Terra Magazine

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

wikiLeaks? openLeaks…

Tags:, , , - srlm às 01:34

a esta altura do campeonato, não deve haver um só transeunte que seja, na rede, que não tenha ouvido falar de wikiLeaks [veja os primeiros dois textos do blog sobre o assunto neste e neste links]. pode até achar que é algum medicamento para incontinência urinária, mas não ignora o nome. a vasta maioria sabe que é um ambiente para aumento de simetria de informação, ou, mais basicamente, para liberação de informação que estava contida em seus repositórios originais e, possivelvente, devidos e legais, para o domínio público.

image

um monte de gente também sabe que julian assange, um dos carinhas por trás do grupo que publica wikiLeaks, é preso inafiançável das masmorras de sua majestade elizabeth II da inglaterra… por causa de uma camisinha que supostamente vazou na… suécia. estranho, muito estranho.

você também deve ter visto que a reação “do sistema” a wikiLeaks e jukian assange detonou uma guerrilha cibernética onde anônimos, no mundo inteiro, estão atacando as propriedades virtuais de companhias que ficaram “contra” wikiLeaks e tirando seus serviços do ar, quando podem, como foi o caso de mastercard [abaixo] e visa.

image

como era de se esperar, outros grupos, mais locais, decidiram tocar suas próprias operações de “leaks”, ou de vazamento organizado de informação do poder estabelecido para o domínio público, em muitos caos como forma de aumentar a transparência das ações de governo no futuro, como era a esperança original do próprio pessoal do wikiLeaks. isso é o que está para rolar na república tcheca, com o patrocínio de nada menos do que o partido pirata do país, que é oficialmente registrado na política de lá. você pode ler mais sobre o pirateLeaks que os tchecos vão ter, a partir de segunda, neste link.

image

o que talvez pouca gente esperasse é que o wikiLeaks cindisse tão no começo de sua trajetória: o grupo está se dividindo em wikiLeaks [ou a turma do assange ou, talvez, ele sozinho] e openLeaks, o resto da galera, o povo que acha que a coisa ficou muito personalizada, dominada por uns poucos e passou a fazer parte de um “star system” onde um [e apenas um] do coletivo que pensou, suporta e opera a coisa toda passou a ser a parte “caras” do movimento.

este é o furo do dagens nyheter sueco sob o título ”Nytt Wikileaks” gör revolt mot Assange [um “novo wikiLeaks” se revolta contra assange], que pode ser lido em inglês do próprio DN.se neste link. segundo as fontes do DN.se, o openLeaks será governado democraticamente por todos os seus membros e não por um grupo ou indivíduo, será um intermediário neutro, sem qualquer outra agenda política a não ser a disseminação de informação e com o objetivo de longo prazo de construir uma plataforma transparente e segura para vazamento de informação, ao mesmo tempo em que encorajará outros grupos a fazer o mesmo.

openLeaks será lançado nesta segunda e quer dividir o tipo de pressão que wikiLeaks sofre hoje com muitos outros grupos, passando a servir apenas como plataforma de preservação de anonimidade e distribuição, enquanto provê, para qualquer um que queira revelar o que sabe [ou obteve] sobre qualquer operação questionável planeta afora, infraestrutura aberta de classe mundial.

parece que a galera aprendeu rápido. e, se for isso mesmo, também parece que assange não vai ter muita solidariedade dos seus agora ex-colegas do wikiLeaks, talvez descontentes demais com sua estratégia, o risco inerente a ela e o status de estrela que o até então desconhecido australiano passou a ter.

no meio deste rolo todo, talvez seja interessante reler um texto que publiquei aqui no blog em janeiro de 2009, sobre transparência e privacidade na rede, nesta década. lá, sobre privacidade, eu dizia que…

um dos argumentos mais falaciosos, usado por muita gente, segue a linha do… "não tenho nada a esconder", para acusar quem defende a privacidade, na rede, de estar fazendo alguma coisa imoral ou ilegal. não tem nada a esconder? então porque não deixa o vizinho tirar fotos suas tomando banho ou na cama, com a mulher, numa daquelas noites quentes, e publicar na internet? imagine o milhar de outras situações que não queremos ver disseminadas, na rede ou em qualquer outro meio. de repente, temos tudo a esconder. simples assim.

todo mundo tem muito a esconder. a privacidade é um dos princípios essenciais da vida e um dos direitos humanos fundamentais. daniel solove, da george washington university law school, escreveu um paper precioso sobre o assunto ['I've Got Nothing to Hide' and Other Misunderstandings of Privacy], onde o argumento "nada a esconder" é desmontado passo a passo. o artigo está em primeiro lugar na lista de downloads da SSRN [rede de pesquisa em ciências sociais] há um ano. vale a pena ler. para quem quiser ir mais fundo, o mesmo autor liberou na rede todo o texto de seu livro The Future of Reputation: gossip, rumor and privacy on the internet. o capítulo dois [How the Free Flow of Information Liberates and Constrains Us] é uma excelente leitura em nosso contexto.

ao mesmo tempo… há de se considerar que, do ponto de vista de transparência [do mesmo texto de 2009]…

é certo que a rede vem aumentando a transparência de pessoas, instituições e, principalmente, governos em países democráticos. transparência é a base para a boa governança; sem saber o que realmente está acontecendo nos intestinos de uma organização, como garantir que ela está cumprindo sua missão dentro dos preceitos morais, éticos e legais de uma sociedade?

a falta de transparência é um dos principais insumos para a corrupção, e corrupção não se dá apenas nos meios governamentais. as empresas que têm baixos níveis de transparência e governança costumam sofrer do problema com intensidade muito grande. no seu índice de pagadores de propina de 2008, a organização transparência internacional analisou 22 países quanto à participação de suas empresas privadas em atos de corrupção no comércio internacional. os piores da lista não são nenhuma surpresa: em 17o. lugar, estão brasil e itália, empatados; depois, aparecem índia, méxico, china e rússia. os 22 países da pesquisa correspondem a 3/4 do total de exportações e investimentos do planeta em 2009.

e minha conclusão de janeiro de 2009, que continuo assinando hoje, com wikiLeaks, openLeaks ou sejaLáQueLeakFor, é…

enfim, se um tipo de agente, na sociedade, não parece ter direito ao anonimato e privacidade na internet, é aquele que decide, executa e controla bens públicos, e isso enquanto servidor público. sua vida privada é -e deve continuar sendo- privada, desde que não se misture à sua responsabilidade pública. como nosso representante no governo, pago pelos nossos impostos, queremos saber de tudo o que faz, com quem faz, pra que faz… e a internet, para estes fins, pode ser um agente libertador, se soubermos usá-la para tal.

e daí?… se há informação que governos e empresas querem manter privada, que cuidem para que tal seja o caso. gestão competente do ciclo de vida de informação inclui não só sua geração, coleta e preservação mas –e entre muitas outras coisas- a segurança dos dados e dos sistemas envolvidos.

vazou, tá vazado. prender bradley manning, um soldado de 23 anos, por ter posto a mão em centenas de milhares de textos secretos da diplomacia e máquina de guerra americana… é brincadeira perto de tentar escamotear a falha de segurança de informação que permitiu que ele fizesse o que fez.

o que está fundamentalmente em cheque, no momento, não é assange, manning e wikiLeaks, mas os processos de gestão de ciclo de vida de informação [supostamente sigilosa] dos governos e empresas. afinal, qual seria a dificuldade de um obter dados para um brazilGate?… ou informações que causassem um preSalGate?…

para manter a informação reservada, governos e empresas, principalmente aqueles e aquelas de grande porte e alcance global, que sempre afetam os desejos e visões de muita gente que pode se organizar ao seu redor, devem ter muito mais cuidado com tudo o que reside e trafega em suas redes.

isso porque estamos vivendo em tempos de muito maior transparência de informação, habilitada por mecanismos de socialização digital que passaram a existir apenas na última meia década. o significa que toda esta conversa apenas começou… e que os xLeaks provavelmente vieram para ficar.

image

Blogs que citam este Post

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

o império contra ataca

nada como revelar uns poucos [face ao total, claro] segredos do poder  e dos poderosos para que a resposta, feroz e precisa, venha atrás de quem, sabendo ou não das consequências, abriu o bico ou a caixa de pandora.

o blog disse [no último post] e repetiu [analisando o "cableGate" na CBN] que as sociedades e a diplomacia mundial, além da política local e da vida pessoal, estão baseados em –porque construídos sobre- assimetria de informação. isso quer dizer que nunca, em tempo algum, ninguém sabe [ou deveria saber] tudo sobre qualquer outro alguém que lhe interessa, sob pena da ruína relacional imediata. o que sempre leva a processos dolorosos, quando não impossíveis, de reconstrução das ligações perdidas ou interrompidas.

por isso que o cableGate causado pelo wikiLeaks tem impactos tão espalhados e profundos. claro que se sabe que os donos da arábia saudita gostariam muito de fazer sumir o irã atual; mas um diplomata americano dizendo que eles realmente dizem isso?… não tem preço. claro que se sabe que, mesmo aqui, pedaços inteiros do governo não se bicam; mas ler um telegrama do ex-embaixador americano clifford sobel dizendo isso com todas as letras tem outro peso. e um outro conjunto de medidas.

Wikileaks cables breakdown

os exemplos são tantos que nem vale a pena citar. e são tão demolidores que a secretária de estado hillary clinton disse que a coisa toda é um golpe nas relações internacionais. se é, e o povo do wikiLeaks deveria saber e sabe que é, sim, desde que o material lhe veio às mãos, ninguém demoraria muito para ligar os pontos e descobrir que o atacado, se tão poderoso, se voltaria contra o atacante.

julian "wikiLeaks" assange está sendo procurado pela interpol, face a uma ordem de prisão emitida na suécia, que quer investigá-lo por estupro e tem gente bem situada no poder internacional [e não só nos EUA] que defende que ele deveria ser, simplesmente, executado. isso é parte [natural, nas circunstâncias] da guerra fria contra wikiLeaks. quer esteja envolvido ou não no incidente do qual é acusado, assange deve ter visto pelo menos uma [dúzia!] de filmes onde tal cenário [o poder, acuado, reage com força desmesurada contra o indivíduo, indefeso] onde se dá tal tipo de situação.

e isso é o de menos, porque o verdadeiro contra-ataque do império foi, na prática, forçar a amazon.AWS, a banda da amazon que provê serviços de informaticidade [veja nossa definição aqui], a não mais servir de plataforma de suporte ao wikiLeaks. aí é onde a coisa pega. veja só:

Sen. Joe Lieberman (I-CT), the chairman of the Senate Homeland Security Committee… said in a statement that Amazon’s "decision to cut off Wikileaks now is the right decision and should set the standard for other companies Wikileaks is using to distribute its illegally seized material."

Committee staff had seen news reports yesterday that Wikileaks was being hosted on Amazon’s servers… Staffers then… called Amazon to ask about it, and left questions with a press secretary including, "Are there plans to take the site down?"

Amazon called them back this morning to say they had kicked Wikileaks off… Amazon said the site had violated unspecified terms of use.

então: um senador americano, não por acaso o presidente do comitê de segurança nacional, perguntou à amazon se "havia planos pra detonar wikiLeaks", que havia saído de seu provedor, na suécia, por causa de ataques ao site. a amazon "cumpriu a ordem" [que deve ter vindo também de muitas outras fontes e causado um imenso debate interno...], anunciando que o site violava seus "termos de uso", que tentam evitar [a promoção de] atividades ilegais. que se saiba, wikiLeaks não está sendo processado por nada e muito menos foi condenado por qualquer coisa.

image

em debate está muito mais do que a simples suspensão do serviço de suporte a wikiLeaks. no passado, quando os jornais de papel faziam a cabeça do povo, governos de todos os tipos atacaram suas plataformas de redação, impressão e distribuição, restringindo o papel de impressão, invadindo redações, prendendo, espancando e matando jornalistas. basta passear pela história do última hora, de samuel wainer, pra entender parte do contexto.

o problema que nós precisamos tratar daqui pra frente é mais ou menos descrito assim:

se a liberdade de informar e o direito de ser informado são essenciais para a democracia e se tal liberdade e direito dependem, cada vez mais, de informaticidade [ou do provimento de sistemas e informação em rede], como garantir que as infraestruturas, serviços e aplicações que sustentam as fontes de informação de todos as vertentes de política e poder possam ser usadas, livres de pressão e censura, por todos e qualquer um, garantidos os preceitos da legislação vigente?…

forçar a saída de wikiLeaks da amazon não foi uma ação muito esperta, mesmo que não possa ser debitada diretamente ao governo americano. haverá outras formas de armazenar e distribuir o cableGate e, em última análise, a coisa toda pode parar no torrent, até porque a advocacia das grandes empresas, provável próximo alvo do wikiLeaks, não vai descansar enquanto o site estiver no ar.

aliás, se isso acontecer, estaremos vendo a reedição, na era das redes, dos samiztadt que mantiveram viva o que havia de oposição à ditadura soviética. vai ver que é aí mesmo onde vamos parar…

 

Blogs que citam este Post

terça-feira, 30 de novembro de 2010

wikiLeaks ataca de novo

depois da máquina de guerra americana, wikiLeaks agora publica pilhas de documentos da diplomacia de tio sam, expondo comentários pouco respeitosos sobre deus, todo mundo e mais batman e robin, que parecem ser, segundo parte do departamento de estado lá do norte, alguma fantasia dos companheiros putin e medvedev. os comentários da máquina diplomática mais cara do mundo são muito semelhantes, por sinal, àqueles que fazemos quando certas pessoas não estão por perto ou ouvindo.

isso pode ser muito bom e –ou- muito ruim. é bom porque traz para o escrutínio universal as ações do país ainda mais poderoso do planeta. tal força, exatamente por sua intensidade e alcance, se intromete e parece ter a ver com a vida de todo mundo. se tem a ver com tanta gente, é bom saber o que eles estão pensando ou tentando fazer. mesmo assim, é preciso olhar, ver e contextualizar a informação vazada, senão muito pouco dela vai fazer sentido. inclusive partes que dizem respeito ao brasil.

mas… talvez seja muito ruim porque não há muita chance, no curto e médio prazos, de testemunharmos vazamentos de informação do mesmo porte e sobre ações e conversações de ditaduras como a arábia saudita, china e irã… e tais países têm muito a ver conosco, mesmo que não saibamos tão obviamente porque. e aí, com vazamentos quase que unilaterais, tendemos a condenar um dos lados e, talvez, achar que todo mundo do outro [ou dos outros] lado[s] é do bem e interessado na paz e no avanço da humanidade, seja lá o que isso for. não sei vocês, mas não contem comigo para membro do partido da ingenuidade universal… tô fora.

sempre é bom lembrar que os EUA são uma democracia, com todas as instituições funcionando e é isso, exatamente, que torna possível e mais provável –e aprovável, por muitos- os "leaks", vazamentos de informação como os que estamos presenciando agora.

as consequências globais de tais "leaks", venham de que lado vierem, sejam sobre o que forem, podem ser muito graves e potencialmente danosas para todos, porque nossa noção de humanidade, convivência e civilização está baseada numa certa assimetria de informação de um lado qualquer sobre qualquer outro lado.

pense: o que seria de você se todo mundo [todo mundo, mesmo, marido, mulher, sogra, namorada{o} e mãe, inclusive] tivesse noção de seus mais íntimos e menos publicáveis pensamentos, mesmo que extemporâneos, sobre o que o resto do mundo pensa, é, faz e diz? inclusive sobre eles, suas relações mais próximas?…

claro que vivemos em tempos de muito maior conectividade e transparência e isso leva a uma assimetria de informação muito menor do que, digamos, nos tempos de césar, o júlio. mas há quem diga, e com muito boas razões[veja este texto aqui no blog sobre transparência e privacidade], que a sociedade da informação tem que ter, também, uma certa assimetria e um paulatino esquecimento dos eventos e acontecimentos, sobre pena de nos desumanizarmos e nos tornarmos, cada vez mais, "sistemas".

wikiLeaks, sob vários aspectos, é um "sistema" que representa a contemporaneidade da rede em toda sua complexidade, vantagens e desvantagens. por isso mesmo é que, mais do que a discussão sobre os documentos que vaza, wikiLeaks deveria ser, do ponto de vista do processo que representa, assunto para muitas e profundas discussões, especialmente sobre as consequências de médio e longo prazo para o cenário político mundial.

até porque é cômodo ver os outros se afundando nos vazamentos de suas lamas e sarjetas informacionais. mas… e se fosse aqui? afinal de contas, wikiLeaks diz que poderia "abalar as eleições brasileiras"; será que isso tem a ver com a insegurança intrínseca de nosso processo eleitoral ou com alguma eleição em particular, como os poucos milhares de votos que decidiram a eleição do maranhão este ano?…

todos temos crenças: acabo de presenciar um expert em segurança de informação dizer, diante de uma platéia de centenas de pessoas, que ninguém disputou o resultado das eleições do maranhão "tal a confiança que todos nós temos no sistema". todo mundo tem o direito de dizer o que bem quer mas este blog está fora do "todos": temos escrito sobre segurança e transparência das eleições eletrônicas brasileiras há anos, mas o tema está por trás de uma capa de "teflon", tal como certos gestores públicos, e nada parece pegar.

talvez o imbecil coletivo que evita uma verdadeira discussão sobre as fraquezas do processo eleitoral brasileiro só possa ser desafiado por um vazamento de informação da classe wikiLeaks à qual este blog –e muitos outros- nunca teve acesso.

se isso acontecesse, o que faríamos? enterraríamos a cabeça no chão qual avestruzes e esperaríamos a tempestade de informação passar… negando todas as suas origens e efeitos… ou, corajosamente, discutiríamos os quês, porquês e comos de sua existência?…

mais dia, menos dia, mais bit, menos bit, à medida que o brasil se tornea mais interessante e nosso impacto mais global, haverá wikiLeaks sobre nossa terra. é só esperar. não estamos imunes –para sempre- a vazamentos de informação da classe wikiLeaks. e algo me diz, e a todos brasileiros que têm uma idéia rudimentar do que acontece nas entranhas do poder, que há muito mais que um "wikiLeak" esperando para acontecer no país. e agora.

uma das infelizes razões pelas quais um wikiLeak nacional não acontece –no sentido de ter o impacto que um wikiLeak americano tem- é que ainda não há gente suficiente, no brasil, educada e preocupada o suficiente para que o custo/benefício de um wikiLeak brasileiro faça sentido. mas isso é só uma questão de tempo. isso é alguma coisa que educação, em quantidade e qualidade, vai resolver aqui, também.

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol