Terra Magazine

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a volta do "ciberespaço"

william hague é o equivalente do ministro de relações exteriores de sua majestade elizabeth II. lá, o nome literal do cargo é, simplesmente, o "secretário do estrangeiro". olhando do ponto de vista de mr. hague, o "estrangeiro" online está se transformando em um megaproblema.

ao ponto do governo inglês ter provocado e organizado a primeira grande conferência mundial de "segurança do ciberspaço". sim, ciberespaço, uma forma de nomear a internet que andava meio fora de moda. mas que pode fazer sentido, se a ótica for de que a internet –a rede- é a base para um ambiente que acontece sobre sua infraestrutura, serviços e aplicações. no topo desta tríade, rola um "espaço virtual", que interfere e se mistura com o concreto… e é este lugar que poderia ser denominado "ciberespaço".

o governo inglês quer que todos os outros países comecem a entender um bocado de coisas sobre a rede [ou o "ciberespaço"]  e sua segurança. avalia que ataques virtuais já custaram US$43 bilhões à economia da ilha e são a causa [direta] da falência de um fabricante de turbinas eólicas. por baixo do pano, diz-se que a culpa é da… sim, você adivinhou, da china. a coisa chegou a um ponto em se publica uma "matriz de retorno de investimento para crime virtual" que ser vista na imagem abaixo [para 2011], tirada deste relatório. e roubo de dados está lá, na crista da onda.

image

segundo william hague, a conferência terminou com quatro mensagens bem claras para os governos: 1. seja lá qual for o país, o crescimento do crime virtual é uma ameaça séria para seus cidadãos e tratar este problema tem que deixar de ser uma atividade ocasional para se tornar parte das políticas, estratégias e operações de todos os países; 2. a internet não deve ser tratada como sendo propriedade dos governos e conter os problemas de segurança discutidos na conferência só vai ser possível trazendo para muito perto pessoas e instituições que estão fora do governo; 3. ataques virtuais incentivados ou apoiados por governos não interessam a ninguém no longo prazo e devem ser contidos imediatamente e 4. ignorar as forças da rede, que pedem e promovem mais transparência, abertura e intercâmbio, à guisa de tratar os problemas de segurança… é uma má ideia e vai dar errado.

hague ainda disse que a mensagem da conferência aos empreendedores e companhias é… continuem inovando; mantenham o fluxo de ideias e trabalhem junto com seus governos para salvaguardar propriedade intelectual e prevenir o crime virtual. para os indivíduos, o secretário inglês deixou claro que "este é o seu debate": sem as pessoas e sua participação, a rede não seria o espaço de expressão e diversidade de conteúdo e opinião global que é. e seu valor e importância seria muito menor. irrelevante, talvez.

um número de países não acha que deveria ser assim e está propondo, na ONU, um código de conduta global que chega perto de "relocalizar" a rede, como se a internet em cada país fosse a "sua" rede, para a qual valeriam controles geográficos e de fronteiras do começo do século passado.

joe biden, vice-presidente dos estados unidos, discorda:

"What citizens do online should not, as some have suggested, be decreed solely by groups of governments making decisions for them somewhere on high… No citizen of any country should be subject to a repressive global code when they send an email or post a comment to a news article. They should not be prevented from sharing their innovations with global consumers simply because they live across a national frontier. That is not how the internet should ever work in our view."

este embate faz parte do vai-e-vem da vida inteligente no planeta, nos eixos do espaço e tempo. toynbee já dizia que a civilização é um movimento e não uma condição, uma viagem e não um porto. por um tempo, pode ser possível "conter" as forças que se articulam na [e em] rede. pouco tempo. o tempo social, no entanto, é longo. esse "pouco" pode ser 50 anos. mas mais cedo ou mais tarde [pense daqui a cem ou, radicalize, mil anos] vai haver um só planeta, uma só civilização. com seus sotaques e costumes locais, claro. mas muitas coisas vão ser globais, como a grécia demonstra hoje em dia: pra ter a mesma moeda, tinha que ser a mesma economia.

na internet, ou no tal ciberespaço da conferência inglesa, pra fazer parte da mesma rede vamos ter todos que seguir os mesmos princípios, mais cedo ou mais tarde. de segurança, também.

mas não vai ser fácil. e vai ser preciso muito mais de uma conferência. esta pode não ter sido muito boa. ou um completo fracasso. e os princípios propostos por uns podem não ser aceitáveis por muitos. pode até ser que o reino unido tenha realizado tal encontro para se redimir de ter pensado em censurar a rede no quebra-quebra de londres. mas todos concordam que é preciso agir para garantir que todos vão ter acesso confiável e seguro à rede, tão livres de restrições e ataques quanto possível e que, sem uma ampla colaboração internacional, isso não vai acontecer.

image

é muito provável que o cenário que queremos para o planeta seja o que o GBN e a rockfeller foundation descrevem como "clever together", ou todo mundo muito esperto, junto, o que quer dizer alta adaptabilidade e alto alinhamento político e econômico. travar a rede, criar restrições para o maior engenho de alinhamento e crescimento [em todos os sentidos] global, seja lá por qual razão for, não é um bom começo. tomara que nem tentem. e, se tentarem, aí é que vamos ter que nos alinhar e provar que valemos os links das redes que estamos construindo.

na rede, o problema é muito mais complexo e bem maior do que segurança. a imagem abaixo é um link para um relatório onde se discute os possíveis cenários para a internet em 2025, ou como vamos evoluir de uma rede de 2 bilhões de pessoas [e 3 trilhões de dólares anuais] hoje para 5 ou 6 bilhões de pessoas, lá, e todo um novo mundo pra se conectar e [re]descobrir.

image

ciberespaço, internet, rede ou web, a história do virtual só está começando. e as decisões desta década terão impactos profundos nas próximas e todo cuidado é pouco. e o cuidado com a rede… tem que ser em rede.

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

o futuro dos jornais digitais: apps, web, …?

Tags:, , , , , , - srlm às 08:00

este blog acabou de publicar um texto sobre a indústria da literatura, olhando para uma [muito] pequena parte do problema que já está sendo enfrentado pelos que vivem no e do livro. parte do que pode acontecer com o livro já vem acontecendo com os jornais há pelo menos uma década: nos dez anos passados, o investimento em propaganda e marketing nos jornais, no brasil, caiu 40%. e isso enquanto triplicou na internet, como você pode ver neste outro texto do blog.

que as notícias estão indo para a rede há tempos é fato irrefutável. veja o gráfico abaixo, fruto de pesquisa da PEW americana, publicado aqui no blog em julho deste ano. lá nos EUA, a internet já é a principal fonte de informação para 65% das pessoas entre 18 e 29 anos. aqui não vai ser diferente, assim que tivermos conectividade mais ampla e barata.

,

a pergunta já não é mais, há tempos, se dá pra salvar os jornais em seu formato atual. não dá mais, mesmo que se perceba, no brasil, um aumento de circulação provocado pela ascensão sócio-econômica recente de milhões de famílias. a pergunta é se dá pra salvar o bom jornalismo, o que este blog vem discutindo desde 2009.

e o problema –que editoras, livrarias e autores também estão começando a ter- é de encontro de contas: o que se gasta para criar, publicar e distribuir conteúdo tem que ser remunerado em receita vinda dos usuários e [ou] clientes. mas as receitas da web, até agora, parecem não ser suficientes para sustentar jornais como o financial times que, por isso, resolveram usar plataformas como o iPad para distribuir seu conteúdo. pago, claro. e, como não poderia deixar de ser, com a apple como sócia.

a apple como sócia? pois é: tudo que passa pelo appStore deixa 30% nos cofres da companhia de cupertino. até aí, tudo bem, até porque a empresa [que faz uma fortuna em hardware e não nas receitas do market] tem um trabalho considerável para manter seu mercado de aplicações no ar.

mas, desde fevereiro, tudo o que é comprado dentro de uma app qualquer… também paga 30% para steve & co. ou seja, caso você compre a app do financial times e, lá dentro, resolva comprar uma edição especial, ou um serviço qualquer que não faz parte de sua assinatura… a apple leva 30%. com se não bastasse, todos os dados dos compradores dos seus serviços são tratados pela apple como segredo de estado e a chance de você por as mãos na informação que lhe ajudaria a entender o comportamento de seus clientes e usuários é… zero.

a revolta entre muitas empresas que usam o appStore não é pequena, até porque a regra de taxar "in app purchasing" foi introduzida a posteriori e, bem ao estilo apple, sem qualquer consulta prévia. mas vamos admitir que tais atritos sejam parte do processo de estabelecimento da cadeia de valor propriamente dita e que, até os mercados de aplicações e serviços digitais se estabelecerem, haverá mudanças drásticas.

resultado, até aqui? o financial times, que teve sua app de notícias para o iPad comendada pela apple como uma das melhores de 2010, decidiu descontinuar sua oferta para o iPad e iPhone e vai procurar outras alternativas de receita. que podem passar por HTML5 como plataforma, o que a amazon já está fazendo com seu "kindle cloud reader" que, tratado diretamente por um browser, passa completamente por fora de qualquer appMarket. 

HTML5 é a última versão do velho HTML que existe desde o começo da web e, mais arrumado e capaz do que seus antecessores, pode trazer de volta para dentro da web padrão o que há tempos vinha fugindo para apps e appMarkets: a capacidade de codificar, distribuir e processar aplicações complexas [como o kindle reader] dentro do próprio browser, ao invés de se tratar e gerir uma miríade de aplicações de propósito específico como estamos quase nos acostumando a fazer nos smartphones e tablets.

olhando para as dificuldades dos mercados de aplicações, as peculiaridades da apple e as novas capacidades trazidas por HTML5, é capaz de estarmos começando a observar uma volta, em grande escala, para  browser. o que não seria de todo ruim. isso porque, no caso de iPad e iPhone, nem a apple nem os desenvolvedores ganham dinheiro de verdade com apps, porque o app market de google para android é confuso… e porque as empresas não estão dispostas a serem sócias, obrigatoriamente, de seja lá que mercado for. ainda por cima, uma volta radical ao browser poderia ser o fim dos sistemas operacionais, o que seria ainda melhor para os usuários [e não necessariamente para os fabricantes, mas isso é problema deles].

em tempo: o próprio steve jobs acha [ou achava] que o futuro é da web aberta e não de padrões fechados. é certo que ele não falou contra mercados fechados e controlados, se também [como o appStore] seriam coisa do passado da rede, mas que é capaz da evolução de HTML5 dar cabo de vários deles. vamos esperar pra ver quem vai seguir a amazon, financial times, box… no caminho de volta para o browser.

em particular, vamos ver o que os jornais digitais vão fazer. pra quem não fez uma app de respeito ou que é usada em larga escala até aqui, a hora é de pensar porque não investir em HTML5 e "pular" os mercados de aplicações, trazendo de volta a web de informação e notícia para dentro do browser, que talvez seja a única aplicação que realmente precisamos ter numa rede ubíqua e pervasiva.

e voltar a pensar -resolvida a tecnologia, pelo menos por enquanto- em modelos de negócio capazes de sustentar, de novo e daqui pra frente, um jornalismo de qualidade. possivelmente em rede [e social] como nunca foi antes. e que talvez seja uma das únicas saídas daqui pra frente.

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 13 de julho de 2011

a economia das APPs

Tags:, , , , , - srlm às 08:00

semana passada tuitei um dado sobre a rentabilidade das aplicações depositadas no appStore da apple…

image

…e várias pessoas entraram na conversa imediatamente, chamando a atenção para o fato de que downloads pagos e gratuitos estavam no mesmo saco.

tudo bem, a ideia era esta: para "vender" alguma coisa num appStore, quase todo mundo oferece algo grátis e cobra pela versão completa, profissional, sem anúncios, o que for que a diferencie da básica. o modelo de negócios freemium, aliás, começa a se estabelecer como "o" modelo para jogos móveis, que de resto ocupam 75% das posições entre as 100 apps com maior número de downloads em qualquer appStore.

AppStore Top100GrossingGames Freemium vs Premium resized 600

a conta lá do tweet, que vem de informação de techMeme, diz que somando apps pagas e gratuitas, a renda por app é US$0,17, o que dá alguma coisa perto de R$0,27. a apple fica com 30% do total pago; os números acima se referem ao que é pago aos desenvolvedores. o appStore da apple está registrando, hoje, 24 milhões de downloads por dia, sobre um universo potencial de 425.000 aplicações disponíveis.

se tudo fosse igual para todo mundo, cada aplicação teria perto de 60 downloads por dia, correspondendo a uma renda de pouco mais de R$15, ou perto de R$450 reais por mês. se você fizer uma destas tais aplicações "médias", é isso que você pode esperar, durante o tempo de vida da sua aplicação, algo como dois anos.

ocorre que mais de 50% das aplicações não chega a 1.000 downloads durante todo seu ciclo de vida; se vocês estiver nos 50% que consegue pelo menos 1000 downloads, são R$270 em caixa. e isso é um problema para boa parte das aplicações: para os jogos, o custo de desenvolvimento está entre US$10.000 e US$50.000. e esqueça anúncios: leia neste link como um jogo que teve 10 milhões de downloads rendeu apenas US$30.000, para um total de 108 milhões de anúncios servidos… cuja taxa de click-through [métrica de pagamento na maioria dos casos] não passou de 1%.

veja um pequenos estudo sobre a economia dos appStores neste link. claro que isso tudo ainda está em estágio inicial e, para quem está no jogo, trata-se muito mais [pelo menos no momento] de aprender do que lucrar.

à medida que os três [ou quatro] appStores que vão existir no futuro [apple, android, microsoft {e amazon}] amadurecerem e servirem de base para a personalização de quatro ou cinco bilhões de smartphones, os volumes aumentarão, novos modelos de negócio vão aparecer e coisas vão mudar.

apesar dos appStores terem melhorado muito o jogo para o lado dos desenvolvedores e pequenas empresas de software em relação ao que nos ofereciam [argh!] as teles, parece que ainda não chegamos ao ponto em que podemos comemorar.

é preciso bem mais do que uma ideia na cabeça e um jogo [ou qualquer outra coisa] em algum appStore para se declarar vencedor. para gerar renda de verdade e sustentar uma galera trabalhando nisso, então, é um esporte diferente, para o qual é preciso ter imaginação, estratégia, modelo de negócios, criatividade, inovação, execução… tudo o que sempre foi preciso para criar um novo negócio inovador de crescimento empreendedor.

image

PS: passando bem perto do tema deste post, john battelle acaba de publicar um texto [time for a new software economy] que aponta os problemas que temos, hoje, na economia de software. battelle questiona se não está na hora de se repensar as plataformas de suporte às ecologias de aplicações e serviços, na web e móveis. segundo ele, os atuais fundamentos da indústria de software são incapazes de promover uma ecologia saudável e de longo razo. eu concordo e acho que isso tem a ver com a necessidade de uma nova classe de suportes aos mercados de software e isso, por sua vez, tem a ver com uma ideia que estamos desenvolvendo no c.e.s.a.r e na UFPE, as máquinas sociais.

Blogs que citam este Post

terça-feira, 29 de março de 2011

varejo, loja, web, preços… e o comércio social

Tags:, , , , - srlm às 08:00

tente comprar um note ou netbook. por onde você começaria? perguntando pra um carinha numa loja qualquer? acho que não, pelo menos na vasta maioria dos casos, a menos que você conheça [e respeite] um deles.

imagepor outro lado, você pode ter um daqueles sobrinhos que parece descender direto de caras como turing, church, gödel, von neumann, shannon, wiener, bush, kleinrock, , berners-lee e castells, só pra citar uns poucos. se seu apadrinhado é este cara, parabéns, ouça-o e tome nota do que ele [ou ela] acha que vai servir pra você. mas cuidado: se o carinha é um dos "fascinados por tecnologia" e aconselha a compra de "tecnologia", o último-grito-da-moda, ao invés de uma combinação de custo e benefício que atende requisitos de performance, usabilidade e preço [por exemplo]… corra. muito, e rápido. você [nem ninguém] quer comprar "tecnologia"… mas solução.

[peraí: quem são os sobrenomes em laranja do parágrafo anterior? são umas poucas das muitas personalidades por trás das teorias fundamentais da informaticidade... a infraestrutura do espaço informacional em que vivemos. a lista, claro, é só um pequeno exemplo de nomes e há muitos mais...]

bem, depois de decidir umas poucas coisas [é pra navegar? é pra jogar? que tipo de jogo?... tem modelagem geométrica na parada?...] e ver um número de alternativas na web, talvez nos sites dos fabricantes e certamente em avaliações de revistas de informática e blogs especializados… você vai em alguma ferramenta de comparação de preços e vê onde é mais barato.

normal; olha só o que a nielsen descobriu, no mundo inteiro:

…online reviews are playing an increasingly important role in purchasing decisions; 57% of online respondents consider reviews prior to purchase, particularly for cars, software and consumer electronics; and 40% of participants said they would not even buy electronics without consulting online reviews beforehand.

imagequarenta por cento dos potenciais consumidores nem pensariam em comprar alguma coisa sem levar avaliações online em consideração. até porque o produto em pauta, apesar da sofisticação tecnológica de seu design, componentes, peças, fabricação e software embutido… é uma commodity. não no sentido de grãos de soja ou pelotas de minério de ferro, claro. mas… qual é mesmo a diferença entre trinta modelos de laptops que usam placas desenhadas pelo mesmo fabricante e software do mesmo fornecedor? o "look and feel" do teclado? o plástico-com-jeito-de-alumínio da estrutura?…

mas tergiverso. você foi lá no buscapé e descobriu que "seu" laptop está na loja eletrônica "x", por um preço bem, mas bem mais barato do que a concorrência. e as chances são altas, muito altas, de que você vai fazer esta compra online. veja o que diz a imagem abaixo, deste gráfico do mashable, sobre compras online:

image

na letra miúda está escrito que, na américa latina, pelo menos um terço dos compradores prefere comprar em lojas online que também têm uma loja física. somos desconfiados; metade ou mais dos americanos declara comprar em lojas que só existem online. mas tirando a áfrica, somos todos parecidos: mas de 80% de nossas populações dizem já ter feito alguma compra online. no caso da américa latina, acho o número exagerado e acredito que inclua carga de celular pela rede [celular], o que não deixa de ser uma "compra online".

então, a cena é a seguinte: você achou o menor preço numa loja online de uma rede física e, morando a quarteirões poucos do lugar, vai até lá ver se consegue o mesmo preço da internet e, no topo disso, ainda ajuda o ambiente. como o notebook que você queria já está na esquina, não vai ser preciso transportar mais um pra perto da sua casa… era só você fechar o negócio ali perto, pegar a coisa no estoque e ir cuidar da sua vida, jogando cityVille, que fosse.

nada disso: na loja "de verdade", o notebook é R$200 mais caro que na web; na web, a entrega é grátis para todo o brasil. então estamos falando de 200 pilas a mais mesmo. mas o vendedor diz… "senhor, eu gostaria muito de não perder esta venda, mas o fato é que não competimos com nossa própria loja online". detalhe: ele me diz que "competimos com outras lojas online, mas não com nossa própria…", ao que eu pergunto se a função da loja deles, online, é destruir a loja física vendendo produtos quase 20% mais baratos desde que você tope esperar seis dias para receber o bem em casa. o vendedor, que tem mais coisa pra fazer, dá uma rabissaca sem palavras e vai vender um ventilador a algum incauto [ou desconectado?...] que ainda não sabe que na web está mais barato… e com frete grátis.

as lojas online das redes físicas parecem ser, de verdade, empresas diferentes. o consumidor, cada vez mais digital, conectado e móvel, sabe entrar na rede a partir da loja de cimento e tijolos e, se não souber liga pra casa e, como já vi mais de uma vez, pede: "minha filha, veja aí na internet o preço da geladeira X, modelo Y… e veja o preço da entrega também…" e lá se foi o negócio para a loja física e seu vendedor, que vive mais da comissão do que do salário.

vamos combinar que muitas das lojas físicas de quem tem lojas virtuais vivem de assimetria de informação, da aposta que uma certa parcela dos consumidores ainda não está em rede ou não domina os instrumentos que lhe possibilitariam, literalmente, usar informação de qualidade a seu favor. mas isso não vai durar muito, as lojas que se preparem. o comércio eletrônico no brasil já passa o faturamento de todos os shoppings da cidade de são paulo combinados e vem crescendo a taxas acima de 30% por ano.

como se não bastasse, sabe mais o que está para acontecer? uma revolução de comércio social, um mercado cujo substrato são os grafos sociais que vem sendo construídos em ambientes como faceBook, twitter, linkedIn e tantos outros, mudança radical que vai desmantelar até uma boa parte do comércio eletrônico clássico.

se eu fosse o gerente da loja física onde tentei comprar um laptop pelo preço da [sua] loja na web anteontem… eu ia ver a apresentação que fiz ontem, em recife, sobre social commerce, para lançamento da plataforma de comércio social clubox. e iria conversar, e a sério, com a galera da minha própria empresa que decidiu me detonar via web. antes que fosse tarde. demais…

image

Blogs que citam este Post

quarta-feira, 5 de maio de 2010

entrevista: “celular vai conectar todo mundo à web”

Tags:, , , , , - srlm às 00:05

Motorola’s hand-held mobile telephone, clunky by today’s standards, was unveiled in April 1973.saiu há alguns dias, na www.telesintese.com.br, a íntegra de uma entrevista do blog à www.wirelessmundi.inf.br, resultado de uma longa conversa com a leda beck. começamos pelo c.e.s.a.r e terminamos por direitos individuais e privacidade, passando por quase tudo o que é tecnologia, problema, solução e acesso entre os dois pontos. abaixo, o texto na íntegra, exatamente como saiu na telessíntese, reproduzido aqui por gentil licença da própria leda.

pra comparar de onde estamos vindo com para onde estamos indo, os dois celulares que ilustram este texto estão separados por quase quarenta anos: o primeiro telefone portátil, um motorola DynaTAC de 1973, está acima; mal falava, digamos assim, e nem “foi feito pra isso”. vá ler a história do projeto pra entender porque…

aí ao lado há outro motorola, o droid contemporâneo, que representa uma nova forma maneira de informatização pessoal: o que era um celular se torna parte de uma plataforma de informatização pessoal, [ou PIP], onde o “celular” é muito mais, ou quase só, um browser de serviços e aplicações na rede. neste mundo de PIPs, o telefone, aquela coisa antiga, dos tempos de dom pedro II, é só mais uma aplicação sobre a plataforma. pense nisso e no futuro do celular e…  boa leitura

Silvio Meira: "o celular vai conectar todo mundo à web".

Por Leda Beck 

Sem fins lucrativos, autossustentado e baseado na noção de transferência de conhecimento entre a sociedade e a universidade, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR) foi fundado em 1996 para criar produtos, serviços e empresas baseados em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Com o tempo, o Centro acabou por se tornar uma referência no desenvolvimento de software para celulares, atendendo a clientes como Motorola, Samsung, Vivo, Oi e outros.

“Nosso negócio é descobrir perguntas, ao invés de arranjar respostas”, afirma Silvio Meira, 55 anos, o fundador e cientista-chefe da instituição, que comanda os mais de 400 pesquisadores envolvidos nos projetos do CESAR, em centros no Recife, em São Paulo e em Curitiba. O CESAR nasceu no Recife, onde Meira leciona no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Nesta entrevista, dada a revista Wireless Mundi, que também é editada pela Momento Editorial, em versão impressa e online (www.wirelessmundi.inf.br), ele fala da importância de conectar todos os brasileiros à internet e aplaude a iniciativa do Plano Nacional de Banda Larga, lembrando que a conexão de 10% dos brasileiros à internet resulta em aumento imediato de 1% no PIB do país. “Parece que vamos universalizar a banda larga no Brasil antes mesmo de universalizar água e esgoto, o que é esquisito e quase inacreditável”. Na sua avaliação, as tecnologias sem-fio terão um papel fundamental no processo.

Tele.Síntese – Vocês são uma espécie de incubadora. Como é que isso funciona? Vocês trazem para o CESAR os melhores alunos com as melhores idéias e criam uma empresa?

Silvio Meira – Não, o pessoal do CESAR é contratado para resolver problemas. Por exemplo, há algum tempo fizemos um trabalho para uma grande empresa que presta serviços para bancos. Era um projeto associado a processamento de imagens, imagens de documentos, de transações virtuais. Criamos, então, um negócio de processamento de documentos, uma espécie de OCR muito sofisticado, e feito em cima de texto que não foi preparado para ser lido em OCR, usando inteligência artificial muito complexa e assim por diante – isso acabou virando um negócio. O pessoal fazendo isso pode até ser aluno da universidade, mas não é trabalho voluntário, não é participação acadêmica no negócio. Nós trabalhamos para resolver problemas efetivos, em empresas reais, que têm aquele problema em seu caminho crítico.

Tele.Síntese – O CESAR é um centro de referência em software para celular. Por que o foco na telefonia celular e o que mais vocês fazem em termos de aplicação da tecnologia sem-fio?

Meira – No caso de celulares, a gente acabou se envolvendo em vários níveis desse problema, desde projetar um celular até fazer uma parte do hardware, uma parte do software, testar, verificar, validar, certificar celulares antes de colocá-los no mercado e escrever o software que fica nas operadoras. Trabalhamos com a cadeia de valor da mobilidade, que é muito mais ampla. Há o fabricante, os fornecedores, o sujeito que faz um negócio terceirizado, a operadora,  o fabricante que presta serviço para a operadora e assim por diante.

Tele.Síntese – O CESAR tem desenvolvido várias aplicações sociais para celular. Quem contrata esse desenvolvimento? E como o celular, que está nas mãos de milhões de brasileiros de classe C e D, pode ser usado para incluir mais gente na conversa e para melhorar a vida das pessoas?

Meira – Qual é o papel do celular? Se você prestar atenção, na mão de cada pessoa, hoje, tem uma capacidade de computação milhares de vezes maior do que o computador mais potente que existia na década de 60. Este é o primeiro fato. O segundo é: esse computador mais potente da década de 60 – refiro-me ao mundo, não apenas ao Brasil – era isolado. Hoje, o celular mais tosco do mercado consegue mandar SMS, por exemplo, o torpedo, que é uma forma rudimentar de correio eletrônico. Este já é um mecanismo de inclusão digital. E, se você olhar para a periferia, vai ver que o pessoal das camadas mais baixas da sociedade usa SMS intensamente. É exatamente essa camada que consome downloads, ringtones, jogos. São eles que, às vezes, pagam cinco reais à operadora por um jogo que é grátis na web – só que eles não têm acesso a internet – e fazem essas compras por meio de torpedos. Na infraestrutura brasileira de celular, hoje, o que está ocorrendo são os primórdios de um processo de informatização pessoal, que, em última análise, vai levar todo mundo à rede, no mesmo grau de intensidade.

Tele.Síntese – A infraestrutura de terceira geração já é uma estrutura de web.

Meira – Exato. Na realidade, o celular já é um navegador. Todas as pessoas vão ter acesso a telefones que hoje custam R$ 1.500,00 e que, daqui a quatro ou cinco anos, serão parte da conta pré-paga delas, simplesmente porque o custo de fabricação do aparelho vai cair para perto de zero. O problema é que existem margens muito grandes para serem obtidas em celulares de preço mais baixo – você dá o celular de graça e cobra uma fortuna da pessoa para enviar um SMS. No caso do Brasil, para o consumidor, um torpedo custa 15 vezes mais do que na China, cinco vezes mais do que no Paraguai, dez vezes mais do que na Venezuela. Aqui, mantemos a população – principalmente a de mais baixa renda – num regime de escassez de informação. Isto ocorre porque o Brasil cobra os impostos de telecomunicações mais altos do mundo: 40% da conta é imposto.

Tele.Síntese – As operadoras afirmam que cobram caro porque ainda estão amortizando o investimento na implantação das redes de celular. E, claro, colocam boa parte da culpa nos impostos.

Meira – A história da instalação das redes não faz o menor sentido: que eu saiba, ninguém está perdendo dinheiro no Brasil com telecomunicações. Se a infraestrutura de mobilidade e de conectividade da sociedade fosse realmente uma prioridade da política pública, o governo devia fazer o contrário: devia liberar do imposto. Mas, no Brasil, não. Aqui tem uma coisa muito estranha: os estados e a federação resolveram cobrar impostos muito mais altos do que se cobra em qualquer lugar do mundo. Na China, o imposto é 8%; nos Estados Unidos, é menos de 10% – com esse nível de impostos, você efetivamente conecta as pessoas. Mas, ao combinar um espaço de política pública com um espaço regulatório, pode-se seguramente olhar para as contas das operadoras e dizer: “Escuta aqui, você vai gastar US$ 1 bilhão a mais por ano para incluir o pessoal de baixa renda, que eu vou lhe dizer quem é. Eu tenho milhões de famílias indexadas em programas estatais de todos os tipos e esse pessoal não paga imposto”. Ao invés de cortar imposto, o estado cortaria seletivamente. Basta ter coragem política, basta reduzir significativamente o preço do pré-pago – isso transformaria um número suficiente de pré-pagos em pós-pagos, resolvendo também o problema das operadoras, na minha opinião.

Tele.Síntese – Neste contexto, como você vê o Plano Nacional de Banda Larga e qual será o papel da tecnologia sem-fio nesse plano?

Meira – O PNBL é uma promessa interessante, que vai precisar de muito esforço, investimento e perseverança para sair do papel, especialmente num ano eleitoral. Depois, há que continuar com a mesma perseverança na transição para outro governo. Mesmo com todas as dificuldades, sou otimista: parece mesmo que vamos universalizar banda larga antes de universalizar água e esgoto, o que não deixa de ser esquisito e quase inacreditável. Quanto à tecnologia sem-fio, ela estará em todo lugar, em qualquer cenário, simplesmente porque todo mundo vai ter seu celular (na verdade, seu smartphone) como mecanismo preferencial de conectividade, porque é pequeno, porque está comigo o tempo todo, porque estou conectado o tempo todo. Se isso vai ou não implicar mais frequências e mais alternativas tecnológicas para acesso sem-fio, só saberemos com o tempo. Mas de uma coisa podemos ter certeza: dentro desta década haverá 150 milhões de acessos móveis à web no Brasil. E isso diz tudo sobre a importância das tecnologias sem-fio na universalização do acesso à web no país.

Tele.Síntese – As aplicações que o CESAR desenvolve para celulares são proprietárias ou podem rodar em diferentes celulares também? Afinal, a falta de padrão para o hardware do celular é um grande problema, não?

Meira – É, mas isso é a mesma história dos computadores: no começo, cada empresa que fazia hardware tinha o seu sistema operacional proprietário. No celular, vamos chegar a cinco padrões em breve: Microsoft, Android, Symbian, Palm e iPhone. Se você escrever uma aplicação em Java, ela roda transparentemente nos cinco.

Tele.Síntese – E isso para qualquer celular comercializado no Brasil hoje?

Meira – Hoje, não. A bagunça é total.

Tele.Síntese – A curto prazo, em cinco anos, segundo a Anatel, o Brasil estará inteiramente coberto por uma estrutura 3G, que é uma estrutura de internet móvel. E aí?

Meira – Com essa estrutura na mão, as pessoas vão usar a web, porque haverá um padrão de contas que diz o seguinte: você vai navegar com mobilidade total, com uma quantidade de dados infinita. Onde é que eu vou regular você? Eu vou dizer que você vai me pagar tanto e eu vou lhe dar, em princípio, uma certa quantidade de banda, digamos 1 Megabit por segundo. Mas se você chegar a 1 Gigabit ou 1 Gigabyte por mês, eu vou fazer a sua velocidade cair. E, à medida em que você usar cada vez mais dados, eu vou lhe dar cada vez menos banda, para equilibrar quantidade e velocidade. Porque, se for possível ter quantidade infinita de dados com banda fixa, a infraestrutura não será renovada como deveria e a cobertura não chegará a todo lugar. Mas se houver um sistema de cap in, ou seja, um limite de velocidade à medida em que você for consumindo banda, aí eu posso convidar todo mundo a entrar na rede. Numa situação assim, as pessoas começam a se moderar.

Tele.Síntese – Mas isso não vai criar um problema com as operadoras? Os principais clientes são as grandes corporações, que usam muito dado, o tempo todo – elas não vão concordar com um esquema assim.

Meira – Não, mas essa é a conta de inclusão social. Se a grande corporação quiser mais dados, ela paga por isso.

Tele.Síntese – E, se ela pagar, a infraestrutura cresce?

Meira – Claro. Veja, o problema do Brasil é um problema de inapetência regulatória combinada com confusão político-estratégica. Se decidirem fazer política, ter uma estratégia para essa política dar certo e regular esse negócio, as coisas funcionam. Não se pode soltar no mercado um agente privado, quase monopolista, com uma escolha infinita. Esse agente não pode fazer o que quiser, pelo preço que quiser. Esse agente deve ser regulado. Já o agente regulador precisa regular e quem presta o serviço precisa prestar o serviço. Se a operadora chegar à conclusão de que, para prestar um serviço da qualidade de 1 Megabit por segundo, precisa cobrar R$ 100 por mês – vamos fazer as contas para ver se de fato custa R$ 100. Mas, se puder custar 70 reais, ou 60, ou 50, se você puder botar mais gente no mercado, se puder aumentar a concorrência, se puder usar novas tecnologias, como WiMAX…

Tele.Síntese – Que não está regulado…

Meira – Que não está regulado. Mas você pode incentivar e dizer: “Muito bem, vocês não vão baixar o preço, não? Então eu vou regular o WiMAX, vou incentivar o WiMAX no mercado para estabelecer um padrão de concorrência de preço no mercado e não uma discussão de espaço regulatório”. Eu, pelo menos, sou contra ficar discutindo por medida de preço. Não faz parte do meu cardápio. Mas eu acho que faz sentido, sim, discutir do ponto de vista de qualquer infraestrutura – se faz sentido discutir estrada, esgoto, água e luz, também faz sentido discutir internet, que é uma das coisas que roda por cima de telecomunicações. A gente tem de se perguntar o seguinte: “O que o país quer como infraestrutura de telecomunicações?” Nós temos um histórico de uma péssima infraestrutura de telecomunicações estatal. Indubitavelmente, ao privatizar o setor, isso melhorou muito. Agora já passamos da fase de ficar batendo palmas porque o serviço melhorou. Chegamos novamente à fase de dizer: o que ainda precisa melhorar? O que é preciso fazer para realmente incluir o país, geograficamente, socialmente, empresarialmente? Quais infraestruturas essenciais para o futuro precisam ser construídas? Outro dia eu estava no Recife, tentando mandar um e-mail do aeroporto, mas a conexão de banda larga móvel do meu laptop, que teoricamente é de 1 Megabit por segundo, estava funcionando a 30 K. Assim você não consegue nem ler e-mail – 30 K é da época do modem em linha discada!

Tele.Síntese – Mas há lugares a 100 quilômetros da cidade de São Paulo onde tampouco existe conexão em banda larga real.

Meira – Pois é. Esse espaço é que precisa ser tratado. Do ponto de vista de mobilidade. E por que mobilidade, em última análise? Porque você não é um prédio, você não está acorrentada numa casa, nem numa firma. Você anda. Nós somos seres moventes. Acho que a expressão certa é mesmo “ser movente”, que significa que somos ambulantes. Você não quer ter um telefone fixo em casa, quer carregar consigo a sua capacidade de computar, de conectar, de se relacionar, de controlar coisas. Se você pensar no longo prazo, o que eu quero fazer aqui agora é, por exemplo, comandar a porta da minha casa, que deveria poder ser aberta pelo meu celular. Eu clico um conjunto de chaves aqui – eu boto o meu dedo na câmera, o celular lê, certifica, a porta abre e a pessoa fica registrada lá, já sabendo que, na hora que entrar, eu vou ligar todas as câmaras que tem dentro de casa e essa filmagem vai ser remetida ao meu celular ou vai ficar gravada para eu assistir depois.

Tele.Síntese – Vamos sair um pouco do macro e mergulhar no micro: o que você diria para o responsável por informática em uma pequena prefeitura brasileira?

Meira – Diria a mesma coisa que eu disse ao presidente da República recentemente: a cada 10% adicionais de conectividade o PIB cresce 1%. Esse dado é comprovado por levantamentos macro e microeconômicos. Estamos falando de conectividade ampla, significa pessoas realmente conectadas – não estamos falando do sujeito que só pode receber chamadas no seu celular pré-pago. Quantas pessoas estão realmente conectadas no Brasil? Na minha opinião, não há mais de 10 milhões de pessoas com banda larga real, que conseguem assistir a um vídeo, que conseguem assistir a uma aula a distância sem que a conexão caia 34 vezes.

Se você conectar 50% da sua cidade, vai obter literalmente cinco pontos percentuais de aumento no PIB local. Isso é um número imenso! Imagine o trabalho que dá mover um único ponto porcentual do PIB num país como o Brasil, que em 2009 teve crescimento perto de zero. Ou seja, se a gente tivesse resolvido conectar 30 pontos porcentuais da população brasileira, a conseqüência quase imediata seria um aumento de 3% no PIB. Além disso, conectividade – e em escala – é a única forma de você participar do mundo. A maioria das cidades que não têm conectividade tampouco têm serviços de qualidade, nem livrarias, bibliotecas, nem outra montanha de coisas. Essa cidade está isolada do ponto de vista das demandas cognitivas, culturais, artísticas, literárias, de ensino, de ciência, de matemática, de física, de engenharia, de música, do que você quiser…

Para conectar um lugar, para abrir a possibilidade de a população de um lugar remoto entrar no mundo, é só levar a internet de banda larga para lá. Uma das formas mais práticas de fazer isso hoje é usar a tecnologia sem-fio, iluminar a cidade com a malha sem-fio. Se você pensar em larga escala, temos pelo menos 3 mil municípios brasileiros que não têm biblioteca, nem teatro, nem cinema. Vamos botar banda larga nesses lugares e eles serão incluídos geográfica e socialmente – é metade do país. Mas isso é um objetivo de política pública, com o qual a prefeitura deveria estar preocupada. Porque também é verdade que, na maioria dessas cidades, não há empreendedores privados com conhecimento, capital ou insumos essenciais para tomar a iniciativa de conectar a cidade. É, portanto, um espaço nítido e típico de política pública – um problema que, todos nós sabemos, deveria ter sido resolvido pelo Fundo para Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) lá atrás, mas não foi. E não adianta chorar sobre leite derramado. Precisamos agora é por a mão na massa.

Tele.Síntese – Como o CESAR põe a mão nessa massa?

Meira – Por exemplo, fazendo projetos para prefeituras do interior, alguns deles bastante criativos. Como é que a prefeitura pode prover banda larga de graça em troca do pagamento de impostos? Pois prefeituras do interior têm uma capacidade de arrecadação muito baixa. Estamos trabalhando para uma prefeitura que tem um plano muito legal: ela quer prover uma banda larga mínima, mas com cobertura universal na cidade em troca de todo mundo pagar o IPTU. Se houvesse um projeto nacional desse tipo, Brasília deixaria de ser pressionada por prefeitos sem capacidade de arrecadação. Quando se leva a internet para uma cidade, vão junto a competência, o sistema de informação, tudo provido pela rede. Essa prefeitura do interior não vai montar um centro de dados; o máximo que o sujeito vai fazer é cadastrar os CPFs correspondentes aos domicílios com número de arrecadação de IPTU e de outros impostos municipais. Ao conectar a cidade, ao mesmo tempo se informatiza a prefeitura, numa escala muito superior àquilo de que ela precisa hoje. O problema é que a utilidade econômica desse registro, dessa informática pública, ainda é muito baixa. O que a gente precisa é aumentar a utilidade econômica da informática da prefeitura. Não é dos programas federais, que têm um impacto muito grande. Para isso, é preciso botar na cabeça do cidadão que está tocando a prefeitura em qualquer lugar do Brasil que ele deve oferecer – aos seus cidadãos, aos seus alunos, às suas escolas, às suas enfermeiras, seus médicos – a oportunidade de conexão com o mundo, representada pela internet. Para nós, que já estamos dentro, é impossível imaginar a vida sem internet. Acho que é como se imaginar analfabeto. Porque se a pessoa souber ler e escrever, a maior parte das coisas de que ela precisa está na internet.

Tele.Síntese – Eu gostaria que você abordasse agora uma outra questão espinhosa, que se contrapõe a facilidades como abrir a porta da sua casa por celular: a questão da privacidade e dos direitos individuais.

Meira – Essa é uma preocupação real, que compartilha o espaço/tempo com o processo de aprendizado. Ela é a mesma coisa que a escrita: quando se inventou a escrita, de repente as pessoas começaram a abrir cartas dos outros… Esse processo é normal: se há informação e as pessoas querem saber o que está acontecendo, elas irão atrás disso. A coisa mais clara que existe sobre a sociedade da informação e do conhecimento é que a informação e o conhecimento são os elementos mais importantes dela. Logo, isso vale dinheiro, isso é transacionável, isso é espionado, roubado, entregue, destruído, modificado… As transações são sobre este escopo de um ciclo de vida da informação, que vai desde a geração – porque estamos gerando informação – ou captura (meu celular está capturando informação neste momento) até seu processamento, distribuição, reutilização, terminação. Durante todo esse ciclo, nós vamos nos preocupar intensamente com informação, com sua segurança, com sua disponibilidade – tem coisa a que a gente quer dar a maior disponibilidade possível, por exemplo, toda informação pública. O portal da transparência do governo federal é um exemplo disso, assim como é o portal da transparência de muitas instituições privadas. Ao mesmo tempo, tem informação que a gente não quer deixar passar de jeito nenhum: informação sobre segurança nacional, sobre a segurança deste prédio onde estamos. Mas tudo isso é parte natural do processo. As pessoas ficam meio histéricas a respeito, mas a verdade é que já era assim. O que ocorre é que ficou mais rápido e cada vez mais virtual.

Tele.Síntese – Ficou cada vez mais grave, na verdade. Quando os criadores desse problema não dispunham da tecnologia, o efeito negativo era muito menor.

Meira – Mas, filosoficamente, o problema é o mesmo – só a escala mudou. Eu hoje posso usar um telefone ou um roteador de internet e pegar tudo que vem do seu endereço IP, por exemplo. Para fazer graça, o pessoal do CESAR que desenvolve aplicações de segurança costuma usar uma camiseta provocadora, que diz o seguinte: “Eu leio o seu e-mail”. Claro que pode. Isso é fácil de fazer.

Blogs que citam este Post

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

um [possível] futuro para os jornais: o caso do guardian

no passado, os jornais tiveram o papel de dar relevância e sincronicidade às notícias. as coisas que aconteciam, de fato, eram apenas aquelas que se tornavam notícia nos grandes jornais. tais “bons tempos” eram também aqueles que, ao sincronizar um país [ou o estado, região…], um grande jornal era capaz de formar a opinião da massa e derrubar [ou manter] um governo.

image faz algum tempo que não é assim. de mais de uma forma, a sociedade e economia se dessincronizaram. isso porque, na rede, não há mais quase nenhum agente capaz de monopolizar a atenção de uma quase totalidade das pessoas por um longo tempo. as três maiores audiências de internet, no brasil, são uma máquina de busca, uma rede social e um conjunto de aplicações. nenhum dos três tem opinião, ou é formador de opinião; são infraestruturas que usamos para criar nossa presença em rede. sem editor, sem horário, independente de geografia ou de quaisquer grandes temas [impostos pelos outros] do momento. é o fim do “programador” central.

mas os jornais ou, se quisermos, os “noticiosos”, com profissionais ou amadores competentes, possivelmente remunerados, no levantamento, redação e edição, não deixaram de ter um papel na economia. ao fazer seu trabalho de levantar, filtrar, qualificar, editar e sintetizar informação, os jornais criam bancos de dados que contêm, se sua largura e profundidade de análise for boa o suficiente, a história de uma sociedade. quer seja de um interior como taperoá ou de um país como a inglaterra, no último caso possivelmente incluindo uma visão de mundo a partir dali.

image este é o caso do jornal inglês the guardian, fundado em manchester por john edward taylor em 1821. quase bicentenário, o jornal enfrenta, como todos os outros, a internet, a maior mudança de plataforma de gestão de ciclo de vida da informação desde gutenberg. com uma diferença fundamental em relação à maioria: resolveu entender o desafio e arriscar, digamos, tudo o que tem numa perigosa travessia para o futuro.

até porque ficar parado do lado de cá, tentando sobreviver no passado, não é bom pro negócio, como se vê no grande cemitério dos jornais. em 2008 e 2009 [até agora] quase 30.000 pessoas perderam o emprego só em jornais americanos.

este blog vem comentando o “fim” dos jornais de papel há algum tempo; veja, por exemplo, este texto [sobre o fim de um dos fins do papel], este outro [sobre a internet, como fonte de notícias, passando os jornais], este aqui [sobre a evolução dos jornais, na rede] e, por fim… dá pra salvar o bom jornalismo?… sobre exatamente o que o título diz: vão-se os jornais mas fica o jornalismo, pelo menos o que vale a pena salvar?

o guardian faz parte da seleta classe do jornalismo que vale a pena tentar salvar. eles, aliás, também acham isso e estão tentando se salvar. para isso, estão transformando radicalmente o que poderíamos chamar de jornal.

um jornal é, principalmente, sua história. as posições que assumiu e defendeu, sua trilha de informação. e o guardian publicou os últimos dez anos de sua história, mais de um milhão de artigos, na rede. e na íntegra. abertos. pra todo mundo. segundo a direção, a competição pode usar como quiser mas, para [qualquer um] usar de forma sistemática, deve fazer um acordo com o jornal.

um jornal é, também, sua máquina de formatação, impressão e distribuição de informação. lembro ter visto rotativas desfilando por cidades, em carretas, como se fosse o futuro do lugar chegando de alguma parte da alemanha. isso era o mundo físico. na web, estamos falando de laptops, bancos de dados, web servers… estamos falando de plataformas de programação e distribuição de informação.

image

o guardian resolveu se tornar uma tal plataforma: publicou uma API [application programming interface, uma interface de programação, na rede]que torna possível manipular tudo o que existe nos bancos de dados do jornal, agora transformado em plataforma de informação na web. isso significa o que, exatamente? quer dizer que qualquer um que entenda a interface de programação do jornal [mudança: jornal como plataforma de programação] pode manipular tudo o que está no sistema [o guardian], utilizando-o como meio para seus fins, construindo aplicações que, por uma ou outra razão, usem a funcionalidade ou a vasta base de dados do jornal. como estas aqui, da galeria

tal tipo de mudança vai ser cada vez mais comum, em jornais [o NYT está tentando movimento semelhante] e redes sociais [twitter tem uma API que torna possível um monte de operações sobre o que está armazenado no sistema, como um jogo de palpites sobre futebol…], de empresas a bancos, de governo a sites de comércio e muito mais. dá pra fazer um monte de coisas usando [por exemplo] a plataforma da amazon, amazon web services, inclusive escrever o twitter nela, o que é, aliás, o caso.

deixar de ser um “jornal” e passar a ser uma “plataforma programável, na rede, intensiva em conteúdo” dá dinheiro? ninguém sabe. nem o guardian. mas pelo menos eles estão, entre poucos outros jornais, experimentando, até porque o futuro do negócio de jornais, como jornal clássico, daquele que embrulhava peixe depois… é certo. e nada bom. nem peixe se embrulha com jornal, mais…

se você tem alguma curiosidade sobre o que é uma plataforma de programação intensiva em informação “curada”, editada, revisada, na rede, vá dar uma olhada no que os “novos leitores”, ou melhor os “programadores” do guardian estão fazendo, do ponto de vista de visualização de dados, uma das oito categorias de aplicações que qualquer um pode programar no jornal. abaixo, o resultado de uma delas, as emissões de carbono de um número de países desde 1751.

image

o próprio guardian [em um de seus twitter] passou a produzir uma sequência muito interessante de dados e gráficos sobre um monte de coisas, como a inflação da inglaterra desde 1948… clique abaixo e vá ver; lá, a visualização é interativa…

image

…ou efeito usain bolt no recorde mundial dos 100m rasos, mostrada no último ponto do gráfico abaixo, em 2010, baixando o tempo do recorde em quase 1.2%.

image

agora imagine o dever de casa de um grupo de estudantes do fundamental daqui a alguns anos: descobrir as fontes de dados geográficos, de população, de índices financeiros e econômicos variados e produzir um mapa bo brasil, interativo, sobre a inflação e crescimento, incluindo sua distribuição regional e per capita, para todo o país. no fundamental, e não como dissertação de mestrado. e, ao invés de pegar tal gráfico em algum lugar [hoje, ele não existe] descobrir como programá-lo. no fundamental.

o guardian está participando de uma tendência de abertura dos negócios na e para a web, e não só dos negócios de informação como jornais e portais. para estes, vai ser obrigatório abrir suas bases de informação e criar uma API que torne possível disponibilizar, a partir de lá, novas formas de ver, ouvir, filtrar, compor e interagir [e faturar] com informação, a partir de múltiplas interfaces, sistemas, dispositivos e redes.

as outras empresas? estão no mesmo caminho, e muito mais longe. mas delas a gente fala depois. até lá.

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 16 de abril de 2009

qual é o próximo grande sucesso na rede?…

Tags:, , , , - srlm às 01:18

pesquisadores ingleses resolveram montar uma força-tarefa pra tentar prever qual será a próxima killer app [aplicação que mude tudo e atraia milhões, dezenas ou centenas de milhões de pessoas] na web. duvido muito do resultado do esforço. é provável, por outro lado, que eles só descubram qual será o próximo grande sucesso se construirem um…

ninguém previu twitter, youTube, faceBook ou orkut. estes serviços apareceram porque “estava na hora”: a tecnologia os tornava possíveis, a infraestrutura estava no lugar e o público tinha meios e tempo para usá-las. e isso levando em conta que twitter, por exemplo, não tem [ainda] a menor esperança de ter qualquer remuneração de seus milhões de usuários [ou de alguém que pague por eles]. e que google [veja abaixo] perde mais de três milhões de reais com youTube por dia.

enquanto twitter, pelo menos, está por aí, veja o que rolou no meu [twitter.com/srlm] nas últimas 36 horas. um aviso pros leitores que vão descascar o texto lá nos comentários e não conhecem twitter: cada mini-texto [tweet] só pode ter até 140 caracteres e o estilo é completamente informal, além de abreviado, e ninguém gasta "horas" pra jogar 140 caracteres no ar. se bem que tem gente pensando em escrever uma novela seriada, em diálogos de 140 caracteres, lá…

    eBay VENDENDO skype? http://tinyurl.com/d5ovrh, about 3 hours ago

    NO MEU BLOG >> o futuro e a vitória dos “nômades” [apres jacques attali]… http://tinyurl.com/cr4h2n, about 15 hours ago

    INFORMATICIDADE é muito mais do que CLOUD COMPUTING… http://tinyurl.com/chw5pj, about 15 hours ago

    o CPE ["chief philantropic evangelist"] de GOOG sai de cena. será que TODO o $ de filantropia tá indo pra YouTube? http://tinyurl.com/dk4uoq, 12:12 AM Apr 15th

    o FUNDO do POÇO? google PERDE US$1.65M POR DIA com youTube. algo entre $1 e $2 por visitante… uau! http://tinyurl.com/d4wsy7, 12:07 AM Apr 15th

    será que dá pra INVADIR e DETONAR a rede de distribuição de energia? nos EUA, dá. e AQUI?… http://tinyurl.com/d4znl6, 12:05 AM Apr 15th

    Dr Nisar Wani: "This is the first cloned camel in the world". direto de DUBAI. http://www.physorg.com/news…, 12:04AM Apr 15th

    em tempos de CRISE… Are Companies Protecting the Wrong R&D Investments? http://tinyurl.com/ce8c7x, 12:02 AM Apr 15th

    problema enfrentado pelo SPEEDY… >> "está sendo alisado pela Anatel"… http://tinyurl.com/dd6×4h, 11:24 PM Apr 14th

    twitter search: TWAZZUP >> gostei. muito legal mesmo!… http://tinyurl.com/dmwg3f, 12:32 PM Apr 14th

    alagoas digital: audio da palestra [out of sync] dos slides do ultimo tweet neste link… http://tinyurl.com/c7pdsk, 1:52 AM Apr 14th

    alagoas digital: slides de uma palestra sobre inovação [em e COM TICs] aqui: http://tinyurl.com/c56l5k, 1:51 AM Apr 14th

    Emerging Technology Watch: Implantable Telescope for the Eye… [fixing Macular degeneration?] http://tinyurl.com/cffvlb, 7:53 PM Apr 13th

    na internet, tv cultura, comeca o RODAVIVA com demi getschko… assunto: internet. o que mais poderia ser?… [eu nos entrevistadores...] 6:31 PM Apr 13th

    enGENEered viruses assemble into electrodes and make complete rechargeable batteries for the first time [!!!!!] http://tinyurl.com/cbf48n, 11:09 PM Apr 12th

    …most of the really innovative thinking about retail is taking place in Japan [?!?] http://tinyurl.com/ckuogv, 10:42 PM

    Apple has placed an order for 10-inch touchscreens from a Taiwan distributor for delivery in the third quarter… http://tinyurl.com/cyc9ap, 10:40 PM Apr 12th

    Under conditions, demand for a product and the cost of the next supplier’s capacity determine the market price. http://tinyurl.com/dm4qem, 10:39 PM Apr 12th

    VISA BLACK CARD. exclusive. to THREE MILLION PEOPLE?… não quero um… http://tinyurl.com/cnh79y, 10:37 PM Apr 12th

    APPLE is WORKING on a NETBOOK… and steve STEALTH jobs is RIGHT BEHIND it… or so SAYS THE WSJ. http://tinyurl.com/cyc9ap, 10:00 PM Apr 12th

Blogs que citam este Post

domingo, 12 de abril de 2009

dá pra salvar o bom jornalismo?

Tags:, , , , , , - srlm às 16:47

image

o boston globe, um dos maiores jornais dos estados unidos, deve ter um prejuízo de US$85M este ano, depois de perder US$50M ano passado. o globe não é um jornal independente, mas parte do new york times. e o NYT está ameaçando fechar o globe caso os sindicatos não concordem com medidas radicais de corte de custos. e não consiga aumentar receitas: o preço do jornal nas bancas subiu US$1.50, só pra “continuar viável”. mesmo assim, pode fechar no mês que vem. o globe foi comprado pelo NYT em 1993 por US$1.1B; desde então, a circulação só faz cair. a receita demorou mais um pouco a seguir a circulação, mas está em queda continuada desde 1999.

 image

no dono do globe, o NYT, o período de férias foi estendido, cem pessoas foram demitidas semana passada e quem sobrou vai ter uma redução de 5% no salário pelo menos durante o resto deste ano. e tem que apelar pra santo muito forte pro jornal continuar existindo –em papel- ano que vem. a pergunta a se responder, no particular e no geral, está na capa do boston globe deste domingo: o que saiu errado?… a resposta, da própria casa, é que… o globe não viu –e não soube aproveitar- a web. os outros jornais tampouco. e ponto final.

mas a pergunta da hora, feita por brian solis a walt mossberg, talvez fosse… vale a pena salvar os jornais?… sabe-se lá, se obama vai salvar a indústria automobilística americana, talvez…  mas mossberg pensa rápido e diz que esta é a pergunta errada; a pergunta apropriada seria… será que dá pra salvar o bom jornalismo?… segundo mossberg, só há uns poucos jornais de verdade nos EUA; o resto são alguns jornalistas de qualidade e noticiário nacional e internacional reciclado, pra encher linguiça e imprimir as páginas necessárias para os anúncios. isso quando havia anúncios. quando estes se mudam pra web, porque tais páginas deveriam ser impressas?… o mesmo raciocínio vale para o brasil e qualquer outro país. abra seu jornal local ou regional e constate com seus próprios olhos.

desde janeiro de 2008, mais de 120 jornais americanos fecharam as portas e mais de 21.000 jornalistas e pessoal auxiliar foram demitidos destes e de outros 67 que continuam no negócio. só em 2009, mais de 8.000 pessoas já perderam o emprego. e a tendência não dá sinais de ser revertida; muito ao contrário. a internet já é a fonte primária de notícias nos EUA e vai ser, no brasil, assim que houver banda larga [de verdade] por aqui.

image

mas brian solis acha que um novo desenvolvimento pode salvar o “bom” jornalismo: a statusphere, ou statusfera, a rede de reputação capaz de fazer com que agentes individuais, em rede, tenham tanta reputação, reconhecimento e importância –e remuneração- como tinham os grandes jornalistas dos antigos jornais. será? e como e quando?

segundo solisThe Statusphere is the new ecosystem for sharing, discovering, and publishing updates and micro-sized content that reverberates throughout social networks and syndicated profiles, resulting in a formidable network effect of activity. It is the digital curation of relevant content that binds us contextually to the statusphere, where we can connect directly to existing contacts, reach new people, and also forge new acquaintances through the friends of friends effect (FoFs) in the process.

em português? a statusfera é o novo ecosistema para compartilhar, descobrir e publicar atualizações e microconteúdo, reverberando sobre redes sociais e perfis compartilhados, tendo como resultado um espetacular efeito rede de conexões e atividade. a statusfera fará o papel de curadoria digital [e em rede] de conteúdo e conexões relevantes, onde poderemos nos conectar, em contexto e diretamente, a contatos existentes… e onde iremos descobrir e construir novas relações através do efeito FoFs [friends of friends, ou AdAs, amigos de amigos].

parece uma tese interessante. talvez a gente –e quem toca os jornais, no brasil, ainda- devesse ler com muito cuidado e ver como –e se- dá pra fazer aqui, e por quanto e quando, no nosso contexto. a mesma leitura atenciosa, e não por acaso, vale para quem toca serviços online como o TERRA, terraMagazine e tantos outros…

Blogs que citam este Post

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

o destino [quase certo] dos jornais “de papel”

Tags:, , , - srlm às 00:03

o fim do papel vem sendo anunciado há décadas. e não parece estar nem um pouco perto de acontecer. já o fim do que a gente costumava chamar de "jornal", aquela empresa que coletava notícias e opiniões, vendia anúncios, editava tudo junto, imprimia o conjunto em papel "jornal" e distribuía pelo mundo, mesmo que fosse o mundo perto, como arcoverde, pesqueira, pedra e buíque… este fim parece estar cada dia mais perto.

o papel, desde que não seja como "meio de transmissão" de informação, vai muito bem, obrigado. talvez nunca tenha estado melhor. mas os jornais estão em seríssimas dificuldades em muitos de seus principais mercados. nos estados unidos, jornais centenários como o christian science monitor desistiram de sua edição diária e estão de mudança para a web. outros, menores [mas localmente importantes] como o albuquerque tribune [86 anos de publicação] simplesmente desapareceram.

a história do tribune é típica. a circulação do jornal caiu de 42 mil por dia em 1988 para menos de 10 mil em 2008, tornando a operação inviável. os leitores foram para a internet, os anunciantes também e o modelo de negócios do "diário impresso" deixou de fazer sentido. 38 jornalistas e editores perderam seus empregos. o tamanho da bronca, nos eua, este ano, é grande: pelo menos 13.500 jornalistas, editores, administradores e outros cargos desapareceram na indústria de jornais. clique na imagem abaixo para ver um mapa interativo mostrando empresas e lugares que estão desempregando jornalistas como nunca se viu nos estados unidos.

 eua-cemiterio-de-jornais.png

no brasil, a circulação dos jornais cresceu mais de 11% em 2007, situação que parece com a dos países emergentes, mas é muito diferente dos eua, onde grandes jornais, como new york e los angeles times perderam 5% da circulação no mesmo período. os estados unidos [e os países mais ricos] estão se transformando em verdadeiros cemitérios dos jornais "de papel".

bote mais gente na rede, por aqui, mais banda, preços mais razoáveis [anatel! precisamos de competição em banda larga!], monitores de melhor qualidade, impressoras de maior resolução… e vamos ter o mesmo efeito dos estados unidos. e no espaço de uma década, aqui. o modelo "papel como mecanismo de transporte de informação" está teoricamente falido. agora é só esperar que seja efetivamente subsituído por jornais online, blogs, redes sociais, twitters e por aí vai

em 28 de abril de 2000 publiquei um texto inaugural na minha coluna na revista eletrônica NO., começo de dois anos de conversa sobre a internet e o mundo cá fora. o texto tinha por título o fim de um dos fins do papel e tratava exatamente do que estamos falando aqui. o texto ainda tá novinho em folha. clique no continue lendo, abaixo, e continue lendo…

(Continue lendo…)

Blogs que citam este Post

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

finanças: na internet, quem está seguro?

Tags:, , , , - srlm às 11:40

ontem, relatamos aqui que o inspetor geral americano está dizendo que a segurança de informação da receita federal de lá não é tão boa como deveria ser para proteger os dados dos contribuintes. hoje, é a vez de notar que, na frança, uma galera conseguiu entrar na conta bancária de ninguém menos do que o presidente nicolas sarkozy e tirou do seu banco "pequenas quantidades de dinheiro" várias vezes. segundo os investigadores, não é coisa de amadores. e o crime na internet cresceu 9% na frança, este ano, contra uma queda de mais de 2.3% no crime em geral, mas em linha com um aumento de 8.9% nas infrações econômicas e financeiras. se os números da estatística francesa estiverem corretos, a internet é "só mais um lugar" para se cometer um crime.

no brasil, o ritmo de crescimento do crime na internet é assustador: em 2006, foram julgadas 7.000 ações criminais. até setembro de 2007, já tinham sido julgadas 15.000. este crescimento é um argumento poderoso do pessoal que defende a criminalização de certas condutas na internet, como proposto pelo senador azeredo em projeto que põe, no mesmo saco, ladrões de contas bancárias na rede e gente que compartilha música. e o caso da conta do sarkozy vai acabar entrando na argumentação, também.

teclado-maos-luva.jpgminha opinião? não é preciso nenhuma nova lei pra enquadrar ladrões de banco da internet. o que é difícil é pegar ladrões de banco na rede. se eu fosse roubar dinheiro de alguém, na web, não iria fazê-lo da minha casa, no meu laptop, na minha conexão de internet e com meu endereço IP, tudo facilmente identificável pela operadora e, conseqüentemente, pela polícia, certo? não que seja possível, ainda, identificar minha máquina, mas por via das dúvidas, ela não seria a "arma" do crime. ladrões "de verdade" usam carros e armas roubadas. ladrões virtuais, dos competentes, usam máquinas roubadas, pirateiam conexões sem fio desprotegidas [e muitas delas] e navegam através de anonimizadores [como TOR], o que torna um pouco [ou muito] mais difícil achá-los. alias, se o cara for mesmo competente, é quase impossível achá-lo.

e o que a lei azeredo tenta fazer? em boa parte, neste caso, tirar a responsabilidade dos bancos nas invasões de seus sistemas de informação, jogando parte do problema para os provedores e usuários [e correntistas]. normal, considerando que as perdas das instituições financeiras podem estar na casa das muitas dezenas de milhões por ano… daí que, segundo muita gente boa, os bancos aproveitaram a guerra à pedofilia na rede [que era o objetivo inicial de projetos tramitando no congresso] e movimentaram sua bancada para injetar, na legislação, os controles que queriam ver na rede. resultado? o projeto de lei do senador azeredo, relatado pelo senador mercadante, foi aprovado em marcha batida no senado e está esperando a câmara começar a trabalhar para passar por lá tão rapidamente quanto. 

este blog discutiu a lei azeredo, antes, em outro texto. a conclusão de lá pode muito bem ser repetida aqui: …nosso desafio, ao combater o crime na rede, será o de fazê-lo sem transformar a internet em um estado policial, onde quase tudo é proibido ou suspeito. se isso acontecer, perderemos a rede. o que que ninguém, em sã consciência e vivendo pelo menos no presente, quer. o que significa que o debate sobre crime on-line, sua prevenção, nossos direitos e responsabilidades, vai ser fundamental nos próximos anos da web. e do brasil.

Blogs que citam este Post

Posts mais antigos »

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol