Terra Magazine

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

vida: lógica e simples?

john maeda, que era do mediaLab e hoje é o presidente da RISD, uma das principais escolas de design do mundo, conta uma história sobre a aula introdutória de um curso do mestre da tipografia wolfgang weingart, que, ano após ano, dava exatamente a mesma aula. fantástica, mas sempre a mesma. maeda começou a achar que weingart estava perdendo a noção da realidade, até descobrir a verdade: apesar do mesmo conteúdo, a cada ano as teses, conceitos, exemplos e explicações se tornavam mais simples, mais diretas, mais concisas. o velho professor, ano após ano, estava simplificando o que sabia… simples assim.

esta história, seu entendimento e consequências estão por trás do pequeno-grande livro de maeda, "as leis da simplicidade", leitura essencial pra quem quer pensar em tornar as coisas –definições, interfaces…, bem mais simples do que são.

image

muitas coisas são simples, outras são naturalmente complicadas ou complexas e outras, ainda, tornamos complicadas apesar de serem naturalmente simples.

a vida, por exemplo, pode ser muito simples. mas normalmente é [ou se torna] muito complicada, pela simples razão de que simplicidade [neste e em qualquer caso] exige muitos tipos de manutenção, para as quais, por variadas razões, não damos a devida atenção e energia. ou, simplesmente, não temos competência para tal. o resultado é conhecido.

algo que não parece trivial ou simples, por outro lado, é definir o que é vida.

segundo Schejter e Agassi [em um artigo de 1994], uma definição adequada de "vida" não deve ser circular, nem estreita nem larga demais, não pode excluir coisas vivas nem incluir as mortas e, por último, não deve ter biologia como componente, parte ou consequência essencial de química e física. ou seja, tem que haver uma certa abertura para imaterialidade.

o parágrafo anterior faz parte de um texto do sciTopics [Definition of Life: At last "What is Life?" can be anwered, simply and logically], escrito por arnold de loof, que continua e define vida de uma forma "simples"…

In my opinion, what we call ‘Life’ (L) is not a noun, but a verb. It is nothing else than the total sum (Σ) of all acts of communication/problem-solving (C) executed by a given sender-receiver compartment (S), at all its levels of compartmental organization, from the lowest one (n=1: prokaryotic cell or cell organelle in eukaryotic cell) to the highest one (n=j: cell,…, tissue, organ, organism, …, aggregate, …, population, community, up to the Gaia-level, where relevant) at moment t. This definition meets all criteria listed by Schetjer and Agassi (1994), and it can be used in both biology and the humanities.

The simplest symbolic notation for ‘Life’ (as an activity) reads: L=ΣC

A somewhat more complex but more correct notation is:

                                                    j

                                   L (S, t) = ΣC (S, t)

                                                   1

Thus, ‘Life’ has both a quantitative (number of communication acts) and a qualitative aspect (content of the acts). It cannot else than incessantly change.

segundo a definição, "vida" é a soma de todos os atos de comunicação e resolução de problemas executados num dado momento por um sistema transmissor/receptor em todos os seus níveis de organização, do mais elementar ao mais alto. para de loof, vida não é um nome e sim um verbo; vida não é um estado de coisas, e sim um fluxo de acontecimentos.

image

aceita tal definição de vida, a de morte é trivial: um sistema está morto quando perde, de forma irreversível, a capacidade de se comunicar no seu nível mais elevado de organização. a partir daí, o que acontece nos níveis inferiores é irrelevante. daqui sai, por exemplo, a definição de morte cerebral e, consequentemente, de morte de acordo com preceitos éticos, morais e legais.

se você acha que nada é tão simples assim, é porque não é mesmo. veja parte da discussão sobre o assunto nesta dissertação de mestrado e nesta outra, de doutorado.

semana passada, falamos da possibilidade de vida eterna. isso porque, daqui a algum tempo, pode ser possível viver para sempre no mesmo corpo, sempre recondicionado. ou  talvez dê para copiar [um processo chamado  uploading] o nível mais alto de organização da vida [cérebro/mente] para uma infraestrutura de computação, comunicação e controle e, desta forma "continuar vivo". para sempre, também.

tal "cópia" certamente seria classificada entre as formas mais sofisticadas de "vida" de acordo com a hierarquia de Jagers op Akkerhuis [ver cap. 5, pág. 141 do link anterior]. um "upload" está na classe "memon" da figura abaixo, e isso certamente nos levaria a fazer perguntas muito complexas sobre um tal sistema [definido de forma tão "simples" como vimos acima].

image

quer ler? pra começar, quais são os direitos de um upload? ele [ela?...] pode ser terminado [no sentido de "desligado"] ou modificado? pode [ou deve] ser atualizado? como, por que e por quem? se tiver [terá? quase certamente...] capacidade autônoma de aprendizado, deve haver algum limite no que pode aprender? imposto por quem, em que termos? se pode aprender, poderá ensinar? teremos "professores virtuais"? se veicular opiniões contrárias às normas legais, pode ser processado? por calúnia e difamação, por exemplo? se sim, seria condenado a que? se tiver capacidades motoras e causar dano material por causa disso, quais são as consequências? se não tiver mas puder controlar dispositivos móveis, no que isso implica, do ponto de vista ético e legal? quem vai "pagar" pela continuidade do "upload", já que não se trata de coisa estática e sim dinâmica, interativa? o seguro de saúde? o estado? haverá tratamentos diferentes para certos tipos de memons?

e por aí vai. a vida pode até ser simples e definida simplesmente. criar condições para a existência [nem que seja virtual] de vida eterna, idem.

mas, pelo menos por enquanto, fazer perguntas sobre as implicações da vida eterna é muito mais complexo do que pensar as tecnologias para sua realização. é sempre assim: do ponto de vista da tecnologia, se é possível, será feito. depois a ciência e humanidades vão atrás e descobrem porque funciona e como, em contexto, pode ser interpretado… ao redefinir o próprio contexto e as possibilidades de interpretação.

e pur se muove

image

Blogs que citam este Post

domingo, 11 de setembro de 2011

a vida: eterna? como?

a fonte da juventude tem muito mais cartaz do que o el dorado. o ouro do segundo, se existisse, só poderia ser gasto aqui e agora. nas condições atuais –e, ainda mais, quando o mito da cidade de ouro estava mais aceso, antes de google maps e GPS- todo o ouro do mundo não compraria a vida eterna. até porque a igreja católica saiu do mercado e igrejas mais recentes, que entraram atrasadas no negócio, não estão entregando o pago e prometido.

image

pois bem. independentemente do contexto religioso, há razões outras para se pensar na vida eterna. uma delas é de puro e simples balanço energético: imagine o custo de se atingir a maturidade, ainda mais chegando lá unindo conhecimento e sabedoria. cada humano que desaparece leva, consigo, não só sua atividade e história pessoal; além de deixar um vazio na história dos que ficam, a morte de cada um de nós representa um imenso desperdício de energia.

se olhamos para seres humanos como consumidores de energia, que é acumulada na forma de realizações e conhecimento, cada um de nós consome, hoje, o equivalente a mais de 70 bilhões de joules por ano. em 80 anos de vida, seriam perto de 6 trilhões de joules. consumimos muito mais energia por ano do que um homem das cavernas o faria em toda sua vida.

image

sim: e 6 trilhões de joules é o que, mesmo? pense gasolina: um litro tem cerca de 40 milhões de joules. se seu mundo fosse movido só a gasolina, consumiria o equivalente a 150.000 litros da coisa durante sua vida, pouco mais de 5 litros por dia. parece pouco? cinco carretas de trinta toneladas de combustível cada uma não é pouco; sempre que passar por uma, na rua, lembre-se que sua vida são cinco delas. hoje. e está aumentando 10% a.a.

image

mas o que é que isso tem a ver com a vida eterna? se somos tão "caros", é bem capaz de haver razões, acima de nossa vontade pessoal de viver "para sempre", para preservar a energia consumida no processo de desenvolver um ser humano maduro e sábio.

assumindo que esta seja uma das razões por trás das respostas a uma pergunta feita pelo IEET [o instituto para ética e tecnologias emergentes], veja abaixo no que deu a pergunta "que expectativas você tem em relação à duração de sua própria vida?"…

image

entre os que têm 35 anos ou mais, a maioria acha que vai morrer dentro da expectativa normal de vida de um ser humano. apenas 21% acha que pode viver por séculos a fio no seu corpo atual e 19% acredita que poderá ter sua mente "uploaded" para um computador algum dia. entre os que têm menos de 35 anos, as porcentagens são 32% [morrer "como um humano atual"], 36% [viver por séculos...] e 26% [fazer um "upload"].

este público não é "normal", para qualquer idade. são leitores do IEET, que se dedica a singularidade, trans-humanismo e similares. ou seja, gente que, a priori, acha que pode rolar [de uma forma ou de outra] uma vida eterna básica. deixando a pura e simples vida eterna [séculos a fio no mesmo corpo] pra lá, por enquanto, face à complexidade das implicações éticas e morais [por exemplo, qual o significado de "prisão perpétua" na "vida eterna"?...], que tal considerar "uploading" como forma de não perder [toda] a energia gasta pra chegar um certo ponto da vida? mas… que ponto? qualquer ponto: a priori, todas as mentes deveriam ser "uploaded"… e nenhuma delas poderia "se perder".

o conceito de "uploading" não é trivial e, de certo ponto de vista filosófico, é simplesmente impossível. mas, se for realizável, pode ter consequências não triviais para o futuro do que chamamos de humanidade. neste relatório de 130 páginas, nick bostrom e anders sandberg explicitam algumas das possibilidades…

Brain emulation is the logical endpoint of computational neuroscience’s
attempts to accurately model neurons and brain systems…

…emulação cerebral é uma consequência lógica das tentativas de modelar, de forma precisa, neurônios e sistemas neuronais;

Neuromorphic engineering based on partial results would be useful in a
number of applications such as pattern recognition, AI and brain‐computer interfaces…

…a engenharia resultante deste tipo de esforço de pesquisa seria muito útil em aplicações como reconhecimento de padrões, inteligência artificial e interfaces humano-computador;

The economic impact of copyable brains could be immense, and could have profound societal consequences…

…o impacto econômico [a economia de energia, por exemplo, entre muitos outros] poderia ser imenso, gerando profundas consequências sociais;

If emulation of particular brains is possible and affordable, and if concerns about individual identity can be met, such emulation would enable back‐up copies and “digital immortality”…

…se a emulação de cérebros específicos for possível, e se os problemas de identidade puderem ser resolvidos, seria possível fazer backups de mentes e, por isso, atingir uma "imortalidade digital"… e…

Brain emulation would itself be a test of many ideas in the philosophy of
mind and philosophy of identity, or provide a novel context for thinking
about such ideas…

a emulação de cérebros seria, ela própria, um teste para uma miríade de ideias das filosofias da mente e identidade ou, no mínimo, criaria um novo contexto para pensar sobre tais ideias.

image

tecnologia é o domínio da possibilidade. se é possível ser feito, em qualquer área de expertise humana sobre métodos, técnicas e ferramentas, é feito. por alguém, algum dia, de alguma forma. a ciência, domínio da verdade, cuida dos "por quês" depois e irá, se der, descobrir as bases para o funcionamento do que está funcionando. quase tudo o que usamos de software, por exemplo, é assim. por fim, as humanidades irão teorizar sobre o uso das tecnologias e nós, enfim, entenderemos o que estamos usando há tanto tempo e quais são as consequências daquilo tudo.

a "pesquisa" do IEET mostra que há um mercado potencial de pessoas que almejam viver pra sempre, real ou digitalmente. do lado de cá, estamos entendendo, cada vez mais, do espaço físico, da vida e da mente. os dois últimos são, cada vez mais, codificados em termos de informação e conhecimento e, ainda mais, entendidos como software, dentro de um contexto em que "tudo é software". 

se for –e parece que é…- tudo será escrito de forma executável por máquina. e reescrito. evoluirá até que, alguma hora, uploading seja possível. se isso rolar, vamos ter descoberto, também, como fazer downloading… e, se tudo der certo, faremos download de partes de uma mente e não da coisa toda. tipo… aprender mandarin por downloading. pode nunca ser possível mas… pense nas consequências: e se for? quanta energia a gente economizaria?…

energia, energia: a vida depende, intrinsecamente, dela. tudo o que for possível para economizar [ou maximizar os resultados d]o uso de energia será feito. tomara que a as consequências, quando conseguirmos entendê-las, sejam administráveis. tomara.

image

[PS: rafael evangelista acaba de publicar {10/09/2011} "Singularidade: de humanos feitos simples máquinas em rede", na revista ConCiência; leitura deste link tem tudo a ver com o texto discutido aqui].

 

Blogs que citam este Post

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CO2, vida e morte: simulação

Tags:, , , - srlm às 17:04

breathing-earth-brazil.png

www.breathingearth.net é uma simulação, em tempo real, das emissões de CO2, nascimentos e óbitos no mundo, por país. no planeta, ainda nascem duas vezes e meia mais gente, por unidade de tempo, do que morrem. estamos muito longe, ainda, do desenvolvimento sustentado.

 

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

transmissão de vírus por… DNA

Tags:, , , , , - srlm às 11:17

hhv-6-virus.jpga medicina inova e apresenta, quase todo dia, melhorias nos processos e meios de tratar doenças de todos os tipos. ao mesmo tempo, porque também desenvolve novos instrumentos e processos de análise dos seres vivos e seus componentes, descobre porque certas coisas acontecem nos nossos corpos.

uma descoberta recente [e preocupante?] é que o HHV-6, um vírus de herpes humana que causa a roséola, pode ser passado do pai ou mãe para o filho através do DNA. pesquisadores descobriram que a maioria dos bebês que nasce infectada pelo HHV-6 tem a coisa integrada ao seu DNA, o que descarta a infecção por via sangüínea e abre um novo campo de estudos sobre transmissão viral e seu controle e tratamento.

como DNA é o "programa da vida" e nós já entendemos o suficiente de vírus em programas, quando vamos ter anti-vírus para tais tipos de vírus, disponíveis em larga escala, na sociedade? e quais serão as implicações disso para o processo [anteriormente conhecido como sexo...] de inseminação humana?

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol