em negócios e tentam estabelecer padrões de fato, ficamos discutindo, aqui, o direito constitucional que deveria levar [?] à independência científica e tecnológica do país. ao perdedor, neste caso, as [cascas de] bananas…

falando nisso, um padrão americano [de fato] de rádio digital [IBOC, da ibiquity] está se infiltrando no brasil, insidiosamente e sem muita discussão, e pode acabar se tornando o padrão de fato da próxima geração de rádio nacional. e parece que este processo vai ser ainda mais natural do que a escolha do modelo japonês de TVD pelo brasil…

pra terminar, tenho conversado com muita gente, nos últimos anos, sobre interatividade em TV digital. e muito dessa gente me diz que o principal problema do padrão brasileiro de interatividade para TV digital é que ele não é muito interativo… no seu processo de definição e construção. e que uma boa parte dos atores que deveria estar sentada à mesa, decidindo principalmente o negócio de interatividade e os negócios ao redor dela… não está lá. exatamente o contrário do que sempre ocorre nos estados unidos, mesmo quando o padrão, comoo o tru2way, é feito por uma companhia qualquer. um dia, vai ver, a gente aprende alguma coisa com eles.

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

fórum de TV digital: lançamento foi um sucesso

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tempos atrás, publicamos o resumo de uma conversa, na cbn, entre carlos alberto sardenberg e daniela braun, onde sardenberg comentava que… “esse troço aí [tv digital] tem mais conversa do que realização“. resolvemos fazer três perguntas sobre o assunto ao fórum do sistema brasileiro de tv digital, a entidade que governa o padrão brasileiro de tv digital e sua introdução no país. as respostas, de moris arditti, vice-presidente do fórum, estão abaixo:

1. qual é a avaliação que o fórum faz do projeto do SBTVD, até agora?

Na opinião do fórum o lançamento da TV Digital no Brasil foi um sucesso. Sucesso ou fracasso se julga em função de expectativas. No período de um ano, conceber e instituir  o Fórum do SBTVD  e o Fórum SBTVD com consenso de seus participantes (emissores de TV, fabricantes de receptores, fabricantes de transmissores, indústria de software, universidades e governo) definir e agregar as evoluções tecnológicas brasileiras ao sistema ISDB-T e no dia previsto para o lançamento no Brasil,  fazer todas as emissoras estarem com seus sinais digitais, no ar, em caráter comercial e nas lojas estarem disponíveis os receptores, só pode ser considerado um sucesso. Em lugar nenhum no mundo a implantação da TV Digital foi tão rápida e sem apresentar maiores problemas. Hoje, além da Grande São Paulo, a TV Digital está presente em belo Horizonte e no Rio de Janeiro e irá avançar gradualmente pelas outras capitais e grandes cidades do País. Era esta a expectativa do Fórum e ela foi plenamente alcançada, portanto, pode se dizer que o lançamento foi sim um sucesso.

Críticas se fazem à cobertura do sinal e à pouca aderência por parte dos consumidores. Quanto à isto, quero comentar o seguinte…

Cobertura: Em São Paulo o sinal  digital  oferece uma cobertura muito, mas muito melhor que a do sinal analógico. Não sou eu nem as emissoras de TV quem dizem isto. A afirmação tem base numa medição metódica feita pelo grupo de especialistas da Universidade Mackenzie. Num raio de 10km em torno da antena de transmissão o sinal é recebido em 100% das localidades. De 10km até 20km em 80% das localidades. A recepção  do sinal analógico é drasticamente pior. E tem mais. Com o sistema analógico é difícil se colocar os “gap fillers” que são pequenos retransmissores para garantir sinal em áreas de sombra. Com o sinal digital isto é fácil de ser feito e irá ocorrer à medida que as emissoras julgarem que se fazem necessários.

Pouca adesão: Toda e qualquer nova tecnologia ao ser lançada começa com um preço mais alto e depois este preço vai se reduzindo. Temos o hábito de se esquecer destas coisas. Quanto custava o primeiro aparelho de videocassete oferecido no mercado brasileiro? E o primeiro tocador de CD? E o primeiro telefone celular? E o primeiro DVD, LCD, plasma?  E aí vai. Por que o conversor de TV Digital deveria ser uma exceção? O conversor para o SBTVD é único no mundo. Ele nasceu para atender a norma brasileira,  que é mais sofisticada do que a sua congênere japonesa, apesar de se basear no mesmo sistema. É natural que as primeiras unidades custassem mais. Mas agora, 7 meses após o lançamento no Brasil da TV Digital, já é possível encontrar-se conversores por 1/3 do preço daqueles originalmente lançados. O conversor e os aparelhos de TV capazes de receber a TV Digital brasileira não requerem qualquer componente “custom”. Os componentes todos são “itens de prateleira” ou normalmente disponíveis no mercado e seus  preços irão cair à medida que vão sendo mais consumidos. Quero lembrar que o consumo não é representado apenas pelos conversores e TV brasileiros, mas por todos os STB no mundo que decodificam o MPEG4, como as caixas de  IP-TV, por exemplo. Em São Paulo, quem tinha poder aquisitivo para comprar conversores caros, via de regra, não o fez porque já era relativamente bem servido com a TV paga  pelo cabo ou satélite. Agora, com a erosão dos preços, a ampliação geográfica da cobertura, não tenho dúvidas que a TV Digital brasileira irá se expandir. De novo, julgar o sucesso ou fracasso depende da expectativa. Os volumes ora comercializados estão  dentro das previsões feitas pela indústria tradicional de receptores de TV no Brasil. Neste setor não há frustração.


2. o que é preciso, na opinião do fórum, para que se acelere o processo de introdução de tv digital aberta, grátis, no brasil, via SBTVD?


A aceleração irá ocorrer com a redução natural do preço dos receptores, da melhor divulgação das vantagens que traz a TV Digital  e logo mais, com a interatividade.


3. além das conversas, debates e reuniões [
como diria carlos alberto sardenberg] quais são as realizações do fórum [e do projeto, como um todo] até agora?

Eu iria ter que escrever um romance para enumerar as realizações do Fórum mas faço aqui uma síntese. Foi a de implantar no Brasil, em tempo recorde, o melhor sistema de TV Digital do mundo. A qualidade e robustez do SBTVD são incontestáveis e isto sem mesmo considerar a maravilha que é a parte da portabilidade. O SBTVD deu a engenheiros de hardware e software brasileiros a oportunidade de desenvolver produtos (estes profissionais hoje em dia são altamente disputados). A superioridade do SBTVD foi recentemente reconhecida por entidades japonesas  públicas e privadas. E se passa pela cabeça de alguém ter o Fórum criado um “Frankenstein”, único no mundo,  quero me permitir dizer que está errado. Os aparelhos japoneses não funcionam adequadamente no Brasil porque são menos evoluídos, mas os  brasileiros poderiam funcionar no Japão.

no caso de TVD no brasil, saberemos se tudo vai dar certo quando… tudo der certo. e isso vai levar tempo. é preciso muito esforço, articulação e, eu diria, um modelo de negócios fundamentalmente diferente daquele que está sendo tentado até aqui. mas isso é outra história.

a tv digital aberta brasileira, vai ser muito ajudada pela falta de banda larga no país. vídeo na rede, por aí, é realidade mais que virtual. aqui, claro, não temos banda pra tanto; se tivéssemos, não teríamos preço. onde há banda, larga e barata, há quem diga que o tempo de vida de tv digital aberta não vai passar de sete, no máximo dez anos. pode ser, pode ser…

de qualquer forma, com o brasil comprando quase um computador a cada dois segundos e conectando todos eles na internet, que é para onde as pessoas todas estão indo… [e, mais cedo ou mais tarde, em banda larga] pode ser que a importância relativa de tv aberta, quando a equação toda estiver no lugar, seja muito menor do que queremos hoje. qualquer dia voltamos a esta discussão, pra falar de tv digital no celular, que parece ser uma outra história.

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terça-feira, 3 de junho de 2008

a tv digital já deu certo

Tags:, , - srlm às 02:44

noite de poucos graus em são paulo, nossa mesa no aguzzo ladeada por uma confraria de vinho, eles lá tomando notas dos teores e sabores de muitas garrafas, nós aqui comentando o fim da conversa de carlos alberto sardenberg com daniela braun no cbn tecnologia da informação da quinta feira passada, quando sardenberg, depois de discutir com daniela as várias facetas do processo de implantação da tv digital aberta, gratuita, no brasil, concluiu que… “esse troço aí [tv digital] tem mais conversa do que realização“. e tá lá na página da cbn; é só clicar e ouvir.

um de nossos convivas era um industrial, figurinha carimbada [e anônima, aqui], conhecedora da indústria brasileira de tecnologia de informação e comunicação por dentro e por fora, incluindo as teles, TVs e os fabricantes e fornecedores de insumos pras duas. enquanto debatíamos, veio dele a sentença: “sardenberg está errado: o SBTVD já deu certo“. sem entender, inclusive porque só há uns poucos milhares de set top boxes [ou STBs] na rua, quase nenhuma programação nas grandes redes, problemas de cobertura, pouca programação e nenhuma interatividade, perguntamos todos, em quase uníssono… como assim? e ele: “pra medir o sucesso da iniciativa, é bom deixar claro que o propósito maior do SBTVD, enquanto política, era fazer a transição da TV analógica para a digital, no país, mantendo a mesma estrutura de competição, os mesmos canais, as mesmas concessões e propriedades, sem qualquer mudança no status quo…”

e mais: “não se pode exigir muito de uma inovação que veio pra manter tudo igual, não é? e depois saem por aí dizendo que o problema da TV digital, no brasil, é o elevado preço do STB; não é. o problema é terem criado uma TV digital que é analógica de nascença. mesmo assim, como já cumpriu seu propósito político, já deu certo…”. é, pode ser. vai ver que, por enquanto, nosso anônimo paulistano tá certo. resta ver o que ainda se pode fazer, em que tempo e a que custo, pra se ter TV digital de vera no país inteiro. se é que vamos ter uma algum dia.

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